- Como você soube que Demi era a pessoa da sua vida? - Taylor perguntou assim que cheguei ao seu apartamento no início da tarde de quarta-feira.
Tudo indicava que ela não tinha me chamado ali só para experimentar o vestido de dama de honra visto que era nítido o seu desassossego.
- Posso sentar primeiro? - Respondi com uma sobrancelha levantada.
- Meu Deus Sel, é claro, fica a vontade...
Deixei minhas chaves em uma mesa lateral de ferro e reparei que havia diversas bolinhas de papel amassado sobre o tapete felpudo.
- Belo apê por sinal. - Me acomodei em uma poltrona com estampa de jornal.
Uma grande janela industrial com molduras pretas, situada em uma parede branca de tijolos, fornecia uma perfeita luz natural ao ambiente contemporâneo e o tornava mais acolhedor. Tay lia muito e a estante de livros adaptada na outra parede deixava isso bem claro. Na mesa de centro também de ferro, havia mais livros e uma caderneta aberta com uma caneta sobre a folha em branco.
- Valeu, mas será que você pode responder a minha pergunta agora. - Sentou-se inquieta no sofá.
- Ah, Tay... - Meus olhos vaguearam pela sala de estar arrojada e pararam em Taylor. - Eu não sei como te responder isso, eu apenas... - Retraí os ombros. - Soube. Eu senti, sabe?
Taylor exalou um ar pesado pelo nariz e suas costas caíram contra o encosto do sofá. Averiguei a mulher afligida e abandonei a poltrona para sentar do seu lado.
- O que há com você hoje? - Perguntei atenciosa e os olhos claros me focaram desanimados.
- Não estou conseguindo escrever meus votos.
- Oh... - Olhei para os papéis descartados no chão. - Mas isso deve ser difícil mesmo.
- E se... Matt não for a minha Demi? E se... eu me casar com a pessoa errada?! O que eu vou fazer?!
- Se divorciar? - Falei com ironia e ganhei uma revirada de olhos antes de Taylor esconder o rosto na manta que tinha no sofá e grunhir abafadamente.
- Eu estou pirando, Sel!
Dei um suspiro me sentindo impotente e tentei reconfortá-la, afagando seu joelho sobre o moletom.
- Quer sair e espairecer? Tem esse filme que estreou essa semana..
- Passo.
- Bem, então... - Cocei a cabeça sem saber o que fazer. - Tem algo que eu possa fazer pra você se sentir melhor? Sei lá...
Taylor destapou apenas sua visão e sugestivamente mirou a caderneta.
- Tudo menos isso. - Neguei e ela bufou. - Isso é algo que você tem que tirar de dentro do seu coração, Tay.
- Aí é que tá, minha amiga.
- Calma você vai conseguir. - Tentei alentá-la, repousando o queixo em sua cabeça quando ela se refugiou em meus braços. - Que tal um chá?
- Um chá de camomila com mel seria muito bom agora.
Ri de sua especificação.
- Também acho.
Fomos para a cozinha recém-reformada, e assim como a sala, o recinto expressava modernidade, com paredes de cimento queimado e lâmpadas pendentes.
Taylor conversava comigo da bancada de madeira, apertando uma bolinha anti-stress que ela pegou ali enquanto eu comodamente preparava o chá.
- Brian vai fazer um pequeno churrasco em casa amanhã... - Contei colocando água em uma chaleira. - Ele faz questão de celebrar a minha volta pra casa, acredita? E você está convidada é claro.
- Eu vou com certeza.
Coloquei a água para ferver e peguei o celular no bolso do meu jeans ao senti-lo vibrar, sorrindo abobada ao ver a foto que Demi tinha me enviado fazendo um biquinho triste...
Indo para o aeroporto
Na noite anterior, depois de uma calorosa sessão de beijos em seu carro parado em frente a minha casa, Demi precisou ir encontrar sua chefe, e acabou que ela havia sido requisitada por alguém importante para sua carreira que corria sério risco de morte. Por essa razão, Demi estava a caminho do aeroporto e pegaria o próximo voo para Chicago.
Abri a câmera do celular, tirei uma foto mandando beijo de olhos fechados e enviei a Demi...
Boa viagem amor
Ela respondeu com um emoji de olhos de corações.
- Pare com essa fofura na minha frente!
Soltei um riso e olhei Taylor que sorriu para mim com o queixo descansando em sua mão.
Já está na Taylor? Perguntou Demi.
Sim, digitei.
- Eu estou tão feliz por vocês. - Comentou. - Mas juro que mato as duas se se separarem de novo!
Deslizei o telefone de volta para dentro do bolso enquanto a chaleira assobiava e soltava vapor.
- As coisas estão diferentes agora, Tay... - Desliguei o fogão. - Você não vai precisar matar ninguém.
Terminei de preparar o chá, despejando a água nos saquinhos postos nas xícaras sobre os pires em cima da bancada.
- Então vocês estão namorando mesmo? É oficial?
- Bem... - Pus a chaleira na pia. - Não houve um pedido oficial de namoro ainda, mas... estamos caminhando pra isso! - Falei esbanjando entusiasmo.
- Essa é a Selena que eu gosto de ver! Você tá brilhando de alegria, garota! Estou quase ficando cega aqui olhando pra você!
Gargalhei tombando a cabeça para trás e o diálogo se estendeu por mais um tempinho.
De fato eu estava mesmo muito satisfeita e agradecida com a minha vida no momento, e acho que qualquer pessoa era capaz de notar isso uma vez que o sorriso exultante não saía mais do meu rosto. Conquanto, não imaginava nenhum dos últimos acontecimentos quando entrei naquele avião quase uma semana atrás, e às vezes ainda sentia que tudo não passava de um mero sonho e que eu acordaria a qualquer segundo na minha cama em NY.
- Então eu preferi cores e modelos iguais... - Taylor dizia enquanto rumávamos para o quarto no qual eu provaria o vestido que usaria no casamento. - Espero que goste!
- Oh eu sei que você tem bom gosto. - Falei sorvendo do chá quente.
Entramos no cômodo aconchegado de cores neutras, Taylor repousou a porcelana no móvel de apoio ao pé da cama e se dirigiu para o closet.
- Eu estou definitivamente apaixonada pela sua casa. - Comentei percebendo o jogo de cama condizendo com as cortinas.
- Minha sogra queria que nos mudássemos daqui, acredita?
Meneei a cabeça em reprovação e beberiquei o chá. Taylor saiu do closet e removeu contentemente o vestido da capa protetora, o mostrando para mim.
- E aí? O que acha?
O vestido era marrom e longo com decote em V e possuía uma abertura de lado.
- Uau... - Deixei a xícara junto com a de Taylor e toquei maravilhada no tecido fino. - Amei o tom pastel.
- Eu quase escolhi a cor cinza, mas acho que o marrom combina mais com a decoração da cerimônia, não acha?
- Sim, com certeza. E é lindo.
- Prove logo! - Entregou-me o vestido e eu o depositei na cama para tirar minhas roupas. - Quero ver como vai ficar. - Pegou a xícara a levando aos lábios.
Soltei o cinto da calça e tirei o tênis. Taylor sentou na cama tomando seu chá, porém o tinido da campainha logo a fez levantar para atender a porta. Após largar a calça, a camiseta e o sutiã na cama, eu vesti o vestido e fui até o espelho de corpo inteiro que havia no quarto para ver como tinha ficado em mim. E tinha ficado perfeito.
Desprendi meus cabelos que até então estavam presos em um coque e os ajeitei nos ombros, balançando a saia do vestido e exibindo minha perna ao virar o corpo de lado.
- O vestido ficou lindo em você.
Olhei para a porta no mesmo segundo em que ouvi a voz galante de Demi.
- Hey! - Sorri surpreendida pela mulher encostada no batente com as mãos nos bolsos da jaqueta. - Pensei que estivesse a caminho do aeroporto.
- Eu estava... - Adentrou o aposento com lentidão estampando um sorriso sutil. - Mas pedi ao motorista que desse meia volta porque... - Deu uma olhadinha para o lado chegando mais perto de mim, seu perfume adocicado pairava no ar. - Quer que eu suba o zíper? - Gesticulou e eu virei de costas para ela, o vestido se justando a meu tronco. - Como eu dizia... - Meus cabelos foram afastados para o lado, minha pele arrepiando com o roçar das unhas curtas. - Eu precisava me despedir direito de você.
Meu sorriso se alargou e um frio familiar e gostoso me invadiu a barriga quando ela beijou a curva do meu pescoço mantendo a boca ali.
- Precisava é? - Fiz charme virando de frente.
- Mhmm...
- Ah pelo amor de Deus! Se beijem de uma vez! - Taylor exclamou de repente.
É claro que ela estava à espreita na porta. Eu ri mexendo a cabeça e Demi virou para a loira abelhuda.
- Um pouco de privacidade, por favor?!
- Vocês estão na minha casa. - Tay argumentou.
E eu nem precisei olhar para a cara de Demi para saber que ela tinha estreitado os olhos em repreensão.
- Está bem! - Taylor se retirou girando os olhos.
- Dá pra acreditar nisso? - Demi comentou rindo.
- Ela apenas está feliz por nós. - Meus braços envolveram seu pescoço.
- Eu sei... - Abraçou minha cintura e colou meu corpo ao seu. - Falando sobre nós... eu contei para a minha família e minha mãe quer que eu te leve lá qualquer dia, tudo bem pra você? - Perguntou cautelosa e eu sorri cativada, afirmando com a cabeça antes de nos beijarmos.
Me deleitei com a textura macia e viciante dos lábios exigentes de Demi se movendo unidos aos meus com sensualidade. A língua hábil dava voltas lentas em minha boca do jeitinho que ela sabia que me enlouquecia conforme as mãos firmes se resvalavam pelas minhas costas e me apalpavam a bunda deliciosamente.
- Seu beijo está mais doce que o normal. - Demi sussurrou ao romper o beijo, seu hálito quente se mesclando com o meu.
Sorri sem abrir os olhos, tomada por uma sensação prazerosa.
- É o chá, amor. - Sussurrei risonha estalando um beijo nos lábios rosados.
- Sabe... - Recostou a testa na minha. - Eu sei que alguém está precisando da minha assistência, mas... é uma droga eu ter que viajar para outra cidade justo agora.
Distanciei um pouco o rosto e a olhei mantendo os antebraços sobre seus ombros.
- Mas é só por um dia.
- É... mas ainda assim...
Dei um pequeno sorriso bicando repetidamente seu beicinho.
- Nós temos tempo, meu amor. Vou estar aqui quando você voltar e adoraria te levar para um encontro.
Demi deu um sorriso largo e me apertou em seus braços.
- Vou ficar contando as horas para isso.
(...)
A discografia de Alabama Shakes ressoava pela casa e tornava aquela quinta-feira ensolarada mais leve. Da cozinha onde eu picava as cenouras na tábua de corte, dava para ver Brian cuidando da churrasqueira e Sam e Liz batendo papo na beirada da piscina com os pés imergidos na água.
- Então... - Próxima a mim na bancada, Hay deslizava o dedo pelo touchpad do macbook e Ben se entretia no andador. - Justin vai viajar e quer passar a noite com as crianças, o que significa que terei a casa só pra mim... - Ela dizia enquanto eu picava os legumes. - Quer ir pra lá essa noite e chorar comigo assistindo Queer Eye?
- Você sabe que eu adoraria, mas já combinei de assistir com a Demi quando ela voltar.
- Ah, que ótimo. Mal voltaram e eu já estou sendo trocada.
Eu ri manuseando a faca com destreza.
- Não seja dramática, a gente pode assistir outra coisa.
- Fazer o quê. - Continuou a mexer no computador. - Okay, desse eu acho que você vai gostar... - Virou a tela para mim e eu parei o movimento da faca afiada para examinar a imagem do loft. - É no Distrito das Artes e fica há uns vinte minutos daqui...
- Não gostei do chão. - Voltei a picar a cenoura.
- Você só pode estar brincando. Esse aqui é perfeito! - Persistiu indignada.
- O assoalho é feio. - Aleguei.
Hay riu com escárnio.
- Sel, eu já te mostrei tipo uns dez lofts e todos tinham algo "feio". - Fez aspas com os dedos. - Você quer mesmo se mudar daqui?
- Ótima pergunta! - Exclamou Maria aparecendo na cozinha seguida por Baylor com algumas sacolas de supermercado.
Descansei a faca na tábua.
- Não é questão de querer, gente... - Falei enquanto ela guardava as compras. - Eu simplesmente não posso mais morar com vocês, quero dizer... eu tenho quase trinta anos.
- Ai, menina! - Maria me olhou horrorizada. - Não fale assim que eu me sinto uma velha!
- Ela é uma exagerada. - Hay revirou os olhos.
Tudo bem, confesso que nessa parte eu exagerei um pouquinho, pois fazia apenas dois meses que eu tinha completado vinte e sete.
- Bota exagerada nisso. - Maria concordou me estendendo as cebolinhas.
- Eu só preciso de um cantinho pra mim, okay?
- Pra ficar pelada com a sua namorada, nós sabemos.
Acertei um resto de cenoura na mulher zombeteira com as minhas bochechas queimando e nesse meio tempo a campainha tocou.
- Deve ser a Tay. - Saí da cozinha de prontidão e escutei as duas rirem.
Atendi a porta de casa esperando encontrar Taylor que minutos atrás havia avisado que já estava vindo, entretanto acabei me deparando com uma moça segurando um buquê de tulipas vermelhas e uma caixa que imediatamente notei que eram chocolates.
- Selena? - Questionou a aparente entregadora.
- Sim... - Respondi com o cenho franzido.
A mulher então pediu que eu confirmasse a entrega com a minha assinatura e seguidamente passou as flores e os chocolates para mim.
- Obrigado e tenha um belo dia.
- Você também...
Fechei a porta e encarei os chocolates e as flores de forma curiosa, apanhando o cartão que acompanhava as tulipas. Meu sorriso foi instantâneo ao lê-lo...
Hoje eu conheci uma sábia florista que me aconselhou a escolher essas belas tulipas vermelhas para te enviar...
Elas representam o meu amor sincero e eterno por você...
Mal posso esperar para o nosso encontro amanhã e estar novamente em seus braços.
Demi
P.S. — Espero que os chocolates ainda sejam os seus favoritos!
Felicidade transbordava do meu peito e meu coração só faltava explodir de tanto amor. Demi estava plenamente envolvida em nosso relacionamento e esse tipo de gesto romântico que fazia eu me sentir única e me derreter por inteira só reforçava isso. Meus olhos marejaram e eu os fechei inalando o perfume das flores.
- Tia...
Olhei para frente avistando Sam se aproximando com os pezinhos descalços vestida em seu traje de banho de super-herói.
- Oi, Cap.
- É pra você ir terminar de fazer a salada.
- Diga que já vou. Preciso fazer uma coisa antes, tudo bem?
Sam assentiu e quando ela saiu eu puxei o celular do bolso do short e fui até a sala quieta, ligando para a remetente das tulipas bonitas e dos chocolates deliciosos. Sentei no sofá e no segundo seguinte o sorriso de Demi apareceu na tela com o alto-falante do hospital de Chicago ecoando ao fundo. Os cabelos pretos estavam bem presos realçando o rosto alvo.
- Oi baby. - Ela alternava os olhos enquanto andava como se estivesse procurando por algo.
- Hey, está podendo falar?
- Sim, só um segundo... - E então ela entrou em um lugar calmo sem nenhum ruído de vozes. - Pronto. - Focalizou a atenção em mim. - Bonito biquíni a propósito...
Olhei para a minha própria roupa de banho cor de rosa sob o kimono branco rendado e sorri para a morena paqueradora.
- Dia de piscina. Liz está aqui e ela e Sam estão praticamente BFFs. - Falei e Demi riu. - Mas enfim... eu só liguei para dizer que... - Mostrei o buquê e a caixa de chocolates. - Eu amei. E sim, os chocolates ainda são meus favoritos.
- Ufa. - O suspiro fofo de alívio saiu acompanhado de um sorriso meigo.
- Vou tentar guardar um pra você.
- Só um?!
- Dois.
- Uau, muito melhor agora. - Falou irônica.
- Seleeena! - Hay chamou da cozinha.
- É a Hay, ela provavelmente quer me mostrar outro loft.
- Oh... uh, você já encontrou algum legal? - Perguntou coçando o queixo.
- Nope.
- Por que não vai com calma nessa busca por apartamentos? Quer dizer... sei lá... algum lugar perfeito... pode simplesmente aparecer.
- Tem razão. - Sorri. - Então... eu tenho que ir fazer uma salada agora. Me liga mais tarde?
- Claro. E Sel?
- Sim?
- Eu... fico feliz que tenha gostado da minha... surpresa.
- Eu realmente amei Dem. Obrigada. Você é maravilhosa.
Sorrimos singelamente uma para a outra e como não queria atrapalha-la no trabalho, logo desligamos. Cheguei sorridente na cozinha exibindo meus mimos às duas mulheres ali.
- Flores huh? - Sorria Hay.
- Que lindas, querida! - Falou Maria, alegre. - São de Demi?
- Sim... - Cheirei novamente as tulipas. - Ela é perfeita.
Taylor não demorou a chegar e o churrasco se desenrolou com muito bom humor, músicas e gargalhadas.
(...)
Eu não poderia ter acordado mais radiante na sexta-feira. Talvez fosse tolice de pessoa apaixonada, mas tudo parecia mais bonito naquele dia; o brilho do sol, o azul do céu, o cantar dos pássaros que voavam livres...
Durante a manhã, depois de um reforçado café da manhã e um passeio com Baylor pelo bairro, passei quase uma hora enfiada no quarto, indecisa sobre qual roupa eu usaria para o meu encontro com Demi. Minhas opções eram quase nulas sendo que a maioria das minhas roupas estava em outra cidade, mas por sorte, o que eu tinha em mente pedia algo casual.
Meu relógio apontava onze e meia quando dei partida na caminhonete rumo ao apartamento de Demi que, segundo ela via mensagens de texto, tinha acabado de acordar de um sono de dez horas ininterruptas e estava pronta para passar o dia comigo.
Eu dirigia com um sorriso no rosto, cantando junto com as músicas da playlist que eu havia montado para a viagem. E ao parar no semáforo a poucas quadras do prédio de Demi, não me segurei e cantei a plenos pulmões o refrão de Best Day Of My Life de American Authors, batucando as mãos no volante.
- Eu tenho um encontro hoje com a mulher que eu amo! - Anunciei para as pessoas que me olhavam estranho sem me importar com o que pensavam.
Quando cheguei, avisei Demi e saí do automóvel, ansiosa para vê-la. Ela desceu em menos de cinco minutos e ao avistá-la, eu desencostei da lataria e arrastei os óculos de sol para o topo da cabeça, meu sorriso aparecendo junto com o dela enquanto ela se aproximava com os olhos protegidos por um óculos mais escuros que os meus e os cabelos intencionalmente bagunçados.
Dei risada quando Demi se apressou até mim com uma corridinha e me deu um abraço ardoroso que tirou meus pés do chão e me rodopiou no ar.
- Também senti saudade. - Falei sem ar e ela riu ao me soltar. - Está bonita. - Sorri pegando no lenço longo pendurado em seu pescoço.
- Engraçado, eu ia dizer a mesma coisa.
Demi estava com uma simples camiseta branca e uma calça jeans que acentuava impecavelmente seus quadris e pernas, enquanto eu usava um cropped preto com manga 3/4 e uma calça envelope azul marinho. Ambas despojadas calçando rasteirinhas.
- Podemos ir?
Abri a porta da caminhonete para ela que sorria me observando e dei a volta para entrar no lugar do motorista.
- Eu fiz uma.. - Larguei o cinto de segurança que estava prestes a colocar e agarrei a nuca de Demi quando seus lábios sedentos arrebatadamente alcançaram os meus, me lascando um beijo roubado.
Um beijo roubado com gosto de creme dental que eu retribuí com a mesma intensidade, mas que logo terminou com selinhos.
- Agora podemos ir. - Limpou a saliva em volta da minha boca com o polegar.
Sorri entorpecida enquanto ela prendia o cinto e seguidamente fiz o mesmo.
- Aonde vamos?
- Vamos para um lugar divertido. - Fiz mistério dando partida na picape.
- Vejo que ainda ama me deixar na curiosidade.
- Você já vai descobrir. - Peguei sua mão e a beijei.
E ao som de Mystery of Love de Sufjan Stevens, partimos com destino a um dos meus lugares favoritos no mundo: O Píer de Santa Mônica. O trajeto, regado de músicas, conversas leves e risadas, durou uns quarenta minutos, e em certo ponto, minha mão direita foi para a perna de Demi enquanto a dela fazia ondas no vento fora da janela.
A primeiríssima coisa que fizemos assim que chegamos ao píer foi comer. Almoçamos nachos e de sobremesa comemos cheesecake em um restaurante acolhedor com uma vista belíssima para o mar. E lógico que tiramos algumas fotos lá, a minha predileta era uma espontânea que tirei de Demi sem ela notar enquanto admirava a imensidão azul.
Deixamos o restaurante completamente satisfeitas e passeamos abraçadas pelo parque de diversões, curtindo as atrações. Eu tinha comprado as pulseiras que dava acesso a todos os brinquedos e é claro que Demi me arrastou para a montanha-russa primeiro e posteriormente para a torre de queda livre. Para ser sincera, não sei como eu não vomitei nela.
No cair da tarde, as luzes do parque se acenderam e tudo ficou mais lindo e cheio de cores. Após sairmos da cabine de fotografias, compramos algodão-doce e fomos para a roda gigante. Lá em cima, além de apreciar o pôr do sol no horizonte, registramos o momento com mais fotos, trocamos beijos e carinhos.
- Isso é real mesmo, certo? - Sussurrei de olhos fechados contra os lábios literalmente doces. - Eu não estou sonhando?
- Está sentindo isso? - A mão macia acarinhava minhas costas expostas.
- Sim. - Respondi sorrindo e entranhando os dedos nos cabelos de Demi ao sentir o contato de seu hálito e a boca úmida em meu maxilar.
- Isso? - Escorregou o lábio por minha pele.
- Sim. - Um arrepio gostoso atravessou meu corpo quando os lábios chuparam de leve o lóbulo de minha orelha.
- E isso? - Seu sussurro era risonho.
- Sim. - Minha voz deu uma leve falhada quando abri os olhos.
- Às vezes eu também sinto que estou sonhando, Sel... - Confessou ajeitando meus cabelos atrás da orelha. - Eu não esperava a sua volta, a sua volta para mim.
Acariciei o queixo bonito sustentando o olhar penetrante.
- Está sendo maravilhoso estar assim com você outra vez.
Éramos somente nós naquela roda gigante resplandecente e nada mais importava.
Quando o sol se despediu por completo, nós saímos do parque de diversões, mas não fomos embora...
Os gritos de animação iam ficando mais afastados conforme nos distanciávamos do píer. As luzes coloridas refletiam na água do mar e nossos pés descalços deixavam pegadas na areia molhada da praia enquanto revelávamos novas pequenas coisas que ainda não sabíamos uma sobre a outra. O som das ondas era confortante e o vento revoando minha calça e nossos cabelos era fresco. Em uma mão, eu levava nossas sandálias, e debaixo do braço, eu carregava o elefante roxo de pelúcia que Demi tinha ganhado para mim em um jogo de habilidade de estourar balões.
- Okay... - Ela sorriu passando mais uma foto em meu celular. - Sua vez.
- Uhhh... - Dei uma pensada. - Acho que você já sabe de tudo sobre mim.
- Sei? - Entrefechou os olhos. - E quanto à tatuagem na sua virilha?
Eu ri dela querendo saber de absolutamente cada detalhe. E sem dúvidas ela havia visto o desenho minimalista gravado em minha pele naquela noite no meu banheiro já que eu fiquei quase nua em sua frente.
- É uma rosa.
- Eu vi vagamente...
- Você pode ver melhor então mais tarde se quiser. - Instiguei.
- Oh eu quero. - Esboçou um sorriso travesso, rindo ao passar para uma foto onde eu estava com um batom vermelho borrado e uma sombra azul e verde.
- Isso foi quando eu deixei Sam fazer minha maquiagem.
- Ela claramente é uma artista contemporânea. - Deslizou o dedo para outra imagem; eu e Taylor fazendo poses engraçadas na Times Square. - Vocês se divertiam bastante lá, né?
- Sim.
Demi encarou a foto por mais um instante e então passou para outra.
- Quer ir comigo? - Perguntei sem pensar.
- Pra onde? - E ela olhou para mim sem entender direito.
- NY.
- Oh.
- Como você sabe, na semana que vem eu vou buscar meus pertences e..
- Eu quero. - Respondeu sem hesitação.
- Sério? Tem certeza? - Sorri quando ela afirmou convicta com a cabeça. - Okay, legal...
- Eu só... - Fez uma leve careta de repulsa. - Não quero esbarrar com a sua ex lá.
- Eu também não... - Coloquei o bicho de pelúcia no outro braço e abracei o pescoço de Demi beijando sua têmpora. - Por isso a gente vai ficar em um hotel.
No decorrer da nossa vagarosa caminhada à beira mar, meu celular tocou na mão de Demi, e eu só aceitei a chamada porque era Hay.
Demi pegou o elefante de pelúcia e eu levei o telefone à orelha.
- Oi, Hay.
- Sel, você pode vir aqui agora? - Disse apressada.
- Uh, eu estou em Santa Mônica no momento. No meu encontro com a Demi... - Sorri jubilosa para a morena caminhando comigo. - Esqueceu?
- Não, Sel. Até o Papa sabe que você está em um encontro com ela. E eu não queria te atrapalhar mesmo, mas estou precisando de você.
Parei de andar e Demi me imitou.
- Está tudo bem?
- A babá ligou dizendo que está doente e ninguém atende na sua casa. Você sabe que eu não posso faltar à festa da firma...
- Entendi. - Chequei meu relógio.
- Eu realmente não queria ter te ligado, mas não confio em mais ninguém para ficar com as crianças.
- Sem problema, Hay. Eu vou.
- Valeu Sel! - Falou aliviada.
- Chego aí em uma hora, tudo bem?
- Sim, tudo. Eu estou me arrumando.
- Okay, até mais.
Botei o celular na bolsa e suspirei, Demi me observava.
- Se importa de continuar nosso encontro ficando de babá? - Perguntei a ela ao segurá-la pela cintura.
- Tá brincando né? - Envolveu meu pescoço. - Eu vou adorar.
Afundei a mão em seu bolso traseiro e a puxei para mim unindo nossos corpos. E com um sorriso, selamos os lábios.
(...)
- Olá? Tem alguém em casa? Nós trouxemos donuts! - Minha voz cantante se sobressaiu em meio ao barulho da televisão ligada para ninguém.
Pendurei minha bolsa no cabideiro de parede, avistando Sam no alto da escada com o rostinho escondido por uma máscara de Stormtrooper.
- Quem é você? - Brinquei fazendo cara de assustada e Demi riu baixinho ao meu lado quando a menina desceu direto para o meu colo. - Você está mais pesada que ontem, o que você comeu hoje?!
- Comida. - Ela riu, e os olhinhos visíveis pousaram em Demi.
- Oi. - Demi acenou meigamente. - Você se lembra de mim? A gente já se viu uma vez quando você era menorzinha.
Sam demorou um pouquinho para responder e apenas observou Demi antes de assentir.
- Ela tem ótima memória. - Falei.
- Qual é o seu nome? - Sam quis saber.
- Demetria, mas todo mundo me chama de Demi.
- O meu é Samantha, mas todo mundo me chama de Sam.
- Nome bonito.
- Obrigada.
- Você gosta de donuts, Sam? - Demi perguntou e Sam assentiu. - Que bom porque aqui tem um montão! - Esbugalhou os olhos se referindo à caixa em suas mãos e Sam riu.
- Pode colocar ali na cozinha. - Instruí.
- Cadê sua mãe? - Perguntei a Sam enquanto Demi atravessava a sala em direção à mesa de jantar.
E naquele momento, Hay desceu a escada com Ben, finalizando um telefonema. Ela o pôs no andador e quando viu Demi, me lançou um olhar de questionamento, a cumprimentando de modo receptivo.
- Que bacana te ver aqui com a Sel... - Dizia minha amiga. - A última vez que nós nos falamos eu não fui muito amigável...
- Oh não se preocupe com isso. - Demi disse com simpatia. - Apenas me diga onde fica o banheiro.
- Primeira porta a esquerda. - Falou apontando para a escada.
Então Demi subiu e Hay virou para mim.
- Por que não avisou que estava trazendo ela? - Foi até o cabideiro.
- Quem é ela? - Sam questionou removendo a máscara branca quando a pus no chão.
- Uma... amiga muito especial da tia. - Respondi, bagunçando seus cabelos.
- Amiga? Sério? - Hay elevou uma sobrancelha colocando um casaco por cima do vestido formal.
Encolhi os ombros.
- Ainda não falamos sobre isso.
- Certo. Bem, diga a ela para ficar a vontade. Eu não vou demorar. - Pegou a bolsa e se despediu das crianças. - E ah, - Abriu a porta para sair. - Sam precisa de um banho e Ben mama às nove.
- Entendido.
- Tia, a gente pode jogar Monopoly? - Sam perguntou depois que sua mãe saiu.
Demi descia a escada.
- Claro.
- E fazer biscoitos? - Perguntou animada.
- Também. - Sorri e vi Demi agachar na frente do andador, ganhando a atenção do bebê sorridente. - Mas primeiro você tem que tomar banho, ninguém gosta de criança fedida.
- Eu não estou fedida! - Retrucou.
Inclinei-me para cheirá-la de forma brincalhona e fiz uma careta.
- Está sim.
Demi ria brincando com Ben.
- Não estou!
- Tá sim! - Engrossei a voz e Sam gargalhou quando a peguei no colo. - Você está bem aí, amor? - Perguntei a Demi antes de subir com Sam.
Ela levantou o rosto, a mão pequenina de Ben segurava seu dedo.
- Estou ótima.
No segundo andar, enquanto eu preparava o banho de Sam, enchendo a banheira de água, ela conversava comigo sobre seu dia, sentada no vaso com sua roupa de baixo, balançando as perninhas.
- E depois que eu fiz minha lição, eu fiquei jogando Minecraft. - Concluiu. - O que você fez?
- Eu passei o dia com a Demi. - Sorri mexendo na água morna para formar mais bolhas.
- Ah...
- Bem, Sam, eu acho que já está bom, né? - Falei examinando a quantidade de água.
Sam saltou do vaso e fez o mesmo, confirmando com a cabeça. Fechei o registro e ela pegou seu barco de brinquedo, entrando na água em seguida. Depositei sua roupa usada no cesto de roupas e peguei a esponja de banho infantil para esfregá-la.
- Eu já sei tomar banho sozinha! - Protestou.
- Tudo bem, garotona. - Entreguei a esponja a ela.
- Amor? - Ouvi Demi chamar.
- Aqui!
Ela apareceu na porta do banheiro com Ben se retorcendo e chorando irritado em seu colo.
- Acho que ele precisa trocar.
- Certo. - Amarrei os cabelos indo até a ela. - Não se esqueça de lavar os pés, Sam!
- Tá. - Respondeu entediada.
Nos dirigimos para o quartinho de Ben e Demi o colocou com cuidado de barriga para cima no trocador, desabotoando seu macacão de pinguim e descolando as fitas adesivas da fralda sem parar de falar com ele com uma meiguice exorbitante. Eu sorria com a fofura enquanto pegava as coisas essenciais para a troca de fralda.
- Você é muito boa nisso. - Comentei impressionada ao observá-la limpar a pele de Ben, levantando as perninhas com agilidade.
- Eu tenho um pouco de prática. - Sorriu o pondo sobre a parte externa da fralda.
- Você... - Fiz uma pausa entregando as toalhinhas umedecidas a ela.
Ponderei sobre o que eu queria perguntar; algo que, no passado, a todo momento despertava meu interesse, mas por se tratar de um tema delicado na época quando Demi ainda estava vulnerável, eu guardava para mim.
- Eu...? - Impeliu limpando Ben que brincava com a chupeta.
- Você pensa em ser mãe? - Perguntei.
Demi sorriu plácida.
- Claro. - Me olhou de canto de olho. - E você?
- Pra ser honesta com você, Dem... - Molhei os lábios. - Fazia anos que eu não pensava nisso.
- Você pensava sobre isso quando estava comigo? - Seu contentamento me tirou um sorriso afetivo e eu aquiesci quando ela me olhou.
- Estou pensando agora. - Confessei.
Ao entregar a ela o creme protetor, Demi me beijou ternamente, resvalando a ponta de seu nariz no meu.
- Eu também.
Com Ben trocado e feliz, e Sam de banho tomado, vestida em seu pijama de dinossauros, nós descemos para fazer biscoitos.
Quando Sam gostava de verdade de uma pessoa, ela imediatamente se soltava, e foi o que aconteceu na presença de Demi, que respondia todas as perguntas de minha afilhada com carinho e boa disposição. Ela era uma criança que adorava aprender e saber como as coisas eram feitas, sua parte favorita na hora de me ajudar a fazer biscoitos era moldar a massa. E para alguém pequeno de, como ela dizia, quase seis anos, Sam sabia o que estava fazendo.
Estávamos as três na bancada da cozinha, eu rolava a massa de chocolate enquanto elas cortavam para assar, posicionando na assadeira, Sam com um molde de estrela e Demi com um de gatinho. Em nosso campo de vista, Ben se divertia dentro do cercadinho lotado de bolinhas.
- Eu também já sei escrever meu nome completo. - Contava a menina falante. - Eu tenho três nomes. Quantos você tem?
- Eu tenho três também. - Demi respondeu ajudando Sam a remover a massa modelada.
Eu apenas ouvia o papo delas, correspondendo os sorrisos que Demi me lançava em meio disso.
- Qual é o seu do meio? O meu é Rylie.
- Devonne.
- Que bonito.
Mandei um discreto beijo no ar quando Demi desviou os olhos para mim sorrindo com ternura.
Já passava da hora de Ben mamar quando os biscoitos foram para o forno e por incrível que pareça ele ainda não tinha começado a chorar. Sam subiu para buscar o jogo de tabuleiro em seu quarto e sem demora comecei a preparar a mamadeira de Ben. Pus o recipiente com leite para aquecer no micro-ondas e sorri ao perceber Demi vir até mim e me abraçar por trás.
- Estou tendo... - Beijou a lateral do meu pescoço e eu segurei seus braços sentindo os pelos de minha nuca eriçarem. - O melhor... - Outro beijo foi plantado em minha pele, agora em meu trapézio. - Encontro de todos.
- Dem... - Ri quando ela apoiou o queixo em meu ombro. - Você estava limpando cocô de neném uma hora atrás.
- Sim, mas eu estava limpando cocô de neném com você.
- Uau, eu adoro quando você é romântica, sabia? - Virei para beijá-la.
Depois que Ben mamou, Demi se dispôs a levá-lo ao quarto, e durante isso na sala, eu e Sam colocávamos uma ideia em prática. Com o auxílio do sofá, algumas cadeiras, lençóis, prendedores, almofadas e luzes de natal coloridas, nós construímos um forte que Sam nominou de "Forte das Garotas".
E logo depois que Ben adormeceu, Demi se juntou a nós dentro do aconchegante forte abastecido com biscoitos e donuts. Ali, sobre o chão acolchoado, nós jogamos Monopoly com Sam e assistimos a um filme de animação que ela escolheu.
Entrelacei meus dedos com os de Demi quando ela passou o braço pelo meu ombro, gargalhando com o bicho-preguiça na tela do laptop. Sam, que já se sentia sonolenta, ria aconchegada em nossas pernas, com o lenço de Demi ao redor de seu pescoço.
No final do filme, minha mente divagou, comparando aquele momento de diversão e descontração com a primeira vez que conheci Demi. Era fevereiro, eu sempre me lembraria dessa data marcante, e sempre me lembraria da expressão fechada e intrigante da mulher que havia literalmente me salvado, seu cheiro doce que de uma forma tão singular me acalmou no pior dia da minha vida...
Olhei para o lado, ela sorria focada no filme, e eu sorri ao contemplá-la.
Tão impensável...
Quem diria que, anos mais tarde, estaríamos juntas sob um forte construído com lençóis na sala da minha melhor amiga, assistindo Zootopia com a minha afilhada.
Meus lábios alcançaram a mão de Demi que eu segurava em meu ombro e ela sorriu para mim, beijando meu nariz.
Momentos depois, subi a escada com Sam bocejando em meu colo. A levei para escovar os dentes e em seguida a acomodei em sua cama ajudando com as cobertas.
- A gente pode continuar Harry Potter? - Perguntou coçando o olho quando pousei seus óculos na pequena mesa de cabeceira.
- Claro... - Busquei seu livro preferido na estante de casinha e o abri ao sentar na beira da cama. - Em qual capítulo paramos mesmo?
- Cinco.
- Certo. - Folheei as páginas e limpei a garganta para ler. - Harry acordou cedo na manhã seguinte. Embora soubesse que..
- A Demi é sua nova namorada? - Em voz baixinha, Sam questionou de repente.
- Uh...
- Eu vi você beijando ela na boca.
- Tudo bem... - Comprimi os lábios ao fechar o livro marcando a página com o dedo. - Bom, Sam... Demi e eu nos conhecemos antes de você nascer. Ela era minha namorada, mas nós ficamos um looongo tempo separadas e só agora estamos voltando a nos ver.
Sam piscou, compreendendo minhas palavras.
- Eu gosto dela, ela é legal e cheirosa.
Sorri soltando o ar pelo nariz.
- Eu também acho.
Dez minutos de leitura se passou e Sam pegou no sono. Acendi sua luminária de Lego, guardando o livro no lugar. Plantei um beijo nos cabelos finos e apaguei a luz do quarto, deixando a porta entreaberta ao sair. Antes de descer, chequei Ben, ele dormia como um anjinho.
- Ela dormiu? - Demi perguntou quando voltei ao forte, ela estava deitada com os joelhos dobrados, brincando com a Bola 8 Mágica de Sam.
- Sim... - Deitei ao seu lado, encostando o rosto em seu ombro. - O que tá fazendo?
- Perguntas... - Riu. - Vamos ver... a Selena... vai passar a noite comigo hoje?
Sorri a vendo chacoalhar o brinquedo para a resposta aparecer.
Não conte com isso
- Tá brincando comigo?! - Sua voz subiu uma oitava.
Eu ri.
- Essa coisa está obviamente errada, amor. - Falei a agarrando num abraço de coala. - Outro dia Sam quis abrir isso para ver o que tem dentro.
- Ela é muito inteligente.
- Acho que ela é um gênio igual a você.
Um riso saiu de seu nariz.
- Eu não sou um gênio.
- Seus prêmios de feira de ciências da escola dizem o contrário.
- Como... sabe disso? - Perguntou intrigada. - Não me lembro de termos conversado sobre isso.
- Sua mãe me mostrou suas medalhas quando você me levou para conhecê-la.
- Oh... - Acariciou meu braço. - Bem, você nunca me contou direito sobre o que conversou com ela.
Fechei os olhos ao me aninhar em seu peito.
- Um dia eu te conto.
Não achei que fosse o momento propício para revelar que há mais de seis anos, eu praticamente pedi sua mão a sua mãe durante uma conversa emotiva. Eu me lembro que Demi estava no banho, foi na noite que ela me levou a um encontro em Dallas e me ensinou a jogar sinuca. Meu secreto intuito na época era, basicamente, ganhar meu próprio dinheiro, pedir minha incrível e independente namorada em casamento e viver uma vida simples e feliz ao seu lado. E refletindo sobre esse sonho após tantas mudanças e acontecimentos, percebi que, eventualmente, alcançaria esse tão desejado objetivo de vida e meu coração se aqueceu.
- Okay. - Beijou minha cabeça e suspirou, afagando meus cabelos. - Então... nós vamos para o meu apartamento, certo? Porque eu tenho uma coisa para te dar lá.
Um sorriso malicioso nasceu em meus lábios quando levantei o rosto para olhá-la.
- Não é o que está pensando, pervertida. - Tocou meu nariz com a ponta do dedo me fazendo piscar. - É algo que te pertence.
Vinquei as sobrancelhas tentando me recordar de qualquer coisa que eu possa ter esquecido em sua casa além da camiseta que ela revelou ter manchado de rosa.
- O quê é?
Demi sorriu astuciosa.
- Surpresa.
(...)
Era quase meia-noite quando Demi destrancou a porta de seu apartamento enlaçada em meus braços. Por um segundo, pensei que tínhamos entrado na residência errada. Tudo estava tão diferente de como eu me lembrava. Os móveis, antes quase todos vazios, eram ornamentados com vasos de flores brancas, porta-retratos e objetos decorativos. O ambiente transmitia conforto e havia mais cor e comodidade, como um verdadeiro lar.
- Eu andei redecorando. - Demi disse enquanto eu percorria o espaço com os olhos admirados, sorrindo ao reparar nas almofadas estampadas arrumadinhas sobre o sofá amarelo.
- Está mais... - A senti colar o peito em minhas costas e segurei os braços que me contornaram.
- Vivo? - Sua indagação saiu risonha perto do meu ouvido.
- Eu ia dizer colorido.
Ela riu, o queixo descansado em meu ombro.
- Está encantador. - Falei, olhando para os quadros modernos pendurados nas paredes. - Como você. - Completei, ganhando um beijo na pele abaixo da orelha. - Então... cadê a surpresa? - Senti seu riso baixinho na curva do meu pescoço e me arrepiei.
- Deus, que curiosa. Não podemos, você sabe, relaxar primeiro?
- Tsc, tsc... - Meneei a cabeça em negativa virando para ela. - Primeiro a surpresa e então... - A puxei pelo lenço e colei os lábios na cartilagem de sua orelha, assumindo um tom sedutor. - Eu faço o que você quiser.
- Oh...kay. - Sussurrou, a pele arrepiada. - Você venceu.
Abri um sorriso triunfante e a beijei brevemente antes de soltá-la e vê-la deixar a sala com um sorriso largo pedindo para que eu ficasse a vontade.
Demi irradiava vitalidade e isso deixava meu coração quentinho. Era tão bom e gratificante ver que ela estava em um lugar melhor.
Suspirei placidamente largando minha bolsa no sofá e me aproximei da prateleira de livros quando um título em específico chamou minha atenção. Era um livro de receitas para iniciantes, cheio de marcador. Demi estava falando sério quando revelou que estava aprendendo a cozinhar durante nosso passeio na praia. Repus o livro no lugar e tombei a cabeça, estranhando ao reconhecer a capa de um dos vários discos guardados em uma caixa que havia na parte inferior da prateleira. Brian era um amante daquele tipo de música e possuía alguns dos vinis, mas nunca imaginei que Demi também fosse...
- Desde quando é uma fã de jazz? - Perguntei curiosa ouvindo seus passos. - Brian e minha mãe adoravam ir a clubes de jazz nos fins de semana.
- O que?
Olhei para a mulher sorridente que vinha até mim trazendo algo na mão. Apontei para a caixa e seu sorriso estranhamente se apagou.
- Oh, isso... - Lambeu os lábios. - Não são meus, mas eu gosto.
- Ah...
- Amber ficou de passar aqui para buscar o resto de suas coisas, mas não apareceu.
- Entendi... - A vi se sentar no sofá. - Vocês ficaram bastante tempo juntas né?
Demi se limitou a assentir e eu fitei o chão, me odiando por estar incomodada com algo que certamente não importava mais.
- Posso quase ouvir seus pensamentos.
Ergui novamente o rosto, meus lábios colados em linha reta.
- Não é nada.
Demi tinha as sobrancelhas unidas.
- Amor, se tem algo te incomodando apenas diga. - Seu tom era calmo. - Vem sentar comigo. - Deu dois tapinhas no assento do sofá.
- É besteira... - Crispei o nariz me sentando, Demi pegou minha mão e enlaçamos os dedos. - Eu só penso que... ela deve te conhecer melhor que eu, seus novos gostos, a nova... você...
- Isso é um absurdo porque ninguém me conhece melhor que você meu amor. Eu garanto, mesmo depois de todos esses anos.
- Dem, nós vivemos muita coisa longe uma da outra...
- Eu sei... - Suspirou. - Mas você... - Os olhos sinceros e suaves passearam pelo meu rosto. - Sel, você conhece meus segredos, minhas dores, minhas qualidades e meus defeitos. Você é a minha pessoa e a única com quem eu quero compartilhar a minha vida.
Mordi o lábio, mas não pude refrear o sorriso apaixonado ao colocar uma mecha negra atrás da orelha de Demi, colando a boca na dela e a beijando suavemente, meu coração inflando de amor e esperança.
- Meu anjo... - Sussurrou doce, o dorso dos dedos alisaram minha bochecha, seu olhar era meigo e cálido. - Quer ver a surpresa agora?
- Por favor.
Então Demi abriu a mão ocupada, em seu dedo pendia nada mais nada menos que um molho de chaves. E ao constatar, com o cérebro girando em confusão, que não se tratava de um molho de chaves qualquer, as palavras engasgaram em minha garganta.
- Eu entrei em contato com seu padrasto antes de embarcar para Chicago e pedi o número do comprador... - Molhou os lábios no meio da explicação enquanto eu a encarava, perplexa. - Eu tinha um dinheiro guardado..
- Demi...
- E você sabe que eu posso ser extremamente persuasiva quando eu quero. - Deu um sorriso sagaz.
- Isso é loucura. - Levei as mãos à boca. - Você é louca.
- Por você? Sim, com certeza.
- Eu estou falando sério, Demetria! - Fui um tanto rigorosa ao levantar de supetão e Demi franziu as sobrancelhas, suspirei me tranquilizando. - Não sei se... consigo aceitar isso.
- O que? - Tombou a cabeça para o lado, os castanhos se amuando em busca dos meus. - Sel...
- É uma casa, meu amor. Não são flores e chocolates. É uma casa!
- E? Por que está tão brava? - Fez o mesmo que eu e se pôs de pé. - Pensei que... ficaria feliz.
Um riso indignado escapou de meu nariz, chacoalhei a cabeça e esfreguei a testa.
- Quanto?
Demi girou os olhos.
- Não importa.
Exalei pesadamente e ela deu um passo até mim.
- Demi, isso... eu...
- E se eu dissesse que... - Alcançou minha mão, pousando as chaves em minha palma sem soltá-las. - Comprei pensando em nós? Como você fez anos atrás.
Meus olhos se arregalaram ligeiramente e meu coração bateu fora do ritmo.
- Você acha que eu não sei? - Um breve sorriso esticou seus lábios e ela os comprimiu me fitando. - Eu queria o mesmo, amor. Não era o momento certo para mim, mas eu queria o mesmo. Eu ainda quero.
- Está dizendo que... - Engoli minha saliva. - Quer ir morar comigo? Dem, nós acabamos de voltar.
- Bem... - Sua outra mão buscou minha cintura e eu segurei seu ombro. - Não estou dizendo para nos mudarmos amanhã, ou no próximo mês, ou esse ano...
- Sem pressa. - Acariciei sua nuca.
- Sem pressa. - Concordou sorrindo e me beijando.
- Tudo bem... - Sussurrei vencida em seus lábios. - Mas a redecoração será toda por minha conta.
Demi deu outra virada de olhos antes de me beijar com ardor. As chaves caíram quase silenciosamente no tapete, a agarrei a nuca e ela me puxou a cintura de encontro a dela, o beijo lascivo se tornando voraz. Um leve impulso de minha parte e então estávamos no sofá de novo.
As mãos de Demi deslizaram para a minha bunda e eu chupei a língua sôfrega, meus quadris ganhando vida própria sobre a mulher sentada por baixo de mim soltando um gemidinho e exalando um palavrão ao entrecortar o beijo.
Ofegamos com as testas apoiadas, enrolei seu lenço nas mãos, um sorriso libidinoso se estendendo em meus lábios ao senti-la invadir minha calça e apertar minha nádega com volúpia enquanto eu rebolava com fervor, sugando demoradamente seu lábio inferior antes da boca deleitante tomar a minha com urgência.
Minha cabeça caiu levemente para trás ao mesmo tempo em que os lábios molhados escorregavam do meu queixo até o meio do meu pescoço, beijando e chupando desejosamente, sua mão esquerda apalpando meu peito sobre o tecido do cropped, elevando com almejo a peça curta e descobrindo parte do meu seio. Ofeguei com os olhos fechados gemendo baixinho quando a boca quente se fechou em minha jugular, o polegar brincando com meu mamilo ereto.
- Você é tão linda e gostosa, amor... - O sussurro saiu queimando minha pele ouriçada, meu ventre revirava. - Preciso sentir seu gosto na minha boca de novo.
As mãos ágeis e macias me ergueram um pouco nivelando meus seios na altura dos olhos fogosos. Passei a língua em meus próprios lábios os mordendo com força quando Demi, sem cerimônia alguma, chupou o bico do meu peito com saudade e devoção me fazendo arfar com a boca entreaberta e afundar os dedos em seus cabelos aveludados.
Demi retirou a mão da minha calça somente para arria-la até o meio das minhas coxas as arranhando de maneira provocativa, um gemido mais alto saindo da minha garganta. Eu podia sentir minha calcinha molhada, meu centro pulsando, implorando por seu toque incomparável. A temperatura na sala de estar só aumentava, estávamos tão tomadas de desejo e tão perdidas uma na outra que demoramos um minuto para distinguirmos o soar da campainha.
- Não atenda. - Murmurei descendo as mãos para o cós do jeans de Demi. - Senti tanta saudade. Saudade do seu toque, da sua pele, do seu cheiro...
- Eu também. - O lábio macio deslizou em meu pescoço. - Nada se compara a você, meu amor. - E as pontas dos dedos que eu tanto ansiava dentro de mim se infiltraram lentamente em minha calcinha. - Quer.. ir no.. - Sussurrou em um gemido quando a afaguei e a arranhei por cima da calça podendo sentir o quão excitada ela estava. - Quarto?
- Quero aqui... - Minha voz enrouqueceu, peguei seu rosto pelo queixo sem parar de acariciá-la, lambendo seu lábio superior antes de mordiscá-la na orelha grudando meus lábios na pele sensível. - E no quarto.
O barulho da campainha havia cessado, mas de qualquer maneira, quem quer que fosse, possuía a chave, e a porta abrindo de súbito, impossibilitou Demi de me tocar mais intimamente e nos obrigou a nos separarmos de imediato. Arrumei minhas roupas com pressa tendo um rápido vislumbre da mulher loira e completamente inoportuna de pé dentro do apartamento de Demi antes do rosto austero se virar para longe. A sorte era que o móvel onde estávamos prestes a transar ficava de costas para a porta, então eu diria que não foi totalmente constrangedor.
- Amber o que... - Demi andou confusa até sua ex e eu cobri o rosto com as mãos de costas para as duas e com as coxas pressionadas. - Está fazendo aqui?
- Vim buscar minhas coisas e devolver a chave. - A mulher tinha uma voz bonita, mas soava desagradada. - Pensei que não estivesse em casa. Tentei te ligar, mas só está caindo no correio de voz...
- Meu celular está desligado.
- Eu imaginei. - Pude ouvi-la suspirando. - Escute, eu sei que não é um bom momento... - Abaixou a voz, mas não o suficiente para que eu não escutasse. - Mas eu também queria me desculpar pelo o que aconteceu em Chicago.
Minhas mãos escorregaram vagarosamente do meu rosto e eu encarei a cortina, deglutindo com dificuldade ao sentir uma sensação enjoativa de omissão. Sem pensar duas vezes, levantei consternada, peguei minha bolsa e limpei a garganta.
- Eu vou indo... - Avisei Demi sem pestanejar, ela enrugou o meio das sobrancelhas.
- O que? Sel..
- A gente se vê amanhã no casamento. - Passei com rigidez por detrás da mulher alta e saí do apartamento ignorando os chamados de Demi.
O ar saiu denso por entre meus lábios, meus passos resolutos até o elevador...
