J~L

A ponta da pena batia uma e outra vez em cima do pergaminho à sua direita. Estava no ritmo de uma música trouxa que tocou durante o verão inteiro e que ele havia gostado bastante, mas que agora estava lhe dando nos nervos.

Respirou fundo e tentou se concentrar no seu próprio pergaminho. Mas não dava mais.

- Sirius, você está me fazendo odiar Sex Pistols e querendo muito que ninguém salve a Rainha neste momento. - Disse um irritado James largando a própria pena e olhando para o amigo sentado na outra mesa.

Os quatro marotos se encontravam na sala comunal dos monitores-chefes, cada um espalhado em um canto e concentrando em sua lição.

Menos Sirius Black.

- Eu já acabei. Estou entediado.

- Entediado eu talvez acredite, mas eu sei que está fazendo isso para chamar a atenção para outra coisa. - Remus comentou do sofá. - Então trate de falar logo.

Com um sorriso nem um pouco culpado por ter sido descoberto, ele se ajeitou na poltrona.

- Quem vocês chamaram para Hogsmeade?

Ah, o tal assunto. Desde que o diretor havia anunciado o repentino passeio à Hogsmeade em tão pouco tempo alguns dias atrás, o castelo pegou fogo como se as visitas ao vilarejo não existissem e fossem uma grande novidade, criando uma "caça ao pretendente" bem fora do normal.

James achava que por não ter passado um mês ainda, as pessoas ainda não se odiavam tanto ou não tiveram tempo de brigarem, causando aquele furdunço todo. Como se fosse Valentine's day e precisassem de um par.

- Eu chamei Janet Williams, da Corvinal. Ela disse que ia pensar. - Peter respondeu.

- "Vou pensar" quer dizer "vou esperar outro convite. Se não tiver, eu vou com você". - Sirius respondeu.

- Ainda há uma chance. - Peter deu de ombros e voltou a ler o livro de Transfiguração.

- E você, Moony?

- Você sabe que eu não chamei ninguém. - Ele respondeu sem parar de escrever em seu pergaminho. - E não vou chamar.

- Ah, pelo amor. Toda vez essa baboseira.

Já sabendo que aquela conversa iria chegar nele, James não se pronunciou e continuou com a sua dissertação sobre Metamorfomagia. Se não terminasse naquele dia, teria que passar outra noite em claro para terminar.

A pena de Sirius voltou a bater no ritmo de God save the Queen e James fechou o punho com raiva.

- O que é, Padfoot? Manda logo o que você quer falar.

- Estava pensando em você...- Sirius começou, admirando a pena em sua mão. - E essa visita à Hogsmeade.

- Eu já falei que você não faz o meu tipo, obrigado!

- Como se você fosse bom o bastante para ter esse corpo aqui, Potter. - Sirius bufou. - Mas todos sabemos o que eu quero saber...

Para a infelicidade de Sirius, mas para a felicidade de James, o amigo não conseguiu continuar após o quadro abrir e ouvirem vozes no pequeno corredor que daria na sala.

- Marlene, me dá um tempo.

- Mas isso é sério. Você não acha, Lice?

- Claro que acho. Era Smiths, pelo amor de Merlin! - Alice respondeu.

- Não se diz "não" a muitos caras, e Smiths é um deles!

As três garotas entraram na sala e pararam quando perceberam quatro pares de olhos nelas.

- Não fomos convidadas para a festa? - Marlene perguntou.

- Foi de última hora, mas vocês são mais do que bem-vindas, garotas. - Sirius sorriu.

- Vocês falavam sobre Smiths? - Peter perguntou fechando o livro e se ajeitando na poltrona.

- Smiths da Lufa-Lufa? - Perguntou também James.

- O próprio. - Alice conformou.

- Além dele e vocês, sobre quem mais o castelo inteiro está falando? - Marlene revirou os olhos.

- Ouvi algumas conversas sobre um dos Prewett, além de um sextanista da Corvinal. Como ele chama mesmo? - Remus olhou para Sirius, que conhecia boa parte das fofocas do castelo.

- Stuart.

- E isso só estamos falando dos caras. Há muitas garotas em pauta também. - James comentou deixando o pergaminho de lado. Teria que terminar aquilo depois, tinha que admitir a derrota.

- Sim, verdade. Então nos diga, Potter, quem são as garotas que vocês, caras, têm conversado sobre? - Alice sorriu quase inocentemente para ele.

Aquilo era uma emboscada, ele sabia. Por que inventou de abrir a boca sobre as garotas?

- Evans e McKinnon são algumas delas. - Ele respondeu, apontando para as duas respectivas grifinórias.

- Vocês têm conversado sobre nós? - Perguntou Marlene levantando uma sobrancelha.

- O castelo. Vocês querem saber quem os garotos do castelo têm conversado, certo?

- Então vocês não conversam sobre nós. - Lily apontou e trocou um olhar com as amigas.

- Não foi isso que eu quis dizer. - Raramente James se encontrava em uma conversa sem saída daquele jeito. Normalmente era ele quem estava do outro lado, sempre sabendo o que responder e conseguindo escapar de saias justas.

Mas desde o momento que ele vinha segurando as piadas-flertes, era mais fácil se encontrar naquela situação. E seus amigos não ajudavam, preferindo vê-lo passar por aquilo ao invés de dizer algo. James trincou os dentes quando pensou nisso.

- Garotas, vocês são malvadas. - Remus, finalmente, interveio. - Nosso James aqui está querendo ser um cavalheiro, mas vocês estão levando-o para um lugar onde ele não conseguirá segurar a porta dos dizeres Marotos fechada por muito tempo.

- Ou seja: não o pressionem para começar a falar besteira. - Sirius corrigiu.

Ele revirou os olhos.

- Enfim. Vocês duas, uma quintanista da Sonserina, e duas garotas da Lufa-Lufa são as que estão na boca dos caras. - James respondeu. - Eu não me surpreenderia se começassem a receber convites logo.

- "Logo"? - Marlene interveio. - Os convites começaram, Monitor-Chefe.

- Smiths convidou uma de vocês então? Era sobre isso que falavam quando entraram? - Perguntou Peter.

Lily ficou vermelha e as duas amigas um pouco desconcertadas por terem sido ouvidas.

- Sim. - Alice respondeu e olhou para as amigas. - Smiths convidou Lily.

Merda! Smiths era um cara bem cobiçado no castelo e não era por menos.

- E você...? - Sirius instigou a resposta da ruiva. Ela chegou a abrir a boca para responder.

- Ela disse que ia pensar. - Marlene respondeu mais rápido.

- Marlene, eu posso responder as perguntas feitas para mim.

- Mas você demorou muito. Enfim, ela disse que ia pensar.

Marlene cruzou os braços e parecia incomodada. James não entendeu a razão do incômodo até ser o alvo do olhar fulminante dela.

O que? Era culpa dele por Smiths ter chamado Lily? Ele estava tão puto quanto ela sobre isso.

E James desconfiava que, mesmo se tivesse convidado Lily e ela tivesse aceitado, nada iria parar os outros caras de tentar chamá-la. Já viu isso acontecendo anteriormente - ele, inclusive, foi um dos caras que tentou chamar Lily quando ela já estava acertada ir com outro, mas não quis lembrar desses momentos constrangedores - , então ele não podia fazer nada se Smiths a convidou. Queria poder fazer algo a respeito e talvez lançar um feitiço criando bolhas doloridas e fétidas na boca do garoto na manhã da visita, impedindo-o de sequer pensar encostar os lábios nos lábios dela, mas aquilo era coisa do James do passado.

Tinha vontade, mas não iria fazer.

- Wormtail, lembra do que falamos sobre a sua corvina e a resposta dela? - Sirius se virou para o amigo. - Pois bem...fica a dica no ar para quem quiser pegar.

- Do que estão falando? - Lily perguntou.

- Nada, Evans. Nada. - Sirius se aconchegou na cadeira que estava, na cadeira que pertencia a Lily, se virando melhor para as três. - Bom, Evans e Smiths. Um casal formado por dois dos mais cobiçados. - James iria matar Sirius mais tarde. - E você, McKinnon? Quem a convidou? Fabian Prewett está em jogo ainda?

- Eu não estou com Fabian, Black.

- Que pena. Alguém em vista, então?

- Isso lhe causa interesse? - Marlene olhou para as unhas.

- Talvez. - Sirius deu de ombros. - Evans e Smiths, Black e McKinnon. Os outros estudantes ficariam arrasados vendo casais se formando apenas pelos mais cobiçados.

- Você quer ir comigo? - Marlene perguntou. Não em forma de convite, mas com um tom de surpresa.

- Tem interesse?

- E se eu tivesse?

- Eu diria que o interesse seria mútuo.

Os ocupantes da sala apenas olhavam de um para outro, como em uma partida de tênis para os trouxas e uma disputa acirrada entre batedores no Quadribol para os que não conheciam o esporte.

Marlene sorriu e estalou a língua.

- Uma pena que eu já aceitei o convite de Mclander mais cedo. Na próxima, talvez.

- Ah, McKinnon. Mclander? Você trocou "o" mais cobiçado pelo lanterninha da lista?

- Mclander não é lanterninha da lista. - Lily defendeu. - Está longe de estar na lanterna.

- Mas ele não está no topo. - James interviu.

- Não, não está. - A ruiva concordou.

- E quem está no topo, Evans? - Foi Peter quem perguntou.

- Oras...eu não saberia dizer. - Os olhos verdes bem fixos em Peter, como se ela não quisesse olhar para mais ninguém.

- Acho que varia de cada um. - Alice comentou. - Talvez quem estivesse no topo da lista de Lily não seria o mesmo no topo da lista de Marlene, por exemplo. Ou quem está no topo de Black, não é a mesma para Potter, Lupin ou você.

- Para o bem dessa amizade, realmente devemos ter pessoas diferentes no topo. - Sirius apontou para os quatro marotos. - Eu não sei onde eu iria parar se tivesse a mesma garota no topo de um maroto aqui. Talvez eu morresse durante o sono.

Sim, era exatamente aquilo que James estava planejando para aquela noite. Faria questão disso.

- Imagino. - Marlene dizia enquanto sorria e dava uma rápida olhada para James. Inferno, as pessoas poderiam parar de brincar às suas custas?

- Bom, acho que vamos deixá-los terminar suas lições. Nós temos um bocado também. - Lily passou por eles, indo em direção ao quarto, sendo seguida pelas amigas.

- Eu já terminei aqui. Precisam de ajuda lá em cima, garotas? - A voz galanteadora de Sirius fez as três se virarem.

- Você realmente acha que teria fôlego para lidar com nós três, Black? Você não sabe onde está pedindo para se meter. - Marlene piscou para ele e subiu junto com as amigas.

Sirius ficou mudo, enquanto os outros três riram.

- As imagens que estão vindo na minha cabeça agora...- O maroto disse se jogando contra o encosto da cadeira. - Ah, as imagens...

- Chega de imagens, Padfoot. - A voz de James tentou trazê-lo de volta.

- Larga de ser chato, Prongs. Eu vou me concentrar e tentar tirar Evans da equação. Difícil, mas vou tirar.

Pegou o pergaminho da lição e voltou para a dissertação, pois ele tinha que tirar as imagens dele mesmo subindo atrás de Lily naquele quarto.

Foco, James. Você está na parte onde você explica a diferença entre animagos e metamorfomagos. Você entende bem disso. Não deixe a cabeça viajar...

Mas ele via com detalhes a mão de Lily, as unhas sempre bem feitas e pintadas de um tom claro, abrindo o chuveiro. Ela se virava para ele quando a água começava a cair e o puxava para perto, o beijando lentamente. As mãos dele iriam segurá-la em seus ombros e deslizariam pela lateral do corpo dela, chegando até suas pernas e a levantando, colocando Lily contra a parede.

As risadas dos amigos o acordaram daquele devaneio. Seus olhos estavam no pergaminho, assim como sua pena, e havia criado uma poça de tinta no mesmo. Merda. Pegou sua varinha e limpou a tinta, salvando aquele parágrafo da dissertação.

Ele tinha que parar de pensar nessas coisas, ou de pensar no meio do dia e com companhia.

Se remexeu na cadeira e começou a pensar na mãe de Sirius. Walburga Black era sempre uma visão do inferno para ele e iria ajudar muito.

- E então, Prongs. Quando será? - Peter perguntou, fazendo James olhar para os amigos.

- Será o que? - O maldito dia que ele não ficaria só ouvindo Lily tomar banho e se juntaria a ela? Ele também queria saber.

- Quando vai chamá-la para ir a Hogsmeade.

Largou a pena e olhou para as escadas, esperando que nenhuma delas estivesse ouvindo. Ele havia pensado nisso. Quando comentou sobre a visita na reunião dos professores, ele tinha a intenção justamente de ter uma visita não tão longe e poder convidá-la logo.

Claro, o fato de que não queria passar três meses confinado legalmente no castelo não lhe agradava, mas não havia sido a única razão para tal.

E agora que Dumbledore enfiou uma visita em uma semana (naquele dia, menos de uma semana), se perguntava se já era hora de chamá-la. Sentia que se ela negasse dessa vez, suas chances iriam por água abaixo ou iria voltar à estaca zero.

- Eu estive pensando nisso...

- Acha muito cedo? - Perguntou Remus.

- Talvez. De novo, eu não quero que isso seja apenas uma vez. Talvez eu devesse explorar o terreno na próxima monitoria de duelo. Temos uma amanhã e na sexta.

- Até lá, ela pode decidir ir com outra pessoa. - Disse Sirius estalando a língua. - Se ela disse que iria pensar para Smiths, então ela está esperando alguém chamá-la. Esse poderia ser muito bem você.

- Eu não vou agir às pressas. Eu vou explorar essa semana e se até sexta eu ver que devo ir em frente, eu vou. Se não, eu não me importo em continuar na mesma estratégia. Mas tudo isso não é nenhuma novidade. A novidade aqui é você e McKinnon!

- Eu não sabia que você queria sair com ela. - Dizia Peter levantando-se e indo até a embalagem de biscoitos de chocolate em cima da mesa central e pegando uns cinco de uma vez. Remus lançou um olhar enviesado e só faltou rosnar para o amigo.

- Eu já falei muitas vezes que ela é linda e espirituosa. - Sirius deu de ombros. - Mas quando eu pensei em agir, ela estava saindo com um dos Prewett.

- Ela não está mais. - Remus disse enquanto enrolava seu pergaminho terminado e guardava em sua bolsa.

- Sim, mas Mclander conseguiu chegar na frente. - Sirius cruzou os braços. - Não tem problema. Mclander pode ser bonito, mas não é muito divertido. Ela ficará bem entediada com ele.

- Diz o senhor diversão. - James disse baixinho da mesa.

- Ultimamente eu sou o único que diverte esse grupo.

E caindo como uma luva no momento, eles escutaram uma explosão de risos vindo do andar de cima, fazendo-os olharem em direção as escadas.

- As meninas não parecem concordar com você, Padfoot.

- Veremos.

Sirius se levantou e subiu as escadas. Conhecendo um pouco as três grifinórias e conhecendo bem Sirius Black, James largou a pena e cruzou os braços, esperando. Remus fez quase o mesmo, parecendo pronto para algo. Peter se levantou e se aproximou das escadas, tentando ouvir.

Alguns segundos se passaram até ouvirem baixo, por conta da distância, um gemido de Sirius e as risadas das garotas novamente.

James e Remus sorriam enquanto Peter esperava Sirius descer, uma cara de dor bem nítida.

- Bom...elas riram, pelo menos. - Ele disse enquanto se sentava no sofá.

- Eu não vou nem perguntar o que você fez ou disse. - Remus comentou enquanto pegava o pacote de biscoitos e guardava, antes que Peter os comesse.

- É, não vale a pena.

Os Marotos foram embora alguns minutos depois, deixando James sozinho e livre para poder terminar a dissertação e se livrar daquilo.

- Tão estudioso.

Levantou o olhar e encontrou Marlene e Alice. Estava tão concentrado, que não ouviu quando as duas desceram quase uma hora depois de subirem.

- Isso é o que eu faço quando as pessoas não estão por perto. - Ele respondeu e jogou as costas no encosto da cadeira. - Mas é segredo, não espalhem.

- Poxa, Potter, não acabe com as fantasias. Não diga que estuda quando as pessoas não estão vendo. - Reclamou Marlene. - Você não fica, sei lá, admirando seus músculos na frente do espelho ou indo em armários de vassouras e coisas assim?

-Essas coisas eu não faço escondido, McKinnon. - Ele piscou para ela. - Prefiro que as pessoas saibam das partes boas, enquanto as não tão lisonjeiras ficam em segredo.

- Adoro alguém com o humor tão peculiar quanto o meu. - Marlene dizia olhando para Alice. - Poderíamos ter sido almas gêmeas, Potter, mas acho que os deuses decidiram colocar outras pessoas em nossas vidas.

- Você, com certeza, deve ser a de Sirius.

- E eu devo mesmo dizer quem, com certeza, deve ser a sua?

Os três sorriram, cúmplices, partilhando aquela piada interna que se misturava com a crença verdadeira de cada um.

- Enfim...- Alice cortou aquele momento. - Já tem par para Hogsmeade, Potter?

- Não. - Ele cruzou as mãos atrás da cabeça.

- E o que diabos está esperando? - A garota perguntou.

- Se estamos falando da mesma coisa, então a resposta é: o momento certo. - Respondeu dando de ombros.

Eles se olharam por alguns segundos.

- Você não quer fazer isso de qualquer jeito, não é? - Marlene perguntou.

- Não, eu não quero. - Ele confirmou.

- Está deixando a garota com sede, para depois dar de beber.

- Para depois eu ser o único a dar de beber. - Ele a corrigiu.

As duas grifinórias se entreolharam.

- Esperto e corajoso, mas devo acrescentar que também é arriscado. - Alice comentou e se virou para ele, se aproximando da mesa. - Lembre-se: não se mata sede apenas com um tipo de bebida, Potter.

- Estou trabalhando para ser o único copo interessante

- Eu acho que, neste momento, Potter é a única água potável entre as águas salgadas ao redor. - Marlene se aproximou da amiga. - Mas não deixe essa mesa virar contra você.

Marlene e Alice sorriram e se afastaram dele, saindo da sala.

Ele acabou de receber a benção das melhores amigas de Lily?! E o melhor: uma confirmação de que as coisas estavam indo bem? Que seu plano estava funcionando!

O dia só estava melhorando.

E por falar em alma gêmea...

Levantou-se e subiu as escadas para os quartos. O quarto de Lily estava bem aberto, então se aproximou, encontrando-a sentada na cama entre alguns pergaminhos. Ela levantou o olhar quando o viu encostar no batente.

- Eu tenho uma pergunta.

A ruiva se remexeu na cama, como se estivesse se preparando. James estava olhando pelo quarto dela, curioso, então perdeu o brilho ansioso nos olhos dela.

- Sim?! - Ela sorriu.

- Você está com aquele livro-enciclopédia sobre patronos, por acaso?

Ele viu um certo desânimo nela quando Lily deixou os ombros caírem.

- Sim, estou. Depois do seu choque ao ver a minha corça, eu tive que averiguar.

- Encontrou algo?

- Não. Ou não ainda. Li bastante sobre as simbologias, mas nada que me fizesse pular do lugar e sair correndo. Você gostaria de me iluminar sobre o seu choque ou eu devo ler o livro até o fim?

- Ter uma corça não é um problema, Evans. De verdade. Não significa mau agouro ou coisa do tipo.

A não ser que você pense que ser a minha suposta alma gêmea seja um, pensou ele.

- Bom, eu vou ler tudo apenas para garantir. - Ela assentiu mais para si mesma do que para ele.

- Antes de continuar a sua procura infundada, eu poderia pegá-lo emprestado por uma hora? Eu quero ler apenas um capítulo dele.

- E qual capítulo seria?

James revirou os olhos.

- Sobre dificuldades em conjurar um. - Ele mentiu descaradamente. - E não é por sua causa, já que vimos que não tem uma. Ou não mais.

Lily pareceu estudá-lo por um momento.

- Está mentindo. - Ela suspirou. - Mas eu te empresto. Ele está em cima da minha cômoda. - Ela apontou com o queixo a tal cômoda que ficava de frente para a cama e encostada na mesma parede da porta.

Ele cruzou os braços e levantou uma sobrancelha. Lily o encarou de volta, inocentemente.

- Você quer mesmo fazer isso, Evans?

- O que?

- Eu tenho certeza que há algo que me impede de entrar no seu quarto. - Ela segurou o riso. - Não tem nas escadas e eu duvido que eles deixariam passar qualquer cara por essa porta.

- Droga. Remus e eu estávamos esperando o dia que você apareceria com o nariz quebrado.

- Nariz quebrado?

Imediatamente, ele desencostou do batente e deu um passo para trás. Já havia quebrado o nariz uma vez e, mesmo podendo consertá-lo, não queria passar por aquela dor de novo por conta de um livro.

Lily levantou da cama e foi até a cômoda, entregando o dito cujo.

- Não precisa fugir tanto. Acho que você consegue entrar até a cômoda, mas depois tem uma barreira que pode te catapultar. Você está seguro no batente.

- Não quero brincar com a sorte. - Ele levantou o livro. - Obrigado. Te devolvo logo.

- Sem pressa. - James deu as costas e estava quase começando a descer, quando a voz dela o parou. - Meu quarto tem um repelente para caras, mas no primeiro dia, pelo menos, eu consegui entrar no seu. Uma informação interessante, não acha?

Sorrindo, ela fechou a porta, deixando um James Potter fora dos trilhos sozinho no corredor.


"...Então é seguro assumir que patronos da mesma espécie, porém de sexos opostos (independente do sexo e orientação dos bruxos que os convocam), são considerados os patronos das almas gêmeas ou mais conhecido como Patronos Complementares. Não confundir com Patronos Conforme, onde bruxos e/ou bruxas possuem o mesmo patrono, porém, do mesmo sexo..."

No dia seguinte, era uma parte de tudo o que James pensava. Foi nisso que dormiu pensando ou tentou dormir. Se fechou os olhos por duas horas, havia sido muito. Digeriu aquelas palavras no café da manhã, cozinhou-as com as patas de tarântulas durante Poções e, aparentemente, era com elas que comeria o seu almoço também.

"...bruxos e/ou bruxas com Patronos Complementares são destinados a se encontrarem..."

Não era exagero, não era imaginação e muito menos a pura vontade de crer em algo. Era verdade, então, que eles eram almas gêmeas.

Ele riu sozinho. Quem diria? Lily Evans era sua alma gêmea. A pessoa que ele deveria encontrar e amar. Bom, da parte dele, podia dizer que já estava fazendo efeito há um tempo, não tinha como negar.

A ignorância era mesmo uma benção. Se ele soubesse disso no quinto ano, Lily o teria matado, pois aquele James estúpido não deixaria que essa informação morresse ou ficasse de lado. Ah, não. Aquele idiota usaria aquilo da maneira mais ridícula e estúpida que poderia achar, fazendo os deuses, Mérlin ou seja lá quem decidisse tal coisa, desistir daquilo e quebrar o acordo de almas.

A ignorância era, de fato, uma benção.

Porém, nem tudo são flores. O que também não saía de sua cabeça foi um longo capítulo sobre almas gêmeas do livro "A essência bruxa: almas, magia, corpo e mente", um dos livros mais antigos que a comunidade bruxa conhecia e que ele teve que cavucar a biblioteca tarde da noite para poder saber mais:

"Almas gêmeas pertencem à bruxos e bruxas com um propósito no plano terrestre, por consequência, o encontro é quase inevitável."

E então, os pensamentos ficaram confusos. Segundo o livro, almas gêmeas não, necessariamente, ficam juntas. Muitas delas têm destinos macabros, envolvendo mortes ou separações para cumprirem o tal propósito.

Almas gêmeas não tem, por fator comum, felicidade e prosperidade em tudo. Não era o caso de todas, mas foi informação o suficiente para deixá-lo um pouco avuado. Então por essa razão, ele queria que seu caso fosse diferente e ele lutaria para ser.

- Olha só. - Remus chamou sua atenção na mesa da Grifinória durante o almoço. - Você vai me obrigar a enviar uma carta para a sua mãe, não vai?

- Do que você está falando?

- Que Euphemia terá que vir até aqui pra te colocar pra dormir toda noite, te puxando pelas orelhas. - O maroto parecia realmente irritado. - James, todos nós sabemos que você é responsável, que é um excelente Monitor-Chefe e tudo mais. Eu nunca pensei que falaria isso, mas pare de se matar por responsabilidades.

- Você não dormiu nada na noite passada, está bem claro. - Sirius traduziu a bronca de Remus.

- Eu dormi. Algumas horas, mas dormi. Eu não fiquei fazendo tarefas ou lições.

- Pior ainda! Quando você não tem essas coisas para fazer, você tem que fazer as coisas normais: comer, dormir, tomar banho, etc.

- Eu tomo banho. Todos os dias, duas vezes.

- Tome um a menos e durma o resto.

- O que estava fazendo ontem? Espiando a Evans no quarto dela? - Peter perguntou. O maroto levou um olhar atravessado de James.

- Eu estava lendo sobre algo.

- Vá.Dormir! - Remus disse entredentes. Ele olhou para os lados antes de continuar.- A lua é terça-feira que vem. Você não virá, caso não durma direito nos próximos dias.

- Você vai me proibir?

- Vou!

- Você não pode me proibir.

- Se eu disser que não quero a sua ajuda, você terá que respeitar.

- Vai a merda, Remus. Não começa com isso. Quando eu fiz alguma merda nesse quesito? Nunca!

- Prongs, eu vou ter que ir com Remus nessa. - Peter olhou de um maroto para o outro. - Se você não estiver bem...

- Eu estou bem!

- Bem cansado! - Disse Sirius.

James, então, começou um monólogo raivoso para os amigos, mas Peter parecia o único a ouvir. Sirius e Remus se entreolharam, concordando silenciosamente e apenas esperaram o falatório do amigo acabar, o que levou uns bons dois minutos.

- Acabou? - Sirius perguntou servindo-se um pouco de suco e bebendo em um gole.

- Eu tenho mais, se quiser.

- Ninguém tá afim. - Sirius limpou a boca no guardanapo e levantou. - Acho que você está precisando de outra bebida e eu estou louco por um gole também. Venham, temos tempo até a próxima aula.

- Mas eu não terminei de comer! - Peter choramingou antes de colocar três colheres de batatas na boca e se levantar atrás dos amigos.

- Você come do seu estoque debaixo da cama. - Remus respondeu.

E assim os quatro marotos saíram do salão principal. Dois deles prontos para um plano, um deles faminto e o outro sem saber na armadilha que estava caindo.


Lily já via a porta da sala da monitoria de duelos e começou a se arrumar automaticamente. Se achava uma tola fazendo aquilo, mas era mais forte do que ela agora.

Passou a tarde em aulas, mas não viu James em nenhuma que compartilhavam. Remus estava lá, assim como Peter, mas sem sinal dos outros dois marotos.

Respirando fundo, ela entrou na sala com um sorriso.

- O que-?

- Olá, ruiva.

Sirius Black estava sentado na mesa lateral, onde James costumava estar encostado com o seu pergaminho misterioso. Ela olhou para os lados e constatou que James não estava ali. Talvez tenha ido ao banheiro?

- Olá, Black.

Lily se aproximou e depositou sua bolsa na mesma mesa em que Sirius se sentava, o maroto apenas a assistindo, e então se virou, cruzando os braços e esperando. Mas o que diabos Sirius Black estava fazendo ali? Talvez precisasse falar com James antes.

Sentiu mais do que viu quando Sirius deslizou lentamente pela mesa e aproximou o rosto do dela.

- Ele não vem hoje!

Ela se virou para ele, as sobrancelhas arqueadas.

- O que aconteceu?

- Tivemos que intervir. - Sirius começou e pulou da mesa. - Remus lhe deu uma poção para dormir e descansar. No ritmo que ele estava, não demoraria muito para ele ter um treco.

- Eu não poderia concordar mais. - disse Lily. James estava operando no limite todos os dias.

- Mas não se preocupe, Dumbledore está ciente disso.

- Vocês foram até o Professor Dumbledore para avisá-lo sobre algo que os marotos fizeram? - Ela cruzou os braços, descrente.

- Primeiro: isso não foi uma peça ou algo "muito" ilegal. Digo, dar algo para alguém dormir, sem o consentimento não é legal ou decente, mas não estamos fazendo para o mal dele. Segundo: Remus, apesar de não ser santo, tem alguns limites e não nos deixou fazer isso sem o consentimento de alguém. Afinal, não somos os melhores alunos de Poções e se a poção desse errado, podíamos botá-lo para dormir para sempre. E terceiro: você sabe que James tem que dar um relatório das monitorias para o velho. Então ele teria que saber o motivo de receber um relatório meu, invés.

- Relatório seu?! - Ela perguntou, mas já sabendo do que se tratava.

Sirius abriu um enorme sorriso.

- Bem-vinda à Monitoria de duelos Black, Evans! - Ele abriu os braços.

Lily engoliu em seco.

- Você tem sido o substituto oficial de James em muitas coisas, eu ouvi dizer.

- Ah, ele te contou sobre as coisas da monitoria de Hogwarts? - Sirius deu de ombros. - Bah, você sabe...ele é meu amigo e tudo mais.

Ela reparou que ele não quis ser sentimental, mas pelo o pouco que James havia dito, sabia que Sirius faria de tudo para ajudá-lo, inclusive perder horas com muitos pergaminhos do Monitor-Chefe e supervisionar detenções. Sirius Black deveria estar aproveitando o seu último ano de Hogwarts como sempre fizera anteriormente, mas ele estava substituindo e ajudando o melhor amigo.

- Certo. - Ela respondeu.

- Aliás, essa pergunta sobre eu ser o substituto oficial dele...lhe interessa? - Ele levantou as sobrancelhas, malicioso.

- O que quer dizer?

- Bem, você sabe... se você preferir a mim do que ele para uma outra área da sua vida, eu posso fazer um esforço. Você teria que me convencer, mas nada do que uns dez segundos não adiantasse. - Sirius se aproximou e sussurrou. - Eu te levaria às nuvens, Evans.

Seu rosto corou, mas não pelo final da frase. Sirius falava como se fosse óbvio que ela gostasse de James e que todos soubessem.

Ela era óbvia demais?

James sabia?

- Eu não sei do que você está falando. Aliás, se o que as pessoas falam fosse verdade, sobre James e seus sentimentos, muito me choca o fato de você estar dizendo essas coisas.

- Vamos, Evans. - Sirius estalou a língua. - Se há uma coisa que três dos quatro marotos nunca fariam, seria tocar em um fio de cabelo seu nesse sentido. Você está mais a salvo comigo do que qualquer outro cara desse mundo. Você pode se jogar em mim, tirar sua roupa, implorar, talvez até jogar um Imperius...não ia funcionar.

- Muito bom saber o quão sedutora eu não sou.

- Ah, eu não disse isso.

Sirius tirou sua varinha do bolso e se dirigiu até o meio da sala. Ele apontou à sua frente, como um pedido para que Lily se aproximasse. Estranhando o fato de que ele estava com a varinha, ela pegou a sua própria e foi até ele.

No final, estava feliz. Como havia pensado quando descobriu sobre a monitoria de duelos, Sirius Black seria uma das suas escolhas como monitor, além de James. Estava progredindo tanto com o maroto, que um estágio com Sirius seria um verdadeiro "plus". Ela sorriu com aquela constatação.

- Por que está com a sua varinha?

- James me disse que ele não te ataca. - Sirius bufou. - Ele é um idiota. Comigo, Evans, você vai ralar. Está pronta?

Uma excitação tomou conta dela. Sim, finalmente um duelo.

- Mais do que pronta.

Eles se afastaram e fizeram uma reverência em sinal de respeito. De verdade, ela não conseguia tirar o sorriso do rosto.

- Você me parece muito feliz, Evans. Tão fácil colocar um sorriso nesse rosto. Se James tivesse essa informação antes...

Aquilo lhe abalou um pouco. A palavra "antes" significava que, realmente, James havia desistido, não? Droga, se ela...

Sem aviso, se viu sendo jogada para trás e viu tudo escurecer.

Acordou de repente, tendo Sirius agachado ao seu lado, a encarando. Estava sentada, com as costas na parede e muito confusa.

- Evans, Evans...assim como é fácil colocar um sorriso no seu rosto, é muito mais fácil entrar na sua cabeça.

- Você lançou...

- Apenas um Stupefy, nada demais. - Sirius se sentou no chão, à sua frente, um dos joelhos dobrado e apoiando o braço nele. - Quando você está ali ou em qualquer outro lugar, com um inimigo na sua frente, você não pode enfrentá-lo com isso aí...- Ele apontou para o coração dela. Ela abaixou a cabeça, envergonhada.

- Eu sei. - Murmurou. - James me avisou, ele me avisa muitas vezes.

- Não se martirize por isso. Vamos. De novo.

Ele se levantou e ofereceu sua mão, que Lily aceitou de bom grado. Ambos tomaram suas posições anteriores e se reverenciavam outra vez.

Quando ela viu o mínimo movimento da varinha de Sirius, seu instinto foi lançar um Protego. Sirius sorriu, vendo o raio de seu feitiço atingir a defesa de Lily. Ele começou a andar para o lado, fazendo Lily andar para o outro, prestando atenção nos movimentos dele. A varinha de Sirius mexeu minimamente e ela lançou o Protego novamente, porém, trombou com a mesa da sala e de repente tudo estava escuro.

Abriu os olhos e viu Sirius a encarando. Um sorriso maroto preenchia o rosto dele.

- De novo, eu consegui entrar na sua cabeça.

- Eu não entendi o que aconteceu. - Ela murmurou, confusa.

- Você pensou que eu ia te atacar e então você trombou na mesa e se distraiu.

Lily cerrou os olhos para ele.

- Você fez de propósito. Nos fez girar na sala e sabia que eu ia trombar ali.

- Eu não posso distraí-la apenas com a minha fala, Evans. - Sirius ofereceu sua mão e a puxou novamente em seus pés. - Num duelo, principalmente um que você luta pela sua vida, você pode e deve usar tudo a seu favor: sua fala, sua varinha, os feitiços, o ambiente...- Ele deu ênfase na última palavra. - ...tudo que você tem à sua disposição. Tudo!

Suspirando fundo, ela se recostou na mesa. Qual era o seu problema? Não era tão ruim assim, sabia disso. Claro, ela estava duelando com Sirius Black, que era ótimo duelista...

- Eu não quero que pense que James não é bom em me ensinar, Black. Ele é ótimo e ele me disse tudo isso, desde a primeira aula. O problema sou eu.

- Por que está me dizendo isso? - Ele perguntou, se aproximando.

- Porque eu não quero que você saia daqui pensando que ele não está fazendo um bom trabalho. James é muito bom e ele me disse cada palavra que você está dizendo hoje e ele sempre insiste nelas. Eu apenas estou tendo dificuldades em...me concentrar.

A testa franzida de Sirius se suavizou e ele meneou a cabeça, sorrindo.

- Evans, você acha que eu pensaria que Dumbledore iria escolher James Potter a dedo para isso, se ele não fosse bom?

- Mas você vendo as coisas irem desse jeito, eu não quero que saia daqui o culpando.

- Evans, com quem você acha que eu aprendi tudo isso?

Ela fechou a boca e o encarou.

- Potter?

- Exato! - Ele assentiu. - Eu sou bom em muitas coisas...sim, eu fui o primeiro a fazer alguns feitiços ou a começar a utilizar os feitiços não-verbais, mas... James me mostrou como usá-los. - Sirius se recostou na mesa, ao seu lado. - Quando praticávamos, eu sempre pensava na minha família. Eu achava que o ódio iria me motivar a ser bom, que o ódio seria o fator principal para eu me tornar perfeito e destruir quem eu tivesse que destruir em um duelo. Mas mesmo trazendo todo o ódio comigo para duelos com James, ele me vencia fácil, assim como está acontecendo agora.

- Emoções não combinam com duelo. - Ela repetiu James. Sirius sorriu.

- Não, não combinam.

- E como ele sabe duelar tão bem?

- Há dois grandes responsáveis por isso: Fleamont Potter e livros. Sobre o primeiro, eu vou deixá-la perguntar para ele. Já o segundo...James tem seus meios para acessar a seção restrita da biblioteca. Tinha seus meios, já que nós temos acesso desde o ano passado. Eu nunca fui de perder horas lendo, a não ser que eu precisasse muito, como já ocorreu nos primeiros anos para algo grande. - Ele deu de ombros, o que fez Lily se perguntar o que seria o tal ato grande do grupo. - Mas James gosta de ler, e ele pode devorar aquela biblioteca rapidamente caso ele esteja interessado em algo. O que aconteceu nos primeiros anos e o que também aconteceu sobre os duelos. Então, ruiva, não se preocupe. Eu não vou sair daqui pensando que James é um zero à esquerda em duelos. Eu sei que ele não é.

E sem dizer mais nada, Sirius se projetou para frente, se distanciando e indo até o meio da sala, a chamando para continuar. Porém, ela estava cansada de parecer uma idiota na frente dele.

Estava na hora de dar um pouco de diversão para Sirius Black e para ela mesma.

Lily se abaixou, se reverenciando para ele, recebendo o mesmo de volta. Mas Sirius não contava com um feitiço que não conhecia o acertar e nem perceber, levando-o para longe dali.

Os pios das corujas eram altos e Sirius cerrou os olhos, ainda que aquilo não o ajudasse a se livrar daquele barulho infernal. Estava no corujal. Mas cadê a carta que deveria enviar? Saiu tão apressado do quarto, que esqueceu do principal. Revirou os olhos pela tamanha idiotice.

Foi em direção à saída do corujal e se espantou com o tempo. A luz branca machucava seus olhos e as nuvens impediam de ver um metro à frente depois do muro de pedra das escadarias. Parecia que alguém havia levantado a torre e que agora estavam no céu.

- Estranho, não?

Sirius se virou em direção à voz e viu Lily perto de algumas corujas empoleiradas na janela. A ruiva acariciava uma, que ele sabia ser a dela.

- O que é estranho?

- O tempo. Você não está se sentindo...nas nuvens? - Ela arqueou uma sobrancelha sugestiva. Sirius franziu as sobrancelhas, confuso.

- Alguém te azarou com algum feitiço bizarro, Evans?

- Não.

- O que está fazendo aqui?

- Eu também tenho cartas para enviar, Sirius, você bem sabe. Você não é o único. - Ela riu.

- Sim, bom, eu sou um imbecil e esqueci a minha carta no quarto. Vou ter que fazer o caminho todo de volta.

Sirius fez menção de se virar.

- Você pode usar o accio, não?

- Claro. Onde estou com a cabeça. - Ele riu, sem graça. - Accio carta.

Esperou por alguns segundos, já que o dormitório da Grifinória não era ali do lado. Nada veio. Estranho.

- Isso deve ser coisa de um dos caras. - Murmurou. - Bom te ver, Evans. - Sirius se virou novamente, indo para fora e chegou no quarto dos Marotos no momento que pisou para fora do corujal.

O quarto estava vazio. Foi até a sua cama e olhou no móvel ao lado, não vendo nenhuma carta. Onde havia deixado na última vez?

- Talvez esteja embaixo da cama.

O maroto deu um pulo com o susto e se virou para trás, dando de cara com Lily.

- O que você está fazendo aqui?

- Você gosta muito de perguntar isso, não? - Ela sorriu e se aproximou. - Talvez ela caiu e escorregou para debaixo da cama.

- Evans, você tem que sair desse dormitório agora.

- Por que? - ela franziu a testa.

- Se James entra e me vê aqui com você, ele me mata antes mesmo de eu piscar.

Lily revirou os olhos.

- Aham, claro. Nunca pensei que seria posta para fora daqui assim. Você me magoa, Black.

- Melhor você magoada de brincadeira, do que eu bem machucado de verdade.

- Black, estamos aqui conversando, qual o problema?

- O problema é você aqui, exatamente este é o problema. E comigo. Não, não...saia, saia, Evans. Cho!

- Essa é a sua cama, eu acredito? - Ela perguntou, se aproximando da cama de Sirius.

- Evans, fora.

Ela continuava sorrindo e se jogou de costas na cama dele. O moreno abriu a boca em desespero.

- Tão confortável. Eu pensei que iria feder, igual uma cama de adolescente bagunceiro, mas cheira muito bem. Um pouco de perfume e shampoo...

- Sai daí, Evans. Por Merlin... - Sirius correu até a porta e se postou nela, como se impedisse alguém de entrar. - Por favor, não me faça te azarar ou algo do tipo.

- Me azare, então. Eu te desafio.

- Eu vou morrer hoje. Se eu te azarar ou se alguém entrar, eu vou morrer. Eu preciso chamar Moony, ele sabe como lidar com pessoas fora de seu juízo.

- Tem certeza que quer abrir essa porta e ir? Eu sinto que alguém está chegando.

Quando Lily falou isso, alguém mexeu na maçaneta, tentando abrir a porta.

- Está ocupado! - Sirius gritou. - Vai embora. - Ele sussurrou para a ruiva.

- Como? Pela janela?

- Sim, tanto faz, só vai.

Lily deu de ombros e se levantou, indo até a janela. Sirius a assistia, confuso. Era outra brincadeira dela? A ruiva abriu a janela e olhou para baixo.

- É bem alto, mas nada do que uns bons ossos quebrados para finalizar o dia. - Ela subiu no parapeito.

- Evans, está maluca? Era brincadeira.

Ele começou a vir em sua direção, esquecendo que alguém estava tentando abrir a porta, e se apressou até a janela, mas tarde demais, ela havia se deixado ir. Sirius sentiu que foi atingido por um bastão com o choque.

No segundo seguinte, Sirius estava de volta na sala de monitoria de duelos, encarando Lily. Ela meneou a cabeça.

- Se dependesse de você, eu estaria mesmo morta. - Ela sorriu.

Sirius olhou para os lados.

- Wow, o que foi isso? Você me deu alguma erva, Evans? Wow! - Ele repetiu, levando as mãos à cabeça.

- Você foi iludido!

- Muitas vezes na vida, sim. Mas...nossa.

- Não, Black. Eu digo agora. Você foi iludido.

- Iludido?

Com um sorriso jovial, a ruiva deu de ombros.

- Um feitiço que criei. Não sozinha, mas também de minha autoria.

- Você criou um feitiço? - Ela assentiu. - Por favor, explique-se. O que aconteceu exatamente?

- Criei uma ilusão. Você não percebe o que está acontecendo, eu posso criar vários cenários, inclusive te fazer acreditar em algo completamente o contrário do normal.

- Ou seja, você cria uma ilusão e manipula tudo: desde o ambiente, o que acontece e a mente da pessoa?

- Eu não posso te controlar, então você toma as próprias decisões. Mas eu posso sugerir coisas absurdas e, na ilusão, você acreditar.

Aquilo era algo e tanto. Se sua família soubesse que uma nascida trouxa havia criado um feitiço daquele porte, eles morreriam engasgados com o ódio. Ele estava estupefato. Aquela mulher era um gênio. O que eles poderiam criar, se caso ela fosse amiga dos Marotos desde o começo? Provavelmente o mapa teria ficado pronto mais rápido e com vários adicionais.

Eles estariam dominando Hogwarts e a ponto de tomar o Ministério.

- Mas está em desenvolvimento. Eu ainda não consigo parar a ilusão sem quase matar alguém de susto.

- Quem se importa? Matar alguns Comensais do coração não faria mal algum.

- Eu quase matei o Potter na última aula.

- Bom, James quase morre do coração em uma regularidade bem alta ultimamente. Não lhe faria mal algum caso fosse por um motivo diferente.

- Ele está com algum problema, além de não dormir direito? - A voz dela soava bem preocupada. Sirius abanou a mão.

- Não é um problema per se. Ele vai resolver a questão, está apenas lidando de um jeito diferente e isso acaba dando umas taquicardias nele.

Sirius percebeu que não estava ajudando em nada em acalmar Lily. Infelizmente ele não poderia explicar que ela estava quase matando o seu amigo, então seria melhor continuar pelo caminho do mistério.

- Bom...- ele continuou. - Você me atacou com o seu feitiço e eu nem percebi. Feitiço não-verbal ou eu não lembro quando você o lançou?

- Não-verbal, muito mais fácil. - Ela confirmou. - Mas quem é atingido não costuma lembrar de ser atacado.

- Isso é simplesmente... - Sirius não terminou de falar e começou a maquinar, enquanto encarava Lily. Queria ajudá-la, não só em duelo como com o feitiço. - Você já tentou lançá-lo no meio de um duelo?

- Não. Potter não duela comigo e quando eu estava desenvolvendo com... - Lily olhou para ele rapidamente. - Com Snape, testávamos o feitiço enquanto parados e esperando por ele.

- Ranhoso desenvolveu com você? - Lily revirou os olhos minimamente, mas confirmou. - Eu deveria estar surpreso, mas aquele idiota tem um pouco de inteligência perdida no meio daquele óleo todo.

Lily preferiu não responder e evitar discutir por alguém que não merecia sua ampla defesa. Não mais.

- Pois bem...- ela comentou, sem saber muito o que falar.

- Eu quero testar isso com você. O que acha?

Ah, a felicidade. Eles iriam duelar e treinar o feitiço ao mesmo tempo. Quase quis bater palmas e pular no lugar, porém fez isso mentalmente.

- Estou pronta.

O maroto sorriu e fez uma reverência ainda maior dessa vez para ela. Sorrindo, ela fez o mesmo.

- Espero que esteja pronta mesmo, Evans.

- Venha com tudo o que tem, Black.

E assim eles começaram.


James abriu os olhos e percebeu que era dia. Ele havia dormido no meio da tarde e na Torre da Grifinória?

Olhou para baixo e viu que usava o uniforme ainda, do mesmo jeito que estava da última vez que se lembrava estando acordado. Havia dormido por quantas horas? Duas?

Merda, ele estava atrasado para todas as monitorias possíveis.

Se sentou rapidamente, tentando consertar a gravata torta e jogou as pernas para fora, achando seus óculos ao lado da cama. Quando os colocou, se deparou com Sirius deitado na própria cama, os braços atrás da cabeça e parecendo muito, muito longe dali.

O amigo usava a calça de pijama de sempre. Por que ele estava usando pijama no meio do dia?

- Padfoot?

- Ela me levou às nuvens, Prongs. - James riu.

- Quem?

- Evans!

Os olhos se arregalaram atrás dos óculos e o sorriso se fechou.

- O quê?

- Evans, literalmente, me levou às nuvens. E eu só entendi a piada há alguns minutos.

- Sirius!

O moreno se virou para encarar James.

- Eu escrevi um relatório de quarenta centímetros em dez minutos, Prongs. Quarenta! Eu não faço isso nem para as aulas quando estou interessado.

James se levantou, irritado.

- Que merda você fez?

- Droga, esqueci da poção. - Sirius respirou fundo. - Nós te demos uma poção para dormir, assim você poderia descansar.

- Você e Lily me adormeceram? - Sua voz saiu esganiçada com a incredulidade.

- Não, idiota. Remus e eu te demos uma poção para você descansar, com o aval de Dumbledore, aliás. Eu te substitui na monitoria de duelos e eu tive uma aula com a Evans... - Sirius estava tão aéreo, que não percebeu a expressão de puro horror do amigo. - Prongs, aquilo é poderoso, cara. Se você desenvolver melhor com ela, nós teremos um feitiço poderoso do nosso lado. Imagine as possibilidades.

- Ela te iludiu? - James perguntou, relaxando. Céus, ele havia se assustado. Por que aquele idiota não dissera nada antes?

- Cara...era tudo perfeito. Eu não saquei que havia algo diferente, além dela estar falando e fazendo coisas bizarras. E ainda sim, na ilusão, era normal.

- Nós estamos trabalhando nisso. Agora, eu posso perceber quando é real e quando não é. Há uma tênue diferença...mas eu consigo perceber apenas se me concentrar muito. Às vezes, eu simplesmente vou com a história e percebo tarde demais.

- Por que não me contou isso?

- Isso é algo que acontece naquela sala, Padfoot. O feitiço é dela, eu não iria espalhar por aí.

- Tudo bem, tudo bem. Um segredinho entre vocês...agora não mais. - Sirius sorria, maroto. - Aliás, você precisa duelar com ela, Prongs. E isso é urgente.

James estalou a língua e se afastou, indo até o estoque de doces de Remus e pegando um chocolate.

- Eu não vou duelar com ela.

- Você deve! Ela é muito boa. Apenas precisa de mais prática.

- Ela pratica bastante com os "duelistas" de Hogwarts.

- Me poupe, James. Eles não substituem uma pessoa. Lily precisa estar de frente para alguém que irá pensar e tentar vencê-la. Você não vai matá-la ou machucá-la. Nós duelamos e ela ainda está inteira...não que eu tenha tentado matá-la ou machucá-la, claro.

- Eu não vou duelar com ela! - James repetiu um pouco mais alterado.

- Por que não?

- Porque eu não posso! - James respondeu mais enérgico, fazendo Sirius sentar ereto na cama. - Ok? Eu tenho medo de machucá-la, não por achar que ela não é boa, mas porque eu tenho medo da minha magia sair mais forte do que o normal, porque...quando eu estou com ela, eu sinto que a minha magia fica um pouco descontrolada. - James passou a mão pelos cabelos, ainda sem olhar para o amigo. - Outro dia, ela me acordou na nossa sala e eu quase acertei um feitiço bem na cabeça dela e eu nem sei que feitiço era! - O maroto respirou fundo. - Eu deixo a minha varinha dentro da bolsa e longe de nós dois quando estamos na aula, porque não há hora ou evento preciso para que os feitiços sem controle começam a disparar. Eu tenho treinado isso, controlar minha magia, eu digo. Eu melhorei, inclusive. Então não, eu não vou duelar com ela, ainda que Lily seja completamente capaz de bloquear e se proteger, porque é espontâneo e sem a minha vontade, então eu, simplesmente, não posso.

Um silêncio sepulcral caiu no dormitório. James olhando para o chão e se sentindo um pouco envergonhado em ter admitido algo que ele vinha tentando esconder: seu controle mágico com Lily por perto. Não era sempre que acontecia e nem era algo que as pessoas poderiam perceber facilmente, mas ele vinha disfarçando por mais de um ano. Começou a perceber no final do quinto ano, depois dos NOMs, durante um almoço quando estourou uma jarra de suco de abóbora após uma briga deles. Ok, isso poderia acontecer com qualquer um, caso estivesse nervoso, mas não havia sido do jeito normal. O feitiço saiu de sua varinha e atingiu a jarra, como se ele tivesse lançado o encantamento de propósito. E então, na estação de trem de Hogsmeade, quando voltavam para casa e ao vê-la conversando com Diggory no corredor, um simples "Reparus" havia estourado o apoio do seu malão ao invés de consertar. Ainda, era algo considerado normal, já que sabia que a cena o havia irritado.

Porém, nada explicaria o fato de que quando estava na estação King's Cross, voltando para o seu sexto ano e vendo Lily novamente após alguns meses, completamente abobalhado pela beleza dela, fez um bebedouro ao lado da ruiva estourar, fazendo ela e seus pais se assustarem. E que veio em forma de feitiço, saindo da varinha novamente. Ali, ele não estava bravo, com ciúmes ou irritado. Ele estava feliz, absurdamente feliz em vê-la e, ainda sim, sua magia se descontrolou.

E durante todo o sexto ano, viu sua varinha faiscar ou soltar algumas fagulhas quando interagia com ela, quando começaram a se aproximar um pouco mais. E era apenas com ela. Ainda que as coisas estivessem mais leves entre eles, que James não a convidasse mais para sair, às vezes alguma coisa acontecia/quebrava/explodia por algum feitiço doido que ele não conhecia.

Quando descobriu que os Evans haviam falecido, vendo Lily partir com Dumbledore pelos portões em uma noite e protegido embaixo de sua capa, percebeu que a grama e as flores em sua volta se tornaram cinzas e sem vida. Teve que tirar sua varinha do bolso rapidamente quando sentiu que a faísca havia queimado sua calça e, consequentemente, sua perna. Naquela mesma noite, voltou para o quarto e fechou as cortinas de sua cama. Tinha a varinha em mãos e a rodava, enquanto encarava o dossel pensando nas lágrimas que não paravam de escorrer do rosto de Lily e em como ele queria poder ajudá-la ou, pelo menos, diminuir seu sofrimento. Percebeu um pouco tarde que havia algo vermelho girando com a varinha e parou: havia uma flor, uma mistura de lírio e alguma outra espécie na ponta da varinha, como se ele a tivesse conjurado, mesmo não tendo. Ficou encarando e estudando aquela nova espécie de flor por alguns minutos. Decidiu, então, enviá-la para Lily com uma carta. Não sabia se ela iria gostar de receber uma carta dele naquele momento, já que não eram grandes amigos, mas sentia que era o certo: um texto sincero de condolências e uma flor que significava muito mais para ele, porém não faria mal algum para ela

Então por esses exemplos e muitos outros, James não iria duelar com Lily Evans tão cedo, não antes de poder controlar sua magia com ela.

Ele não poderia trazer emoções com ele para um duelo.

- Quantas horas eu dormi? - Perguntou querendo mudar de assunto, mesmo sabendo que Sirius iria arrumar um jeito de voltar em algum momento.

- Hmm...- Sirius parecia contar. - Umas dezenove horas.

- DEZENOVE HORAS?! - Lembrando-se que tinha um relógio, checou: oito horas da manhã. - Eu estou dormindo desde o fim do almoço de ontem?

- Sim. Você parecia morto. Moony levantou umas cinco vezes durante a noite para ver se você estava respirando.

- Eu perdi as monitorias de duelo ontem. - O moreno levou as mãos aos cabelos.

- Não só as monitorias. - James arregalou os olhos ao ver a expressão um pouco culpada do amigo, as mãos paralizadas nos cabelos.

- O que eu perdi?

- Veja bem, não estava nos nossos planos fazer aquilo ontem e te deixar dormir por tantas horas...então você perdeu os pedidos de desculpas de Bell na Sala Comunal.

Seus dedos apertaram os cabelos enquanto James fechava os olhos. Ah, a derrota que deve ter sido. Eric Bell e seu texto de desculpas...deve ter sido um horror.

- Relatório de danos. - Ele pediu ainda de olhos fechados.

- Foi muito bom. - James abriu os olhos, surpreso, finalmente largando os cabelos. - Midge fez um bom trabalho com ele, Bell leu sem rir ou zuar com a situação e as garotas pareciam satisfeitas. Soube que Bell se comportou bem, por achar estranho você não estar lá e que isso era um teste. Podemos manter assim, ele não precisa saber a verdade.

A glória que sentia por ter se livrado daquele problema era enorme, como se tivesse ganhado um jogo. Agora só precisava seguir Bell de perto até o primeiro jogo e continuar treinando os outros batedores.

- Certo, um problema a menos. Agora preciso voltar a pensar nas monitorias de duelo.

- Eu te substitui, caso não tenha sacado quando eu expliquei sobre a Evans.

- Era preciso fazer relatórios sobre eles. Se Dumbledore não os tiver...

- E eu faço as coisas pela metade, Potter? - Sirius perguntou levantando uma sobrancelha. James levantou as mãos, se desculpando.

- Preciso de uma cópia...

Antes dele terminar de falar, vários pergaminhos voavam pelo quarto e pousaram na antiga cama de James.

- Cópia dos relatórios de todas as monitorias de ontem. - Dizia Sirius enquanto ia para o banheiro. James tentou esconder a expressão de surpresa e orgulho do amigo. - E se quer saber a minha opinião: eu não sei o quão ruim eles eram, mas você está construindo um exército, Prongs. Se sairmos de Hogwarts preparados assim, Voldemort não terá chances. - Ele ia continuar o seu caminho enquanto James lia os pergaminhos. - No final da monitoria com Lily, eu reservei uma extra com você no Domingo. Disse que você iria querer ver o progresso dela com o feitiço. De nada, inclusive. - James fez uma careta imitando Sirius, ainda sem tirar os olhos dos pergaminhos, mas agradecido de qualquer maneira. - E repetindo: Evans precisa duelar. Ela precisa colocar toda aquela força e inteligência para fora.

- Sirius, eu já falei que...

- Já que você não irá duelar com ela, eu tenho uma ideia, então! - Sirius disse, entrando no banheiro e antes de fechar a porta, finalizou - E para essa ideia, você não dirá não.


Droga! Detestava estar atrasada, por isso sempre estava adiantada em todos os lugares. Para ela, era o mínimo de respeito que as pessoas poderiam ter uma com as outras. Tempo era algo irrecuperável e ela detestava fazer as pessoas perderem seu tempo esperando-a.

Havia sido uma sexta-feira tensa, estressante e corrida. O seu humor não era um dos melhores e já sentia certa pena de James, já que teria que aturá-la daquele jeito. Ou ser azarado.

Que dia. Mas que dia de merda, pensou. Tudo estava indo bem, até receber outra carta de Petúnia e sua falta de vontade em ajudar. Não entendia a irmã, simplesmente era impossível e não acreditava que ainda tentava entendê-la àquela altura. Petúnia Evans (logo menos Dursley, segundo a carta) não tinha coração. Aquela garota sorridente com quem Lily cresceu, havia virado um monstro sem sentimentos e com a missão de importunar a vida dos outros.

Devia estar muito desocupada para perder seu tempo para escrever aquela carta frente e verso, procurando no dicionário todos os sinônimos possíveis para a palavra "anormal", "irresponsável" e "monstro". Lily podia dizer que aprendeu algumas novas palavras naquele dia, algumas que ela mesma poderia usar contra a irmã.

Elas deveriam ficar juntas, unidas. Perderam os pais, ambas! Mas sua irmã parecia esquecer disso, colocando-se no pedestal da dor e sofrimento, como se Lily não fosse filha dos mesmos e não estivesse sofrendo o inferno por isso.

Avistou a porta dos treinos, que estava aberta, provavelmente esperando por ela. Agora era hora de deixar toda a dor para trás, esquecer Petúnia e esquecer o coração quebrado pela morte dos pais. Era sua aula de duelo e James Potter seria uma praia paradisíaca no meio daquele tormento. Ele parecia sempre ser ou, pelo menos, é o que parecia estar sendo ultimamente.

Não a havia convidado para Hogsmeade, mas ainda o via como uma praia paradisíaca. E olha que ela esperou, ficou disponível para tal. Havia, inclusive, negado o convite de Smiths, mesmo Marlene mentindo, dizendo que Lily iria pensar.

Certo, eles se viram poucas vezes naquela semana, mas se ele quisesse convidá-la, bastaria atravessar um corredor em uma noite ou manhã e ela estaria lá. Mas não desanimaria. Por alguma razão, estava sentindo-se positiva quanto a ele.

Esperava que não fosse em vão.

Sem perceber, ela arrumou os cabelos e passou as mãos pelo uniforme. Diminuiu os passos e entrou na sala.

James estava em pé perto de uma das janelas, olhando pelos terrenos, mas se virou quando a viu entrando. Dessa vez, ele não estava com o seu pergaminho misterioso.

A beleza dele era desconcertante em níveis extremos e apenas aquela visão fez seu humor descer e esquecer do dia que teve.

- Olá, Evans! Pensei que iria me dar um bolo.

- Estou atrasada, eu sei. Obrigada por me esperar.

- Eu vou sempre esperar por você.

Os olhos dela se arregalaram e ela engoliu em seco.

- Porque não há ninguém depois de mim e eu sou o último treino do dia, é isso?!

James apenas deu de ombros e continuou, sem responder.

- Eu senti um avanço bem grande no começo da semana e desde que trouxe o seu feitiço para as aulas. Levando em conta a sua performance quando você tem as rédeas nas mãos, eu quero saber: o que você quer hoje, Evans?

- O-o que eu quero? - Ela repetiu debilmente.

- Sim, o que você quer? E o que você quer que eu faça?

Sentiu seu rosto ficar da cor de seus cabelos. O problema era ela? Estava interpretando todas as frases dele com segundas intenções? Não duvidava de nada. Do jeito que andava pensando e se sentindo em relação a ele, devia estar enlouquecendo já.

- Honestamente, eu quero que você me ataque.

- Nós já conversamos sobre isso, Evans. - Lily revirou os olhos.

- Qual o problema? Você sabe que vou me defender ou que você não irá me acertar com um Avada ou coisa assim. Eu acho.

James riu e começou a caminhar em sua direção. O coração de Lily pulou dentro de seu peito, como se chamasse a atenção dela.

"Sim, eu sei que você está feliz...mas se acalma. Ele só está andando até você".

- Além do meu ataque, o que mais você quer?

Agora seu coração berrava por atenção, tentando dizer que iria ter um treco em poucos segundos. Claramente pedia por um ataque, mas outro. Não com feitiços, não em uma luta, mas outro tipo de ataque.

- Eu realmente quero o seu ataque. - Ela repetiu, de novo, como uma idiota.

- E eu pensava que o insistente era eu.

- Você sabia ser muito insistente.

- E eu aprendi que insistência, às vezes, não leva a lugar algum.

- Parar de tentar também.

Eles se encararam por longos segundos. A ruiva adoraria saber o que passava na cabeça dele naquele momento.

James deu mais alguns passos, se aproximando ainda mais. Três metros viraram dois, dois que viraram um.

- Por isso você ainda insiste em me pedir para te atacar? Por achar que eu vou aceitar apenas para você parar de me pedir?

- Eu estou tentando, pelo menos.

- Evans, eu não te atacaria nem se eu só pudesse escolher entre você e a Lula Gigante.

Lily riu e abaixou a cabeça, sentindo a cutucada dele com aquela frase. Ela mereceu.

- Ainda que a sua frase não faça sentido, eu entendi o seu ponto.

- A minha frase faz muito sentido. Eu adoro a Lula Gigante. Nós saímos juntos no quinto ano, depois de você ter dado a ideia de que talvez seria legal. Então veja só o tamanho do meu "eu não vou te atacar, Evans" que estou dizendo.

- Naquela vez, eu não disse que seria legal sair com ela, mas que preferia sair com ela do que com você.

- Você não sabe, mas sair comigo é muito legal. Na minha mente, você preferir sair com ela siginificava que só podia ser um encontro extraordinário.

Lily sorriu e meneou a cabeça. James Potter era impossível.

E querendo deixar a Lula Gigante de lado e sem querer pensar muito no que fazia, ela deu alguns passos na direção de James, estando apenas alguns centímetros distantes. Ele não se moveu, apenas a assistindo, com as mãos nos bolsos.

- E se eu te atacar, o que acontece? Você não vai revidar? - Ela perguntou. Um sorriso maroto se abriu no belo rosto de James.

- Há muitas coisas que eu posso fazer em um ataque seu: me defender, me esconder, fugir ou gostar. Tudo depende do que estamos falando.

- Considerando que você não quer ataques com feitiços, então qual seria aquele que te faria gostar?

- Se você tem alguma ideia do que pode ser, por que não tenta?

Ela gostava daquela brincadeira, daquele jogo de dizer coisas e não dizer nada ao mesmo tempo. Seu estômago dava piruetas, sentindo todas as borboletas voarem e se debaterem lá dentro. Era bom flertar com James Potter e ela estava gostando daquilo.

Se ele estava pedindo, talvez ela pudesse tentar.

Se aproximou mais dele. Os lábios de James eram tão chamativos, que nem se importou em estar olhando-os tão descaradamente. O sorriso de lado, aquele sorriso deslumbrante, apareceu. Ele sabia para o que ela estava vindo e ele não parecia estar se defendendo, se escondendo ou fugindo.

Sem tocar nele, ela levantou um pouco os pés, para aproximar os rostos. James não tirava os olhos dos dela, e Lily conseguia ler o quanto ele queria também. Quase como se lesse sua mente, James aproximou um pouco mais os rostos, quase tocando os narizes.

- Você não vai se defender? - Ela perguntou, baixinho.

- Não.

- Você não vai se esconder?

- Também não.

- Fugir, talvez? - Ele não respondeu, mas sorriu. - Gostar?

Sendo ainda mais irresistível, James apenas tocou levemente o nariz ao dela. Tão leve que mal podia dizer que sentiu, como uma espécie de carinho e convite.

Convite esse que ela estava aceitando.

Lily se deixou ir para frente, buscando os lábios dele, mas não os achou.

Em um milésimo de segundo, James não estava mais colado em seu rosto, mas sim a três metros de distância. Com um pequeno sorriso no rosto, ele tinha as mãos no bolso e um olhar sereno.

- O que...?

- Na última aula, falamos sobre eu treinar o seu feitiço e achar um outro método para finalizá-lo, então decidi fazer os dois ao mesmo tempo. Eu acho que aprendi com a mestre.

Tudo aquilo foi uma cena, uma ilusão? Havia sido o seu maldito feitiço contra ela? Desde o momento que havia pisado na sala, entrou na ilusão de James?

De repente, seu rosto ficou vermelho de vergonha e mais ainda, de raiva.

Lily tirou sua varinha do bolso e apontou para ele.

- Estamos nos atacando, então? Finalmente!

Ela não deu tempo para ele entender e utilizando feitiços não-verbais, Lily começou a atacá-lo. Sabia que aquilo não era o objetivo de um duelo, principalmente aqueles em que estavam treinando, e muito menos o que James quis quando a embarcou na ilusão, mas não se importava agora.

James, apesar de estar despreparado, se protegeu do feitiço com um aceno rápido da varinha. Sem hesitar, Lily continuou. Soltava Impedimenta, Expelliarmus, Estupore e Expulso, um atrás do outro. Todos eles foram defendidos por James.

- Você...- ela começou a falar, no meio dos feitiços lançados e das luzes que estes mesmos criavam na sala. Ela sentiu toda a tristeza, o estresse e o cansaço a acertar agora. - Por que...?

As lágrimas agora pareciam querer dar as caras. Os olhos verdes se encheram delas, mas ela não parava, quase não podia ver James mais.

- Eles...- ela continuou, ainda o atacando. - Deveriam estar aqui e ela deveria ser a minha maldita irmã. - O Expulso lançado havia saído muito mais forte do que o normal, fazendo James quase cair ao defender. - Agora Voldemort...destruir a única família que me resta. As únicas pessoas que me restam...

Lily deixou sua varinha cair no chão, fechou os olhos e, deixando toda a dor que sentia tomar conta, ela gritou. Gritou até sua garganta arder.

Uma explosão de luz saiu do corpo de Lily, tomando conta do lugar. As janelas da sala explodiram, fazendo os vidros voarem por todo o cômodo, mas ela não sentiu nem um arranhão em si. Um vento forte se formou, fazendo as cortinas voarem e se soltarem da parede. Seus cabelos voavam selvagemente, chicoteando seu rosto.

Então no meio daquele caos, da raiva e principalmente da tristeza, sentiu a mão quente dele segurar a sua, mas ela não quis abrir os olhos. James a puxou para si e a abraçou, fazendo-a abraçá-lo de volta, o apertando com força, pedindo para que ele não fosse embora.

Os braços dele pareciam um sonho. Eram quentes, confortáveis e a cobriam completamente. Era um abraço tão bom, que a fazia se sentir segura, bem e calma. Como se algo bom viesse dele, de sua pele, e a abraçava junto. O rosto dela afundado no peito de James lhe deu a oportunidade de se deleitar com o cheiro dele, aquele cheiro de sabonete e de limpo, assim como um perfume masculino delicioso.

Era cheiro de James, mas também cheiro de lar, de aconchego e de paz. Cheiro que a sua praia paradisíaca teria.

Abriu os olhos e reparou que os vidros ainda voavam com violência pela sala, mas os dois estavam em uma espécie de bolha, impedindo que fossem atingidos.

Não havia sido ela quem criara aquela proteção.

Ficaram abraçados até os elementos fora de controle dentro da sala começarem a se acalmar. O vento havia parado, fazendo as cortinas voarem lentamente até o chão, em um som suave. Os vidros caiam levemente, como se fossem neve, fazendo pequenos "thuds". A respiração dela também se acalmava, ainda se inebriando com o cheiro dele.

- Me desculpe! - A voz dele estava fraca. Aquele tom a atingiu direto no peito. - Eu não queria...Me desculpe!

- Não é sua culpa. - Ela respondeu, sincera.

O moreno a apertou mais contra ele, nitidamente não querendo soltá-la tão cedo. Lily não iria reclamar e apenas se aconchegou mais em seu abraço, deixando-se sentir o conforto e a segurança que seus braços lhe davam. E era tão bom, que quase sentia-se a ponto de dormir em pé, ali mesmo, após um surto completo na frente dele.

Após atacá-lo.

Aquilo a fez voltar para a realidade. Ela atacou James, com inúmeros feitiços, como se ela fosse uma maldita Comensal.

- Potter, me desculpe. Eu te ataquei. Isso foi ridículo...eu...isso é imperdoável.

Lily se afastou de seus braços, como se sentisse menos merecedora agora. James parecia arrasado, seus olhos com o vazio de alguém machucado e a boca virada para baixo.

- Eu não me importo. - Ele respondeu, se aproximando. - Eu te provoquei. Eu não queria te chatear. Você pode me atacar mil vezes mais, se quiser.

Ouviram passos vindo pelo corredor e se viraram a tempo de ver Sirius e Remus aparecendo na porta.

- Prongs?!

- Agora não!

A porta se fechou magicamente com um movimento brusco de James.

- Eu não quero te atacar, nunca mais, principalmente desse jeito.

- Faça o que quiser, Evans. - Ele parecia desesperado. - Me denuncie para Dumbledore e McGonagall, diga que eu abusei dos ataques e que eu te feri... faça o que quiser!

Com aquele pedido, Lily pulou em James, o puxando para baixo e o beijando. James não se afastou, mas a ruiva percebeu que havia algo errado no primeiro segundo, pois sentia que os lábios dele estavam tensos, ainda que o beijo não tivesse passado de um simples toque de lábios de menos de cinco segundos.

Se afastou, completamente perdida. Talvez não perdida, mas desapontada. James, realmente, havia seguido em frente e não tinha interesse nela mais.

- Espere! - Ele a chamou. - Não, espere.

Foi até sua varinha, caída a alguns metros de distância e, sem encará-lo, abriu a porta e passou por Sirius e Remus, desaparecendo pelo corredor.

- O que diabos aconteceu aqui? - Sirius perguntou. Os dois marotos olhavam a bagunça da sala, assim como a bagunça que estava James Potter.

- Fique com ele. Eu vou atrás dela. - Remus informou, arrancando o mapa das mãos de Sirius e sumindo pela porta.

James cobriu o rosto, não acreditando no que acabara de acontecer. Lily estava sofrendo e não era pouco. E ele, como o idiota que era, contribuiu ainda mais para o sofrimento dela. Se sentia um lixo, um imbecil e um merda.

Nunca havia visto uma reação daquele jeito em toda a sua vida. Aquela explosão havia sido tão forte, que chegou a empurrá-lo para trás e poderia ter sido jogado aos ares facilmente, caso não tivesse fincado bem seus pés no chão. Ele não se importaria caso acontecesse, mas aquilo iria impedi-lo de lançar uma proteção em ambos, machucando Lily ainda mais e fisicamente dessa vez.

- James, o que aconteceu?

- Nada, Sirius. Eu preciso ir.

Deu as costas para Sirius e saiu apressado da sala.


N/A: Pois é! Bom...me despeço aqui para não sofrer as consequências desse final. E se você lê "Rewrite" também, vai estar ainda mais pistola comigo :x

Resposta para review sem login:

Julie: hehe pois é, estou fora de terras tupiniquins. Espero que o plot twist nao tenha sido decepcionante :x HAHAHAHA mas todos nos sabemos que o Harry vem uma hora ou outra, certo? Entao sem alardes xD Beijoos, Lindaaa.

Mah: Oieee. Espero que tenha gostado dessa interação Blevans/Evack/Lilius/Sirily (como eu chamaria esse ship, meu deus?). Eu também adoro eles e as interaçoes S2 S2 S2 Beijooos, lindaaa.

Sneak peek (se não quiser ler um trecho do próximo capítulo, pode pular essa parte):

"Seus passos eram os únicos ecoando pelo corredor há alguns minutos, após ter alertado dois segundanistas da Lufa-Lufa que o toque de recolher não tardaria e que os aconselhava a não ficar zanzando tão longe da sala comunal lufana.

Mas seus passos agora tinham companhia.

Estava razoavelmente escuro, as velas e as lamparinas iluminavam os corredores o suficiente para que você não desse com a cara em uma parede ou tropeçasse. Lembrou de quando chegou em Hogwarts aos onze anos, pensava que era assustador, um pouco cena de filme de terror, e mesmo estando acostumada agora, ter passos em suas costas naquele horário não lhe dava segurança.

Lily olhou para trás, sem parar de andar e revirou os olhos. Sentia o cheiro de problema no ar.

- Monitora-Chefe Evans. - A voz dele soou jocosa. - Só Dumbledore em ter a ideia de colocar uma sangue-ruim em tal cargo."

Beijos!