só pra avisar, esse já é o antepenúltimo capítulo
- Você devia ter pedido o número dela.
Era quase fim de tarde de domingo, o clima outonal deixava o dia mais aprazível e proporcionava um límpido céu azul. Estávamos sentadas em um dos bancos do parque na vizinhança, conversando enquanto Sam brincava junto com as outras crianças no playground e Ben cochilava sereno no carrinho de bebê com a chupeta na boca.
- Eu pensei nisso na hora... - Dei mais uma mordida no Twizzler que eu estava comendo e vi Sam pronta para descer no escorregador. - Mas ela disse que tinha algo pendente para resolver antes de sairmos. - Sorri quando Sam acenou para mim e retribuí o gesto.
- Hmm.
- Eu não quero que ela se sinta pressionada de nenhuma forma, sabe? Quero tentar fazer tudo correto dessa vez.
- Okay, mas... - Olhou-me com a testa franzida. - O que exatamente você fez de errado na primeira vez, Sel?
- Eu fui egoísta. - Admiti. - Deus, eu a pedi em namoro no nosso primeiro encontro, tipo... - Suspirei compungida.
- Espera, eu pensava que isso fosse uma coisa normal para vocês.
Girei os olhos para o tom caçoador soltando um riso pelo nariz.
- Cala a boca. - Comi mais um pedaço da tirinha vermelha. - Eu quero dizer que... eu estava tão apaixonada e envolvida que ignorei o fato de que... Demi não estava realmente preparada.
- E agora? Você acha que ela está?
Respirei o ar fresco, reflexiva.
- Eu sinto que sim. E embora as coisas tenham ficado tipo... implícitas... eu posso sentir em meu coração que... queremos o mesmo.
- E a outra lá? Como fica?
Entortei a boca retraindo os ombros.
- Eu sinceramente não tenho a mínima ideia, mas Tay acha que Demi terminou com ela.
- Ohhh... então deve ser isso a coisa pendente, né? Ela quer estar livre e leve para poder voltar pra você! - Pressupôs sorridente me dando cutucadas no braço.
- Eu não sei. - Refreei o sorriso. - Não perguntei. Não sei bem o que pensar.
- Fala sério, Sel. É óbvio! Vocês vão reatar e isso é inevitável.
- Tay disse a mesma coisa ontem. - Falei me lembrando da longa conversa com Taylor que se recuperava da ressaca na noite de sábado.
- Viu? Todo mundo sabe disso! - Empurrou meu ombro com o dela.
Abaixei o olhar para o doce em minha mão com um sorriso esperançoso repuxando meus lábios.
- Eu só... preciso ouvir isso dela, sabe? - Olhei para Hay que assentiu.
- O que pretende fazer?
- Por ora vou esperá-la. Ela sabe onde me encontrar.
- Mamãe! - Berrou Sam correndo até nós. - Eu quero um picolé! - Falou esbofada ao parar em nossa frente.
- Sam, você acabou de sarar da tosse. Aqui... - Apanhou o pacote de Twizzlers em minha posse e ofereceu a Sam.
- Hey! - Puxei o pacote de volta expressando uma carranca.
- Eu não quero isso. - Sam emburrou. - Quero picolé! - Bateu o pé, e com os olhinhos pedintes, ela me olhou. - Tia...
- Você sabe que um picolé não vai fazer mal. - Tentei convencer Hay que mostrava severidade.
- E você precisa parar de dar tudo que ela te pede! - Retorquiu, mas logo cedeu a vontade de Sam que comemorou alegre. - Quero nem ver quando tiver seus próprios filhos.
Uma risada grossa saiu de minha garganta enquanto eu pegava dinheiro em minha carteira.
- Vamos, Sammy... - Estendi a mão para minha afilhada ao me pôr de pé. - Também quero picolé.
Caminhei com Sam saltitando de alegria até o carrinho de sorvete. Chegando lá, aguardamos um minuto na fila curta, discutindo sobre qual sabor era o melhor. Depois de comprar os picolés, jogamos as embalagens na lixeira mais próxima do parque e Sam disparou em direção ao playground com seu picolé de melancia.
- Cuidado! - Adverti temendo que caísse.
E nesse exato momento, meu celular tocou dentro do bolso do meu macacão jeans. Desacelerei meus passos pegando o aparelho e ao ver o nome na tela, cogitei em rejeitar a chamada devido ao último ocorrido entre nós. Mas pensando ser uma boa ocasião para reparar qualquer tipo de mal entendido, optei por aceitar.
- Oi, Cara. - Atendi, mordendo um pedaço da casca de chocolate do picolé.
- Oi, gatona. Como está?
- Uh, bem. E você?
- Estou ótima. E não se preocupe, eu não te liguei para falar sobre o beijo. - Riu. - Eu liguei porque... estou precisando de uma ajudinha sua...
- Minha? - Interroguei intrigada.
- Eu sei, eu sei. Mal nos conhecemos. Mas depois daquela noite na minha casa eu achei que você seria perfeita para..
- Cara... - A interrompi de imediato. - Sobre aquela noite, eu estava chateada com uma coisa e bêbada e não devia ter te beijado.
- Okay. - Falou em tom brando. - Eu partilho do seu sentimento sobre isso para ser honesta.
- Sério? - Pisquei um pouco surpresa.
- Sim... mas eu realmente não liguei para falar disso.
- Certo, uh... como posso te ajudar? - Perguntei comendo mais do sorvete.
- Então, meus pais estão na cidade e eu praticamente fui obrigada a convidá-los para um jantar, mas tem um probleminha... eu venho mentindo para eles há quase... um ano sobre estar namorando sério e agora adivinha? Eles fazem questão de conhecer a minha namorada inexistente...
- Espera um segundo... - Ri confusa. - Em primeiro lugar, por que você mentiu sobre uma coisa dessas?
- Oh, querida. Você me entenderia se os conhecesse, acredite. Meus pais são do tipo que não descansam até verem todos os filhos casados e eu sou a caçula e única solteira da família. Imagina? Eu não aguentava mais as comparações e escutar "Quando você vai desencalhar?" - Alterou o tom soando debochada. - É cansativo pra caralho!
- Isso deve ser um saco mesmo.
- Acredite em mim, é sim. Mentir foi o único jeito que encontrei para eles me deixarem em paz e eu não estou nem um pouco a fim de dizer a verdade agora. Mas enfim... será que você pode me ajudar e ser a minha namorada amanhã à noite? - O sorriso era perceptível em sua voz.
Parei de andar pronta para recusar, mas Cara continuou.
- Não teremos que fazer absolutamente nada de mais, apenas fingir que somos íntimas.
- Não sei, Cara. Isso parece loucura. Não tem mais ninguém que possa te ajudar?
- Nope... todo mundo acha que eu sou maluca.
- Estou começando a achar isso também. - Eu ri, ponderando por um instante. - Escuta... eu não sei se consigo convencer bem os seus pais, mas... acho que posso tentar.
- Mesmo?!
- É... por que não?
- Você é demais, sabia? Obrigada!
Eu me arrependeria disso mais tarde? Com certeza. Porém não queria deixá-la na mão, mesmo achando tudo aquilo uma maluquice sem tamanho.
Quando retornei para o banco após encerrar o telefonema com Cara, encontrei Hay distraída no celular, trocando mensagens com algum cara em um aplicativo de relacionamento. Sentei ao seu lado, apoiando a perna direita sobre o joelho esquerdo e apenas saboreei meu picolé em silêncio.
- Esse cara pensa que ele é engraçado. - Comentou com um riso nasalado.
- Ele deve ser mesmo, você não para de rir. - Zombei.
- Cala a boca. - Riu. - Ele é fofo, apesar de ser um palhaço.
- Imagino que seja. - Falei com certo desdenho. - Um palhaço, eu digo. Aliás, a maioria desses caras aí não prestam.
Hay suspirou e me encarou sem expressão legível.
- O quê? - Questionei. - É verdade. Não é como se você não soubesse disso.
- Sel...
- Eu não confio em homens.
- Oh, agora você quer falar sobre confiança? - Interpelou. - Okay. Sabe em quem eu não confiava nem um pouco e mesmo assim você a namorou?
Não evitei rolar os olhos.
- Okay...
- Isso mesmo!
- É diferente. - Persisti.
- É? - Franziu as sobrancelhas. - Eu não acho.
Suspirei vendo Sam brincando com uma menina de sua idade.
- Eu só me preocupo, okay? - Falei calmamente. - Você me conhece. E você acabou de se divorciar, não quero que se magoe por causa de homem babaca de novo.
- Eu sei... - Exibiu um sorriso comedido. - Mas eu só estou me divertindo, Sel. Não é como se eu estivesse apaixonada por esse cara, nós nem saímos ainda.
- Ele é ajeitado pelo menos? - Perguntei tentando ser condescendente e ela riu, mexendo no celular antes de passa-lo para mim.
- Ele se chama Nick...
Juntei as sobrancelhas ao reconhecer o rosto do homem que esboçava um sorriso de lábios fechados na foto.
- Ele é médico... - Continuava Hay. - E assim como eu, acabou de sair de um relacionamento de longa data. Nós.. - Calou-se quando comecei a rir.
- O que é agora? - Perguntou zangada.
- É o Nick! - Continuei rindo recebendo um olhar confuso. - Amigo de Demi. - Clarifiquei.
- O quê?! - Pegou de volta o celular e encarou a imagem com uma feição atônita e surpresa. - Sério?
- Ele está um pouco diferente, mas eu tenho certeza que é ele.
- Que... coincidência.
- Pois é.
- Bem... - Suspirou. - Acho que agora é uma ótima hora para te contar que eu aceitei sair com ele amanhã à noite.
- Okay.
- Isso é tudo que vai dizer agora? - Perguntou indignada enquanto eu abocanhava o último pedaço do picolé. - Não vai nem me contar sobre ele?
- Eu não o conhecia tão bem assim, nós só nos falávamos às vezes quando eu estava com a Demi. Mas ele parecia um cara legal.
- Então... - Abriu gradativamente um sorriso. - Ele está aprovado?
Ri lambendo meu dedo melado de sorvete.
- Não vejo por que não...
Pelo menos uma vez na vida nós já demos uma boa notícia a alguém e recebemos uma ruim. Isso aconteceu comigo mais tarde naquela noite durante um harmonioso jantar com Brian, Maria, Hay e as crianças. Eu finalmente tinha tomado uma decisão. Por que continuar morando em NY se todas as pessoas que eu amava e queria perto de mim estavam bem ali? Eu já havia passado tempo demais longe de todos eles. Era hora de voltar para ficar.
No entanto, a merda da má notícia; minha casa tinha sido vendida.
(...)
Por volta das sete da noite de segunda-feira, recebi uma mensagem de texto de Cara, contando que seu carro estava em manutenção e pedindo que a pegasse em seu local de trabalho, para que então pudéssemos ir direto ao restaurante onde aconteceria o jantar com seus pais. Naturalmente, a possibilidade de esbarrar com Demi lá me passou pela cabeça, mas isso seria muita sorte. O lugar era imenso e eu nem sabia se ela estava de plantão aquela noite. Além disso, eu tinha decidido que esperaria por ela e era isso que eu faria, mesmo morrendo de vontade de vê-la novamente.
Desci até a cozinha vestindo um casaco preto estilo sobretudo por cima de uma blusa escura e uma calça skinny. Maria tinha cozinhado lasanha e o aroma apetitoso no ar quase me fez desistir de jantar fora. Passei por Baylor que estava deitado no chão comendo sua ração, o ressoar de meus saltos no assoalho denunciaram minha aproximação e fez a mulher de meia idade assistindo televisão na sala ao lado, deslocar a atenção para mim.
- Brian já chegou? - Perguntei pegando um copo.
- Ainda não... - Me observou pegar água na geladeira. - Aonde vai toda arrumadinha?
- Jantar com... uma amiga.
Bebi um gole da água me aproximando da sala sob o olhar curioso de Maria.
- Por um acaso essa amiga se chama Demi? - Ela inquiriu e eu sorri ao afastar o copo da boca, desviando os olhos do programa de fofoca para a mulher no sofá.
- Eu te contaria se fosse.
- Oh é mesmo? - Ergueu as sobrancelhas. - Então me conta o que ela estava fazendo aqui aquela manhã.
- Eu te disse... - Coloquei o copo no porta-copos sobre a mesinha da sala. - Eu extrapolei na bebida e ela se ofereceu para me trazer para casa. - Falei sentando ao seu lado.
- E aproveitou para passar a noite... - Me analisou sorridente e eu encolhi os ombros sorrindo fraco. - Entendi, mocinha.
Apoiei a cabeça no ombro de Maria quando ela me abraçou de lado de forma aconchegante e encarei a TV por um tempo sem prestar atenção.
- Eu ainda sou apaixonada por ela. - Afirmei para a mulher que ajudou a me criar.
- Eu sei, querida. Soube assim que vi como você ainda a olha. - Sua voz era afável e um leve sorriso curvou meus lábios. - Quer um conselho?
- Mhm. - Ergui o rosto.
- Vai fundo! - Encorajou e eu ri, sentindo meu celular vibrar no bolso da calça.
Era outra mensagem de Cara...
Vou te enviar minha localização
Digitei rapidamente uma resposta...
Não precisa eu sei onde fica
Levantei do sofá.
- Já vai? - Maria perguntou e eu assenti suspirando.
- Obrigada pelo conselho. - A beijei na cabeça. - Diga a Brian que eu peguei a caminhonete emprestada. - Avisei já saindo.
- Tenha cuidado!
- Sempre!
Saí de casa ansiosa, com um frio alojado na barriga e uma pontinha de esperança que não me deu sossego durante todo o caminho nostálgico e me fez parar em uma loja de conveniência atrás de um alívio. Contudo, ao invés de sair de lá com uma carteira de cigarros, saí com uma de chicletes de menta. Progresso, dizem eles.
Logo que cheguei ao hospital, informei Cara e considerei aguardá-la no estacionamento, entretanto eu estava inquieta demais e quando dei por mim, já me encontrava zanzando por uma das salas de espera do grande edifício, mascando um Trident.
Enterrei as mãos nos bolsos do sobretudo, andando em passos indecisos pelo local relativamente movimentado enquanto percorria o olhar pelo ambiente gélido. Tinha algo de diferente lá dentro, mas eu não sabia apontar o que era. Talvez o cinza azulado das paredes, ou o verde das plantas perto das cadeiras ocupadas por pessoas com feições cansadas.
Funcionários passavam de um lado para o outro, e no balcão da recepção, uma das atendentes falava ao telefone enquanto outra conversava educadamente com um alarmado homem grisalho, provavelmente querendo notícias de algum ente querido. Na parede lateral de um dos elevadores, um mural exibia vários panfletos sobre a saúde humana. Brincando com o chiclete em minha boca, eu parei defronte as propagandas...
Doe sangue.
Seja um doador de órgãos.
Diga não ao cigarro.
Suspirei e vi o elevador abrir, algumas pessoas saíram e junto delas estava uma figura conhecida. A reação de surpresa do homem carregando uma bolsa marrom imediatamente indicou que ele também tinha me reconhecido. Ofereci um sorriso simpático quando Nick se aproximou de mim.
- Selena... - Disse ele sorrindo de leve. - Quanto tempo!
- Olá, Nick.
- Uau... - Ele parecia verdadeiramente surpreendido. - Demi não exagerou.
- Como é? - Franzi o cenho curiosamente com o comentário.
- Uh, nada não... - Riu baixo. - Quer que eu a chame? - Mostrou o celular em sua mão. - Ela acabou de sair de uma cirurgia.
- Oh, não precisa. Não quero atrapalhá-la.
- Bom, então... - Checou o relógio em seu pulso. - Eu adoraria conversar mais com você, mas estou com pressa...
- Atrasado para o seu encontro? - Ri internamente, encarando com naturalidade seu semblante confuso e assustado.
- Você é algum tipo de vidente agora ou o quê? - Questionou de um modo brincalhão ainda perdido em confusão.
- Bem que eu queria. - Ri. - O que acontece é que... você vem conversando com minha amiga Hay...
Perplexo, Nick soltou um riso curto e surpreso.
- Ela é sua amiga?!
Assenti para os olhos arregalados.
- Nossa que... mundo pequeno.
- Verdade... - O analisei cruzando os braços em frente ao peito. - Então... quais são suas intenções com ela?
- C-Como assim? - Gaguejou juntando as sobrancelhas finas e eu continuei o encarando na espera de uma resposta. - Eu gosto de conversar com ela e... estou ansioso para conhecê-la.
- Hmm.
- Pode confiar em mim, Selena. Ela também é claro.
Exalei o ar lentamente sentindo confiança em suas palavras.
- Tudo bem. - Falei amigável. - A propósito, ela também gosta de conversar com você. - Revelei.
Nick abriu um breve sorriso.
- Sério?
- Sim, mas não diga que eu te contei isso.
- Pode deixar. - Riu alegre antes de olhar por cima do meu ombro. - Olha lá. - Apontou com a cabeça e quando olhei para a direção indicada, meu coração deu uma acelerada brusca. - Ela vai gostar de te ver aqui.
Não pude impedir o sorriso que preencheu meu rosto ao vislumbrar Demi sendo abraçada por uma mulher mais velha evidentemente agradecida.
Me despedi de Nick e recoloquei as mãos nos bolsos ao virar o corpo de frente para onde Demi estava. Nossos olhares se encontraram e no mesmo instante trocamos um sorriso preenchido por uma amorosidade mútua. Assisti ela se direcionar para um jovem médico que a acompanhava e pronunciar algumas palavras a ele que concordou com a cabeça antes de sair conduzindo a mulher.
E com o canto dos lábios sutilmente curvado em um sorriso refreado, Demi revelou os cabelos bonitos ao retirar a touca cirúrgica vermelha que os protegia, os escovando com os dedos enquanto rumava até mim. Puxei o ar, hipnotizada, meu coração arrebatado batendo como um tambor no peito. Era inexplicável o jeito como a minha vida sempre fazia mais sentido quando eu a via, quando via os castanhos doces de seus olhos fascinantes que sempre me trazia paz.
- Oi. - Demi disse em timbre meigo ao parar a um passo de mim.
- Oi. - Respondi toda encantada. - Eu... - Dei uma olhadela para o lado e me aproximei dela. - Senti saudade. - Declarei somente para ela escutar.
Demi soltou o sorriso olhando brevemente para baixo.
- Eu também... - Falou no mesmo tom. - É por isso que está aqui?
Estagnei.
Eu tinha esquecido totalmente do outro motivo de eu estar ali.
- De qualquer maneira... - Demi prosseguiu. - É ótimo que tenha vindo. Eu ia passar na sua casa essa noite depois que eu saísse daqui...
- Ia? - Minha voz quase não saiu.
- Sim, eu... pensei que podíamos sair para jantar e conversar. Você já jantou?
Praguejei mentalmente e apertei os lábios.
- Não, não jantei...
- Ótimo. - Sorriu adoravelmente animada. - Nós podemos ir naquele restaurante que você gostava, ou... não sei, se quiser algo mais... íntimo, podemos ir para o meu apartamento e pedir comida como nos velhos tempos. - Encolheu os ombros.
- Eu adoraria isso... - Dei uma leve suspirada. - E se eu soubesse que você queria sair hoje, eu não teria..
- Selena! - O chamado veio de Cara, que falava ao telefone a poucos passos de distância. - Vamos! - Bracejou andando rumo à saída.
- Oh. - Murmurou Demi.
- Cara me..
- Selena, eu não quero saber. - Cortou-me com um repentino semblante endurecido. - Isso não é da minha conta.
Pisquei em confusão.
- Do que está falando? Você nem me deixou explicar.
- Você obviamente vai sair com a Cara. - Ela estava desapontada. - É por isso que está aqui, certo?
A dedução da mulher me fez soltar um riso abafado e incrédulo. Vi seus olhos se abaixarem e a examinei com cautela chegando um pouco mais perto.
- Olha para mim, Dem... - Alcancei sua mão, segurando de maneira sutil e discreta as pontas dos dedos. - Não é o que está pensando. - Expliquei diante o olhar desalegre. - Eu só aceitei ajudá-la com uma maluquice que ela quer fazer.
- Maluquice? - Quebrou o contato físico ao cruzar os braços.
Suspirei ao notá-la ainda incomodada.
- Você sabia que os pais dela acreditam que ela tem uma namorada?
Demi vincou a testa.
- Não.
- Bem, ela quer que eu... finja ser a namorada dela. - Enfatizei desenhando aspas no ar.
Um riso seco saiu da garganta de Demi enquanto ela meneava a cabeça em desaprovação.
- Eu sei que às vezes Cara não bate muito bem, mas isso é esquisito e estúpido.
- Eu concordo.
- Então por que vai fazer isso?
- Para ajudá-la? - Encolhi os ombros e Demi suspirou longamente mirando a saída. - Escuta... eu vou lá falar com ela e dizer que mudei de ideia.
- Não... - Demi disse, me impedindo ao segurar meus dedos como eu havia feito com ela. - Nós... podemos sair outro dia.
- Mas...
- Está tudo bem, Sel. - Asseverou, todavia claramente chateada. - Apenas... vá.
Senti sua mão deixar a minha e ela começar a se afastar.
- Demi...
- Eu tenho que liberar alta de um paciente, então...
- Você vai ao jantar de ensaio da Tay amanhã? - Perguntei antes que se virasse.
Demi respondeu assentindo com a cabeça.
- Nos vemos amanhã. - Dito isso, ela retomou os passos e desapareceu por uma porta vaivém.
Bufei murmurando um palavrão e me locomovi até a porta de saída do hospital onde encontrei Cara conversando com uma mulher. Elas logo se despediram e a loira veio até mim oferecendo um sorriso que eu correspondi forçadamente.
- Vamos. - Chamou com um gesto de cabeça.
Enquanto seguíamos para o estacionamento, ela me entregou uma pequena folha amarela de post-it preenchida de anotações. Enruguei o cenho ao ler a primeira linha.
- Nós nos conhecemos no seu bar lésbico favorito? - Encarei a mulher caminhando comigo. - Tem certeza que quer fazer isso com seus pais?
- Yep. - Cara jogou o braço por cima dos meus ombros. - Vai ser divertido.
(...)
É claro que não foi nada divertido.
Sabia que me arrependeria, mas não esperava que fosse tanto...
Fisicamente, eu estava lá, jantando com Cara e seus pais que a propósito eram mais intimidadores do que eu imaginava e me abarrotaram de perguntas, algumas até incômodas. Mas mentalmente... eu estava mais que distante daquele restaurante chique. Demi ocupou meus pensamentos durante toda a farsa e quando o jantar finalmente chegou ao fim, eu agradeci aos céus e jurei a mim mesma que nunca mais faria isso de novo.
Esperamos o Sr. e a Sra. Delevingne irem embora e em seguida eu ofereci uma carona a Cara. A britânica passou o caminho inteiro completamente calada, e embora não a conhecesse tão bem, pude perceber que isso não era muito de seu feitio, mas não comentei nada. Diminuí o volume da música que tocava na caminhonete após pará-la em frente à casa de Cara e isso pareceu despertá-la do estado absorto que se encontrava.
- Valeu pela ajuda, Selena. - Desprendeu-se do cinto de segurança.
- Não precisa agradecer, só... nunca mais me peça para fazer isso.
Cara riu.
- Você foi ótima. Nunca pensou em fazer teatro?
- Deus, não. Muita pressão em cima de mim. - Falei me recordando de um acontecimento da época do ensino fundamental. - A última vez que me envolvi com teatro foi na escola, nós ensaiamos durante quase um mês e no grande dia eu inventei que estava doente e fiquei em casa assistindo Gilmore Girls.
Cara deu uma gargalhada com meu relato deitando a cabeça no encosto do banco.
- Sério que fez isso? Qual era a peça?
Esforcei-me para lembrar, mas nada além de máscaras me veio à memória.
- Não lembro, mas meu personagem não era importante. - Dei de ombros.
Demos risada e então Cara ficou um momento pensativa olhando para as próprias mãos.
- Posso te fazer uma pergunta esquisita? - Focalizou meu rosto.
- Acho que uma pergunta esquisita nessa noite esquisita tem tudo a ver, então... manda.
Ela riu, mas hesitou com o que queria perguntar.
- Você já... - Respirou fundo. - Já amou alguém?
Minhas sobrancelhas levemente se arquearam com a pergunta imprevisível.
- Sim... - Minha voz era calma.
- E como é? - Os olhos de Cara cintilaram transluzindo todo seu interesse.
Eu ri pelo nariz e franzi o cenho.
- Está mesmo me pedindo para explicar o amor?!
- Não, é que... eu nunca tinha.. - Cortou-se bufando. - Deus, eu sou um desastre. - Seu rosto caiu em suas mãos.
Examinei Cara que parecia travar uma batalha interna e notei o maxilar trincado quando ela ergueu a cabeça prendendo os olhos no para-brisa.
- Você pode falar comigo. - Eu disse amigavelmente conseguindo a sua atenção.
Ela sorriu breve e com hesitação.
- Não sei por onde começar... - Falou conflitada. - Isso é tão novo para mim, nunca me senti assim antes, não quero me sentir assim, não quero ter esses sentimentos pela minha... pela minha amiga. - Desabafou em meio a um suspiro. - Eu estou apaixonada pela minha amiga e ultimamente eu venho... - Engoliu em seco. - Saindo com várias pessoas, tentando...
- Tirá-la da sua cabeça? - Inquiri quando ela pausou. - Confie em mim, isso não funciona.
- Ela nunca vai me enxergar desse jeito, Selena... - Sorriu com certa amargura. - Pra ela eu sou só... a melhor amiga engraçada que tem pavor de relacionamento sério. Ela não sabe que eu... quero mudar.
- Então mostre a ela.
- Não posso... - Negou com a cabeça. - Não agora. Ela precisa de mim nesse momento... - Soltou um suspiro lastimoso, checando o celular que havia vibrado. - Eu não quero lidar com isso agora então... você pode não comentar nada com ninguém?
- Fica tranquila, seu segredo está seguro comigo. - Sorri de modo confortador.
- Obrigada, você é um amor de pessoa. - Sorriu branda. - Bom, valeu pela carona. - Abriu a porta da caminhonete. - E por... me ouvir.
- Não foi nada. E se... precisar de alguém para conversar ou dividir uma garrafa de bebida... você tem meu número. - Falei oferecendo um ombro amigo.
- Valeu. - Bateu a porta. - Tchau, namorada. - Riu acenando com falso charme.
- Tchau, amorzinho. - Assoprei um beijo.
(...)
Larguei a chave da caminhonete sobre o móvel ao passar pela escada, retirando o sobretudo enquanto seguia para a cozinha com Baylor me acompanhando abanando o rabo, feliz por eu ter chegado em casa. Olhei o relógio que indicava mais de onze horas da noite e deixei meu casaco na banqueta.
Abri a geladeira sentindo meu estômago literalmente roncar. O gnocchi que eu havia comido no restaurante não tinha sido suficiente para me sustentar, porém em vez de pegar logo algo para comer, fiquei imota olhando para o interior do refrigerador, pensando em tudo e nada ao mesmo tempo até que o som de mensagem do meu celular me obrigou a me mover. Peguei uma garrafa de Coca-Cola quase vazia e fechei a porta de aço, puxando o celular do bolso...
Jenn: Mal posso esperar para finalmente conhecer a cidade dos anjos!
Estávamos combinando de Jennifer me visitar em LA em breve, após eu oficialmente mudar de volta para a cidade.
Pousei a garrafa na bancada e respondi Jenn com emojis sorridentes, deixando o celular ali para procurar pela lasanha que Maria havia feito mais cedo. Ao achar, tirei um pedaço e requentei no micro-ondas.
E enquanto me empanturrava de lasanha e zapeava desanimadamente os canais da televisão, acabei pegando um de meus filmes favoritos pela metade. Conclusão: passei o restante da noite chorando afundada no sofá assistindo "Imagine Eu e Você" abraçada com uma almofada.
Uma hora depois, durante os créditos do filme, meu celular que estava em cima da mesinha ao lado do prato e garfo com resquícios de lasanha, notificou três novas mensagens, uma atrás da outra. Fungando e sem largar a almofada, inclinei o corpo alcançando o telefone. O número desconhecido fez com que eu vincasse o cenho, porém minha respiração estacou na garganta quando li as mensagens...
Hey
Sou eu
Demi
Acho que reli aquilo umas cinco vezes com o coração palpitando e quase pulei do sofá quando os três pontinhos indicando que ela estava digitando apareceram na tela...
Está acordada?
Segurei um sorriso ao morder o lábio e outra mensagem dela chegou...
Consegui seu número com a Taylor
E mais uma... que fez meu corpo arrepiar dos pés a cabeça...
Quero falar com você e não consigo mais esperar
Deus.
Andei de um lado para o outro esfregando a testa e fitando as mensagens de Demi até que tropiquei em meu sapato largado no chão. Baylor me olhava deitado no outro sofá.
- Não me olhe assim, eu não sei o que responder! - Falei como se ele entendesse cada palavra.
Demi tinha me pegado de surpresa, não que eu estivesse reclamando, de forma alguma, eu só não esperava falar com ela ainda aquela noite, não depois do fiasco no hospital.
Soltando um suspiro ansioso, digitei "Hey, estou aqui" e acrescentei um emoji sorrindo, deletando tudo em seguida e substituindo com um simples...
Oi
Enviei.
A resposta de Demi veio no mesmo minuto...
Como foi o jantar com a namorada e os sogros?
Eu ri baixinho sentindo sua ironia antes de digitar...
Tenebroso
Fiquei pensando em você a noite toda.. senti que ficou incomodada..
Dessa vez, demorou longos cinco minutos para ela responder e eu aproveitei para adicionar seu número aos meus contatos. Sentei na beirada do sofá roendo a unha do polegar ao fitar as reticências...
Só pensei que você tinha ido me ver
Claro que esse havia sido o motivo e eu me odiei por tê-la chateado com isso. Comecei a respondê-la, queria explicar que de fato eu tinha entrado no hospital com esperanças de vê-la, mas parei ao percebê-la digitando novamente...
Posso te ligar? Agora
Me pus de pé e a respondi na mesma hora...
Claro
Inquieta enquanto aguardava a ligação de Demi, levei a louça suja para a cozinha e fiquei sem ação por um instante quando o toque do FaceTime ecoou pelo ambiente. Tomei uma profunda respiração e tentei controlar minha cara de felicidade, mas falhei ao atender a chamada.
- Oi de novo. - Sorri boba ao ver o rosto perfeito de Demi.
Ela segurava um lençol branco perto do queixo e a ausência de roupas mostrava que estava pronta para dormir.
- Oi. - Sua voz soou suavemente sonolenta. - Você tem.. - Gesticulou para o canto de sua boca rindo de leve.
Atender uma chamada de vídeo da mulher que você quer impressionar com a boca suja de molho? Check.
Peguei um papel toalha e limpei a boca.
- Saiu? - Perguntei a Demi que me olhava como se tivesse presenciado a coisa mais fofa do mundo.
- Sim.
- Eu estava comendo lasanha. - Joguei o papel na lixeira.
- Mmm eu quero! - Ela disse em tom manhoso e eu ri. - A última vez que comi foi na páscoa na casa da minha mãe.
- Sério?! Como você vive?! - Tirei um risinho dela. - Como ela está, aliás? Sua família? Maddie deve estar uma moça. - Apoiei-me com os cotovelos na bancada.
- Estão todos bem. E sim, Maddie está mais alta que eu... - Rimos. - Ela está estudando em Stanford.
- Uau, isso é incrível. - Falei impressionada.
- Sim... às vezes eu dirijo até Palo Alto só para passar tempo com ela. O que eu posso dizer? Eu sou uma irmã muito orgulhosa.
- Eu imagino...
- Oh e adivinha? - Falou mais animada. - Eu vou ser tia!
- O quê?! Mentira! - Exclamei contente. - Dallas está grávida?!
- Sim, eles estão esperando um menino, mas ainda não decidiram o nome. Estou tentando convencê-los a escolherem "Demetrius". - Ela falou de um jeito sério e eu dei uma gargalhada. - Que foi? É um belo nome! Você não acha?
- Quer que eu minta?
Demi fez cara de ofendida.
- Rude!
Eu ri e troquei de posição, encostando as costas na bancada e segurando meu cotovelo com a mão livre. Demi e eu nos olhamos por longos instantes disfarçando um sorriso.
- Sel... - Proferiu com doçura.
- Demi...
- Esse clima entre a gente... - A voz vulnerável me arrancando um suspiro. - Isso está me matando.
- A mim também. - Confessei baixinho. - Eu... - Vislumbrei o ombro descoberto, molhando os lábios. - Eu não consigo te olhar sem... sem sentir esse desejo desenfreado de te beijar, de... te sentir de novo...
Demi abaixou os olhos e mordiscou o lábio demonstrando um leve rubor nas bochechas.
- Eu sinto o mesmo, Sel... - Declarou em tom suave fazendo meu coração dar piruetas. - Meus sentimentos por você nunca foram embora. O tempo não conseguiu e nunca conseguirá mudar isso. Você... não sai mais da minha cabeça e eu não consigo mais dormir direito com isso guardado dentro de mim... - Suspirou esboçando um sorriso amoroso. - Todos esses anos se passaram e eu sei que nós podemos ser pessoas diferentes agora, mas... o meu amor e... meu desejo por você permanece o mesmo. E eu adoraria tipo... te conhecer de novo...
Sem palavras, eu assimilava tudo que Demi dizia com o coração insanamente frenético no peito. E mesmo pela tela do telefone, eu a sentia tão diferente, um diferente bom e novo. Ela não parecia ser a mesma pessoa que conheci no passado. A maneira como expressava seus sentimentos e vontades era tão leve, uma leveza que nunca tinha sentido irradiar dela antes, pois o temor no fundo de seu olhar sem muito brilho não permitia.
- Eu queria estar te dizendo tudo isso pessoalmente, mas não dá mais pra esperar... - Sorria de forma auspiciosa. - Então, uh... o que faremos?
Saber que Demi ainda me queria tanto quanto eu a queria me deixou em puro êxtase.
Suspirei ao me recompor, recuperando o ar que ela tinha me tirado com sua declaração.
- Você me diz.
O semblante de Demi se tornou sério e os olhos se deslocaram para baixo por um minuto.
- Eu terminei com Amber.
Arqueei moderadamente as sobrancelhas e troquei de postura mais uma vez, sentando em uma banqueta.
- Você está bem?
Demi aquiesceu.
- Eu deveria ter feito isso há muito tempo, nós sempre fomos melhores como amigas.
- Entendi...
- E eu... estou tentando não perder a amizade dela, mas mantendo distância por enquanto para... você sabe, não deixar as coisas mais difíceis...
- Certo... - Encarei a fruteira pressionando os lábios.
- É você, Sel. É você que eu quero. Sempre foi só você.
As palavras emitindo honestidade me fizeram delinear um sorriso bobo enquanto lágrimas de felicidade brotavam em meus olhos.
- Eu sei que construiu uma vida em NY, e eu não quero mais ficar longe de você, então eu..
- Dem... - Interrompi sua sentença ao entender onde ela estava querendo chegar. - Eu vou mudar de volta para LA semana que vem.
Mal terminei de contar a novidade e Demi se colocou sentada abrindo um sorriso de orelha a orelha.
- É sério?!
Ri admirada de sua evidente alegria e afirmei com a cabeça em resposta.
- Decidi ontem à noite.
- Eu... estou feliz demais ouvindo isso, mas... - Um breve vinco surgiu em sua testa. - E o seu trabalho? Amigos? Não sentirá falta?
- Eu posso fazer meu trabalho em qualquer lugar do mundo. - Expliquei. - E quanto aos meus amigos... eu gosto deles, mas... só o que temos em comum é arte, sabe? Pra dizer a verdade, a única amiga verdadeira que eu tinha lá se mudou para DC já faz um tempo, então...
- Oh...
- Todos com quem me importo estão aqui, mas não nego que sentirei falta da cidade, porém... nada que algumas viagens não resolvam... - Pausei reparando que os olhos de Demi estavam distantes. - Demi? - Chamei amena.
- Hm? - Focou em mim e sorriu fraco. - Estou ouvindo, linda.
Enrubesci esfregando o dedo no mármore da bancada.
- Eu quero estar onde você está, Dem. E é isso.
Ela sorriu marota.
- No momento eu estou na minha cama...
Cerrei os olhos para o tom atraente e sugestivo de Demi que exibia uma expressão sapeca prendendo o lábio inferior entre os dentes.
- Não brinca comigo, mulher... - Adverti sorrindo tentada. - São anos de saudade, você pode se surpreender.
Demi soltou uma risada.
Nossa conversa fluía tão naturalmente, cheia de sorrisos, risadas e flertes que me deixava estupidamente vermelha, tão boa que nem vi as horas passarem. Quando subi para o quarto, ainda falando com Demi, já era mais de três da manhã e a bateria do meu telefone estava quase fraca. Vesti uma roupa mais confortável após plugá-lo ao carregador e usei o banheiro, escovando os dentes com pressa antes de ir para debaixo das cobertas e pegar com anseio o celular.
- Voltou! - Demi celebrou e eu sorri. - Não aguentava mais olhar para o seu teto.
- Eu nem demorei.
- Pra mim foi tipo... seis anos. - Debochou e eu arquejei incrédula. - Cedo demais?
- Palhaça.
Continuamos a conversar; falávamos sobre nossas vidas separadas, nossas realizações e momentos de alegrias que gostaríamos de ter partilhado. E ainda que houvesse uma dose de contristação por termos perdido tudo isso, nós estávamos orgulhosas uma da outra, felizes com a nossa reconexão e pensando em nosso futuro juntas. Sendo assim, decidimos que não focaríamos mais no passado e na dor dilacerante que os eventos infelizes causaram. O agora era tudo que importava para nós.
Não é impressionante como o tempo passa mais rápido que um foguete quando estamos conversando com alguém que amamos? Quando nos damos conta da hora, o sol já está nascendo nos desejando bom dia.
Sorri com sonolência e enlevo ao observar Demi piscar com morosidade e coçar os olhos. Estávamos as duas caindo de sono, mas nos recusávamos a desligar primeiro. Bocejando, olhei na direção da janela e enxerguei o céu clareando com o amanhecer.
- Vá até sua sacada. - Instruí ao me arrastar para fora da cama quentinha, carregando o celular até a janela.
- Por quê?
- Só vá. - Ri de sua moleza.
- Um segundo. - Agora fui eu quem ficou encarando um teto.
Demi reapareceu uns segundos depois usando uma camiseta tie-dye.
E nós contemplamos o céu alaranjado, o nascer do sol daquela manhã mais que especial marcando um novo começo, uma nova chance para estarmos juntas.
(...)
O jantar de ensaio do casamento de Taylor aconteceu mais tarde naquela terça-feira, na casa de campo da família de seu noivo, onde também ocorreria a cerimônia no sábado à tarde. Imenso e magnífico com uma paisagem esplêndida, um lago, gramado de golfe e spa, o local possuía uma decoração francesa que esbanjava elegância e conforto. Realmente, um belo lugar para se casar.
Lá, nós ficamos a par dos detalhes da cerimônia que seria ao ar livre. Eu, que me juntei às damas de honra quase atrasada, seria a última do cortejo, logo atrás de Demi. E falando sobre ela... ainda não tínhamos tido uma boa oportunidade para ficarmos sozinhas, quando tentávamos sair de fininho, alguém nos arrastava para tirar fotos, fora a sogra de Tay que parecia gostar mais de conversar com a minha ex e futura namorada do que com a própria nora. Resolvemos então, esperar até o final do jantar.
- Já provou o tiramisù? - Perguntou Demi, pertinho de minha orelha.
E aquela era a segunda vez que a voz amaciada e sussurrada em meu ouvido me dava um gostoso arrepio. Demi sabia o que estava fazendo comigo e se contentava com a minha reação.
Repousei minha champanhe na mesa, olhando para a sobremesa em seu prato e depois para a mulher que sorria astuta na cadeira ao meu lado.
- Está bom?
- Aqui... - Aproximou de minha boca uma garfada do doce.
- Mmm... - Degustei o doce italiano enquanto ela me olhava com expectativa. - Que delícia.
Havia em torno de vinte pessoas naquela luxuosa mesa extensa, porém eu e Demi nos encontrávamos em um mundinho só nosso.
- Então, Demi... - Camila, que ocupava o lugar à frente, nos atraiu a atenção em meio ao burburinho de vozes e risos. - Me deixa entender isso direito... - Colocou a taça na mesa. - Vocês duas namoraram anos atrás e agora simplesmente voltaram?
Anuímos mais uma para a outra do que para a própria Camila.
- Precisamente... - Demi respondeu, sua mão cariciosa sob a mesa alisando minha perna sobre o tecido vermelho da calça.
Segurei a mão de Demi a apertando levemente enquanto trocávamos um sorriso singelo e significativo, mas logo nosso contato visual foi interrompido pelo irmão de Taylor que, aliás, eu finalmente tinha conhecido pessoalmente junto de seu pai e mãe presentes no jantar. O loiro bem-humorado tintinando o talher em sua taça pediu a atenção das pessoas e propôs um brinde a sua irmã, cunhado e ao amor. Após o breve discurso de Austin, todos nós tintilamos as taças e tomamos de nossas bebidas.
- Vocês sabem por que Cara não veio? - Questionou Camila.
Demi negou com a cabeça e eu fiquei quieta, pois eu era a única que sabia o porquê dela não estar ali.
- Quer dar uma volta? - Demi sussurrou para mim e eu aceitei. - Te espero lá fora. - Dito isso ela se levantou e saiu da sala de jantar.
Aguardei uns trinta segundos e discretamente também me retirei, indo pela mesma direção de Demi. Nosso método não passou despercebido por Taylor que, a me ver saindo, lançou uma piscadela gesticulando um brinde com a taça.
Desemboquei em um rústico corredor aberto e avistei Demi com as costas apoiadas em um dos pilares. Subi os olhos pelas pernas cruzadas protegidas pelo macacão preto tomara que caia e sorri ao vê-la entretida com as próprias unhas. Segurando em meus bolsos, eu andei até lá, meus passos atraindo sua atenção.
- Até que enfim conseguimos escapar. - Brinquei parando perto dela.
- Pois é... - Sorrindo, se desencostou e me estendeu a mão. - Vem, vamos para algum lugar.
Peguei na mão oferecida, vibrando interiormente quando nossos dedos se entrelaçaram.
Uma brisa leve soprava as folhas das árvores e os espetos de jardim dentre as pequenas palmeiras clareavam lindamente a área verde. Demi e eu conversávamos e ríamos enquanto perambulávamos pela grande residência, caminhando em passos morosos por um caminho de pedras intercaladas com a grama.
- Eu moraria aqui tranquilamente... - Comentei enxergando o lago.
- É muito lindo, mas seria muito grande para nós.
Estiquei os lábios em um sorriso jubiloso.
- Nós?
Demi abraçou meu braço e descansou a cabeça em meu ombro.
- Sim.
Ela suspirou e eu acompanhei, sentindo uma sensação de completude, como se agora eu tivesse tudo o que precisava para viver; e eu tinha.
- Como ficou a negociação com os compradores? - Perguntou erguendo o rosto para me olhar.
Soltei um muxoxo, desanimada.
- Não aceitaram.
- Que droga...
- É... - Crispei os lábios. - Mas foi minha culpa, eu devia ter falado com Brian logo... enfim, tanto faz, eu vou arranjar outro lugar para mim.
Demi meneava devagar a cabeça de um jeito pensativo.
- O que está pensando?
Ela sorriu sem mostrar os dentes e voltou a encostar a cabeça em meu ombro.
- Só estou feliz que vai se mudar de volta.
Sorri para o horizonte e depositei um beijo nos cabelos cheirosos.
- Idem.
Caminhamos um pouco mais, curtindo aquele momento único que parecia mais um sonho de tão perfeito.
- Olha! - Demi apontou nossas mãos na direção do lago onde havia um tipo de rede de descanso pendurada entre dois troncos de árvore.
Minha testa franziu quando ela tirou os sapatos me olhando de um modo faceiro.
- O que tá fazendo? - Ri um pouco confusa.
Demi nada dizia, apenas sorria esfuziante. E quando ela correu, sim... ela saiu correndo rumo a rede suspensa na beira do lago com um par de sapato em cada mão.
- Por que tá correndo?! - Questionei alto sorrindo de boca aberta, fascinada com a empolgação genuína da mulher correndo igual uma criança em direção a um balanço.
- Vem logo!
Rindo, fiz o mesmo percurso de Demi, entretanto, andando cuidadosamente pela grama. Ao chegar lá, ela já estava plenamente acomodada, deitada com os joelhos dobrados na rede grande o suficiente para acomodar duas pessoas.
- Lenta. - Zombou.
- Eu não corro.
Ela soltou um risinho.
- Eu estou sempre correndo...
Tirei meus sapatos os largando com os dela na grama, e da maneira mais cuidadosa do mundo, segurei na corda trançada, me juntando a Demi que me assistia entretida enquanto a rede balançava mais ou menos sobre a água.
- Espero que não tenha nenhum sapo aqui... - Verifiquei ao redor antes de deitar.
Demi ria de mim.
- Como você ficou tão fresquinha? O que NY fez com você? - Simulou indignação.
Ri de sua falsa repulsa sentindo a seda de minha camisa branca ao repousar as mãos na barriga.
- Falando sobre NY... - Lambi os lábios antes de prosseguir. - Eu... tive tempo de sobra para rever todos os meus erros e... acho que eu cresci bastante lá, sabe? Como pessoa...
Demi anuía me escutando atentamente.
- Não apenas como pessoa, babe... - Comentou descaradamente, os olhos vívidos se direcionando para o meu decote.
- Eu.. - Um riso curto me escapou da garganta. - Eu estou tentando dizer algo sério aqui, mulher! - Empurrei minha perna na dela.
- Perdão, coisa gostosa. Por favor, continue. - Ela disse cortesmente e depois disso eu não consegui mais manter uma fisionomia séria.
- Boba.
- Mas é verdade. - Um dedo gentil afastou minha franja do olho.
O minuto de risos logo passou e um silêncio reconfortante pairou no ar enquanto nos olhávamos com nossos corpos juntinhos na rede. O único som audível era o da natureza calma que nos rodeava.
- Eu quero me desculpar com você... - Falei brandamente sem parar de fitá-la e vendo um vinco aparecer no meio de sua testa.
- Pelo o quê?
- Por ter pressionado você quando a gente namorava...
- Sel, você nã..
- Eu pressionei, Dem... - A cortei suavemente, seus olhos decaíram e os lábios se apertaram. - Você sabe que sim, eu... comecei pedindo que fosse minha namorada no nosso primeiro encontro, lembra?
Um sorriso fraquinho de lado surgiu em seus lábios.
- Você me pegou de surpresa aquela noite.
- Não só aquela noite... - Ressaltei. - Eu te dei uma aliança, eu... quis que largasse o trabalho que você ama, Liz, amigos, sua vida toda aqui para que eu pudesse realizar um sonho com você ao meu lado... - Pausei suspirando. - Tudo bem que eu era nova e você era o meu primeiro amor e eu não tinha ideia do que estava fazendo, mas... - Rimos fraco. - Eu devia ter respeitado seu tempo. Você ainda estava lidando com a ausência de Miley e eu sabia disso, mas fui egoísta mesmo assim. - Admiti a ela engolindo em seco. - Eu devia ter te esperado... cicatrizar completamente.
Demi enlaçou os dedos nos meus de novo e levou minha mão aos lábios, beijando de maneira longa e amorosa.
- Eu era muito feliz com você apesar das barreiras, Sel... - Falou docemente. - Não precisa se desculpar por isso.
- Eu sinto que preciso.
- Pois então... - Olhou para nossas mãos dadas. - Está desculpada. - E outro beijo foi pressionado no dorso de minha mão. - Sabe, eu... - Molhou os lábios. - Eu venho trabalhando nos meus sentimentos ultimamente...
- Isso é ótimo, Dem.
- É...
- Você parece realmente melhor. - Observei apaixonada as pequenas linhas nos cantos de seus lábios puxados em um sorriso.
- Eu estou. - Soltou um suspiro. - Aquele... medo que me seguia para todos os lados se foi e eu me sinto... liberta, esperançada e agora com meu coração em paz.
- Eu fico tão, tão feliz de ouvir isso. - Sorri com os olhos recheados de lágrimas de enternecimento, as contendo ao respirar profundamente.
- Só queria não ter perdido tanto tempo... - Suavizou a voz, mirando meus lábios e mordendo os dela.
- Eu também, mas... - Direcionei o olhar para os nossos dedos entrelaçados. - Nós estamos juntas agora, e... - Apreciei o céu estrelado. - É impressão minha ou a noite está especialmente mais bonita hoje?
- Linda...
Olhei Demi sem saber se ela havia concordado comigo ou se estava me elogiando, e sem que pudéssemos evitar, ficamos absortas nas íris flamejantes uma da outra. Nossos olhares fervorosos, completos de amor e um anelo ardente, se intervalavam entre nossas bocas e olhos.
- O que está esperando para me beijar? - O tom atenuado invadiu meus ouvidos atiçando as borboletas em minha barriga.
Impulsionei o corpo com delicadeza em busca dos lábios desejosos. Entregue e expectante, Demi me olhava com docilidade enquanto eu apreciava cada pedacinho de seu rosto, cada traço que a fazia a mulher mais linda que já vi em minha vida. Com a mão livre, acarinhei seu maxilar, nossos narizes se encostaram e então, finalmente, demos um fim ao pequeno espaço entre nós com um saudoso, intenso e perfeito encaixe de lábios.
Instantaneamente partilhamos um suspiro e a mão de Demi encontrou meu quadril, me apertando com vontade por cima da calça. Ela sugou meu lábio, um gemido sussurrado vibrou em minha garganta e antes que sua língua se introduzisse em minha boca, eu parti o beijo deleitoso para olhá-la com veemência. Morosamente, os olhos castanhos se abriram extasiados e ela me fitou com afeto e curiosidade.
- Eu estava esperando você tomar essa iniciativa porque... - Falei rouquenha. - Quero que esteja inteiramente preparada para estar comigo de novo. - Meu polegar alisava sua bochecha. - Você está?
Demi sorriu doce e leve.
- Nunca estive tão preparada para algo em toda minha vida, Sel. - A convicção e sinceridade em sua resposta me fez sorrir realizada.
E sem mais delongar, escorreguei a mão para o pescoço desprotegido e emaranhei os dedos nos cabelos curtos. Trocamos um olhar ávido e entreabrimos as bocas para o desejado e voluptuoso encontro de nossas línguas que se serpearam com calmaria e reconhecimento em um movimento lento e envolvente, deslizando uma na outra com calidez em um beijo longo.
Beijar Demi sempre me fazia flutuar e me deixava nas nuvens, mas provar de seu sabor outra vez depois de anos foi mágico.
Pouco a pouco o beijo se tornou mais profundo e tórrido. Nossos lábios dançavam em um ritmo sôfrego enquanto meus dedos massageavam o couro cabeludo de Demi que afagava com precisão a lateral de meu corpo, viajando fervorosamente a mão até minha coxa e me puxando para si. Respirando mais pesadamente e sem cessarmos os beijos famintos, abandonei os cabelos sedosos e consegui montar em seus quadris.
Por conta da movimentação, a rede deu uma balançada mais forte, e por instinto, enrosquei os dedos na corda, desgrudando os lábios dos de Demi com um estalo úmido. Paralisei sobre ela com os olhos retos e atentivos encarando o tronco que prendia a rede. Senti as mãos macias segurarem meu rosto e olhei para a mulher embaixo de mim encontrando os olhos embevecidos.
- Tudo bem? - Questionou com um soar risonho, os polegares exercendo uma carícia suave em minhas orelhas.
- Eu não quero cair na água, okay?
Demi deu uma risadinha rouca e trouxe meu rosto para pertinho do dela.
- Se você cair... - Sussurrou charmosa roçando os lábios convidativos nos meus. - Eu caio com você.
- Que poético. - Sorri debochada, esfregando o nariz no dela em um beijo de esquimó.
- Cala a boca e me beija.
- Com prazer.
Demi mergulhou os dedos em meus cabelos e nós nos perdemos em outro beijo quente, molhado e apaixonado que para nossa infelicidade não durou muito tempo graças ao som bastante irritante de seu celular tocando. Descolei os lábios com vagareza contra a minha vontade e encostei a testa na dela um tanto ofegante.
- Eu odeio o seu celular, sabia? - Murmurei, nossas respirações se misturando ardentemente.
- Vou desligá-lo.
Larguei a rede e dei espaço para Demi pegar o telefone, mas ao invés de desligá-lo como havia dito, ela enrugou o cenho para a tela.
- É a minha chefe. - Falou intrigada. - Ela só me liga quando é realmente importante.
- Atende.
Demi torceu a boca, mas escolheu aceitar a ligação quando sentei na minha posição anterior.
- Alô. - Descansou a mão desocupada em meu joelho, movendo os dedos em um leve afago.
Beijei o ombro desnudo e apoiei o queixo ali.
- Uh, tudo bem, amanhã eu.. - Pausou a voz. - Agora? Mas eu estou há quase.. - Demi exalou com certo desagrado. - Okay. Okay, eu vou.
A ligação foi encerrada e ela emitiu um longo suspiro, me olhando tristonha.
- Aconteceu alguma coisa? - Perguntei a enlaçando em meus braços.
- Não sei direito...
- Tudo bem se você precisa ir.
- Mesmo?
- É claro, amor... - Plantei um, dois, três selinhos em seus lábios até ela sorrir e segurar meu rosto. - Vou ficar com saudade no entanto... - Beijei a palma de sua mão.
- Eu acho que nós podemos ficar aqui por mais uns dez ou quinze minutinhos... - Moveu-se com cuidado, agarrando a rede para se colocar sobre mim com um sorriso travesso brincando nos lábios. - Você sabe que eu consigo fazer muita coisa nesse tempo...
- Sei é? - Puxei o lábio macio com os dentes. - Eu lembro muito vagamente disso... - Menti provocativa passando as mãos nas coxas cobertas.
- Então é melhor eu refrescar a sua memória.
