J~L
P.S: Esse capítulo está maior do que qualquer outro até agora. Espero que você se divirta lendo LoL
Uma linda e cem por cento corça corpórea pulava e corria pelo quarto naquele fim de sábado.
Desde a sua última monitoria com James, ela pensou, analisou, estudou e chegou à conclusão de que ele estava certo e muito certo. E, claro, ela não havia percebido isso até ser apontado. O pensamento que usava para o patrono estava mexendo muito mais negativamente com a sua cabeça do que positivamente. Era, de fato, uma memória feliz, um dia feliz e com pessoas felizes. Lily não era considerada uma anormal pela irmã ainda, seus pais estavam vivos e mais novos e eles eram considerados uma família feliz e completa em um dia no parque que Lily se lembrava de correr atrás de esquilos, querendo brincar com eles, enquanto sua mãe chamava a todos para se aproximarem e comerem.
E então, aquela memória se misturava com o enterro de seus pais: Petúnia não menos do que cinco metros de distância, esquilos correndo pela grama do cemitério e um cheiro de churros, como sua mãe costumava fazer, impregnando suas narinas.
Não. Aquele dia no parque já não era o seu dia mais feliz.
Olhou para o relógio. Eram oito horas da noite. Se não quisesse perder o jantar, teria que se levantar agora. Mas como gostaria de poder ficar na cama...
Não havia se deparado com nenhum amigo naquele dia. Acordou cedo, tomou seu café da manhã sozinha e ficou em seu quarto fazendo deveres de monitoria e lições quase atrasadas, comendo alguns chocolates na hora do almoço para desviar da fome. Não podia bobear com nenhuma dessas tarefas, então decidiu focar seu sábado nelas e poder iniciar a semana mais tranquila.
Ela ainda estudou a pequena "surpresa" que devia trazer para a próxima monitoria de duelos e que não seria o patrono.
Claro. Tudo aquilo - todos os deveres, estudos e lições - , era apenas uma desculpa que ela mesmo arranjava para quando se sentia para baixo: trancava-se no quarto e ficava sozinha, deixando a tristeza ser a única companhia. Sabia que não ajudava e era raro agir assim, mas às vezes era apenas mais forte do que ela.
Não queria ter que se forçar a todo instante em ser forte e inquebrável. Era necessário se deixar sentir um pouco a tristeza.
- Bom dia, boa tarde e boa noite, Lilykins! - Marlene a cumprimentou feliz quando Lily se aproximou da amiga no salão principal, mas deu uma suavizada quando percebeu o sorriso fraco da ruiva. - Venha, sente-se aqui.
A ruiva sentou-se ao lado da amiga, que jantava sozinha. Não encontrou nenhum dos amigos ou conhecidos no caminho, o quarto de James estava aberto e vazio e apenas ouviu quando o maroto acordou e deixou o dormitório naquela manhã. Ele não voltou em nenhum momento do dia para o seu quarto, mas não podia ter certeza se ele esteve na sala comunal que dividiam.
As duas amigas ficaram em silêncio por alguns minutos, apenas desfrutando da boa refeição. Marlene sabia e estava acostumada com alguns dias ou períodos do dia que Lily se encontrava para baixo, provavelmente depois de algum pensamento relacionado aos pais, e tudo o que ela pedia para os amigos, era normalidade: conversar com ela, puxar assunto ou contar algo legal, interessante ou engraçado.
E tanto ela quanto Alice já estavam craques nisso.
- Eu...- Marlene começou. Vinha ensaiando o que falar, justamente para tentar puxar algum assunto para tentar melhorar o humor ou distrair Lily da tristeza. - Esbarrei em Fabian essa manhã.
Lily se virou para a amiga com as sobrancelhas arqueadas, mastigando rápido para engolir o pedaço de pão.
- E então?
- Eu o cumprimentei. Foi difícil, porque ficamos uns dois segundos nos encarando, meio sem saber o que fazer. Então eu dei um "Oi" e um pequeno sorriso, mas ele apenas respondeu com um aceno de cabeça e passou.
Marlene apoiou o queixo na mão e suspirou.
- Agora você vê como ele está, de fato, chateado?
- Eu já imaginava que ele não estaria dando pulos de felicidade, mas pensei que se eu tentasse puxar conversa, ele iria se animar. Mas não.
- Lene, os sentimentos não funcionam assim. Você vem dando um banho de indiferença e uma torta de bloqueio no coitado. Eu acho certo ele não vir como um cachorrinho até você, só porque você deu um "oi".
- Ai, ruiva!
- Eu não vou te dar biscoito quando você não merece, Marlene. - Lily olhou pesarosa para a amiga, que assentiu. - Eu estou aqui para te fazer abrir os olhos também e dizer que você fez merda sim.
Desviando o olhar de Lily, Marlene olhou para a mesa da Corvinal e encontrou Fabian conversando animadamente com seus amigos. Desviou o olhar para seu prato.
- Acho que isso exclui aquela conversa que eu deveria ter com ele, certo? - Marlene perguntou. Como Lily não respondeu, ela levantou o rosto e viu a descrença estampada no rosto da ruiva.
- Eu não vou nem responder, sério. - Lily deu de ombros. - Mas olha, se você não quiser falar com ele, não fale. É uma pena? Sim, mas você vai colher essa planta que você está semeando.
- Você e esses ditados trouxas.
- O importante é que você entendeu. - Lily sorriu, se sentindo um pouco melhor. Conversar sobre coisas não relacionadas a ela e estar na companhia de outra pessoa além dela mesma depois de um dia daqueles, era reconfortante e encorajador. - Onde está Alice?
- Onde você acha? Na verdade, com quem você acha?
- É sábado à noite, certo. Ela está com nosso querido Frank.
- E onde está o nosso querido James? - Marlene perguntou e enfiou um pedaço de pão na boca, antes que a amiga fizesse isso ela mesma.
- Por que eu deveria saber?
- Porque vocês dormem juntos.
Alguns alunos ao redor olharam para elas, curiosos com a frase dita razoavelmente alta.
- Nós não dormimos juntos. - Lily respondeu entredentes. - Eu não dormia com você, apenas no mesmo quarto e olha que isso é mais perto do que eu durmo dele.
- Ah, você entendeu o que eu disse.
- De qualquer maneira, eu não sei onde ele está. O quarto estava vazio quando eu saí.
- Então você checou o quarto dele? - A malícia no tom de voz da amiga fez com que Lily respirasse fundo.
- A porta é de frente para o meu, só isso. Aliás, por que eu estou aqui respondendo essas coisas?
- Porque você gosta de falar dele.
- Não gosto não. Você quem sempre começa o assunto, Marlene.
- E você sempre está disposta a responder.
- Você é impossível. - Lily se serviu de frango e batatas. - Agora me deixa comer e terminar, porque eu tenho uma ronda para fazer logo mais.
Já na sala dos monitores, alguns andares acima do salão principal, o alvo da conversa estava a ponto de arrancar os cabelos.
- Você está brincando com a minha cara, Bell? - James perguntou.
Eric Bell, o batedor que deveria apresentar suas desculpas naquele fim de semana, apenas deu de ombros.
- O que mais você quer que eu diga?
- "Me desculpem se o que eu disse foi interpretado de uma maneira errada." - Sirius leu o pedaço minúsculo de pergaminho que o garoto entregou para eles. - Realmente é um pedido de desculpas magnífico.
- Viu, Potter? Black concorda comigo.
- Foi irônico! - Sirius quase cuspiu as palavras e jogou o pergaminho na mesa de James.
O time escalado da Grifinória se encontrava em peso ali, porém a única que recusou foi Johanna King, alegando que não queria perder a pose e compostura na presença do colega de time naquele momento ou acabaria trazendo problemas. James se viu na obrigação de chamar à todos para uma reunião e explicar o que se passava, já que a notícia das brigas de Bell com as garotas havia se espalhado depois do treino e alguns jogadores estavam perguntando qual seria a postura do capitão quanto a isso.
- Se eu aceitasse passar esse pedido de desculpas, minha cabeça estaria em um prato para o jantar de hoje a noite e eu to cheio de tarefa da monitoria e muitos monitorados de duelo para lidar, então eu não tenho tempo de ser servido para a população do castelo - James continuou.
- Potter, o que mais você quer que eu faça?
- Que você pare e pense na merda que você fez! É tão difícil assim?
- Eu posso ajudá-lo, capitão. - Midge, o apanhador espetacular da Grifinória, disse enquanto levantava a mão. - Eu posso ajudá-lo a escrever um pedido de desculpas.
Era impressionante que alguém precisava ajudar aquele palerma com um pedido de desculpas. Mas a única coisa que precisava era Bell dar aquele discurso e ir até o primeiro jogo do time, dando tempo para James treinar mais os reservas para ficarem em seu lugar.
Iria levar aquele último troféu para a Grifinória, nem que tivesse que ter um garoto mais novo tendo que ajudar um cara a fazer um pedido de desculpas decente.
- Eu quero esse pedido de desculpas até o meio da semana. Se não for o caso, você está fora do time sem chances de remissão. - Bell assentiu. - Eu duvido que não estará bom, porque eu sei que Midge tem a cabeça no lugar, mas se você desviar ou entregar algo alterado ou qualquer coisa que atrase ainda mais...eu vou entregar esse problema para outra pessoa e eu farei questão de que seja alguém com menos paciência do que eu.
- Sim, capitão. - Bell assentiu novamente.
- Midge...- James apenas deixou sair, quase como uma súplica.
- Eu vou tomar conta disso. - O apanhador sorriu e piscou.
James agradeceu e dispensou o time, sentando-se na ponta da mesa e comendo um sanduíche que havia pego na cozinha mais cedo, com mais outros dez sanduiches, sabendo que não teria tempo para jantar. Sirius foi o único do time que ficou para trás e roubou um sanduíche do prato.
- Eu posso treinar os outros dois batedores para você, você sabe, não sabe? - Sirius começou.
- Eu sei.
- Então tire esse peso da sua cabeça. Ambos estarão prontos para o segundo jogo, Bell vai estar longe fazendo as cagadas que ele costuma fazer e o time vai ficar livre. E nós vamos ganhar esse campeonato.
- Talvez seja uma boa ideia. Obrigado, Padfoot.
Sirius apenas deu de ombros e terminou seu sanduíche, mas ainda observando o amigo.
- Você está cansado.
- "James está cansado" virou tão recorrente, que as pessoas não precisam usar esse adjetivo mais, pois seria redundância.
- Eu sei, mas você não tá indo bem, cara. Então divide esses problemas, ok? Eu tomo conta dos batedores do time. Além do mais...- Sirius apontou para a pilha de pergaminhos que James vinha trabalhando a tarde toda para a monitoria da escola, além de ter supervisionado uma detençao. - Eu posso te ajudar com algumas dessas tarefas de monitoria.
- Você? - James levantou uma sobrancelha enquanto comia outro sanduiche. - Fazendo a tarefa de monitor?
- Eu não tenho mais nada para fazer hoje e você tem ronda.
Aquela informação abriu um sorriso em James. A primeira ronda com Lily seria naquela noite e ele mal podia esperar.
- E por não ter nada para fazer, você quer fazer a tarefa de monitoria? Quem diria, Sirius Black quer sentar atrás dessa mesa e checar milhares de pergaminhos e...
- Eu não faria isso aqui, está louco? Você me vê sentado nessa cadeira amaldiçoada? Eu iria me esconder em algum lugar escuro desse castelo, provavelmente com algum feitiço de desilusão apenas para garantir. - James ainda tinha um sorriso jocoso. - Quer saber? Dane-se. Fique aí perdendo horas do seu dia com tudo isso, ao invés de ir se preparar para dar uma volta pelo castelo com a sua ruiva.
- Calma, calma. Não precisa eriçar esses seus pêlos pulguentos assim. - James foi atrás da mesa onde esteve trabalhando boa parte do dia. - Esses pergaminhos precisam ser colocados em ordem cronológica, mas separados em pilhas de acordo com o assunto.
- Nossa, como é divertido ser Monitor-Chefe. - James ignorou o tom sarcástico do amigo, mas apenas por concordar com ele. - Por que não deu isso para o aluno da detenção fazer?
- Porque ele fez outra tarefa para mim. - James deu de ombros. - Se desistir da ideia, eu não vou culpá-lo.
- E eu tenho cara de desistir de algo? - Sirius bufou pegando todos os pergaminhos nos braços. - Eu vou enviar um aviso para os batedores reservas de que os treinos começam na semana que vem.
- Obrigado, Padfoot.
- Sim, sim. Amigos, evitar sua morte por cansaço, favores, essa coisa toda. Agora vai logo encontrar a sua Monitora-Chefe.
Sem esperar nem mais um segundo, James saiu da sala deixando o amigo encarando aqueles pergaminhos nos braços. Talvez fosse mais inteligente fazer tudo ali mesmo, mas garantiria trancar o quadro e impedir que alguém entrasse.
L~J
Seu coração batia tão desesperadamente, que Lily tinha a impressão de que estava fazendo algo excitante pela primeira vez.
Na realidade, era a primeira vez pois era a primeira ronda deles juntos, mas não como se fosse ficar sozinha com James pela primeira vez. Quantas vezes, agora, eles não se viam sozinhos em um lugar que era reservado apenas para eles?
Quantas oportunidades você vinha perdendo nesses momentos, Lily?, pensou a ruiva. Riu com ela mesma, pois aquilo estava ficando ridículo. Ela estava completamente obcecada por ele, tinha que diminuir aqueles pensamentos.
Mas ele não ajudava. Simplesmente não ajudava. Ele ficava andando para cima e para baixo, parecendo todo bonito e atraente, sorrindo para ela, sendo gentil e charmoso, parecendo flertar algumas vezes. O que, diabos, ela poderia fazer contra isso?
Nada! Absolutamente nada. Virou uma refém daqueles momentos, das conversas instigantes, dos olhares trocados nos cômodos, dos malditos banhos que ele tomava.
- Eu posso esperar mais, se quiser.
Lily se virou para trás e encontrou a razão das suas viagens diárias.
Por que? Por que James Potter tinha que ser assim?
- A quanto tempo está aí? - Ela perguntou se ajeitando, como se tivesse sido pega no flagra, esquecendo - esperava fortemente, na verdade -, que ele não era o legilimens que ela desconfiava.
- Não muito, mas eu te cumprimentei e você não me respondeu. Parecia que o que tinha em mente era muito importante.
- Importante não seria a melhor descrição. - Ela deu de ombros. - Pronto para a ronda?
Lily poderia dar mil outras ideias do que fazer com James Potter em um sábado à noite, mas lá estavam eles: prontos para bater pernas pelo castelo por algumas horas. A vida não era sempre justa.
- Eu acho que, pronto ou não, eu não tenho escolha. Está presa comigo essa noite, Evans.
James, literalmente, não ajudava!
- Eu já tive noites piores. - Tentou desviar.
Lily se virou e começou a caminhar, indo em direção à torre Oeste do castelo. James rapidamente se postou ao seu lado
- E melhores? - Ele perguntou.
Ela se limitou a sorrir, sabendo que ele a olhava.
- Eu só posso dar meu veredicto quando ela acabar.
Não olhou para ele quando respondeu, mas sabia que aquilo o havia afetado, já que percebeu que ele havia ficado para trás por alguns segundos. Rapidamente, ele apertou o passo e se postou ao seu lado, mexendo na gravata como se a soltasse um pouco do aperto no pescoço.
- Como foi o seu sábado? - Ela resolveu perguntar.
- Ocupado, no geral. Tarefas de monitoria, reunião com o time de Quadribol e fiquei boa parte da tarde monitorando uma detenção que me arrependo de ter dado.
- Por que se arrependeu?
- Porque me tirou uma boa parte do sábado. - Ele riu. - E pela ideia da brincadeira ter sido genial, mas havia muita testemunha e eu não pude escapar de ser o Monitor-Chefe.
Ela soltou um "humpf" imaginando quantos alunos não escaparam de uma detenção, porque ele achou alguma brincadeira genial.
- Uma vez maroto, sempre maroto. - Lily murmurou e parou no corredor, encarando um armário de vassouras razoavelmente conhecido dos alunos. Bom, ele era de grande servia, pois ficava no canto do corredor e criava um vão com prateleiras sólidas. Umas que aguentavam o peso de uma pessoa sentada.
Mentalmente, ela limpou a garganta. Já visitou aquele lugar uma vez. Ou três.
- Por que parou? - James perguntou.
- Bem...- Lily apontou com o queixo para o armário. James seguiu seu olhar e sorriu maliciosamente.
- Está me convidando ou querendo checar se há alguém?
Era a primeira vez, até onde ele se lembrava, que ele fazia uma piada direta assim. Uma piada como o James de antigamente. E quando ele percebeu, tentou disfarçar a tensão que sentiu, querendo se bater.
Não queria voltar para o antigo James com ela. Não podia.
Mas aquela piada estava pronta na sua língua e simplesmente escapou.
Sem esperar que ela respondesse, ele foi até o armário. Bateu três vezes na porta e tentou ouvir algum movimento dentro, mas tudo estava silencioso. Segurou na maçaneta e abriu a porta devagar, dando tempo para que alguém pudesse se cobrir quase precisasse. Mas não havia ninguém.
Os alunos de Hogwarts estavam perdendo a mão.
Ou melhor, era bom que não tenha encontrado ninguém, ou isso significava que alunos estavam se arriscando muito por isso e que ele teria que dar uma detenção para um casal que apenas queria privacidade.
- Vazio? - Ela perguntou em suas costas.
- Sim.
- Estranho.
James se virou para ela, uma sobrancelha levantada.
- Você esperava encontrar alguém aqui?
- Eu não esperava no sentido de querer, mas eu esperava no sentido de "já peguei muitos casais aí durante as minhas rondas".
- Até nisso Voldemort está empacando. Quem diria que adolescentes perderiam a chance de usar esse armário de vassouras...
- Bem, o medo está impedindo-os. E mesmo não estando de acordo com o medo intervir em momentos como bons amassos aí dentro, eu fico feliz por ninguém estar dando chance ao azar de trombar com aspirantes a Comensais.
- Fato! - James olhou novamente para dentro do armário e teve que se segurar para não olhar para ela novamente.
Foi difícil engolir ao mesmo tempo que sua mente começava a criar imagens dos dois ali dentro: seus lábios descendo pelo pescoço de Lily enquanto ela desabotoa sua camisa devagar. Suas mãos subindo pelas pernas dela, mais acima do que a meia que ela usava até o meio das coxas e avançando...
James fechou o armário com um forte baque, assustando Lily e a ele mesmo. Não podia deixar aqueles pensamentos irem longe demais na frente dela ou seria muito, mas muito embaraçoso.
- Continuamos? - A voz dele saiu um pouco desafinada, forçando-o limpar a garganta.
- Claro. - Ela lhe lançou um olhar estranho, mas continuou a caminhada.
Por alguns corredores, eles seguiram em silêncio, perdidos em seus próprios pensamentos. Quando chegavam perto da sala comunal da Corvinal, eles ouviram alguns risos e palavras trocadas em sussurros. Os dois se entreolharam e diminuíram o passo, se aproximando da esquina do corredor bem lentamente.
Havia um casal, uma corvina e um lufano, abraçado e se dando alguns beijos rápidos. O garoto dizia algo no ouvido da corvina, fazendo-a sorrir. Os dois estavam, claramente, muito apaixonados.
Por Merlin, eles eram apenas adolescentes aproveitando a vida. Lily se sentia horrível em ter que parar aquilo. Eles estavam passando por tempos difíceis, com o ódio querendo cobrir e impedir aquele tipo de sentimento e eles teriam que pará-los.
- Isso é injusto. - Ela sussurrou.
- Eu sei. - James passou a mão pelos cabelos. - Você me permite tomar uma decisão de coração mole?
- Eu acho que meu coração está mole o suficiente para aceitar.
- Ótimo. Vem comigo.
James saiu em sua frente e começou a se dirigir até o casal. Ele iria mesmo interrompê-los? Pensou que ele iria ignorar e passar reto.
- Boa noite. - O maroto os cumprimentou. O casal se largou rápido.
- Monitor-Chefe. - O lufano disse, bem encabulado. - Monitora-Chefe. - Voltou a dizer quando viu Lily parando ao lado de James.
- Está bem tarde para estarem aqui fora, não?
- Desculpe. Foi minha culpa. Eu a chamei para fora com um bilhete. - O lufano continuou. - Ela pensou que algo tinha acontecido, por isso saiu...
- Se acalme. - Lily sorriu, olhando para os dois. - Eu creio que a senhorita poderia voltar para a sua sala comunal agora. - A ruiva disse se dirigindo a corvina. - Poderão se ver amanhã.
- Claro. Eu vou indo...- A garota olhou para o, provavelmente, namorado. - Eu te vejo amanhã.
- No café da manhã. - O lufano se apressou a dizer.
- Sim. - Ela sorriu.
O garoto olhou para os dois Monitores-Chefes com um olhar pidão, e James acenou para ele.
- Seja rápido. - Disse o maroto e ele se virou para Lily. - Hey Evans. Olha como é interessante o fim daquele corredor.
Os dois se viraram e Lily pôde ouvir um beijo de despedida acontecendo em suas costas. Ela meneou a cabeça e riu.
- Coração mole! - Ela sussurrou.
- Culpado!
Ambos se viraram quando ouviram a sala comunal se fechar. O lufano tinha a maior cara de culpado e um pouco, bem pouco, arrependido.
- Nós não vamos te dar uma detenção desta vez, mas ainda que você queira muito ficar com ela até em horários proibidos, você tem que lembrar que esse toque de recolher não é contra nós, mas a nosso favor. - James respirou fundo. - Então a Monitora-Chefe e eu vamos te acompanhar de volta a sua sala comunal e esperar que você seja um pouco mais responsável daqui pra frente. Podemos contar com você?
- Sim. - O garoto respondeu aliviado em ter escapado da detenção.
- Poderia se sentir um pouco mais culpado? Assim eu terei a sensação de ter feito meu trabalho aqui, mesmo ter passado longe disso. - Lily pediu tentando segurar o riso.
O garoto assentiu e tentou fechar o sorriso, mas falhando. Os garotos daquele castelo eram impossíveis.
Os três seguiram caminho até a sala comunal da Lufa-Lufa com os dois conversando sobre Quadribol e Lily apenas tentando entender algumas gírias usadas. Assim que o aluno errante voltou para sua Casa, ambos tomaram o caminho para os outros corredores.
Mais especificamente, para o da sala comunal da Sonserina.
Lily percebeu que James andava mais perto dela agora e sua mão estava displicentemente dentro de seu bolso onde guardava a varinha.
Ela fez o mesmo.
Porém, nada interessante por ali. Lily ficou feliz, ao mesmo tempo que adoraria dar uma detenção bem merecida para algum aspirante a Comensal. Não que isso fosse ser horrível para eles, mas lhe daria uma certa felicidade.
Após cobrir todo o castelo entre conversas banais e algumas risadas, eles estavam de volta à sala dos monitores. Deveriam ter ido direto ao dormitório, mas simplesmente voltaram onde haviam começado.
- Foi uma boa ronda, Evans. Obrigado por me debutar tão bem.
- Foi um prazer, Potter.
- Depois de toda essa caminhada séria, você está cansada?
- Não. Por que?
- Queria saber se gostaria de se aventurar por aí novamente. Dessa vez, apenas como uma grifinória fora da lei.
Ela levantou as sobrancelhas, intrigada.
- Está com fome?
- Não. Dessa vez, não iremos na cozinha.
O coração dela começou a disparar como um louco. Naquele armário de vassouras, talvez? Ela não se importaria.
- Tem algo em mente? - Ela perguntou.
- Eu sempre tenho algo em mente. - James tirou a sua capa de invisibilidade de um bolso com feitiço de extensão.
- Por isso já veio preparado?
- Eu estava contando com o seu "sim". - Ele sorriu, mas viu que ela levantava uma sobrancelha para ele. - Não pode culpar um homem esperançoso, Evans.
- Eu não ousaria. - Ela debochou. - Onde iremos hoje?
Ele deu de ombros.
- Não prefere uma surpresa? - Ele começou a andar e Lily o seguiu.
- Surpresa? De James Potter? - Aquilo deveria ser muito bom, pensou. - Amigo de Black e Remus?
- Remus é um anjo. - Ele defendeu o amigo.
- Quando ele quer que acreditamos nisso. - Ela bufou. - Apesar dos pesares, eu conheço Remus John Lupin, então não perca suas energias tentando inocentá-lo.
- Certo, mas seja justa e diga que eu tentei defendê-lo caso ele pergunte.
Começaram a descer as escadas, indo até o térreo. Mas claro, eles não foram na direção da cozinha, virando para a esquerda e chegando até a grande porta que daria para o exterior do castelo.
- Estamos saindo? - Ela perguntou, surpresa.
- Estamos saindo. - Ele confirmou. - A partir de agora, precisamos usar a capa. Está pronta?
- Estando pronta ou não, eu não tenho escolha. Estou presa com você essa noite, certo?
Eles se encararam por alguns segundos, até James começar a sorrir de lado. O maldito sorriso.
- Está absolutamente certa.
James jogou a capa sobre eles, ajeitou-a e cobriu os pés, impedindo-os de aparecer, e abriu a grande porta o suficiente para que passassem.
- Filch costuma rondar os jardins? - Lily perguntou. - Alguém ronda os jardins?
- Eu já encontrei Hagrid algumas vezes, mas eu não sei se era uma ronda ou se ele apenas entrava na Floresta Proibida para encontrar algum dos animais selvagens dele.
- Então não seremos pegos.
- Com a capa, dificilmente.
Ele não a assegurou muito com aquela frase. De qualquer maneira, achava um pouco tarde para desistir, então apenas aceitou qualquer coisa que o destino lhe reservava agora.
E parecia que o destino lhe reservava o lago, já que eles se dirigiam para lá. Hogwarts era linda em qualquer hora do dia e a noite no castelo tinha a sua magia. Olhando para trás, ela podia ver algumas luzes acesas e quase podia ouvir os alunos aproveitando o sábado a noite em suas salas comunais, as risadas e os jogos.
- Os caras gostam de sentar nesta árvore. Eu também gosto de vir aqui sozinho às vezes e fugir um pouco das loucuras e do barulho. - James apontou. - Foi um dia bem cheio e eu estou precisando um pouco de calma.- Ah, ela lembrava dessa árvore. Os encontrou diversas vezes ali, inclusive no quinto ano quando estavam perturbando Severus e...
Deixa para lá.
- Algum motivo especial por essa árvore? - Lily perguntou.
- Está vendo aquela pequena ilha mais ao fundo? - Ele apontou. Apesar da escuridão do começo da madrugada, a lua estava forte o bastante para iluminar o terreno.
- Sim.
- Se você fixar seu olhar por alguns momentos, verá corujas selvagens e, às vezes, Pelúcios. Não sei o que eles estão fazendo ali, mas estão. E eles adoram infernizar a vida das corujas. Às vezes, saímos daqui com a barriga doendo de tanto rir. Dizem as más línguas que Sirius Black já fez xixi nas calças uma vez por conta disso...mas você não ouviu isso de mim.
Lily riu e fechou a boca, como se jurasse não compartilhar o segredo.
Ambos se sentaram com dificuldade para manter a capa e se encostaram na árvore. E por estarem dividindo a capa, estavam colados um ao outro. Toda a lateral esquerda de Lily colada à lateral direita de James. Suas pernas, mesmo a de James sendo muito mais longa, pareciam coladas. James levantou a perna esquerda para apoiar o seu braço, não ousando levantar a perna direita e perder aquele contato.
Tudo o que ele podia ter de Lily e que era dado de boa vontade, ele iria aceitar. Nem que fosse pernas se tocando embaixo da árvore, dedos se tocando em cima da mesa ou apenas alguns minutos com ela longe de todos. E este último era algo que ele estaria procurando incansavelmente todos os dias.
- É tão calmo. - Lily suspirou fundo, aproveitando a brisa que soprava, mesmo estando protegida embaixo da capa. - Sem alunos gritando e correndo...apenas a calma, as árvores balançando com o vento e alguns barulhos sinistros vindos da floresta, mas que estou tentando ignorar e fingir que não me assusta...
Ele riu e se aconchegou mais na árvore.
- Eu garanto que não há um lobisomem ali hoje, pelo menos.
- Muito tranquilizador. - Ela respondeu com um tom sarcástico.
Novamente ficaram em silêncio. Lily tinha os olhos fechados e acalmava a respiração, tentando ter um momento zen e calmante. Estava tendo que brigar com o coração que insistia em fazer uma festa com a presença de James ao seu lado, mas no geral, estava calma.
- Eu segui o seu conselho. - Ela começou, os olhos ainda fechados.
- Qual? - A voz dele parecia tão calma quanto a dela.
- A do patrono. - Aquilo fez James se remexer no lugar, atento ao que ela diria. - E deu certo.
- Você conseguiu o patrono corpóreo de novo ? - James perguntou realmente feliz. O tom de voz dele fez com que Lily abrisse os olhos e se virasse para ele.
- Sim. Todas as manhãs, desde a nossa última monitoria, eu o invoco e ficamos batendo um papo no quarto.
- Isso é ótimo. Eu sabia que você conseguiria, mas fico feliz que você tenha colocado alguns pensamentos no lugar.
- Foi graças ao meu monitor, então...obrigada, de verdade.
- Eu apenas te dei uma luz, o resto foi apenas você. - Ele sorria sem parar. - E então?
- E então o que?
- Não estamos na nossa monitoria, mas eu gostaria de ver o seu progresso.
- Agora?
- Por que não? - Ele deu de ombros.
Por que não?, pensou ela também. Lily desencostou-se e tirou a capa por um momento, James a seguindo. Ela tirou sua varinha do bolso e apontou na direção do lago.
- Expecto patronum.
A linda corça que ela tanto conhecia agora, apareceu em toda sua graça, chacoalhando a cabeça, como se estivesse acordando de um profundo sono.
Ao seu lado, James começou a tossir, engasgado, e Lily tirou sua atenção do patrono e se virou para ele, dando leve batidinhas em suas costas.
- Você está bem? - Ele tossiu mais um pouco e tentava recuperar o ar enquanto apoiava uma mão na árvore, seus olhos vermelhos e cheios de lágrimas por conta do engasgo.
- Sim! - Ele conseguiu, finalmente, responder e limpou a garganta.
O patrono começou a correr pela grama, chamando a atenção dos dois, se aventurando por cima do lago, criando uma luz azul linda por muitos metros.
Ao seu lado, James se levantou e se afastou da árvore, como se seguisse a corça, os olhos fixos nela, como se estivesse hipnotizado. Sua boca estava entreaberta, mas não tanto, o que deu um alívio em Lily por saber que ele não estava tão chocado por ela conseguir conjurar um.
- E então? Ela é ou não é impressionante? - Lily perguntou quando se levantou e se aproximou dele. O orgulho quase explodindo de seu peito.
- Você não imagina o quanto. - Ele balbuciou. O maroto engoliu mais algumas vezes, ainda tentando se recuperar do engasgo - Nós estamos mesmo olhando...uma...corça, certo?
- Sim.
- Puta merda!
Lily arregalou os olhos para ele.
- Perdão?
- Desculpe. - Ele balançou a cabeça, como se tivesse tentando se livrar de alguns pensamentos. - Eu...me desculpe...!
- Eu não me importo com o palavrão, mas...por que o palavrão?
Ele não respondeu de imediato, ainda assistindo o patrono correr livre pelo jardim. Santo Merlin e todos seus ajudantes! Lily Evans tinha uma corça como um patrono. Uma corça!
ça!
Ele precisava entender aquilo melhor. Aliás, tinha algum significado? Devia ter, certo? Não era possível que fosse coincidência. Poderia?
Poderia?
- Potter?
- Sim? - Ele olhou para ela e depois se virou para o patrono. - Sim, é uma corça.
- Nós sabemos, acabamos de confirmar isso. - Ela revirou os olhos. - Mas por que você está surpreso? Você conhece algum significado por trás disso?
- Significado? Não. Digo, eu não sei. Quero dizer, talvez não.
- Você sabe de algo. Desembuche. - Ela levantou uma sobrancelha para ele. - Antes que eu pense que ter uma corça não é algo bom.
Com isso, ela desfez o feitiço e sua corça correu uma última vez antes de desaparecer.
- Não há nenhum problema com a corça, nenhum. Na verdade, é ótimo. Uma boa notícia. Eu vou só...me sentar aqui e pensar um pouco.
E assim ele o fez, sentando-se contra a árvore novamente e os olhos vidrados no nada.
Havia um livro muito interessante e completo sobre os Patronos na biblioteca. Os marotos leram uma boa parte dele nos primeiros anos, quando tentavam incessantemente o feitiço, mas não lembrava de muita coisa sobre as simbologias. Tinha que voltar e pegar aquele livro de novo.
Tinha que entender se aquilo era algo ou não, antes de enlouquecer.
Ele lançou um olhar rápido para ela, que parecia distraída olhando pelos jardins e além da Floresta Proibida, talvez ainda ouvindo os sons sinistros.
Será que o patrono dela ser um par do seu significava o que ele estava evitando pensar? Que...que eles eram, bem, um par? Mas isso não fazia sentido. Eles não eram um par. Ou não ainda. Ou não por falta de vontade dele.
O que ele sentia por ela, poderia influenciar? Ou vice e versa?
James conhecia a forma do seu patrono há alguns anos, mas isso não significava que Lily já não estivesse destinada a ter uma corça como um patrono também, já que a forma do patrono reflete a personalidade de cada um.
Talvez aquilo significasse que eles fossem, de certa forma, parecidos?
Mas então, o que impediria James de ter uma corça ou Lily de ter um cervo como patrono? Ou ambos terem o mesmo? Era o mesmo tipo de animal, mas um era o macho e o outro a fêmea. Aquilo significaria algo?
Patronos complementares. Devia ter lido sobre esses "patronos complementares" em algum lugar, mas o significado estava um pouco perdido na névoa em sua cabeça.
- ...e por aí vai.
Ele balançou a cabeça ao ouvir a última parte da frase dela. Nem tinha percebido que ela falava algo.
- Desculpe, o que?
- Você não escutou nem um pouco do que eu disse? Eu enumerei vários bichos sinistros que eu imaginava estar na Floresta. Eu fiquei bem orgulhosa de mim mesma, mas agora eu não vou conseguir lembrar de todos eles. De qualquer maneira, era apenas papo furado.
- Eu gosto dos seus papos furados. A ronda passou bem rápida com eles e eles podem ser muito informativos.
Lily se sentou ao seu lado novamente e cruzou os braços.
- Perdão? Você está chamando a minha conversa das rondas de papo furado? - Quando James abriu a boca para responder, ela riu. - Não se explique. Eu posso falar bastante e sobre coisas sem importância as vezes.
- Nós discutimos sobre as diferenças, similaridades e pontos fortes da medicina trouxa e as curas bruxas. Você, ainda, me deu descrições e muitos detalhes do quão doloroso os trouxas se curam. Eu acho importantíssimo saber que devo ficar longe de um hospital trouxa.
- Pare de tirar uma com a minha cara, James Potter!
James riu com ela e se acomodou ainda mais na árvore. Eles conversavam ou comentavam algo esporadicamente e ele só conseguia pensar no patrono, em Lily ao seu lado e o fato de estar tão feliz por pequenas coisas, que a vida parecia mais leve e as preocupações inexistentes, o que deixou o pouco sono que o acompanhava como uma sombra desde que voltou para Hogwarts, se aproveitar da sua fragilidade do momento.
Lily acordou com um barulho muito alto não muito longe e abriu os olhos imediatamente, vendo de relance um dos tentáculos da Lula Gigante afundar no lago.
E verde. Era tudo verde. Árvores, grama.
Levantou a cabeça, que estava apoiada em algo ao seu lado, e empurrou algo que estava apoiada em sua cabeça. Sua boca escancarou.
Ela dormiu nos jardins com James Potter!
O maroto ainda dormia, as pernas esticadas e sua cabeça devia estar apoiada na de Lily, e a de Lily apoiada no ombro dele, considerando sua posição e a posição que Lily havia acordado. As pernas da ruiva estavam encolhidas e seus joelhos descansavam em cima da perna dele.
Merlin!
Ela tirou suas pernas devagar, não querendo acordá-lo. Não queria nem pensar no perigo que eles correram ali. Como aquilo aconteceu? Eles dormiram sentados contra uma árvore, sem nenhuma proteção, além da capa dele.
Como dormiram por - Lily olhou seu relógio -, mais de cinco horas ali? O sol não estava longe de nascer agora e eles tinham que voltar antes dos corredores pipocarem com estudantes matutinos.
Com a varinha, ela lançou um feitiço em sua boca, querendo se livrar daquele mal hálito matinal. Ela olhou para ele e decidiu ajudá-lo, então lançou o feitiço nele também. Se Marlene e Alice a vissem fazendo isso, apenas iriam revirar os olhos, pois Lily costumava lançar nas amigas pela manhã também, porque a ruiva achava que todo mundo estava desconfortável com hálitos matinas...mesmo ninguém ter pedido ou dito algo.
James começou a mexer a boca, como se desgostasse ou provasse algo. Seus olhos se abriram, completamente confusos, passando a língua pelos lábios e franzindo a testa.
- Menta. - Ele murmurou. Seus olhos encontraram Lily ao seu lado. - Evans?! - A voz dele ficou mais confusa ainda.
- Nós caímos no sono, Potter. Nos jardins!
Sentando-se melhor, ele olhava em volta, como se tentasse entender o que estava acontecendo.
- Sério? - Ele perguntou um pouco mais calmo. - Pelo menos estávamos com a capa.
- Sim, claro. Mas precisamos ir embora e rápido.
Lily tentou se levantar, mas com uma parte da capa presa na perna de James, ela não foi muito longe e acabou caindo para frente. Tentou novamente, se embaralhou com o tecido e teve que lutar para se desvencilhar dele.
- Se acalme. Você vai se machucar assim.
- Eu estou calma, muito calma.
Finalmente em pé, Lily arrumou os cabelos e olhou para os lados querendo saber se haviam sido vistos. James tirou a capa também, mas permaneceu sentado, se espreguiçando.
- Você não pode negar que é um bom jeito de se acordar. - Ele comentou. - Digo, com a natureza e tudo mais.
- Sim, é ótimo. - Ela respondeu nervosa, ainda espreitando pelo jardim. - Eu vou indo na frente. Você vem depois. Ok?
James franziu a testa.
- Se você quiser assim.
- É o melhor. Eu te vejo mais tarde. - Ela deu as costas, mas se virou novamente para ele. - Obrigada pelo passeio no jardim, a propósito.
- De nada. - Ele murmurou e a assistiu subir os jardins de volta ao castelo.
Com uma sensação de ter falhado, James se levantou, se esticou e esperou alguns minutos antes de pegar o mesmo caminho. O castelo ainda estava bem silencioso e, ao invés de ir para o seu quarto, decidiu pegar o caminho para a torre da Grifinória. A sala comunal também estava vazia e silenciosa, então subiu direto para o quarto dos Marotos.
Claro que estavam dormindo, era ainda muito cedo, mas isso não o impediu de ir até sua antiga cama e se deitar, olhando para o dossel.
- Droga. - Resmungou baixinho.
- Prongs? - James levantou a cabeça e viu Remus sentando-se na própria cama, esfregando os olhos. - Você dormiu aqui?
- Não. Eu acabei de chegar.
- De onde?
- De uma longa história.
Remus olhou para o relógio e tentou disfarçar a surpresa.
- O café da manhã começa em alguns minutos...
James sorriu. Era um jeito dos amigos de dizerem "podemos conversar, se quiser".
- Eu te encontro lá em uma hora. - James respondeu. - Eu preciso tomar um banho e trocar de roupa.
Com a concordância de um sonolento Remus, ele saiu do quarto e foi direto para o seu. Lily não estava na sala e nem perto de ser vista. A porta do seu quarto estava fechada, então imaginava que ela estaria ali.
Tomou um banho rápido e colocou roupas informais, descendo para o salão principal logo depois. Não havia muitos alunos, ele provavelmente poderia contar nos dedos das mãos, e dois deles ele conhecia bem.
Remus já tomava uma enorme xícara de chá preto e Sirius parecia cochilar em cima do prato de mingau, a cabeça caída entre os ombros. Tinha certeza que Remus havia obrigado o outro maroto a descer. Peter não estava por perto, o que não o chocava, já que era muito difícil acordá-lo e ainda mais tão cedo.
- Agora que está todo limpo e trocado, qual a emergência? - Remus perguntou enquanto James sentava na frente dos dois. Sirius continuou sem se mover.
- Não há emergência. Mas...- Ele deu de ombros e cruzou os braços em cima da mesa. - Eu dormi com Lily.
A cabeça de Sirius não poderia ter levantado mais rápido do que aquilo e a boca de Remus não poderia ter caído mais.
- Você o que? - começou Remus.
- Você transou com...! - James enviou magica e rapidamente uma colherada de mingau na boca de Sirius, o calando, porque o amigo não estava nem um pouco preocupado com o tom de voz. Sirius engasgou.
- Cala a boca, Padfoot. - James se ajeitou no banco e se aproximou dos amigos. - Eu não disse "transei com", mas "dormi com".
- E qual a maldita diferença? "Fazer amor", "transar", "sexo", "dormir junto"... - Sirius perguntou quando conseguiu engolir todo o mingau da boca.
- Que eles deitaram um ao lado do outro e fecharam os olhos. Ou deitaram um no outro...ou em cima do outro. A posição é livre, mas seria interessante saber. - Remus respondeu com os olhos ainda arregalados.
- Vocês me acordaram para algo inocente assim? Pelos menos foi "em cima do outro"?
Apesar da frase ter vinda de Sirius, Remus também olhava para James, esperando a resposta.
- Não creio. Quando eu acordei, ela já estava acordada. - James explicou por cima sobre o passeio nos jardins e acordando naquela manhã, pulando completamente a parte do patrono de Lily. Não sabia o porquê, mas achava que ainda não era o momento de compartilhar aquela informação. - O problema é que ela pareceu perturbada. Foi embora como uma rajada de vento.
- Você não pode culpá-la, certo? Ela devia estar com medo de ser pega com um cara, dormindo nos jardins. - Disse Remus.
- Eu sei. - James remexeu nos ovos e bacons que havia se servido. - Mas eu sinto que regredimos. Não sei, parecia que ela estava fugindo de mim e não da situação. Talvez tenha sido o olhar dela...
- Talvez tenha sido o fato de que era você. - Remus olhou feio para Sirius, mas o maroto deu de ombros. - Ela tinha aquela imagem de fortona, que não caia nos flertes dele e, de repente, se pega dormindo com ele nos jardins. Primeiro...- Sirius se virou para James. - ...vocês dividem um espaço, com dois quartos disponíveis. Por que os jardins? Segundo: ela estava fugindo de você, mas eu não acho que isso seja algo negativo.
- Primeiro: eu não a levei para os jardins para, bem, ter algo nesse sentido. - Sirius abriu a boca, mas James continuou rapidamente. - Não que eu diria "não" caso ela quisesse. Mas não fui para lá com essa intenção. Segundo: como isso não é algo negativo?
- Ela se importou muito com isso. Acha que ela reagiria assim caso tivesse sido Moony no seu lugar? Não, porque eles são amigos. Evans não é indiferente à você e já faz um tempo. Deve estar ficando louca sobre isso, sem saber se se deixa levar ou não. Talvez ela tenha que confiar em você, talvez ela ache que você só quer algo uma única vez e depois vai se desinteressar. - Sirius levou uma colherada de mingau à boca e mastigou por alguns segundos. Deu de ombros. - Essa é a minha opinião.
O maroto voltou a encher a boca com mingau. James o encarava, assim como Remus.
- Ele não está errado, eu acho. - Remus concordou. - Há um interesse e isso nós já sabemos, principalmente com as coisas que você conta, as coisas que ela diz, as coisas que eu escuto...
James pareceu perdido em pensamentos enquanto o amigo falava.
- E se...- Ele começou a falar. - ...ela está só interessada em algo rápido, sem futuro? - James perguntou a ninguém específico.
- Se Lily Evans está só com tesão por você e depois que tiver o que quer, ela vai embora? - Sirius tentou desvendar a frase do amigo. James revirou os olhos.
- Algo assim.
- Bom, então você vai aproveitar!
- Não! - Remus quem revirou os olhos dessa vez.
- Quer dizer que se a ruiva aparecesse na porta do quarto dele, usando só um penhoar, ele deveria dizer "não" e fechar a porta na cara dela?
- Eu não faria isso. - James respondeu, mas olhando para Remus.
- Não, não é isso. Eu digo que duvido que seja só isso.
- Mas e se for?
- Você não sabe se é.
- Mas e se for, Moony?
- Padfoot, não é...
- Eu não quero que seja! - James cortou a conversa dos amigos, fazendo ambos prestarem atenção nele. - Eu não quero que seja. - Ele se ajeitou no banco, levantou os olhos para os amigos, antes de desviar para o seu prato novamente. - Eu quero que ela goste de mim e que, ahm, queira ficar comigo. Eu não quero beijá-la apenas para matar a vontade, ou ter uma noite com ela e, depois, vê-la correndo de mim. - Ele parou e olhou para cima, pensando. - Hum...seria difícil dizer "não" caso ela viesse só de penhorar na minha porta.
- Isso nós, Hogwarts e todo o Reino Unido sabe. - Apontou Sirius.
- Não, o que eu digo é que eu acho que prefiro que nada aconteça do que tê-la se esquivando, achando desculpas para não ficar na minha presença e coisas assim. Pareceria que não valeu a pena, ou que ela não queria ou que se arrepende e eu acho isso pior do que nunca ter feito nada.
- Acho normal pensar isso, já que quer fazer Lily se apaixonar por você. - Remus disse com um sorriso no rosto.
- E se ela já estiver? - Sirius perguntou.
- Acho que é muito cedo para dizer qualquer coisa. - Disse James. - Ou muito cedo para eu ter certeza de qualquer coisa. Ela dá sinais de algo, mas é um pouco enigmática também. Ela tem um senso de humor que te faz pensar se é só brincadeira ou não. É muito fácil cair em uma armadilha sem intenção dela e eu não quero cair em uma.
Alguns grifinórios passaram por eles, os cumprimentando e não se sentando tão longe.
- Bom, acho que concordamos em dizer que: Lily fugiu de você, mas isso pode ser visto como algo bom. Obrigado Padfoot, o senhor positivo. - Sirius assentiu para Remus e colocou mais mingau na boca. - E que está muito cedo para saber se Lily está fantasiando e sonhando acordada com você ou se quer só vir de penhoar até o seu quarto e aproveitar uma noite com você, te deixando arrasado e de coração quebrado para sempre.
- Isso. - James concordou, mas não muito contente com a última descrição.
- Acho que não há mais nada a fazer, além de esperar e continuar o seu plano. - Remus concluiu.
- E o que eu faço sobre hoje?
- Aja naturalmente. Você tem que ver como ela vai agir. Eu confio que você irá de acordo com ela.
Remus tinha razão e ele não tinha nada mais além de esperar e ver como Lily reagiria. O que era um inferno, aliás, porque ele só queria resolver as coisas logo.
- Outra pergunta. - Ele se remexeu no banco novamente. - Vocês sabem algo sobre patronos complementares?
- Um pouco. - Sirius respondeu. - Acho que são conhecidos como os "patronos das almas gêmeas" ou algo assim. Minha avó falou sobre isso uma vez quando eu era menor. Ela dizia que era raro, porque existem os patronos que podem mudar quando você ama alguém, mas não se tornam pares. Por exemplo: um cara que tem um bode como patrono. Talvez, se alguém se apaixonasse loucamente por ele, mas não fossem almas gêmeas, o patrono dessa pessoa poderia se tornar um bode também, mas não uma cabra. Já os patronos complementares formam os pares. E eles não mudam, ou seja, os bruxos já nascem ou estão designados àqueles patronos, porque o plano espiritual bla bla bla...é um tanto romântico a coisa toda e...
- Prongs? - Remus chamou, cortando Sirius e fazendo o último também encarar o amigo à sua frente.
James estava branco.
A coisa era mais funda do que ele pensava.
- Onde eu poderia ler mais sobre isso? Qualquer livro sobre patronos?
- Acho que aquele livro que usamos no segundo ano é bem completo. - Sirius respondeu. - Qual o problema?
- Eu preciso ir.
- Você não vai, sei lá, dormir? Parece que você precisa. - Remus se apressou em dizer quando o amigo já levantava. - Nem terminou de comer.
- Eu estou bem.
E assim, James deixou o salão principal. Os dois Marotos que restaram se entreolharam.
- Eu estou preocupado com ele. - Disse Remus encarando o vazio que James deixou.
- Devo confessar que eu também. Ele não dorme direito mais, mal tem comido e eu tenho feito tarefas de monitor dele. - Remus se virou para Sirius, surpreso. - O que? Eu ofereci ajuda, porque ele não tinha tempo e eu fiz. E veja só: eu curti. Até peguei algumas coisas a mais para fazer e ele nem sabe. - Vendo a expressão de choque ainda em Remus, ele continuou apontando com as duas mãos para onde James estava sentado antes. - Ele vai se matar desse jeito. Eu tinha que ajudar.
- Você gostaria de ser monitor?
- De jeito nenhum, mas vocês dois têm ficado ocupados, Peter é um pouco entediante e eu não estou saindo com ninguém...foi uma boa distração. - Sirius abanou a mão no ar, querendo mudar de assunto. - A lua cheia está chegando e ele não pode ir assim, senão corre o risco de ter problemas na transformação e acabar virando humano.
Remus respirou fundo e empurrou o próprio prato para longe.
- Acho que vamos ter que agir. - Remus Murmurou.
- Tem alguma ideia?
- Só há uma solução: vamos ter que forçá-lo a dormir.
A biblioteca estava vazia, parecia quase assustadora.
Foi direto até a sessão de feitiços avançados e procurou. Não faltava livros sobre patronos, mas todos os índices não mostravam nada do que queria. E aquele livro que usaram não estava em lugar algum.
James voltou até a parte principal da biblioteca e foi até a mesa da senhorita Pince. Obviamente ela não estava lá, então apertou a campainha e esperou. Dois minutos depois, uma muito sonolenta bibliotecária apareceu, os cabelos cheios de bobs e uma cara de poucos amigos.
- O que há com esses alunos madrugando?! - Ela reclamou. - Em que posso ajudá-lo?
- Bom dia, senhorita Pince. Eu estou procurando aquele livro sobre patronos, quase uma enciclopédia.
- Ele não está na prateleira?
- Não.
- Então acho que chegamos na resposta óbvia: alguém o pegou primeiro. - Uau, a senhorita Pince não estava contente por ser acordada. Talvez vendo a expressão perturbada de James, ela suspirou. - Desculpe, querido. Eu vou checar se alguém o pegou ou se está apenas fora do lugar.
Ela saiu para conferir o livro de empréstimos. Pensando o quanto as pessoas acordam mal humoradas no domingo, o maroto esperou.
- Sim. Foi pego hoje de manhã.
- Hoje? Eu não sou o primeiro a vir aqui hoje?
- Aparentemente não.
- Não são nem oito horas da manhã. Que diabos?!
A não ser que...Mas é claro.
- Obrigado, senhorita Pince. Eu acho que sei onde irei encontrar esse livro. Acho que pode voltar a dormir.
- Agora eu acho que estou acordada demais para isso.
Ele sentiu a cutucada dela. Bem, o que ele podia fazer? Ela é a única que trabalha ali e a campainha está à disposição para que os alunos a chamassem.
- Bom domingo, então.
Ela apenas reclamou algo e James decidiu deixar a bibliotecária rabugenta para trás, antes que os livros começassem a voar em sua direção.
Foi em direção ao dormitório, o seu dessa vez, mas quando estava chegando, quase esbarrou com a Professora McGonagall.
- Ah, Senhor Potter. Bom dia.
- Bom dia, Minnie. - A professora limpou a garganta com o apelido. Pedir para que ele a chamasse formalmente seria uma perda de tempo. Já havia tentado muitas vezes antes e desistiu.
- Foi útil achá-lo aqui, pois acabo de deixar um bilhete para o senhor e a Senhorita Evans.
- A senhora entra na sala dos Monitores-Chefes de vez em quando?
A professora notou o tom curioso e preocupado usado por James e levantou uma sobrancelha.
- Se fosse o caso, há algum problema, Monitor-Chefe?
- Não, de maneira alguma. - A mentira era descarada ao ponto de fazer McGonagall não reagir.
- De qualquer modo, eu não entro. Meu recado apenas passa pelo quadro. Isso se chama mágica, Sr. Potter.
- Ah! Já ouvi uma coisa ou outra sobre isso. - Ele sorriu. - Como eu poderia ajudá-la neste momento?
- Nós teremos uma pequena reunião com os professores e queremos a presença dos Monitores Chefes.
- Hoje? - Ele perguntou, incrédulo. Vendo a expressão irredutível da professora, ele colocou as mãos para trás em sinal de respeito. Afinal, ser Monitor Chefe significava estar no papel 24h por dia, sete dias por semana e McGonagall não parecia feliz com a resposta direta dele. James Potter sabia quando recuar defronte uma batalha inútil. - A que horas?
- Em quarenta minutos, na sala dos professores.
Merlin, os professores não dormiam nos fins de semana também?
- Então que sorte termos nos encontrado. Se eu ainda estivesse dormindo, perderíamos essa reunião. Nunca veríamos o bilhete a tempo.
- É o que o senhor pensa, senhor Potter. Não é como se a diretora da Grifinória fosse entregar um bilhete importante para os Monitores-Chefes e fazê-lo ser lido com atraso.
Aquilo fez com que James sorrisse com orgulho e, ao mesmo tempo, receasse os futuros bilhetes da professora.
- Estaremos lá.
- Ótimo. - A professora olhou para o relógio. - Considerando a hora, acho que terá que acordar a Monitora Chefe.- McGonagall tentou esconder um sorriso travesso, mas James o viu. - Boa sorte.
E assim ela continuou seu caminho. McGonagall não sabia, mas ela poderia mandá-lo enfrentar Voldemort desarmado e ele iria preferir, do que ter que bater no quarto de Lily após o ocorrido mais cedo.
- Merda! - Ele soltou com raiva e disse a senha da sala e dormitório deles.
Droga, ela não estava ali. Ele tinha mesmo que ir bater no quarto dela? Olhou ao redor e encontrou o bilhete da professora em cima da mesa, e inteligentemente, decidiu pegá-lo e levar com ele. Subiu as escadas e foi até a porta dela.
Tinha que pensar que, naquele momento, ele era o Monitor Chefe que precisava falar com a Monitora Chefe sobre algo importante. Não era o grifinório fora da lei que estava querendo cobrar alguma ação ou reação da grifinória fora da lei daquela manhã.
Bateu na porta e esperou. Se ela ouviu as batidas, já sabia quem era e devia estar se perguntando o que ele estava fazendo ali. Talvez ela fosse fingir que nem tinha percebido...
A porta se abriu para Lily que secava os cabelos com uma toalha. Ah, que boa notícia! Ela já havia tomado banho e ele não precisava ouvi-la naquela manhã. Ela abriu a boca para falar ou perguntar, mas ele foi mais rápido.
- Desculpe te interromper, mas McGonagall nos deixou um bilhete. Nós precisamos comparecer à reunião dos professores em quarenta minutos.
- Em um Domingo de manhã? - Ela perguntou e pegou o bilhete que ele oferecia.
- Seja o que for, não comente isso com McGonagall. Eu já fiz isso e ela vai te deixar claro o quanto ela não aprecia os Monitores Chefes questionando suas tarefas. Isso apenas com um olhar.
Lily franziu os lábios, parecendo imaginar.
- Já que você já nos fez esse favor, melhor eu não comentar nada. - Ela lia o bilhete e James relaxou, parecendo que ela não estava correndo dele ou não mais. - Estarei pronta em alguns minutos.
Ele apenas concordou e desceu até a sala para esperá-la, o que não demorou muito mais do que cinco minutos.
- Ainda temos meia hora. Se importa se eu parar no salão principal e pegar algo para beber? - Ela disse ao chegar na sala. James se levantou do sofá.
- Você pode parar e comer, não precisamos correr. A sala dos professores fica ao lado do salão principal.
Passaram pelo quadro e rumaram em direção ao salão principal, quase como haviam feito ontem a noite quando saíram para os jardins, mas não conversaram dessa vez. Encontraram Marlene e Alice tomando o café da manhã e os dois se aproximaram.
- Bom dia, Monitores Chefes. Tomando um café no Domingo juntos? - Marlene os cumprimentou. Os dois pareceram ficar sem graça e não escaparam dos olhares perspicazes das duas grifinórias.
- Interessante. - Alice comentou com Marlene e as duas sorriram.
Lily pegou rapidamente um pão com geleia e começou a servir um pouco de chá. Queria poder sair dali o mais rápido possível, pois não era o momento para as piadas das amigas e com James ao seu lado.
- Está com pressa, Lilykins?
- Temos reunião com os professores em alguns minutos. - James respondeu por Lily, já que ela mastigava.
- Ah, por isso estão acordados tão cedo hoje e juntos. - Marlene abanou a mão. - Que chatice.
Um olhar gelado de Lily em sua direção deveria ter feito a amiga dar um passo para trás, mas só a encorajou mais.
- Não. - Lily disse rápido quando viu que a amiga continuaria. - Apenas não, Marlene.
- Sabe o que? Eu já tomei café da manhã. Eu vou esperar por você na sala dos professores. Até mais tarde, garotas.
James levantou, pegou uma maçã e saiu do salão principal sem esperar pelas despedidas. Lily o acompanhou com o olhar.
- Parabéns, Marlene. Está contente agora?
- Lily, ele não está bravo. Parece desconcertado. - Marlene parou e pensou por um momento. - O que não é do feitio dele. Estranho.
- Aconteceu alguma coisa? - Alice perguntou.
- Nós dormimos juntos nos jardins.
As amigas arregalaram os olhos.
- NOS JARDINS?! - Marlene gritou, chamando a atenção de alguns alunos em volta. Abaixando a voz, ela continuou. - Nos jardins? Merlin, Lily Evans, você ganhou das minhas histórias. Eu estou me sentindo uma amadora perto da sua criatividade para tal. Pensava que seria no dormitório dos monitores, já que vocês estão lá sozinhos sempre, há duas camas disponíveis, chuveiro, uma lareira etc. Mas não. Nos jardins! - Sem deixar Lily se expressar, a amiga continuou. - Me diga, ele te colocou contra uma árvore ou foi na velha e boa grama? Não pinica?
Alice, que ainda tinha o rosto em choque total, apenas assentiu, concordando com Marlene e depois arregalou os olhos com o fim do monólogo.
- Eu posso falar agora? - Lily perguntou para a amiga. Quando Marlene concordou e esperava ansiosa pela resposta, Lily revirou os olhos. - Calma, não fizemos nada. Nada mesmo. Nós saímos pelos jardins ontem, sentamos perto do lago e pegamos no sono. Eu acordei no começo da manhã...
- Enrolada nele, os braços de James a segurando bem forte, respirando na sua nuca, o corpo colado ao seu. - Marlene recitou como se fosse um poema.
- Normalmente é assim que acontece mesmo. - Alice riu.
- Não foi assim.
- Então vocês estavam enrolados, James sem camisa, você só de...
- Não! - A ruiva se apressou e bufou para a amiga enquanto Alice ria mais. - Estávamos sentados, um ao lado do outro. - Lily preferiu pular a parte de suas pernas em cima das dele e não inflamar ainda mais as amigas. - Não creio que fizemos isso. Poderíamos ter sido pegos ou até mortos, sei lá.
- Por quem? Pelas formigas? - Perguntou Marlene.
- Não sei...a Floresta Proibida fazia muito barulho. De qualquer maneira...
- De qualquer maneira, o que importa é que você está viva e bem e dormiu com James Potter! - Marlene sorriu com Alice, como se trocassem piadas internas.
- Mas não nesse sentido.
- Tem certeza? Não foi nem um pouquinho?
- Alice! Não, nem um pouquinho.
- Sem beijos? Sem sexo? Sem mãos naquilo e aquilo nas mãos? - Marlene perguntou.
Lily não respondeu, desistindo. Sabia que se continuasse, as amigas também continuariam. As duas encaravam Lily, esperando alguma reação, mas não tiveram uma. Elas se entreolharam antes de decidirem intervir.
- Você vai nos contar a razão de estar surtando, já que nada aconteceu? - Alice cruzou os braços.
- Eu não estou surtando. - Ela respondeu sem olhar para nenhuma delas.
- Sim, você está. Qualquer um diria que seus surtos ocorrem quando você grita, chora ou coisas do tipo. Não, isso é quando você está com raiva, triste ou desapontada. Você surta no silêncio. - Lily bufou. - Nós te conhecemos há anos, esqueceu?
Ela se aproximou mais das amigas por cima da mesa.
- Vocês estão vendo para onde eu estou indo? Eu dormi com James Potter nos jardins. Eu estou perdendo a razão, o discernimento, tudo.
- Vamos começar com uma informação que você parece estar perdendo ou esquecendo: você não é nenhuma santa. Não sei de onde as pessoas tiram essa imagem sua. Talvez por estar sempre defendendo os oprimidos, ter ótimas notas, ser muito querida pelos professores. Mas você nunca foi santa e Alice e eu poderíamos ficar algumas boas horas relembrando o que você já fez neste castelo durante estes anos.
- Bem...
- Não tente negar, porque não tem como. Mas enfim...- Marlene jogou os cabelos para trás. - Você está andando bastante com um maroto agora e ainda que você tenha feito loucuras antes, há coisas que eles fazem e fizeram que não podemos nem comparar. Eles devem fazer as coisas mais loucas soarem normais.
- Eu ando bastante com Remus. Eu fiz mil rondas com ele nessa vida e nunca fiz loucuras.
- Claro, vamos mesmo comparar você e Remus com você e James. Isso vai soar bem justo, porque eu aposto que Remus quer dormir em árvores com você por aí.
- Marlene... - Lily soltou todo o ar.
- Lily, você está preocupada com o fato de que vocês dormiram nos jardins e poderiam ser pegos ou por terem dormido nos jardins e você sentir que está perdendo o controle das coisas? - Alice perguntou levantando uma sobrancelha e bebendo de seu chá.
- Hm, você costuma mesmo ficar louca quando está perdendo o controle das coisas. - Marlene concordou. As duas fitavam a amiga.
Sim, ela queria gritar. Queria gritar que adorava ser uma "grifinória fora da lei" com ele. Adorava sair por aí às escondidas e fazer coisas que nunca tinha feito ou fazer de uma maneira diferente, debaixo da capa dele e tudo mais.
Dormir nos jardins não foi um problema. Claro, se tivessem sido pegos, seria vergonhoso, mas ter estado ali não era o problema, mas o problema é que ela estava perdendo o controle da situação. Estavam ali há menos de um mês, nunca tinha tido essa relação com ele antes e sentia que estava indo muito rápido e de um jeito que poderia virar a situação para algo ruim. Do tipo de algo acontecer entre eles e depois cada um ir para um lado.
O que era muito estranho, já que ela não parava de se imaginar muitas vezes jogando James na parede e o beijando até alguém ter que chamar ajuda para rebocá-la de lá, mas naquela manhã...ela não sentiu medo por ser ele, com ele, nos jardins. Ela sentiu que algo bem diferente e forte aconteceu (dormir juntos no jardim), e as coisas iriam acabar ali.
Sem mais aventuras de madrugada, sem mais flertes, sem mais mão com mão...Como se estivessem pulando alguma etapa no caminho e que era essencial para que o que fosse acontecer entre eles, desse certo.
Não conseguia imaginar o cenário de ambos sendo Monitores Chefes até Junho, mas se evitando porque tiveram algo no começo do ano letivo e agora estavam desconfortáveis.
Não sabia dar um nome para o que vinha sentindo. Não ainda. Em sua cabeça, chamava de obsessão e uma bem louca, porque ele não saia de sua cabeça. Porém, sabia que não era algo passageiro.
Poderia ser muito bem paixão.
E se estivesse se apaixonando por James Potter ou se, para o inferno com aquilo, já estivesse apaixonada, queria que as coisas dessem certo, pelo menos.
Porque Lily tinha a impressão de que com toda a beleza, charme, sorriso, uma personalidade madura e envolvente e corpo de Quadribol, James Potter poderia quebrar seu coração com uma facilidade incrível se quisesse.
Uma vez que ela entrasse de vez ali, seria difícil de sair.
- Eu estou, sim, louca por estar perdendo o controle. Eu gostaria de saber onde isso vai dar.
- E qual a graça em fazer isso? - Marlene perguntou, olhando para Alice e depois para ela novamente. - Qual a maldita graça em controlar cada passo que você dá com ele? Ou com qualquer outro?
- Você não quer aquela sensação gostosa quando se está gostando de alguém? Daquelas surpresas, mesmo que pequenas, os batimentos cardíacos aumentando de repente quando ele diz ou faz algo? - Perguntou Alice. - Você virar a cada esquina sem saber se ele estará lá ou não e, quando menos espera, naquela esquina que você não estava pensando nisso, você o encontra e tudo fica bonito? Uma das melhores coisas do amor é a imprevisibilidade. É ela quem vai dar aquela excitação das coisas.
- Ela sabe do que está falando. - Marlene apontou para Alice, mas olhando para Lily. - Frank que o diga.
- Deixar a imprevisibilidade tomar conta, também não leva a dor? - Lily perguntou.
- Lily, não são todos os casais que continuam juntos e você sabe. Mas isso não quer dizer que todo casal vai se separar. E se você embarcar com qualquer um com essa mentalidade, melhor ficar sozinha mesmo e será uma pena, porque deixar de amar alguém por medo de amar, é triste.
A cabeça da ruiva caiu e seus olhos encontraram o relógio em seu pulso.
- Eu vou me atrasar. - Ela deu um pulo do banco. - Falo com vocês depois.
- Vamos continuar isso aqui, Lilykins.
A ruiva acenou de qualquer jeito e se apressou para a sala dos professores. A porta estava bem aberta, então entrou dando dois leves toques, mas descobriu que a sala tinha apenas uma pessoa.
- Ah. Pensei que estava atrasada. - Ela comentou quando James se virou para ela. O maroto estava sentado em um longo banco no fundo da sala, as pernas esticadas em cima do mesmo e parecia tirar um cochilo antes dela chegar.
James checou o próprio relógio.
- Acho que finalmente podemos dar aquele olhar inquisidor sobre atrasos para eles hoje. - Ele respondeu. - Você teve tempo de comer?
- Bem pouco, mas o suficiente por agora.
Eles não se olhavam e isso estava incomodando a ambos. Lily lhe jogava algumas olhadelas e quando achava que tinha sido por muito tempo, desviava. James fazia o mesmo.
- Olha, desculpe pelas meninas na mesa. Elas podem ser inconvenientes quando fazem algumas brincadeiras às vezes.
- Eu não saí da mesa por me sentir desconfortável. - Ele jogou as pernas para fora do banco e apoiou os cotovelos nos joelhos. - Eu saí, porque você parecia estar desconfortável.
- Eu fiquei desconfortável, porque pensei que você estava.
Os dois sorriram quando perceberam a bobagem que havia sido aquilo tudo. O ambiente parecia começar a ficar mais leve.
- Já que estamos falando disso, eu quero dizer que mesmo não lançando um feitiço ou te dando uma poção para dormir, eu sinto muito pelo o que aconteceu essa noite. Eu te levei nos jardins, mas não planejei aquilo.
Aquilo inquietou Lily. Mais do que o fato de terem passado a noite nos jardins. Era aquele tipo de desculpas "não queria que acontecesse" ou "não estava planejado, mas aconteceu e eu não me importo, mas me desculpe"?
- Por que está dizendo isso? - Ela perguntou. James franziu as sobrancelhas.
- Porque eu não quero que você pense que eu fiz algo para forçar algo com você.
Saber que James estava tendo algumas reações sobre o assunto lhe acalmou também. Não queria ser a única com alguns pensamentos estranhos sobre isso.
De algum jeito, mostrava que James se importava e que, talvez, ele não queria que as coisas saíssem dos trilhos que eles pareciam construir juntos.
Aquilo foi um alívio muito bem-vindo.
- Eu não pensaria isso. Eu fui com você e nem um pouco forçada. Nós caímos no sono, porque estávamos relaxados, calmos, confortáveis e cansados o suficiente para dormirmos sentados. - Ela dizia mais alegre.
- Então você não está brava ou chateada ou...arrependida?
- De jeito nenhum. - Aquilo havia saído um pouco desesperado demais, mas Lily tentou se acalmar. - Não, está tudo bem.
Um pigarro vindo da porta cortou a conversa. Professor Flitwick sorriu, ao lado da Professora McGonagall.
- Eu não esperava que seriam os primeiros a chegar. - McGonagall não teve receio em dizer.
- Minnie, Minnie...nós somos Monitores-Chefes sérios. Uma missão dada, será uma missão cumprida. Nossa presença foi requisitada na sala dos professores em um horário específico no domingo de manhã, então aqui estamos. - James levantou uma sobrancelha para os dois professores. - Então nos perguntávamos onde estariam os professores, não é mesmo Senhorita Evans?
- De fato. -Lily respondeu segurando um sorriso leve.
Os dois professores sorriram, o que aliviou Lily. Apenas embarcou naquela brincadeira de James sem nem pensar nas consequências que poderiam ter caso os professores ficassem nervosos.
- Muito bem, Monitores-Chefes. Sentem-se. Começaremos em cinco minutos.
O que de fato ocorreu. Todos os professores se encontravam na sala agora. Na verdade, Lily se perguntava o que estavam fazendo ali, já que apenas escutavam um resumo de acontecimentos do começo do mês, muitos deles que ela já estava ciente ou que havia reportado. Um exemplo era a quantidade de detenções referidas aos alunos da Sonserina por estarem fora da classe ou quebrando o toque de recolher. Também foi discutido que esses alunos eram sempre os mesmos: Mulciber, Macnair, Dolohov. Eles não eram os únicos alunos pegos fora, mas os com detenções mais recorrentes.
- Eu tenho que supervisionar a detenção desses três na terça-feira. - Lily murmurou para James e revirou os olhos.
- Como é? - Ele respondeu e se virou para ela enquanto os professores discutiam sobre as refeições.
- Quando eu levava Mary McDonald para a aula, no primeiro dia, eu dei detenção para eles. Eu não tive tempo antes, então está marcada para terça.
- Está louca, Evans? - Aquilo havia saído mais alto do que deveria, tirando a atenção de Slughorn e Sprout por um momento.
- Não? - Ela riu debochada.
- Está pedindo para ser atacada por eles sem ninguém por perto.
- Talvez o contrário. Eu poderia atacá-los.
- Eu vou com você, então. Não há maneira nessa vida que você ficará com eles sozinha em uma detenção.
- Pare de soar como Remus. Eles não poderiam fazer nada contra mim, já que está escrito em relatórios que eu estarei lá com eles.
- Isso iria mesmo impedi-los de fazer algo. - Ele respondeu ironicamente.
- Bom, eu não vou cancelar essa detenção. Ela vai acontecer, você gostando ou não
- Mas eu vou com você.
- Não, você não vai. Você vai fazer uma das milhões de coisas que tem para fazer e ir dormir cedo.
- Evans, seja razoável.
- Seja razoável você. Eu não quero um guarda-costas comigo ou uma babá, eu não sou uma criança. Sou uma bruxa, como eles, que sabe atacar e defender e aprendendo a melhorar isso ainda mais, aliás.
- Mas estará em menor número!
- Um pequeno problema matemático. Eu nunca fui boa em exatas mesmo.
James a encarou, confuso.
- E para a visita de Hogsmeade...- McGonagall anunciou. James se virou para a professora rapidamente.
- Sim? - Ele perguntou, fazendo todas as cabeças se virarem para ele.
- Senhor Potter. Ansioso para uma visita legal à Hogsmeade ? - A professora perguntou.
- E quem não?
Lily percebeu que a professora ficou entre divertida e incomodada, mas optou por ignorar e continuar.
- Bem, como eu dizia. A primeira visita estará marcada para o meio de Novembro...
- Só? - James novamente.
- Senhor Potter, se me interromper a cada segundo, nunca sairemos dessa sala.
- Desculpe. Vou anotar minhas dúvidas e tirá-las no final do anúncio.
- Me avise se precisar de um outro pergaminho. - A professora revirou graciosamente os olhos. - Como eu ia dizendo, marcaremos para meio de Novembro para podermos aproveitar o máximo do ano letivo nos dois primeiros meses e meio. O diretor está estudando uma possível volta para a casa no Natal mais cedo.
Os professores começaram a murmurar, sozinhos e entre colegas. Lily apenas encarou o vazio por alguns instantes. Por que Dumbledore decidiria isso? Era algo relacionado ao que ocorria lá fora, evidentemente, mas o que estava acontecendo? Não vira nada de anormal nos jornais, ou não mais do que vinha sendo ultimamente sobre mortes, perseguição e etc.
- Então...- McGonagall continuou após deixar a notícia ser digerida. - Em uma decisão conjunta com o diretor, não querendo atrapalhar os estudos e aulas de NIEMs e NOMs, essa foi a decisão sobre Hogsmeade.
A mão de James estava no ar no segundo seguinte que a informação havia sido dada.
- Desculpe pela honestidade, mas acho uma decisão um tanto precipitada.
- E por qual razão, senhor Potter?
- Eu acho incrível que estejam pensando na parte acadêmica do assunto, mas a vida pessoal dos alunos foi levado em consideração? - Todos da sala o encaravam. - Nós já estamos bem estressados com a vida em si, sobre o que vem acontecendo lá fora, aqui dentro, as aulas, exames, a vida social entre nós. Jogar uma das únicas coisas que relaxa esses alunos para tão longe, deixando-nos apenas com a cabeça em lições, aulas, poções, feitiços e tudo mais sem uma pausa fora desse lugar, me parece uma decisão que trará a todos nós a loucura. - James olhou para todos, incluindo Lily. - Os alunos precisam estar confortáveis para toda a parte acadêmica também e acho que isso inclui melhorar a vida em geral deles no castelo, ao invés de nos trancar aqui por quase três meses.
- Diz isso por experiência própria, senhor Potter?
Ouve um barulho intenso de cadeiras se movendo quando ouviram a voz vinda da porta. Dumbledore parecia tranquilo, porém curioso. Houve uma onda de cumprimentos para o diretor, que respondeu com um sorriso para todos.
- Bem, sim. Eu sei que sou um caso à parte, já que sou muitas coisas mais do que apenas aluno, mas sim. Eu vejo a loucura chegando ali na esquina.
- O que acha, senhorita Evans? Concorda com o seu colega?
Lily se ajeitou na cadeira.
- Eu acho que tirar algo prazeroso ou adiar tanto para fazer com que centenas de alunos que convivem quase 24h por dia não focarem em nada além da vida acadêmica, estaremos construindo uma bomba-relógio.
Metade da sala pareceu ficar confusa com a referência trouxa.
Dumbledore entrou na sala, passando pela mesa e parando ao lado de McGonagall que sentava-se na ponta. Agora, todos os olhos estavam nele. Como não houve nenhuma retaliação de nenhum dos professores, incluindo McGonagall, sobre o ponto levantado por James e que Lily confirmara, era visível que todos concordavam.
Por alguns segundos, Dumbledore apenas ficou ali, pensativo e relaxado, os olhos passeando por toda a sala.
- Que tal uma visita a Hogsmeade na semana que vem? - Ele finalmente disse. Até James ficou surpreso. Era bem cedo no trimestre, mas ninguém parecia achar ruim.- Daremos uma pausa para os nossos alunos se recuperarem das intensas primeiras semanas, então dando uma pausa de um mês e meio antes da segunda visita de Novembro. O que acha, professora McGonagall?
- Eu não me oporia.
- O que acham, Monitores-Chefes?
- Ótimo. - James respondeu.
- Muito justo. - Lily concordou.
- Ótimo. Darei a informação essa noite para todos, antes do jantar.
Se ajeitando na cadeira, James ficou surpreso e orgulhoso. Esse negócio de ter voz entre as pessoas mais importantes do castelo era bem legal. Não que ele fosse uma das pessoas mais importantes, mas um Monitor-Chefe era ouvido, pelo menos, o que ele acharia difícil se estivesse ali apenas como um maroto.
Ou talvez não. Achava que sua reivindicação era bem justa.
- Parabéns, Potter. Conseguiu um passeio em Hogsmeade no primeiro mês. Você será o Monitor-Chefe mais amado desse lugar. - Disse Lily dando um tapinha em seu ombro.
Ele tinha que se segurar em não fazer piada alguma sobre um convite ou os dois em Hogsmeade comemorando aquilo. Tinha que ter calma, muita calma.
Teria que ser astuto naquela altura, sem deixar o James bobalhão e ansioso tomar conta. Teria que chegar sorrateiramente em Lily com o assunto Hogsmeade, já que ele poderia correr o risco de receber um "não" e muitos passos para trás dela. Devagar, gerenciando tudo. Ou como disse Remus: "deixe Lily jogar a corda e ele a recebendo, cuidadosamente...sem puxar a corda muito cedo".
- Achei que eu já era o Monitor-Chefe mais amado.
Lily revirou os olhos, mas riu.
Ele também sorriu, mas estando orgulhoso de si mesmo em conseguir desviar do assunto Hogsmeade com sucesso.
Segunda-feira de uma nova semana e Lily Evans já estava cansada.
A única coisa que a impedia de se entregar completamente ao delírio de uma alma pedindo para esquecer suas obrigações e ir dormir, era aquela porta a alguns metros de distância: a sala da monitoria de duelos.
A porta da sala, como sempre, estava aberta. Achava engraçado como aquilo fazia seu coração acelerar, pensando que lá estava James esperando por ela, como se fosse a hora dela, a sua hora do dia.
O que não deixava de ser verdade. Ela só estava romantizando algo normal.
Sorriu, limpou a garganta, colocou alguns fios de cabelo para trás e entrou.
James estava encostado em uma mesa, olhando para o tal pergaminho, os braços cruzados e levantou os olhos no mesmo momento que ela entrava. Como se ele soubesse que ela estava prestes a entrar.
Ele sorriu, murmurou algo e bateu com a varinha no pergaminho, fechando-o.
- Olá, Evans.
- Oi, Potter. Você parece mais descansado hoje.
- Eu estou. - Ele passou a mão nos cabelos. Lily não compreendia como poderia achar aquele gesto ridículo antes. Bom, em sua defesa, a situação era bem diferente. - Não tive nada relacionado à Quadribol ou monitoria ontem depois da reunião com os professores, o que me deu algumas horas a mais de sono.
- Estou feliz que esteja gerenciando melhor sua agenda. - Ela depositou sua bolsa na mesa, onde estava o pergaminho dele e ela reparou que era apenas um pergaminho em branco. Já havia visto os marotos, rapidamente, com aquilo algumas vezes e se perguntava o que diabos era. - O que é isso, afinal? - Disse, pegando o objeto.
- Um pergaminho.
- Que tem alguma mágica oculta. Não pode me mostrar? - Ela se virou para ele.
- Se envolvesse só a mim, eu não me importaria.
- Deve haver o dedo de todos os marotos nisso. Entendo. - Ela queria bater com a própria varinha no pergaminho, como ele havia feito, mas preferia respeitar a privacidade do grupo. - Bem, estou pronta.
James se desencostou da mesa e foi para o meio da sala, andando de costas e a olhando, como se a chamasse para segui-lo.
- Você fez o seu dever de casa?
- Meu dever de casa, Potter? Você está se achando um pouco, não?
- De maneira alguma. Eu sou o seu monitor de duelo e pedi para você trazer algo hoje. - Ele riu. - E já que vimos que progrediu com o patrono, você trouxe algo?
- Você já me viu não fazendo uma atividade? - Lily perguntou, levantando uma sobrancelha. James levantou as mãos ao alto, se dando por vencido.
- Certo, vamos ver o que tem para mim.
De repente, ela ficou tímida. Tímida e nervosa.
O que estava prestes a mostrar para James era algo que havia criado com outra pessoa anos atrás e que ela não usava há muito tempo.
Após sua briga com Severus, a pessoa que havia criado aquele feitiço com ela, Lily tentou aperfeiçoar sozinha e tinha conseguido bons avanços, mas não o usava mais e havia deixado de lado. Até James pedir para o surpreender.
Sabia que se voltasse a se empenhar e trabalhar naquele feitiço, poderia sair algo bom, apenas não sabia como utilizar a seu favor ainda. Quando eles haviam criado, era apenas uma brincadeira. Mas agora, pensando melhor, havia algum potencial.
- Gostaria de deixar claro que faz muito tempo que não faço isso e vou me esforçar para sair corretamente. Eu não consigo treinar sem estar com outra pessoa, então eu não pude realmente testar nesses últimos dias, apenas checar alguns rascunhos de estudo e notas enquanto estava em desenvolvimento.
- Está aguçando a minha curiosidade. Você quer que eu faça algo específico?
- Não. - Ela sorriu de lado.
O sorriso de Lily havia sido a última coisa que James viu, antes de parar no treino de Quadribol. Ele estava tão cansado, mas sabia que tinha que treinar, pois não aceitaria sair de Hogwarts sem trazer a taça pela última vez.
Era fim de tarde e ele treinava sozinho, já montado em sua vassoura e bem alto no campo. Os balaços passavam muito perto dele, a goles estava embaixo de seu braço e, ao longe, havia visto rapidamente o pomo. Esqueceu de fechar o malão com as bolas e elas acabaram escapando, tudo por conta de seu cansaço. Mal sabia o que fazia.
- Algum problema?
Aquela voz, ao seu lado, o fez virar rapidamente e soltar a goles sem querer.
Lily estava em uma vassoura também, tranquilamente, o fitando.
- O que você está fazendo no meio do treino? Sabe que pode ser acertada por um balaço?
James olhou para os lados, tentando ver as ditas cuja que voavam loucamente pelo campo. Lily precisava descer o quanto antes.
- Se eu cair, não tem problema.
- Claro que tem! Diabos, por que estou tão alto em um treino? Por que você está tão alta?
- Ah, você treina mais baixo?
- Não tem porquê treinar tão alto assim. Eu estou quase quinze metros mais alto que os aros. Como eu marcaria um ponto? - James esfregou o rosto com as mãos. - Eu devo estar cansado.
- Você está muito cansado, nós já falamos sobre isso.
- Cansado o suficiente para te chamar para treinar comigo, nessa altura. Vamos, vamos descer antes que você caia.
- Cair como? Assim?
Lily se mexeu na vassoura, passando uma perna para o lado e escorregando do cabo, caindo em queda livre.
O nome dela, em um grito, e seu impulso para sua vassoura descer atrás dos cabelos ruivos esvoaçantes ficaram trancados no tempo quando, de repente, James estava de volta na sala.
Lily estava parada onde a havia visto pela última vez, sorrindo de lado, antes dele ter ido para o treino de Quadribol.
O que havia acontecido?
- O que aconteceu? - James sussurrou para si mesmo. - Evans, desculpe, eu acho que dormi.
- Não, você não dormiu.
O moreno a encarou por alguns segundos, tão perdido quanto antes.
- Eu creio que sim.
- Me diga uma coisa...- Ela começou, cruzando as mãos nas costas e começando a andar pela sala. - Você consegue lembrar se sentia a goles em seus braços? A vassoura te sustentando, ou o vento batendo em seu rosto?
James deixou a boca se entreabrir. Não sabia se estava entendendo bem, mas talvez parecia compreender alguma coisa agora.
- Você usou algo em mim?
- Você está surpreendido? - As sobrancelhas dela se levantaram, curiosas.
Se estava surpreendido? Ele estava chocado. Se o que pensava fosse verdade, ele estava muito chocado.
- Você me fez dormir e invadiu meu sonho?
- Não, eu criei uma ilusão.
Aquilo era ainda maior. A boca de James formou um "O". Não conhecia esse feitiço, não algo que o fizesse sair dali, parar em outro lugar, ter aquelas sensações de que tudo estava normal. Se ela não estivesse na vassoura, ao lado dele, diria que estava treinando Quadribol, sem nenhuma suspeita.
Aquilo era muito poderoso.
- Illusio foi o nome dado para esse feitiço.
- Você criou um feitiço. - Ele disse. - Eu tenho vários adjetivos para usar agora, mas nenhum parece bom o suficiente. Isso é genial, Evans.
- Obrigada. Mas eu me sinto no dever de dizer que eu não o criei sozinha. - Seus olhos caíram e uma certa tristeza passaram rapidamente por eles.
- Ah! Ranh... Snape! - O tom de voz dele estava carregada de raiva contida.
- Começamos há alguns anos, mas eu desenvolvi um pouco sozinha depois e, desde então, eu não usava mais. Até hoje.
James parou por um segundo e parecia pensativo.
- Quer dizer que há alguém na Sonserina, alguém não muito inocente, que conhece esse feitiço.
- Bem, sim. - Ela levantou os ombros. - Mas eu não acho que ele se importe muito com esse feitiço, pois ele criou outros que...hmm...podemos dizer que ele tinha uma preferência maior.
Ao se lembrar disso, Lily se perguntava ainda mais sobre como sua amizade durou tanto tempo. Severus havia criado feitiços que machucavam as pessoas e que não eram leves.
- Eu bem me lembro. - James passou uma mão na bochecha esquerda sem ela ver, onde havia uma pequena e fina cicatriz de seu embate com o sonserino no quinto ano. Pelo fato do corte não parar de sangrar por tanto tempo e ele ter ralado muito para, enfim, colocar fim naquilo, só indicava que era uma feitiço de própria autoria.
- Esse simples e "inocente" feitiço ficou de lado. Então eu me apossei dele.
- Alguém pensar que esse feitiço não é tão poderoso quanto qualquer outro, é muito burro. - Ele se aproximou dela. - Isso fora das mãos deles é uma ótima notícia, mas saber que está do nosso lado é ótimo! Você poderia fazer de novo?
- Claro.
E, novamente, James não se lembrou de mais nada, até se encontrar em Hogsmeade. Era Dezembro, com toda a certeza, pois o lugar estava enterrado em neve. Olhou para os lados e não encontrou nenhum aluno. Será que o horário da visita havia acabado e ele ficou para trás? Não, ainda estava de dia e em Dezembro escurecia mais cedo.
Onde estavam os caras?
- Perdido?
Lily estava ali.
- Não. Eu acho que não. Você está? - Ele perguntou.
- Nem um pouco.
Eles estavam em um encontro?
- Então...era para estarmos aqui, juntos?
A ruiva deu de ombros.
- Você se importa?
- Eu não poderia me importar menos. Digo...eu não me importo de estarmos juntos. - Ele olhou ao redor novamente. - Estamos sozinhos, certo?
- Você diz sobre sermos os únicos alunos de Hogwarts? Sim.
- Legal. - Ele sorriu verdadeiramente, quase como uma criança que encontrou o pote de doces escondido.
Lily segurou uma risada e começou a andar, ele a acompanhou.
- Você gostaria de, você sabe, beber alguma coisa? - James perguntou, testando o terreno e garantindo que eles estavam ali para a mesma coisa.
- Que tal pegarmos uma garrafa de firewhisky e irmos até aquela casa assustadora e ver alguns espíritos?
- Você quer ir até a Casa dos Gritos? - Mas que diabos, Lily Evans tinha uns gostos bizarros para um encontro.
Aquilo era um encontro, não? Claro que era, só podia ser.
- Sim. Não seria legal? A não ser que você tenha medo.
James riu.
- Da Casa dos Gritos? Você não sabe de nada, Evans. Me siga, eu sei como chegar lá mais rápido.
- Espere, mas e o firewhisky?
- Eu vou providenciar um.
Mal sabia ela que os marotos tinham algumas coisinhas estocadas na casa e firewhisky era uma delas.
Eles andavam rapidamente pela vila e chegaram em frente da cerca da casa bem rápido. Aquilo pareceu soar um alerta na cabeça dele.
Estava sonhando?
- Algo errado? - Lily perguntou.
- Você não achou que chegamos aqui muito rápido?
- Você quem disse que conhecia um caminho mais rápido.
- E mesmo assim, foi muito rápido.
Lily sorria para ele, as mãos para trás e balançando o corpo. Ela estava estranha.
- O que há, Potter?
- Você bebeu? - Lily gargalhou.
- Hoje não. Ainda não. Por que?
- Está estranha.
- Talvez eu seja estranha e você nunca reparou.
O que estava acontecendo? James olhou ao redor e não tinha nada de estranho, além dela, e tudo parecia no lugar. Voltou a olhar para ela e deu um pequeno pulo no lugar.
- O que aconteceu com o seu cabelo?
Lily estava com os cabelos roxos. Neon!
- Do que está falando?
- Merlin, eu devo ter ingerido algo que não devia. Evans, o seu cabelo está roxo!
- Potter, meu cabelo sempre foi roxo.
Foi? Algo em sua cabeça dizia que ela tinha razão, mas havia uma pequena parte que bicava ali no canto, dizendo que havia algo errado.
Começou a piscar os olhos freneticamente, querendo acordar. Devia estar sonhando. Ele se beliscou e não sentiu nada.
- Isso é um sonho.
- Não, não é.
- Eu tenho certeza que é.
- E eu garanto que não.
- Estou me beliscando e não sinto nada.
- Talvez seu braço esteja dormente por conta do frio.
De novo aquela sensação de que ela estava certa, mas algo não soava correto.
- Vamos entrar ou não? - Ela disse enquanto ia na direção da cerca, pronta para abri-la.
Sem ter o que responder e pensando que quem havia ingerido álcool tenha sido ele mesmo, James deu de ombros e a seguiu. Caminharam em silêncio por todo o descampado que rodeava a casa, até a porta da frente.
- Você já esteve aí dentro? - Lily perguntou enquanto olhava a fachada da casa.
- Sim. Você?
- Uma vez.
Ele arregalou os olhos. Os marotos haviam colocado alarmes e feitiços de proteção na casa toda. A não ser que tenha sido antes do quinto ano.
- Quando?
- No quarto ano. Marlene, Alice e eu estávamos curiosas. Morrendo de medo, mas curiosas. Eu acho que a fama dessa casa é um pouco exagerada. Tenho certeza que é usada por bêbados durante a noite ou pessoas sem lar, porque é uma bagunça aí dentro.
- Bêbados e pessoas sem lar? - Ele repetiu com um tom de humor na voz. - Deve ser exatamente isso, Evans.
Um grito agonizante vindo da casa fez com que James arregalasse os olhos. Que diabos era aquilo? Não era lua cheia. Mas como nada parecia estar seguindo o senso comum, ele deu um passo para trás, empurrando Lily consigo.
- Com medo de um fantasminha, Potter?
- Não é fantasma.
De novo, o grito pareceu cortar o ar e fazer os pêlos dos braços de James se arrepiarem. Eles não deveriam estar ali. Remus não deveria estar ali também, mas entre dizer isso para um aparente lobisomem em plena transformação e Lily, ele preferia a última opção.
- Temos que ir embora. Agora.
- Ah, por favor.
Resmungando, Lily desviou do braço protetor dele e foi até a porta, abrindo-a e entrando. James pulou do lugar e tentou segurá-la, mas Lily escapou de suas mãos como se fosse fumaça, desaparecendo, e a porta fechando na sua cara.
No segundo seguinte, ele estava de volta na sala de duelos. O coração parecia parado, uma dor no peito que não poderia descrever e os olhos parecendo dois pratos de tão grandes.
- Potter? - A voz de Lily o chamou. Respirar doía, então ele levou a mão até o peito e o massageou. - Potter, você está bem?
Ela parecia muito preocupada e pouco a pouco, ele começou a voltar ao normal.
- Isso foi muito real. Real até demais. - O maroto disse em um tom baixo.
- Você estava lutando contra, estava resistindo ao feitiço. Isso nunca tinha acontecido antes quando estávamos criando-o.
- Talvez por termos conversado sobre ele antes, de alguma maneira uma parte do meu cérebro sabia que não era real?
James não sabia como estava conversando normalmente com ela, porque sua alma parecia ter saído de seu corpo. A cena de um Remus atacando Lily dentro daquela casa passava em looping em sua cabeça. Olhou para baixo disfarçadamente e viu que sua mão tremia.
- Você não parece bem. Me desculpe, eu não queria te perturbar, mas eu tenho um problema com este feitiço ainda: eu não sei como quebrá-lo quando estamos lá. Então eu tenho que fazer a pessoa "acordar" e só tem funcionado com sustos e afins.
- Não se desculpe, está tudo bem. - Ele pensou por alguns segundos, antes de perguntar. - Você sabe o que acontece na Casa dos Gritos?
Lily respirou fundo.
- Remus me contou que ele fica por lá nas transformações.
Ele assentiu. Respirando fundo, passou a mão pelos cabelos, tentando se acalmar.
- Como pudemos ver, o susto funcionou muito bem. - Lily fez uma careta culpada e arrependida e James se obrigou a sorrir. - Evans, está tudo bem. Foi apenas uma ilusão. Eu estou te vendo bem e inteira na minha frente, então tudo está bem. - Ele limpou a garganta e se recompôs. - Podemos trabalhar nessa finalização de feitiço. Se você quiser, claro.
- Você me ajudaria? - Ela perguntou, feliz.
- Claro. Nesse caso, eu vou ter que treinar o feitiço primeiro, ver como ele funciona, mas acho que devia manter isso entre nós, por enquanto.
- Como assim?
- Esse feitiço pode ser bem útil. Imagina como você poderia desestabilizar alguém durante um confronto? - James começou a andar pela sala. - Eu me senti fora daqui, esquecendo do que eu estava fazendo antes, e tudo parecia normal. Mesmo você no campo de Quadribol me pareceu normal, mesmo eu achando que eu havia cometido o erro de ter te chamado para treinar comigo ou algo assim. Na segunda vez, eu sentia que algumas coisas estavam estranhas, mas o que você dizia me convencia. Você me convenceu que o seu cabelo sempre foi roxo! - Ele apontou para ela e riu. - Como eu poderia sequer pensar que seu cabelo poderia ser qualquer coisa além de ruivos?!
Ela deu de ombros.
- Eu te surpreendi, então?
- Muito mais, você explodiu a minha mente com esse feitiço. - James parecia muito animado agora. - Eu mal posso esperar para trabalhar nele com você.
- Bem, eu trouxe todas as anotações comigo. Podemos dar uma olhada.
O chão da sala desapareceu por baixo dos pergaminhos espalhados. Enquanto James lia as primeiras anotações, com as ideias e primeiros movimentos de Lily e Severus, Lily ia espalhando os restos por ordem de acontecimentos. Havia toda a progressão, erros, acertos, mudanças e pensamentos dos dois ex-amigos. Quando ela terminou de espalhar tudo, assistiu James prestar a atenção em cada um, lendo-os e às vezes marcando o pergaminho para voltar naquela informação mais tarde. Muitos minutos se passaram e eles nem perceberam, apenas ficando imersos no silêncio e o barulho dos pergaminhos sendo pegos e manuseados.
- Uau! - Ele finalmente disse quando terminou. - Vocês gastaram muitas horas nisso.
- Pois é, não foram poucas.
- Trabalharam durante o verão também, pelo o que vi em algumas datas. Se encontravam para avançar no feitiço?
- Moramos razoavelmente perto, então não era complicado de nos encontrar.
James assentiu, claramente incomodado.
- Vocês passam o verão juntos? - O tom dele era de curiosidade pura.
- Eu não falo mais com ele, Potter. Nem aqui e nem lá fora.
- Certo. - Ele não sorriu, mas pareceu relaxar. - Bom, as anotações ajudam bastante. Eu consegui entender a funcionalidade do feitiço, mas vou ter que treinar antes.
- Podemos fazer na próxima monitoria, o que acha?
O sorriso ansioso dela fez com que o resto de ciúmes fosse jogado para o lado e James voltasse a se lembrar que ele estava ali com ela agora.
James Potter e não Ranhoso Snape.
Ele olhou para o relógio e viu que havia passado do horário do fim da monitoria. Eles estavam, na verdade, quase perdendo o fim do jantar.
- Boa ideia.
Os dois juntaram os pergaminhos e Lily os colocou de volta em sua bolsa. Se dirigiram para a porta, prontos para finalizarem a aula do dia.
- Temos que correr, senão perderemos o jantar. - Ele disse e abriu a porta, deixando-a sair primeiro.
- Para que correr, sendo que somos grifinórios fora da lei e poderíamos ir até a cozinha e comer?
James a seguiu com o olhar, estupefato. Aquela garota nunca iria parar de surpreendê-lo.
- Você quer ser uma grifinória fora da lei de novo?
- Correção: eu não quero parar de ser uma grifinória fora da lei. - Ela sorriu enigmática para ele. Um sorriso que fez o coração dele acelerar. - Você vem ou não?
James fechou a porta e se apressou no corredor para alcançá-la.
Que jeito maravilhoso de se terminar uma segunda-feira.
Os três sonserinos andavam com suas corriqueiras poses altivas pelos corredores.
Não havia nenhum aluno por perto, ninguém para que precisassem mostrar seu suposto poder ou sua falta de decoro com regras ou respeito alheio. Cada um deles andava daquele jeito, querendo ser superior, para demonstrar poder entre eles mesmos também.
Dolohov sempre tinha os olhos vazios, com um brilho animalesco, como se quisesse devorar ou destruir qualquer ser que aparecesse em sua frente. Ele já era bem conhecido entre os seguidores de Voldemort após, a breve estadia dele com todos os outros, ter mostrado a sua diversão ao capturar e torturar trouxas.
Mulciber era um pouco mais contido no senso de não parecer tão louco e descontrolado quanto Dolohov, mas suas "brincadeiras" e ataques contra outros alunos eram absurdamente cruéis e imperdoáveis, inclusive usando magia negra. Ele, junto com seu fiel amigo Avery, costumavam ser um dos maiores terrores das masmorras, espalhando um certo pânico entre alguns alunos mais novos ou indefesos.
Macnair era considerado, entre muitos, como violento. Muito violento. Alunos já choraram por seus animais de estimação desaparecendo e sendo encontrados em condições horríveis, com Macnair não muito longe enquanto gargalhava. Andava um pouco nas sombras, às vezes não querendo muito ser visto, mas sabia como impor sua presença quando queria.
E agora, os três sonserinos se dirigiam para cumprirem sua detenção com a sua nova isca: Lily Evans, a sangue-ruim mor da Grifinória.
Os três poderiam apenas não comparecer e deixar com que Slughorn viesse e debatesse com eles sobre o problema mais tarde, mas nenhum deles queria perder aquela maravilhosa oportunidade de fazer com que aquela sangue-ruim sofresse um pouco nas mãos deles.
Só um pouco.
- Por que só um pouco? - Perguntou Dolohov quando eles entravam no corredor da sala que deveriam se dirigir.
- Porque nós não podemos ser expulsos. - Macnair respondeu. - Sabe que o Lorde precisa de nós aqui.
- Mas um pouco de tortura nos faria ser expulsos?
Mulciber e Macnair o olharam descrentes.
- De qualquer maneira, eu creio que vamos nos divertir. - Mulciber sorria. Mal podia esperar para colocar a mão em Evans.
A porta da sala estava aberta, e, claro, eles não se impediram de entrar sem avisar. Quanto mais surpresa ela estiver, melhor.
Ou pelas palavras de Dolohov: quanto mais assustada estiver, mais delicioso será.
Quando eles passaram pelo batente, a porta se fechou violentamente. Os três se viraram para trás por um segundo, antes de sentirem um fio invisível sendo amarrado entre eles e juntarem os corpos dos três sonserinos juntos, como em uma armadilha. No mesmo instante, as três varinhas voaram de seus bolsos, desarmando-os.
- Chegaram na hora.
- Já vai custar menos para vocês.
Sentados em diferentes cantos da sala, os quatro marotos encaravam o trio preso no meio da sala. James Potter estava logo na frente deles, sentado em uma mesa, um dos pés apoiados na mesa ao lado; Sirius Black estava um pouco mais atrás, sentado em uma cadeira apoiada nas pernas traseiras, enquanto rodava sua varinha entre os dedos; Remus Lupin, em pé no fundo da sala, tinha os braços cruzados e uma expressão séria e, ao mesmo tempo, maliciosa e, por fim, Peter Pettigrew no outro canto do fundo da sala, um pouco mais contido e quase não encarando os sonserinos.
- Eu sinto informar que a Monitora-Chefe, de repente, teve uma emergência com uma segundanista lufana e tivemos que substituí-la. - James começou descendo da mesa e se aproximando. - Uma segundanista lufana que talvez tenha recebido alguns galeões para precisar de ajuda, sabem? - O maroto deu de ombros. - Espero que estejam felizes em nos ver o tanto quanto estamos em vê-los também.
- Normalmente, não fazemos parte da detenção. Mas nossa, como eu estou feliz em estar aqui. - Sirius girou ainda mais rápido a varinha, um sorriso aumentando mais e mais.
Os três sonserinos não responderam, mas todos os presentes conseguiam ver o quanto suas cabeças maquinavam em um plano para se soltarem. Ou para fazer os quatro grifinórios pagarem por isso.
- Bom, está na hora. Vamos começar? - James dizia quase empolgado. - Quem vai começar a limpar o chão primeiro? Hmm... Macnair! Você é mais alto, vai ser ótimo vê-lo morrendo de dores nas costas depois. Vamos lá.
James, magicamente, soltou apenas Macnair do aperto das cordas. O maroto deu alguns passos para trás e subiu em uma cadeira, sendo seguido por Remus e Peter (Sirius já não tinha os pés no chão por estar se equilibrando nas pernas traseiras da cadeira) e apontou com a varinha para baixo: o chão da sala se encheu de óleo e lama, ou pelo menos era o que poderia parecer. Os três sonserinos, os únicos com os pés no chão naquele momento, não conseguiram impedir um gemido de nojo, o que pareceu ainda mais prazeroso para os ouvidos dos quatro marotos.
- Vamos lá, isso não é nada. Eu acho que estamos sendo bem bonzinhos, afinal, é apenas um chão sujo. - O tom de voz de James era de um desinteresse enorme. - Eu gostaria de fazer pior, mas eu tenho receio disso cair nas costas da Evans depois. Portanto...- James conjurou um balde e um esfregão bem velho e pequeno na frente de Macnair. - Ao trabalho!
Macnair, a muito contragosto, mas sem condições de lutar contra quatro caras prontos para atacá-lo, começou com o esfregão e o balde de água suja. Mulciber sentiu que Dolohov tremia e olhou para ele, vendo que o sonserino ria da cena.
- Você é mais idiota do que eu pensava? Por que está rindo, seu imbecil? - Mulciber perguntou baixo o bastante para não ser ouvido.
- Macnair é um babaca. Eu adoro ver gente babaca nessas condições.
- Você deveria arrumar um jeito de se livrar dessa merda que está nos prendendo ao invés de rir dele. O próximo pode não ser você, mas será você em algum momento.
- Pelo menos não serei eu limpando o chão.
- Não se preocupe, Dolohov. - James falou de cima da cadeira. O maroto apoiou um pé na mesa e aproximou o corpo dos dois sonserinos, fazendo os dois se virarem para ele. - O que é seu, está bem guardado.
E esteve, assim como para Mulciber.
E aquela detenção nunca seria esquecida por nenhum deles.
N/A:
Olá, todo mundo. Demorei, mas voltei. Esse cap foi dificil de betar e betei um pouco na correria, então espero que não encontrem muitos erros.
Resposta para review sem login:
Mah: Olha, foi a quarentena que me fez voltar também. Eu tinha historias escritas, mas nunca postadas. Me pegava em casa sem fazer nada, até que um dia: ué, por que nao? xD E aqui estamos nós. Esta me ajudando bastante, espero que voce também :D
Jullie: Estou aquiiii. Um docinho com gosto de chocolate para adoçar o seu domingo :D Olha, eu não assisto BBB (eu nem moro no Brasil), mas eu sigo as merdas que acontecem pela internet depois de ver as coisas absurdas que estavam acontecendo. Não vim depois da prova do lider, mas estou vindo antes da indicação do lider hoje, serve? LoL (acho que é isso que acontece de domingo, não?) hahahahaha Beijooooos
Um pequeno e bem pequeno sneak peek do próximo:
"Sentiu mais do que viu quando Sirius deslizou lentamente pela mesa e aproximou o rosto do dela.
- Ele não vem hoje!
Ela se virou para ele, as sobrancelhas arqueadas.
(...)
Sirius abriu um enorme sorriso.
- Bem-vinda à Monitoria de duelos Black, Evans! - Ele abriu os braços.
Lily engoliu em seco."
As coisas vão dar uma balançada nesse barco no próximo e eu não estou falando sobre esse sneak peek. Nem estou dizendo se é algo ruim ou bom ;x
Eu nunca sou de pedir, mas dá uma ajudinha com um comentário? Eu adoraria saber o que estão pensando da história ;) Eu sou tão boazinha, trazendo cap grandes, não demorando tanto (oh a chantagem :p)
Beijos! ;***
