J~L
A primeira coisa que James viu ao acordar naquele sábado foi um dragão.
Franziu a testa, sem ter ideia de onde estava, até lembrar dos dragões pendurados em sua cama graças à Remus. Tinha que lidar com aquela decoração forçada, mas aquela não era a sua prioridade no momento. Jogou a coberta para o lado e se sentou, ficando daquele jeito por alguns segundos enquanto deixava sua alma voltar para o corpo definitivamente.
Teve que falar com tantos alunos ontem à noite, que estava com preguiça de abrir a boca hoje. Ninguém o deixava andar pela Sala Comunal depois das explicações da monitoria de duelos, bombardeando-o com perguntas e pedidos. Com Amélia não havia sido diferente. Quando percebeu, o relógio já marcava onze e meia e ele se obrigou a ir embora, cortando delicadamente as conversas. Normalmente, ele sempre aproveitava a noite e madrugada de sexta-feira, mas ele mal havia começado o ano e já se sentia o cansado dos cansados.
Ele não vira Lily mais. Claro, ela estava lá durante as explicações, porque ele a viu naquele momento. Não havia tirado o olho dela enquanto Amélia explicava, já que a ruiva não prestava atenção nele. Quando estava indo embora, tentou achá-la, mas ela não estava perto de ser vista e nem suas amigas. Conferiu o mapa e viu que ela já estava em seu quarto. James havia pensado que poderia ir embora com ela, mas perdera a chance.
Foi em direção ao guarda-roupa e tirou seu uniforme de treino de Quadribol, vestindo-o vagarosa e preguiçosamente. Ficaria o dia inteiro em campo para reagrupamento, fazendo testes com os jogadores e esperando não cair da vassoura de sono. Aqueles testes poderiam ser tão complicados quanto uma reunião de monitores, ou até pior, já que envolve contato físico e alguns alunos não mediam esforços para prejudicar o adversário de vaga.
Estando pronto, ele abriu a porta, pegou sua Nimbus 1500 e se deparou com a porta ainda fechada de Lily. Quando pediu o mapa para Sirius ontem, o amigo já desconfiava o que ele queria ver, então disse que a ruiva parecia chateada com algo antes de ir embora. O que poderia tê-la chateado? Ou melhor: quem a chateou?
James se aproximou da porta e levantou a mão, pronto para bater, mas parou. Eram sete horas da manhã de um sábado, ele era idiota? Lily estaria dormindo. Durante o jantar de ontem, ouviu quando ela comentou com Marlene que adiantaria alguns trabalhos da monitoria hoje e ficaria mais tranquila durante o resto do dia e do fim de semana, então não queria perturbá-la.
A sua vontade de falar com ela era imensa, mas deixaria para depois.
Agora que podia ter conversas com ela, ele ficava animado. Saber que se aproximar e falar com a garota não teria uma reação negativa dela, era como uma injeção de positivismo no dia. Naquele momento, estando cansado e com preguiça de passar o dia todo no campo de Quadribol, aquele pensamento o alegrou. Desceu as escadas e foi direto para o Salão Principal. O time da Grifinória já estava em peso por ali, além de outros alunos que pareciam estar prontos para os testes.
- Por que temos que fazer isso sempre tão cedo? - Sirius perguntou quando James sentou ao seu lado. O maroto de cabelos mais compridos mastigava o mingau com os olhos fechados, como se dormisse.
- Para mais cedo terminarmos.
- Ninguém liga para terminar tarde. Eu só queria dormir mais.
- Se está achando ruim, pode dar a sua vaga para outro aluno.
Sirius se arrumou no assento e abriu os olhos lentamente.
- Eu estou acordado. Eu vou seguir como batedor até o fim, Potter!
- Veremos hoje. - James se serviu de ovos mexidos e bacon.
- Você sempre diz isso e sempre me escala.
- Porque você mereceu, não por ser você.
- Eu sei que você escolheria até um sonserino no lugar da sua mãe, caso ele jogasse melhor. - Sirius resmungou enfiando uma grande quantidade de mingau na boca. - Como foi essa noite com a Monitora-Chefe? Como ela está?
O capitão soltou um leve suspiro.
- Eu não a vejo desde ontem, na Sala Comunal da Grifinória. Ela já estava no quarto quando cheguei.
- Alerta vermelho, Prongs. A cara que ela estava ontem e ter se trancado no quarto tão cedo em uma sexta-feira nos diz que estamos enfrentando tempestades impetuosas.
- Talvez ela estivesse apenas cansada. Eu voltei tarde, então ela já devia estar dormindo.
- Não, não. Escute o que eu te digo: algo aconteceu.
O que poderia ter sido, então? Ela estava normal durante o jantar ontem, as garotas saíram mais cedo para falar sobre garotos, aparentemente, e depois de tudo isso, Lily ficou estranha. Ele não havia feito nada, certo? Ontem, esperava que Lily não estivesse falando sobre outro garoto que estivesse interessada, mas naquele momento sim. Preferia que outro garoto a tivesse magoado, do que ele. Ou melhor: que ela estivesse apenas cansada.
Merda, mil vezes merda. James tinha descido para o café da manhã mais tranquilo, mas agora não iria parar de pensar nas possibilidades. Olhou para os ovos e bacon e começou a devorá-los, chamando a atenção dos outros alunos que, pensando que os testes começariam logo, dispararam em comer também.
- Estamos atrasados? Como isso seria possível, sendo que é quase madrugada ainda? - Sirius perguntou.
- Não estamos. - James respondeu de boca cheia. Deu um longo gole em seu chá e se levantou. - Leve o time e os candidatos até o campo, por favor. - Jogando a perna para fora do banco, pegou sua vassoura e vários alunos o imitaram. - Não, não. Terminem o seu café, Sirius os levará para o campo. Eu chegarei em alguns minutos.
Saiu do Salão Principal e subiu as escadas rapidamente. Pegou uma passagem secreta no segundo andar que daria no quinto mais rápido, onde era o dormitório dos monitores-chefes, e se apressou pelo corredor que começava a encher de alunos famintos. Teve que parar uma hora ou outra para responder algo, mas não se prolongou com as conversas.
Ao entrar na sala deles, não encontrou Lily. Por um momento, torceu para que ela já estivesse por ali, evitando algumas batidas em sua porta. Mas droga, ele não queria passar o dia todo com aquilo na cabeça. Subiu as escadas até os quartos e respirou fundo enquanto se aproximava da porta dela.
Três leves batidas depois e seu coração disparou. Esperava não acordá-la ou interromper algo. Quando a porta abriu alguns segundos depois, teve que segurar o sorriso bobo ao se deparar com os cabelos ruivos bagunçados e um roupão grosso. Os olhos verdes ainda cheios de sono, mas não parecia tê-la acordado.
- Potter?! - ela perguntou não como se estivesse surpresa, mas como se perguntasse qual era o problema.
- Eu não te acordei, acordei?
- Não, eu já estava acordada. - Ela o mediu, percebendo seu uniforme de Quadribol e a vassoura. - O que houve?
Ah! Bom, o que ele poderia falar? Não tinha planejado até ali.
- Estava...ahm...me perguntando se você está bem. - Lily franziu ligeiramente a testa. - Eu não te vi ontem e...- Dane-se, ele falaria a verdade. - Eu soube que você parecia chateada e, honestamente, eu gostaria de saber se eu fiz algo. Eu não me lembro de ter feito algo, mas às vezes fazemos coisas e não percebemos. Eu faço isso de vez em quando, mas espero não ter feito. Mas se eu fiz, o que foi que eu fiz? - Ele respirou finalmente.
Lily o encarava, sem demonstrar nada. James não podia imaginar o que se passava em sua cabeça naquele momento. Será que ela pensava que ele era cara de pau de vir aqui perguntar? Aquela espera, ainda que de poucos segundos, estava matando-o aos poucos.
- Você não fez nada, Potter. - Ela finalmente respondeu.
- Tem certeza?
- Sim, está tudo bem. Eu estava chateada, sim, mas...
- Então...foi algo que eu fiz?
- Não, não foi. Obrigada por vir perguntar e ainda mais ter se preocupado caso tivesse feito algo, mas não é o caso.
Não conhecia bem Lily Evans no sentido de compreender seu olhar, seus gestos. Não ainda. Então não sabia o que aquele olhar significava.
Mas finalmente, ela sorriu. Ah, um alívio o acertou. Ela não parecia chateada com ele. Lily Evans não sorriria para ele caso estivesse, certo?
- Eu posso ir para os testes de Quadribol tranquilo? - Ela riu dessa vez.
- Sim, você pode. Boa sorte, inclusive.
- Eu te vejo mais tarde, então. - Ele sorriu e ia tomar seu caminho, mas voltou.- Aliás, preciso falar sobre a primeira monitoria de duelos. As primeiras horas começarão na segunda-feira.
- Jura? - Os olhos verdes brilharam.
- Sim. Você estaria disponível para...
- Com certeza! - Lily respondeu cortando-o, ainda bem excitada e contente.
- Ótimo. Bem, às 19h te soa bem? - Lily assentiu. - Eu vou te mandar uma mensagem sobre o local na segunda...Digo, todos os alunos receberão. - Ele disse rapidamente, não querendo que ela interpretasse errado. Já era bem arriscado deixar claro que ela era a última aluna do dia e que ele fez de propósito para que ninguém chegasse mais cedo e os interrompesse.
Ele poderia estar indo devagar, mas ele não era idiota de perder certas oportunidades.
- Combinado.
- Então agora sim: eu te vejo mais tarde. - O maroto abaixou a cabeça, a cumprimentando.
- Até mais tarde, Potter.
Com um rosto parecendo mais tranquilo, James desceu as escadas. Quando chegou ao campo, depois de sorrir como um bobo pelos corredores e se sentir mais leve do que uma pena, o kit de treinamento já estava pronto: todas as bolas estavam prontas para serem lançadas, os equipamentos nos lugares e todos os candidatos alinhados no campo, com Sirius parecendo dar um discurso para eles.
- ...então não se esqueçam disso. - Sirius terminava de falar.
- Esquecer o quê? - James perguntou.
- Que Black é o segundo no comando quando você não está. - Disse Midge, o apanhador do time que tinha as sobrancelhas levantadas, mas com certo humor, já que estava acostumado com Sirius.
O capitão apenas deu uma singela olhada para Sirius e preferiu não responder, o que abriu um sorriso no amigo.
- Olá a todos. - James começou e recebeu cumprimentos de volta. - Obrigado por terem se levantado tão cedo neste sábado para o reagrupamento e testes para o time.
- De nada. - Sirius respondeu. James piscou mais demorado e continuou ignorando o amigo.
- Talvez todos saibam, mas o time, por mais que tenha sido vencedor no ano precedente, não tem vagas garantidas. Muito pode acontecer entre os meses do último jogo e o próximo, então vamos testar todos vocês. Há uma grande chance sim do time continuar como no ano passado ou pode ser que uma nova pessoa seja escolhida, mas nós precisamos de reservas e antes que qualquer um desista de ser um reserva, eu tenho que dizer: reservas são de absoluta importância para nós, pois vocês podem ser a salvação de um jogo importante, além de substituir um jogador que pode estar jogando mal ou não se sentindo bem. Cada treino, todos os jogadores e reservas jogam e alguém que está no banco, pode ser escalado no lugar do jogador caso ele se destaque mais. Sem reservas que jogam espetacularmente bem, nós não vamos para frente. E esse é o espírito de equipe que eu quero. Então se você está aqui apenas pela vaga principal, você não tem o espírito para esse time.
O maroto esperou alguém se pronunciar ou dar as costas e voltar para o castelo, mas ninguém se mexeu, apenas o encarando de volta. Satisfeito, ele continuou:
- Acho que podemos continuar. Vou começar pelos testes de artilheiro, o que me inclui, assim eu poderei melhor gerenciar os outros testes. Todos os candidatos para esta vaga, me sigam.
James pegou a goles de dentro do baú e se virou, vendo todos os candidatos para artilheiro. Ele se voltou para os outros alunos, que se deslocaram para fora do campo para assistirem o teste.
- Quem se sentiria apto para apitar essa partida? - Muitas mãos se levantaram, mas James apontou para um terceiranista, que veio rapidamente ao seu encontro. - Macmillan, certo?
- Sim, você sabe o meu nome? - O garoto perguntou feliz.
- Eu já te assisti conduzir alguns jogos de Quadribol pelos jardins no ano passado e fiquei impressionado. Aqui. - James entregou a goles. - Você vai ser o juiz. Apite qualquer falta, pontos e não deixe passar nenhum jogador que conduza ou que fure a goles, ok?
- Ok.
Seis jogadores foram escolhidos de cada vez, se misturando entre novos candidatos e os jogadores do time do ano passado. James trocava de times, tentando ficar com os que aparentavam ser mais fracos às vezes ou fortalecendo um time já bem forte para aumentar o grau de dificuldade. Esse tipo de teste poderia levar um bom tempo e ser bem cansativo, por isso ele sempre começava pelos artilheiros.
Duas horas e meia depois, James tinha os nomes anotados em um pergaminho e convidou todos os candidatos a ficarem para ajudar nos outros testes, se fosse possível. Não se decepcionou quando todos eles ficaram, parecendo animados.
- Batedores! - Ele anunciou. - Alguém precisa de um bastão? - Alguns alunos levantaram as mãos, então Sirius os distribuiu.
- As garotas também serão testadas? - Uma voz veio do meio do grupo ao notar algumas garotas se aproximando para o teste.
- Quem disse isso? - James perguntou, se virando.
O grupo ficou em silêncio, até alguém ser empurrado do fundo do grupo para frente: era um garoto quintanista, mas que James não conhecia o nome.
- Então você é daquele tipo de cara que pensa que Quadribol é apenas para os caras? - Sirius perguntou.
- Não acho que o time inteiro deva ser, mas batedores precisam de muita força. - O quintanista continuou. - Não fui eu quem inventou isso, antes que alguém diga alguma besteira.
- King, poderia vir até aqui um momento?- James pediu. Johanna King era artilheira do time por três anos. Ela saiu de seu lugar, fora do campo, e caminhou até eles. - Johanna foi a primeira escalada no time quando eu me tornei capitão.
- Ela é artilheira. - O garoto disse.
- Sim, ela é. - James entregou o bastão que pertencia à Sirius para a garota. - E ela é uma ótima artilheira. - James continuou a falar, enquanto Johanna montava na vassoura e voava por cima de todos, enquanto James ia até o baú e pegou um balaço, que se debatia em seus braços. - Ela marca pontos como uma faminta, entrega passes para nós com uma perfeição incrível... - James soltou o balaço, vendo-o voar desesperado pelo campo. Todos os presentes levantaram os olhos para o céu. Johanna voou atrás do balaço e o rebateu com muita força, criando um eco por todo o campo silencioso. O balaço desviou e passou pelo arco do outro lado, marcando um ponto. -...e ela rebate balaços como ninguém. Se fosse permitido marcar gols com eles, eu inventaria uma nova posição no jogo e Johanna seria uma celebridade.
Quando Johanna desceu, todos batiam palmas, fazendo a garota agradecer timidamente.
- Se você ainda quiser uma chance nesse time, é melhor você mudar de postura. - Johanna jogou o bastão de volta para Sirius enquanto fuzilava o outro garoto com os olhos.
- O time da Grifinória está focada em ganhar o troféu, em entregar um show para a casa e essa escola, mas se você desfilar seus discursos de ódio e preconceito por ai, é melhor você pensar duas vezes antes de usar o uniforme do meu time. - James finalizou. - Sem mais delongas, vamos começar.
James ficava mais alto do que todos no campo, enquanto tomava nota de cada jogador abaixo. Olhou para o relógio e via que não estavam longe do almoço. Teria que terminar pelo menos com os batedores, assim deixaria os goleiros e apanhadores para a tarde. Estava ventando consideravelmente, o frio do outono chegando aos poucos, então ele demorou para ouvir os gritos e canções vindos das arquibancadas baixas. Arrumou os óculos para tentar ver o que se passava, se eram apenas pessoas tentando animar algum dos candidatos, mas pela distração que estava causando no teste, sentiu que era algo a mais. Respirou fundo e desceu. Quando se aproximava, conseguia ler as faixas e ouvir os cantos de "Queremos o troféu, mas queremos fora Bell". Se aproximou da arquibancada e sorriu para as garotas, as mesmas que estavam em uma confusão com Eric Bell e Sirius na sala comunal.
- Olá, senhoritas! - ele as cumprimentou com um sorriso.
- Não pode escalar Bell, Potter! - uma delas respondeu.
- Iremos boicotar esse idiota até o fim dos tempos. - Outra continuou.
- Nem que isso prejudique o time!- Uma outra parecia furiosa.
Desceu de sua vassoura e se apoiou contra a proteção da arquibancada, ouvindo-as.
- Ele realmente acha que pode sair conosco e depois nos inferiorizar.
- Ok, ok. - James levantou as mãos, tentando acalmar os ânimos. - Vamos conversar e...
Elas começaram a gritar injurias e James se virou, vendo Eric Bell se aproximar com a nítida raiva estampada em seu rosto. O maroto rapidamente montou na vassoura e foi ao seu encontro no ar, espalmando sua mão no peito do grifinório.
- Desapareça daqui antes que eu desconsidere para sempre uma vaga para você no Quadribol mundial. Eu não sei como eu faria isso, mas eu arrumaria um jeito.
- Eu tenho que me defender, Potter.
- O que você tem que fazer é sumir da minha frente neste exato segundo, porque eu estou cansado de ficar limpando suas merdas. Eu vou voltar lá e falar com elas, e você irá subir com os outros batedores e ficar quieto. O que você faz fora de campo também conta, então acho melhor você começar a repensar essas suas atitudes. Eu acabo de falar que não vou aceitar esse tipo de comportamento e agora tenho uma revolta nas arquibancadas pelas idiotices que saem da sua boca.
Bell fechou a boca e pressionou os lábios, parecendo mais nervoso ainda, porém deu meia-volta e subiu até os outros jogadores.
- Como eu ia dizendo, vamos conversar. - James dizia pulando da vassoura novamente e se postando na frente das garotas. - Vocês, então, estão descontentes com Eric Bell.
- Você já ouviu o que ele fala de nós? - Infelizmente, ele já havia escutado, sim. - Ele pensa que ainda estamos nos anos 20, 30? Que devemos obedecer nossos pais, maridos ou irmãos para fazermos as coisas? Que ele nos conquista e depois sai vomitando coisas horríveis para todos, como se ele fosse o cara mais bonzão dessa escola? Não! Estamos quase nos anos 80 e esse idiota quer continuar a espalhar merda sobre nós. Não vamos aceitar! - A primeira garota que havia falado com ele parecia a porta-voz.
James não poderia estar mais de acordo com elas.
- Eu concordo com vocês. Estão corretas 100%. Bell é um idiota. - Ele quase enumerava. - O que acham que devo fazer?
- Tirá-lo do time de Quadribol.- ela respondeu.
Era a primeira vez que James tinha que lidar com uma revolta. E para piorar: uma revolta que ele se via na obrigação de resolver, pois além de capitão do time, ele agora era o Monitor-Chefe.
- Caso ele seja o único entre os candidatos bom o suficiente para entrar no time, o que eu devo fazer? - Ele perguntou verdadeiramente, pois havia esse risco. As garotas se olharam.
E esse era um problema que enfrentava desde o sexto-ano. Os rumores de que Bell era um imbecil começaram quando ele já havia sido escalado e eles estavam no meio do campeonato, sem reservas bons o suficiente para substitui-lo. Mas agora a situação havia se agravado e os rumores se provavam mais do que verdades. Não podia dar um discurso de que não iria tolerar preconceitos e manter Bell no time durante toda a temporada. Tinha que encontrar uma solução para ambos os lados.
- Talvez podemos pedir para a Grifinória ter um jogador de outra casa. - A líder falou. - Sabemos que há muitos alunos que já tentaram passar pelos testes da Grifinória antes.
- Eu não posso aceitar isso como sugestão. Meu time será sempre 100% grifinório.
- Você está dificultando, Potter. - Uma raivosa garota soltou.
- Eu não estou dificultando, mas eu quero ouvir e quero ajudar, mas para isso, vocês precisam me ajudar também. Faremos o seguinte: eu vou terminar os testes hoje e se eu tiver qualquer outro candidato para a vaga, não precisamos fazer nada. Caso Bell se destacar, o que pode acontecer porque, infelizmente, esse idiota é bom...nós vamos conversar novamente. Neste meio tempo, eu gostaria de pedir para que pensem em uma solução para lidarmos com isso. - As garotas olharam para a líder, que encarava James.
- Certo, faremos isso.
- Obrigado. - James subiu na vassoura. - Eu estou aberto para sugestões, de verdade. - Ele acenou e voltou para perto dos jogadores, seus olhos fixos em Bell. - Vamos continuar.
- Está na hora do almoço. - Um deles disse.
- Agradeçam a Bell pela interrupção. Voltando para os seus lugares.
E aquele infeliz era superior a todos os candidatos. Sirius e Eric Bell faziam uma dupla perfeita como batedores, ainda que houvessem dois perfeitos reservas que James gostaria de treinar mais para, assim, poder tirar Bell da posição principal.
Aquele cara havia dado muita razão para as garotas estarem furiosas com ele e mais razão ainda para James querer alguém com aquela fama, fora do seu time. Eric deveria pegar seu tempo de treino de Quadribol e gastar com um bom curandeiro de mente, porque havia algo errado com aquele garoto para falar tanta besteira em pouco tempo de vida.
- Almoço! - ele anunciou, desanimado. Esperava que as garotas tivessem uma boa ideia do que fazer, porque ele não sabia o que fazer para a posição.
A maioria dos alunos se apressaram para pegar o fim do almoço, enquanto James ficava para trás. Já se sentia esgotado e apenas finalizaram a manhã. Normalmente, ele tinha mais energia do que aquilo.
- Podemos ir para a cozinha ao invés do Salão Principal. O que acha? - Sirius perguntou enquanto terminava de fechar o baú com os equipamentos.
Sem responder, eles apenas seguiram caminho. Sirius o conhecia bem o suficiente para saber que aquilo havia sido um "sim", então eles chegaram na cozinha em silêncio. Remus e Peter se juntaram logo depois, vendo-os pelo mapa. Os quatro comeram conversando amenidades, com poucas palavras do capitão.
- O que acha, James? - Peter perguntou certa hora.
- Legal!
Os três marotos olharam para ele.
- Legal? Você, claramente, não estava acompanhando a conversa. - disse Remus.
- Não, eu não estou. Eu estou aqui perdendo a cabeça por conta de um retardado batedor que ridiculariza as garotas desse castelo e que pode arruinar o time esse ano. - Passou a mão pelos cabelos. - Merda, eu preciso resolver esse problema com Bell.
Se levantando, James saiu da cozinha sem dizer mais nada. Talvez Dumbledore realmente havia cometido um erro ao nomeá-lo Monitor-Chefe, porque ele não tinha emocional para aquilo. Sentia vontade de voltar no campo e socar a cara de Eric Bell pelo problema que estava causando e sabia que isso não era o tipo de reação que um Monitor-Chefe deveria ter. Estava passando em frente do Salão Principal, os olhos firmes em seu caminho, então não percebeu que ela estava ali. Lily estava entre alguns segundanistas no canto do saguão, mas a marcha de James chamou a atenção de todos, fazendo Lily dispensar os outros alunos rapidamente.
- Você me parece absurdamente nervoso. - A voz de Lily encheu o saguão, fazendo-o parar.
- Eu estou! - ele respondeu soltando todo o ar e se virando.
- Algo em que eu posso ajudá-lo?
Passou a mão pelos cabelos, os remexendo com força.
- Eu acho que Dumbledore errou e muito em me colocar nessa posição. - Os olhos verdes o encararam, surpresos.
- Por que diz isso?
Rapidamente ele explicou o que havia acontecido no campo, assim como um pouco mais sobre a briga anterior na sala comunal, a qual ele teve que quase separar Sirius e Eric Bell de uma briga física e acalmar as garotas que gritavam. Lily ouvia tudo atentamente. Ele finalizou respirando fundo e se sentindo um pouco melhor. Enrugou a testa com aquele sentimento, percebendo agora que, talvez, ele apenas precisava desabafar. James se virou para ela, encontrando Lily sorrindo.
Seu corpo parecia estar sendo lavado daquela raiva que estivera sentindo, como se tivesse ligado um chuveiro em si e aquele sentimento deslizasse para o ralo.
- Você me parece melhor.
- Eu estou, na verdade.
- As vezes, só precisamos tirar o peso desnecessário do problema para que possamos lidar melhor com ele. - Ela continuava sorrindo e se aproximou. - Escute, você não poderia ter feito melhor ao pedir para as garotas virem com uma solução que lhes agrade, além de banir Bell. Eu acho que banir ou apenas banir alguém do time não traz muitas soluções para o problema e eu tenho até uma ideia em mente que poderia ajudar. Quando acha que terá o time formado?
- Hoje, com toda a certeza.
- Volte para o treino e, então, poderemos falar com elas juntos mais tarde, se quiser. Podemos orientá-las, porque é uma luta justa, mas talvez elas estejam cegas pela raiva e não conseguem ver uma solução que pode servir até de exemplo.
- Eu gosto como isso soa. - James dizia baixo.
- Ótimo. - Lily ia em direção às escadas. - Mais uma coisa: eu acho que Dumbledore fez uma ótima escolha. Poucos Monitores-Chefes ofereceriam essa chance para elas ou lidariam com o problema com o sangue frio. Mais um gesto que a Sra. Potter ficaria orgulhosa.
Os próprios olhos de Lily mostravam o orgulho que sentia por ele antes dela virar e subir as escadas principais.
Voltou para o campo como se tivesse dormido por dois dias e estivesse pronto para passar o fim de semana todo testando jogadores. Os passos estavam tão decididos e firmes, que suas pernas doíam com a descida pelo gramado.
- Goleiros, em suas vassouras. - Ele disse ao se aproximar. Os alunos que se candidatavam para a vaga montaram em suas vassouras no segundo seguinte. - Para o ar! - Eles, assim, fizeram. - King, quero você lá em cima com a goles. - A garota assentiu e foi até o baú para pegar a goles.
Viu de relance quando alguns dos alunos vinham correndo em sua direção, percebendo que o capitão já havia recomeçado o teste.
- Por que você não me chamou para voltar? - Sirius perguntou, chegando um pouco apressado.
- Os batedores já passaram.
- Eu sempre ajudo com os outros também, Potter.
- Então suba. - James jogou a própria vassoura para Sirius, completamente energizado. - Vamos, vamos acabar com esses testes. Quero o time formado ainda hoje à noite. - Ele se virou para os restantes dos alunos: os que já haviam passado para testes de artilheiros e batedores, assim como os que esperavam para os testes de apanhador. - Se quiserem, usem o jardim para treinarem. Peguem o pomo e os balaços. Só peço que não interrompam aqui.
- Você está de bom humor? Eu não entendo esse seu desequilíbrio, Prongs. - Disse um Sirius um pouco desnorteado.
James apenas sorriu e deu um tapa no ombro do amigo. Sentia que o dia havia melhorado e estava pronto para formar o seu time pela última vez em Hogwarts.
Não que aquele sentimento tivesse durado por muito tempo. Naquela mesma noite, as garotas que invadiram o treino de Quadribol encaravam, de braços cruzados, os dois Monitores-Chefes na sala dos monitores. Apesar de Lily não ter tido um sábado cheio tanto quanto James, ela adoraria estar fazendo qualquer outra coisa além de estar "trabalhando", mas não tinha escapatória a partir do momento que aceitou estar naquele cargo.
Ela deu uma singela e rápida olhada para James, que parecia tão feliz quanto ela.
- Bom, o que dizer? - James começou se arrumando melhor na quina da mesa onde se apoiava. - Eric Bell é um tremendo de um idio...- Lily limpou a garganta ao seu lado, interrompendo-o. James sorriu forçadamente para as garotas. - Eric Bell é uma pessoa que nos traz um forte sentimento de desgosto. - Ele olhou Lily de canto de olhos. - E que, infelizmente, é um dos melhores batedores dessa escola. Além de Sirius, ele foi o único que conseguiu mostrar um ótimo desempenho nos treinos hoje. Eu tenho dois outros alunos que serão reservas e com grande potencial, mas que precisam de treino antes de algum deles substituir Bell. Considerando este fato...- James cruzou as mãos em sua frente. - ...o que podemos fazer?
Ele conseguiria conduzir aquela conversa maravilhosamente, Lily sabia. Ela não estava ali para supervisionar ou corrigi-lo, mas para dar o seu apoio e, talvez, ajudar as garotas com uma solução.
- Nós discutimos esta tarde. - A suposta líder, que eles descobriram se chamar Meredith Hugh, deu um passo à frente. - E não vemos nada além de começar com a expulsão dele do time, pois Quadribol é algo extremamente importante para ele e ser privado disso, lhe daria uma bela lição.
- De tudo o que poderia ser feito, expulsão do time é a única solução para vocês? - James perguntou. Lily sentiu que a decepção começava a atingir o maroto. - Nada mais? Ou nada a mais?
- Ele iria chorar horrores, escondido em seu quarto. - Meredith disse, fazendo as outras garotas rirem consigo.
James se virou para Lily. Os olhos do maroto transparecendo muitos sentimentos: desgosto, raiva, consternação, aflição. Ela sorriu, entendendo que era a sua hora de intervir.
- Garotas, vocês me permitem? - A ruiva levantou a mão, como se pedisse para falar na sala de aula. Quando teve a atenção delas, continuou. - Eu estou do lado de vocês. Eu acho que Eric Bell é um desperdício de homem na terra e mal consigo crer que coisas tão nojentas saiam de uma boca tão bonita. - As garotas assentiram. James revirou os olhos. - Ele deve arcar com as consequências do que fala, Potter concorda e espera tê-lo desvinculado da imagem do time da Grifinória, mas eu pensei: mais do que ser privado de algo que ele tanto ama, porque ele não poderia ter uma chance de se retratar, colhendo as sementes do que fez, para poder ter acesso à isso?
- O que quer dizer? - Meredith perguntou.
- Eu quero dizer que o capitão Potter poderia oferecer a vaga para ele com uma condição: desculpas públicas, texto criado por ele, mas corrigido por nós, sala comunal lotada para o anúncio. - As sobrancelhas das garotas se levantaram. - Mais do que tirar algo dele, pior será ter que engolir o orgulho, assumir que é um idio-uma pessoa que nos traz um forte sentimento de desgosto e lidar com o peso de suas palavras. Ou vocês preferem que ele se irrite por alguns dias por não fazer mais parte do time e continuar a ser um desgosto pelo resto do ano? - Lily olhou para James e depois para as garotas. - Eu, como mulher, certamente adoraria vê-lo lendo um texto de desculpas e vendo o orgulho dele indo por água abaixo, porque além de estar dando uma chance de retratação, isso pode mostrar para certos caras que nós não deixaremos mais esse tipo de atitude passar. - As garotas se entreolharam. Meredith parecia bem pensativa, enquanto as outras esperavam por alguma resposta. - Eu nunca saí com Eric Bell e nunca ouvi algo da boca dele sobre mim, ainda que isso não signifique que ele não tenha falado...
"Sorte a dele eu nunca ter escutado nada também", pensou James.
- ...porém eu me solidarizo com todas vocês.
- Pedidos de desculpas? Apenas isso? - Meredith perguntou.
- Retratação pública sobre o seu comportamento, valendo algo que ele acha que é garantido em sua vida. Fica válido que qualquer escorregada no comportamento, acarretará em sua expulsão imediata do time. - Lily olhou para James, que assentiu. - Neste meio tempo, Potter terá tempo de treinar os outros batedores e ter um bom substituto. - Meredith ainda não parecia totalmente convencida. - O que precisamos lutar, como mulheres, não é apenas castigo, como vocês querem. Precisamos lutar pelo respeito e para que isso não se repita. Não queremos Bell nervoso por um dia ou dois, queremos que ele saiba que no momento que abrir a sua boca, nós faremos questão de mostrar que isso não será mais tolerado. Bell nunca lidou com as consequências de seus atos e está mais do que na hora disso mudar. Não vamos mais aceitar esse tipo de comportamento e apenas perder o seu lugar no time não ajudará. Ele precisa passar pela experiência de assumir o que fez e ele deve desculpas para as pessoas que magoou.
- Eu garanto que, depois do primeiro jogo em Novembro, eu terei dois batedores no mesmo nível de Bell e ele não será mais escalado. - James olhou de Lily para as garotas. - Eu farei questão de treiná-los o mais rápido possível.
- Assim, nós teremos dois elementos importantes : a retratação e a consequência do que fez. Ele pode servir de exemplo para qualquer outro que queira agir da mesma maneira. - Lily finalizou.
Após considerar, Meredith pediu para pensar, mas estava inclinada a aceitar. Quando as garotas saíram da sala de monitores prometendo vir com uma resposta até quarta-feira, o dia que James iria convocar o time, os dois Monitores-Chefes soltaram o ar ao mesmo tempo, sentindo a tensão esvair finalmente.
- Eu acho uma boa solução, Evans.
- Eu imaginei que concordaria. - Ela sorriu. - Nem todos pensarão assim, mas eu acho que é um bom começo.
- Obrigado pela ajuda. - James levantou da mesa e deu a volta, sentando-se na cadeira e pegando um pergaminho. - Acho que, como um cara, dificilmente eu chegaria em uma solução assim. Vocês estão com mais raiva e você é mais madura do que elas, o que ajuda muito.
- Nós todos chegamos juntos nisso. - Ela respondeu enquanto franzia a testa. - O que está fazendo? Vai trabalhar?
- Ainda tenho uma reunião com Macdonald. - Ele disse pegando uma pena e começando rabiscar algo. - Menos tensa do que essa, pelo menos.
- Ela fez algo?
- Não. Eu apenas quero ajudá-la. - James explicou rapidamente sobre sua ideia: oferecer monitoria de duelos e um mapa com as passagens secretas. As sobrancelhas de Lily quase pararam em sua nuca. - Eu não tive tempo de fazer o mapa antes, mas posso fazer agora. Eu vou levá-la de volta à torra da Grifinória depois.
Lily estava pronta para responder, quando sua coruja, Eron, começou a bicar na janela e chamar a atenção de ambos. A ruiva foi até a janela e a abriu, pegando a carta e acariciando Eron por alguns instantes.
Era uma carta de Petúnia.
Abriu rapidamente, quase rasgando o envelope completamente:
"Lily,
O responsável pela venda da casa está tentando te contatar e decidiu me ligar para ter notícias suas. Eu não sabia que havia dado o meu número para ele, então me informe na próxima vez que me deixar como contato para alguém.
Tente entrar em contato ele. Obviamente, sem demonstrar que está fechada em um lugar para anormais.
Petúnia."
Sua irmã não poderia ter sido mais seca e direta, ela via. Ela não poderia resolver algo sobre a venda da casa de seus pais, sabendo que Lily estava em uma escola na Escócia, sem telefone? Respirou fundo e dobrou a carta, voltando a acariciar Eron que piou alto para ela, percebendo como sua dona estava desanimada. Não conseguia ver como poderia se aproximar de Petúnia novamente, ou ter algum suporte dela.
- Algo errado?
Lily se assustou com a voz de James, esquecendo que não estava sozinha.
- Problemas trouxas em um mundo mágico. - ela respondeu baixinho, a decepção e tristeza a atingindo a cada segundo que passava. O que poderia fazer agora? Não podia deixar Hogwarts e se encontrar com o advogado. Era tão difícil ter um pouco de ajuda?
Sua mão apertou a carta, amassando-a completamente. Eron, a coruja, piou mais alto e se aproximou, como se quisesse consolá-la.
- Evans?
O chamado de James fez com que Lily se virasse rapidamente e desse um passo em direção à mesa onde ele estava, mas apenas quando trombou com o seu corpo é que percebeu que James estava em pé logo atrás dela. Os bonitos olhos do maroto estavam curiosos e inquietos, a estudando. O olhar de Lily caiu para a boca dele e subiu novamente para os olhos. No momento seguinte, não existia problema: Petúnia? Quem era ela? A única coisa que importava era James ali em sua frente, a apenas dez centímetros de distância, encarando-a de um jeito que era impossível desviar os olhos.
Ele era tão benditamente bonito.
Seus olhos, sua boca, seu rosto completo. Os ombros mais largos, toda a sua altura, seu sorriso, seu corpo em um maldito uniforme de Quadribol, no uniforme de Hogwarts, provavelmente em roupas trouxas também. Provavelmente seria o mesmo caso sem nenhum deles.
Eron piou ao seu lado. Não. Para Lily, Eron gritou, fazendo com que ela acordasse do transe que havia entrado. A ruiva olhou para a coruja, recebendo um olhar de alerta da mesma. O que diabos agora? No segundo seguinte, ouviram batidas no quadro e Mary Macdonald entrava.
James se afastou de Lily e passou a mão nos cabelos, indo até a mesa.
- Hey Macdonald. - Ele disse limpando a garganta, sentando-se e se ajeitando umas duas vezes em poucos segundos. - Por favor, sente-se.
- Oi, Lily. - Mary cumprimentou a Monitora-Chefe e recebeu um fraco cumprimento de volta.
- Eu vou deixá-los a sós. - Lily disse. - Potter tem uma boa ideia para te ajudar. - A ruiva deu um tapinha no ombro da grifinória e saiu apressada.
L~J
A pena voava de sua mão direita para a sua mão esquerda, claramente nervosa. Ambas as pernas balançavam sem parar embaixo da mesa e seu lábio devia estar vermelho de tanto ser mordido. Lily estava na última hora de Aritmância e mal podia esperar para que acabasse. Ao mesmo tempo, queria que a aula durasse mais, para lhe dar tempo de se preparar.
Era segunda-feira e teria sua primeira aula de monitoria de duelos naquela noite e mal podia se aguentar de nervosismo e ansiedade.
Após a pequena cena na sala de monitores no sábado a noite, ela apenas ouviu quando James voltou tarde para o quarto. Ouviu seus passos pelas escadas, depois parando por alguns segundos no corredor, antes dele ir para o próprio quarto. No domingo, ela acordou bem tarde e passou a tarde toda com as garotas no dormitório da Grifinória.
Não, ela não estava fugindo de James depois de, muito provavelmente, deixar claro que ela havia pensado/cogitado/imaginado como seria beijá-lo caso Eron não tivesse berrado em seu ouvido e Mary entrado na sala logo depois. Não, ela não estava fugindo. Apenas queria passar algum tempo longe dele, sem deixar James pensar que, agora que ele parecia estar sossegado em relação à ela, Lily estava interessada nele.
Sua sorte era de mal tê-lo visto nas aulas daquele dia e de não compartilhar a aula de Aritmância com ele, ou ela talvez ficaria mais desesperada ainda vendo-o por ali.
Ela também tinha que parar de pensar naquele rápido momento do sábado e focar na aula de monitoria agora.
Será que ele também estava nervoso? Com as aulas de monitoria, claro. Não com ela, mas com todos? Provavelmente sentia algum tipo de nervosismo, certo? Ele tinha a responsabilidade de mostrar para alguém como atacar e/ou se defender em uma luta. Ela não aguentaria aquela responsabilidade em suas costas. Teria tanto receio de não ter conhecimento o suficiente e alguém morrer por conta de algo que havia ensinado ou deixado de ensinar. Definitivamente não tinha coragem para estar naquela posição.
Céus, ele era louco. Louco e muito bom naquilo. James se sairia brilhantemente bem, tinha certeza.
Quando o fim da aula foi sinalizado, começou a guardar suas coisas vagarosamente. Ainda tinha duas horas até encontrá-lo, então havia tempo o suficiente para ir até a sala de monitoria e avançar com alguns trabalhos, agora que tinha a lista de rondas que Remus havia lhe entregado e teria que informar todos monitores de cada casa.
- Ei, Lilykins! - Marlene a chamou assim que saiu da sala.
- Para com isso! - Ela suplicou. - Você tinha um tempo livre agora?
- Sim, e resolvi te esperar, talvez te forçar a beber um chá juntas ou algo assim? Alice está com Frank em algum lugar desse castelo.
- Se importa se for na sala dos monitores? Preciso fazer algumas coisas por lá.
- Está brincando? Vocês têm os melhores chás naquela sala.
Quando chegaram, Marlene correu para atacar os chás e os biscoitos de mel que eram repostos diariamente. Lily sentou em sua mesa e puxou o pergaminho das rondas de Remus de dentro de sua bolsa. Não havia checado ainda, tendo plena consciência do bom trabalho do maroto e sorriu ao ver que tinha muitas rondas com ele, outras com Amos Diggory da Lufa-Lufa.
E algumas outras com James.
James Potter, com certeza, ficaria cansado de ver sua cara por ai logo menos.
- Qual é a desse sorrisinho travesso, Lily Evans? - Marlene perguntou depositando duas xícaras de chá na mesa e se jogando na poltrona em frente da ruiva.
- Nada, apenas confirmando as rondas. Remus me colocou em muitas com ele e eu estou feliz.
Marlene deu uma rápida olhada no pergaminho enquanto Lily fazia um aceno com a varinha e vários pergaminhos voavam até sua mesa. Algumas penas encantadas depois e ela passava as informações das rondas para cada monitor ter sua própria cópia.
- Hm, eu também vi outro nome ali com o seu.
- Sim, Diggory é um amor, apesar de ser um pouco convencido, às vezes. - Lily respondeu, mesmo sabendo que não era sobre Diggory que a amiga falava.
- Claro, é realmente suas rondas com Diggory que eu me importo.
- Aliás, como foram suas aulas neste oficial primeiro e glorioso dia em Hogwarts, McKinnon?
- Boas. Eu não dormi na aula de História da Magia Avançada graças a uns lufanos idiotas que decidiram explodir as próprias sobrancelhas por motivos ainda desconhecidos. Você sabia que alguém sem sobrancelhas é muito estranho? Seu rosto muda completamente...meio que vira um Pelúcio. Eu não conseguia tirar os olhos deles. - Marlene deu de ombros, rindo, fazendo Lily sorrir para ela. - Tirando isso, foi normal. Tivemos Transfiguração juntas, então você sabe como foi.
- Você esbarrou em Fabian Prewett neste meio tempo?
Marlene revirou os olhos e decidiu que era hora de tomar um gole do seu chá. Lily cantarolou, esperando a amiga terminar seu gole. Quando Marlene fez menção de colocar a xícara de volta à mesa, Lily levantou os olhos para ela, fazendo Marlene levantar a xícara e ocupar a boca com o chá novamente.
- Você não pode evitar a minha pergunta por muito tempo. Logo o seu chá vai acabar, você sabe.
- Dane-se. - Ela resmungou com a xícara ainda na boca, fazendo um barulho estranho.
- Assim como você não pode evitá-lo para sempre.
- Eu não quero voltar com ele, Lily!
- Qual a dificuldade de lhe dizer isso, então?
O quadro da sala se abrindo chamou a atenção de ambas, fazendo-as encarar Severus Snape. O sonserino parou por alguns segundos quando percebeu que havia companhia, mas logo se recompôs, indo até uma outra mesa, do outro lado da sala.
- Aqui é a sala dos monitores.
- Ufa, que bom. Se me falasse que estávamos na cozinha, eu ficaria chocada. - Marlene respondeu de costas para o sonserino. Lily lhe lançou um olhar mortal, mas a amiga apenas deu de ombros.
- Isso quer dizer que apenas monitores têm direito e acesso à sala. - Ele continuou, ainda sem olhar para elas, com uma voz monótona.
- Não é verdade. Alunos podem ter reuniões com os monitores aqui quando convocados.
- Eu não sei se reparou, mas estou falando com a Monitora-Chefe Evans.
- Poxa, seja mais especifico na próxima vez. Com todas as besteiras que tem falado desde que chegou, espero que não esteja choramingando e se perguntando por que James Potter foi eleito Monitor-Chefe e não você, já que está claro que inteligência foi primordial para a escolha.
As duas grifinórias pularam do lugar quando Severus fechou a gaveta com violência, fazendo um barulho alto na sala.
- Se for usar a sala dos monitores para fofocar com seus amigos, isso será reportado, Monitora-Chefe. - Ele disse, dando as costas e indo até o quadro para sair.
- Se eles forem sangue puro também será um problema ou você se incomoda apenas com mestiços e nascidos trouxas? - Marlene cortou Lily, que estava pronta para apaziguar os nervos. - Aliás, fiquei sabendo que você é monitor de duelo da Sonserina. Quando vai começar a ajudar seus pequenos amigos Comensais a não lavarem as cuecas ou os cabelos?
- Marlene, chega. - Lily pediu, ainda sem olhar para o sonserino.
- Não, Lily. Eu não vou pegar leve com esse tipo de gente. Dizem que haverá uma abertura do clube de duelos quando as monitorias avançarem. - Marlene se virou e encarou Severus. - Eu mal posso esperar para acabar com um dos seus amiguinhos Comensais e ver você sendo devorado vivo por algum de nós.
Lily podia sentir a onda de ódio que Severus emanava, mesmo ele estando razoavelmente longe delas. Não podia imaginar a raiva que sentia em ter James como Monitor-Chefe, já que sabia ser uma das suas grandes ambições desde os primeiros anos.
Sem responder, Severus apenas deu as costas e partiu, batendo o quadro na sua saída.
- Desnecessário, Marlene. Muito desnecessário e gratuito.
- Você está brincando, certo? Você sabe no que ele está se tornando, Lily, e não são apenas rumores. Abra os olhos e perceba que aquele bizarro Severus Snape de antigamente, que ficava atrás da sua saia, não existe mais. Ele, agora, fica embaixo das saias de Voldemort, provavelmente o...
- Chega, Marlene. - Lily a cortou, respirando fundo. - Não precisa me dizer no que ele está se tornando, pois estou bem ciente, obrigada.
Para a sorte de Marlene, algo voando pela porta chamou a atenção de ambas e parou o sermão de Lily: era um passarinho de pergaminho que batia suas asas docemente pela sala, dando uma grande volta bem perto do teto e mergulhando com classe para a mesa, parando em frente da ruiva.
- O que é isso? - Marlene perguntou.
- Não faço ideia.
A ruiva aproximou a mão vagarosamente do passarinho e parecendo reconhecer Lily, ele piou e se tornou um pergaminho dobrado. Ela o desdobrou cuidadosamente, pensando em não machucar o passarinho, ainda que ele não existisse mais.
"Terceiro andar, sala vazia ao lado da estátua da Gunhilda de Gorsemoor"
Reconheceu a letra de James e ter sido trazida de volta ao fato de que logo menos iriam se encontrar, sentiu um frio na barriga. O pergaminho se tornou um passarinho novamente. Ele cantou e bateu suas asas alegremente e começou a voar em torno de Lily, passando por entre seus cabelos, brincando com eles e lhe causando cócegas no pescoço, fazendo Lily rir. Ele voltou a pousar na mesa e olhava para Lily e cantarolava, como se conversasse com ela. No instante seguinte, ele voltou a ser um bilhete.
- E então? - Marlene franzia a testa, mas tinha um sorriso pela cena.
- Eu apenas recebi a informação sobre a sala da monitoria de duelos mais tarde.
- De James? - A amiga perguntou, parecendo indignada.
- Sim, por quê? Você não recebeu a sua? Sei que sua monitoria será antes da minha.
Marlene se mexeu na cadeira, tirou um pergaminho do bolso e entregou para Lily. A ruiva o pegou e leu: era a mesma informação que havia recebido. Ela levantou os olhos para a amiga, sem entender. Marlene revirou os olhos.
- Eu recebi isso por uma coruja, pela coruja de James. Simples assim. Não foi um pergaminho transfigurado que voa e canta para mim e ainda brinca com os meus cabelos.
- Está com inveja? - Lily perguntou, rindo. - Reclame com ele, não comigo.
- Eu não estou com inveja.- Marlene agora abria um sorriso sacana. - Estou apenas te mostrando que James não desistiu. - Lily se recolheu em sua cadeira, levantando uma sobrancelha. - Não se faça de desentendida.
- Ele não deve estar com a coruja dele agora, provavelmente entregando outro pergaminho.
- Claro, Lilykins, é por isso mesmo que ele perdeu minutos do dia dele com uma transfiguração esperta dessa. O passarinho estava brincando com você, ele não brincou comigo, ele nem se importou com a presença de outra pessoa...
- Nossa, que ciumenta. - Lily a cortou, rindo, mas apenas por querer acabar com aquela conversa. - Por falar nisso, você não tem que se preparar? A sua monitoria com ele será em trinta minutos.
- Me preparar? Você quer que eu me prepare como? Coloque um novo uniforme, perfume? Isso é com você, querida.
Lily revirou os olhos e focou novamente em seus papéis, ignorando Marlene que continuava tagarelando e tentando parar de olhar a cada dez segundos para o pergaminho que recebera.
L~J
E aquele mesmo pergaminho que recebeu estava em suas mãos agora. De onde estava, ela podia ver a porta aberta, praticamente a chamando. Era loucura estar tão nervosa daquele jeito. Seria apenas uma aula com James, lhe mostrando como duelar/defender/atacar. O que tinha demais nisso, afinal?
Será que ela faria papel de idiota? Ele riria dela? Olhou para o relógio e viu que faltava um minuto para o seu horário. Certo, se fosse devagar, talvez ela chegaria na porta da sala no tempo certo, nem mostrando ansiedade e nem desrespeito com um atraso.
Deu passos leves e vagarosos pelo corredor vazio, tentando não fazer barulho e anunciar que estava andando como um pinguim. A porta se aproximava cada vez mais e seu coração explodia de nervoso. Era uma pena não ter encontrado Marlene após a monitoria dela, pois adoraria saber o que havia acontecido, assim ela estaria mais preparada.
Quando virou e entrou na sala, se deparou com um sorridente James Potter encostado em uma mesa e olhando para a porta. Não sabia qual era a graça, mas ele parecia estar gostando de algo.
Dando um pequeno toque em cima da mesa e murmurando algo, Lily viu um pergaminho se fechando e James colocá-lo no bolso de sua calça. O sorriso ainda lá, estampado. De repente, toda aquela preocupação em encontrá-lo se dissipou e apenas uma excitação em estar ali a tomou.
- Você parece feliz. - Ela comentou, parando um pouco distante dele.
- Podemos dizer que estou divertido. - James respondeu se afastando da mesa e indo até o meio da sala. - Teve um bom dia de aula, Monitora-Chefe?
- Podemos dizer que sim, não tão animado quanto o de Marlene e uns lufanos sem sobrancelhas durante História da Magia, mas não tão ruim. E o seu?
- Nada mal, ainda que preferiria ter visto alguns lufanos sem sobrancelhas. - Eles sorriram e James deu de ombros, colocando as mãos nos bolso. - Mal nos vimos ou trocamos palavras desde sábado e olha que nós dividimos um dormitório agora. - Ele deu uma leve tossida. - Muito ocupada?
- Ah! Sim, bem...estive resolvendo alguns problemas e fiquei com as garotas o domingo inteiro.
- Espero que tenha resolvido o problema. - Ele soou simpático, como se realmente se importasse pelo assunto.
Não querendo dizer que ainda estava tendo surtos após a carta de sua irmã, Lily sorriu e assentiu. Estava na hora de deixar as coisas ruins de lado por um momento e pensar nas boas. E que por falar nisso...
- Eu gostei bastante do seu bilhete hoje. - Ela se permitiu dizer com toda a coragem que coletou em menos de um segundo. Pegou o pergaminho na mão e o mostrou. James sorriu verdadeiramente.
- Espero que ele não tenha interrompido nada importante.
- Ao contrário, chegou na hora perfeita.
James estalou os dedos e o pergaminho ganhou vida. O passarinho parecia acordar, um pouco desnorteado, mas ao ver Lily, ele piou contente e começou a voar pela sala. Os dois Monitores-Chefes acompanharam o voo longo e feliz. O passarinho desceu enquanto cantava alto e se aproximou de Lily, a rodeando e fazendo alguns fios ruivos voarem com o bater de suas pequenas asas, se aconchegando em seu ombro direito.
- Você controla o que ele faz? - Lily perguntou fazendo um pequeno carinho na "ave".
- Não. Isso é entre vocês. - James não tirava o sorriso do rosto ao ver a interação entre os dois. Ele, realmente, não tinha nenhum controle, mas sabia que a magia envolvida tinha ligação com os seus sentimentos e achava melhor não explicar essa parte.
- Todos nós recebemos a informação assim? - Ela perguntou se virando para ele. Lily tinha um olhar examinador, o que deu a James a impressão de que ela já sabia a resposta.
- Não. - ele respondeu e tossiu, como se tentasse ganhar tempo. - Mensagens enviadas de diferentes formas para diferentes pessoas. - Ele respondeu vagamente.
- Certo. - A ruiva parecia segurar um sorriso. - De qualquer forma, eu gostei da minha. Obrigada.
- Disponha. Pronta para começar, então?
Sem querer deixar mais margem para uma conversa que poderia se tornar constrangedora e que James não previra quando mandou aquela mensagem, ele acenou e o passarinho voou até uma mesa, virando um pergaminho novamente. Lily foi até a mesma mesa e colocou sua bolsa, tirando sua varinha da saia e indo em direção ao moreno. James levantou as sobrancelhas quando ela se virou para ele.
- Onde pensa que vai com essa varinha, Evans? - Ele perguntou, cruzando os braços.
- Isso é ou não é uma aula de duelos?
- Monitoria do clube de duelos. - Ele a corrigiu. - Mas vamos nos acalmar aqui, certo? Nós não vamos simplesmente nos atacar até você aprender.
- Ora! - Ela exclamou, colocando as duas mãos na cintura. James começou a rir.
- Guarde sua varinha, ok? Você não precisará dela agora. - Lily começou a guardar a varinha novamente, frustrada. - Mas estou feliz em ver que você mal perde por esperar para me atacar e talvez me mandar para a ala hospitalar.
- Este é um dos motivos, sim. - Ela concordou e sorriu.
Parado ainda no meio da sala, James a convidou a se aproximar com um aceno de cabeça, conjurando uma poltrona em sua frente e apontou para Lily se sentar. Quando ela se aconchegou, ele conjurou uma poltrona para si e se sentou à sua frente.
- Certo, Evans. Eu sei que você esperava me transformar em um monstro ou algo assim, mas antes de chegarmos nessa fase, precisamos discutir algumas coisas. Desculpe pela decepção, mas vamos mais discutir do que agir hoje. - Ele viu a curiosidade estampada no rosto da ruiva. - Por exemplo, eu quero ouvir de você o que sabe sobre duelos.
- Eu não estava esperando por essa pressão, apenas muitos feitiços voando por toda essa sala, quebrando coisas, fazendo um tentáculo nascer do seu rosto ou algo assim.
- Estou começando a achar, de verdade, que você pediu para estar nesta monitoria apenas para acabar comigo. - Ele apoiou o calcanhar em um dos joelhos. Lily se limitou a dar um leve chacoalhar de ombros e se deixou aconchegar na própria poltrona, pensando.
- Honestamente, eu nunca li muito sobre duelos em si. Eu ouvi, uma vez, que Flitwick é um campeão em duelo; eu sei sobre as mesuras e respeito; que feitiços não-verbais são mais apropriados para a velocidade do ataque etc.
- Certo, você tem conhecimentos gerais sobre duelos. - James apoiou o cotovelo no braço da poltrona e tamborilou os dedos na boca por alguns segundos. - Precisamos aprofundar isso. Porém, como eu sei que o seu interesse nessa monitoria não é para ser uma duelista profissional e sim para usar no seu dia a dia, se defender e tudo o mais, há coisas muito importantes, mais do que cumprimentos, padrinhos de duelo e que tipo de posição deve usar em apresentações.
- Eu deveria estar anotando tudo isso? - Ela perguntou, de repente se sentindo despreparada.
- Não há necessidade. Tudo o que falarmos hoje, você irá lembrar. - Lily assentiu e aguardou, enquanto James a fitava por alguns segundos, parecendo analisar a situação. - Eu quero falar com você sobre algo bem específico hoje...algo que eu acho que pode ser uma distração enorme.
Lily se desencostou e se sentou mais na ponta da poltrona, curiosa.
- Certo, estou ouvindo.
- Eu nunca a vi duelando, então eu não posso dizer o quão boa é, porém eu sei que você é ótima com feitiços. - Lily abriu um sorriso, contente consigo mesma. - Mas...o que eu tenho receio é algo que eu sei ser uma das suas grandes qualidades. E isso, Evans, você não pode trazer para um duelo.
- O que é? - Ela se pegou perguntando como uma criança que ouvia uma história para dormir.
- Suas emoções!
Os olhos verdes se abriram com surpresa.
- Minhas emoções?!
James assentiu e se levantou, pedindo para que ela fizesse o mesmo.
- Estamos lá fora, no meio de uma guerra e você se depara comigo. Eu estou apontando a varinha para você, pronto para te atacar. O que você faz? - Ele imitou o gesto, ainda que não segurasse a varinha de verdade.
- Você não seria um maldito Comensal, Potter. - James apenas abanou a mão, pedindo para ela desconsiderar aquele fato.
- Você cruzou comigo, James Potter, no meio de uma batalha e eu estou pronto para te atacar. O que você faz?
- Bem, eu...talvez eu...
- Nesta hesitação, eu poderia ter te matado três vezes.
Engoliu em seco.
- Você diz que eu devo atacar alguém que eu sei que está do meu lado?
- Eu estou dizendo que eu estou apontando a varinha para você e estou pronto para te atacar. Eu poderia estar sob o Imperius e, simplesmente, te matar.
Certo, aquilo era verdade. Além de óbvio. Então não, não poderia trazer suas emoções para um duelo, já que ela nunca atacaria um de seus amigos ou alguém que tivesse certeza de estar ao seu lado.
Ela tinha muito a revisar ainda.
- Quando estiver lá fora, terá que se lembrar que a única pessoa que você sabe que está cem por cento do seu lado, é você mesma. Todo o resto deve estar sempre sob suspeitas, porque seus olhos não estarão por todos os lugares e você nunca saberá tudo o que acontece. - Ele viu quando os olhos de Lily pareciam vacilar em decepção consigo mesma. - Veja, só por ter vacilado agora comigo, não quer dizer que você vacilaria comigo lá. Eu mesmo vacilaria caso fosse o contrário.
- Sério?
- Eu obviamente demoraria muitos segundos para realizar que você estaria sob um Imperius e minha mente nunca pensaria em te atacar de primeira e, nesse meio tempo, você já teria acabado comigo. Por isso eu repito: não traga suas emoções em um duelo. Ok? Não as deixe te controlar, porque se um dia elas podem te dar força, no outro elas podem te nocautear ou pior.
Lily voltou para a sua poltrona, pensativa e se sentou.
- Poderemos ir um pouco mais a fundo nisso? - Ela começou e James assentiu, sentando-se novamente. - Quer dizer que se eu estiver em um duelo um dia, com meus amigos, meu marido ou meus filhos, eu devo esquecer que eles estão lá e...- Ela levantou os braços, perdida.
- Defender alguém é diferente de deixar suas emoções tomarem conta. Vamos pegar o exemplo anterior novamente: você está em uma batalha com Marlene. Vocês estão juntas, ela de costas e eu apareço apontando a varinha e pronto para atacá-la. O que você faria?
- Eu, com certeza, te pararia!
- Aí está! Você a estará defendendo e essa é a grande diferença. E eu sei que faria isso por qualquer pessoa, independente de seus sentimentos por ela. Não é um jogo de emoção quando você impede outra pessoa de atacar outra, mas mais de lógica. Você está vendo uma pessoa que, dentro de seus julgamentos, está do seu lado e exposta. E do outro lado, alguém que você conhece, mas que está pronto para atacar a outra pessoa. Na lógica, algo está errado comigo e você deve me parar. Então esse é um dos principais pontos que eu queria discutir e que eu quero trabalhar: em um duelo, em uma briga onde há feitiços sendo lançados para todos os lados, feitiços que podem mudar o comportamento das pessoas e que tem um potencial alto de te matar, você tem que se manter mais lógica.
Aquilo fazia muito sentido. Como nunca havia se interessado tanto pela arte de duelar, não era um assunto em que pensara muito naqueles anos. Claro, ela sabia usar os feitiços e os conhecia, mas nunca se aprofundou no assunto. Duelar era muito mais do que levantar sua varinha e lançar feitiços, torcendo para ser mais rápido e mais esperto que a outra pessoa e teria que aprender aquilo.
- Considerando o que disse, o exemplo com Marlene, é verdade que eu me veria estupidamente parada e incrédula, pensando que você não seria capaz de atacá-la, mesmo que isso passasse por apenas um segundo em minha mente, mas um segundo que poderia custar a vida dela.
- Exato! Você parece ter pego a essência do que eu disse. - James pareceu contente.
- Eu entendi e gostei. Podemos treinar isso? - Ela se levantou e tirou sua varinha do bolso. James riu.
- Evans! Por favor. Na próxima vez, eu vou proibir que entre com a sua varinha nessa sala.
- Perdão, professor Potter? - ela disse em tom jocoso. - Não sabia que você tinha esse poder todo.
James se levantou e se aproximou.
- Ok. Você está louca para lançar uns feitiços por aí, então vamos fazer isso agora, já que você não parece ter paciência para esperar o fim da aula. - Os olhos dela brilharam, fazendo James sorrir para ela. - Mas não comigo!
A decepção dela foi bem visível, já que ela não tentou esconder. James acenou para um grande armário no fundo, causando um grande barulho quando um boneco desengonçado, quase como um robô estranho, saísse dele.
- O que é isso? - ela perguntou.
- Seu inimigo. - ele respondeu. - São da escola e preparados para um duelo. Não são tão bonitos quanto eu, desculpa.
- Nem convencidos. Menos uma razão para atacá-los.
James sorriu e levantou os ombros, como se pedisse desculpas.
- Certo. Ao seu lugar, Evans. Eu quero que você lance um Flipendo Duo.
- Por que não um Flipendo Tria? - Ela perguntou, sabendo que o Duo era considerado um feitiço do segundo ano.
- Aos poucos, Monitora-Chefe. Já estamos começando no meio com o Duo.
Lily apontou sua varinha.
- Flipendo Duo!
As faíscas vermelhas saíram de sua varinha e o boneco voou com tanta força para trás, batendo contra a parede, que conseguiu arrancar pedaços do muro. O pobre alvo caiu sem se mexer. James olhou do boneco e depois para Lily, e depois de volta para o boneco. Ele fez um aceno com a mão, fazendo o boneco se levantar, como se ganhasse vida novamente, voltando para o lugar inicial.
- De novo, por favor. - Ele pediu.
- Flipendo Duo!
O mesmo resultado. Mais pedaços de muro caíram no chão, acertando o pobre boneco desacordado. James parecia pensativo antes de reanimar o boneco.
- Vamos fazer de novo, mas diferente.
- Não está bom o bastante? - Lily perguntou. Ela era um pouco orgulhosa de alguns feitiços e este era um deles.
- Eu nunca vi um Flipendo Duo quase parecendo um Tria. - ele disse, se aproximando dela. - Mas eu acho que podemos reforçá-lo ainda mais.
- Sério? Como?
- Levante o seu braço, como se fosse atacá-lo. - Lily o fez. James veio até seu lado e levantou o braço dela alguns centímetros a mais. Lily se forçou a não olhar para ele tão perto de novo. - Agora!
Estava tão desconcentrada com a mão de James segurando seu braço, que não percebeu que soltou o feitiço não-verbal. Quando a luz vermelha atingiu o boneco, este mesmo voou ainda mais rápido e, ao invés de acertar o muro, ele cravou no mesmo com tamanha força.
Lily arregalou os olhos, não esperando aquilo.
- Uau! - ela disse.
- Um grande "uau". - James foi até o boneco, analisando a pobre criatura que parecia desmaiada, alguns centímetros enfiada dentro do muro. - Eu mal posso esperar para ver o seu Tria. - Ele se virou e ria. As bochechas de Lily coraram, mas ela ficou tremendamente orgulhosa de seu resultado.
- Então, qual foi aquilo de mirar mais acima? - A ruiva perguntou.
- Onde você mirou estava ótimo, mas alguns feitiços, quando mirados um pouco mais acima do coração, tem uma potência ainda maior. - James tirou o boneco da parede com magia, já que ele não seria capaz com as próprias mãos, e se virou para ela. - Tudo o que eu posso dizer é que eu não quero ser alvo do seu Flipendo. - Ele fez algo com o boneco, o acordando novamente. - Está pronta para o Tria?
- Sim.
James, inteligentemente, saiu do meio e se postou ao seu lado.
- Lance como você lançaria, primeiramente.
- Ok. Flipendo Tria!
O feitiço acertou o boneco como se fosse um tornado, fazendo-o se debater no ar, antes de atingir a parede e cair no chão. Lily se virou para James, esperando a reação dele, mas o maroto apenas balançava a cabeça.
- Agora, mirando mais alto. - Ele segurou seu braço novamente, o levantando um pouco mais.
- Flipendo Tria!
O vento foi tão forte, que Lily fechou os olhos com a poeira que levantou. Reabriu-os no momento que o boneco acertava o muro e ficou preso novamente, ainda mais fundo na parede como anteriormente.
Aquilo era genial, pensou ela. Não sabia que poderia melhorar ainda mais algo que já achava muito bom. Saindo do choque do seu feitiço, ela percebeu que ainda tinha a varinha apontando para frente e a mão de James segurando seu braço.
- Por que você está na monitoria de duelos mesmo? - James perguntou em um tom de piada e soltando-a.
- Para você me mostrar que tenho que levantar mais o meu braço. - ela respondeu.
- Apesar do seu feitiço já ser mais forte do que o normal, não se esqueça.
- Você poderia me mostrar como é o seu feitiço?
James se virou para ela, uma sobrancelha levantada.
- Está querendo se gabar, senhorita Evans?
- De jeito nenhum, senhor Potter. - ela respondeu com as mãos para trás e sorrindo angelicalmente. - Apenas gostaria de confirmar o quão bom o meu feitiço é.
Balançando a cabeça, James levantou o boneco e foi até sua bolsa, pegando a própria varinha. Lily estranhou ele não estar com a varinha consigo. Dando lugar para ele, James se postou onde Lily estava antes:
- Flipendo duo!
O jeito que ele manuseou a varinha e o feitiço era diferente, ela diria. James era rápido e tinha uma destreza que ela nunca teve. Talvez eram diferenças sutis de nascidos trouxas e puros sangues? Ou de alguém que estava acostumado a azarar pessoas antes?
A segunda coisa que reparou foi na diferença entre seus feitiços. O dele foi muito bom, atingindo o objetivo com o boneco, mas o seu era mais forte.
Ah, o orgulho que sentiu!
- Diminua o seu sorriso, Evans, antes que eu pense que você está muito feliz por ser melhor do que eu.
- Isso te incomoda, Potter?
Ele foi até sua bolsa e guardou a varinha novamente, intrigando-a ainda mais.
- Não, eu acho ótimo que você saiba usar um feitiço desse tipo com tanta força. - O maroto parecia verdadeiro com as palavras. - E eu fico feliz em saber que você me parece tão preparada para derrubar alguém quanto eu pensava.
- Obrigada. - Lily assentiu, contente com as palavras dele. - Acho que estou pronta agora, então. - Ela continuou, segurando a varinha e se colocando no lugar.
- Para que?
- Para começarmos a duelar.
James revirou os olhos.
- Não, você está pronta para sentar naquela poltrona de novo. Isso aqui era mais para o fim, quando tivéssemos terminado de passar os outros pontos principais.
- Não vamos mais lançar feitiços por aí e por aqui hoje? - ela perguntou.
- Apenas se necessário, mas não acho que será o caso.
- E se eu insistir?! - Lily tentou fazer uma cara de pidona. O maroto pareceu vacilar, abrindo a boca e depois a fechando. A ruiva riu. - Francamente, Potter, você é muito mole com os seus monitorados.
O que ela não sabia - e que ele nunca diria -, era que ela era a única monitorada que poderia arrancar qualquer coisa dele com aquele olhar. Aquele era o nível de idiota apaixonado que James Potter sabia que era.
Como James havia explicado no começo, aquela era mais uma aula teórica do que prática. Eles passaram os restante do tempo discutindo sobre feitiços que Lily achava essenciais e feitiços que James incluiu na lista para que eles treinassem juntos nas próximas monitorias. E no geral, ela não poderia estar mais feliz com aquela primeira aula. Não havia feito um papel de idiota, não havia se envergonhado e James parecia contente com o que vira e ouvira. Pelo menos, era o que ela achava.
- O que eu posso dizer? - James começou, jogando a bolsa em seu ombro. - Eu mal posso esperar pela segunda aula, Evans. Você está muito mais avançada do que a maioria.
- Incluindo Marlene?- ela perguntou.
- McKinnon é muito boa, eu apenas preciso trabalhar sua atenção. Ela se distrai facilmente.
- E você quem me diz isso? - Lily murmurou, conhecendo a amiga.
- Eu já tenho todo um plano de aula para aquela cabeça distraída. Ela não terá escapatória.
- E o que fará comigo nas próximas aulas? - ela perguntou. Apenas quando terminou de falar, percebeu o quanto o seu tom e as palavras poderiam ser interpretados de outra maneira. Bom, ela já havia dito, não tinha como recuperar as palavras de volta.
James pareceu segurar um sorriso, ao mesmo tempo que parecia também segurar a língua.
- No seu caso, eu terei que pensar. Tantas possibilidades...- ele deixou a frase no ar enquanto abria a porta e indicou que ela passasse primeiro.
- Uma pena ter que esperar até a próxima aula para saber, não podendo me preparar. - Lily saiu, ainda olhando para ele. James estava pronto para responder, mas alguém o interrompeu.
- Lils?!
Os dois grifinórios se viraram e se depararam com Gideon Prewett, setimanista da Corvinal e irmão gêmeo de Fabian. Apesar de estar surpresa, Lily já imaginava sobre o que era aquilo. E até achou que Gideon havia demorado para aparecer.
- Hey Gid. - ela o cumprimentou. Ouviu James dizer algo baixinho ao seu lado, mas não conseguiu entender uma única palavra.
- Como vai, Potter? - Gideon cumprimentou o Monitor-Chefe com um aceno, o qual teve uma resposta educada de James. Gideon se virou para Lily novamente. - Posso falar com você por um instante?
- Claro. Eu te vejo mais tarde, Potter.
- Eu devo guardar um lugar para você no jantar? - James perguntou inexpressivo, olhando dela para Gideon.
- Se Marlene e Alice não guardaram, eu agradeceria. - ela sorriu para ele. James não sorriu de volta, apenas assentindo.
- Não fiquem nos corredores sozinhos. Sabe...perigos e coisas assim. - O maroto disse para ambos antes de se virar e tomar seu caminho pelo corredor. Ele olhou para trás uma vez e uma última quando virava a esquina, apesar dos dois ruivos não perceberem.
Lily adorava Gideon. Ele era uma pessoa do bem, sempre gentil, engraçado e, sem negar, muito bonito. Os cabelos ruivos um pouco ondulados caiam pela sua testa, os olhos castanhos-claros eram muito charmosos e tinha um sorriso cativante.
Se ela não estivesse naquele trem sem freio indo direto para a Potterland e sem passagem de volta, Gideon seria o cara que a faria ter algumas noites de insônia.
Quando Marlene começou a namorar Fabian por alguns meses no ano passado, os quatro ficaram bem próximos. Lily torcia tanto para que a amiga desse certo com Fabian, pois ele era caído por ela e a tratava bem. Mas Lily não podia forçar ninguém a gostar de ninguém e Marlene parecia estar se distanciando cada vez mais da Prewettland.
- Eu acho que você deve saber o por que eu estar te procurando. - Gideon sorriu sem jeito.
- Marlene e Fabian, eu creio.
Gideon deu de ombros, como se pesasse estar ali por isso.
- Fabian está chateado e ele só está tentando falar com Lene, saber se ele fez algo de errado e que deve se desculpar, mas ela parece fugir dele como se meu irmão fosse um bebê mandrágora gigante com um microfone.
Ah, Marlene. O que ela estava fazendo com o pobre garoto?
- Eu falei com ela, eu acho que Fabian merece algumas palavras. Mas eu acho que Marlene não está pronta ainda, lidando com isso do seu próprio jeito. Um pouco egoísta, mas não posso forçá-la a nada.
- E você acha que ela não mudaria de ideia? Digo, sobre voltarem?
- Eu acho que é uma incógnita. Eu não quero dizer algo que dê esperanças ou que acabe com elas, quando eu não tenho ideia do que se passa.
O corvino abaixou a cabeça, parecendo chateado pelo irmão. Lily iria ter uma boa conversa com Marlene depois. Aquilo não era justo com Fabian, que não foi nada além de ótimo com ela durante todo esses meses juntos, além de Gideon ser uma boa pessoa e estar chateado pelo irmão.
- Eu vou tentar falar com ela de novo, ok? - Gideon levantou o rosto. - Posso ver o que consigo fazer para ajudar Fabian, mas por favor, não diga para ele. Eu não sei se ela vai me permitir. Marlene se fecha em uma concha quando se trata de sentimentos.
- Tudo bem. Fabian não faz ideia que estou falando com você também. - Ele sorriu, depois limpou a garganta e olhou para o fim do corredor. - Você está fazendo monitoria de duelos com Potter, então?
- Sim. Aliás, como sabia onde eu estava?
- Eu encontrei Frank chegando no Salão Principal e perguntei se você estava por perto. Black vinha logo atrás e me disse que você estaria aqui. Ele me pareceu bem feliz em me dar essa informação.
Os dois enrugaram a testa ao mesmo tempo.
- Black pode ser estranho às vezes, sabe. - Lily comentou.
- Eu não duvido.
Já no Salão Principal, James entrava com uma cara emburrada. Percebeu que os marotos estavam sentados com Marlene, Alice e Frank, então foi até eles. Jogou sua bolsa no chão, sentou-se no banco ao lado de Sirius e pegou seu prato, jogando purê de batata sem delicadeza alguma.
- Guarde esse lugar ao seu lado para Evans, Wormtail. - disse o maroto sem olhar para o amigo à sua frente.
- Onde está Lily? - Alice perguntou.
- Vindo! - Ele respondeu.
Sirius e Remus se entreolharam enquanto James pegava um pedaço de frango e fazia o mesmo que havia feito com o purê. Enquanto o resto do grupo voltava a conversar e se servir, Sirius se virou para o amigo sob os olhares atentos de Remus.
- Estávamos aqui ansiosos para ouvir o seu relato depois da primeira monitoria com a Evans e você me chega com essa cara? O que foi agora?
- "Gid"!- James bufou e ocupou a boca com a comida, enquanto continuava a reclamar para si mesmo.
- Gid? - Sirius perguntou um pouco alto, sem entender.
- Gideon? - Marlene, que estava em sua frente, perguntou para Sirius. - O que tem Gideon?
- Quem falou de Gideon? - Sirius retrucou, abanando a mão. - Eu disse "Filch". - Marlene se desculpou e voltou a atenção para Frank, enquanto Sirius voltava para James. - Você chama Prewett de "Gid"?
- Ela chama. "Gid" e "Lils", bem íntimos.
- Ah! - Sirius sorriu ao entender o que se passava e apenas fez uma careta para Remus dizendo "não se preocupe". - Prewett encontrou vocês dois, então.
- Você o mandou para lá? - James perguntou largando o garfo e se virando para o amigo.
- Ele estava procurando por ela, eu sabia onde ela estava.
- Você não poderia tê-lo mandado para o lago ou coisa assim?
- Você está em bons termos com a ruiva, vocês estavam juntos e sozinhos em uma sala. Pensei que isso seria o suficiente para afastar qualquer ideia absurda da cabeça dele.
- Não afastou! - O maroto respondeu. - Agora eu estou aqui, sentado do seu lado, enquanto os dois estão lá em cima, juntos e sozinhos.
Gideon era um cara legal, mas quem se importa? Viu Lily muitas vezes com ele e o irmão no ano passado, mas não sabe o que aquilo significava. Ela teve algo com ele?
Ela tinha algo com ele?
Não pareciam tão íntimos, além dos apelidos. Gideon não a beijara ou algo assim, então não parecia que estavam juntos.
Mas talvez ele quisesse chamá-la para sair.
Pegou o garfo e o enfiou no purê com força, o que acabou lançando alguns respingos de comida em Peter à sua frente.
- Essa camisa do uniforme estava limpa. - Peter reclamou.
- Você é mesmo um bruxo? - James perguntou, pegou a varinha e limpou o uniforme do amigo. - Desculpe e de nada.
Remus cutucou Sirius por debaixo da mesa e acenou para a entrada. O outro maroto deu uma rápida olhada, vendo Lily entrar com Gideon ao seu lado. O par trocou algumas palavras e sorrisos gentis antes de partirem cada um para a sua mesa.
- Olá. - Todos eles cumprimentaram Lily. - Obrigada por guardar um lugar para mim, Pettigrew.
- De nada.
Lily se serviu e começou uma conversa com Remus sob os olhares curiosos de James e Sirius, ainda que o último estar mais focado no amigo do que na ruiva. Apesar de Sirius pensar que James poderia começar a bombardear Lily com perguntas sobre o corvino, James apenas terminou o seu jantar com a maior calma que poderia lhes servir no momento, participando pouco das conversas.
"Ah, a maturidade", pensou Sirius.
- E então? Como foi a monitoria com ela? - O maroto resolveu perguntar, já que James parecia estar menos raivoso.
- Boa. Ela é ótima e vai destruir qualquer um que resolver meter o nariz na frente dela, tenho certeza. - Apesar de James estar contrariado, Sirius viu quando o amigo olhou para Lily quase a reverenciando.
- Você diz isso por ser um escravo do amor por ela ou por realmente achá-la boa?
Os olhos de James se viraram para Sirius com clara irritação.
- Ela é boa, muito boa. Eu nunca vi um Flipendo Duo e Tria daquele jeito. - O maroto respondeu um pouco pensativo, como se pensasse na cena novamente. - Ela nos deixaria de bunda no chão.
- Isso é algo que eu estaria ansioso para ver. - Sirius deu uma garfada no frango.
- Eu estou muito bem, longe da mira da varinha dela.
Quando James levantou os olhos para Lily, ele a pegou desviando o olhar. Sabia que ela não podia ouvir sua conversa com Sirius, então ela o olhava por livre e espontânea vontade. Um sorriso de lado escapou dele. Tirando Gideon Prewett, James começava a achar, mesmo sem ter nada realmente concreto, de que havia pegado o caminho certo com ela.
Ainda não havia esquecido aquele pequeno e singelo momento na sala dos monitores no sábado a noite. Não era possível estar tão louco e apaixonado para imaginar coisas, certo? Lily pareceu um pouco entregue no momento, querendo algo, não? Ele se recusava a pensar que havia sido sua imaginação "escrava do amor" criando coisas. Alguns anos antes, ele a teria questionado sobre o ocorrido, tentando arrancar uma reação dela, mas agora ele via as coisas diferentemente. Não iria se precipitar.
Um pergaminho apareceu em sua frente e ele desviou os olhos do próprio prato.
- Eu te chamei, mas você parecia bem longe. - Lily dizia com o braço estendido até James pegar o pergaminho que ela oferecia. - Eu esqueci de te entregar: são as rondas pelos próximos meses. Me avise se há algo que queira mudar.
- Você vem conosco, Lils? - Alice perguntou enquanto já se levantava com Marlene.
- Sim. - Lily respondeu para a amiga e se virou para o maroto novamente. - De qualquer jeito, eu acho que talvez você queira mudar, já que teremos rondas juntos. Provavelmente irá querer uma folga da minha pessoa e do meu rosto. - Ela riu e deu de ombros enquanto jogava as pernas para fora do banco em sua frente e se levantava.
James ouviu Sirius rir do seu lado.
- Obrigado.- James levantou o pergaminho, agradecendo por ele. - E tenho certeza que não irei querer mudar nada do que está aqui.
Lily sorriu para ele e pegou sua bolsa.
- Teorias! - Ela abanou a mão. - Eu só acreditarei na prática, Potter.
E sem dar tempo para que ele respondesse, Lily se virou e saiu do salão com as amigas, deixando James com a cabeça sem preocupações com Gideon Prewett e um peito cheio de esperanças.
Além de três amigos risonhos e piadistas ao seu lado.
N/A:
Feliz 2021 para as pessoinhas lindas e bonitas que terminaram de ler esse capitulo longo :D Demorei, mas pelo menos foi longo LoL Espero que não tenha ficado confuso, porque esse capitulo foi escrito há muito tempo e eu tive que incluir cenas novas e mudar alguns diálogos. E eu estava muito confusa no final de 2020 e começo de 2021 hahahaha Então que os deuses da escrita tenham me ajudado a dar algo relativamente "não bagunçado".
A monitoria de duelos está apenas começando. Aguardem para mais ações nas próximas aulas (eu não vou dizer quais ações LoL)
Resposta para review sem login:
Jullie: Feliz 2021, linda. Espero que tenha tido uma boa passagem! :) Eu demorei um pouco mais do que da outra vez, mas acho que não perco tantos pontos, né? Foram apenas alguns dias a mais LoL E sim, eu adorei mesmo aquela sua review :D e não canso de falar. E eu concordo, algumas fics JILY precisam se atualizar um pouco. Eu nao me importo com aquela coisa de "não gosto de vc, mas te amo", mas as personalidades sempre do mesmo jeito é muito massante. Da para escrever fics assim, mas dar uma personalidade legal para eles, né? E o desejo foi realizado: mais um capitulo grande, maior do que o outro. Espero que tenha lido tudo e não tenha sido tao fatigante LoL
Uma pergunta: vcs querem o "sneak peek" nessa fic? Um trecho do que vai acontecer no proximo capitulo? Me digam o que acham. Eu sei que não são todos que curtem ;)
Até a próxima. Beijos e mais beijos!
