Uma nova rotina se instituiu entre os moradores do pequeno apartamento nos confins da Zona Morta.
Durante a semana, no início da manhã, Genos limparia, lavaria e prepararia qualquer coisa que precisasse ser limpa, lavada ou preparada; mais tarde, instigaria Saitama a sair da cama e conversar sobre qualquer coisa que o interessasse — o que geralmente rendia diálogos estranhos e propositadamente inconclusivos ("O que tem de tão importante na maneira como cogumelos são marinados?", ele se perguntou após um acalorado debate sobre os melhores condimentos para o shimeki) —; e, quando entardecia, se dedicaria por completo aos estudos.
Nos fins de semana, sem falta, eles sairiam para dar uma volta, às vezes indo ao mercado ou então simplesmente vagando pelas ruas abandonadas.
A despeito da reticencia inicial, Saitama se acostumou ao novo ritmo facilmente. Ele resmungava e arrastava os pés nas primeiras horas do dia — e exibia um prazer especial ao desordenar as pilhas de roupa que seriam lavadas —, mas seu apetite retornara e as noites de sono eram mais tranquilas — embora Genos achasse engraçado o homem fingir estar dormindo sempre que o levava nos braços.
Quem diria que pequenas mudanças fariam tantos milagres? Era incrível!
E, ainda assim, havia um único hábito que Genos não conseguira alterar: uma vez, no dia 15 de cada mês, Saitama desapareceria do apartamento sem deixar rastros e retornaria apenas no fim do dia seguinte, tão exausto e indisposto que levaria dois ou três dias para convencê-lo a sair da cama outra vez.
Genos tentou segui-lo algumas vezes, contrariando as recomendações do Dr. Kuseno sobre "respeito ao espaço e privacidade", mas suas habilidades furtivas eram inúeis. Seu colega de apartamento era sorrateiro como um tanuki e suas armadilhas nunca o impediam de escapar do prédio quando o dia 15 chegava.
Só lhe restava uma alternativa: perguntar o motivo diretamente. Ao Saitama. E por alguma razão misteriosa ele sentia que derrubar uma parede de tijolos com um palito seria mais divertido.
Essa conversa não seria fácil.
Nem agradável.
Mas era necessária.
Então Genos esperou, atento a cada movimento, cada ato que parecesse remotamente singular, e, quando o dia 14 chegou, decidiu que era hora de agir.
As janelas estavam fechadas e o aquecedor zumbia fracamente no cantinho mais ignóbil do apartamento inteiro — o inverno chegaria dali a poucos dias e eles precisavam mesmo comprar um aparelho novo. Livros e cadernos formavam pequenas torres ao lado da televisão e o cheiro de arroz no vapor e torikatsu temperava o ar. De costas para a janela, Saitama assistia a um programa de variedades enquanto esperava Genos se sentar; mal sabia ele que o jovem cyborg estava a um passo de fritar os próprios circuitos calculando a melhor maneira de abordar o assunto.
Suas projeções sempre terminavam mal. O que era ótimo. Se todos os planos davam errado então qualquer resultado ainda seria positivo no fim das contas, certo?
Genos entrou na sala como um soldado em uma missão, o que lhe rendeu um olhar de esguelha por parte do companheiro. Sentou-se em seiza, rígido como uma tábua, e respirou fundo.
Saitama arqueou as sobrancelhas, levemente interessado.
— Amanhã é dia 15. — anunciou solenemente. A sutileza saltou pela janela naquele instante, mas ao menos ele tinha 100% da atenção do ex-herói agora.
— É... — o homem concordou cautelosamente.
— E eu notei que você sempre sai no dia 15.
— Hum...
— Então, eu pensei... posso ir junto amanhã?
O hashi nas mãos de Saitama quebrou com um estalido seco. A postura preguiçosa deu lugar à tensão, mas o cyborg se forçou a ignorar os sinais de aviso.
— Por quê?
— Estou curioso. Só isso. — mentiu. — Achei que poderia aju...
— Não. — foi o retruque áspero. — Você não tem motivos para ficar curioso e certamente não tem como me ajudar nesse assunto.
O silêncio que desabou sobre eles era pesado e ensurdecedor, como uma avalanche.
Não posso ajudar? Não tenho motivos para ficar curioso?, o rapaz crispou os lábios e cerrou os punhos. Então devo simplesmente ficar sentado aqui enquanto assisto você sabotar todo o esforço do mês nesses passeios e não dizer uma palavra sobre isso? Não! De jeito nenhum! Isso não vai acontecer!
Genos e o doutor se esforçaram muito para recuperar a saúde de Saitama e de maneira alguma ele ficaria ali, de braços cruzados, assistindo seu trabalho ser desperdiçado. Bateu as mãos no tampo da mesa, irritado, e fingiu não ver quando o homem recuou.
— Pare com essas saídas! — ordenou.
Os dois se encararam, obstinação furiosa queimando no olhar.
Intimidação não funcionava com Saitama e isto ficou muito claro quando ele jogou o hashi quebrado na parede oposta.
— Não. — redarguiu.
— Você não vê que está prejudicando sua recuperação?! — exasperou-se. Gostaria de amarrá-lo numa cadeira e enfiar algum bom senso naquela cabeça dura, mas o conhecia bem o bastante para saber que seria inútil obrigá-lo a qualquer coisa. — Se você tem alguma esperança de voltar a ser o herói que era...
Saitama riu. Uma risada seca, sem alegria.
— Voltar a ser um herói? Garoto, eu não tenho nenhuma esperança sobre isso.
— Então está se sabotando de propósito por nada?! — a irritação ganhava espaço rapidamente. Podia sentir o núcleo interno fervendo em sintonia com suas emoções.
— Não há o que recuperar! — o homem gritou em resposta. Respirou fundo, subitamente exausto. — Não há o que recuperar. — repetiu baixinho. — Será que é tão difícil entender isso? Mesmo se eu quisesse, eu nunca vou voltar a ser um herói.
— Você pode. Seus ferimentos...
— Esses ferimentos não me preocupam, Genos. — atalhou. A raiva deu lugar a algo mais, a um sentimento que não conseguia classificar, mas que vez ou outra vislumbrava em Saitama quando o deixava sozinho por tempo demais. — Eu simplesmente não tenho moral para me chamar de herói...
E a resposta estava ali, pairando diante de seus olhos, escondida naquelas palavras, mas o cyborg não conseguia decifrá-la, não sabia como chegar até ela.
A mágoa contra o homem diminuiu.
— O dia 15 é importante para você... por quê?
— Eu tenho uma dívida com ela.
— Ela? — titubeou. — Ela quem?
O homem baixou a cabeça, engoliu as palavras, deixou tudo engarrafado.
— Saitama, não posso ajudá-lo se não deixar. — Genos implorou. — Eu não me lembro de você. Você pode se lembrar de tudo, mas eu não. Não sei quem você era, nem o que pretendia, nem como se tornou o "homem mais forte do mundo"... mas estou aqui. Eu vou ouvir.
O ex-herói respirou fundo, esfregou o rosto bruscamente e afastou a tigela intocada.
— Você quer me acompanhar? Tudo bem. Esteja pronto.
Por mais ridículo que seja, o tom monocórdico daquelas palavras atingiram o cyborg como um soco no estômago. A raiva anterior foi surpreendente, verdade, mas aquele tom — aquela voz completamente desprovida de emoção — era mil vezes mais assustador.
Vai ficar tudo bem, prometeu. Seja o que for, amanhã darei um jeito.
Genos ajudaria Saitama, quer ele quisesse ou não.
Antes mesmo de a primeira luz da alvorada despontar no horizonte Saitama já estava de pé. Com o cachecol desbotado ao redor do pescoço, encarava o céu cinzento com uma determinação quase dolorosa. A simples visão daquela expressão abatida fez Genos se perguntar se valeria a pena seguir adiante com o plano. Ele precisava de respostas — desesperadamente, se fosse honesto —, mas não queria ser a causa daquela angústia.
Talvez ele esteja sendo dramático sobre o assunto, pensou. Provavelmente estamos fazendo tempestade num copo d'água, e pensando assim vestiu um agasalho e se aproximou do colega.
— Estou pronto. — anunciou. Olhou ao redor, desconfortável. — Quer comer algo antes de sair?
Saitama se afastou da janela, cabeça baixa.
— Vamos acabar logo com isso.
Marchou para o genkan, calçou os tênis de caminhada e saiu sem olhar para trás. Genos suspirou, pegou um par de luvas extras, e o seguiu em silêncio.
Desceram as escadas, chegaram à rua principal e deixaram para trás o prédio de apartamentos. Andaram em linha reta, direto para a estrada que levava à floresta e dali pegaram uma trilha que serpenteava por entre as árvores.
Genos sentiu uma estranha familiaridade com a paisagem, um sentimento que se tornou especialmente forte ao notar as montanhas destruídas ao longe e a solitária máquina de refrigerantes no meio do nada. Mas Saitama continuou andando, indo mais e mais longe na floresta.
Saltaram por cima de raízes tortas, esquivaram-se dos galhos dos pinheiros e atravessaram um pequeno córrego — Saitama escorregou nas pedras lisas algumas vezes, resmungando sobre o musgo enquanto patinava na lama até a margem oposta. Fizeram uma pausa breve, por insistência de Genos, para que o ex-herói recuperasse o fôlego. Uma corujinha espiou o par e se escondeu novamente entre as raízes do bordo.
— É um lugar bonito. — comentou baixinho, tentando puxar conversa.
— É...
— Nós já estivemos aqui antes?
Saitama estreitou os olhos, desconfiado, e anuiu discretamente.
Genos se animou.
— Eu senti que conhecia esse ambiente! — sorriu. — Nós viemos aqui muitas vezes?
— Não. Viemos aqui apenas uma vez.
— Ah... — observou os arredores. — Então deve ter acontecido algo bem importante aqui.
— Você não faz ideia. — bufou.
Desencostou-se da árvore, sacudindo o limo marrom-esverdeado que cobria a casca e continuou a subida lenta, às vezes escorregando no cascalho, até o chão nivelar e uma trilha de pedras pálidas surgir à esquerda. Ali, no meio da floresta, um pequeno chalé se assentava sobre o chão escuro. Era isolado, cercado por sempre-verdes, com um pequeno jardim frontal — vazio graças à proximidade do inverno — e um tímido lago de carpas, rodeado por pedras de granito arredondadas.
A cabana, feita de madeira avermelhada e com delicadas janelas de vidro, tinha um telhado azul-acinzentado e uma varanda espaçosa, onde um balanço sustentado por correntes esperava pacientemente que alguém viesse usá-lo. Folhas secas se acumulavam nas calhas e na entrada, embora sacos plásticos escuros empilhados na lateral denunciassem um esforço legítimo em manter o jardim limpo.
Genos franziu as sobrancelhas e olhou para Saitama.
Era isso? Ele vinha para a montanha limpar o jardim? Não parece algo sinistro de se fazer, nem perigoso... então por que tanto mistério? E por que isso é tão importante para ele?
Alheio à confusão do companheiro, o ex-herói encarava fixamente um conjunto de pedras colocadas na extremidade do jardim, próximo a uma ameixeira. O cyborg se aproximou da casa, cauteloso, um pouco incerto ao notar palavras toscamente talhadas na pedra.
Saudações anônimas. Memorial para os mortos.
Aquilo era uma lápide.
Alguém estava enterrado no jardim!
Genos estancou, engoliu em seco, se virou para trás.
Saitama continuava no mesmo lugar, olhos fixos nas pedras cinzentas.
— Você queria saber o que faço no dia 15... — falou sombriamente. — Eu venho para cá todos os meses. Mantenho a casa limpa, os peixes vivos, e cuido do jardim. Não é muito, mas é o que posso fazer.
— Por quê...? — Genos se calou, balançou a cabeça, reelaborou as ideias. — Quem está enterrado aqui, Saitama?
Um amigo? Um parceiro? Um colega de trabalho morto em combate?, o rapaz estremeceu. Talvez fosse alguém importante para eles, alguém que deveria lembrar. Mas enquanto olhava para o túmulo solitário ele não sentia a onda de familiaridade que envolvia os outros heróis ou mesmo aquela montanha em particular.
— Eu não sei qual era o nome dela. — o homem respondeu de repente.
Genos abriu a boca, sem palavras, e Saitama rasgou um sorriso amargo.
— Tudo que sei é que eu a matei aqui, neste jardim, e que depois enterrei o corpo dela no meio das flores que ela disse gostar.
Palavras duras, indiferentes, quase como se repetindo uma piada que já se cansara de contar.
Mil pensamentos passaram pela cabeça de Genos naquele momento — incredulidade, incerteza, medo, repulsa —, mas apenas um deles se fixou: monstro.
Ele é louco? Ele matou alguém... uma pessoa... e enterrou no jardim... isso é doentio!, um gosto amargo se instalou no fundo da garganta do rapaz e, se seu corpo ainda fosse humano, teria acreditado que era bílis para completar a náusea.
Saitama remexeu os bolsos do casaco e puxou uma foto desbotada e um dispositivo quadrado, raiado com filamentos cinza-azulados. Estendeu a mão, segurando os dois objetos entre os dedos trêmulos, e esperou Genos decidir se aproximar.
O rapaz o fez, ainda que relutantemente.
A fotografia mostrava uma mocinha sorridente, de olhos azuis suaves e cabelos tão claros que pareciam quase brancos. Havia uma criança ao lado dela, um menino pálido, de cabelos escuros, mas olhos igualmente gentis.
— Essa era ela. — falou baixinho. — E essa coisa eletrônica é sua, eu acho. Não sei como funciona.
Um formigamento fantasma sacudia seus nervos em um reflexo de nojo e foi necessário um esforço atroz para manter os objetos em suas mãos. Seu único desejo era sair dali o mais rápido possível.
Deve ter uma explicação, uma pequena voz em sua mente tentou ser razoável, manter algum rastro de esperança.
— Por quê? — e desta vez a pergunta soou certa. — Por que matou ela?
— Hum...? — Saitama piscou devagar, como se voltasse à realidade. Aquela risada desprovida de alegria soou outra vez. — Mas não é isso o que os heróis fazem? A gente mata quem fica no caminho, certo?
Aquela era a injúria final, um insulto a tudo que Genos acreditava e a tudo que sentia fazer parte dele, e antes que seus circuitos de contenção pudessem funcionar e o arrependimento o segurasse, ele acertou o rosto de Saitama com um soco agradavelmente forte. Não o bastante para matá-lo — oh, não, ele nunca se rebaixaria ao nível de um assassino —, mas o suficiente para o homem cair de costas e o ar ser preenchido pelo som de dentes se chocando e estalando.
— Você não é um herói. — sua voz tremia; fúria mal contida transbordando em cada palavra. — Você é apenas um covarde que se acha um herói.
Sem olhar para trás, apertando a foto e o dispositivo eletrônico entre os dedos, deu as costas à clareira e marchou para longe, esperando nunca mais voltar.
Voltar para o apartamento estava fora de cogitação. Não havia a menor chance de ele pôr os pés naquele prédio outra vez... ao menos não sem se sentir um completo imbecil.
Quando encontrou Saitama pela primeira vez, vivendo sozinho em Z-City apesar dos rumores sinistros que circundavam a região, ele deveria ter desconfiado. Ninguém em sã consciência moraria num lugar daqueles voluntariamente. Era o primeiro sinal de que tinha alguma coisa muito errada ali, e ele o ignorou; preferiu acreditar que o ex-herói precisava de ajuda e apoio.
Que piada.
A doença que consumia Saitama ultrapassava todos os limites, afinal, que tipo de pessoa assassina outro ser humano e continua visitando o local — a cena do crime — como um tipo medonho de zelador póstumo?
Como ele consegue ser tão frio sobre isso?, não parava de pensar. E se ele usou sua influência como herói para acobertar esse assassinato? Quantas pessoas ele enganou? Como conseguiu passar tanto tempo fora do radar da Associação?
Nesse ponto Genos estremeceu.
O clima ficou bastante ruim quando um dos Heróis Classe S se revelou um cientista maluco capaz de criar máquinas destruidoras de última geração sob o argumento de "estar lutando contra o mal maior"; se outro herói fosse acusado de assassinato a reputação da Associação de Heróis e de todos os envolvidos seria irremediavelmente arruinada.
E o pior — o que pesava mais em sua consciência — era que envolvera Kuseno nessa bagunça. Ele jamais se perdoaria se alguma coisa acontecesse ao cientista.
Atormentado por todos esses medos e dúvidas Genos vagou pelas ruas da cidade, abandonou a Zona Morta e perambulou pelos distritos vizinhos. Queria dissipar a energia nervosa que se acumulava em seus sistemas e precisava fazê-lo da maneira menos destrutiva possível.
Caminhar parecia uma boa ideia.
Fome e sono eram necessidades que atendia por hábito e, no momento, optou por ignorá-las. Ele apenas andou. Passou por linhas de metrô inativas e estradinhas esquecidas pelo homem. Atravessou ruas movimentadas, esquivou-se de pedestres distraídos e mal notou os olhares impressionados que recebia em sua passagem.
Entrou em lojas de quadrinhos, vagou por uma loja de departamentos e até fingiu comprar um pacote de turismo completo para uma ilha paradisíaca que não existia — ele tinha quase certeza que o misterioso pontinho colorido no mapa era uma mancha de ketchup.
Anoiteceu, a nevasca prometida chegou, um novo dia começou e Genos continuava sem rumo. Passou por ruas escuras, entrou em parques iluminados, avistou janelas decoradas e até um grupo de bêbados felizes tropeçando nos próprios pés enquanto fugiam de policiais mal-humorados.
A vida seguia serena e impassível como sempre.
Eventualmente uma nova alvorada despontou no horizonte e a neve se transformou num tapete branco sobre o concreto e o asfalto — um tapete que fazia um adulto afundar até os joelhos no pó gelado.
Sentando em um banquinho de praça, com neve acumulada sobre os joelhos e ombros, Genos decidiu três coisas: primeiro, ele nunca mais confiaria em estranhos; segundo, Kuseno precisava ser informado de suas descobertas; e, terceiro, apesar de todos os problemas que a notícia traria, a Associação precisava investigar o assassinato daquela garota.
Assim decidido o jovem cyborg espanou a neve e escolheu o caminho mais rápido para a casa do Dr. Kuseno. O cientista entenderia seus problemas e certamente o ajudaria a lidar com a Associação quando a hora chegasse.
Enfiou as mãos nos bolsos do casaco, estranhando o som metálico que seus dedos produziram ao bater em alguma coisa. Puxou o estranho aparelho que Saitama entregara e franziu o cenho. Tinha se esquecido daquela coisa.
Bem... o doutor talvez saiba o que é, e dando de ombros marchou para Z-City.
Genos encontrou o cientista no lugar de sempre: sentando à mesa de pesquisa, debruçado sobre uma centena de pedaços de metal que, em suas mãos, se transformariam em cosias úteis para alguém ou para qualquer estudo que estivesse focado no momento.
Kuseno se voltou para o rapaz, pronto para cumprimentá-lo, mas bastou um olhar para entender que o jovem não estava em seu melhor humor.
O cyborg contornou a mesa, ainda quieto, ainda incerto sobre como abordar o assunto. Seus dedos rodearam o estranho aparelho no fundo do bolso e, com alívio, decidiu se esquivar das más notícias por mais alguns minutos.
— Encontrei algo.
Estendeu o item e Kuseno levantou, animado.
— Um HD?
— Isso é um HD?
— É um dos meus, uma adaptação que criei. — analisou o aparelho, satisfeito em encontrá-lo sem danos. — Onde encontrou isto?
— Saitama... Saitama entregou para mim. — conseguiu se obrigar a dizer.
O cientista cantarolou alegremente, muito empolgado, e marchou para um de seus computadores, revirando uma gaveta cheia de cabos e adaptadores. Para ele Saitama continuava sendo uma fonte de conhecimento valiosa e não tinha motivos para temer ou desprezar qualquer coisa que ele lhe desse.
Encontrou o que procurava, fez as conexões necessárias e levantou. Notou que Genos não se movera. Achou estranho.
O que houve? Normalmente ele fala sem parar..., olhou para o calendário, buscando alguma pista. Hoje é dia 17 e nevou bastante nos últimos dias... Saitama deve estar sozinho no apartamento e ainda está frio demais. Será que já consertaram o aquecimento? Ah, melhor descobrirmos logo o que temos aqui, assim não deixamos Saitama sozinho por tanto tempo, o cientista pensou inocentemente. Os relatórios sobre o status de Saitama foram muito bons, mas é melhor não arriscar.
Abriu a tela inicial. O número de identificação mostrava que o HD era um dos drives de memória que instalara para acompanhar o desempenho de Genos em suas batalhas. Nenhuma novidade nisso — ele encontrou outros em seu escritório, embora a maioria estivesse danificada por ácidos, explosões ou mesmo descargas elétricas —, exceto que este era o primeiro a ser recuperado intacto.
Genos deve ter deixado esse drive com Saitama em algum momento, concluiu.
O sistema de visualização entrou em ação, exibindo registros de datas, horários, localizações e até o status geral da missão. Tantas opções e informações... mas apenas uma data chamou a atenção de Kuseno: a data do dia anterior ao que todos despertaram sem memória.
A pequena exclamação do cientista — algo que ficou entre um engasgo e o ruído de um ratinho sendo pisado — atraiu a atenção de Genos e o rapaz se aproximou.
O velho sentiu as mãos tremerem enquanto pressionava a tecla de início.
Seria essa a resposta que buscavam?
As imagens correram na tela.
Vários heróis saltavam em cena, lutando contra monstros aparentemente invencíveis. Gritos e xingamentos soavam de todas as direções.
Saitama apareceu, acompanhado por um gorila robótico.
— Já achou a fonte? — Genos perguntou.
— Nas montanhas! — o gorila informou. — Depois da Casa da Evolução.
Mais correria.
Mais monstros.
Os heróis estavam caindo um a um.
Quando parecia que não poderiam ir mais longe, quando os monstros superavam o nível das aberrações comuns, eles chegaram a uma pequena clareira no meio da floresta. Era um lugar bonito — como o paraíso depois do inferno.
Monstros saltaram da terra e atacaram com força redobrada. Genos caiu, mas a gravação continuou. Apenas Saitama estava de pé. Saitama e uma mocinha de vestido azul.
A garota levantou do balanço na varanda e se aproximou.
— Eu estava esperando por você, Saitama-san. — ela anunciou suavemente.
E as palavras seguintes, os eventos seguintes, podem ter surpreendido Kuseno, mas para Genos foram um golpe direto em seu coração.
