— Saitama-san...

Silêncio.

— Saitama-san!

— Humm...

— Saitama-san!

— O quê? — o homem empurrou os lençóis, aborrecido.

— Preciso pôr o futon no sol.

— Faça isso outro dia. — gemeu.

— Você disse a mesma coisa ontem... e anteontem... e na semana passada...

O ex-herói resmungou um protesto vago, saiu da cama e se acomodou diante da mesinha no centro do quarto; esticou as pernas, se debruçou sobre o tampo de madeira e em poucos minutos caiu no sono usando os braços como travesseiro.

Genos suspirou.

Fazia duas semanas que se mudara para o apartamento e lentamente conseguira impor alguma ordem no caos. Os cupons foram usados dentro do prazo, os armários e geladeira estavam devidamente abastecidos com alimentos saudáveis e com baixo teor de sódio e o ambiente se tornou arejado e agradável — embora os problemas com o aquecimento persistissem.

Tudo estava bem.

Ou quase.

O ritmo de Saitama continuava o mesmo. Ainda se enrodilhava na cama, dormia o dia inteiro e mal fazia o necessário para suprir as necessidades do próprio corpo.

Segundo os consultores da Associação o comportamento recluso e apatia eram normais, como um tipo de crise existencial aguda já que a função de "herói" caíra em desuso; para o Dr. Kuseno — que não era especialista em comportamento humano, mas que vivera o bastante para entender uma ou duas coisas sobre o assunto —, a questão soava bem mais delicada.

Certa vez, enquanto o cientista atualizava seus sistemas de reconhecimento facial Genos compartilhou suas pequenas descobertas e todas as pequenas coisas que conseguira aprender naqueles poucos dias de convívio. O velho pesquisador não se mostrou nada feliz com as observações.

— Não quero ser alarmista — Kuseno dissera. —, porém seu amigo parece ter alguns sintomas típicos da depressão. Claro, sabemos pouco sobre ele e posso estar me precipitando... a avaliação do scanner me fornece número, não respostas... Mesmo assim, experimente tirá-lo da rotina, veja o que acontece. — então o olhara muito seriamente. — Mas seja cuidadoso... e paciente.

E Genos aceitou essa ideia como sua nova missão pessoal.

Ele pretendia iniciar sua campanha de guerra quebrando pequenos hábitos, coisas banais e fáceis de serem mudadas — melhorar a alimentação e fazer o homem sair da cama eram um bom ponto de partida. Também o instigou a tomar banho e comer em horários regulares, embora fosse difícil fazê-lo mastigar mais do que uns poucos bocados por vez.

O mais complicado era simplesmente convencê-lo a levantar e ficar acordado.

Então, quando avistou o sol cintilando em um límpido céu azul, ele encontrou a oportunidade perfeita para quebrar itinerário do colega — afinal, aquele poderia ser um dos últimos dias ensolarados antes de o inverno chegar e a única chance que teriam de ventilar o maldito colchão.

Cantarolando um estribilho alegre o cyborg estendeu o futon na pequena sacada, aplicou uma fina camada de bicarbonato e pôs os cobertores usados para lavar. Mais tarde bateria a camada de pó e poeira. Por ora seu plano era deixar tudo ao sol o máximo de tempo possível.

Voltou para a sala, deixando a porta da varanda entreaberta, e observou o sono do ex-herói por alguns minutos, atendo ao menor sinal de desconforto com a posição incomum. Ajoelhou-se, considerando seriamente o rosto emaciado, e tocou a ruguinha que ameaçava surgir entre as sobrancelhas finas.

Gostaria de saber o que está pensando, Saitama-san. Seguiu a linha reta do nariz e se afastou. Só espero estar tomando a decisão certa...


Horas mais tarde Genos sentou à mesa com algumas fatias de tonkatsu num pratinho raso e um livro de biologia molecular apoiado sobre os joelhos. O aroma inconfundível de vegetais e peixe cozinhando em shoyo, danshi e sake preenchia o ar. A brisa suave fazia o sininho de cristal na varanda tilintar e uma gralha-azul cantou em algum lugar distante.

Preparar nimono demandava tempo, já que o cozimento dos vegetais tendia a ser lento, e ele aproveitou os minutos extras para revisar as matérias em atraso.

Fazia alguns meses que Genos planejava concluir os estudos, entrar na Escola Secundária, tornar-se um cidadão comum e trabalhar como qualquer outra pessoa. Os membros do alto escalão governamental adoraram essa ideia — diziam que seria uma ótima propaganda em favor da reintegração dos heróis —, e o Dr. Kuseno acreditava que feria bem para ele traçar seus próprios objetivos e decisões agora que não existiam monstros ou vinganças com que ocuparem.

Se ao menos conseguisse se sentir tão confiante quanto eles ou ao menos soubesse qual carreira pretendia seguir no futuro...

Estava no início do capítulo sobre enzima de restrição, mastigando o tonkatsu distraidamente, quando notou um estremecimento passando pelos ombros de Saitama e um ofego assustado antes de o homem sentar depressa, olhando para os lados.

— Que...

— Você está bem? — o cyborg perguntou.

— Eu... — engoliu em seco, balançou a cabeça. — Tudo bem. Sonhei que tinha perdido uma promoção. Não se preocupe.

Saitama esfregou o rosto e, com um bocejo sonolento, apoiou o queixo no tampo da mesa.

Pesadelos.

Um pequeno número da população sofria com sonhos terríveis, visões tenebrosas de coisas que não sabiam serem fantasias insanas ou algum tipo de memória reprimida. Relatos de civis buscando auxílio psiquiátrico não eram incomuns, mas nem de longe superavam o número de heróis buscando auxílio terapêutico para superarem as crises de pânico e ansiedade.

A perda de memória total tinha lá suas vantagens, afinal.

Com o que você sonhou, Saitama-san? Uma recordação? Algo importante?, ele adoraria perguntar, sondar cada pedacinho daquela mente, remexer todos os pequenos detalhes, mas a convivência com o ex-herói lhe ensinara um triste fato: se Saitama não queria falar sobre algo então definitivamente não falaria. Ponto final.

Engolindo a curiosidade, Genos colocou o livro sobre a mesa e ofereceu o último tonkatsu no pratinho.

— Hum... não, obrigado. — devolveu o prato suavemente. E, pressentindo a reprimenda que receberia pela má alimentação, emendou: — Já escolheu o que vai estudar?

O cyborg tartamudeou.

Era surpreendente ver Saitama puxar conversa voluntariamente.

— Ainda não decidi. — admitiu.

O companheiro anuiu, compreensivo.

— Eu fiz contabilidade. — deu uma risada baixa, indecifrável. — Quer um conselho? Não estude isso. A vida de assalariado é uma porcaria, mas não precisa ser um inferno.

Ele era um simples assalariado?, o rapaz se esforçou para imaginar o homem à sua frente em um escritório, vestindo terno, sentado atrás de uma escrivaninha, ouvindo esporro de clientes e organizando pilhas de papéis aleatório. Não conseguiu.

— Então foi por isso que se tornou herói? — Genos perguntou antes que pudesse se conter.

Os ombros de Saitama caíram e o leve traço de humor desapareceu de seu olhar.

— Talvez. — desconversou.

— Deve ter sido fantástico. — insistiu fracamente. Sentia um muro metafórico se erguendo entre eles e não fazia ideia de como impedir. — Salvar pessoas, lutar para afastar os monstros, missões e até fã-clubes...

— Acredite nisso, se quiser. — resmungou amargo.

Subiu as mangas do casaco, moveu o corpo para trás e se pôs de pé, os lábios crispados numa linha fina.

— Eu ainda quero ser útil. — o jovem cyborg disse com firmeza. Levantou a cabeça. — Mesmo que não sejamos mais necessários, quero mostrar que tenho valor, que tenho algo a oferecer. — cerrou os punhos. — É tão ruim assim olhar o reflexo no espelho e querer sentir orgulho do que vejo? É errado querer me encaixar e encontrar um lugar para mim? Sei que não vamos mais salvar o mundo, mas... — baixou a vista, temeroso. — Eu ainda sou um herói, certo...?

Recordou-se dos olhares enviesados que recebia quando circulava pelas ruas de A-City, a maneira como as pessoas recuavam e sussurravam palavras à sua volta. Droga! Já era difícil lidar com a perda dos pais e da memória, então porque ao menos isto não podia ser simples?

Dedos magros apertaram seu ombro. O toque repentino o surpreendeu. Saitama o fitava com uma expressão suave, com um sorriso estranhamente reconfortante no rosto pálido.

— Não esquente a cabeça com essas coisas. — aconselhou. — Você vai encontrar uma resposta. Sempre foi bom para pensar nesses detalhes, então resolver isso vai ser fichinha.

— Sempre? — duvidou.

— É. E também tinha o péssimo hábito de pular na frente do primeiro monstro que aparecia. — bufou. — Eu até quis convencer seu amigo cientista a botar alguns sensores de dor em você, como castigo, mas não ia valer a pena. — deu-lhe um tapinha amigável nas costas, apoiou a mão na parede e cambaleou para a cozinha.

A súbita demonstração de simpatia foi uma mudança inesperada, ainda que positiva, e o reanimou — quem teria suspeitado que por baixo daquela apatia ainda havia espaço para considerar as preocupações e sentimentos dos outros?

O cyborg sorriu, balançou a cabeça e então congelou, em choque.

Espere aí... Quando falou do passado Saitama não usou aquele tom incerto, cheio de dúvidas, que se ouvia na voz da maioria dos cidadãos. Ele tinha certeza sobre o que dizia.

Genos levantou de um salto, quase se jogando por cima da divisória que separava a sala da cozinha. Encontrou o ex-herói descascando uma banana e encarando a porta da geladeira seriamente.

Saitama o encarou, mordeu a fruta e apontou para o cesto de frutas.

— Quer uma?

— Não... — respirou fundo e se obrigou a acalmar os nervos. — Você sabia quem eu era... sabia no momento em que me viu na rua...

— Hum... é. — anuiu distraído.

— E não me contou!? — acusou.

— Oh? — ele mastigou a banana sem se incomodar com a zanga do cyborg. — Bem... como você se sentiria se um desconhecido aleatório dissesse "ei, colega, como vai? Faz um tempo, mas suas coisas ainda estão no meu apartamento. Se quiser pode voltar a morar comigo"? — largou a fruta meio comida no balcão da pia e encolheu os ombros. — Eu me sentiria assediado. Honestamente.

Um silêncio constrangedor tomou conta do apartamento.

Se um cara o abordasse na rua, dizendo que se conheciam e que podiam dividir um apartamento, ele certamente correria na direção oposta o mais depressa que podia. Vendo por este ângulo Saitama apenas respeitara seu espaço pessoal e agira de maneira sensata. Ele deveria ter percebido mais depressa que se conheciam — os diários guardados no armário foram uma boa pista, mas seus circuitos insistiram em acreditar que era puro acaso.

— Eu... desculpe. — murmurou embaraçado.

— Sem problemas, cara. — Saitama retornou para a sala e olhou para o futon, esperançoso. — Ainda vai demorar muito?

Genos observou o homem com carinho, consciente de que aquela era a maneira gentil que ele tinha de dizer "vamos esquecer isso e virar a página".

— Só mais alguns minutos. — prometeu.

Saitama resmungou baixinho e sentou no zabuton, voltando a se esticar sobre a mesa.


No fim daquela mesma tarde, pouco antes de o sol se pôr, Genos cruzou os braços e disse, em tom categórico, que só traria o futon para dentro se Saitama tomasse um banho completo e estivesse devidamente apresentável para o jantar. O homem protestou, gemeu e suspirou, indignado com a óbvia trapaça, mas cinco minutos depois entrou no banheiro arrastando os pés, rezingando sobre cyborgs temperamentais e seu excessivo amor pela limpeza.

A chantagem era inofensiva e em poucos minutos o colchão voltava ao lugar de sempre, com os cobertores dobrados por cima, apenas esperando o retorno de seu dono.

Quando Saitama saiu do banheiro, os cabelos escuros ainda úmidos e a pele agradavelmente corada pela água quente, Genos sentiu o coração — ou o núcleo energético que o substituíra — vibrar em alegria ao vê-lo se sentar à mesa, sem se jogar sobre a cama como temera que fizesse.

Aceitando essa pequena vitória como sinal de que seguia o caminho certo, Genos organizou a mesa e serviu o jantar com inegável satisfação. Pôs generosas porções de gyudon numa tigela funda e organizou o tempura num prato menor, com tsuyu para acompanhar. Os aromas oscilavam entre o cheiro forte da carne e a suavidade dos frutos do mar numa mistura tentadora.

Ficaram quietos por algum tempo, olhando um para o outro, até Saitama suspirar e capturar um bocado de carne com os hashi, mastigando uma pequena porção. Genos queria bater a cabeça na parede até ficar inconsciente — ou no mínimo até esquecer por completo o conceito de "vergonha". Estava ansioso para descobrir o que Saitama lembrava, saber o que realmente acontecera nos últimos dez anos e encontrar alguma pista de como todos perderam as memórias, mas... como tocar no assunto? Como explicar suas dúvidas? Devia apenas puxar conversa de maneira casual e aleatória ou ir direito ao ponto? Será que suas perguntas o ofenderiam?

O jantar transcorreu no mais absoluto, incômodo, e inquebrável silêncio.

A comida desapareceu lentamente das tigelas e pratos e, enquanto a luz do pequeno apartamento se tornava mais intensa o mundo se tornou completamente escuro. De repente, com um murmúrio abafado, Saitama abandonou a tigela e se curvou. O rosto pálido, coberto por uma fina camada de suor frio, se torceu numa inconfundível expressão de dor.

— Saitama-san? Você está bem? — Genos largou a própria tigela, alarmado.

— Estou... — respondeu com voz sufocada e ofereceu um sorriso fraco. — Comi demais, só isso...

Má digestão. Eu não devia ter servido tanto gyudon, o rapaz se encolheu com uma pontada de remorso. Saitama passou semanas — talvez meses — comendo lamen instantâneo e tomando chá verde, era óbvio que uma refeição tão pesada faria mal.

O cyborg rapidamente revirou o armário do banheiro e encontrou uma cartela de pansiron entre as aspirinas e analgésicos. Encheu um copo com água e voltou para a sala, sentando-se ao lado do amigo.

— Beba, vai ajudar com o mal-estar.

Saitama engoliu o remédio torcendo o nariz para o gosto e tomou um pouco da água para ajudar. Genos, sentindo-se mais culpado que nunca, esfregou as costas do homem, esperando que isto aliviasse uma parte do enjoo.

— Aumentar a quantidade de comida não foi boa ideia. — admitiu. — Talvez seja melhor focar no número de refeições.

— Não.

A negativa ligeira o espantou.

— Mas...

— Você não vai preparar refeições extras.

— Mas seria melhor para você. — protestou.

— Pare de se preocupar comigo e foque nos seus estudos. — cortou seriamente. — Você tem um objetivo a alcançar, lembra?

Genos lutou contra o impulso de abraçá-lo.

Saitama entendia o quanto era importante para ele terminar os estudos e, ao que parecia, não pretendia ocupar seu tempo pedindo refeições extras ou qualquer coisa do gênero.

Queria conseguir me lembrar de você também, Saitama-san.

— Vamos combinar o seguinte: as refeições extras nunca podem ser mais complicadas do que preparar um sanduiche ou uma salada. O que acha? — propôs. Vendo a resistência no olhar do outro acrescentou: — Prometo que não vou fazer nada elaborado ou demorado demais. Juro.

— Como se eu pudesse impedir você de fazer qualquer coisa... — suspirou. — Está bem, temos um acordo.

Genos deu um sorrisinho malicioso.

Uma vitória é uma vitória, por menor que fosse.