J~L

Aulas de Poções eram sempre uma alegria para Lily. De verdade.

O fato de você criar coisas tão poderosas com suas próprias mãos, de poder salvar a vida de alguém ou tirá-la com uma simples mistura de ingredientes, era tão excitante. Não a parte de matar alguém, claro. Ela estava pensando no fato de ter um conhecimento extenso e poder criar uma fórmula que poderia mudar a vida de uma pessoa.

Era tão estimulante, que não entendia como as pessoas não gostavam daquilo.

Porém hoje, naquele fim de tarde e como sua última aula do dia, Poções estava um tédio mortal. Não sabia quantos roncos diferentes podia ouvir pela sala. Em pleno sétimo ano, eles abandonaram os balcões de preparação, voltando para suas mesas e cadeiras e encaravam o quadro cheio de blablablas sobre segurança. Aparentemente, Dumbledore estava tomando alguns cuidados após uma explosão nada leve no começo da semana com alguns quartanistas, então todos estavam tendo aquela belíssima e excelentíssima aula de cuidados, coisa que já haviam feito anos atrás.

Seu pergaminho estava em branco. Não tinha nada de interessante para anotar e quase não ouvia a voz de Slughorn na frente da sala. Marlene, ao seu lado, havia tirado um cochilo, mas após quase bater a cabeça na mesa, decidiu ficar acordada e fazer círculos e mais círculos em seu próprio pergaminho. A ruiva respirou fundo e bateu com a pena na mesa, desejando poder fazer algum barulho com a pluma apenas para irritar alguém. Os olhos verdes focavam no quadro, mas nada fazia sentido, já que não prestava atenção.

Mas algo mais chamou sua atenção e ela abaixou a cabeça para o seu pergaminho. Podia jurar que tinha visto uma espécie de brilho vindo do mesmo. Iria levantar o olhar novamente, quando viu algo se mexer.

- O que…?

Marlene se virou para ela, a ponto de perguntar se a amiga havia dito algo, mas os olhos azuis também focaram no pergaminho de Lily.

- Isso é um cervo? - Perguntou Marlene.

Um cervo desenhado entrou timidamente, com o seu altivo andar e as duas assistiam enquanto ele passeava por alguns centímetros antes de parar e se virar, como se olhassem para elas. O cervo abaixou a cabeça, em uma espécie de cumprimento, e depois começou a correr pelo papel como se estivesse na floresta. De repente, ele parou e olhou por onde havia entrado, como se houvesse alguma porta ali.

- Como você fez isso, Lilykins?

- Eu não estou fazendo nada.

Sem nenhum aviso, um cachorro também apareceu, correndo como um louco e indo até o cervo. Ele pareceu latir, ainda que não tivesse nenhum som, e o cervo levantou a pata e bateu no chão, parecendo discutir com o cachorro. Este último apenas pulou no lugar, feliz, e voltou a correr.

Lily pegou sua pena de volta e a molhou na tinta. Na frente do cachorro, ela começou a criar uma linha e o cachorro a seguiu com o focinho. A linha começou a subir e o cachorro a seguia com o rabo balançando. Pelo canto de olho, Lily viu quando Marlene molhou a própria pena e começou a interagir com o cervo: ela desenhou algumas guirlandas em seus chifres e, com surpresa, ele balançou a cabeça, fazendo as guirlandas balançarem como se tivessem ganhado vida também.

- Eu estou adorando isso! - Marlene molhou a pena novamente e pegou o fim da linha que Lily estava brincando com o cachorro e começou a puxá-la para baixo. Ele seguiu assim como fez com Lily. O cervo parecia ver o que ela fazia e começou a se mexer, mas já era tarde demais: a linha parou logo em seu lombo e o cachorro pulou em cima do cervo. Ele tentou dar uma guinada e tirar o cachorro de cima, mas não adiantou. Levando a cabeça para trás, tentou morder o cachorro, mas este apenas desviou de seu ataque.

No segundo seguinte, os dois animais começaram a brigar, mas estava claro que pegavam leve, impedindo de se machucar. Eles rolaram no chão, brincando e fazendo uma cena para elas, que sorriam e baixaram as penas, apenas assistindo os dois bichos brincarem.

Do canto do pergaminho, viram um focinho aparecendo e, assim como foi com o cachorro, todos se viraram para ele: um lobo tímido apareceu por completo fazendo o cervo e o cachorro correrem até ele. As guirlandas caíram no lobo quando o cervo se abaixou e se chacoalhou, fazendo o lobo balançar com o objeto em suas costas e o cachorro deu suaves patadas em sua cabeça, chamando-o para brincar.

- Perdeu algo, Sr. Lupin?

A voz de Slughorn chamou a atenção de todos, causando um barulho único de todos se virando para trás e vendo Remus estirado em cima da mesa que dividia com Peter, com um braço esticado entre James e Sirius, que se sentavam em sua frente, e parecendo escrever algo em um pergaminho na mesa dos dois amigos.

O maroto ficou levemente vermelho e voltou ao seu lugar.

- Apenas corrigindo uma anotação deles. Sirius e James podem ser muito obtusos.

Nenhum dos dois marotos o corrigiu, pois não podiam lutar com o fato de Remus ser mais credível do que qualquer outro maroto.

- Bem, bem, claro. Obrigado por corrigi-los. Essas informações são muito importantes.

- Meu prazer, professor Slughorn. - Remus respondeu e se ajeitou na cadeira.

O cervo, cachorro e lobo desapareceram da folha apenas confirmando o que já era óbvio: quem eram os autores.

"Espero que tenham tido algum entretenimento por alguns minutos. Mas aqui vai a boa notícia: apenas trinta segundos para a aula acabar!"

As palavras apareceram no pergaminho encantado e, apesar de Lily reconhecer a caligrafia, um "JP" elegante como uma assinatura apareceu por alguns segundos e sumiu, assim como a frase. Um sorriso bobo escapou de Lily e ela pegou o pergaminho e o enrolou, colocando dentro de sua bolsa, assim como sua pena e tinteiro, dando tempo da aula acabar e os alunos pularem de seus lugares como se as cadeiras pegassem fogo.

- Senhorita Evans, poderia esperar por um momento, por favor? - Slughorn pediu enquanto se espremia entre os alunos.

- Claro, professor.

- Eu te espero lá fora. Me nego ficar aqui por mais um segundo. - Marlene cochichou em seu ouvido e saiu quase correndo como a boa amiga que era.

- Com o que posso ajudar, professor Slughorn? - Ela perguntou quando este mesmo se aproximou.

- Eu gostaria apenas de entregar o convite para a abertura anual da Slug Party. - O professor sorria tão abertamente e ela se obrigou a fazer o mesmo. Lily gostava do professor, tendo aprendido muito com ele e criado um amor por Poções por conta de suas boas explicações e sua vontade verdadeira em passar aquele conhecimento para eles. Apesar das Slug Party serem um pouco maçantes às vezes, muitas outras eram interessantes e lhe davam acesso a grandes nomes fora de Hogwarts e isso, para uma nascida trouxa, era tão importante quanto boas notas nos NOMs e NIEMs.

- Muito obrigada.

- Terei nomes presentes que poderão ajudá-la bastante no futuro. Eu até poderia lhe dar alguns, mas prefiro guardar a surpresa. Você ficará muito feliz.

- Interessante. - Ela sorriu e aceitou o envelope elegante. - Slug Party de inauguração está ocorrendo um pouco mais tarde esse ano, não?

- Um dos convidados principais não estava disponível antes e eu quero muito sua presença, então eu adiei.

Lily deu uma olhada no convite e conferiu que era em uma semana e meia. Até lá, ela teria tempo de encomendar um vestido pela revista bruxa semanal e recebê-lo.

E, talvez, encontrar um par.

Bateu com o convite nas mãos, pensativa. Nunca viu um maroto em uma das festas ou reuniões de Slughorn, mesmo duvidando que nunca foram convidados...mas será que…

Será que ele iria?

- Bom, posso confirmar sua presença, eu assumo.

- Sim, professor.

- Ótimo. - Ele parecia verdadeiramente feliz.

- Eu poderia perguntar quem é o convidado especial? Apenas ele.

- Se prometer segredo. - Lily assentiu, concordando. - Roderick Plumpton.

Um grande ponto de interrogação surgiu em sua mente. Quem era Roderick Plumpton?

- Ok. Eu manterei segredo.

Saindo da sala, não sabia o porquê jurar guardar segredo, já que esse senhor lhe parecia desconhecido e não pretendia sair espalhando tal informação. Marlene a esperava e Lily entregou o envelope para a amiga que já estava pronta para perguntar o que o professor queria.

- Você sabe que nunca pode contar comigo para essas festas. - Marlene entregou de volta o convite.

- Sim, eu sei que eu nunca posso contar com você, Lene.

- E nem Alice.

- Eu também sei.

- Pois bem. Nós não a amamos tanto assim, porém eu penso que exista alguém para esse cargo…

A vontade de convidar James era imensa, ao mesmo tempo que sentia que o estaria levando para a morte certa. Se ele nunca foi, por que iria agora? Devia achar a Slug Party uma chatice só. Lily as achava de tempos em tempos…

- Vejo que você está pensando o mesmo que eu. - Marlene voltou a falar. - Eu acho que você deveria convidá-lo.

- Ele não me chamou para Hogsmeade.

- Vocês estavam sem se falar, Lilykins.

- Um dia antes. Nos outros dias, eu estava disponível e ele não pareceu interessado.

Marlene bufou e revirou os olhos.

- Sim, eu concordo, mas talvez ele tivesse um motivo e estivesse esperando até o último momento.

- Não temos como saber, apenas perguntando. E eu não vou perguntar.

- Eu poderia...

- E você também não vai.

Estavam chegando na torre da Grifinória, onde teriam um anúncio formal sobre a apresentação do clube de duelos do dia seguinte. Aquilo era algo que deveria preocupar-se agora e não a Slug Party em alguns tantos dias. Teria tempo para pensar melhor e, talvez, criar coragem para chamá-lo.

E esquecer que ele não a beijou de volta também.

Assim que entraram, teve um déjà-vu ao ver todos os monitorados agrupados, esperando pelas informações. Deveria imaginar o nervosismo de todos, afinal, eles iriam duelar, colocar em prática o que vinham aprendendo e ninguém queria ficar do lado perdedor.

Nem ela.

J~L

Do outro lado do salão, assim que viu Lily e Marlene entrando, James se desencostou da parede e passou a mão pelos cabelos.

- Olha isso, tá molhando tudo. - Sirius reclamou ao seu lado. James olhou para baixo, tentando entender.

- O que, onde?

- Sua baba. Fecha a boca, Prongs. Cervos não devem babar desse jeito.

Ele revirou os olhos.

- Ou não como você, pelo menos.

- Cachorros babam, todos sabem. Mas eu não faço isso no meio da sala comunal.

- Se fosse só aqui que ele babasse por ela…- Peter comentou.

James mandou os dois amigos a um lugar não muito educado e acenou para Amélia Bones, indicando que deveriam começar. Eles subiram novamente em um pequeno palco improvisado e a sala caiu em silêncio no mesmo instante. Vendo todos os monitorados do clube de duelos ali, deu a James a compreensão da responsabilidade com todos eles.

Eles, Amélia e ele, estavam treinando aqueles adolescentes para, um dia, salvarem suas próprias vidas, a de outros ou apenas para se dar bem em clube de duelos (ou começar a aquecer para aqueles que queriam seguir aquela profissão). Nunca havia parado para pensar na responsabilidade de um professor antes. Não que ele se julgasse um, claro, mas quando você passa o seu conhecimento para outra pessoa, havia um peso enorme que carregava nas costas. Como poderia ter certeza de que o que viam juntos, não iria atrapalhar a vida da pessoa?

- Potter?

James se virou para Amélia e assentiu. Não era hora para se perder na existência e possibilidade de um possível desastre. Sabia que estava dando o melhor de si.

- Boa noite. - Ele começou se direcionando para todos os alunos, tendo toda a atenção para si agora. - Senhorita Bones e eu decidimos fazer essa reunião sobre o aviso que enviamos há dois dias. - Queria tanto bocejar e se espreguiçar na frente de todos. A primeira lua cheia havia sido há três dias e sentia-se um pedaço de lixo de cansaço. Não que fosse surpresa estar cansado, mas hoje era absurdo. - Amanhã, teremos nossa apresentação inaugural de duelos. - Apesar de todos terem entendido o recado, eles ainda se remexeram em suas cadeiras. - Teremos monitorados contra monitorados, assim como monitores contra monitores. Mas não se preocupem, pois isso não será uma prova ou um teste. Apenas uma apresentação. Como escrito na nota que receberam e discutido nas monitorias dessa semana, haverão regras a serem seguidas e respeitadas, exatamente como um confronto em um clube de duelos, então não pensem que irão brigar inconsequentemente um com os outros. Respeito é um grande aliado para voces, pois a falta dele pode te fazer perder.

James passou a palavra para Amélia, pois seus olhos iriam se fechar no meio da fala caso continuasse. Ele estava menos cansado ultimamente, conseguindo gerar melhor sua agenda, dormindo mais e comendo corretamente. Mas uma lua cheia era uma lua cheia, então o cansaço era certo e impossível de escapar.

- ...e como revisamos bem nesta semana, estamos preparados. Alguma pergunta?

Braços foram ao ar e ele queria morrer. Amélia começou a responder, tendo James assentindo para dar a entender que estava participando, quando ele nem fazia ideia do que concordava. A boa notícia era que seria um anúncio rápido, já que eles haviam enviado pergaminhos mais detalhados, mas queriam acalmar alguns deles que os procuravam incessantemente pelos corredores com dúvidas.

- Jantar em uma hora e meia. Então vou dormir. - Sirius anunciou quando James voltou para o grupo.

- Eu ainda tenho que terminar o questionário de Transfiguração para amanhã. - Peter levantou alguns pergaminhos e se encaminhou para uma mesa.

- Eu vou na enfermaria, ver se Pomfrey não obrigou Moony a ficar. Não é sempre que ele tem uma recaída de dor tão de repente.

- Eu falei para ele não se esticar todo até a nossa mesa. Ele sabe que tem que ficar tranquilo nos primeiros dias depois da Lua - Sirius meneou a cabeça. - Mas quem consegue colocar algum juízo na cabeça daquele garoto?

- Bem, sabemos que você não é capaz de colocar juízo na cabeça de alguém. - James respondeu e deu uma rápida olhada pela sala comunal e avistou Lily com as amigas e Frank.

- Por que não a chama para ir com você? Eu sei que ela iria querer saber da saúde dele…- Sirius começou, rodando a mão no ar. - Naquele corredor escuro da enfermaria e tudo mais…

O maroto riu com a própria frase e começou a subir para o dormitório, deixando James com as suas próprias fantasias. Balançou a cabeça e se dirigiu até o grupo.

- James, eu precisava mesmo falar com você. - Frank o segurou pelo ombro e o puxou para perto. - As garotas estavam discutindo sobre a possibilidade de escolherem os adversários amanhã.

- Eu não acho que teremos a chance, mas não recebemos informações sobre como as duplas de duelos serão decididas.

- Droga. Será que podemos burlar o que quer que seja? - Marlene perguntou.

- Você está querendo evitar ou enfrentar alguém específico?

Marlene não respondeu e pareceu ficar sem graça. James olhou para Lily e os lábios dela formaram o nome "Fabian". Ele assentiu, compreendendo. Não sabia o motivo exato de Marlene querer evitar o ex-namorado, se por não querer atacá-lo ou o contrário.

- Eu preciso ir até a enfermaria. Você vai voltar para o dormitório? - O maroto perguntou ainda virado para a ruiva.

- Sim, ela vai. Ou talvez te acompanhar até a enfermaria. - Alice começou e empurrou Lily em sua direção.

- Alice! - Lily resmungou e depois se virou para ele. - Eu vou voltar para o dormitório. Podemos ir juntos pela metade do caminho.

Eles se despediram dos amigos e saíram da sala comunal com James tendo quase a certeza de que ouviu Marlene dizer "convide agora" em um sussurro, mas devia ter entendido errado.

- O que vai fazer na enfermaria? - Lily perguntou assim que saíram. - Você não me parece mal.

- Remus teve uma crise de dor logo depois de sairmos de Poções. - Ela arregalou os olhos e ele se apressou em acalmá-la. - Está tudo bem, pode acontecer às vezes. Pomfrey lhe dará uma poção específica para isso e depois ele ficará inteiro.

- Pode chegar assim, de repente? Ele parecia bem quase deitado na mesa de vocês, "corrigindo suas anotações". - Ela levantou uma sobrancelha de modo sarcástico e ele deu de ombros.

- Sabe como é. Para ele, a parte pedagógica é mais importante, sem conseguir se frear em nos ajudar com tamanha importância sobre o que Slughorn falava. E isso acabou causando um pouco de dor.

- De fato, esse é Remus. Eu imagino que ele não hesitaria em corrigir os amigos com algo tão sério quanto o que estava sendo discutido na aula. Aliás, sobre o que ele teve que corrigi-los?

James sorriu.

- Sobre aquela parte que Slughorn comentava...segurança e tal...algo muito importante que Remus se achou no dever de nos corrigir.

- Bom...- Lily limpou a garganta. - Podemos ver que eu não era a única a não prestar atenção.

- Você, com certeza, não era. - Eles cumprimentaram um grupo de corvinos antes de James voltar a falar. - Está nervosa com a apresentação de amanhã?

- Ansiosa. No bom e no mau sentido. Quero que passe logo para que esse nervosismo acabe e também estou louca para ter um duelo oficial.

- Não fique ansiosa no mal sentido. Você está mais do que pronta para enfrentar qualquer um deles. Até monitores.

- Até você?

Ele lhe lançou uma olhada rápida e sorriu.

- Sim.

- Você acha? - A voz dela soava empolgada.

- Acho. - Lily abriu a boca para falar algo mais, mas ele continuou. - Mas não vamos tentar.

Lily cruzou os braços.

- Por que não?

- Você viu o problema com a varinha, não viu? Eu não vou atacar ninguém no momento.

- Você terá que fazer amanhã.

- E eu vou ter que me concentrar em não botar fogo no lugar.

Ela resmungou ao seu lado e ele adorava quando fazia isso. Podia ouvir que ela reclamava ainda em voz baixa e seu sorriso só aumentava.

- Eu vou com você até a enfermaria. - Ela anunciou quando chegaram em dois corredores onde deveriam se separar e eles continuaram o caminho.

Ele não iria reclamar da companhia dela, então seguiram em silêncio por alguns corredores. James estava tendo a sensação de que Lily, várias vezes, tentou puxar um assunto, mas desistindo depois. Deu uma singela olhada de lado para ela e viu que a ruiva mexia os lábios, parecendo falar consigo. O que estava dando nela?

- Lily? - Ela deu um leve pulo no lugar.

- Sim?

- Está tudo bem?

Ela abriu e fechou a boca várias vezes antes de responder.

- Sim, claro. Por que?

- Você me parece tensa, parecendo ter algo para falar. O que aconteceu?

- Nada! - Ela sorriu e abanou a mão. - Impressão sua.

Não, não era impressão dele. Resolveu, então, puxar assunto sobre as rondas. Ele teve que mudar várias datas a partir da semana que vem por conta dos treinos intensos de Quadribol e justo quando ele tinha duas rondas com ela na mesma semana. Talvez ela estivesse brava por conta disso, pensando que ele estava tentando fugir das responsabilidades.

- Você recebeu o pergaminho sobre as mudanças das minhas rondas?

- Rondas?!

- Sim, aquela coisa que nos faz rodar pelo castelo inteiro por algumas horas. - Ela lhe enviou um olhar enviesado.

- Obrigada por me esclarecer o que é uma ronda. Sim, eu recebi. Você ficará um pouco inativo por conta dos treinos, é isso?

- Exato. Por três semanas, você quase não me verá à noite, sorte sua. - Ele riu um pouco. - Mas todo o resto da monitoria estará coberto.

- Ah!

A ruiva virou o rosto para o outro lado, deixando-o mais curioso ainda. Não parecia que Lily estava chateada com a coisa em si, mas algo que havia dito lhe pareceu despertar algo.

- Então nas próximas três semanas, você irá treinar Quadribol todas as noites?

- Sim. Se não fosse pelo batedor idiota que tenho, não precisaríamos treinar tanto. Mas se quisermos preparar nossos dois reservas para substituí-lo, não temos outra maneira.

- Treinos todas as noites então. Sem fazer nada de diferente do que isso?

- Eu prometo que não deixarei nada da monitoria pendente ou para você. - Ele tentou brincar, mas Lily continuou séria.

- Certo.

Mas que diabos? Por que ela estava agindo assim?

- Lily, qual o problema?

- Nada.

- Você está estranha. Ou estranha comigo. Eu fiz algo?

- Não, não. Não fez absolutamente nada. Apenas distraída.

Para sorte dela, eles chegaram na enfermaria e, como a porta estava aberta, eles se permitiram entrar sem bater. Pomfrey estava sentada em sua mesa, com Remus logo a sua frente.

- Monitores-Chefes. Deveriam bater na porta antes de entrar. - Pomfrey parecia levemente irritada.

- Está tudo bem. A senhorita Evans conhece a minha situação. - Remus sorriu para Lily.

- Isso não impede que tenhamos nossa relação paciente-curadora e que deve ser confidencial.

- Nos desculpe, Madame Pomfrey. Estamos errados. Podemos esperar do lado de fora.

- Não, não. Agora vocês já estão aqui e eu já examinei o senhor Lupin. Fiquem de companhia enquanto preparo a poção.

Pomfrey desapareceu por uma porta em suas costas.

- Você me parece bem. - Lily comentou enquanto observava Remus.

- Eu não estou mal, mas se eu não fizer algo sobre a dor agora, ela ficará insuportável amanhã. Estou acostumado.

- Você sabe qual tipo de poção ela faz para te ajudar? - Ela perguntou enquanto tentava espiar pela fresta da porta.

- Lily, infelizmente eu tenho que dizer que meus conhecimentos em Poções não são bons o suficiente para saber. - Ele riu. - Não faço ideia. É algo para dor nos ossos, eu imagino.

Ela virou para Remus, depois para a porta e depois para ele novamente.

- Eu vou investigar.

Bateu na porta antes e depois entrou no gabinete da curandeira. Como não houve reclamações e Lily não voltou mais, Remus imaginou que ela havia sido aceita. Se virou para o amigo e o encontrou sentado em uma das camas hospitalares, olhando pela janela.

- O que foi, Prongs?

- Eu não sei. - Remus franziu a testa. - Algo está acontecendo com Lily, mas ela não quer me falar o que é.

- Preciso de mais detalhes.

O maroto de cabelos bagunçados passou a mão pelos fios, os bagunçando mais.

- Ela está estranha. Parece incomodada com algo, ou preocupada. Eu não sei explicar, eu apenas...sei. Sei que tem algo ali, algo que ela parece querer me falar, mas desiste no último segundo.

- Acha que é pela apresentação de amanhã?

- Nah. - James estalou a língua, perdido. - Nós conversamos sobre isso e ela não parece tão nervosa ao ponto de ficar assim. Eu tenho certeza que é algo relacionado aos treinos de Quadribol todas as noites pelas próximas semanas. Eu tentei perguntar, saber se foi pelo fato de eu ter que mudar as rondas ou algo assim, mas aparentemente não é.

- Estranho. Se Lily tem problema com algo, ou com alguém, normalmente ela resolve a questão com a pessoa.

Por que ela não falava com ele? Estava quase ao ponto de pensar que as garotas eram um pouco doidas, mas ele nunca tinha se importado tanto com essas questões antes, então não queria generalizar.

Também não queria dizer que Lily era doida, mas talvez "misteriosa" demais às vezes.

- Argh, isso é tão frustrante. - James levou as mãos aos cabelos. Isso era outra coisa que vinha fazendo frequentemente. Ainda mais do que antes.

- Estar apaixonado pode frustrar algumas vezes. Você espera por algo da pessoa por fantasiar demais, mas pode não conseguir e acaba assim. - Remus apontou para James. - Por isso que eu não me apaixono.

- Não, você não se apaixona, porque é um idiota.

- Idiota com um problema peludo, vale ressaltar.

- Não começa, Remus.

A porta pela qual Lily havia seguido Pomfrey se abriu e a ruiva saiu de lá, fechando-a em suas costas. Ela tinha um sorriso enorme e uma expressão de quem havia aprontado.

- Eu consegui. - Ela sussurrou.

- Conseguiu o que? - Os dois perguntaram ao mesmo tempo.

Lily levantou um pergaminho com algumas anotações rápidas.

- A poção. Os ingredientes, como se preparar, tudo. - Ela se virou para Remus. - Eu posso preparar para você agora e você não precisa vir para a enfermaria sempre.

James se virou para Remus e viu o choque do amigo. Os olhos dele, James podia jurar, haviam marejado um pouco. Ele sorriu ao ver o amigo emocionado daquele jeito e por conta de Lily.

Aquela garota…

- Eu posso deixar em estoque já. Primeiro, eu vou preparar uma vez e testar em mim, então depois eu te dou. Não daria uma poção sem testar assim para você. - Ela tagarelava e olhava para o pergaminho, estudando-o, não notando o quão fora do eixo que Remus ficou.

- Lily! - James a chamou, fazendo-a parar de tagarelar e olhar para ele. - Acho que você quebrou Remus.

Ela se aproximou de Remus e sorriu, ainda não percebendo o quão emocionado ele estava. Talvez só alguém que tenha vivido por tantos anos no mesmo dormitório poderia notar aquela nuance em Remus Lupin, já que o amigo era bom em esconder os sentimentos quando queria.

- Não fique com essa cara. - Ela apertou o braço de Remus. - Eu juro que não vou te matar e vou testar em mim mesma antes.

Remus engoliu com dificuldade e sorriu.

- Não precisa testar em você mesma, eu confio completamente nas suas habilidades com Poções.

- Ótimo! - Ela deu três palmas, excitada. - Vou fazer hoje mesmo, talvez antes do jantar. Bom, eu nao estava planejando descer para jantar já, então...

Acenando e parecendo muito feliz consigo mesma, Lily saiu da enfermaria quase saltitando. Remus se virou para James e levantou da cadeira, se aproximando do amigo.

- Se você não casar com ela assim que sair de Hogwarts, eu vou.

James gargalhou.

- O que você acha que eu venho tentando por dois anos? - Ele olhou de volta para a janela. - E vou continuar a tentar um pouco mais.


Nunca havia preparado aquela poção antes e seria não só um ótimo aprendizado, mas uma mão na roda para Remus, sem precisar se deslocar até a enfermaria toda a vez que sentir dor. Enquanto seguia para o dormitório, não prestou atenção no caminho ou por quem passava, apenas tentando calcular se teria o suficiente para cada ingrediente, senão teria que dar uma escapada até as estufas antes do jantar.

Deu a senha para o quadro e entrou, ainda com a cara enfiada no pergaminho, mas pegou o movimento no canto da sala e sua mão já voou para a varinha.

- Calma, calma. Somos nós.

Alice e Marlene saíram de trás da poltrona com as palmas das mãos para cima, querendo impedir que Lily as atacasse.

- O que estão fazendo escondidas aqui?

- Não estávamos nos escondendo, não até você entrar. - Marlene explicou e se jogou no sofá.

- Não vejo a diferença.

- O que Lene quer dizer é que estávamos esperando por você, mas não sabíamos se voltaria sozinha ou nos braços de James, arrancando as roupas e jogando pelo lugar.

Ela abaixou o pergaminho e revirou os olhos.

- Vocês queriam falar comigo? Não acabamos de nos ver?

- Sempre bom saber que você aprecia a nossa companhia, Lilykins. - Marlene fingiu desprezo, até sua voz voltar para excitamento. - Queremos saber a que horas James vai te pegar para a Slug Party.

Lily suspirou, colocou o pergaminho dentro do bolso e se sentou com as amigas.

- Ele não pode ir na Slug Party.

- ELE RECUSOU? - Marlene gritou. Alice apenas a encarou, embasbacada.

- Não, eu não o chamei.

- Então por que você diria algo assim? - Alice perguntou. - James nunca diria não para um convite seu, Lily!

- Eu não o chamei, porque ele não está disponível.

As duas amigas se olharam, antes de se virarem para Lily novamente.

- O que diabos James Potter teria para fazer neste castelo e que não seja ir à uma festa a convite de Lily Evans?

- Quadribol! - As duas grifinórias gemeram. Até suas amigas sabiam a importância que Quadribol tinha para James. - Por conta daquele idiota do Bell, eles devem treinar muito mais pesado e, por três semanas, ele estará completamente ocupado e eu esqueci que ele havia mudado as rondas no começo da semana por conta disso. Foi minha culpa me dar esperanças.

- Olhe para mim e me diga que você crê que James não pularia uma noite de Quadribol para ir nesta festa com você. - Marlene pediu enquanto apontava para os próprios olhos. - Realmente acredita nisso?

- Eu não queria fazê-lo escolher, na verdade. - Lily abaixou a cabeça e encarou os próprios sapatos brincando com o tapete e aproveitando o silêncio que caiu entre elas.

- Você está com medo dele negar. - Disse Alice.

- Dele escolher o treino ao invés de você. - Marlene completou.

A ruiva deu de ombros, sem querer responder. O que ela poderia dizer? Aquele maldito beijo não correspondido ainda assombrava os seus pensamentos, a dor por ter sido rejeitada. Havia concordado de que não desistiria dele, mas era difícil olhar para James e ser capaz de dar um passo à frente, pois aquela lembrança de sentir os lábios dele tão estáticos nos seus...

Passou a mão pelo peito. Era tão desconfortável…

- Olhe, Lilykins, eu sei que você não esquece aquele beijo...mas Remus não conversou sobre isso com você?

- Sim, mas é difícil...eu juro que tento ser otimista, positiva...mas é mais forte do que eu.

- Não, não é. Porque você é a pessoa mais forte que conhecemos. - Alice sorriu para ela.

- Talvez não no que diz respeito a James Potter.

Marlene levantou de repente.

- Escute, você ainda tem mais de uma semana para chamá-lo. Nós não queremos pressioná-la, certo, Lice?

- Não, não queremos.

- Só queremos que você seja feliz e mesmo você não nos dizendo com todas as letras, de nunca ter vindo até nós para dizer o que sente por ele, nós sabemos o que você está guardando aí dentro. E queremos ajudar. - Marlene olhou rapidamente para Alice antes de se virar para a ruiva novamente. - Se há algo que pudermos fazer, nos diga.

Lily assentiu, agradecida do fundo de seu coração. Sabia que se pedisse qualquer coisa para as amigas relacionada a James, elas fariam sem nem pensar duas vezes, mesmo que causasse desconforto para elas.

- Obrigada, meninas. Eu informo vocês caso precise de ajuda.

- Ótimo. Acho que nossa parte está feita. - Alice levantou e se postou ao lado de Marlene. - Vamos te deixar sozinha agora para que pense um pouco sobre o assunto.

- Ou no caso: pensar um pouco mais sobre o assunto. - Marlene riu e foi até o quadro. - Como sei que está planejando jantar no seu quarto para avançar com as lições, nos veremos amanhã.

- Para o dia da nossa apresentação de duelos. - Alice gemeu.

- Nós vamos arrasar amanhã. - A voz de Marlene já estava longe, vindo do corredor que daria no quadro. - Tenha uma ótima noite, com bastante sonhos molhados com James Potter, Lilykins.

Alice riu e se despediu também, ambas as amigas saindo e deixando Lily resmungando que não podia negar ter sonhos um pouco intensos demais com James.


Nunca as sexta-feiras foram tão amadas por Lily Evans.

Claro que era um dia já amado de natureza, mas o sétimo ano conseguia fazer as coisas ainda melhores, já que não tinham aulas na parte da tarde. Aliás, foi melhor dia para cair a apresentação oficial de duelos, lhe dando tempo o suficiente para praticar um pouco no dormitório e ter tempo para acalmar os nervos. Porém, não estava adiantando fazer aquilo sozinha, então se viu obrigada a passar o restante das horas no dormitório da Grifinória com Marlene que estava tão sozinha quanto ela e, aparentemente, muito nervosa...mas não com o duelo em si.

Com raiva, o lenço foi jogado para trás e Lily deu um leve sorriso. Marlene estava há, pelo menos, dez minutos tentando decidir se colocava um lenço no pescoço, ou talvez uma presilha no cabelo ou até mesmo se mudava a cor da sombra da leve maquiagem. E Lily assistia de sua antiga cama, muda, sem interromper ou dar a entender que a acompanhava.

Achando que havia visto demais e a amiga avançado de menos, a ruiva fechou o seu livro e cruzou os braços.

- Você vê Fabian todos os dias nos corredores e nas aulas, então qual a necessidade de fazer algo diferente hoje?

Os olhos de Marlene a fuzilaram pelo espelho.

- Eu não estou fazendo isso por Fabian.

- Ah, então você finalmente partiu para o Gideon? Muito esperta. Bonito como o irmão, mas com uma personalidade diferente. Tem certeza que é uma boa estratégia?

Lily desviou de um travesseiro jogado com certa força, mas notou um pequeno sorriso na amiga.

- Você está longe nisso, Evans. Talvez…- Marlene trocou de apoio dos pés antes de continuar a passar um brilho nos lábios. - Talvez há uma pessoa se destacando ultimamente.

- Quem? - Lily se empertigou na cama, querendo se aproximar da amiga ainda na frente do espelho.

Viu quando as cores vermelhas atingiram o seu rosto. Aquilo era algo novo. Marlene sempre fora aberta sobre os caras de Hogwarts, até mesmo na época de Fabian, e estar tímida e misteriosa sobre o caso agora, era algo muito novo.

- Alguém interessante.

- Olha, eu imagino que seja alguém da monitoria de duelos, mas só espero que não seja ninguém que eu estou pensando. - Lily disse. Tudo, menos um dos três ou quatro idiotas babacas da sonserina. Severus incluso. Talvez fosse o monitor da Corvinal, o tão famoso melhor monitor de duelos de Hogwarts, segundo a monitora corvina. Ele era bonito e gentil, mas longe de ser o melhor monitor de duelo.

- Não se preocupe, Lily, porque não é James! - Marlene respondeu.

Lily levantou uma sobrancelha para a amiga. James nem havia passado por sua cabeça, na verdade.

- Eu não estava pensando nele, Marlene.

- Jura? Pensei que você pensasse nele 24h por dia.

A ruiva revirou os olhos.

- Também não penso nele 24h por dia. - "Talvez 23,5h", ela pensou consigo. Riu internamente por se achar tão boba. - Você vai me contar ou não?

- Não ainda! - Marlene sorriu pelo espelho. - Está pronta? Claro que está pronta, olhe para você, toda bela e arrumada.

Lily levantou da cama e olhou para si, onde usava calça jeans clara normal, uma camiseta verde, um leve cardigan branco e uma sapatilha. Ela não poderia estar mais normal do que aquilo.

- Eu não me arrumei para ir, eu estou com roupas normais. - Ela respondeu abrindo os braços.

- Sim, claro.

Antes de dizer algo que seu pai não concordaria, Lily puxou a amiga para irem embora antes de se atrasarem. A sala comunal tinha a maior parte dos alunos, pelo menos aqueles que não faziam monitoria de duelos, e pareciam letárgicos pelas aulas do dia e querendo jantar, ainda que faltassem quase duas horas para tal. Falando em comer, Lily tirou um chiclete do bolso e se serviu, oferecendo para Marlene quando saíram pelo quadro.

- Chicletes, Lily? Você está indo para uma sessão de amassos ou para a abertura do clube de duelos?

- Cala a boca! Eu acho desagradável falar com as pessoas e não estar com bom hálito. - E aquilo sempre foi verdade e Marlene sabia.

- Eu bem sei, mas você nunca traz o pacote junto. Você não escovou os dentes ou algo assim?

- Eu escovei os dentes antes de vir, você sabe que eu não deixaria de fazer.

- E ainda está mascando chicletes depois. Você estava com o hálito tão ruim assim ou você apenas quer ter um aroma agradável para quando falar bem pertinho com o nosso monitor?

- Você vai me falar o porquê de estar usando o seu perfume favorito, que usa apenas para Hogsmeade? - Lily retrucou, o que fez Marlene revirar os olhos e dar de ombros.

- Pelo menos eu confesso que quero estar cheirando bem para ficar perto de alguém.

Marlene recebeu uma língua de Lily. Elas conversaram frivolidades pelos corredores até chegarem na sala reservada para o pequeno evento. Lily pensava que não haveria tanta gente, já que era apenas para os envolvidos, mas se assustou quando viu muito mais pesssoas do que imaginava.

As duas grifinórias pararam na entrada da sala, olhando para aquele monte de estudantes e alguns adultos que Lily nunca tinha visto em sua vida.

- Quem são todas essas pessoas? - Marlene perguntou.

- Não faço ideia. Nós vamos ter que nos apresentar na frente de todos eles? - A voz de Lily soou um pouco nervosa.

- Merda! - Marlene respondeu.

- Meninas!

Elas se viraram para onde Alice as chamava e acenava. Ela estava com um sorridente Frank, que conversava com alguém que Lily não conhecia. Elas se aproximaram, os rostos ainda bem confusos.

- Quem são todas essas pessoas? - Marlene perguntou novamente, ainda mais nervosa.

- Slughorn pediu ao diretor Dumbledore a permissão para chamar algumas pessoas que conhecia e que são ligados a tudo isso. - Alice acenou pela sala. Lily se pegou amaldiçoando Slughorn, provavelmente pela primeira vez na vida.

- Além de duas pessoas do Ministério, mas que não sabemos quem são. - Frank entrou na conversa após se despedir da pessoa que conversava antes. - Dumbledore quer mostrar para o Ministro Minchum como as coisas estão tranquilas e controladas, apesar de nada poder sair daqui sobre o que estamos fazendo. O diretor não quer interferência do Ministério, então deve estar adotando a estratégia de atacar: convidando pessoas de confiança para mostrar o que anda acontecendo e, então, acalmar o Ministério e impedir de que venham nos controlar aleatoriamente. Ele morre de medo de ser arrancado do posto de Ministro por incompetência como aconteceu com Jenkins em 75.

- Como você sabe de tudo isso? - Marlene perguntou

- Minha mãe anda bem ocupada pelo Ministério esses tempos. Ela quer ficar por dentro de tudo e conhece muita gente influente lá dentro, inclusive o Sr. Potter. Eles têm trocado inteligência, vamos dizer assim.

- Não diga isso para ninguém. Já é o suficiente todos nós sabermos. - Alice pediu.

- Você sabe que não temos a intenção de sair espalhando por aí algo que pode ajudar. - Lily sussurrou, olhando pela sala.

Seus olhos encontraram os de Severus do outro lado da sala. Ele a encarava sem nem disfarçar e não parecia feliz. Seus olhos negros pareciam duas adagas, ao mesmo tempo que conseguia ver aquela parte dele que gostaria de voltar com a amizade deles. Sabia que a raiva dele era pelos recentes eventos em sua vida e que girava em torno de uma pessoa específica.

Mas algo que Severus nunca havia entendido em sua vida ainda, era que Lily não viveria sob suas ordens ou desejos. Ela até havia deixado, no começo, com que Severus a guiasse um pouco pelo mundo bruxo, mas ele havia sido muito ingênuo em pensar que poderia escolher e mandar em suas próprias decisões.

Além dele estar andando com malditos Comensais da Morte. Poderia ser pior do que aquilo?

- Estão prontas para se apresentarem para a plateia?

A voz de Sirius a fez desviar os olhos de Severus.

- Você não é um monitor e nem monitorado. O que está fazendo aqui? - Lily perguntou com um sorriso no rosto e, ao mesmo tempo, percebeu uma movimentaçao estranha de Marlene.

Hm. Aquilo era interessante.

- Os monitorados não são os únicos que precisam de um padrinho ou madrinha de duelo. - A voz de James veio por trás de Sirius e ele entrou no campo de visão de Lily. - Eu acredito que vocês duas se escolheram como madrinhas uma da outra? - James apontou para Lily e Marlene.

- Sim. - Marlene respondeu por Lily, que ainda fitava James em roupas normais: calça jeans, camiseta preta e uma jaqueta preta. Tudo caindo perfeitamente bem em seu corpo.

Lily adorava Quadribol.

- James, como monitor, tem que se apresentar e, bem, quem melhor do que eu mesmo para pegar o lugar dele caso ele morra? - Sirius levantou os ombros com a óbvia, para ele, alternativa.

- Desculpem por isso, mas Remus será o padrinho de Frank, então tive que trazer Sirius. - James comentou, levando um singelo tapa de Sirius. - Mas estou confiante de não morrermos hoje, de qualquer forma.

- Não acho que Dumbledore nos deixaria ir tão longe. - Alice disse. - Certo?

- Eu já tive que fazer uma detenção no meio da Floresta Proibida à noite. Você acha que algo impediria Dumbledore de nos ver duelar até a morte em uma simples apresentação? - Sirius cruzou os braços. - Eu acho que não.

Alice, Marlene e Lily arregalaram os olhos.

- Não escutem Sirius. - James abanou a mão. - Ele está apenas querendo assustar vocês.- James ria com Frank.

- Boa noite, Grifinória. - McGonagall se aproximou do grupo, sorrindo. - Sr. Potter, pegue seus monitorados e me siga. Srta. Carter, você é monitorada pela Srta. Bones, certo?

- Sim, professora McGonagall. - Alice confirmou.

- A Srta. Bones já está em posição, então venha conosco.

Todos eles seguiram a professora por entre as pessoas, até perto do local onde ocorreriam os duelos. Lily não havia visto ainda onde seria, já que a sala estava razoavelmente cheia e eles estavam perto da porta.

- Sirius Black, Marlene? - Lily sussurrou para a amiga, aproveitando que os garotos estavam mais à frente e ocupados com uma conversa entre si.

- Fique quieta, Lily.

- Merlin, ele ter sido tão atrevido sobre um convite de Hogsmeade teve efeito. - A ruiva continuou, tentando manter a voz baixa.

- Sobre o que voces estão cochichando? - Alice se intrometeu entre elas.

- Marlene se arrumou toda para ver Sirius Black hoje. - Lily respondeu ainda tentando segurar o riso.

- Podem me culpar? Ele é, de fato, lindo. E parece interessado.

- Sim, ele é, mas eu nunca te vi dando segundas olhadas para ele até hoje. - Disse Alice.

- Sempre há uma primeira vez para tudo. - A garota deu de ombros, mas sorriu enquanto lançou um olhar para o assunto da conversa. - Agora parem de falar sobre isso e me deixem concentrar em acabar com a raça de alguém hoje.

Amelia Bones já estava por ali com alguns dos seus monitorados e acenou para Alice se aproximar.

- Frank?- James o chamou. Frank se aproximou do maroto e eles começaram a conversar baixo, com Sirius ao lado. Lily olhou ao redor, lhes dando privacidade e assistia enquanto todos os outros sete monitores de duelos agrupavam os seus monitorados em diferentes cantos da arena de duelo no centro. A arena era bastante ampla, dando espaço o suficiente para qualquer um poder se movimentar com bastante liberdade e se defender ou desviar sem sair dos limites, mas Lily sentia um leve frio na barriga em pisar ali apenas para atacar alguém que queria sair bem na frente daquela plateia.

Ninguém daria o braço a torcer e se deixaria ser finalizado na frente de todos. E Lily achava que isso era pior do que eles lutarem por sua própria vida, porque no final, ali era a escola e a chacota e vergonha para muitos daqueles adolescentes era pior do que a morte.

Se virou para trás e viu James conversando com uma terceiranista, Anna Coopey. O maroto parecia estar dando as últimas palavras com todos os seus monitorados, provavelmente os encorajando, se considerasse sua postura, sua expressão e o relaxar de ombros que Lily via em Anna. Logo depois, ele chamou um quintanista, Dean Gore, e depositou uma mão nos ombros do garoto. Dean sorriu maliciosamente com o que James dizia e acenou.

- Desculpe o atraso, Frank. - Remus apareceu atrás deles, os fazendo se virar.

- Não tem problema, eu recebi o seu bilhete. - Frank sorriu e deu um tapinha em Remus. - Obrigado por vir.

- Claro, cara. - Remus se virou para Marlene e Lily e sorriu. - Hey, garotas. Prontas?

- Eu só quero que isso acabe logo. Eu estava confiante, até ver todo esse mar de gente. - Marlene gemeu e levantou as sobrancelhas quando viu James a chamar. Ela foi até ele e a Sirius.

- Você sabe que vai se sair bem, não sabe? - Remus dizia para Lily. - Teve um pequeno treino com Mulciber. - Lily riu.

- Eu não quero chegar até aquele ponto, Rem.

- Não irá. - Ele piscou para ela e afagou seu ombro. - Eu tenho certeza que todos os monitores de duelos são muito competentes, mas o seu é muito superior, além de você ser ótima.- Remus deu de ombros. - As coisas vão acabar rapidamente.

Não soube o porquê, mas aquelas palavras fizeram Lily suar de nervoso. Parecia que as coisas estavam ficando mais reais com as palavras de Remus.

- Lily?

A ruiva se virou e viu James sorrindo para ela, acenando para que ela se aproximasse. O seu estômago começou a revirar. Merlin, ela iria envergonhar James? Foi com passos nervosos até os dois marotos. O sorriso de James se fechou ao ver a expressão dela e suas sobrancelhas franziram.

- Não diga que está passando mal e precisa ir ao banheiro de nervoso! - Sirius comentou ao ver a expressão dela também. O maroto recebeu um olhar cortante de Lily.

- Não precisa ficar nervosa, é só uma apresentação. - James começou a falar, ignorando Sirius. - Você vai se sair bem, eu tenho certeza. E se não for o caso, nós vamos pegar o que não deu certo e trabalhar nisso, ok? Isso não é um teste, mas a gente pode tirar o melhor disso e usar ao nosso favor. - A expressão dela pareceu aliviar um pouco. - Lembra da primeira regra?

- Não trazer emoções para um duelo. - Ela disse, respirando fundo. James estava certo, ela tinha que se acalmar. Ficar nervosa só a faria cometer erros e os dos mais estúpidos.

- Quando você subir lá, eu quero que você se concentre na pessoa na sua frente, ok? Use tudo o que puder à sua volta, mas lá será só você e o seu oponente. Pegue a vantagem de que o duelo ocorrerá numa plataforma mais alta do que todos que estão aqui e nos esqueça, esqueça todos nós. Você começou a monitoria para que pudesse estar preparada para caso precise, certo? Na vida real, ninguém estará assistindo enquanto você luta pela sua vida e ainda se tivesse, isso não iria importar mais do que você sair viva. Aliás, ninguém estará esperando que você morra ou mate alguém hoje...por favor, não mate alguém! - Ele adicionou rapidamente e sorriu, arrancando um sorriso dela. Vendo que a ruiva se acalmou um pouco, James corrigiu sua postura curvada, a qual ele havia adotado ao vê-la nervosa. - Essa apresentação será ótima para sabermos como estamos progredindo, e não um NIEMs de duelo. Eu não acho que você esteja menos preparada que nenhum deles aqui, então agarre essa oportunidade para testar você mesma. O que você achar complicado ou caso você tenha alguma dificuldade, vamos olhar de perto juntos depois. - Lily assentiu. Ela via bem claramente o motivo da Grifinória acumular todos os troféus de Quadribol com James como capitão. - Você decidiu sobre usar o seu feitiço?

Lily passou a língua rapidamente pelos lábios e percebeu que os olhos de James, que antes estavam fixos nos dela, se desviaram para sua boca. Aquilo fez o coração dela dar uma cambalhota. Não podia se distrair, não podia.

- Eu achava que seria uma ideia divertida, mas quando eu vi toda essa gente por aqui…- Ela olhou pela sala. - Eu não acho uma boa ideia mais. Não quero que esse feitiço saia desta sala hoje pelas bocas de pessoas que eu não conheço.

James e Sirius se entreolharam.

- Ótima ideia, Evans. - Sirius assentiu.

- Vocês concordam comigo? - Ela perguntou.

- Nós havíamos pensado que usá-lo não era uma boa ideia, considerando que temos possíveis Comensais entre nós…- Os três olharam para um canto onde os sonserinos estavam antes de James continuar. - Mas eu não poderia tomar essa decisão por você. Manter isso o mais perto possível é uma boa estratégia. Eu não desejo que você tenha que batalhar contra Comensais um dia, mas se isso acontecer, você terá algo que eles não conhecem.

Eles não estavam com as ideias tão distantes um dos outros, ela poderia dizer.

- Boa noite! - A voz de Dumbledore ressoou, tomando todas as atenções e fazendo o silêncio cair pela sala. Professor Slughorn estava logo ao seu lado, sorrindo para todos. - Bem-vindos à nossa primeira apresentação do Clube de Duelos.

Os aplausos soaram por todo o lugar.

- Nós começamos uma monitoria de clube de duelos há um mês para melhorarmos nossa grade educacional…

- "Para preparar meus alunos para a guerra que ninguém parece estar conseguindo parar!" - Sirius sussurrou perto deles.

- ...e escolhemos os melhores alunos da escola, que obtém uma ótima nota em aulas como Feitiços, DCTA e Transfiguração, assim como uma magnífica performance no assunto. Todos eles foram testados e orientados de acordo com seus pontos fortes e estavam mais do que preparados para o papel. - Dumbledore sorriu e passou os olhos pelos monitores de duelos pela sala. - Acredito que os monitorados estão, assim como eu, muito felizes e satisfeitos até o momento e sei que muita progressão já foi feita desde o começo...

Lily se distraiu das palavras de Dumbledore e olhou ao redor. A maioria das pessoas ainda olhavam para o diretor, até que seus olhos pegaram quem a encarava: Mulciber estava mais do que pronto para atacá-la, ela sabia. Se Lily tivesse que duelar com ele, tinha certeza que ele não levaria aquilo como apenas uma apresentação.

Tentou não sorrir ao lembrar que o sonserino ficou vários dias sem falar. Dois dias depois daquele troglodita atacá-la no corredor , houve relatos de que quando Mulciber abria a boca para falar qualquer coisa, mesmo o mínimo suspiro que saísse por entre seus lábios, frases coloridas e brilhantes apareciam em sua testa, como: "eu amo nascidos trouxas", "queria ter caído na Lufa-Lufa", "Uma grifinória nascida trouxa chutou a minha bunda", "Não existem 'sangues-puros', parem de forçar a ideia", "Pro vida sem magia, contra Voldemort" e assim por diante. Uma pena que alguém pareceu ter descoberto um jeito de quebrar aquele feitiço, pois ela gostaria de ter presenciado uma delas.

As palmas que recomeçaram após o fim do discurso não foram o suficiente para que os olhos de Lily e Mulciber se desviassem. As pessoas se moviam ao redor, mas os olhos continuavam fixos, toda a raiva sendo expelida dos dois lados da sala. O olhar dele fez a raiva de ter sido atacada pelas costas começar a subir. Se ele quisesse ter a sua vingança ali e agora, ela estaria mais do que pronta para acabar com ele.

Usaria até o seu último suspiro para acabar com ele na frente de todos ali.

Mulciber deu um pequeno sorriso sacana para ela. Aquilo apenas a irritou mais, mas ela sorriu de volta. Os olhos do sonserino se desviaram para o lado esquerdo de Lily e o sorriso sacana fechou, fazendo a pura raiva voltar. Não precisava se virar para saber quem estava ao seu lado.

- Eu quero duelar com ele! - Ela disse baixinho.

- Eu também! - disse James. - Mas não com plateia.

- Temos o direito de escolher? - ela perguntou finalmente desviando o olhar, quando Severus se aproximou e tirou a atenção de Mulciber nela.

- Não! Slughorn irá sortear.

- Uma pena.

- Lily! - James chamou sua atenção e ela se virou para ele. - Emoções! Lembra?

Ela respirou fundo. Certo, talvez não fosse uma boa ideia duelar com Mulciber naquele dia.

Naquele dia.

- Começaremos com monitores. - Slughorn falava com todos e Lily decidiu começar a prestar atenção, enquanto todos eles se ajeitavam em volta da arena. - Os monitores vencedores terão os monitorados de sua casa chamados para o campo de batalha e o seu adversário virá sorteado entre todos os outros monitorados de todas as casas.

A primeira dupla de monitores pescada pelo chapéu era composta por uma monitora da Corvinal e da Sonserina. Não conhecia nenhuma das duas garotas, mas pela concentração de ambas, seria um começo interessante.

Slughorn conversou com as garotas por alguns segundos, ambas se reverenciaram e o professor saiu da arena, deixando-as prontas para o combate. Não demorou nem um segundo para que os feitiços começassem a voar para todos os lados. Lily não saberia dizer qual delas estava levando vantagem, apenas sentia que estava sendo duro para que alguma delas conseguisse a dianteira.

- Ah não. - Lily escutou James reclamar atrás dela. - Corvinal vai ser atingida...

No próximo feitiço, a garota foi mesmo atingida, mesmo tendo uma recuperação rápida e voltando para o combate.

- Como você sabia? - Perguntou olhando para trás rapidamente.

- Ela se perdeu com os pés. Recebeu um feitiço muito forte antes e ficou um pouco desequilibrada e isso faz com que você perca o foco o suficiente para ser atingido na próxima vez. Acontece. - Ele deu de ombros.

As garotas estavam se atacando ferozmente agora, formando um show de luzes coloridas pela arena com todos os feitiços e Lily não conseguia tirar os olhos, tentando aprender uma coisa ou outra, mas era impossível.

- Droga, ela vai perder. - Sirius murmurou ao lado de James.

- Vai. - James confirmou.

Lily continuava a olhar para ambas com muita atenção em seus passos, seus trejeitos, a maneira como seus corpos se moviam, tentando ver o que eles viam. Mas se sentia cega.

- Vai ser agora. - Sirius disse novamente.

- Em um ou dois feitiços. - Comentou James.

E, de fato, a garota corvina perdeu sua varinha poucos segundos depois. Houve uma onda de descontentamento ao redor deles, que estavam em um grande grupo grifinório.

- Droga, era para ela ter levado essa. - A reclamação de James trazia toda a frustração junto.

- Apesar de tudo, foi um duelo justo, limpo e digno. Rápido, mas muito bom. - Remus também entrou na conversa.

Eles assistiam Slughorn conversar rapidamente com as garotas antes de acompanhá-las até as escadas para descerem da arena e pegar novamente o seu chapéu para o sorteio.

- Talvez as coisas não sejam tão ruins assim. Foi um duelo legal de assistir. - Marlene comentou do seu lado direito.

- Eu não vou me apegar a esta falsa segurança. - Alice dizia do outro lado de Lily.

Lily não disse nada, apenas tentando seguir os passos do professor de Poções que levava o seu tempo para pegar o chapéu e conversar com alguns convidados ali por perto. Ouvia a conversa entre as amigas e um pouco dos garotos logo atrás, mas estava tentando se manter calma. Não queria se perder nos pés, como aconteceu com a corvina e acabar perdendo por isso.

O professor finalmente voltou à arena com o chapéu e limpou a garganta, tendo a atenção para si novamente.

- Com a Sonserina vencedora neste primeiro duelo, eu irei sortear um monitorado da casa agora. - Ele parecia muito animado com a vitória da monitora de sua casa e mexia no chapéu com muito vigor. - Antonin Dolohov! - Slughorn chamou após tirar o pequeno pergaminho.

Dolohov sorriu como o psicopata que era e foi até o professor de Poções, sendo cumprimentado pelo mesmo.

- Babaca! - James ouviu Sirius murmurar ao seu lado.

- Acho que somos todos da mesma opinião. - Remus respondeu.

- Esse idiota é bom. Espero que pegue alguém para dar uma surra nele. - Frank comentou com toda a antipatia pelo garoto.

James viu quando Lily, Marlene e Alice, as três à sua frente, assentiram e pareciam comentar algo entre elas. A voz de Slughorn foi quem interrompeu a conversa das grifinórias:

- Lily Evans!

Seu coração parou. Lily não pareceu se abalar, já se distanciando deles e indo até as pequenas escadas que a levariam até Slughorn e Dolohov. O sonserino a fitava como se fosse comida e ele estivesse faminto.

- Prongs?! - Sirius o chamou ao seu lado.

- É, eu sei. Merda! - James respondeu. Não poderia não pensar no que já havia feito contra aquele pedaço de merda antes e, mais recentemente, na detenção que deveria ter sido supervisionada por Lily e que acabou sendo feita por eles. E James não havia pegado leve com nenhum deles.

Lily era uma nascida trouxa que iria duelar com um dos mais loucos seguidores de Voldemort. Dolohov era doente e se ele somasse o que James já havia feito com ele e com o fato de Lily não ser o que ele defendia…

Engoliu em seco e puxou a gola da camiseta como se o sufocasse.

- Ela derrotou Mulciber. - Remus os lembrou. - Ambos estão indo pelo mesmo caminho de Comensais, mas ela é boa.

Sim, ela era ótima, forte e sabia como duelar. Ele mesmo esteve na mira dela e pôde comprovar que Lily Evans era absurdamente boa, mas isso não o impedia de sentir tudo aquilo. Poderia apostar que ela venceria, mas a que custo?

O que Dolohov poderia fazer para machucá-la no meio do caminho?

- Eu sei que ela é boa. - James tentava se acalmar. - Mas ter um comensal pronto para atacar a garota que...atacar uma das minhas monitoradas, não é uma sensação muito boa.

Sirius e Remus se entreolharam e riram pela correção que James fez em sua frase. Como se ele não tivesse cansado o ouvido dos marotos por anos dizendo que era apaixonado por ela.

Já Lily, apesar do rosto confiante, estava puro nervos enquanto se dirigia para o seu lugar. Não pelo seu adversário, mas por ser sua vez. Dolohov era apenas uma parte inconveniente de tudo aquilo. Enquanto andava pela arena de duelo até o professor e Dolohov, ela se forçou a não olhar para ninguém em volta. Não podia perder a confiança e, claro, deixar as emoções tomarem conta dela.

- Está pronta, querida? - Slughorn perguntou com um sorriso.

- Com certeza! - Ela respondeu sem hesitar.

- Sr. Dolohov, podemos começar? - O professor se virou para o sonserino.

- Mal posso esperar.

- Eu devo repassar as regras: agressões físicas estão proibidas… - Toda a regra que Slughorn ditava parecia ser lançada aos ventos, já que Lily e Dolohov pareciam achar melhor se perderem na raiva e nos olhares ferozes entre si. - ...seus padrinhos e madrinhas. Entendido?

- Sim! - Ambos responderam ao mesmo tempo.

- Ótimo! Por favor, cumprimentem...

Lily deu as costas aos dois e se afastou, indo para a sua posição. Apenas nos sonhos de Horace Slughorn que ela iria fazer qualquer reverência para aquele idiota. Quando ela se virou novamente, a varinha em mãos, viu que o professor descia do campo de duelo com uma ruga enorme em sua testa e que Dolohov estava se posicionando.

- Vamos lá, Lily garota. Você vai acabar com ele! - ela repetiu baixinho para si mesma.

Não sabia se havia alguma mágica silenciando o campo ou se todos realmente estavam quietos, mas aquilo parecia ajudar e atrapalhar ao mesmo tempo. Estava esperando aquela cena clássica de algo leve caindo ao fundo para provar sua teoria e deixá-la mais nervosa ainda, mas o ataque de Dolohov veio primeiro.

Não soube dizer qual feitiço havia sido lançado, mas foi fácil se defender. Ele sorriu para ela e Lily soube que ele estava só aquecendo. Ele começou a andar para o lado, o que lembrou o seu duelo com Sirius, usando a estratégia de fazê-la focar nele, mas acabar não prestando atenção por onde ia, então aguçou sua visão periférica e manteve os olhos nele. Não sabia dizer como, mas ela sentia que ele iria atacá-la, então ela o atacou primeiro lançando um Repulso, o pegando de surpresa. Dolohov teve que se jogar para o lado, se apoiar com uma das mãos no chão para não cair e se recompor rapidamente. Lily poderia tê-lo atacado naquela hora, mas não iria vencer aquele duelo com um adversário meio caído.

Ela ia acabar com ele em pé.

Dolohov viu que, talvez, brincar não levaria a nada e então lançou um feitiço mais forte, fazendo Lily se proteger novamente. Ele lançou outro e um terceiro logo em seguida e Lily o atacou logo depois.

Eles pararam e se encararam. Dolohov sorria novamente, parecendo gostar do embate.

- Venha para perto, pequena sangue-ruim. - Ele dizia enquanto se aproximava, dando pequenos passos. Lily sabia que a frase era baixa o suficiente para apenas ela ouvir. Na verdade, ela não sabia se qualquer um poderia ouvir o que diziam, já que ela mesma não escutou nada do outro duelo, além dos feitiços.

- Feitiços lançados de longe não são o seu forte, querido? O que prefere então?

- Prefiro você no meu prato, em um espeto, pronta para ser devorada.

Algo em sua mente a fez acordar: Dolohov estava tentando distraí-la. Não poderia cair naquela estratégia também.

- Você é tão entediante de se duelar. Até Mulciber foi mais emocionante. - Disse Lily com um sorriso travesso.

- Eu vou garantir que não sairá dessa arena inteira.

- Então está na hora de agir, não? Vem pegar o que você tanto quer, querido.

Lily começou a jogar feitiços depois de feitiços, todos eles sendo defendidos ou desviados. Dolohov parecia ocupado em apenas se defender. Ela apontou para o chão, fazendo-o tremer e desequilibrar o sonserino, mas não forte o suficiente para fazê-lo cair. Em um contragolpe, Lily acabou sendo acertada por um feitiço que a fez deslizar por alguns metros pela arena, mas nada que a desestabilizou o suficiente, podendo se defender da luz roxa que passou raspando pelo seu rosto logo depois.

Aquele havia sido muito perto e, idiota que era, deixou aquilo lhe distrair e foi pega de surpresa por cordas lhe agarrando e apertando. Não, não. Pense rápido, Lily. Pense rápido. Viu que Dolohov estava pronto para desarmá-la - ou pior, quem sabe - e acabar com o duelo. Agindo por um impulso vindo sabe-se lá de onde, ela se jogou no chão, escapando por um triz novamente do feitiço dele. Assim que suas costas atingiram o chão da arena, ela lançou um Incendium, sentindo o calor sair da varinha e desatá-la no segundo que ele lançou outro feitiço. Lily rolou para o lado, desviando a tempo e, ainda caída, ela lançou Carpe Retractum e uma corda de luz flexível agarrou Dolohov e com toda a força que teve, ela o puxou em sua direção, fazendo o sonserino cair de joelhos em sua frente. Com o pé, ela chutou a varinha dele de sua mão, tomando muito cuidado para não tocá-lo e evitar qualquer denúncia de agressão física. Os olhos dele se arregalaram com a reviravolta.

Ela ainda segurava a corda, com meio tronco levantado, enquanto Dolohov, ainda de joelhos, parecia não entender o que havia acontecido.

- Que bom que um de nós dois conseguiu o que queria: eu não estou no espeto, pronta para ser devorada. - Levantando-se e mantendo-o de joelhos em seus pés, ela continuou. - Mas você...ah, você está exatamente onde eu te queria.

Sorrindo, ela se virou para Slughorn que subia na arena e anunciava o fim do duelo, dando Lily como vencedora.

- Muito bem, Lily, muito bem. - Slughorn batia palmas e olhava desconcertado para Dolohov que se levantava e ia até a sua varinha, espumando de raiva.

Agora ela ouvia que as outras pessoas da sala também aplaudiam. Ouvia alguns assobios altos e tinha certeza que vinha de seus amigos.

- Obrigada, professor.

- Eu tenho pessoas muito importantes para lhe apresentar, caso tenha interesse. Você tem um talento nato. - ele respondeu.

Lily sorriu, realmente orgulhosa, e dirigiu até as escadas e seu olhar cruzou o de Severus e Mulciber ao seu lado. Antes de descer, ela parou para aproveitar para destilar todo o veneno que parecia escorrer de sua boca naquele momento.

- Na próxima vez, eu posso tentar apenas fazer o mesmo com você, ao invés de te deixar desacordado no corredor e ser enviado para a enfermaria. - A ruiva piscou para Mulciber e desceu as escadas.

Mal teve tempo de descer o último degrau e foi pega em um apertado abraço.

- Você é a minha mais nova heroína! - Sirius dizia enquanto rodava com ela nos braços.

- Me deixe abraçá-la, Black. Dá licença, solte a minha amiga.

Marlene a arrancou de Sirius e a abraçou, enquanto pulava ao mesmo tempo. Alice se juntou a elas e Lily teve que se conter para não comemorar como as malucas de suas amigas, já que ainda estava na frente de muitas pessoas e muitas delas desconhecidas.

Ao ser solta, finalmente, ela se deparou com aqueles olhos cheios de uma emoção que ela não poderia nomear, mas esperava muito que fosse orgulho. James abaixou em sua frente, reverenciando-se e pegou sua mão, a beijando. O lugar onde os lábios dele tocaram parecia pegar fogo e Lily não poderia dizer o quanto queria que eles tocassem nos seus, ao invés. Mas evitando fazer uma cena, ela riu, assim como ele.

- Você foi melhor do que eu poderia sequer imaginar. Parabéns, senhorita Lily Evans.

- O senhor poderia agradecer também quem me ensinou a duelar tão bem. Ele deve estar por aqui em algum lugar.

- O seu monitor pode ter te guiado, mas nunca deu o poder que usou ali em cima. A glória é toda sua.

Mas que inferno. Por que eles tinham que estar na frente de tanta gente? Ela queria agarrar James Potter naquele exato momento e sentir aquela doçura toda na base do beijo. Não demorou muito para eles serem trazidos de volta para a vida real, com o próximo duelo começando e ela recebendo parabéns do resto do grupo.

Assim ficaram por duas horas. Cada duelo, contrariamente ao que poderia ser, agitava a plateia cada vez mais, fazendo o grupo grifinório se divertir, gritar, torcer e vaiar como se tivessem em um jogo de Quadribol. Assistiu Marlene massacrar um lufano em menos de um minuto e ter a Grifinória gritando pelo seu nome; puderam comemorar a vitória de Alice contra um corvino que, aparentemente, ficou muito nervoso com a derrota e discutiu com Slughorn, não aceitando e finalmente viram Frank acabar com uma sonserina como se estivesse duelando com uma criança.

Há muito tempo que Lily não se divertia tanto daquele jeito com todas as pessoas que adorava, os únicos capazes de lhe fazer esquecer que ali fora havia uma guerra estourando ou até mesmo que sua irmã provavelmente estaria lhe escrevendo uma outra carta de mil páginas, frente e verso, dizendo o quanto a repudiava.

Não, aquele momento era dela e da sua felicidade. E iria aproveitá-lo o máximo que podia.

- Não devem faltar muitos. Todos os seus monitorados já foram, Potter? - Amélia Bones se aproximou deles.

- Sim. Os seus?

- Sim e eu também. Você ainda não foi chamado, mas não deve demorar.

- Eu não me importo se acabar não indo. - Ele deu de ombros. - O melhor eu já tive com todos eles. - O maroto apontou com a cabeça para trás, onde os monitorados da Grifinória estavam juntos. Todos eles vitoriosos.

- Ele não está falando como McGonagall? Isso não é bizarro? - Marlene comentou para Lily e Alice.

- Eu te ouvi, McKinnon.

Marlene deu de ombros, mas pressionou os lábios como se estivesse evitando falar algo mais.

- Sr. Potter! - Slughorn anunciou do alto da arena, parecendo ter ouvido a conversa deles.

Lily se virou para James, que estava ao lado de Sirius. O maroto, com toda a sua confiança, simplesmente se afastou deles e foi em direção à arena. Subiu as escadas laterais e se aproximou de Slughorn, que disse algo para James, fazendo o maroto sorrir e assentir.

A mão de Slughorn voltou para o chapéu e levantou o papel.

- Sr. Snape.

Claro! Óbvio que seria James contra Severus. Como Lily poderia pensar qualquer coisa além daquela? Como a vida poderia ser linda, bela e calma? Como ela ousava pensar que uma simples apresentação de duelos seria algo tão plácido e distenso?

- Isso vai ser divertido. - Disse Sirius esfregando as mãos.

- Eu acho que vai dar merda. - Marlene retrucou.

- Para o Ranhoso. - Sirius respondeu.

Lily não ousou entrar naquela discussão, pois estava ocupada demais tentando não quebrar de tão tensa que ficou.

Todos assistiram quando Severus subiu no campo pelo outro lado e foi até Slughorn. O professor parecia dar as regras para os dois enquanto tinha as mãos pousadas no ombro de ambos. Slughorn se afastou, descendo, e deixando James e Severus como os únicos na plataforma de duelos. Lily podia sentir a tensão de seu lugar, sabendo que aquilo não daria boa coisa, mas não mesmo. Havia muita rivalidade e raiva ali e sabia que eles não deixariam de lado.

Queria apenas gritar para James se lembrar da primeira regra do duelo.

O desespero cresceu ainda mais em Lily quando eles se afastaram sem se reverenciar, nem mesmo um milímetro.

- Deveria ter pipoca para a plateia. - Sirius comentou enquanto sorria com prazer em ver a cena.

- Cala a boca, Padfoot! - Remus murmurou.

Os dois ficaram em posição. Severus parecia o mais dramático com as pernas levemente flexionadas. Aquilo lembrou Lily de esgrima, na verdade. James apenas estava parado, uma das mãos para trás, enquanto a outra que tinha a varinha estava caída ao lado de seu corpo. Eles se encaravam, parecendo se comunicar com o olhar, enviando toda a raiva e desgosto pelo outro.

Severus atacou primeiro. Foi um bote rápido e que não pegou James de surpresa, já que ele facilmente defendeu. O sonserino não se abateu e atacou novamente, sendo repelido rápido como anteriormente.

- Por que ele não está atacando? - Lily perguntou alto.

- James está estudando a estratégia do Ranhoso. - Sirius respondeu sem tirar os olhos da plataforma. - Isso também cansa e utiliza toda a criatividade do adversário já no começo.

- Então ele quer que Severus se canse para ficar mais fácil?

- É do meu amigo que você está falando, Evans! Como ousa? James não quer isso. Ele vai atacar logo...

Depois de se defender de um quarto feitiço, James lançou o seu. Severus defendeu, mas arregalou os olhos com surpresa.

Calmaria novamente. Num rompante, dois feitiços foram lançados ao mesmo tempo de ambos os lados e não pararam aí: nos próximos segundos, James e Severus atacaram sem pausa um ao outro, ao mesmo tempo que se defendiam. Lily agarrou um braço ao seu lado, que perceberia mais tarde ser de Remus, completamente tensa.

James se abaixou levemente para desviar e lançou um feixe de luz amarelo em Severus que o fez cair. Severus se levantou rapidamente, o rosto vermelho, e se defendeu de outra onda de feitiços de James, mas dessa vez ele não conseguia revidar, tendo que apenas se defender. Quando percebeu que um dos feitiços iria passar, o sonserino criou um escudo em sua frente. James seus ataques e riu.

- Ele é tão covarde. – Sirius murmurou alto o suficiente para Lily ouvir.

- Conjurar um escudo para se salvar é covarde ? – Ela perguntou, cética.

- Quando você precisa salvar sua vida, não. Mas em um duelo bobo como esse na escola ? Vamos lá, é ridículo. James não está tentando matá-lo…ou não com tanto afinco para isso.

Ainda esperando por Snape, James não lançou nem um feitiço mais. Os dois garotos se encaravam e, mais uma vez, ela queria gritar para James não esquecer que deveria deixar de lado suas emoções…porque naquele momento, era palpável o ódio de ambos.

O escudo se desmaterializou, mas eles continuaram imóveis por alguns segundos, até James começar a andar e se aproximar cada vez mais de Snape. O coração de Lily batia tão descontroladamente que seu peito doía.

- Não, não. Pare. O que você está fazendo ? – Ela sussurrou enquanto apertava mais o braço de Remus.

- Estratégia, Lily. Ele vai desestabilizar o Ranhoso. - Remus, que parecia não se importar ou não querer choramingar pelo braço, comentou.

- Isso não vai dar certo.

- Vai, vai dar muito certo. – O orgulho na voz de Sirius era nítido. – James vai fazer o Ranhoso vir com tudo o que ele tem, eu tenho certeza.

James parou a menos de dois metros de distância, mas quem falou primeiro foi Severus. Nem uma palavra foi ouvida, mas parecia não ser preciso para sentir todo o desprezo dali. James respondeu com poucas palavras e pareceu desestruturar Severus completamente. O maroto voltou a falar e os olhos escuros do sonserino voltaram para a platéia, procurando…até seus olhos se encontrarem. Severus entortou a boca e disse algo para James, os olhos ainda nela. O maroto riu e começou a se afastar, sem dar as costas para o sonserino, e ela teve a impressão de ler nos lábios de James « Tente ganhar pelo menos o duelo, Ranhoso ».

Severus o atacou rápido e James quase não conseguiu esquivar, mas ele parecia contente com o ataque e manteve a varinha virada para o chão, dizendo algo mais para Severus.

- Ficar com a varinha pra baixo é sinal de desrespeito pelo adversário. – Sirius explicou. - Como se você quisesse mostrar que te acha tão lixo, que ele não precisa nem se defender com magia.

- Como no pugilismo. Quando o adversário não fica com a guarda alta…- Ela parou de falar quando Severus mandou outro feitiço e James mal se mexeu. Percebeu que o sonserino não queria acertá-lo, mas talvez tentar arrancar uma reação do maroto. – Eu pensei que duelos eram mais respeitosos do que isso.

- Normalmente são. Mas o que estamos vendo não é muito lá um duelo que deveríamos ver em um clube de duelos e sim mais em uma briga de rua.

James atacou desta vez e Severus desviou, e os ataques recomeçaram, ainda rápidos, ágeis, assim como as defesas.

Por um descuido, Severus foi acertado e lançado pelo ar, caindo a alguns metros de distância. E por descuido de James em não levar a sério o tombo do adversário, o maroto recebeu um feitiço de volta e a plateia viu o jorro de sangue escapando de seu braço. James olhou rapidamente para o ferimento enquanto Severus se levantava.

- Agora vai dar merda. – A voz de Remus veio de suas costas.

A sucessão de ataques no segundo seguinte foram tão confusos, rápidos e cheios de elementos voando, que Lily conseguiu se perder e sem conseguir ver nenhum dos dois mais.

- Temos que pará-los. – A frase escapou de sua boca.

- Não, temos que esperar até o fim. – Sirius respondeu com os olhos vidrados na cena. – Droga, eu não estou conseguindo ver nada.

- Ninguém está. – Frank disse de sua posição e tentando ver entre a fumaça e a poeira na arena de duelos.

As únicas coisas que ainda podiam ver eram os raios de diferentes cores voando de ambos os lados. E de repente, tudo parou : era ainda impossível ver qualquer coisa na arena de duelo, mas os raios e os feitiços haviam parado por completo.

Lily iria matar alguém naquele dia : ou seria Severus caso tivesse machucado James, James caso tivesse matado Severus ou Remus de tanto apertá-lo de nervosismo.

- Será que eu tenho que ir lá e tomar meu lugar como o segundo de James ?

- Sirius ! – Remus rosnou para o amigo.

- Eu adoraria uma oportunidade de acabar com…- Sirius parou de falar e olhou para o lado, onde Lily estava agarrada à Remus como um polvo. - ...com essa briga. - Ele se corrigiu.

A fumaça e a poeira começaram a se dissipar rapidamente e eles tiveram a visão de ambos os duelistas novamente. Lily não poderia dizer o que aconteceu enquanto ninguém podia vê-los, mas ambos haviam sido atingidos fortemente: Severus tinha o nariz e a boca sangrando, enquanto James mancava levemente da perna direita. Os dois se encararam por alguns segundos antes de se atacarem novamente, cada um desviando do feitiço que vinha em sua direção.

Eles estavam, claramente, cansados e com dores, mas nenhum deles iria desistir. James perdeu o equilíbrio quando desviou de um ataque de Severus, provavelmente por conta da perna dolorida e ,enquanto caía, lançou um feitiço que atingiu Severus em cheio, o ejetando para longe. Os dois se levantaram o mais rápido possível que podiam e tentaram se firmar antes de voltarem aos ataques.

Como ela queria que aquilo acabasse agora, naquele exato segundo, sem vencedor e perdedor. Mas ela conhecia os dois e sabia que sairiam daquela arena até um sair derrotado e, de preferência, da pior maneira possível. Apenas pelo fato de não ouvir nenhum comentário de seus amigos, sentindo o quanto todos estavam tensos em sua volta, lhe deixava ainda mais nervosa.

Uma luz forte veio de um feitiço lançado por Severus e Lily, assim como todos os outros à volta, tiveram que proteger os olhos por dois segundos. Quando os abriu, ficou surpresa em ver que, ao invés de encontrar James em alguma situação horrível que ela não gostaria de ver, era Severus quem estava pendurado pelas pernas, de cabeça para baixo.

Exatamente como havia acontecido no quinto ano, após os NOMs. Que déjà vu horrível que lhe atingiu daquele dia, daquele embate entre os dois...

Mancando mais do que antes, James se aproximou de Severus, um sorriso satisfeito brilhando em seu rosto. O maroto começou a dizer algo para o sonserino, que parecia petrificado magicamente já que ainda tinha a varinha em mãos, mas não reagia. Apenas os olhos negros de Severus respondiam ao que James falava: eles se estreitaram e pareciam querer matar James com a força do olhar.

- Saia, James. Apenas saia…- Ela começou a dizer como uma reza, querendo apenas que ele deixasse a rivalidade de lado e declarasse fim ao duelo.

- Acaba com ele, James. Finaliza. - Sirius disse ao seu lado e levou um beliscão dela, fazendo-o rir.

Com uma raiva controlada, James arrancou a varinha de Severus e a jogou para trás sem nem olhar onde caia, abaixando-se para ficar cara a cara com o sonserino e dizendo suas últimas palavras, antes de se virar, ignorar completamente Slughorn que subia para parabenizá-lo e descer a arena de duelos sem falar com ninguém.

- Você ganhou, ruiva. - Sirius resmungou ao seu lado. Ela sorriu, orgulhosa. Tão orgulhosa, que poderia soltar fogos de artifício e explodir uma champagne.

- Não. James ganhou!

Eles viram quando James se aproximava, mas Lily percebeu que não sabia se era o melhor momento de estar no meio de seu caminho: ele parecia a ponto de duelar com qualquer pessoa que estava na sua frente e, infelizmente, aquela pessoa era ela.

O maroto parou e olhou para os amigos, mas voltou-se para seus monitorados por alguns instantes.

- Então fica a lição para vocês: não tentem usar uma magia mais forte do que você ou você pode acabar perdendo um duelo.

E do jeito que chegou ali, ele saiu da sala: a perna direita puxando-o para o lado por conta da dor e a expressão de fúria bem pousada em seu rosto.

J~L

Raramente sentia-se furioso daquele jeito, especialmente quando ele tinha ganhado, mas agora era quase um show de pura cólera, um jogo de Quadribol da Copa do Mundo de ódio. O que havia dado nele? Snape era apenas um idiota que não deveria significar muito mais na sua vida, apesar dele mesmo não ajudar na causa. Aquele imbecil!

Mas aquilo era muito mais forte do que ele. Quando foi chamado, ele apenas focou no fato de que queria ganhar. Que tinha que ganhar, não importando quem estivesse na sua frente. Porém, foi o suficiente ver aquele rosto patético lhe encarando de volta para que toda a emoção que ele não deveria sentir, viesse à tona. Foi errado, muito errado. O duelo não deveria ter se passado daquele jeito, ele não deveria ter dado aquele exemplo para os alunos da monitoria e...ele não queria ter dado aquele exemplo para Lily.

Tinha que se retratar. Não com Snape, mas com os monitorados. Deveria pegar a responsabilidade que tinha com aqueles alunos e deixar claro que o que fizera era fora dos padrões. Porque não era sempre que alguém conseguia atingir os seus nervos, como Severus Snape fez, durante um duelo. E isso era o que o irritava mais. Justo James, que cansava de repetir para qualquer um que não deveria ser afetado pelas emoções/sentimentos durante um duelo, se deixou levar. Por Snape!

Por ela!

Não, não era culpa de Lily se ele agiu como um idiota. Não colocaria aquela responsabilidade em seus ombros, pois ela mesma não pediu para que nada daquilo acontecesse, pelo contrário. Era tudo culpa dele e apenas dele. Nem sentia vontade de culpar Snape também, pois ele começou com a provocação pesada em relação à Lily, mas James quem reagiu a isso. Estava tão irritado, que mal podia se lembrar o que ele havia dito ou o que ele mesmo respondera, mas ele se permitiu perder o controle e querer esmagar Snape de qualquer maneira que pudesse.

Se deparou com o campo de Quadribol. Não deveria ter ido ali, mas não deveria ter ficado surpreso...no final, talvez ajudasse um pouco. Se encostou na parede do vestiário e lançou um feitiço em sua perna, melhorando em noventa por cento a dor. Depois, pegou o malão com todas as bolas do jogo, um bastão e soltou os dois balaços no meio do campo. Não pegou uma vassoura, pois o que ele queria não era se equilibrar e tentar atingir algo com o balaço…queria apenas rebater.

O balaço desceu com velocidade até ele e, com toda a raiva que sentia, rebateu-o, criando um grande eco no campo vazio. Ele voou rapidamente para depois dos arcos, desaparecendo após as arquibancadas. Sentiu que o segundo balaço se aproximou e repetiu: atingiu-o com força, deixando toda a sua frustração passar pelo seu braço, bastão e sair em forma de energia para mandar o balaço o mais longe possível.

Maldito fosse Severus Snape. Pensou que poderia dar um show, acabar com ele na frente de todos e poder se gabar depois. Aquilo teria sido tão bom. Mas agora ele era apenas o grifinório idiota que reagiu como uma criança mimada quando foi provocado, igual quando tinha onze anos, deixando as palavras de Severus Snape entrarem por um ouvido e ficarem lá, ao invés de saírem pelo outro ouvido. Que papelão que havia feito naquele duelo, que papelão. Talvez, para quem não conhecesse aquele mundo, não veria muita diferença...porém ele via e sabia que tudo o que foi jogado naquela arena não foi um duelo controlado para um clube de duelo, mas uma briga de corredor entre alunos nervosos; uma luta de casas; um antagonismo entre um Comensal e alguém bem longe daquela estirpe…

E sobre Lily Evans.

James resmungou alto e rebateu o balaço novamente com toda a sua força. E assim ficou por quase uma hora, até dar o tempo do jantar ter sido servido e terminado e de chegar a hora da sua ronda com uma monitora sonserina. Há! Já imaginava como seria ótimo andar pelo castelo para cima e para baixo com uma aluna que teve um colega de casa perdendo um duelo contra ele. Seria super interessante e ele adoraria ter aquela conversa com ela.

Mas no final, após encontrar a tal monitora que ele não conseguia lembrar o nome, eles seguiram no silêncio na maior parte do tempo, tendo-a comentando sobre tudo, menos duelos e Severus Snape. Ficou tão aliviado de não ter que conversar com ninguém sobre aquilo, ainda mais com alguém desconhecido, que até perguntou o nome dela.

Gunberg. Deveria se lembrar da próxima vez e, se tiver que escolher alguém - além de Lily e Remus - para uma ronda, Gunberg seria uma boa companhia.

Deixou a garota em frente da sala comunal da Sonserina e pegou o caminho para o próprio dormitório, apenas querendo acabar com aquele dia o mais rápido possível e da melhor forma que conhecia (até o momento): dormindo! Ignorou todas as chamadas de Sirius no espelho, sem vontade nenhuma de conversar sobre aquilo. Talvez amanhã...talvez nunca.

James entrou na sala dos monitores-chefes e jogou seu casaco na primeira cadeira que viu, pronto para deixar aquele dia de lado na história. Um dia que não faria diferença em sua vida e que poderia tê-lo poupado de muitas rangidas nos dentes e passadas de mãos nos cabelos.

- Uh, alguém ainda está irritado.

A voz de Lily o fez virar a cabeça minimamente em sua direção: ela vestia um pijama de seda, com um penhoar igualmente de seda por cima. Ela parecia bem confortável e tranquila com o seu livro apoiado nos joelhos, os pés no sofá e as costas apoiadas no braço do móvel.

- Apenas louco para chegar o dia seguinte. - Ele respondeu tentando não soar irritado, já que ele não estava irritado com ela.

- O dia seguinte virá com os mesmos problemas de hoje, James, se não resolvê-los. - Ela deu de ombros. - Mas você merece uma boa noite de sono e descanso.

- Está nos meus planos. Boa noite, Lily.

- Boa noite, James.

O maroto foi até as escadas e começou a subir, congelando no quinto degrau. O que ele estava fazendo? Lily estava ali na sala comunal de ambos e lendo um livro. Sabia que ela poderia estar no próprio quarto fazendo aquilo, mas parecia que ela procurava companhia, uma conversa...ou estava esperando por ele. Só ele sabia que quando ela fazia rondas e não eram com ele, gostava de esperá-la e ver se ela voltaria bem.

Poderia soar idiota, mas naqueles tempos bizarros - e após Mulciber atacá-la há alguns dias -, não via todo o mal em conferir se ela estava bem após uma ronda. E agora, com Dolohov massacrado na frente de tanta gente, tinha certeza que alguma retaliação poderia vir e, ainda sabendo que Lily poderia se defender, James se sentia pronto para ir caçar qualquer um deles e…

- Algum problema? - A voz suave dela soou pelo cômodo. Percebeu que ainda estava parado no quinto degrau da escada, olhando para o nada. Lily devia pensar que ele era louco.

Ele se virou e desceu, indo até ela e sentando-se em uma poltrona ao lado do sofá.

- Você foi ótima hoje, Lily. Eu sei que já te parabenizei, mas não pareceu o suficiente. Você manteve a calma desde o início e quando deu uma leve derrapada, corrigiu bem rápido. Sem falar da sua finalização. Você foi esplêndida. - Ela corou imediatamente.

- Obrigada. Apesar de você já ter me parabenizado antes, eu estou sempre aberta para mais elogios. - Ela sorriu, obrigando-o a sorrir de volta. O que não era surpresa, já que isso acontecia o tempo todo.

Havia deixado Lily e os amigos logo após o duelo, morrendo de raiva e querendo apenas botar tudo aquilo para fora. Lily devia achá-lo um panaca por ter entrado naquela cena ridícula com Snape. Se arrependimento matasse, estaria fundo no chão agora.

- Você não estava indo dormir?

- Acho que posso ficar acordado por mais alguns minutos e te fazer companhia.

- Ah, obrigada. Você não precisa ficar, sabe? Eu tenho um livro.

- Mas eu sinto que você quer conversar, senão não estaria aqui…- Ele a encarou, investigando as sombras e expressões que cresciam no rosto dela. - Ou eu estou errado?

Sem resposta por alguns segundos e ele sentia que a cabeça dela estava a mil por hora, talvez tentando encontrar uma maneira de começar a conversa.

- Ou, talvez, quem quer e precisa conversar seja você. - Ela finalmente disse.

Ele queria? Até alguns segundos atrás, ele tinha certeza de que não queria. Ou não queria falar com os marotos, sabendo que Sirius iria chamá- lo de idiota muitas vezes, mas no final, iria apoiá-lo, Remus talvez reclamasse que ele é um idiota (mas ele já sabia, obrigado) e Peter apenas escutaria, porque não esteve presente.

Mas Lily...o que ela teria a dizer? O que ela pensava sobre ele e sobre o duelo? Provavelmente o achava idiota, mas ela diria?

- Escute, Lily. O que aconteceu hoje foi…

- Bem fora dos padrões do meu monitor de duelo. - Ela terminou a frase dele. Pela maneira que ela se apressou em dizer aquilo, estava louca para conversar sobre isso.. - Vocês dois passaram do limite. Você esqueceu da primeira regra que sempre me lembra.

Ela não estava raivosa, mas ele conseguia ouvir uma repreensão clara em sua voz.

- Eu não seria um bom professor, se não desse exemplos claros do que fazer e não fazer. - Ela abriu a boca para respondê-lo, mas James abanou a mão e continuou. - Isso não é uma desculpa pelo o que eu fiz, porque eu não tenho desculpa para dar. Mas posso usar isso para mostrar a todos os meus monitorados o que eles não devem fazer e eu pretendo usar isso como lição na próxima aula. Maus exemplos dão sempre uma boa lição.

Lily não respondeu de imediato, apenas encarando-o e parecendo pensar em suas palavras. Pelo menos era o que ele esperava.

- Vejamos pelo lado bom: eu mostrei para todos eles o quão bom o meu monitor é, mesmo sendo por meio das minhas habilidades e sangue frio, e não pela sua apresentação toda emocionada.

Ele não conseguiu evitar o riso.

- Temos que fazer algo com essa sua humildade, senhorita Evans, antes que suba demais para sua cabeça e eu seja obrigado a parar de fazer elogios.

- O sujo falando do mal lavado. - Uma expressão trouxa. Ele as adorava. E mesmo não conhecendo essa, fez sentido para ele.

Colocando o livro de lado e sentando-se com as pernas cruzadas embaixo de si, Lily se virou para ele completamente. Novamente, ela pareceu com dificuldade de falar o que tinha em mente e isso era tão anormal para os padrões dela, que ele começou a ficar preocupado com o que ela, eventualmente, poderia vir a falar quando tomasse coragem.

- Há algo mais que queira me falar sobre o dia de hoje? - Ele perguntou. - Estou aberto para repreensões, broncas e tudo o que você achar justo.

- Honestamente? Eu acho que o que eu tinha para falar, eu disse. Não há razão para continuar apertando a mesma tecla, principalmente quando você parece arrependido o suficiente.

- Nisso você não está errada. - Ele riu sem humor.

- Mas eu tenho uma pergunta sobre duelos e você. Talvez Sirius tenha plantado uma curiosidade sobre uma coisa há algum tempo e eu gostaria de saná-la, ainda mais depois de hoje

- Hm. Isso pode ser perigoso, já que veio de Sirius. - James se aconchegou na poltrona, apreciando a distração de sua frustração. - Mande.

- Como você sabe duelar tão bem? - James sorriu e abriu a boca para responder, mas ela continuou falando. - Sirius me disse que foram os livros e seu pai?!

Os olhos dela brilhavam de curiosidade pura e ele achou tanto charmante quanto doce.

- Você não diria que Sirius mentiu e foi pelo fato de eu ter sido um imbecil panaca que azarava os outros por diversão?

Ela lançou um olhar duro e indignado para ele.

- Eu não acho que dê para treinar duelos apenas atacando pessoas. Talvez se você fosse o alvo, fizesse mais sentido.

- Você não está errada, nem um pouco errada. Na verdade, está tão perto da verdade quanto poderia estar quando não tem todas as informações. - Ela franziu a testa e talvez nem tenha percebido, o que a deixou adorável. - Sim, foi por livros, mas antes deles...de fato, veio o meu pai.

- Então o seu pai te ensinou a duelar? Por que um pocionista famoso, bem visto e com sucesso faria isso? Digo, não penso que haja um motivo específico para saber ou não saber duelar, mas… - Ela não continuou, ficando cada vez mais curiosa.

Com um sorriso, James se aconchegou ainda mais, cruzando um tornozelo no outro enquanto tinha as duas pernas bem esticadas em sua frente.

- Fleamont era o sobrenome da avó paterna do meu pai, ou seja, minha bisavó. Ela nunca quis que seu nome morresse após se casar. Acabou sobrando para o meu pai carregar essa honra...ou fardo, como ele mesmo pode dizer.

- Por que seria um fardo? Eu acho tão bonito ele ser responsável por carregar o nome de ambos os lados da família. E que acabou ainda passando para você, para o seu nome do meio.

- Bem, podemos dizer que talvez, no começo, ele não se importava, até chegar em Hogwarts...e os outros garotos começaram a caçoar dele por conta do nome, o que gerou muita briga.

- Espere, espere…- Ela levantou a mão no alto. - O seu pai foi vítima de chacota quando entrou em Hogwarts?

- Sim.

- Desculpe, mas...o seu pai foi vítima de algo que você viria a fazer mais tarde?

Foi um tapa na cara e ele merecia aquilo. E mereceu tanto, que não quis esconder o embaraço e em como seu rosto ficou vermelho de vergonha.

- Sim. - Ele respondeu sem nem um pingo de orgulho ou de diversão. - Chocante, mas sim. E eu nem tenho como me defender, porque eu faria papel de idiota. Mais do que já fiz. - Ficou desconfortável de repente e se sentou quase ereto na poltrona, como se sua posição correta fosse fazer algum efeito nas merdas do passado. James não se arrependia de algumas brincadeiras inocentes, de algumas piadas, pegadinhas...mas muitas outras, sim. Ele poderia ter pego mais leve, ter visto o mundo ao redor ao invés de apenas o seu umbigo. Poderia culpar a idade, mas não eram todas as crianças daquele jeito. Poderia culpar a companhia, mas também seria apenas uma escapada inutil da verdade: ele era um idiota, havia se comportado como um idiota e nada, exatamente nada, poderia justificar suas próprias ações.

- Isso foi uma reviravolta que não estava esperando. - A frase saiu quase inaudível, mas James a ouviu.

- Eu imagino que não. - Ele se obrigou a sorrir um pouco. - Meu pai sofreu muito na mão de uns idiotas aqui e ele revidava, brigava, duelava...e foi ficando absurdamente bom nisso. Ele aprendeu tantas técnicas e desenvolveu tantas outras, que acabou ficando perito e um mestre em duelos. Então, obviamente, chegou um momento que ele não era motivo de chacota, mas motivo de receio: ninguém mais se aproximava para fazer uma piada, se não quisesse parar na enfermaria.

Eles ficaram em silêncio por alguns segundos, cada um mergulhado em seus pensamentos sobre o assunto: James com vergonha por coisas que já tinha feito e querendo dar tudo o que tinha para saber o que ela mesmo estava pensando naquele momento. Ele tinha tanto receio de reviver e falar sobre o que já tinha feito, como se Lily realizasse que ele era um imbecil completo e que ela deveria se afastar.

- Seu pai, então, te ensinou tudo o que aprendeu. - Foi a única coisa que ela disse. - Tudo o que ele foi forçado a aprender.

- Sim. Me ensinou e me mostrou que os livros iriam ajudar muito também e que era melhor eu ficar preparado para caso precisasse...sem saber que seria melhor os outros saberem como usar contra mim.

Se sentia horrível. Ele havia sido horrível! Era uma criança babaca que não entendia o peso das brincadeiras que fazia, mas não importando a idade, não podia negar que foi um babaca. Não precisava ter sido.

- James…- ela disse em um suspiro baixo.

- Eu deixei a certeza de ser imbatível subir na cabeça e me tornei completamente batível por conta disso. - Ele riu sem humor. - Sabe aquele garoto que tem tudo, o amor sem precedentes dos pais, tanto mimo por estar no mundo, os melhores amigos ao redor, sendo bom em tanta coisa...eu tinha tudo. Por que eu reagi desse jeito só por ter tudo isso? Por não saber o que era sofrer? Eu tive tantos exemplos ao redor: Sirius, Remus, Peter e o meu próprio pai… e eu continuei sendo horrível.

Não sabia de onde tudo aquilo vinha ou por que vinha agora, de repente, na frente de Lily em uma noite do começo de Outubro. Aquilo parecia ter um peso ainda maior hoje, lhe atingindo o mais forte possível, como nunca havia atingido antes.

- James, olhe para mim. - Ele subiu o olhar para Lily quase como se tivesse sido enfeitiçado apenas pela voz dela. - Todos cometemos erros e em muitas fases de nossas vidas. Você foi um valentão que não tinha ideia do que fazia e conhecendo você agora, mais profundamente, eu sei que você nunca quis machucar as pessoas, nunca quis ser maldoso. Você foi inconsequente com o que fazia, irresponsável e idiota muitas vezes…

Ah, ali estava. Ela também o achava um idiota.

- Obrigado, Lily. - Ele sorriu com os adjetivos. Lily riu por um momento.

- Espere eu terminar. - Ela respirou fundo antes de ficar séria novamente. - Houve inúmeras vezes que eu sonhei em te esganar pelo o que fazia, mas sabe o que é mais impressionante? Que hoje em dia eu não quero mais e por um só motivo: James Potter se redimiu. Ele abriu os olhos, ele quis ver o que fazia e não tenta esconder suas responsabilidades agora. Você é uma ótima pessoa, de coração imenso e mais maduro, sabendo que toda ação que faz, tem uma reação enorme em sua volta. E sabendo disso, você preferiu fazer o bem, preferiu estar do lado em que ajudamos as pessoas, que estendemos a mão quando alguém precisa…- Lily se moveu pelo sofá e se aproximou da ponta mais perto da poltrona em que ele estava. Ela esticou a mão e a depositou em cima da sua. - Eu acho que isso diz muito sobre você, pois havia uma escolha, você poderia ser muito poderoso caso decidisse continuar daquele jeito, caso você escolhesse lutar do outro lado, mas você não fez. Você está aqui, ajudando as pessoas, ensinando-as como se proteger e mostrando quem é o verdadeiro James Potter para todos agora. E eu aviso que todo mundo está feliz em conhecê-lo.

O que ele ia fazer com aquela garota maravilhosa em sua frente? Ele podia pular da poltrona e correr pela sala com aquela felicidade instantânea que ela lhe proporcionou. Não pelos elogios, não por desmantelá-lo ali naquela sala e construir um novo James, o James que ele era...mas porque vinha dela. Porque era Lily quem pensava, que dissera e que acreditava.

E sabendo o quanto Lily acreditava nele, o fazia pensar que ele poderia ter o mundo. Que poderia tê-la.

- Obrigado por acreditar em mim, Lily.

- Não pense por um instante que não acreditarei. Independente de um duelo bobo em que você escorregou feio. - Ela apertou sua mão e a puxou de volta para si, quase gerando uma reclamação da parte dele. - Obrigada por compartilhar a história. Eu acho que você ficou um pouco perturbado, então me desculpe por tocar no assunto.

- Não se desculpe. Eu já estava de um mau humor horrível antes. - Ele piscou para ela e voltou a se sentir mais confortável, deixando o corpo se alongar na poltrona novamente. - Além do mais, eu gosto de te surpreender. Você já me viu fazendo tantas coisas por aí, então é um prazer ver a surpresa no seu rosto.

- De fato, foi uma surpresa. - Ela riu e se jogou contra o encosto do sofá e olhando para o teto.

- Já que eu te surpreendi, por que você não devolve a gentileza e me conta algo seu para me surpreender?

Ele viu o sorriso brilhante de Lily se abrir enquanto ela ainda encarava o teto.

- O que você gostaria de saber?

- Alguma coisa que você tenha aprontado. De preferência aqui e que eu poderia ter sabido, mas não sei.

Lily parou para pensar por uns segundos e quando ele estava prestes a fazer uma piada por ela ter que escolher o que dizer, ela falou:

- Eu fui a responsável pelo cancelamento do primeiro jogo da Lufa-Lufa e Corvinal no sexto ano.

- Você? - James sentou como se tivesse levado um choque, segurando os braços da poltrona.

- Não foi por querer. Eu estava onde não deveria estar e em uma brincadeira boba, acabei quebrando todas as vassouras da escola. Fiquei tão desesperada, que ao invés de consertá-las, eu as destruí para me livrar das provas. Foi muito idiota da minha parte, já que somos bruxos e poderia ter consertado, mas a nascida trouxa aflorou e eu apenas queria me esconder e esconder todo o resto.

- Lily Evans, você supera as minhas expectativas. Eu estou tão orgulhoso de você. - Ele sorria como um bobo. - Posso perguntar o que você estava fazendo lá? E que brincadeira boba era essa?

O rosto dela se tornou quase da mesma cor de seus cabelos.

- Melhor eu não responder. - James levantou uma sobrancelha.

- Você estava com um cara lá. - Não era uma pergunta.

Sem graça, ela se levantou do sofá, fazendo o seu penhoar voar ao seu redor. Isso o lembrou da conversa sobre ela aparecer usando apenas um penhoar na porta de seu quarto e se ele iria recusá-la ou não. Balançou a cabeça, querendo sair daqueles pensamentos.

- Acho que isso é outra coisa que todos já fizeram. - Ela comentou indo até a sua mesa e pegando um dos chocolates que estava lá. Chocolates que ele havia trazido para ela de Hogsmeade.

- O que? Destruir vassouras e se livrar da prova do crime?- Ele perguntou, mesmo sabendo do que falavam.

- Armários de vassouras, etc etc. - Ela comentou e deu uma mordida no chocolate como se quisesse se impedir de ter que continuar a falar ou explicar sobre amassos em armários.

- Bom, armários de vassouras servem mais para casais do que para o propósito em si, mas não vamos deixar de comentar que o armário de vassoura que você se enfiou no sexto ano não era para amadores. Digo, você foi no depósito de vassouras do campo de Quadribol!

Ela riu e tampou a boca, pois ainda mastigava.

- Você fala como se eu fosse uma santa e tivesse cometido o maior pecado, James. Eu nunca dei a entender isso.

- Isso é verdade, mas…

- "Mas" nada. Eu aproveito a minha adolescência na escola como todos os outros. Você mesmo, por exemplo, sempre estando por aqui e por ali com as garotas e tudo mais.

- Que bom que comentou isso, porque já que estamos quebrando conceitos neste momento e surpreendendo, aqui vai uma: as pessoas pensam que eu saio com a escola inteira. Isso não é verdade, nunca foi verdade. Eu não sei de onde tiraram essa ideia.

- Você não saiu com a escola inteira, mas com várias garotas.

- Também não. Por que isso corre para todos os lados? Eu nunca alimentei essa fofoca. - Ele cruzou os braços e a olhava como se esperasse uma explicação.

- Oras, não sei. Talvez por você ser um dos caras populares e bonitos do lugar? Como do sexo feminino, eu posso dizer que era a fofoca que corria entre as garotas, nos dormitórios, nos banheiros, entre as aulas.

- Muitas delas mentiram, eu garanto. - Ele bufou. - Eu nunca tive um namoro sério com alguém, mas normalmente eu tinha alguns lances de alguns dias ou semanas com uma garota só, apenas uma por vez e em uma quantidade bem menor do que dizem.

- Então aquela história sobre você com duas garotas da Corvinal ao mesmo tempo…

- Era mentira. Eu estava saindo com uma delas, mas a outra talvez não soubesse e começou a espalhar que estávamos juntos. - Ele deu de ombros, um pouco perdido. - Eu nunca entendi o que ocorreu, sinceramente.

Lily assentiu e mordeu o chocolate novamente, pensativa. Era quase revigorante falar sobre essas coisas com ela, pois podia tirar a limpo muitas ideias erradas, principalmente sobre esse assunto. Ele nunca foi o cara que colecionava garotas e nunca entendeu como aquilo corria na escola como verdade, já que ele nunca havia dado motivos para tais conversas. James nunca foi o garoto que pensava em garotas como nojentas na infância. Ele sempre havia sido o garoto que as admirava, que gostava delas e que tinha aquele lado romantizado que só encontrava nos garotos um pouco mais velhos. Porém só começou a fazer algo sobre isso aos quatorze anos e não se sentia confortável em apenas beijar alguém apenas pela oportunidade estar ali. Já havia feito mais de uma vez, mas não era o seu modus operandis.

E Lily havia sido a primeira garota que sentiu aquela vontade de dar as mãos, ir para Hogsmeade e beijá-la. Tinha sido engraçado como todas aquelas provocações e brigas entre eles havia virado uma vontade diferente. Quando os olhos do jovem James a procurava na multidão, nas salas de aula ou no salão principal, não era para brincar ou tirá-la do sério, mas para admirar os olhos verdes tão lindos, os cabelos ruivos brilhantes, o sorriso dela, as sardas que tinha pelo rosto ou como ela sempre parecia feliz, leve e de bem com a vida. Se alguém o perguntasse naqueles primeiros dias em que tudo mudou - ou quando ele percebeu que tudo havia mudado -, ele diria que seu primeiro beijo seria com ela; sua primeira visita à Hogsmeade com alguma garota, teria Lily ao seu lado; que sua primeira namorada só poderia ser ela... Mas a garota, na época, tinha outras ideias para ele. Algo como afogá-lo no lago e coisas parecidas.

- Que conversa fora do comum. - Ela comentou. - Quem diria que aprenderia tanto sobre você em alguns minutos.

- E eu aprendendo tão pouco sobre você. - James respondeu. - Eu gostaria de saber mais sobre essa Lily que vai até o depósito de vassouras para ter amassos com alguém.

- Não há muito o que falar.

- Eu sei que há. Eu sei que você sempre teve muitos admiradores aqui, muitos caras que sempre babam por você. - Apesar daquela conversa ser sobre outros caras com ela, ele se viu muito interessado em saber. Queria descobrir sobre aquele lado dela.

- Como você, eu também nunca fiquei saindo com as pessoas a torto e à direito.

- Mas saiu com alguns. Eu sei, eu lembro.

Lembrava como rangia os dentes ao ver, ouvir falar, ou descobrir por fofocas ou pelos próprios amigos. "Evans foi vista com fulano", "Evans foi para Hogsmeade com aquele lá", "Evans está namorando"...Evans e os caras, os caras mandando cartas, os caras a chamando para sair e mais e mais.

- Sim. E é isso. Eu não sou santa, como eu disse. Não vim para este mundo para ser casta, estou apenas vivendo.

- E você deve.

Dê uma chance para que seja comigo agora.

- Obrigada. - Ela disse com certa ironia. - Enfim...acho que ambos tiveram suas aventuras por aqui e ali, mas não há muito o que falar sobre, realmente. Tirando essa história do depósito de vassouras, o resto foi apenas normal. - Lily deu de ombros e se afastou da mesa, parando no meio da sala. James entendeu aquilo como um sinal de "acho que devemos ir dormir" e que ela parecia incomodada com algo, talvez pensando que ele estava forçando informações dela. Não queria que Lily se sentisse pressionada por nada, ainda mais quando ele não queria pressioná-la por nada.

Ele levantou, quase se arrastando da poltrona.

- A conversa estava interessante, mas acho que está na hora de eu colocar esse corpo aqui para descansar.

- Eu também vou.

Os dois subiram juntos até seus quartos e pararam no corredor por um breve momento, olhando para todos os lugares, menos a pessoa à frente. James suspirou e sorriu, se virando para ela.

- Obrigado pela conversa, Lily. Acho que o dia de hoje precisava de algo assim.

- O prazer foi meu. E saiba que tudo que foi dito, foi de verdade. - Ela finalmente sorriu.

Tinha uma grossa mecha de cabelos rubros caindo pelos seus ombros, quase tampando um dos olhos dela e James não soube o porquê ou como teve coragem, mas em um segundo eles estavam conversando e no segundo seguinte, ele se viu pegando aquela mecha de cabelo tão macio e colocando-a para trás, deixando o rosto dela livre. Foi uma manobra arriscada e tão inconsciente, mas ficou feliz em ver que ela não desviou ou pareceu incomodada.

- Boa noite, Lily.

- Boa noite, James. - A voz dela estava tão suave, que quase poderia dizer que ela havia gostado do que ele tinha feito.

Cada um foi para um lado e antes de fecharem a porta, eles se olharam e sorriram. Lily foi a primeira a cortar o momento, fechando a porta delicadamente. James a fechou logo em seguida e levou as mãos aos cabelos imediatamente.

Ele era tão perdido por Lily. Que Merlin o ajudasse antes de enlouquecer.

L~J

Assim que fechou a porta, Lily encostou-se e sorriu. Sorriu tanto, que suas bochechas doíam.

E ali tomou a decisão: iria convidar James para aquela Slug Party e era bom que ele aceitasse!


N/A

Poxa, eu demoro tudo isso para postar um capítulo um pouco perdido? Sim, pois é hahahahaha Mas desculpem caso tenha ficado tudo muito confuso. Eu demorei para postar por estar com alguns problemas e quando eu revisava, as coisas não pareciam fazer sentido, eu mudei muitas cenas, apaguei outras...aconteceu de tudo. Caso eu veja que vocês estão achando muito confuso, eu vou reeditá-lo.

Respostas para reviews sem login:

Mah: Oi, lindaaa; Fico feliz que tenha gostado do cap anterior. Eu nao conseguiria deixa-los muito tempo brigados, por isso tudo foi resolvido logo. Eu penso que eles estão maduros o suficiente para resolverem esses problemas assim xD E logo menos sabemos que eles vao se resolver de outra maneira ;) Aguarde. Beijooos

Julie: Oieee. Aqui estou eu, postando mais, como pedido hahahahaha Beijooos

Sneak Peek do proximo capitulo:

"- Uau, se eu soubesse que ficaria assim, eu teria deixado essa parte por último.

- Tem mais? - Ele perguntou se virando rapidamente para ela. Lily riu com aquele James. Parecia que toda aquela preocupação que estava constantemente nos olhos castanhos-esverdeados, tivesse evaporado. E agora, com toda aquela empolgação dele pela presença ilustre na festa, ela ficou tímida. Tinha a impressão que o maroto estava esperando que o tal homem precisasse de uma cama para passar a noite e James estaria mais do que feliz em oferecer a sua e dormir agarrado com ele.

- Não é nada demais. - Ela disse, tentando tirar a esperança de James em receber um pedido de casamento do senhor Plumpton. - Eu estava pensando se... você gostaria de vir comigo?"

Não é uma promessa, mas não pretendo demorar para o próximo (tanto é que eu quero muito postar logo esse capítulo hehehe). Então...quanto mais gasolina, mais longe o carro vai (metáforas de pessoas velhas...enfim).

Beijos, beijos e até a próxima.

P.S: eu sou sonserina, gente. O puro creme sonserínico. Mas escrevendo pela visão de grifinórios, especialmente James que é tao orgulhoso da casa, às vezes sai algumas coisas aqui e ali. Não se sintam ofendidos, caros amigos de casa S2