J~L
Respirava fundo entre os soluços e as lágrimas. Tudo doía. Tudo.
Seu corpo todo latejava de dor, como se tivesse sido atropelada por hipogrifos. Sua cabeça era a pior, doendo de uma maneira que a fizesse querer batê-la contra a parede.
E o que se passava lá dentro era ainda pior, sendo a única coisa que a impedia de estar rolando no chão pela dor física.
A lembrança em ver os seus pais pela última vez, sem vida. As flores ao redor, parecendo caçoar dela e de seu nome. Só conseguia pensar que elas iriam embora com eles e ela iria padecer ali em cima, sozinha, sem irmã, sem amigos, sem Hogwarts...
Sua irmã, feliz com o noivo, sem precisar passar por todo o estresse em lidar com as coisas dos pais, com a venda da casa, com as conversas frias com advogados...
E ela sozinha.
Suas amigas se divertindo, aproveitando o último ano de Hogwarts, sem preocupações - ou não tanto quanto ela - de ataques por serem de família bruxa.
E ela tendo aulas para sobreviver.
Os casais que se espalhavam por toda a escola, se beijando, tendo encontros às escondidas à noite, ocupando armários de vassouras...
E ela sendo rejeitada pelo cara que gostava.
Dobrou as pernas e escondeu o rosto entre elas, pedindo para aquela dor parar, para todas as dores pararem. Ela só queria aproveitar enquanto estava viva. Viver como uma adolescente normal.
- Lily!
A voz doce e suave de Remus ecoou pelo banheiro dos monitores. Como diabos ele sabia que estava ali?
- Como...?
- Eu tenho os meus meios. - Ele prontamente respondeu com metade do corpo para dentro. - Posso entrar?
- Sim.
O maroto fechou a porta e a trancou, vindo em sua direção e sentando-se ao seu lado.
- Eu não vou perguntar se está bem, porque claramente você não está. Eu quero saber o que eu posso fazer para te ajudar.
- Não há nada que possa ser feito, Rem. Mas obrigada.
- O meu primeiro instinto é perguntar o que James fez, mas eu escutei o seu grito, Lily. Aquele não era um grito recorrente de quando James te irritava e eu sei que ele nunca te machucaria a tal ponto, então eu só posso deduzir...
- Você escutou meu grito? - Ela perguntou, surpresa, o cortando. Não pensava que havia sido tão alto.
- Sirius e eu não estávamos longe, assim como a lua cheia também não está...
Ela assentiu, compreendendo. Sabia que Remus ficava com os sentidos mais sensíveis naquela época.
Adoraria conversar com Remus e poder solucionar seus problemas ou fazer as dores sumirem, mas nada tinha solução, além do tempo. Tempo para deixar as cicatrizes se formarem, as dores diminuírem e a aceitação se assentar.
Bufou uma risada, fazendo Remus a olhar, confuso.
- James, realmente, não está mais interessado em mim. - Ela comentou a única coisa que podia.
- Desculpe? - Remus parecia surpreso com a constatação dela.
- Eu o beijei e ele não correspondeu. Na verdade, ele ficou lá parado, parecendo uma estátua, um morto-vivo, um Inferi. Na verdade, até um Inferi teria se mexido mais do que ele.
- Você beijou James. - Ele repetiu. Lily assentiu. - E ele não correspondeu? - Ela balançou a cabeça. - Não, Lily, tem algo errado, algo que não está me contando aí no meio. O que aconteceu? Aquilo tudo aconteceu por conta disso?
- Não.
Ela tinha que explicar para ele sobre o que aconteceu, então começou desde o momento que pisou na sala e que havia sido "atacada" por James por conta de um feitiço que inventara, - inclusive, ela havia pedido para que James fizesse isso da última vez, apenas havia sido mesmo surpreendida -, até a conversa na ilusão, a frustração, os ataques, explosão, o abraço e depois o beijo.
Remus a fitava, bem concentrado, absorvendo tudo o que Lily dizia e explicava. Quando ela finalmente terminou, ele virou o rosto para frente, pensativo.
- James nunca iria te corresponder mesmo. - Ele finalmente disse. O coração de Lily se apertou com a angústia em ter aquela confirmação de um dos melhores amigos de James. - Primeiro, ele não iria aceitar o seu beijo na ilusão, porque seria falso, então por isso ele acabou com o feitiço quando você avançou. Segundo: eu vi como James estava logo depois de você sair. Ele estava sofrendo com você, desesperado por vê-la assim. James nunca, em hipótese alguma, iria te beijar nessas circunstâncias. - Os olhos verdes estavam bem abertos, tentando assimilar a informação. - Eu não duvidaria que ele te beijasse de volta caso apenas ele se sentisse assim, mas não você. Ele não iria deixá-la pensar que ele se aproveitou da sua situação. Acredite em mim que não ter te correspondido foi a coisa mais difícil do mundo para ele e eu nem preciso conversar com ele para saber disso. Eu conheço James.
- Remus, ele está mudado e ele já não...
- Ele amadureceu, algo que viria uma hora ou outra. Desde as intensificações dos ataques, da situação do nosso mundo, além da idade, ele tem uma postura diferente. James sabe que a vida é mais do que Hogwarts, mais do que azarar e brincar com as pessoas, quebrar regras ou tentar chamar, desesperadamente, a atenção de uma certa ruiva. - Remus sorriu, dando uma cotovelada nela, a fazendo soltar um pequeno sorriso. - Ele vai lutar contra tudo isso, todos nós iremos. Ainda que ele seja o velho James, o velho maroto e um dos caras mais bondosos que conheço, muito mudou, inclusive como se comporta com você. Ele não faz mais papel de idiota na sua frente, tentando te impressionar... ele quer que você o veja, Lily. Como ele verdadeiramente é, sem o estereótipo que Hogwarts criou dele, o seu estereótipo. E eu posso dizer que está dando certo.
Lily abaixou a cabeça. Remus não mentiria para ela, mas haveria uma chance dele não estar por dentro das últimas novidades de James no campo amoroso? Podia acontecer entre amigos. Marlene e Alice, apesar de saberem que ela tinha mudado de opinião sobre James e que mais que assumia o quanto ele era bonito, charmoso e "bem estruturado", não sabiam que ela nutria sentimentos por ele. Ou pelo menos, nunca haviam escutado nada sair de sua boca relacionado a isso.
- De qualquer maneira, eu não cometerei o mesmo erro. - Disse, finalmente, ainda sem olhar para Remus.
- O que quer dizer, Lily?
- Eu não darei o primeiro passo para beijá-lo mais, isso você pode ter certeza. - Ela bufou. - A vida pode ser muito engraçada. Ele me chamava para sair e me atazanava, e agora que eu decido fazer algo, ele não corresponde. Acho que isso só mostra o interesse nulo que ele tem.
- Eu tenho que discordar de você.
- Concordamos em discordar, então.
- Lily, por favor. - Aquele pedido fez com que a ruiva lhe encarasse. - Se você gosta dele, se você sente algo por James, não desista. Se eu tenho algo a lhe pedir, é isso.
- Remus, você escutou a parte em que ele não quis me beijar?
- E você escutou a parte do possível por quê?
- Você nem conversou com ele ainda.
- Eu vivi dentro daquele dormitório com James por anos. Eu sei do que estou falando. E mesmo não estando na mesma torre mais, ele ainda é meu melhor amigo, assim como eu imagino que você saiba e converse com Marlene e Alice ainda.
Ela, obviamente, conversava bastante com as amigas ainda, além de dar sermão em ambas - e ouvir também -, mas hoje em dia, não tinha tanta certeza sobre Marlene e Fabian, por exemplo. Antes, ela estaria entendendo tudo o que se passava. Não que fosse culpa de nenhuma delas, mas aqueles momentos no dormitório juntas, antes de dormir, ao acordar ou apenas reuniões com muitos doces, já não existiam como antes.
Suspirou fundo e sua cabeça conseguiu piorar e seu corpo tremer de dor. Por que estava daquele jeito?
- Você precisa de algo? - Remus perguntou. - Qualquer coisa.
- Estou entre ir até a enfermaria ou direto para a cama, mas acho que a segunda opção será melhor. Sinto que vou precisar dormir muito.
Tentando se levantar, ficou zonza e tentou se apoiar na parede, mas Remus a segurou, aparando-a.
- Eu vou com você. Tem certeza que não quer ir até a enfermaria?
- Não. O dormitório dos Monitores-Chefes é aqui do lado, mais perto.
Segurando Lily firme pela cintura, Remus a encaminhou para fora do banheiro dos monitores e tiveram uma curta caminhada até o destino final, a levando até a porta de seu quarto.
- Obrigada, Rem.
- Descanse. - O maroto tinha a testa franzida ao ver a ruiva tão fraca. - Eu acho que vou mandar a minha coruja ficar por aqui, assim você pode me enviar uma mensagem caso precise de ajuda.
- Você é um amor. Talvez não seja necessário. - Ela queria se jogar na cama, mas sabia que as dores que sentia não permitiriam tal conforto ao fazer, então se deitou vagarosamente, tirando os sapatos de qualquer jeito.
Sentindo-se inútil e chateado por não poder ajudá-la mais, Remus abriu e fechou a boca diversas vezes.
- Vou garantir de ter notícias suas mais tarde.
- Uhum. - Ela apenas murmurou.
Sorrindo tristemente, Remus apenas se afastou, dando algumas olhadas para trás, antes de descer as escadas.
Dumbledore estava sentado atrás de sua mesa, os cotovelos apoiados nos braços da cadeira e as pontas dos dedos se encontrando no ar. Seus olhos azuis olhavam por cima dos óculos meia-lua, algo que fazia sempre com seus alunos, principalmente quando estavam ali, em sua frente, em seu escritório.
Mas hoje, ele tinha uma leve e singela ruga na testa enquanto encarava James Potter, esse que se sentava ereto diante do diretor, como se alguém tivesse trocado sua coluna por um pedaço de madeira, o impedindo de se mexer ou se curvar o mínimo possível.
- Eu pensei que tinha monitoria de duelo à essa hora, Senhor Potter. E com uma das nossas mais brilhantes alunas. - O diretor começou.
- Sim.
- Considerando que você não perderia nem um minuto que poderia passar com a senhorita Evans, eu me pergunto o que aconteceu.
James engoliu em seco.
- Sexta-feira é dia de relatório. - James disse, como se Dumbledore não tivesse comentado sobre Lily.
A voz de seu aluno, que era sempre cheia de alegria, sarcasmo e zombaria, estava completamente apagada e apática. Não querendo forçá-lo, Dumbledore limpou a garganta.
- Tem razão, Senhor Potter. O que tem para relatar esta semana?
- Eu...
James havia ido até ali para se entregar. Dizer tudo o que havia acontecido, dizer que machucara Lily, que passara dos limites. Mas de repente, só uma coisa ia e voltava em sua mente: Ela estava sofrendo tanto.
Claro que estava sofrendo. Ela perdeu os pais há alguns meses e teve um verão horrível.
E idiota que é, ele brincou com ela.
Não queria que as coisas fossem para aquele lado. Não imaginava que iria causar uma reação em cadeia, que Lily o atacaria como ela o atacou.
James apenas via e revia a cena de Lily sumir naquela luz forte e tão carregada de sentimentos. O grito dela estava preso em looping em sua memória. Levou a mão até a têmpora, como se aquele gesto fizesse aquilo parar. Não queria o grito dela cheio de dor, nem vê-la desaparecendo por segundos. Nada, nada daquilo. Não queria nada daquilo, não queria Lily passando por aquilo. Não queria ninguém passando por aquilo, mas especialmente ela.
Não Lily, não de novo e nem nunca mais.
- Senhor Potter?
- Ela é muito forte! - Ele comentou alto ao lembrar do ataque dela.
Ele não se importava por ter sido atacado. Não só porque ele merecia, mas ele pôde ver uma Lily que não havia visto ainda nas monitorias. Lily Evans sabia como duelar, ela sabia atacar e ela era muito boa.
E depois ela simplesmente virou uma bola de luz. Se arrepiou inteiro ao lembrar da sensação de ser engolido por aquela luz, que o fez sentir a mágoa, a tristeza e a infelicidade que Lily carregava. Aquilo havia sido louco, fora do normal e extremamente forte, o que lhe fazia sentir mais ódio de si.
Merlin, ela tentou beijá-lo. Ela quis beijá-lo. No meio da sua própria tristeza, James deu um leve sorriso ao lembrar.
Ela o beijou, na verdade. E ele não correspondeu.
Pelas barbas de Merlin! Aquilo fez seu pequeno sorriso morrer.
- Gostaria de me enviar o seu relatório pela Professora McGonagall, senhor Potter? - James pareceu acordar e ver, finalmente, o diretor à sua frente.
- Não, eu...nós podemos...
- Eu acho que se sentirá melhor caso descanse e deixe os acontecimentos assentarem em sua mente inquieta.
Ele apenas assentiu, sem nem perceber que o diretor falava como se soubesse do ocorrido. Talvez fosse melhor ir, já que nem havia pego seus pergaminhos sobre os outros alunos, muito menos seus pertences. Tinha que voltar à sala.
- Obrigado. - Disse, levantando-se e indo até a saída do escritório.
- James... - A voz de Dumbledore o parou. - O quão forte?
O maroto levantou o queixo e encarou o teto por um segundo, antes de baixar os olhos para Dumbledore.
- Forte o bastante para derrotar Voldemort ela mesma!
E assim ele partiu, deixando um muito pensativo Albus Dumbledore para trás.
- Onde esteve?
Sirius perguntou assim que James voltou. Ainda estava na sala da monitoria de duelos, sentado na mesa e esperando por algum dos amigos voltar, fosse Remus ou James, o que demorou uma eternidade.
- Relatório com Dumbledore.
- Você é realmente o Monitor-Chefe, não? Algo louco acontece e você reporta para ele, ao invés de falar comigo! - Sirius meneava a cabeça. - Perdemos você completamente, Prongs.
James se aproximou, sem responder, e se recostou na mesa. Seus olhos vagavam pela sala: as janelas estavam reconstruídas, assim como as cortinas estavam no lugar.
- Obrigado. - Ele agradeceu o amigo.
- De nada! - Sirius deu de ombros. - Mas por que está me agradecendo?
- Por ter arrumado tudo...
- Não fui eu! Alguns minutos depois que saiu igual um raio, as coisas começaram a se consertar sozinhas.
- O castelo não faz isso. - James franziu a testa.
- Bem, alguém fez e não fui eu. Enfim...vai me contar o que aconteceu ou eu devo te lançar um Imperius ou algo do tipo?
O maroto cruzou os braços, pensativo.
- Não sei se posso ou devo.
- Você está de brincadeira, certo?
- Não!
Sirius encarou James por alguns segundos, completamente embasbacado.
- Eu não estou pedindo detalhes sórdidos de uma noite de sexo com Lily Evans. Apenas quero saber o que aconteceu nesta sala que te deixou assim...e que deixou Evans daquele jeito. E que explodiu essa sala. - Sirius sorriu, maroto. - Foi forte, hein?! Não me surpreende. Há anos que você quer.
- Ela está sofrendo tanto!
Não conseguia parar de repetir aquilo. Sua cabeça gritava aquelas palavras sem parar, como se quisesse fazê-lo sofrer tanto quanto ela, em uma espécie de tortura, pois ele tinha um problema e não sabia como resolver.
James Potter gostava de resolver problemas, os seus ou os alheios. Quando tinha um, era prático e rápido. Para ele, tudo tinha conserto, resposta e solução. Evitava sofrer por antecedência, evitava sofrer para resolver as coisas...se tivesse a resposta em mãos, ele usaria.
Mas não agora. Porque Lily estava sofrendo e ele não sabia como ajudá-la.
- O que você fez? - Sirius perguntou, o tom de piadas havia ido embora.
- Nada! - Ele estalou a língua. - Na verdade, eu fiz. Eu...eu a incitei a me beijar numa ilusão e fugi. Depois, ela me beijou fora da ilusão e eu não correspondi.
O silêncio era palpável na sala agora. James respirou fundo e apertou mais os braços cruzados, se odiando ainda mais.
- Estou esperando, James.
Ele se virou para o amigo.
- Esperando...?
- Você me contar o que você fez.
- Eu acabei de contar!
- Não, você me disse uma asneira enorme. Uma grande mentira. Olha, se não quiser me contar, tudo bem...- Sirius desceu da mesa, parecendo pronto para ir embora.
- Eu não estou mentindo, Padfoot.
- Sim, você está.
- Não, eu não estou.
- Sim, está.
- Não estou!
Sirius olhou bem fundo nos olhos de James e arregalou os próprios olhos.
- Merda, você não está!
James revirou os olhos.
- Não, não estou.
- Por que? Como? Eu acho que esse distintivo de Monitor-Chefe, na verdade, é um objeto das trevas, instigando-o a fazer coisas sem nexo, te levando para longe de nós...te matando aos poucos. Deveria tirar, devolver para Dumbledore.
- Cala a boca, Padfoot!
Eles se viraram para a porta. Remus entrou na sala, fechou a porta e se aproximou dos amigos.
- Onde ela está? Como ela está? - James perguntou.
- De volta para o dormitório. Acho que botar pra fora um pouco da angústia, ajudou, mas não diria que ela está no auge da energia e vigor.
- Alguém vai me manter a par dos acontecimentos como um todo ou eu vou ter que entrar naquele dormitório da Monitora-Chefe e perguntar para ela diretamente?
- Ela te contou? - James perguntou para Remus, que assentiu. - Tudo? - Remus assentiu novamente. - Certo, então acho que não há problema em te contar, Padfoot!
Ouvindo agora a versão de James dos acontecimentos, Remus e Sirius ficaram em silêncio. Inclusive esperaram pacientemente quando James fez uma pausa ao contar sobre a explosão de Lily e tudo o que ele conseguiu sentir quando foi atingido. Quando terminou, Remus assentiu para si mesmo com a confirmação de que ele havia contado a mesma coisa que Lily e Sirius...
- Você é um imbecil!
- Eu sei.
- Não, não. Você não sabe, então vou repetir: você é um imbecil de níveis estratosféricos.
- Padfoot. - Remus o repreendeu.
Mas James não iria contra aquilo, porque concordava. Ele era e foi um imbecil.
- Lily conseguiu atingir aquele nível de magia, explodindo essa sala...- Sirius se afastou, indo até a janela. - Merlin...
James e Remus se entreolharam.
- Sirius?
- Vocês sabem o quanto isso dói? - O maroto se virou para eles, um olhar louco. - E eu digo fisicamente, além da outra dor também. Ela deve estar com uma ressaca mágica enorme. Precisamos avisar Marlene e Alice, ela não pode ficar sozinha agora. Ela terá pensamentos negativos, dor no corpo todo, a cabeça dela quase explodindo...
- Hey hey hey. - James levantou as mãos ao ar. Muita coisa estava acontecendo agora e ele precisava se acalmar e acalmar todos a sua volta. - Você já viu isso?
- Se eu já vi? Eu já fiz isso. - Sirius começou a respirar fundo. - É como a última gota no copo...e dói. É absurdamente doloroso. Agora eu entendo Moony dizendo que a escutou gritando, não é por menos.
- Cadê o mapa, Remus? - James pediu esticando o braço, sem tirar os olhos de Sirius. - Precisamos achar as garotas e enviá-las para lá.
- Já estou nisso. - Remus respondeu com o mapa já aberto.
James continuou a assistir Sirius, que parecia transtornado. Ele nunca havia dito algo parecido antes e ter duas pessoas que ele amava passando por isso, o perturbou ainda mais. Até que uma lembrança clara lhe atingiu.
- Você chegou em casa acabado. - Sirius se virou para James quando este começou a falar. - Disse que havia tomado uma surra dos Black, o que estava evidente, mas não o suficiente para você estar tão fraco. - O maroto se lembrava de quando Sirius apareceu em sua porta no ano passado, dizendo que havia fugido de Grimmauld Place e ele estava literalmente acabado, fraco. Precisou de muitas horas e cuidados de Euphemia e Fleamont para se recuperar.
Sirius respirou fundo.
- Quando eu disse que você era um imbecil...você é, mas não por não ter beijado Evans de volta. Nem por ela ter tido aquela explosão de magia. Na real, você não é um imbecil. Fez por ela mais do que fizeram por mim no momento do ocorrido. Acho que falei aquilo, apenas porque eu refleti aquela mulher detestável que me gerou em você. - Os amigos continuaram a fitar Sirius, esperando. - Mas nessa história, você está mais para outro membro Black. - Sirius deu uma rápida olhada para os amigos. - Reg esteve no seu lugar, sabe.
- Ele estava com você no mesmo cômodo. - Remus traduziu.
- Sim. Eu não sabia o que ele havia sentido, até voltarmos para Hogwarts e ele me encurralar sobre isso. Disse que, de uma maneira bizarra, ele sentiu tudo o que tinha carregado naquela explosão, todos os sentimentos de anos acumulados...toda a raiva, a...a tristeza e... que nunca iria esquecer aquela sensação. Ele também comentou que não conseguiu reagir ao me ver fugir, porque toda a eletricidade daquilo estava prendendo-o no chão, como se nada fizesse sentido. Ele comparou com a sensação de estar perto de Dementadores: não conseguia estar feliz, positivo.
Foi exatamente o que James sentiu. Ainda que falasse, se mexesse ou andasse, era como se estivesse bloqueado para fazer qualquer coisa além do normal...como se qualquer coisa boa, como um beijo, fosse impossível, porque...
...porque era como se não existisse algo bom. Tudo o que ele sentia era tristeza. Tristeza por ela, por sentir literalmente na pele o que ela estava passando. Como poderia beijá-la naquelas condições? Nunca seria o que deveria ser, o que ele planejava para ambos. Se ele estava tão mal, não conseguia imaginar ela mesma. Como ele poderia beijá-la naquela situação? Duvidava que um beijo iria ajudá-la, não importando se era dele ou não. Provavelmente só a faria sentir-se pior depois e isso era algo que ele não queria para ela.
Se achava o idiota do século em não ter correspondido Lily depois de tanto desejar aquilo, mas não foi como se tivesse ocorrido em um bom timing.
- Eu achei Alice e Marlene. - Remus dizia enquanto dobrava o mapa.
- Wormtail está com o meu espelho. Você está com o seu? - Sirius perguntou e James tirou o objeto do bolso. - Diga para ele avisar as garotas de que Evans precisa delas.
Depois de falar com Peter, James se recostou na mesa de sempre e cruzou os braços, assistindo Sirius. Não sentiu pena, mas raiva. Raiva por ele ter passado por tudo aquilo, pela família Black tratá-lo daquele jeito. Era incompreensível tantas pessoas terem tanto amargor ao ponto de fazer aquilo com um membro da família.
Ah, sua cabeça estava explodindo agora. Tanta coisa aconteceu em um espaço tão curto de tempo, que seu cérebro estava se rebelando. Além de estar morrendo de sono e cansaço.
Queria tanto ajudar Lily e Sirius. E Remus e Peter. E a porra do mundo todo. Mas sabia que não podia ser o salvador do mundo, não importando o quanto ele quisesse.
Mas o que ele pudesse fazer, ele faria. Isso era uma promessa.
Ouviu passos apressados no andar debaixo, mas não se moveu. Por ela, poderiam ser malditos Comensais querendo matá-la, mas não ia mover um dedo do lugar.
Os passos alcançaram as escadas e vieram na direção de seu quarto.
- Lily!
Não soube se tinha sido Marlene ou Alice, só soube que as duas foram até a cama e se jogaram nela, abraçando-a forte. As lágrimas voltaram e ela se permitiu chorar de novo e de novo. Pelos pais, por Petúnia, por James e por ela mesma. Apenas deixou aquele último resquício de tristeza sair de seu corpo com elas, pois aquelas duas garotas eram sua família desde sempre e ainda mais hoje em dia. Não poderia dizer o quanto se sentia amada ao lado delas, como sentia a falta de ambas agora que dormia ali, sem as conversas de madrugada, as risadas, choros, broncas e segredos.
Lembrou quando Frank beijara Alice pela primeira vez e a garota flutuava de tanto amor; ou quando Marlene havia aprontado uma peça em Pettigrew no terceiro ano e ninguém descobrira até hoje que tinha sido ela; ou o palco para todas as descobertas e acontecimentos adolescentes: os primeiros namorados, beijos, noites e virgindades perdidas no castelo ou durante as férias de verão.
Aquele quarto grifinório havia sido palco para tantas conversas, felicidades e risos...
- Estamos aqui, Lily. - Marlene disse.
- E só vamos embora quando quiser. Se quiser. - Alice continuou.
Nas próximas horas, foi assim que ela passou: dois pares de braços ao seu redor, a maior parte em silêncio e, às vezes, alguma conversa. Lily demorou duas horas para poder, finalmente, contar o ocorrido e pedindo para que ninguém a interrompesse, pois sentia que não conseguiria entrar nas brincadeiras das amigas relacionadas a James.
Não por não querer falar dele, mas estava cansada, exausta. Quis apenas cuspir a história e deixá-las com os próprios pensamentos antes de falarem, pois nada de inteligente sairia daquela cabeça ruiva aquele dia.
- O quão brava está com ele? - Alice, finalmente, perguntou. Aquela pergunta a fez respirar fundo. Não precisava analisar ou pensar a respeito para responder.
- Nem um pouco, na verdade.
- Por que? - Marlene perguntou.
- Por que eu deveria estar brava com alguém só por não querer me beijar? - Lily deu de ombros levemente. - Eu arrisquei beijá-lo, ele não me pediu.
- Ele, com certeza, instigou.
- Sim, Lene, mas ele se afastou depois, certo? Uma brincadeira que pode ser considerada de mau gosto, caso fosse de conhecimento que eu gosto dele ou algo do tipo e...
- E você gosta dele? Você quis beijá-lo por sentir uma vontade ali apenas ou por que gosta dele?
A pergunta de Alice ficou no ar por alguns segundos. Lily não queria falar sobre aquilo agora, ou mesmo pensar.
- O que importa é que não estou brava com ele. - Finalmente disse, desviando os olhos para o teto. - Estou chateada que as coisas aconteceram como aconteceram, mas não chateada com ele. James Potter tem todo o direito de não querer me beijar.
- Eu acho que ele quer, mas eu não entendo o que houve. - Alice murmurou.
- Eu também não entendo.
As duas amigas se entreolharam, lembrando da conversa com James naquela semana. Lily estava distraída demais olhando para o teto para notar.
A ruiva se encolheu ainda mais na cama. Apenas querer pensar em tudo, sua cabeça lhe maltratava.
- Eu acho que vou dormir, meninas. Vocês se importam se nos vermos amanhã?
- Tem certeza que quer ficar sozinha?
- Sim, Lice. Eu vou dormir instantaneamente. Sinto que não durmo há um mês.
- Tudo bem. Nos chame se precisar. Eu vi que tem uma coruja do lado de fora da sua janela. Use-a se precisar de algo.
- Ah, a coruja de Remus. - Ela sorriu brevemente. - Eu usarei se precisar.
Após uma curta despedida, as duas grifinórias voltaram para a torre, deixando Lily cair em um sono profundo.
Porém, um sono que não durara a noite inteira.
Quando abriu os olhos - não soube o motivo -, lembrou-se imediatamente que havia uma visita para Hogsmeade naquele dia e, após essa lembrança, ela só sabia checar as horas e passou o fim da madrugada encarando o dossel da cama.
Não por estar ansiosa para ir, mas por mal conseguir esperar que os alunos fossem.
Sim, ela se sentia melhor, mas estava ainda muito cansada. Apesar de ter colocado seus sentimentos para fora ontem e ter sentido um leve alívio, parecia ter usado todas as suas forças para aquilo e sentia que precisava se revitalizar.
Nada melhor do que ficar no castelo enquanto a maior parte dele estava fora.
Quando o relógio marcou sete horas da manhã, ela se levantou, sentindo o corpo muito menos dolorido do que ontem, e foi tomar café da manhã sozinha. Acenou para alguns alunos da Corvinal que tiveram a mesma ideia que ela, mas além deles e dela mesma, o Salão Principal estava vazio. Quando outros alunos começaram a se juntar à eles, decidiu que era hora de ir embora.
Ao ver as escadas sendo tomadas por alunos muitos ansiosos para irem logo para Hogsmeade, decidiu que voltar para o dormitório dos monitores sem falar com ninguém seria impossível, então foi para os jardins.
A brisa fria que lhe atingiu lhe lembrou do quase fim de Setembro. Desde o começo das férias de verão, o tempo havia virado algo abstrato. Tirando as horas marcadas que tinha para resolver os problemas, não tinha ideia do dia ou mês. Começou a prestar atenção quando sua carta de Hogwarts chegou e teve que organizar uma visita ao Beco Diagonal para comprar seus livros e alguns outros utensílios que já estavam gastos ou quebrados, como o seu caldeirão.
E agora já quase se encontrava no final do primeiro mês e sentia que nenhum dia havia passado, ao mesmo tempo que tinha a impressão que o fim de tudo estava próximo. Que ela tinha que tomar uma decisão para o futuro...
- Um belo fim de Setembro, não acha, senhorita Evans?
Lily se virou vagarosamente, descrente ter ouvido aquela voz, ali, no meio dos jardins.
Dumbledore sorriu levemente para ela, caminhando em sua direção, as mãos para trás.
- Bom dia, professor Dumbledore.
Vendo-o ali, havia apenas algo gritando em sua cabeça: o que ele tinha na cabeça em nomear um maroto, que não era Remus, como Monitor-Chefe. Mas apenas porque aquela pergunta ficou ali desde o começo do mês, por curiosidade. James havia provado mais de uma vez o quanto ele merecia o cargo.
- Como andam as monitorias com o nosso merecidíssimo Monitor-Chefe? - Tentou esconder o espanto pela frase dele. Sentiu que Dumbledore havia lido sua mente.
- Boas. Potter merece estar onde está.
- Eu concordo. Um garoto...- Dumbledore se parou. - ...um homem espetacular.
- Sim, devo concordar.
O diretor parou e se virou para o lago, que estava um pouco longe, mas tinha uma vista magnífica com o levantar do sol naquele momento.
- Eu tenho pergaminhos e mais pergaminhos com relatórios de suas monitorias em minha mesa, senhorita Evans.
- Sim? - Ela perguntou, sentindo a ansiedade crescer. O que James andava dizendo? Ela era tão ruim a ponto de fazer Albus Dumbledore vir até ela e lhe dizer que ela estava dispensada, pois havia outras pessoas mais poderosas e interessadas na vaga?
Um pequeno sorriso brincou nos lábios do diretor, antes dele respirar fundo.
- O Sr. Potter está muito feliz e orgulhoso de como tem se saído. - Dumbledore arriscou um rápido olhar para ela, antes de se virar para o lago novamente. - Eu tenho relatórios de todos os estudantes, eu creio que esteja ciente, sim?
- Sim, Potter e Bones avisaram a todos. - Ela respondeu.
- Pois bem. São ótimos relatórios, por sinal, bem detalhados, descrevendo as progressões de cada um. Um pergaminho inteiro de relatório para cada um...
- Ele leva a sério a posição que tem, tanto como Monitor-Chefe e monitor de duelo.
- Sim, claro. Eu não o escolhi por acaso, vê? - Dumbledore deu de ombros, ainda não tirando os olhos do lago. - Mas apenas um relatório há frente e verso de um pergaminho. Sempre apenas um. - Lily engoliu em seco. - Há alguns dias, eu recebi um relatório de 40 centímetros de Sirius Black. Impressionante. A Professora McGonagall ficou furiosa e com inveja quando eu a mostrei. - Dumbledore riu levemente, tirando um sorriso de Lily. - Aparentemente, o Sr. Black não lhe proporciona tamanha felicidade em suas aulas, apesar dele ser excepcional em Transfiguração. Não que eu teria como duvidar de tal fato. - Dumbledore agora parecia falar sozinho.
Lily continuou em silêncio, esperando. Não entendera muito bem o que ele dizia sobre Sirius ser excepcional em Transfiguração, então preferiu que o diretor finalizasse os próprios pensamentos e talvez, compartilhá-los.
- O que faz aqui nos jardins tão cedo, senhorita Evans? - Dumbledore perguntou, parecendo querer mudar de assunto.
- Bem, eu não queria estar na presença de muitas pessoas hoje, então escapei do Salão Principal assim que terminei meu café da manhã.
- Entendo. Há algo em que eu possa ajudar e acalmar seus pensamentos?
Sentiu-se lisonjeada em receber tal proposta, mesmo sabendo que Dumbledore não hesitaria em ajudar um aluno em momento algum.
- Muito obrigada, professor Dumbledore, mas creio que os meus dramas juvenis não passam disso.
- Sofrimento nunca será algo pequeno, senhorita Evans, não importa se juvenis ou não. - Dumbledore se virou completamente para ela, as mãos ainda em suas costas, os olhos serenos. - O mundo está cheio de sofrimento neste momento, sofrimento esse que não temos muito controle, mas que será combatido. Não deixe o seu próprio sofrimento sem combate. Assim como estamos todos juntos contra Voldemort e sua ascensão, você também possui amigos a sua volta para lhe ajudar. Hogwarts está aqui não apenas para lhe fornecer conhecimento do mundo bruxo, mas para nos tornar bruxos melhores!
A ruiva assentiu e abaixou a cabeça, querendo esconder a pequena lágrima que escorria. Hogwarts havia virado sua única casa agora e não podia ser mais agradecida por isso. Se estivesse de volta à Cokeworth, não teria mais uma família como agora ela tinha ali, já que sua única família de sangue não a aceitava mais.
- Mantenha os seus amados por perto. Sozinhos, nós não somos muita coisa no mundo, senhorita Evans. - Ele a enviou um sorriso afável. - Tenha um bom dia.
E sem falar mais nada, Dumbledore se virou e caminhou de volta ao castelo. Ela não o seguiu e não o assistiu, apenas encarava o lago e o sol que já estava completo e mais alto, criando um lindo reflexo na água. Não estava planejando chorar hoje, mas aparentemente o diretor não havia lhe dado muita escolha.
Quando decidiu voltar para o castelo, a maioria dos estudantes a partir do terceiro ano já havia partido em uma carruagem para Hogsmeade, então teve fácil acesso aos corredores sem trombar com ninguém. Sabia que ouviria muitas reclamações de Marlene e Alice por não a avisarem da sua desistência, mas poderia lidar com aquilo depois. Também poderia voltar para a sala de monitores e fazer algumas tarefas, mas decidiu que uma folga lhe faria bem, então se viu entrando na biblioteca vazia. Sem hesitar, ela foi até a sessão restrita, acenando para a jovem senhorita Pince.
Os olhos verdes correram por uma estante que ela nunca havia se aventurado antes, olhando as lombadas dos livros sobre duelos. O título "Duelos e suas diversificadas artimanhas" lhe chamou a atenção, então o pegou. Por um instante, se permitiu imaginar um jovem James Potter naqueles corredores, escondido da senhorita Pince, olhando para os mesmos livros e talvez até pegando este mesmo que segurava. Aquilo lhe fez sorrir levemente enquanto ia até uma das mesas e se acomodava.
Não soube por quanto tempo ficou por ali, lendo. Escutava, esporadicamente, a senhorita Pince andar entre os corredores e ajudar um ou dois alunos primeiranistas por ali, mas a maior parte do tempo ela se sentiu completamente sozinha com o livro, bebendo todas as informações que podia.
- Acho que o seu monitor de duelo não é lá muita coisa, para te fazer vir e aprender sozinha na biblioteca.
Foi o único momento que havia sido interrompida e adoraria ter continuado daquele jeito. Por que ele insistia em falar com ela, tentar arrumar assunto e atacar James Potter ao mesmo tempo?
- Se um dos monitores de duelo da Sonserina pensa que ele deveria ser a única fonte de conhecimento sobre o assunto, acho que ele deveria se tornar um deus ou algo assim. Considerando que ele não é e ninguém parece estar interessado em torná-lo um, eu creio que ele seja apenas muito arrogante e ruim no que faz. Diferente do meu monitor de duelos...
Não se atreveu a tirar os olhos do livro e das figuras representativas de um tipo de ataque dentro d'água, o que era muito interessante, então perdeu quando Severus Snape torceu a boca em descontentamento.
- Então é mesmo verdade? Você está tendo monitoria de duelos com ele?
- Não vejo isso sendo da sua conta ou não.
Por um momento, se pegou pensando em quanto todos a sua volta estavam interessados em falar sobre James com ela. Mas ali, com Severus, sabia que a conversa não iria resultar bem. Depois da breve conversa com Dumbledore nos jardins, mais convicta estava em manter as pessoas que gostava por perto, ao seu lado.
Severus Snape poderia ter sido uma dessas pessoas, mas ele escolheu estar no time que batia de frente com o dela, então não havia nada que ela pudesse fazer.
- Eu nunca imaginaria que você, logo você, Lily, fosse pedir para ter aulas com ele. Você sabe que Potter e seus amiguinhos são asquerosos. Sabe que ele...
- É ótimo no que faz, um excelente Monitor-Chefe e não é um Comensal. Sim, eu sei de tudo isso. Eu também achei uma enorme sorte ter conseguido uma vaga.
Severus se sentou ao seu lado, parecendo ignorar completamente o tom sarcástico dela, e Lily revirou os olhos.
- O que aconteceu? Eu lembro o que você achava dele antes...lembra quando ele...?
- Eu lembro o que eu achava de James Potter. Eu também lembro o que eu achava de você! E adivinha quem conseguiu me decepcionar e quem conseguiu me surpreender?
Quase quis sorrir com a expressão estarrecida de Severus. Ele não teria algo para dizer sobre aquilo, certo? Pois se ele tivesse, se Severus Snape tivesse algo para refutar aquilo, ela gostaria de ouvir, pois seria uma manobra e tanto.
- Lily, escute a voz da razão.
A ruiva soltou uma alta risada irônica que ecoou pelos corredores da biblioteca, fazendo a senhorita Pince olhar feio para ambos.
- E essa voz é a sua? - Ela perguntou, se virando para ele, cruzando os braços sobre a mesa. - Diga-me mais, Severus, me conte sobre a razão da nossa existência, diga-me como a vida deveria ser, segundo um Comensal com a voz da razão. O que você teria a dizer para uma sangue-ruim como eu?
- Pare de repetir essa palavra, Lily, por favor. Eu não queria te chamar disso.
- Eu já ouvi suas desculpas sobre esse assunto, Snape. Isso apenas não apaga o que realmente aconteceu e o que continua acontecendo, o que você continua fazendo. E eu repito: você escolheu o seu lado e eu escolhi o meu. Pare de tentar me trazer para o seu, porque não vai acontecer.
- Eu não estou tentando te fazer vir para lado nenhum. Eu apenas queria que você abrisse os olhos novamente.
- Você está, sim, tentando me trazer para o seu lado. Querendo fazer uma lavagem cerebral na pobre Lily Evans, mas você esqueceu que eu sou uma bruxa no mundo bruxo por muitos anos agora e eu sei e entendo o que vem acontecendo. Não sou mais inocente... - Ela parou a frase no meio e pensou, antes de continuar. - Ou eu deveria dizer burra?
Severus apoiou o cotovelo na mesa, se aproximando dela.
- Nada do que eu estou falando tem a ver com algo lá fora. Eu estou falando sobre James Potter, alguém que você já conheceu o lado ruim e parece estar ignorando agora. E eu só não estou entendendo o motivo disso.
- Você pode vir e falar quantas coisas quiser sobre os marotos ou sobre James Potter...eu não me importo. Eu tenho a minha própria opinião formada e não será você que irá mudá-la.
Lily fechou o livro com certa violência, pegando-o e o colocando embaixo do braço, se levantando em seguida. Pelo visto, o seu dormitório seria o único lugar vazio em que poderia continuar sua leitura.
- Você gosta dele. - Severus soltou, quase inaudível, mas ela ainda pôde ouvir. - Você gosta dele, realmente gosta.
Se abaixando para ficar na mesma altura dele, Lily jogou o cabelo para trás, antes de responder.
- Sim, eu gosto!
Sem esperar por sua resposta, ela deu as costas e saiu da biblioteca.
Não a via há dois dias, quando Lily saiu correndo da sala após aquela aula de duelos patética na sexta.
Após ela tê-lo beijado e ele não ter correspondido.
Remus ficou com o mapa desde então, e ele ficou feliz, porque não queria ficar seguindo-a como um maníaco e nem ficar tentado em ir atrás dela durante todo o fim de semana.
Sabia que tinha que ir e pedir desculpas, inúmeras desculpas, mas também achava que ela queria distância dele naquele momento. Nem para Hogsmeade ela havia ido e sabia o quanto ela havia ficado feliz com aquela visita inesperada.
Se jogou em sua antiga cama e colocou as mãos atrás da cabeça. Céus, como gostar de alguém era complicado. Sentia imensa inveja de Frank e Alice, pois tudo parecia simples para ambos: eles se gostavam, se davam bem, namoravam há eras e parecia que se casariam assim que saíssem de Hogwarts. Não os culpava. Havia uma guerra a ponto de explodir e se não vivessem agora, será que teriam o que viver depois?
Isso era outro tópico que bicava na cabeça do maroto o tempo todo. Como queria lutar contra o que vinha acontecendo, será que ele teria tempo para viver depois? Ele morreria na primeira batalha que se enfiaria? Viveria o bastante para se casar e ter filhos?
Ele veria Lily depois de se despedirem em King's Cross?
Aquele pensamento pesou em seu peito. Era o último ano em Hogwarts e parecia que sua mente não havia realmente realizado aquilo até aquele momento. Tinha como garantido aquela vida de estudante em que passava a maior parte do ano em Hogwarts, voltava para casa por alguns meses e depois pegava o trem de volta e vivia tudo de novo. A veria ali novamente, mudada de acordo com o tempo passando, crescendo juntos.
Mas a última viagem para Hogwarts fora feita há um mês e não dava para voltar mais. Claro, se voltasse para casa no Natal ele estaria, de certa forma, voltando para Hogwarts, mas não como um novo aluno de um novo ano. Ele não acordaria com os marotos no mesmo quarto, as luas cheias não seriam em Hogsmeade, ele não precisaria usar a capa para invadir a cozinha a noite, não teria os treinos, jogos de Quadribol e uma taça para ganhar.
Tinha que acostumar que sua vida daria um giro enorme e que era melhor começar a se preparar agora, porque não queria ser pego de surpresa.
- Você não tem monitoria excepcional com Lily hoje? Aquela que Sirius reservou para você?
James levantou um pouco a cabeça e olhou para Remus sentado em sua própria cama, comendo alguns chocolates da Honeydukes. Já que estava dando espaço para Lily, estava ficando o menor tempo possível nos dormitórios dos monitores, então havia dormido no seu antigo quarto desde sexta.
- Eu acho que nossas aulas acabaram para valer.
- Ela está na sala, sabe? Esperando.
- Está? - James deu um pulo e correu até Remus que tinha o mapa aberto. Lily estava, realmente, na sala deles.
Sem perder mais tempo, ele correu até a cama que estava, pegou um pacote que trouxera de Hogsmeade e voou do quarto.
- Onde está indo? - Sirius perguntou na sala comunal quando viu James ainda correndo como se fosse apagar o fogo do castelo.
- Monitoria. - Ele respondeu sem parar ou ter certeza de que Sirius ouviu.
Subia e descia as escadas desesperado. Já estava dez minutos atrasado e se ela estava lá, então não queria perder a oportunidade de ter a monitoria com ela.
Sentia as pontadas agudas na barriga de tanto correr descompassado, mas chegou em frente da sala em tempo recorde. A porta ainda estava aberta e isso lhe deu certeza de que ela ainda estava lá. Tentou normalizar o máximo a sua respiração, passou a mão pelos cabelos e entrou.
Lily andava pela sala, pensativa. As mãos em suas costas e olhando para o chão, parecendo bem longe dali. Porém, seus lábios se mexiam e ela parecia cantar.
- Desculpe o atraso! - Ele finalmente se fez presente, chamando a atenção dela para si.
- Oi! - Ela respondeu, parando e se virando para ele. Lily lhe entregava um sorriso leve.
Ainda sem graça, James se aproximou. Quando estava quase no meio da sala, Lily acenou e ele pôde ouvir a porta da sala se fechar em suas costas.
Se encararam por alguns segundos. James apenas absorvendo seu rosto, sua expressão, tentando desvendar o que ela estava pensando, ou se estava se sentindo melhor (Remus havia encontrado Lily na noite anterior e confirmado que ela estava bem, mas nada melhor do que ver com seus próprios olhos).
- Você não foi à Hogsmeade ontem. - Ele apontou, tentando puxar conversa. Achava que começar com "tudo bem?" ou "como está se sentindo?" não iria encaixar no momento.
- Não, eu preferi ficar no castelo desta vez.
- Certo. Bem...- Ele tirou o pacote de dentro de seu bolso e ofereceu para ela. - Eu sei que você gosta, porque eu não sei quantas vezes eu já vi as embalagens pela sua mesa ou quase caindo de seus bolsos, então achei que talvez você não teria mais em estoque.
Lily se aproximou e pegou o pacote das mãos dele, abrindo e conferindo o que tinha dentro. Ela sorriu.
- Shock-o-Choc! - Ela levantou os olhos para ele. - Eu realmente amo esses chocolates. Obrigada, James.
Choque, na verdade, foi o que ele levou ao ouvir seu nome ser dito por ela. Docemente, como se estivesse cantando para ele.
Estava tão surpreso por tudo isso. Ele imaginava que Lily nunca voltaria naquela sala, ou que não fosse tão doce após o que havia acontecido. Durante todo o dia, ficou pensando em como faria para reconquistar a confiança dela, fazê-la se sentir confortável com ele novamente. Agora, ele estava sendo pego de surpresa e não sabia o que fazer.
- Eu pensei que você não viria hoje. - Por isso, ele decidiu ser honesto. As coisas seriam mais fáceis e achava que ela apreciaria.
Lily, primeiramente, foi até a mesa da sala e depositou o seu pacote de Shock-o-Choc. Depois, ela respirou fundo e se virou para ele.
- Você quem desapareceu, não eu. Então pensei que você não viria hoje!
Eles se olharam por alguns segundos e Lily deu uma leve risada, fazendo James a acompanhar. Colocando uma mecha dos cabelos ruivos atrás da orelha, Lily deu de ombros.
- Há coisas mais importantes do que o meu drama juvenil.
- Drama juvenil? - Ele perguntou sem pensar. - Eu não acho que você esteja dramatizando nada.
- Bem, aos meus olhos, se parece como um.
Respirando fundo, James foi até ela, se encostando na mesa, mas mantendo uma distância para que ela ficasse confortável com a presença dele.
- Me permite dizer algumas coisas? Você pode me parar quando quiser.
- Claro. - Ela respondeu, se recostando na mesa também e o encarando.
James criou coragem. Agora que começou a falar, não podia mais parar.
- O que aconteceu sexta...- James começou e olhou para ela, esperando se Lily iria impedi-lo de falar sobre aquilo, mas ela apenas esperou. - O que aconteceu não foi drama juvenil. Aquela explosão de magia que você soltou...você sabe, ela me atingiu. Eu não sei se isso é normal, mas eu senti o que estava carregado nela. - James viu que Lily engoliu em seco e tentou achar as palavras certas para continuar. - O que eu senti não foi drama, foi...dor. Sofrimento e tristeza. - Ela abaixou a cabeça, encarando as mãos.
- Desculpe.
- Não, não peça desculpas. O que eu estou falando não é para te criticar, pelo contrário. Eu quero que você saiba que eu vi e senti o que você está passando e não quero que você desconsidere esse sentimento. Se você tentar ignorar ou escapar disso, isso nunca irá embora e você nunca se sentirá melhor. A raiva, a negação e a tristeza profunda nunca se tornarão...saudades. Você...entende o que eu quero dizer?
Estava se sentindo um idiota. Como falar para ela não ignorar o luto pela perda de seus pais e que fingir que aquilo não aconteceu ou não aceitar os sentimentos, ela nunca iria superar?
- Um acontecimento assim te mudou e é mais do que normal isso acontecer. O que eu não desejo é que você sofra ainda mais no futuro, porque você não se deixou sentir o que deve sentir agora, quando você tem que passar por isso. - James continuou. Fechou os olhos, nervoso, sem saber se o que ele queria dizer estava sendo claro ou mesmo se estava ajudando ou piorando a situação. - O que eu quero dizer também é que eu quero te ajudar. Eu quero que, se um dia você precisar, lembre que eu estou aqui. Eu posso calar a boca e simplesmente não fazer nada, se é isso que você precisa. Basta dizer.
Ele viu que uma lágrima de Lily caiu no chão. Como ela tinha o rosto para baixo, não sabia que ela havia começado a chorar. Droga. Ele havia piorado tudo.
De repente, Lily levantou o rosto e ele notou que este estava cheio de lágrimas, mas que ela sorria. Não estava entendendo nada.
- Ontem, alguém me disse que "sozinhos, nós não somos muita coisa no mundo". Ainda sabendo que há pessoas ruins por aí, ou pessoas um pouco duras, como uma irmã desnaturada, eu acabo esquecendo de olhar em volta e ver como eu também estou rodeada de boas pessoas, pessoas que eu admiro, que eu gosto e que quero ficar por perto... - Lily suspirou e olhou para ele, profundamente. - Eu fico feliz em poder dizer que você é uma delas.
Pelas barbas de Merlin!
O seu coração iria parar naquele momento.
E sem qualquer aviso, James sentiu sua perna queimando e deu um pulo, puxando sua varinha para fora do bolso e batendo em sua calça, por onde saía fumaça agora.
- Droga! - reclamou baixinho. Idiota, claro que tinha que se passar por um imbecil na frente dela naquele momento. Claro que sua magia ainda tinha que estar descontrolada perto dela.
- Você está bem? Se queimou? - Ela perguntou, se aproximando.
- A varinha, sabe...ela deve estar quebrada ou algo assim. - Ficou sem graça, tentando controlar a dor da queimadura na perna.
- Você quer que eu dê uma olhada?
Seus olhos arregalaram com a ideia. Lily devia estar louca. Ele teria que abaixar suas calças para lhe mostrar. Ainda que suas roupas de baixo fossem limpas, diferente das do Ranhoso, não era bem assim que ele se imaginava ficando seminu na frente dela pela primeira vez.
Ele limpou a garganta mentalmente, tentando se afastar daquele pensamento estúpido. Não era o momento, estava longe de ser o momento.
- Está tudo bem. Não foi a primeira vez, então eu me acostumei.
- Talvez devesse levá-la até o Ollivanders. Tendo em vista o período que estamos vivendo, ter uma varinha que funcione bem será primordial.
- Você está absolutamente certa.
Desencostando-se da mesa, Lily foi até o meio da sala.
- Prometa que vai tomar conta disso. Senão eu terei que passar a minha vida toda colada em você para te defender e Sirius ficaria furioso.
A varinha do maroto soltou várias faíscas novamente, mas como estava virada para o chão, ele não se preocupou com isso.
- Sirius não iria se importar de ter você colada à mim. Nem eu.
Lily se limitou a sorrir para ele. Eles estavam progredindo. Nunca iria imaginar que Lily jogasse uma piada daquele feitio hoje, depois de tudo, mas não iria reclamar.
- Ontem eu me permiti ir até a biblioteca...- Ela começou, mudando de assunto.
- Ontem você se permitiu? Evans, e quantas as outras milhões de vezes que esteve plantada lá dentro? Era à força?
- Lily! - Ela disse, o fazendo parar seu caminho até ela. - Acho que já até passou da hora de me chamar de Lily, não acha?
Pela visão periférica, viu que sua varinha soltou faíscas novamente.
- Apenas se você continuar a me chamar de James.
- Eu já estava contando com isso. - A ruiva deu de ombros e sorriu.
Uma fagulha da varinha ricocheteou no chão e subiu para o teto, quase como um fogo de artifício. Ele era ridículo, se sentindo como um adolescente sem controle algum.
- Pois é, eu preciso levar essa varinha para uma inspeção. - O moreno disse, tentando disfarçar, enquanto ela o olhava, curiosa.
- Seria uma ótima ideia.
- Você dizia...?
- Ah sim...ontem eu me permiti ir na biblioteca, me aventurar pela sessão restrita, nos corredores onde podemos achar livros sobre, bem, duelos.
- Certo. Qual livro você se aventurou?
- "Duelos e suas diversificadas artimanhas"
James soltou um sorriso ao ouvir o nome do livro.
- Um livro um tanto avançado. O nome chama muita atenção, pegando o interesse muito fácil, mas ele não dá exatamente o que as pessoas procuram.
- Não, ele não dá. Ele não dá de bandeja o que fazer, ele te faz pensar e calcular estratégias. Te faz pensar como chegar na artimanha. - Lily olhou para ele de lado, enquanto andava pela sala.
- Muitas pessoas acabam parando o livro nas primeiras páginas quando percebem isso. - disse James, cruzando os braços e sorrindo, enquanto a assistia.
- Pois é. Um livro de 250 páginas que nos faz pensar. Normalmente as pessoas param de ler nas dez primeiras.
- Em qual página você parou?
- Na 250!
Ele poderia fingir surpresa, mas Lily sabia que ele sabia que ela teria ido até o fim. Na verdade, ele estava orgulhoso.
- Devo considerar a Monitora-Chefe apta a tomar meu lugar como monitora de duelos?
- De jeito nenhum, afinal, eu não treinei nada do que eu li. - A ruiva deu de ombros - Estou na espera de poder fazer.
Sabia onde aquela conversa ia dar. Tinha que dar para Lily o que ela pedia, antes que ambos ficassem loucos.
- Eu posso arranjar algo para você, caso queira. Talvez esteja na hora de colocarmos os seus conhecimentos em prática com alguém bom.
- Você? - Ela perguntou, levantando a sobrancelha.
- Não. - Lily revirou os olhos. - Se estiver livre amanhã...
- Eu estarei!
James riu. Queria entender aquele fascínio de Lily de poder duelar com alguém.
- Eu te avisarei o horário.
- Combinado.
Ok, certo. Tudo parecia estar indo bem. Bem até demais, ele pensou. Eles haviam conversado sobre uma parte do que aconteceu na sexta e, na visão de James, a parte mais importante. Porém, ainda havia uma coisa não discutida, uma explicação não dada, um pedido de desculpa não feito e ele sentia que devia a Lily tudo isso.
- Antes de começarmos...- Ele passou a mão pelos cabelos. - Eu gostaria de pedir desculpas. Deveria ter sido a primeira coisa a dizer...deveria ter sido feito na sexta-feira e nem um dia a mais.
- Desculpas pelo quê? - Lily perguntou, mas ela cruzou os braços, dando a certeza para o maroto de que sabia do que se tratava.
- Na sexta, antes de você sair da sala, quando você...
- Não foi nada. Está tudo bem. - Ela se apressou a dizer quando confirmou sobre o que era.
- Não, Eva-Lily. Eu devo, porque...
- Desculpas aceitas. Tudo está bem. - Ela se virou e foi até o meio da sala. - Está pronto? Eu quero muito saber como você conseguiu acabar com a ilusão sem me dar um susto. - Ela riu e depois parou ao se lembrar como a ilusão havia terminado: ela tentando beijá-lo.
Merda.
Lily não olhava na direção de James, então não percebeu quando ele fechou os olhos e franziu os lábios, pesaroso. Como ela parecia longe de querer discutir sobre o beijo, talvez fosse melhor não se prolongar no assunto.
- Eu me belisquei. Digo, eu fiz com que sentisse algum tipo de dor para poder me desconectar dali. Estar no controle do feitiço dá uma sensação diferente, bizarra. Eu podia sentir que meu corpo ainda estava aqui, então percebi que eu tinha que me concentrar apenas no que eu fazia lá dentro e não aqui fora, para evitar bagunçar com a ilusão em si. Mas o que eu também percebi é que poderia controlar algo aqui fora, mesmo não estando vendo. Isso fez algum sentido?
- Sim, fez. Na verdade, nós estamos desligados visualmente daqui, mas ainda podemos "sentir" o que ocorre aqui fora. Se alguém nos tocar, ou se estivermos debaixo da chuva ou algo assim, nós sentiremos. - Lily desviou o olhar, pensando. - Você achou um jeito para estar no controle do começo ao fim, ou seja, você vai se desligar da ilusão e trazer a pessoa com você, e não o contrário. Isso é bom, muito bom. Eu tenho que testar.
James abriu os braços.
- Eu estou pronto, se você estiver.
- Podemos testar algo a mais também?
- Você é quem manda, Lily. Eu estou aqui para te ajudar, então qualquer coisa que você precisar, nós faremos.
-Ótimo. Está pronto?
Com o aceno dele, Lily lançou o feitiço e ambos saíram da sala da monitoria, parando...na sala de monitoria de duelo. Exatamente onde estavam antes, sem mudar nada. James, como habitualmente, apenas viu Lily em sua frente, pronta para começar mais uma monitoria e alheio do que estava acontecendo. Lembrou que Sirius havia agendado aquela monitoria de hoje excepcionalmente para que Lily pudesse mostrar seu avanço na monitoria com Sirius quando o fizeram dormir por horas e perder todas as monitorias de duelo do dia.
- Então, eu soube que Sirius andou treinando o feitiço com você.
-James?
-Sim?
-Isso é uma ilusão!
O maroto franziu a testa e se forçou a lembrar. Eles estavam na monitoria de duelos há alguns segundos, certo? Aquele feitiço era tão louco, que te fazia esquecer do que fazia, mas sua memória parecia voltar um pouco agora que sabia que o que acontecia não era real. Olhou ao redor e de alguma forma, sabia que os objetos, se olhasse bem, ficavam disformes, um pouco fora de foco, como se não usasse os óculos ou se estivessem um pouco sujos. E sim, via que a mesa estava um pouco nebulosa, a janela com um borrão nas bordas e Lily...
Ela continuava linda e a única visão de todo aquele lugar que parecia perfeita. Bom, ela era, mas agora dizia no sentido de estar nítida, perfeitamente nítida.
- Eu a vejo perfeitamente. Você é a única coisa que eu vejo bem.
- Eu também o vejo bem. Talvez por sermos as duas únicas coisas reais aqui.
- Faz sentido.
James foi até a mesa e tentou pegar o saco de chocolates dela, mas sua mão passou reto. Tentou encostar na mesa e nada também.
Teve uma sensação estranha no ombro e olhou para trás, vendo a mão de Lily sobre ele.
- Eu não consigo sentir esse toque, não exatamente. - Ela explicou. - É como se eu colocasse a minha mão embaixo de uma torneira e tentasse pegar a água: eu sinto, mas não tenho em mãos. Isso faz sentido?
- Faz, porque é a mesma sensação que estou tendo no ombro. É leve...
- E se você não prestar muita atenção, quase não sente.
- Exato.
E era isso que queria testar, além da finalização do feitiço: quais as diferenças que James repararia sabendo que estava ali e se poderia tocá-lo. Lily tirou sua mão do ombro dele e deu um passo para trás. Se eles tivessem se beijado na ilusão de sexta, teria sido estranho, muito estranho. No final, estava grata por não ter acontecido, ou se sentiria idiota beijando James e não sentindo de verdade.
Ela tentou sentir um beijo real depois, mas que aquilo ficasse no passado. Não queria que tudo o que haviam construído acabasse por um beijo não correspondido. James virara uma pessoa importante em sua vida agora e se pudesse esquecer o que aconteceu e seguir em frente com ele ao seu lado, era isso o que faria.
Ainda não sabia o que faria sobre seus sentimentos, mas deixaria os dias ditarem. Estava cansada de tentar controlar tudo, de tentar ter tudo em mãos e, no final, descobrir que nada é gerenciável 100% do tempo, com tantas variáveis para lidar.
E aquilo apenas era fatigante ao extremo.
- Como vai nos tirar daqui? - A voz de James a acordou.
- Bem, eu vou tentar me concentrar e pensar no meu corpo fora disso tudo. - Ela disse arrumando a postura.
Não demorou nem um segundo para voltarem à sala de duelos verdadeira. James estava prestes a parabenizá-la pelo incrível sucesso, quando viu que Lily estava tonta, tentando recuperar o equilíbrio com as duas mãos espalmadas para o lado. Ele se aproximou e a segurou pelos ombros, esperando-a se recuperar. Lily fez uma careta, segurando nos antebraços de James e os apertando.
- O que foi? O que está sentindo?
- Dor, muita dor. E cansaço.
Ele a levou até a mesa, encostando-a, sem tirar suas mãos de seus ombros, já que ela não largava seus braços.
- Aquela explosão mágica esgotou sua magia. Não deveríamos ter forçado um feitiço que mexa tanto com o mental.
- Eu estava me sentindo melhor já. - Ela suspirou fundo e, parecendo melhor em seus próprios pés, soltou James. Isso fez com que ele a soltasse também, mas não se distanciando muito. - Aliás, eu não consegui nos fazer sair da ilusão como deveria. Acho que saímos apenas por eu não ter tido magia o suficiente para mantê-la e tentar sair ao mesmo tempo.
Não conseguia não sentir-se culpado. Por causa dele, ela estava assim. Por causa dele, Lily teve a sua última gota d'água e transbordou. Pegou o saco que trouxera e tirou um chocolate de dentro.
- Coma um. Deve ajudar. - Ele suspirou. - É o que Remus sempre diz, pelo menos.
- Obrigada.
Lily sorriu e aceitou o chocolate, saboreando-o.
- Me desculpe. - Ele murmurou. Tinha a impressão que poderia repetir mil vezes e Lily aceitar outras mil, mas nunca deixaria de se sentir culpado.
- James, não. Está tudo bem.
- Não está. Desculpe por não ter vindo antes també deveria ter vindo falar com você, não deveria ter me distanciado nesses dois últimos dias...mas eu pensei que você gostaria de distância de mim depois de tudo aquilo.
- Eu te chateei também, então é mais do que justo você ter tido um tempo para você.
- Me chatear? Você não me chateou. Nem um pouco. - Ele deu um passo à frente. O que a faria pensar isso? Ela pensava que tentar beijá-lo o chatearia?
Lily Evans era louca?
- Tem certeza? - Ela perguntou.
- Absoluta. Você não fez nada que me chateasse, Lily. Então tire essa ideia da cabeça, porque você está longe de me chatear. Longe.
Ela sorriu, mas um sorriso genuíno.
- Então você vai voltar para o dormitório do Monitor-Chefe?
Foi a vez de James sorrir genuinamente para ela.
- Vou. Apenas se você não quiser.
- Eu quero. Eu prefiro estar lá sabendo que você está na porta em frente da minha. Eu me sinto mais, hm, confortável. - Quase disse "segura", mas talvez o significado tenha ficado explícito na frase de qualquer jeito.
Era horrível ficar naquele dormitório sozinha, sabendo que abriria a porta e não o veria na sala deles, ou ver a porta fechada e saber que ele não estava ali dentro. Até ouvi-lo tomar banho lhe faltava nas manhãs. Dumbledore disse para manter as pessoas por perto, então James não poderia se afastar.
Ela não queria que eles se afastassem.
E ali, olhando para ele, os olhos sempre brilhantes de James, o rosto leve, porém maduro; o meio sorriso que fazia seu coração descompassar, ela soube. Soube que não tinha como desistir, que apesar de não ter sido beijada de volta, havia algo e ela não estava inventando. Talvez ele estivesse indo devagar, assim como ela, testando cada passo. O beijo não correspondido ainda rondaria seus pensamentos, mas não poderia viver sob aquela sombra.
Tentaria não controlar tudo 100% do tempo, mas não, Lily não iria desistir e esperava que ele também não.
Na segunda, Lily já se sentia melhor e quase toda recarregada. Ontem, finalizaram a aula logo depois de Lily não se sentir bem e ele a acompanhou de volta até o dormitório - onde ela dormiu tudo o que tinha que dormir, até a manhã daquele dia . As aulas se passaram um pouco como um borrão para ela, mas apenas por estar distraída com todos os acontecimentos. Agora que a dor de cabeça excruciante virara uma leve dor nas têmporas, se deu o luxo de pensar e analisar todo o acontecimento do fim de semana de um jeito mais lúcido.
Marlene e Alice fizeram questão de estarem sempre por perto, fazendo-a comer bem no café da manhã e no almoço, além de acordá-la dos devaneios de tempos em tempos quando algum professor parecia a ponto de perguntar algo para a turma.
Pareceu acordar mais para a realidade do dia quando James a interceptou no corredor, entre algumas aulas que não participavam juntos, para lhe perguntar se ela estaria livre depois do jantar para que ela "pudesse praticar com alguém bom", como haviam conversado no dia anterior, e ela não demorou para responder um alegre "sim".
Ela só não imaginava que o que o destino guardara para ela era um pouco mais do que isso e a piada só ficava melhor, já que tudo começou quando estava indo em direção à sala que deveria encontrar James.
Seus passos eram os únicos ecoando pelo corredor há alguns minutos, após ter alertado dois segundanistas da Lufa-Lufa que o toque de recolher não tardaria e que os aconselhava a não ficar zanzando tão longe da sala comunal lufana.
Mas seus passos agora tinham companhia.
Estava razoavelmente escuro, as velas e as lamparinas iluminavam os corredores o suficiente para que você não desse com a cara em uma parede ou tropeçasse. Lembrou de quando chegou em Hogwarts aos onze anos, pensava que era assustador, um pouco cena de filme de terror, e mesmo estando acostumada agora, ter passos em suas costas naquele horário não lhe dava segurança.
Lily olhou para trás, sem parar de andar e revirou os olhos. Sentia o cheiro de problema no ar.
- Monitora-Chefe Evans. - A voz dele soou jocosa. - Só Dumbledore em ter a ideia de colocar uma sangue-ruim em tal cargo.
Ela não parou e continuou o seu caminho. Estava há apenas dois corredores longe da sua sala de duelos com James. Bastava ignorar. Aquelas palavras não a machucavam, na verdade.
Claro, quando Severus as pronunciara havia machucado, mas porque...
Dane-se. Não queria pensar nisso.
Sentiu suas pernas colarem e caiu no chão, tendo sorte em colocar as mãos na frente, impedindo que a queda fosse pior. Ele havia a atacado pelas costas? Mesmo?
Tirou sua varinha do bolso e reverteu o feitiço antes que Mulciber, aquele cretino, se aproximasse. Quando viu que o sonserino estava prestes a atacá-la novamente, Lily fez um aceno e o grande vaso vazio que estava ao lado dele voou em sua direção e se quebrou, jogando o garoto no chão.
Aquilo lhe deu tempo de se levantar e se proteger de um feitiço lançado por ele, que também se levantava agora. Por alguns segundos, a grifinória e o sonserino trocaram feitiços e desviavam de ataques. Ouviu alguns quadros gritando com eles, ameaçando chamar um professor, mas nenhum dos dois parecia preocupado.
Lembrando das palavras de James e Sirius e vendo que eles não iriam progredir muito ali, Lily começou a usar tudo o que tinha à sua volta para acertar Mulciber. Ele desviou de um outro vaso, mas foi acertado pelo capacete de uma das armaduras, o fazendo vacilar. De repente, sentiu seus pés se moverem de um jeito engraçado e viu que Mulciber manuseava magicamente o tapete onde estava, a enrolando completamente nele e a girando, deixando-a perdida. Lançou um Diffindo e o tapete se rasgou em sua frente, fazendo-a se deparar com Mulciber apenas alguns centímetros de distância.
- Uma pena tanta beleza ser desperdiçada em alguém como você, Evans. Uma sangue puro com o seu rosto seria uma delícia de se provar.
Grunhindo, ela afastou os pedaços de tapete para longe e rapidamente lançou um Expelliarmus, mas ao invés de apenas arrancar a varinha de Mulciber, ele foi jogado para trás com muita violência. Os pedaços de tapete voltaram e começaram a agarrá-la mais forte, prendendo seus braços contra o seu corpo. Ela segurou bem forte sua varinha para que não caísse.
Não podia perder sua varinha de jeito nenhum, porque ela ia acabar com aquele desgraçado.
Dois corredores dali...
- Eu acho que ela não deveria usar o feitiço sozinha. Digo, é uma arma poderosa, mas se a pessoa fica exposta, então teria que ser usado estrategicamente para armadilhas, por exemplo. Ninguém iria parar durante uma batalha, com muitas pessoas em volta, e ficar exposta daquele jeito. - Remus dizia, colocando sua bolsa em cima da mesa da sala de monitoria de duelos.
- Eu concordo com você, Moony. - James assentiu. - Por isso eu preciso de vocês dois. Quando treinamos o feitiço, eu estou sendo atacado, mas não sei o que está acontecendo em volta. Então Sirius deu a ideia de ser feito de cobaia para treinar Lily, já que eu não vou duelar com ela.
- Podemos fazer um rodízio: ela ataca cada um de nós, assim os outros dois podem anotar o que acontece. Cada um reage de um jeito e ela cria ilusões diferentes. - Sirius abriu os olhos, parecendo ter uma ideia. - Espere aí. Ela consegue atacar mais de uma pessoa ao mesmo tempo com esse feitiço?
Os três marotos se olharam, curiosos. James havia tido esse mesmo pensamento antes, mas estava ainda focado em ajudá-la a desenvolver-se com uma única pessoa.
- Eu acho que se ela matrizar atacar uma pessoa, com certeza poderia atacar mais.
James foi interrompido com uma sombra na porta, chamando a atenção dos três. Eles arregalaram os olhos e mediram Lily dos pés à cabeça: seu uniforme estava torto, seus cabelos apontavam para todos os lados e ela tinha um filete de sangue escorrendo de sua boca. Ela sorria.
- O que aconteceu? - James perguntou, dando passos em sua direção, mas ainda um pouco atordoado com a imagem em sua frente. Sirius e Remus o acompanharam.
- Eu venci um duelo de verdade! - Ela respondeu, sorrindo e mostrando todos os dentes.
- O QUE? - Eles perguntaram ao mesmo tempo.
Porém, Lily não pôde ir mais longe em sua explicação. Ela olhou para o lado e se abaixou a tempo de desviar de um feixe de luz vermelha, que passou rente à sua cabeça. Ela se afastou da porta e desapareceu pelo corredor, na direção contrária do feixe.
James, Sirius e Remus correram até a porta, as varinhas em punho, mas assim que tiveram a visão de Mulciber apontando a varinha para Lily e ela apontando para ele, a ruiva fez um movimento com a mão em direção aos marotos. Os três voaram longe, de volta à sala, e a porta se fechou com um forte barulho, os trancando ali.
Em um salto e ignorando as dores do tombo, James se levantou e correu até a porta, tentando abri-la, mas não conseguiu. Ele apontou a varinha e mandou todos os feitiços que conhecia para abrir, arrombar ou quebrar e nada acontecia.
O desespero começou a tomar conta dele completamente. Sirius e Remus lançavam todos os feitiços inimagináveis, mas a porta continuava intacta.
Os três marotos pararam quando sentiram o chão tremer e, no segundo seguinte, serem lançados para cima e caírem no chão novamente, em uma espécie de terremoto.
- FILHO DA PUTA! - James gritou, levantando-se raivoso até a ultima parte da sua alma e gritou novamente contra a porta. - EU VOU TE MATAR, MULCIBER! Accio vassoura. - O moreno deu as costas e foi até a janela, a quebrando com um aceno da varinha. - Tentem abrir um buraco na parede. Eu vou dar a volta.
Ele ia matar Lily Evans também com aqueles feitiços novos. Como ele não conseguia abrir a merda de uma simples porta? Que merda de feitiço foi aquele?
A vassoura de James chegou e ele a agarrou, saindo pela janela o mais depressa possível, subindo paralelo ao castelo, passando pelas torres e dando à volta no corredor pelo lado de fora. Quando descia, viu pelas janelas alguns feixes de luz sendo lançados. Não perdeu tempo e apenas passou por uma delas, quebrando-a com a vassoura e seu corpo, sentindo os cacos de vidro atingindo seu rosto.
Mal tendo tempo de descer da vassoura, uma mão o puxou para trás e uma enorme explosão dourada atingiu um escudo em sua frente.
- O que você está fazendo, James?
Lily, raivosa, fez um bonito gesto com a varinha e depois com a sua mão. Atrás da grande flama dourada lançada pelo sonserino, uma estátua agarrou Mulciber pela nuca e a ruiva lançou um Expelliarmus, fazendo a varinha do sonserino voar longe.
Com um feitiço não verbal, Lily lançou um Flippendo Duo. Mulciber e a estátua foram lançados para trás com uma violência assustadora e caíram muitos metros distantes. A estátua novamente imóvel, assim como Mulciber.
James olhou para o sonserino desacordado e depois para Lily. Ela parecia ainda mais atingida agora do que alguns segundos atrás, na porta da sala.
- O que...? - Ele gaguejou. Olhou pelo corpo da ruiva, mas a única coisa estranha e preocupante, além do filete de sangue ainda em sua boca, era o contínuo sorriso.
- Agora eu posso dizer: eu venci um duelo de verdade.
Um buraco enorme se abriu na parede mais à frente, e Sirius e Remus saíram por ele, dando de cara com Mulciber e a estátua.
- Vocês estão bem? - Sirius perguntou para os dois.
- Sim, mas temos que ir. Tenho certeza que há algumas pessoas procurando pela causa de todo o barulho. - Lily jogou o cabelo para trás, tentando deixar o rosto livre, mas só os bagunçou ainda mais.
- A passagem mais perto agora é a passagem do Espelho! - James pegou sua vassoura. - Vamos!
- E Mulciber? - Remus os alertou. - Ele pode dizer que Lily o atacou.
- Ele nunca diria que uma sangue-ruim o apagou. - Ela respondeu, ignorando a careta dos outros três com a palavra. - Vamos!
Sirius liderou o caminho e eles correram até o Espelho. Remus o abriu e os quatro entraram, dando em uma longa escadaria.
- Onde essas escadas terminam? - Lily perguntou, se recostando na parede e olhando para além dos degraus e um longo corredor.
- Hogsmeade! - Eles responderam juntos. - Merlin, Evans, eu vou ter uma baita dor na bunda com aquele tombo. - Sirius continuou, sentando em um dos degraus bem lentamente.
- Desculpe!
- Por que você nos trancou na sala? - Remus perguntou, sentando-se ao lado de Sirius.
- Era a minha luta. Se vocês entrassem nela, tomariam o controle e eu apenas assistiria Mulciber sendo destroçado por vocês três.
- Lily?
Ela desviou os olhos dos dois marotos e se virou para trás, vendo James mais a frente, já no começo do corredor após as escadas e quase desaparecendo de vista.
- Eu acho que você está encrencada. - Sirius sorriu e piscou para ela. A ruiva revirou os olhos e desceu os degraus, indo de encontro à James.
Quando ela se aproximou, ele se desencostou da parede e continuou a andar pelo corredor, acendendo algumas poucas luminárias no caminho.
- Você está orgulhoso do seu trabalho? Eu usei tudo o que me disse: deixei as minhas emoções de lado, usei o ambiente ao meu favor, pude proteger alguém...- Ela parou de falar e fitou o teto, pensando. - Uau, eu usei quase tudo. E foi tão fácil. Digo, não estou me gabando...foi fácil duelar sabendo o que fazer.
- Merlin que me ajude...- James murmurou baixinho. - Você foi genial, Lily. Simplesmente genial. - O moreno passava as mãos pelos cabelos e pelo rosto enquanto falava. Lily franziu a testa.
- Você não parece feliz.
- Eu estou absurdamente feliz e orgulhoso do que eu vi. - Ele deixou as mãos caírem ao seu lado. - Eu estou apenas deixando a minha adrenalina e o medo assentarem.
- Medo? Medo, James? Sério? Você me dá monitoria de duelos por quase um mês, eu ganharia...
- Mulciber é um Comensal! Um maldito Comensal que também está tendo monitoria de duelos na Sonserina e, provavelmente, fora de Hogwarts também.
- Um Comensal que perdeu para uma sangue-...
- Pare de se chamar assim, por favor.
James respirou fundo, dando alguns passos pelo corredor, segurando os cabelos novamente.
- Eu não me importo com isso, James. Uma palavra não muda o que eu sou.
- Eu sei! - Ele respondeu. - Talvez por você não ter vivido no mundo mágico desde que nasceu, esta palavra não tem o mesmo peso, mas eu a odeio. E odeio quando você se chama assim.
Para evitar uma discussão idiota, ela preferiu não ir em frente. Entendia que James poderia se sentir ofendido com o uso da palavra, mesmo que não fosse dirigido a ele, então não continuou.
- Enfim...- Ela limpou a garganta. - Eu sei o que Mulciber é ou o que treina e provavelmente com quem. Em primeiro lugar: duelar com ele não foi uma escolha, sabe? Apesar de eu estar querendo duelar com alguém, eu não saí por aí caçando sonserinos comensais para brincar de lutinha. - Ela começou. - Segundo: você pensa pouco de você mesmo, pois você é melhor do que qualquer monitor de duelos desse bendito castelo. Terceiro: você deve ser melhor do que muitos comensais fora deste castelo. Então eu tinha certeza que ia vencer aquele imbecil lá atrás.
Ela terminou, cruzando os braços e, apesar de não estar brava e nem ter usado nenhum tom que indicasse isso, ela estava indignada por ele pensar pouco das aulas de monitoria. Porém, o que ela não esperava, era ver James sorrindo para ela.
- O que foi? - Ela perguntou.
- Você me surpreende, às vezes. - Ele respondeu.
- Bom, meu querido, acostume-se. - James sorriu ainda mais. - Eu sou surpreendente mesmo.
- Você está falando como uma marota, Lily.
- Obrigada!
O sorriso de James aumentou ainda mais, antes dele balançar a cabeça e voltar para a questão em si.
- O tópico para a sua aula de hoje: nunca negue ajuda. Você ter nos cortado foi muito arriscado. - Ela abriu a boca para reclamar, mas ele levantou uma mão, pedindo para que ela não o fizesse. - Me deixe terminar, depois você pode reclamar. O que eu estou querendo dizer é que você não pode deixar o seu orgulho vencer. De novo falando de emoções nos duelos...mas isso não pode acontecer de novo, Lily. Eu não digo isso sobre você ter monitoria comigo ou com uma bendita mandrágora. Isso não faz diferença em uma batalha. Bastava uma pequena distração sua, se machucar e Mulciber acabar com você.
- Distração essa que chegou voando de vassoura, vale ressaltar.
- Eu fiz isso, porque eu vi que Mulciber não estava pegando leve. Eu não iria ficar dentro daquela sala, de braços cruzados, esperando o vencedor talvez abrir a porta para mim, ia?
- Deveria! - ela resmungou.
- Não, eu não deveria. Sendo você fechando aquela porta ou ele, ou o vento, eu iria até lá de vassoura, de trem ou aparatando. Eu nunca deixaria de comprar a briga.
- Eu não preciso e nem precisava de um herói, James.
- Eu não quero ser o herói, eu quero você segura!
Os dois se encararam por alguns momentos, até James cortar o contato visual se virando de costas, abaixando a cabeça. Aquilo não era uma discussão, pois eles não estavam nervosos, mas Lily sentia que estavam um tanto eufóricos.
- Eu nunca deixaria de ir até lá. - a voz dele soou mais calma. - Eu quero...- Ele parou sua frase no meio, pegando sua varinha do bolso e a jogando longe, deslizando pelo corredor escuro com um barulho seco. Lily imaginou que ela devia tê-lo queimado de novo. Porém, ele não continuou sua frase mais. O que ele queria?
- James! - Ela chamou sua atenção, fazendo o maroto se virar para ela.
- Por favor, não me expulse assim de novo em uma situação parecida. - Não era um simples pedido. O tom dele soava como uma súplica.
- Eu não posso prometer nada. - ela respondeu, um sorriso brincando no canto de seus lábios. James acabou sorrindo com ela.
- Você é impossível!
Sem dizer mais nada, Lily lançou um accio que trouxe a varinha do maroto de volta. Ela o entregou.
- Você está machucado. - ela disse. - Você, sendo impossível que é, se cortou com os vidros.
Ele colocou a mão no rosto e percebeu que havia sangue em seus dedos.
- Isso não é nada.
- É sim. Saindo daqui, nós vamos dar um jeito nisso.
- Mas...
- Eu te escuto sobre duelos, você me escuta sobre machucados, ok?
Se dando por vencido, James sorriu e assentiu. Os dois voltaram até onde Sirius e Remus esperavam, perto da saída.
- Nós não ouvimos nada. - Sirius disse assim que eles se aproximaram e pararam dois degraus abaixo.
- Cala a boca, padfoot. - Remus murmurou.
- Talvez só um pouco... - O maroto continuou. - Você realmente soou como uma marota, aliás.
Uma cotovelada de Remus fez Sirius gemer e dizer que iria parar. Não que tenha sido uma conversa íntima, mas eles terem escutado lhe deixava com vergonha. Mas ela riu com a interação entre os dois marotos ainda sim.
- Mapa? - James perguntou.
- Sim. - Sirius respondeu e passou por eles, descendo os degraus e desaparecendo por um momento.
- Mapa? Tem um mapa naquele corredor?
- Não exatamente. - Remus respondeu. - Sirius está apenas verificando se podemos sair.
- Como?
Os dois Marotos sorriram entre si.
- Talvez poderíamos mostrá-la, não? - Remus perguntou para James.
- Acho que não faria mal. - James deu de ombros.
- Mostrar o que?
- Uma das nossas melhores ideias. - Remus respondeu.
Lily começou a se empolgar. Ela iria conhecer um segredo maroto? Outro?
- O caminho está livre. - Sirius voltou arrumando o bolso interno de suas vestes, guardando algo. - Por que está sorrindo como uma maníaca, Evans?
- Você se importa se Lily ver o Mapa? - Remus perguntou. Sirius olhou para a ruiva.
- Não vejo motivos para impedir. - Ele deu de ombros.
- Então Pettigrew é o último que deve dar o ok? - A ruiva quase pulava de um pé para o outro de excitação.
Agora ocorria uma conversa silenciosa entre os três marotos, até James responder:
- Ele não ajudou muito com o mapa, na verdade. Se ele desenhou um corredor, foi muito. Porém o nome dele está lá. - James franziu os labios, pensativo. - De qualquer maneira, será para outro dia. Temos que sair daqui e nos distanciar do massacre que você deixou no corredor.
- Eu o massacrei, não é mesmo? - A voz dela não tinha nenhum tom presunçoso, apenas orgulho.
Sirius passou um braço por cima do ombro dela enquanto os quatro saiam.
- Estou quase desistindo de treinar duelos com você, ruiva.
James sorriu ao fechar o espelho e obervar os três andando na frente, os dois amigos fazendo Lily gargalhar e vice versa. Era aquilo que ele queria: todos eles felizes e juntos.
A outra família que James queria construir.
Mastigava o pão com geleia que havia feito os elfos da cozinha se ocuparem. Aquele castelo estava ficando cada vez mais patético com aquelas refeições medíocres, obrigando-o a ter que vir até a cozinha de tempos em tempos.
Sentia falta das refeições compartilhadas com o seu Lorde durante o verão. Muita fartura, com escolhas variadas e sendo preparadas pelas melhores mãos deste mundo.
Apenas alguns meses mais e estaria fora dali.
Não entendia o motivo de ter que ficar até o final, até sua formatura. Ele já tinha sua vaga garantida como Comensal, já havia provado inúmeras vezes a sua lealdade e fidelidade para o Lorde, mas não iria contra o seu desejo.
Voldemort precisava de espiões dentro de Hogwarts e ele deveria estar contente em poder ser útil em tenra idade, mostrando que poderia ser melhor do que muitos Comensais idiotas que conhecia.
Mulciber virou no último corredor que daria para a entrada da sala comunal da Sonserina quando parou abruptamente: no final do corredor, perto do quadro, havia uma sombra parada.
Idiotas! Nem para memorizarem a porcaria de uma senha alguns daqueles alunos prestavam. Ele continuou seu caminho, se aproximando da sombra cada vez mais. Espremeu os olhos tentando reconhecer a pessoa, mas a penumbra era tanta que só podia notar a alta estatura. Quando estava há apenas alguns metros, percebeu que aquele aluno não usava o uniforme da Sonserina.
E alguns passos depois, percebeu que aquela sombra era um maldito grifinório.
Sua mão foi rápida para sua varinha, mas não rápida o suficiente. Mulciber sentiu seu corpo prender e ser jogado contra a parede magicamente. O pão que comia entalou em sua garganta e não deveria ficar surpreso ao ver o rosto sair da penumbra.
- Você foi muito covarde e muito, mas muito burro.- James Potter dizia enquanto se aproximava.
Mulciber sorriu. Já deveria esperar uma retaliação dele quando atacou sua namoradinha sangue-ruim.
- Está doído, Potter? Sua namoradinha sangue-ruim foi correndo chorar para você sobre o ataque?
- Foi você quem acabou desacordado no corredor, não? Para quem você foi chorar? Foi contar para o seu papai Comensal que você foi vencido por uma nascida trouxa depois de ter iniciado a briga? Depois de tê-la atacado pelas costas e perder? - Mulciber ainda estava preso na parede por mágica, sem soltar nem uma exclamação de revolta, enquanto Potter começou a andar na sua frente. - Eu soube que passou a noite na enfermaria, porque não conseguiam te acordar. - Quando os olhos de Mulciber se arregalaram, Potter sorriu. - Acha que pedir segredo aqui iria ajudar? Segredo de nós? Acha que eu não te procurei ontem mesmo para termos essa conversa ou achou que escaparia sem represália? - Potter se aproximou e deu duas batidinhas no rosto de Mulciber. - O que foi? Aquele sanduíche de geleia não desceu bem? Ou foram aqueles cinco que você comeu durante os quarenta e três minutos que passou sentado na cozinha, olhando para o vazio?
A raiva passava de todos os limites em Mulciber. Adoraria se soltar e acabar com aquele traidor de sangue maldito.
- Nada para comentar? - Potter perguntou. - Sem problema. Não se preocupe, eu não vim aqui para te fazer dodói. - O rosto de Potter agora perdera qualquer traço de humor e se aproximou. - Hoje eu estou aqui para te dar um pequeno aviso. Para você e para toda Hogwarts. Está pronto?
Sabia que não adiantaria responder e nem queria dar esse luxo para aquele traidor maldito, então sem esperar mais, Potter começou a fazer o que quer que tinha em mente. Enquanto não podia se mexer e não querendo dar nem um gosto para aquele grifinório que ele não perderia uma próxima oportunidade para fazê-lo desaparecer da face da terra, não teve outra alternativa se não esperar.
Ele e aquela maldita sangue ruim pagariam muito caro.
Após terminar, Potter sorriu com o resultado.
- Poderia falar algo, por favor?
- Vai se fuder, traidor de sangue.
Potter explodiu em gargalhadas, fazendo o sangue de Mulciber explodir em puro ódio, sem entender o que ele havia feito. Tentou se desvencilhar do feitiço que o prendia na parede, tentando alcançar sua varinha no bolso, mas só o deixou com mais raiva em não conseguir.
- Me solte, Potter!
Mais uma vez, ele riu.
- Eu vou. Agora eu vou. - Potter secou uma lágrima que escorreu no canto dos olhos por conta do riso e se recompôs. - Bom, eu mal posso esperar para vê-lo amanhã. Será divertido ver isso na frente de todos, mas não me faça voltar aqui, Mulciber, por mais engraçado que o resultado seja. - Potter tirou a varinha do sonserino do bolso e a manteve consigo. - Porque se eu voltar, não será uma vingança leve novamente. Considere hoje como um aviso.
- Eu deveria ficar com medo dessa ameaça sua?
Potter olhou para sua testa e deu um pequeno sorriso antes de dar de ombros.
- Sim! - O grifinório se aproximou de seu rosto e suas feições mudaram completamente e foi a primeira vez que ele pôde ver Potter tão raivoso: a risada e gargalhada de alguns segundos antes parecia um passado bem longínquo. - Porque se eu tiver que voltar aqui, não vou iniciar uma guerra. Eu vou acabar com você antes e não vou me importar se tiver que ir para Azkaban por isso.
- Veja só, tem certeza que não está do lado errado, Potter? Você parece ter o dom para um Comensal com esse discurso.
- Tenta qualquer coisa como a de ontem de novo e você vai descobrir que eu posso ser pior do que você pensa.
Potter deu as costas e pegou seu caminho pelo corredor, mas se virou novamente.
- Digo, isso se Lily Evans te deixar inteiro na próxima! - O sangue de Mulciber esquentou de raiva. - E antes que eu me esqueça: detenção, Sr. Mulciber! Por estar fora da sua sala comunal após o toque de recolher. Uma nota será enviada com o dia e horário que você deverá limpar toda a sala de troféus com uma escova de dente infantil. Aliás, eu quero todos os meus cinco troféus de Quadribol brilhando.
- Você não... você não... - Mas Potter não o deixou continuar, ainda lançando olhares para a testa do sonserino.
- Eu sim! Não poderá ir contra a decisão do Monitor-Chefe, especialmente quando ele tem testemunhas na cozinha que podem confirmar que você estava lá quando não deveria. - Potter viu quando os olhos de Mulciber pousaram na própria varinha, pensando em todos os feitiços proibidos que poderia usar naquele momento. - Ah! Sua varinha. - O grifinório acenou a mão com a dita cuja. - Boa sorte tentando encontrá-la pelo castelo. Eu bem imagino que você deva ser um lixo para feitiços sem varinha. - Sorrindo, ele se virou e guardou o objeto no bolso, enquanto assobiava e sumia pelo corredor. No segundo que desapareceu na esquina, o feitiço que segurava Mulciber acabou e ele se viu livre novamente.
James parou de assobiar alguns segundos depois. Suas mãos tremiam de raiva, mas respirou fundo algumas vezes, tentando recobrar a paz de espírito.
Mulciber teria que aprender na marra que quando ele mexia com alguém, ele iria pagar e não importava de qual casa, ano e qual sangue corria nas veias na vítima.
E seria melhor ainda se pensasse duas vezes antes de atacar Lily Evans novamente.
N/A:
Feliz Aniversário atrasado, Prongs! S2 Eu me redimi com todos os leitores depois do ultimo capitulo, inclusive com você. Foi meu presente exclusivo. Aproveite e não faça mais besteiras (mesmo eu sabendo o que vai acontecer até o fim dessa fic e que você vai arrasar, meu caro).
Resposta para review sem login:
Mah: Desculpa pelo soco no estomago do ultimo capitulo. Um pouquinho de drama ai merecido, talvez para acordar um pouco os dois :Xmas esse capitulo deu uma aliviada, nao? E nem demorou tanto :P SiriusxLily é um amor, eu amo esses dois juntos *-* Beijooos, linda.
Julie: hahahhahaha se um dia eu escrever ou levar uma historia ja escrita para fora desse mundo de fic (o que eu gostaria muito de fazer, com algumas mudanças na historia), eu vou te avisar sim LoL hahahahhaa Espero que tenha se encontrado no capitulo anterior e que esse tenha te acalmado mais :P Olha, voce quase me forçou a postar antes por medo do peso na consciencia das supostas mortes, mas ai alguns personagens começaram a reclamar e eu tive que mudar algumas coisas no capitulo e demorou mais. mas aqui estamos :P Beijoooos, linda.
Guest: voce nao colocou seu nome :( mas aqui esta mais :DDDD Beijoooos
Sneak peek do próximo capitulo:
- Começaremos com os nossos monitores. - Slughorn falava com todos e Lily decidiu começar a prestar atenção. - Os monitores vencedores terão os primeiros monitorados chamados para o campo de batalha.
(...)
- Sr. Potter! - Slughorn anunciou.
Lily se virou para James, que estava ao lado de Sirius. O maroto, com toda a sua confiança, simplesmente se afastou deles e foi em direção ao campo de duelo. Subiu as escadas laterais e se aproximou de Slughorn, que disse algo para James, fazendo o maroto sorrir e assentir.
A mão de Slughorn voltou para o chapéu e levantou o papel.
- Sr. Snape.
Claro! Óbvio que seria James contra Severus. Como Lily poderia pensar qualquer coisa além daquela? Como a vida poderia ser linda, bela e calma? Como ela ousava pensar que uma simples apresentação de duelos seria algo tão plácido e distenso?"
Até a próxima :D Beijos!
