— Eu criei um sonho e alimentei aquele mundo com a esperança de que ele despertaria... mas nunca aconteceu. E o sonho se tornou pesadelo. — o vento soprou, das montanhas distantes, um uivo longo e lastimoso. No rosto de porcelana uma miríade de emoções distintas surgia, difíceis de encarar, impossíveis de ignorar. — Me tornei grande demais para este mundo. Ninguém podia me parar. Então esperei. Esperei que alguém igual a mim, e ao mesmo tempo diferente, surgisse.
As mãos dela encontraram o rosto do herói. Os dedos frios eram macios, carinhosos, ao traçar a dobra do maxilar, a curva das bochechas, os ângulos das sobrancelhas finas.
— Tirei muito de você, mas você só poderá ter o que perdeu de volta quando eu me for. Foi o único jeito que encontrei de obrigá-lo a vir e fazer o que deve ser feito.
Um único punho se ergueu.
A luva vermelha, rangendo sob a tensão dos tendões rígidos, esticou sobre os dedos como uma segunda pele.
Saitama desejou, com todas as forças — como nunca desejara antes em sua vida —, não ser quem era, não ter o poder que tinha, não ser o homem que mancharia a floresta com sangue.
Não matar aquela mulher.
— Eu sinto muito...
— Eu também.
— Saitama... Saitama... hum... Oh, achei!
A secretária no balcão de atendimento clicou no link do perfil e aguardou a resposta dos servidores da Associação. Ela usava um colete azul-marinho sobre a camisa branca e um lencinho ao redor do pescoço, exibindo o timbre da Associação de Heróis. Os lábios dela, delineados por um batom rosa-pêssego, pareciam suaves e faziam um par agradável com o narizinho arrebitado e os longos cabelos escuros.
O computador anunciou a liberação dos arquivos e a mulher leu os dados rapidamente.
— Herói Classe B... envolvido em vários incidentes de nível Tigre, Demônio e Deus. Nossa! Esse Saitama esteve bem ocupado e subiu rapidinho no nosso sistema de ranking. — levantou o lápis e mordeu a borracha em formato de morango no topo. — Tem algumas observações especiais aqui. Parece que o supervisor anterior estava ficando bem interessado nesse cara... Ah! — exclamou e sorriu para Genos. — Ele era o herói que faltava se apresentar. O pessoal da administração estava começando a se perguntar se deveriam classificá-lo como "Morto em Combate".
Ela pediu que esperasse um pouco enquanto preparava os papéis e entrou na salinha atrás do balcão. Genos teve a impressão de ter ouvido seis ou sete pessoas suspirando e tossindo para disfarçar o interesse na garota — fãs e admiradores, possivelmente.
A secretária retornou e entregou o cartão dourado que a Associação distribuíra para todos os heróis registrados e "aposentados" por ordem do governo.
— Onde você disse que o encontrou?
— Na Zona Morta de Z-City. — informou mecanicamente. Guardou o cartão e assinou os papéis de recebimento.
A secretária torceu os lábios num sorriso divertido e piscou um olho.
— Confere com o último endereço registrado em nossos arquivos. Por que ele não veio antes? — agora ela parecia realmente interessada, não apenas tentando cavar uma armadilha para enredá-lo.
— Z-City passou o início do verão inteiro sem luz. Ele provavelmente não viu os anúncios e ninguém pensou em ir até lá. — Genos explicou.
— Faz sentido. — ela concordou. — E por que ele não está aqui agora?
Genos nem hesitou em responder:
— Está doente.
Era uma meia verdade.
Após um breve cochilo, algumas xícaras de chá e meia tigela de missoshiro, Saitama parecia melhor — ou ao menos tão bem quanto possível para alguém que dormiu no relento. Isto, no entanto, não diminuiu as preocupações do cyborg... não quando viu o que havia por baixo das roupas folgadas.
Sem camisa ou calças folgadas para lhe dar volume o homem se revelou bastante frágil, com óbvios sinais de má nutrição e consideráveis dificuldades motoras — possivelmente relacionadas às estranhas cicatrizes esbranquiçadas que percorriam as articulações e músculos.
Naquele momento Genos percebeu uma coisa e decidiu outra. Primeiro, ele entendeu que o cenário caótico no apartamento não advinha de um desleixo propositado e sim de circunstâncias além do controle do vizinho; e, segundo, resolveu que não podia, de maneira alguma, deixá-lo sozinho.
Essas revelações e decisões foram feitas no dia anterior e somente agora ele encontrou coragem para ir à Associação confirmar se Saitama era, ou não, um herói credenciado.
— Tem alguma foto dele nos registros? — perguntou.
A secretária arqueou as sobrancelhas, fez um beicinho charmoso e mostrou a tela do computador, ampliando a imagem.
A imagem mostrava um homem calvo, de olhar indiferente, sem nenhum traço louvável. Bastante simples, do tipo fácil de esquecer. O uniforme, contudo, era exatamente o mesmo que encontrara no banheiro e, se pusessem algum cabelo naquela cabeça brilhante, não restariam dúvidas sobre a identidade do herói.
Incrível! Um herói morando na Zona Morta de Z-City!
Os olhos do rapaz desceram um pouco, lendo as informações básicas na ficha.
— Ele entrou na Associação na mesma época que eu...
A secretária conferiu as datas.
— Na verdade, vocês entraram no mesmo dia. — ela ofereceu um sorriso doce. — Talvez até tenham se encontrado na avaliação física.
Ele aquiesceu automaticamente, lutando contra o traiçoeiro sentimento de frustração.
O dia em que decidiu se tornar herói, o teste que fez para ingressas na Associação, os monstros que enfrentou, as pessoas que conheceu... tudo desaparecera de sua memória. Sentia que deveria se lembrar — que era importante — e mesmo assim apenas o vazio o cumprimentava a cada esquina.
As pessoas evitavam falar sobre o "Evento Misterioso" ou mesmo mencionar a amnésia coletiva que atingiu o país, mas nada disso resolveria o problema. Genos preferia conhecer o passado antes de enterrá-lo e deixá-lo em paz.
— Ora... quem diria?
A secretária e o jovem herói se voltaram para o recém-chegado, um homem velho, de intensos olhos cinzentos encimados por sobrancelhas hirsutas. As rugas em seu rosto se curvaram, denunciando um sorriso amigável por baixo da bigodeira.
— Mestre Bang! — a mulher o reconheceu.
O artista marcial retornou a saudação com cortesia e encarou o rosto na tela do computador.
— Você o conhece? — o cyborg desistiu de manter a postura solene.
— Hum...? Não, acho que não. — Bang se aproximou. Mesmo com as mãos atrás das costas sua presença exalava confiança e perigo. — Mas sinto que já o vi... tenho uma estranha sensação de familiaridade, tanto com você quanto com ele.
Genos se obrigou a controlar a inquietação.
Seria possível que Bang estivesse sentindo o mesmo que ele — aquela estranha e indescritível sensação de reconhecimento, ainda que muito distante e embotada pelo esquecimento? E se mostrasse o uniforme pendurado no banheiro, seria o velho artista marcial acometido pelo mesmo arrepio incontrolável?
— Você pode descobrir quais contatos Saitama mantinha? — Genos pediu impulsivamente.
— Posso tentar. — a garota não ofereceu garantias. — Mas, como não sabemos exatamente o que temos aqui vai demorar um pouco...
— Tire uma cópia da foto para mim. — a solicitação de Bang os surpreendeu. — Tenho alguns conhecidos de longa data que podem ajudar. O rosto dele é comum, mas não tanto, então talvez eu encontre alguém que se lembra. — olhou para Genos, pensativo. — Por que está tão interessado nesse herói, garoto?
— Ele é meu vizinho. — explicou.
— Uhum... só por isso?
Genos contemplou a fotografia mais uma vez, sem responder. Também não entendia o porquê de estar tão interessado em Saitama.
Afinal, o que um herói Classe B teria em comum com um Classe S? Por que se sentia tão obcecado em estar perto daquele homem? Eles se conheciam? Eram amigos?
Não sabia o motivo — e talvez nunca soubesse —, mas se recusava a desistir.
Ao menos desta vez ele não aceitaria o vazio como resposta.
Genos empurrou a porta devagar e espreitou o apartamento. A sala estava mergulhada na penumbra — de novo — e, com as janelas fechadas, o ambiente se tornava abafado, ainda que frio. O aquecimento continuava sem funcionar.
Ele entrou, abrindo caminho através da bagunça caótica.
— Saitama-san? — chamou.
Alguma coisa se moveu no futon e o rapaz avistou os cabelos escuros do homem surgindo por entre os cobertores. Olhou ao redor. Aquela atmosfera pesada não era saudável. O ar parecia estagnado, sufocante.
— Estive na Associação hoje. — informou.
Nenhuma reação.
— Você sabia que os heróis têm direito a um pagamento mensal pelos serviços que prestaram à sociedade? — insistiu.
— Hum...
Não era a melhor resposta, mas ao menos era uma resposta.
Genos se aproximou, puxou o cartão magnético e o colocou sobre a mesinha.
— Peguei para você. Sua senha inicial é "heroib". Quando for ao banco poderá modificá-la.
Saitama se cobriu, perdendo completamente o interesse no assunto.
O cyborg titubeou. Havia preparado uma série de respostas para todas as possíveis perguntas que poderiam ser feitas, mas o homem parecia feliz em se enrolar nos lençóis e ignorá-lo. Era uma retribuição tão frustrante! — especialmente quando ele se esforçava tanto para manter um diálogo.
Tudo bem. Não precisamos conversar, concedeu. Mas não vou sair do apartamento ainda, e teimosamente se acercou um pouco mais.
— Saitama-san? — tentou mais uma vez.
Com um suspiro exasperado o homem tornou a espreitá-lo através dos cobertores.
— Você se incomodaria se eu limpasse um pouco? — perguntou.
Naqueles poucos segundos, enquanto esperava uma resposta, Genos criou um longo e elaborado discurso sobre os benefícios de uma casa limpa, da organização dos itens domésticos e da facilidade de encontrar objetos desaparecidos, porém nada daquilo se mostrou necessário quando Saitama abanou a mão num aceno preguiçoso.
— Faça o que quiser. — resmungou.
Agarrando-se à oportunidade Genos listou mentalmente todas as tarefas que precisavam ser feitas e estabeleceu uma série de prioridades de limpeza antes de pôr mãos à obra.
Afastou as cortinas empoeiradas e abriu as janelas — coisa que fez o montinho no futon se agitar em desagrado —, depois recolheu as roupas espalhadas pelo chão e as dividiu em três pilhas distintas, planejando separá-las por cor e tipo de tecido mais tarde. Em seguida recolheu os copos de sopa instantânea largados pelos cantos, ensacou os objetos não identificados que encontrou pelo caminho e empilhou tudo do lado de fora, no corredor, determinado a jogá-los fora no fim do dia.
Em certo momento, quando recolhia as tralhas amontoadas na varanda, encontrou um pequeno e maltratado cacto. A planta amarelada e um pouco murcha parecia nas últimas, mas imaginando que o dano poderia ser reversível Genos colocou o vaso num local seguro, prometendo a si mesmo que encontraria um manual de manutenção de cactos assim que possível.
A segunda etapa da faxina foi dedicada à cozinha. A geladeira precisava ser degelada, os armários estavam cheios de traças e os pratos continuavam afogados naquela substância azul-esbranquiçada que algum dia foi água com sabão, mas nada daquilo o incomodou tanto quanto a constatação de que as reservas de mantimentos estavam assustadoramente baixas — apenas o suficiente para uma refeição ao dia, no máximo.
Lançou um olhar fulminante na direção do montinho no futon.
Havia alguma coisa errada com aquele homem, não fazia sentido negar.
Não vou dizer nada sobre isso, decidiu. Mas nada me impede de encher essa despensa do jeito que eu quiser. Com uma risadinha travessa continuou vasculhando a despensa, jogando tigelas e panelas desgarradas na pia.
A noite caíra havia algumas horas quando o cyborg, ao fazer uma vistoria no pequeno armário em frente ao banheiro, encontrou cinco caderninhos cuidadosamente embalados numa sacola plástica transparente. Espiou por cima do ombro, certificando-se de que Saitama continuava escondido entre os cobertores, e desamarrou a embalagem tão silenciosamente quanto possível.
Sabia que abusava da confiança do vizinho, que era muito errado mexer nas coisas de uma pessoa que mal conhecia, mas... ele ia lavar as cuecas daquele cara, então que mal faria ler aquelas cadernetas ou ao menos descobrir a quem pertenciam?
Pegou o livreto no alto da pilha, abriu-o numa página qualquer e leu as anotações. Olhos dourados percorreram as palavras num átimo, prendeu a respiração e passou para a folha seguinte. Sua expressão passou da perplexidade à confusão e então para a mais absoluta incredulidade.
A caligrafia caprichosa, as informações meticulosas, o nome escrito na guarda da primeira folha... o caderno pertencia a ele!
Não entendo! Quando fiz essas anotações? E por que elas estão aqui?, por mais que se esforçasse não conseguia entender ou mesmo imaginar como aqueles livretes foram parar no armário de toalhas do vizinho.
O som de passos arrastados o trouxe de volta à realidade.
Saitama abandonara o futon e se encaminhava para a cozinha. Andava devagar, com passos incertos, reprimindo um bocejo sonolento. Os dois se encararam por alguns instantes. Um deles queria respostas, o outro queria voltar a dormir.
Genos apertou o caderno com mais força, prestes a iniciar um interrogatório, mas Saitama o ignorou, focando suas atenções naquilo que o fizera sair da cama: tomar um pouco de água.
Tão desconcertante...
O rapaz se aproximou e, parado a uma distância razoável, observou o vizinho se servir de água e tomar uns poucos goles antes de largar o copo na pia.
— Eu os encontrei no armário...
— Os cadernos são seus. — Saitama replicou asperamente, sem nem ao menos olhá-lo. — Pode levá-los, se quiser. — ofereceu um sorriso fraco, desanimado, e deu de ombros. — Nunca me pertenceram mesmo.
Deu o assunto por encerrado e voltou para a cama, desaparecendo sob os lençóis. Genos assistiu a cena por alguns minutos, dividido entre o desejo de se desculpar pela intromissão e a curiosidade crescente que corroía seus circuitos.
Perdoe-me, Saitama-san, mas esses cadernos podem ter as respostas de que preciso, despediu-se silenciosamente e saiu do apartamento cheio de esperança.
Ele não encontrou nada.
As anotações não faziam sentido e, na maioria das vezes, não passavam de uma compilação aleatória de eventos e comentários que eram inúteis, constrangedores e absolutamente mortificantes em 98% do tempo.
Tudo girava em torno de "Saitama-sensei", a pessoa que — em suas próprias palavras — "era o homem mais poderoso que já pisou na Terra".
Apresentando-se como "herói por hobby", Saitama tinha capacidade de matar monstros de nível Deus e Dragão com um único soco — isso é mesmo real?! — e Genos o conheceu por acaso, quando perseguiram um monstro criado pela Casa da Evolução. Mais tarde, impulsionado pelo desejo de ser reconhecido, Saitama ingressou na Associação de Heróis e o cyborg, sem um segundo pensamento, o seguiu.
Sua devoção pelo herói era tão intensa naquelas páginas que Genos estremeceu em profunda vergonha, sentindo que seu eu do passado se transformara em um tipo muito estranho de fanboy obcecado — e ele teria incinerado os cadernos em dois segundos se não houvesse menções fiéis aos trabalhos do Dr. Kuseno na elaboração de um corpo de batalha útil para sua vingança.
A história contada naqueles cadernos — com monstros geneticamente modificados, invasão alienígena, humanos que se tornavam monstros e tentativas de dominação mundial por criaturas misteriosas — beirava à insanidade.
O mais importante, contudo, foi descobrir que ele realmente conhecia Saitama.
Eles dividiram o apartamento por um ano inteiro e, como se não bastasse, o homem também foi o precursor de uma grande mudança em sua vida e objetivos — tirando-o de um caminho altamente destrutivo e o levando ao mundo dos heróis.
Então, o que aconteceu? Como alguém tão poderoso quanto Saitama acaba se transformando naquela figura deplorável, escondendo-se num apartamento escuro, vivendo uma existência ignóbil? E, mais importante ainda, como ele recuperou o cabelo?!
Após três dias Genos retornou ao apartamento do vizinho com dois objetivos em mente: primeiro, organizar as roupas que deixara separadas e, segundo, investigar que memória Saitama tinha dos incidentes.
A porta continuava teimosamente destrancada e o cyborg lançou um olhar recriminador na direção do homem escondido pelos cobertores. Afora a passagem para o banheiro, que deixara fechada quando saíra e agora estava aberta, não encontrou quaisquer outros sinais de movimento recente no cômodo.
— Saitama-san? — chamou.
O montinho não se moveu.
— Saitama-san? — insistiu.
Nada.
Alarmado pela falta de resposta Genos se aproximou da cama e afastou as cobertas volumosas. O homem se encolheu com a súbita perda do calor, balbuciou algumas palavras desconexas e logo se acalmou, voltando à quietude do sono. Um filete de baba escorria pelo canto da boca e o ressonar pesado denunciava um nariz bastante congestionado, mas no geral ele parecia bem e o rapaz se acalmou.
— Saitama-san? — chamou outra vez.
Para garantir que sua presença seria notada tocou a bochecha pálida, pressionando os dedos gentilmente contra a pele morna. O homem se esticou, empurrou o rosto contra o travesseiro e suspirou pesadamente. Percebendo que não conseguiria dormir olhou para Genos, as sobrancelhas franzidas em confusão.
— Trouxe uma muda de roupa para você. — informou depressa, mostrando a sacolinha colorida.
— Mas eu tenho roupas... — protestou.
— Roupas limpas? — replicou num tom levemente divertido. — Vá se trocar. Estarei lavando tudo hoje.
Para mostrar que não aceitaria objeções sentou ao lado da pilha de camisas e começou a classifica-las entre coloridas e brancas, de linho e lã, e assim por diante. Saitama assistiu a cena por alguns instantes, pensativo, então se levantou e cambaleou para o banheiro.
Agora!
Tomando cuidado para não ser flagrado o jovem cyborg ergueu o olhar discretamente e acionou o escâner de matéria orgânica que pedira ao Dr. Kuseno. Os sensores fizeram uma varredura rápida do ex-herói e Genos reprimiu a exclamação de horror quando recebeu os dados.
Aquelas informações não podiam estar certas.
Revisou as imagens, recalculou as estatísticas.
Os resultados foram os mesmos.
Os tendões e fibras musculares das costas, pernas e braços foram seriamente lesionados, rompidos de maneira preocupante. Ele não conseguia imaginar o que causaria danos tão generalizados, porém, agora entedia porque Saitama parecia tão exausto e fora de forma.
Será que ele se feriu lutando contra os seres misteriosos? Mas, se esse foi o caso... por que nunca disse nada?, Genos contemplou as paredes, uma velha camisa de flanela presa entre os dedos.
Só então ele entendeu. Locomover-se no pequeno apartamento não seria problema, mas descer as escadas? Ir às compras? Carregar sacolas pesadas? Coisas assim demandavam força e certamente desgastariam alguém numa condição tão frágil.
A porta do banheiro abriu e as roupas usadas foram deixadas do lado de fora, no chão. Genos levantou, recolheu as peças e as distribuiu entre as pilhas já organizadas.
Naquele momento, jogando a cueca no montinho mais distante, ele tomou uma grande decisão.
Sentado diante do ex-herói, com as mãos apoiadas nos joelhos e uma bolsa enorme ao lado, Genos lutava para controlar a ansiedade enquanto Saitama o encarava distraidamente, mastigando um bocado de bolo e bebendo o chá que preparara mais cedo. Ele sentia que o homem propositadamente ignorava o elefante branco sentado no meio da sala: sua óbvia tentativa de iniciar uma conversa séria.
O cyborg respirou fundo e reuniu coragem suficiente para lançar a proposta:
— Saitama-san.
— Hum? — ele levantou a vista, a colher presa entre os lábios, a bochecha apoiada na mão.
— Quero me mudar para cá.
— Pensei que você estava morando no apartamento ao lado.
Genos se remexeu.
— De fato, mas estou pensando que seria mais prático morar com outra pessoa. — explicou adotando um tom despretensioso, fingindo desinteresse. — Você sabe, para alguma emergência ou coisa do tipo.
— Oh, bem... — Saitama comeu outra colherada de bolo. — Pode ficar, se quiser. Seu futon está no armário, de qualquer forma.
O cyborg sorriu amplamente.
— Obrigado, Saitama-san!
O homem suspirou.
— Certo, certo. E pare com o "san". Não sou tão velho assim.
Ele tomou o resto do chá e se arrastou para a cama.
Genos crispou os lábios ao olhar para a mesa. A fatia de bolo estava pela metade.
