— Você encontrou uma pessoa na Zona Morta? — as rodinhas da cadeira arranharam o assoalho quando o Dr. Kuseno se empurrou para longe da bancada de trabalho e de volta à mesa de operações. — Tem certeza disso, Genos? Ninguém poderia sobreviver naquela área sem ajuda...

A incredulidade no tom do cientista deixou muito claro que faltava pouco para o velho homem reexaminar os circuitos neurais do cyborg.

— Tenho certeza, doutor. — o rapaz garantiu. — Forma de vida humanoide baseada em carbono. Temperatura média entre 36 e 37º célsius, batimentos cardíacos entre 67 e 73 bmp...

— Oh... Eu esqueci que você está habilitado para fazer varreduras biométricas. Falha minha. — Kuseno se desculpou e relaxou os ombros. Debruçou-se sobre a intersecção do esterno com o núcleo energético no peito de Genos e conferiu as conexões internas. — Desculpe se pareci duvidar de você, mas... nós dois sabemos que a Associação de Heróis ainda está trabalhando na captura das criações do Bofoi e não fazemos ideia de quantos outros cientistas loucos surgiram nos últimos anos. — suspirou. — Pensar em uma pessoa, um ser humano, vivendo num lugar daqueles... bem... é assustador.

— Entendo o que quer dizer, doutor. — tranquilizou.

O cientista se afastou, avaliou os circuitos recém-instalados, fez uma rápida leitura das estatísticas no monitor de acompanhamento e murmurou algumas palavras de aprovação, sinalizando que Genos estava livre para se sentar.

Antes o Dr. Kuseno se dedicava à criação de sofisticados equipamentos de batalha, com membros robóticos capazes de resistir aos ataques dos monstros e ao mesmo tempo responder com artilharia pesada; agora, porém, ele devotava todo o tempo que tinha à missão de construir um corpo sintético capaz de simular plenamente as reações biológicas mais básicas de um humano. Seu projeto mais recente, por exemplo, envolvia a implantação de uma pele artificial macia ao toque, resistente às avarias menores, e que respondesse satisfatoriamente aos estímulos do ambiente — uma que não ressecasse nem derretesse, mantendo a consistência e textura corretas.

Kuseno planejava devolver Genos à humanidade, não importando o custo ou as dificuldades que encontrariam.

— Parece tão real... — Genos murmurou, admirado, arrastando os dedos pela camada de pele fixada no antebraço.

— Esse material respondeu bem aos testes de calor e frio, além de ser flexível sem perder a resistência. Não creio que vá descascar como os outros, ou liquefazer quando você sobreaquecer. — o doutor explicou, e se havia uma notinha de orgulho em sua voz quem poderia culpá-lo? — Lave-a com sabonetes, exponha-a ao sol, mergulhe em um lago... faça o que sempre faz. Preciso de dados saber quais ajustes fazer.

— Claro! — o rapaz concordou empolgado.

O homenzinho narigudo fez algumas anotações finais em suas planilhas e desligou os computadores.

— Agora, sobre o estranho na Zona Morta... — seu tom se tornou sério e firme. — Aproxime-se dele, mas seja cauteloso. Não sabemos quem ele é ou porque está lá. Tenha cuidado.

— Farei como diz. — anuiu confiante. — Vai ser fácil vigiá-lo.


Era simplesmente impossível vigiá-lo.

Genos começou sua abordagem ocupando um apartamento no prédio vizinho, imaginando que conseguiria interceptar o homem quando fosse colocar o lixo para fora ou pegar as contas na caixa do correio. Não funcionou. Nas duas semanas de vigília não houve entrega de cartas, contas ou mesmo panfletos, e os sacos de lixo eram deixados do lado de fora do prédio em horários irregulares.

Optou, então, por uma investida mais direta: abandonou o apartamento e se mudou para outro, desta vez no mesmo prédio e andar que o homem. Também não funcionou. De alguma maneira o misterioso morador da Zona Morta desapareceu e o único sinal de que ainda estava vivo era o barulho ocasional de pés descalços no assoalho — e sim, o cyborg ficou mortalmente envergonhado ao admitir que ativou a função "sonar" para ouvir se havia alguém ali.

Nas três semanas seguintes ele tentou encontrá-lo nos corredores do prédio e nas ruas próximas até se convencer de que seu timing era uma das coisas mais ridículas do universo; então experimentou remexer a caixa do correio — momento em que descobriu que o vizinho misterioso se chamava Saitama — e chegou ao cúmulo de fingir sair, pensando que o homem apareceria no corredor, como um tipo estranho de marmota tímida.

Mais fracassos.

Finalmente, numa terça-feira ensolarada, sem a menor esperança de que obteria uma interação casual, Genos comprou uma tora e bateu à porta do vizinho. Esperou. Bateu mais uma vez. Olhou para os lados, encostou o ouvido na madeira e acionou o filtro de sons. Aguardou por mais alguns minutos e, por fim, convencido de que forças incompreensíveis tramavam contra seus esquemas de aproximação, desistiu.

Voltou para o próprio apartamento, no fim do corredor, e deixou a torta sobre a bancada da cozinha. Escolheu um dos livros que pegara na biblioteca pública de A-City, sentou no zabuton, abriu o volume de química orgânica, encontrou a página que deixara marcada e... vinte minutos depois continuou encarando o mesmo parágrafo no inicio da folha.

Talvez não fosse uma boa ideia me aproximar..., pensou. Contemplou o céu nublado, desanimado. É mais simples observar de longe, sem me envolver.

Com essa decisão em mente deixou o livro de lado — obviamente não conseguiria se concentrar no momento — e se engajou na tarefa de recolher as roupas penduradas na pequena área externa. Dobrou-as ordenadamente, por ordem de cor, guardou-as no pequeno armários próximo a janela e, em seguida, considerou que seria um bom momento para fazer a limpeza e os reparos que prometera fazer, mas que adiara em prol da missão de espionagem.

Viver em um edifício abandonado tinha suas mordomias — as manhãs eram tranquilas e as noites silenciosas, não havia ninguém reclamando do barulho nem gente invadindo sua privacidade —, mas também um bom número de desvantagens — o aquecimento não funcionava direito, o encanamento entupia vez ou outra, a luz oscilava com frequência e não havia ninguém a quem pedir ajuda ou conselhos.

Em circunstâncias normais Genos estaria incomodado com todos esses problemas, mas ele era um cyborg e esses pequenos desfavores não passavam de "questões triviais".

Na verdade a única coisa que o perturbava no momento era perceber que se esquecera de comprar detergente no mercado.


O fim de semana passou em um ritmo lento, com ventos frios no sábado de uma garoa gelada no finzinho do domingo. O outono chegava ao fim, abrindo espaço para o que prometia ser o mais rigoroso inverno já registrado.

No interior do apartamento, sentado próximo à janela corrediça, Genos assistiu o noticiário — que envolvia o aparecimento de um homem identificado como "Garou" em um parque abandonado e um pedido para que os familiares se apresentassem no Hospital Central — e comeu os últimos pedaços do okonomiyaki no prato.

As papilas gustativas artificiais implantadas pelo Dr. Kuseno permitiam que o cyborg desfrutasse do sabor encorpado da carne, o toque sutil do queijo e mochi misturados à cebolinha e o kimchi levemente adocicado. Aquele corpo não precisava de alimentação ou descanso constante para continuar funcional, mas alguns hábitos eram difíceis de serem esquecidos.

Acompanhou o início de um talk show e mudou de canal algumas vezes antes de ir lavar a louça. Fez uma rápida lista de todos os itens que precisaria — coisas que iam de cadernetas para anotações até esponjas novas para a cozinha — e saiu do apartamento.

Desdeu as escadas sem pressa, pensando que seria útil fazer um curso básico de hidráulica e eletricidade já que o prédio demoraria a ser ocupado e não contavam com zelador no momento, e passou pela mureta baixa que rodeava a construção.

Uma ventania súbita açoitou os cabelos macios e o rapaz ergueu a lapela do casaco, protegendo o rosto. Deu meia volta, prestes a seguir rua acima, quando avistou um corpo estirado no chão.

Levou meio segundo para os processadores aceitarem que havia alguém ali, desmaiado no meio do nada, mas quando o fizeram Genos correu para ajudar.

— Ei! — chamou. — Você está bem? — abaixou-se ao lado do desconhecido, dividido pela necessidade de ajudar e o medo de causar ainda mais problemas.

Virou o corpo delicadamente, com uma gentileza que nem ao menos se imaginava capaz de ter. O capuz amarelo escorregou com o movimento e o homem se revelou ninguém menos que seu vizinho misterioso. De perto Saitama se mostrava um homenzinho de constituição mediana, com traços suaves e cabelos escuros muito curtos. Era um bom material para assalariado e nem de longe parecia importante ou digno de nota.

O homem gemeu e estremeceu, mas não deu qualquer outro sinal de que acordaria.

Não posso deixá-lo no meio da rua, decidiu.

Levantou o homem nos braços sem dificuldade. Ficou surpreso com a leveza do corpo — que, a julgar pela altura, estava uns dez quilos abaixo do peso recomendado — e tomou cuidado redobrado ao transportá-lo para o interior do prédio.

Subiu as escadas, cruzou o corredor e parou em frente ao apartamento do vizinho.

E agora?, hesitou.

Talvez devesse levá-lo para o próprio apartamento e esperar que ele recobrasse os sentidos... ou ligar para algum hospital... ou, quem sabe, apenas deixá-lo no corredor e...

Os planos mirabolantes perderam força quando Saitama se mexeu nos braços de Genos, aproximando o rosto do pescoço do rapaz enquanto um arrepio cansado percorria os membros finos.

— Saitama-san? — chamou baixinho, tentando não assustá-lo.

O homem piscou e enfrentou o olhar do cyborg sem medo, ainda que sonolento.

— Quê...?

— Saitama-san, você desmaiou na rua. — explicou o mais calmamente que podia. — Agora estamos no prédio, na frente do seu apartamento, mas a porta está fechada e...

As sobrancelhas escuras se juntaram numa expressão confusa.

— Está aberta.

— Fechada. — corrigiu.

Saitama balançou a cabeça.

— Aberta. — insistiu.

Genos contraiu os lábios, incrédulo.

Eles viviam na Zona Morta, ninguém em sã consciência perderia tempo vagando por aquelas ruas assustadoras para roubar o apartamento de alguém... mas quem no mundo deixa a porta destrancada num lugar daqueles?!

Ele não entendeu o que eu disse, é claro! Está atordoado, não me ouviu direito... Sim, é isso!, estendeu a mão e moveu a maçaneta, rezando com todas as forças para que nada acontecesse, fingindo que não sentiu os circuitos entrando em pane quando a passagem se abriu com um rangido suave.

Regulou os sensores visuais para "baixa iluminação", ajustou o peso do homem em seus braços e entrou no apartamento sombrio. Havia sacolas de lixo empilhadas próximo à entrada, um número desconhecido de tigelas flutuando na pia, roupas jogadas sobre a mesinha no centro da sala e um rastro de substâncias desconhecidas manchando o fogão e a geladeira. O único lugar remotamente limpo no apartamento inteiro era o espaço próximo ao futon.

Era difícil acreditar que alguém — que um ser humano de carne e osso — vivia num lugar daqueles.

Genos empurrou as roupas de cima do tempo da mesa, abrindo espaço antes de baixar Saitama sobre uma das almofadas empoeiradas que havia ali.

— Vou preparar um pouco de chá, certo?

Entrou na pequena cozinha sem esperar resposta. Revirou as gavetas, abriu armários e conseguiu, com muita sorte, desencavar uma chaleira e uma xícara razoavelmente limpos. A caixinha de bancha, esquecida sobre a mesa, foi uma feliz descoberta.

Viu Saitama se debruçar sobre a mesa, os braços firmemente apertados ao redor do corpo, um tremor persistente sacudindo-lhe os ombros.

— Tem certeza de que está bem? — o rapaz perguntou.

— Estou...

O cyborg despejou a água quente na xícara e voltou para a sala. O homem aceitou a bebida quente, puxando as mangas do casaco sobre as mãos para não se queimar, soprando o vapor suavemente.

— Não devia ter saído para caminhar hoje. — Genos afirmou numa fraca tentativa de manter a conversa. — Está frio demais.

Saitama arqueou as sobrancelhas, perplexo.

— Mas eu não saí hoje.

Agora o rapaz era quem estava confuso.

— Eu saí ontem. — explicou.

Ontem? Mas ele estava na rua hoje..., ele lutou para digerir a informação. Ele não pode ter ficado largado na rua desde ontem... pode?

Registrou a umidade no casaco, as folhas grudadas nos cabelos curtos, a palidez doentia e as olheiras profundas. Num movimento rápido agarrou os ombros de Saitama e ativou os sensores térmicos, confirmando que a temperatura estava baixa, embora não houvesse atingido níveis perigosos.

— Onde encontro roupas limpas? — indagou de repente.

— Hum...? No banheiro, eu acho...

Sem dar importância a situação o homem tomou um gole de chá, apenas vagamente interessado nos movimentos agitados do rapaz. Genos, por sua vez, marchou para o banheiro e iniciou uma busca feroz por roupas secas e limpas. Encontrou ali um novo festival de camisas e calças abandonadas ao acaso, além de frascos de shampoo e sabonetes derramados pelo chão.

Escolheu o conjunto menos surrado que encontrou, ainda que o cheiro não o convencesse de que estavam realmente próprias para o uso.

Virou-se para apagar a luz e estancou.

— Saitama-san? — chamou.

— Humm?

— Você era um herói?

— Ah? É... acho que sim... ao menos por algum tempo.

O cyborg fitou o macacão amarelo, a capa branca e as luvas vermelhas com infinita descrença.

Uma parte dele repetia sem parar que era impossível aquele homem ser um herói, que ambos estavam se iludindo, mas a outra parte — aquela pequena fração de sua alma que resistia ao mundo pós-monstros — sentia uma dor quase aguda ao ver aquele uniforme.

Ele só não entendia o porquê.