J~L
Se havia qualquer lado bom - e ele era bem mínimo - em não ter Lily por perto, era que ele acabava suas tarefas, não importa qual fosse e para qual cargo que tinha, muito rápido. Só. Nada mais do que isso.
Não ficava distraído, não tentava ter vislumbre dela, nada. Sabia que Lily estava na enfermaria, desacordada e que se ela acordasse, alguém o avisaria. Neste caso, deveria ser senhorita Pomfrey, pois estava fazendo um estudo de graus importantíssimos nela, já que iria levar o maldito do dia todo e as visitas só seriam permitidas no meio da tarde.
Estava no pátio da torre do relógio assistindo um grupo de alunos jogando snaps explosivos e apostando alto. Um deles estava tão confiante, que apostou a varinha, dizendo que sairia de Hogwarts caso não ganhasse. Era apenas um segundanista que mal sabia o que fazia e James sabia disso, porque ele mesmo já havia apostado sua varinha nos primeiros anos e a perdeu. Sorte a sua que Remus, um mestre em snap explosivos, jogou contra o mesmo cara e a recuperou.
Não sabia se o garoto ia ganhar ou se tinha um melhor amigo que pudesse recuperá-la depois, mas de seu lugar, James enfeitiçou o jogo para ajudá-lo. Sorriu sem humor quando o viu levantar e comemorar, mas talvez alguém devesse alertá-lo sobre esse pequeno problema de vício em apostas que estava se instalando ali dentro. Então quando o garoto voltou a apostar, mas apenas cinco galeões dessa vez, o maroto enfeitiçou o jogo novamente, mas para que perdesse. A derrota enfureceu o garoto, mas James ignorou o chilique e voltou sua atenção para o relógio e seu pêndulo que ia de um lado para o outro, quase o hipnotizando.
O relógio bateu uma, duas vezes e James respirou fundo. Duas horas da tarde ainda não era meio da tarde, certo? O que era meio da tarde hoje? Porque considerando que estavam no começo de Dezembro, e o sol se punha em torno das quatro da tarde, às duas lhe parecia meio da tarde.
- Você me deve cinco galeões. Nem pense em sair daqui sem pagar.
Era aquilo que temia: ter que se enfiar em uma briga por conta daquelas apostas.
Por que ficou perto deles mesmo? Deveria ter mantido certa distância, fingindo que não escutava nada, não se forçando a ter que levantar e ir até lá.
Pelo menos se sentia melhor. Na hora do almoço, seus amigos disseram que ele estava de volta ao normal e ele sentia que estava menos cansado, ou apenas um cansaço habitual. Por isso debatia por alguns longos segundos se fingia que não via a briga que começava a se formar na roda de snap ou se intervinha logo.
- James!
Peter vinha apressado no corredor oposto. O maroto pulou a mureta e atravessou o pátio na direção do amigo Monitor-Chefe.
- O que houve, Wormtail?
- Aurores! - Aquilo foi o bastante para chamar sua atenção. - Eu vi Aurores irem na direção da ala hospitalar. Devem estar aqui por Lily.
Não precisava de nenhuma informação a mais, virou para o lado oposto que sentava e correu.
- Tem certeza do que viu? - Perguntou olhando para trás, enquanto Peter tentava alcançá-lo, já quase sem fôlego.
- Absoluta.
Então ele acelerou e deixou o amigo para trás, sem querer perder mais tempo.
Por que Aurores viriam até a ala hospitalar e ver uma aluna desacordada após um ataque? Eles bem que poderiam ter estado ali antes, tipo durante o passeio, evitando que aquela merda tivesse acontecido.
Virou no corredor da ala, foi com toda a sua aceleração até a porta aberta da enfermaria e entrou. No mesmo instante, viu duas varinhas sendo apontadas para ele e tirou a sua rapidamente.
Agora, no meio da enfermaria, James Potter apontava sua varinha para dois supostos bem treinados Aurores. Um deles era conhecido de seu pai, pois lembrava das histórias que Fleamont contava sobre Alastor Moody e toda a sua família de Aurores. Ele tinha muitas cicatrizes em seu rosto e uma perna de madeira.
Só podia ser ele.
- Abaixe a varinha, filho. - O Auror que James acreditava ser Moody disse. - Vamos, não queremos encrenca.
- Por que vocês levantaram a varinha para um aluno entrando em um cômodo em Hogwarts? - James perguntou.
- Por que o senhor entrou correndo em um cômodo onde tem dois Aurores? - Moody retrucou.
Pomfrey saiu de seu gabinete e arregalou os olhos.
- Pelo santo Merlin, abaixem essas varinhas!
- Faça-nos esse favor. - O outro Auror pediu, mas aquilo apenas fez com que James a segurasse com mais força.
- Não antes de me responderem.
- Assim como você não sabe quem eu sou, eu não sei quem todos vocês são. Eu não posso confiar em ninguém após um ataque em Hogsmeade. - Moody reclamou. - Agora abaixe a varinha, pois será a última vez que peço.
O maroto estava pronto para retrucar, mas algo inesperado aconteceu. Algo que ele esperava por tanto tempo, mas que não imaginava acontecer naquele exato momento.
- James?
Era Lily! Era sua voz, vindo de trás daquele bendito biombo. Sua mão vacilou, seu braço abaixou alguns centímetros. Seu rosto contorcia em indecisão: sorria ou continuava focado nos Aurores?
- Lily? - Ele a chamou de volta e pediu para que não tivesse sido a imaginação dele.
Por favor, Lily. Responda.
- O que está acontecendo?
Era ela, era Lily. Abaixou o braço e deu passos largos e rápidos, mas as duas varinhas ainda estavam bem apontadas para ele, obrigando-o a parar no caminho.
- Deixem-o vê-la antes, por favor. Se há alguém que não pretende fazer algum mal à ela, seria ele. - Pomfrey disse, aproximando-se dos dois Aurores.
- A senhorita Evans não está recebendo visitas neste momento, além da nossa. - Moody resmungou. - Então volte mais tarde.
- Não será você que irá me deter. Eu sei que você não pode atacar alguém sem motivo e eu não estou ameaçando a sua vida ou de ninguém aqui.
- Vamos dar-lhe dois minutos, apenas para que ele veja que a senhorita Evans está bem. - Pomfrey tentou acalmar a situação.
- Temos instruções claras para impedir qualquer um de se aproximar da vítima.
- Eu não estou vendo nenhum mandado assinado pelo Ministro ou pelo Chefe de Aurores. E a senhorita Pomfrey é testemunha de que nada me foi apresentado. Até onde eu sei, vocês dois poderiam ser Comensais disfarçados, prontos para atacá-la. Então com licença...
Sem dar a mínima para os dois e para as varinhas ainda apontadas para ele, James passou pela dupla de idiotas e foi até a cama dela, pronto para vê-la acordada depois de uma semana.
Ah Merlin.
- Finalmente! - Ele disse quando seus olhos se encontraram.
Toda aquela tensão de uma semana escorregou de sua mente, virando uma poça aos seus pés. Ela estava sentada na cama, as costas contra os travesseiros. Lily parecia tão bem, tão forte e, tirando o fato de que parecia confusa com a bagunça que ouvia, tão lúcida.
Pediu tanto para que esse momento chegasse logo. Ficava imaginando quando ela acordaria, quando a veria bem novamente e que seus olhos estariam brilhantes, que agora parecia quase como uma ilusão. E se fosse uma ilusão, ele iria ficar muito puto com o responsável, porque era exatamente como ele imaginou.
Então ela sorriu para ele. Tão abertamente e tão terna, que seu coração parecia derreter.
Merlin, como ele amava essa mulher!
- Oi. - Ela simplesmente disse.
Com passos controlados, ele se aproximou da cama. Uma semana inteira vendo-a completamente fora de si ali e, agora, tudo parecia de volta ao normal. Ela estava de volta.
Não podendo mais ficar naquela situação tão fria, ele encurtou a distância e a abraçou, tendo Lily o abraçando de volta. Ela o segurava com força, mostrando o quão forte estava, longe do estado vulnerável que parecia ter estado todos aqueles dias. E James só podia devolver com a mesma intensidade, deixando claro o quanto ele esperou por isso, o quanto ele contou os segundos para que Lily voltasse.
- Como você está? - Ele perguntou soltando-a e observando-a.
- Bem. Fiquei surpresa quando a senhorita Pomfrey me disse que eu fiquei uma semana apagada. Sinto que apenas dormi por umas nove horas, o que é bastante para mim. - Ela deu de ombros. - Como você está?
- Eu? - Queria dizer que deve ter perdido alguns anos de tanta preocupação, talvez quase ficando calvo, e o resto de seus cabelos devem estar brancos, mas apenas sorriu. - Eu estou bem, na medida do possível. Esperando você voltar.
Lily pegou na mão dele, o surpreendendo. Não podia dizer que aquilo era algo recorrente, mas sentir a mão dela na sua depois de todos aqueles acontecimentos, dava a sensação de ser a primeira vez, pois seu coração acelerou de um jeito tão bom...
- Obrigada. A senhorita Pomfrey me disse que…
- Está na hora dos Aurores, querida. - A curandeira, parecendo esperar logo ao lado o momento certo, se aproximou. - Senhor Potter, se o senhor puder me acompanhar até o meu gabinete.
James olhou de uma para outra, confuso.
- Isso foi longe de dois minutos. Me dê cinco, por favor. - Ele pediu, sua mão segurando ainda mais forte a dela.
- Eu receio não poder. A senhorita Evans, após falar com os Aurores, estará livre para as visitas e veremos se poderá voltar ao dormitório hoje à noite.
- Isso seria bom. - Ele comentou, olhando para Lily. - Você vai ficar feliz em voltar para o seu quarto e para a normalidade, tenho certeza.
Ele, com certeza, ficaria.
A ruiva sorriu para ele, mas James percebeu que havia algo por trás daquele sorriso afetado. Ah não, qual era o problema agora?
- Senhorita Pomfrey, agradeceria se levasse o seu aluno para fora. Nós vamos assumir daqui. - Moody apareceu para maior desgosto do maroto.
- Eu volto logo depois. - Disse James - Eu vou estar no gabinete. Você não precisa fazer ou falar nada que não queira, não se esqueça.
- Obrigada por me lembrar disso. - Ela assentiu e se ajeitou na cama, se preparando para o claro interrogatório que parecia vir.
Assim que James e a senhorita Pomfrey se afastaram, uma redoma foi criada em torno da cama dela, provavelmente impedindo de serem ouvidos. Deveria tentar contatar o seu pai, talvez pedir por uma luz neste caso. Lily não era culpada de algo, mas parecia tão invasivo ser interrogada assim, um pouco violento, já que acabara de acordar. Todos queriam saber se ela viu algo, mas poderiam fazer de algum jeito mais tranquilo.
- Temos muito o que conversar, senhor Potter. Por favor, me acompanhe.
- O que é agora? Lily tem algum problema de saúde? Alguma sequela?
- Não...exatamente.
Assim que entraram no gabinete, ela fechou a porta. Ah cara, aquilo era ruim.
- O que ela tem?
Pomfrey foi até a sua mesa e parecia procurar por algo. Achando um livro de capa azul, voltou a deixar o livro ali, mas em suas vistas, e se virou para ele.
- Senhor Potter, saiba que eu confio no senhor e, por isso, falarei tudo o que sei. Não acredito, nem por um momento, que usaria isso à seu favor, então, por favor, não me decepcione.
- O que está acontecendo? - Começou a ficar desesperado.
- A senhorita Evans acordou essa manhã e…
- Nesta manhã? - Ele a interrompeu. - E a senhorita não me chamou? Eu pedi para que me chamasse assim que ela acordasse.
- Devo lembrá-lo que o diretor Dumbledore ainda é a maior autoridade nessa escola, senhor Potter, o senhor tendo um distintivo de Monitor-Chefe e gostando dela tanto quanto gosta ou não.
James bufou e cruzou os braços.
- Certo, a senhorita teve que chamar o diretor primeiro. Por que eu não fui chamado logo depois?
- Porque estamos lidando com um caso complicado. Eu tive que passar horas com a senhorita Evans, tentando ajudá-la.
- Em que sentido?
Pomfrey se remexeu no lugar, antes de continuar. A cada movimento dela, mais James se aproximava de ter um troço no coração.
- A senhorita Evans perdeu a memória.
Não reagiu, apenas fitando a curandeira em sua frente, esperando que ela começasse a rir, dizendo que era uma brincadeira de mal gosto, mas uma brincadeira.
Mas ela continuou séria.
- Perdão? - Ele disse, por fim.
- Não foi muito. Por tudo o que passamos essa manhã, pelo o que ela me contou e pelo o que sei dos outros alunos e do senhor, ela perdeu apenas alguns minutos.
- Ela perdeu a memória? - A curandeira assentou. - Apenas alguns minutos? Hum, muito conveniente, não? - James levou as mãos aos cabelos enquanto começava a andar no gabinete da curandeira. - Alguém apagou a memória dela, isso não foi coincidência. De quantos minutos estamos falando?
- Algo em torno de meia hora.
Meia hora? MEIA HORA? Ele parou de andar. Meia hora...qual era a meia hora antes dela ser atacada? Eles estavam na colina, atrás da casa dos gritos, quando aqueles trinta minutos começaram, com certeza.
Na colina. Espera. Eles estavam na colina...na colina!
Começou a rir, cobrindo o rosto com uma mão. Sua risada aumentou, virando quase uma gargalhada. Não era possível, não. Não era.
- Qual a graça, senhor Potter?
- Eu não acredito nisso. Eu…- Ele gesticulou no ar, completamente perdido. - Eu...eu...
Ela havia esquecido. Quando finalmente saíram juntos, passaram algum tempo em Hogsmeade, depois daquele beijo… ela esqueceu. Não tudo, aparentemente, mas uma boa parte. Uma parte importante.
Não era engraçado, não soube o motivo de ter gargalhado daquele jeito. Talvez pelo fato daquilo parecer uma piada de Sirius. O problema é que o idiota do seu amigo devolveria a memória depois de quase matá-lo de desgosto, mas agora…
- Espera! Para, James. - Ele disse, pensando alto.
Ele parou todos os pensamentos. Tinha que botar a cabeça no lugar, parar tudo. Isso havia funcionado quando teve que socorrer Lily: parar tudo e não ver apenas o problema, mas a solução. O problema já estava ali, não precisava adicionar nenhum elemento para piorar, principalmente o desespero. Estava entrando em parafuso ao pensar que Lily perdeu a memória e esqueceu do beijo deles, o primeiro oficial. Aquilo era sim uma notícia horrível, mas espere…
...ele poderia dar quantos primeiros beijos oficiais Lily precisasse. James Potter a levaria até aquela bendita colina e escorregaria morro abaixo com ela em seus braços um milhão de vezes. Todos os dias da sua vida, se fosse necessário.
Ela quis beijá-lo naquela vez, então imaginava que ela queria beijá-lo ainda.
Tinha que parar de ser um idiota egoísta. O problema aqui era que Lily não se lembrava de quem a atacou. E se a pessoa a atacasse novamente por não saberem e não terem prendido o culpado...isso sim era algo que ele não queria que se repetisse.
Beijar Lily novamente não era problema, mas vê-la sendo atacada pelo mesmo filho da puta sim.
- Espere, senhor Potter. Escute o que tenho a dizer, antes de enlouquecer.
Esfregou os olhos por alguns segundos e focou na curandeira.
- Certo. O que teria para dizer que me impediria?
- Primeiro: o feitiço que a fez ficar desacordada não foi identificado, mas isso o senhor já sabe. Com certeza, é um feitiço ainda não catalogado, inventado a pouco tempo e, talvez, pouco desenvolvido. Há muitas marcas mágicas indicando a vulnerabilidade, o que indica uma pessoa sem muita experiência ou sem muita experiência com o feitiço em si.
- Ok. Eu sabia o começo, mas não o restante. Estamos lidando com algum novo Comensal ou talvez um estúpido que não sabe usar o feitiço.
- Algo assim. - Ela pareceu desconfortável em concordar, provavelmente pelas palavras usadas. - E há a segunda parte e que eu pude checar apenas esta manhã, com a senhorita Evans acordada e com a informação da perda da memória. - James se aproximou, como se não quisesse perder nem uma parte do que ela diria a seguir. - A pessoa que apagou sua memória, também não fez corretamente.
Aquilo era, enfim, uma boa notícia.
- O que isso quer dizer exatamente nesta situação?
- O feitiço não foi feito corretamente, o que significa que algo deu errado no meio do caminho, ou talvez mal feito por falta de experiência também.
- Mas ela perdeu a memória ou não? Não entendo.
Pomfrey respirou fundo.
- Vou tentar explicar de um jeito leigo. Para o feitiço que usaram na senhorita Evans funcionar, você deve se aproximar e puxar a memória para fora de sua mente. Imagine arrancar um polvo, com vários tentáculos finos e grudentos, da cabeça de alguém. Isso requer tempo e uma boa matriz do feitiço, pois qualquer resquício pode ficar para trás. Algo ocorreu enquanto a pessoa performou o feitiço, pois há muitos resquícios deixados...como se alguns pedaços destes tentáculos de memórias tivessem ficado presos em sua mente.
- A senhorita quer dizer que ela não perdeu completamente a memória? Então talvez ela saiba quem a atacou?
- Não exatamente e é aí que está o problema. Vamos pensar nos trinta minutos prováveis que ela perdeu e que, antes de ser atacada, Lily Evans estava bebendo algo no Três Vassouras.
James quase quis rir. Ela não podia estar mais longe naquela hipótese, mas deixou a curandeira viajar em sua criatividade.
- Ela sentou, pediu uma cerveja amanteigada, deu alguns goles, conversou com as amigas e o ataque no vilarejo começou, e então ela foi atacada e perdeu a memória. Esses são os trinta minutos fictícios que ela perdeu. - A curandeira continuou. - O minuto 1 começa quando ela se senta no Três Vassouras e o minuto 30, se passa quando o Comensal conseguiu tirar o fio de memória da mente dela. O minuto 30 é a primeira memória arrancada dela, a mais recente. Subsequentemente, a que menos teve tempo de ser processada, não sendo guardada em vários tipos de gavetas em sua cabeça. Já o minuto 1, é o que teve mais tempo dentro de sua cabeça, o que cria muito mais tentáculos em todos os lugares. - James assentiu, compreendendo onde ela chegava. - Esse feitiço mal feito deixou tentáculos fragmentados por sua cabeça, mas tudo muito confuso, já que ela não tem tudo o que precisa para montar a memória. Talvez ela lembraria de sentar-se no Três Vassouras, mas não que pediu uma cerveja amanteigada. Ou lembra que tinha uma amiga ao seu lado, mas não a outra à sua frente. Compreende onde quero chegar?
- Sim. Ela pode ter alguns fragmentos apenas, mas não tudo.
Aquilo era bom e ruim ao mesmo tempo.
- Eu estou tentando reverter, tentar ligar alguns tentáculos juntos, mas isso requer tempo. Não podemos forçar muita coisa, evitando prejudicar o pouco que lhe resta destes trinta minutos. A sua mente deve também trabalhar sozinha para chegar lá. Para isso, eu precisarei da ajuda de quem esteve com ela em Hogsmeade e nestes últimos momentos, caso ela não estivesse sozinha. A senhorita Evans não me contou se estava com alguém, apenas alguns acontecimentos.
James fechou os olhos e levantou as sobrancelhas, não vendo escolha além de contar.
- Ela estava comigo. O tempo todo.
- Ah! - Pomfrey pareceu segurar o sorriso e ajeitou seu avental. - Bom, isso já é de muita ajuda, evitando que eu explique tudo isso para outra pessoa.
- O que eu posso fazer para ajudar?
- Enquanto eu trabalho na reparação, ela me dirá algumas coisas, mas que eu não saberia dizer se é verdadeiro ou falso. Então, primeiramente, eu precisaria saber o que estavam fazendo, onde estavam, etc.
Ele riu, sem conseguir se segurar. Coçou a nuca e desviou o olhar, achando a parede cheia de informações de cuidados médicos e alertas mais interessantes do que os olhos da curandeira. Ouviu quando a senhorita Pomfrey limpou a garganta, parecendo desconcertada.
- O que posso fazer é anotar o que ela me diz e o senhor me confirmar depois. Isso soa melhor? - ela perguntou.
- Talvez.
- Nada do que for dito sairá daqui, senhor Potter. Nós três trabalharemos juntos, mas apenas para chegarmos em um possível culpado pelo ataque. Eu não vou julgar qualquer coisa dita. O máximo que poderia fazer é, talvez, orientar caso, bem...caso precisem. Precaução, etc.
Céus, ela pensava que eles estavam fazendo mais do que eles realmente fizeram. Ele riu de novo. Não teria sido ruim, mas na colina, entre tantos galhos, pedras e a terra molhada não soava algo muito bom para a primeira vez com ela.
- Ok, ok. Nós não precisamos ir por aí, pois não estávamos fazendo isso que está pensando, senhorita Pomfrey. De qualquer forma, acho que Lily dizer o que lembra me soa bem. Talvez eu possa ajudar de outra maneira?
- Sim, pode.
Ela se virou para sua mesa e pegou seu livro azul gasto.
- Eu também poderia colocá-la a par do que aconteceu nesses trinta minutos? Talvez isso ligaria esses fios soltos?
- Não! - Pomfrey se virou rapidamente, o livro sendo segurado entre seus braços como se fosse precioso. - A pior coisa que você poderia fazer, é isso. Não podemos interromper esse processo de lembrança.
- Mas por quê? Se eu tenho as informações?
- Cada um de nós criamos nossa própria lembrança, senhor Potter, mesmo estando no mesmo lugar e na mesma hora. Você viu as coisas de uma maneira e ela de outra. A pior coisa que poderia acontecer para alguém recobrando a memória, como está sendo o caso dela, é ouvir o ponto de vista de outra pessoa sobre um evento. Isso é quase criar falsas memórias. Talvez algo foi bom para você, mas ruim para ela e contar o evento como você viu, não é justo. - James levantou uma sobrancelha para ela, entendendo explicitamente o que ela falava. - Apenas um exemplo, não estou dizendo que é ou foi ruim qualquer coisa. - James levantou a sobrancelha ainda mais alta. - De qualquer maneira, precisamos do ponto de vista dela de volta e não a informação do que ocorreu, evitando que ela receba as coisas pela perspectiva alheia.
Certo, ele entendeu o que ela dizia. De qualquer maneira, ele preferia, caso Lily lembrar-se do beijo, de como ela se sentiu e como foi para ela, do que apenas as informações saindo da boca dele. Aquilo seria tão anticlima quanto qualquer outra coisa.
- Algo mais que eu posso fazer para ajudar? Qualquer coisa.
- Seja aquele James Potter que eu vi essa semana? Continue sendo este homem. A senhorita Evans tem muitas pessoas que a adoram, mas o que eu vi…- A curandeira parou para pensar por alguns momentos, parecendo ponderar. - Tem algo que eu gostaria de discutir com o senhor. - Ela segurou o livro com mais força e ele quase podia dizer que seus olhos brilhavam. - Algo que aconteceu durante essa última semana.
- Algo ruim? Não temos notícias boas? - Ele pediu e sentou em um banquinho atrás de si. Estava cansado de ouvir só coisas que alugariam um terreno enorme em sua cabeça já.
Era verdade que Lily poder recuperar um pouco uma parte de sua memória era uma boa notícia. Talvez ela não lembrasse quem fez aquilo com ela, mas ainda tinham algo que podiam tentar.
E ela também poderia se lembrar do beijo.
Merda. Agora que a informação parecia ser digerida de verdade: Lily estava lá fora, alheia que eles se beijaram bem intensamente há uma semana e ele teria que agir como se nada tivesse acontecido. Ou talvez ela se lembrasse? Talvez era um dos fios que ficaram conectados, a lembrança dos dois deitados naquela colina…
Apenas lembrar da cena, seu coração disparava.
- Almas gêmeas. Já ouviu falar sobre, senhor Potter?
Seu coração disparou ainda mais, seus olhos arregalaram. Por que, diabos, Pomfrey falava sobre isso com ele?
- O que tem? - Sua voz continha um medo que ele não sabia de onde vinha. Não estava pronto para falar disso com ninguém. Apenas Lily e, ainda sim, descobriu que não era um bom momento. Coitada, ela iria surtar.
- Sabe ou acredita que existam?
- Por que?
Vendo o aluno tão tenso, parecendo que ia quebrar caso um vento mais forte batesse, começou a pensar se era uma boa ideia conversar sobre aquilo com ele.
- Há muitas provas de que existem. Eu, particularmente, nunca duvidei, mas nunca tive nenhuma prova da existência. Até essa semana.
- Por que estamos falando disso? - James se encolhia no banquinho. Não entendia o próprio receio de falar aquilo. Olhou para trás, em direção à porta, como se perguntando se Lily os ouvia.
A senhorita Pomfrey suspirou, sentindo-se derrotada.
- Apenas gostaria de dizer que o senhor está bem. Assim como gostaria que tomasse um último copo de tônico antes de ir embora hoje, mas que não precisa se preocupar sobre o seu estado de saúde.
- Qual é o meu estado de saúde?
- Não tem problema algum, senhor Potter.
- Mas a senhorita não me checou, não houve consulta.
- Porque não há problema. Mas no dia que parecer mais tranquilo para conversar sobre almas gêmeas, não hesite em me procurar. Ou melhor ainda…- Ela entregou o livro azul para ele. James esticou o braço e pegou o livro como se fosse algo perigoso e tivesse que tomar muito cuidado para não se machucar. - Leia um pouco. Capítulo nove a treze, para ser mais exata. Entenderá o que ocorreu nesta semana, como Lily Evans se curou, como o senhor estava tão fraco e como ninguém poderia interferir em nada, te forçando para longe ou te alertando sobre o que ocorria.
Levantando-se enquanto sentia que aquele gabinete ficava cada vez menor e ficava mais difícil de respirar ali, James abriu a porta e se virou para a curandeira.
- Obrigado, por todas as informações e pelo livro.
Senhorita Pomfrey assentiu e sorriu, enquanto assistia-o voltar para a enfermaria.
Por que aquela informação caiu nele? Por que ele quem tinha que saber sobre almas gêmeas, sobre eles serem almas gêmeas? Não era um problema ser a alma gêmea de Lily, pelo contrário...ele só não sabia o que fazer com aquela informação.
"Então, você não sabe, mas a gente se beijou de um jeito bem bacana há uma semana e seria legal que você lembrasse, porque somos almas gêmeas e tudo mais. Estamos destinados um para o outro, saca? Então...a gente faz o quê? Se casa amanhã?"
Ou
"Ei, só para te avisar que descobri que somos almas gêmeas. Legal, né? Está afim de sair por aí desbravando o mundo para descobrir qual é a nossa missão?"
O que ele deveria fazer? O que deveria falar?
Por que não foi Lily quem descobriu isso? Ela saberia lidar melhor, é muito mais madura que ele. Mas não! O destino deu para ele esse papel e para quê? Para ficar mastigando essas palavras sem parar, olhando para ela e querendo apenas ficar com ela porque, aparentemente, é inevitável.
Urgh. Aquilo era ridículo de pensar. Inevitável era uma palavra ridícula, porque soava como se ela estivesse sendo obrigada a ficar com ele.
Se aproximou da redoma criada pelos Aurores e viu que Lily conversava com eles. Ela o viu e parou seu discurso. Moody olhou para trás e revirou os olhos antes de lançar um feitiço na redoma e ela ficar completamente branca, escondendo-os de suas vistas.
Malditos.
Sentou na cama em frente da redoma e olhou para o livro azul em sua mão.
- Do nove ao treze. - Ele sussurrou.
Procurou o capítulo nove e se deparou com o título "Almas gêmeas e suas curas". Fechou o livro e o jogou nos pés da cama. Merlin, o que estava acontecendo com ele? Estava com medo de uma porcaria de livro e de algo que nem era algo ruim? Era um idiota, porque estava reagindo assim?
Pegou o livro de novo e achou o capítulo nove, se recostando no travesseiro e começou a leitura.
Dez minutos depois, a redoma foi tirada e James, que tinha o rosto completamente em choque com o que vinha lendo, fechou o livro e se levantou.
- Ela é toda sua. - Moody disse como um resmungou.
Aparentemente e de um jeito todo diferente, ela era.
Sentiu seu bolso queimar e tirou a varinha com rapidez. Há quanto tempo ela não dava defeito assim?
No momento que tirou o objeto do bolso, a varinha jorrou luzes e faíscas. Os dois Aurores, ainda passando por ele, se assustaram, mas James não reparou, já que olhava para baixo.
Só percebeu que eles estavam atentos, quando os dois homens se moveram para cima dele, as varinhas em punho, obrigando James a dar passos para trás e apontar a varinha defeituosa para eles. Os dois Aurores tomaram distância, mas ainda estavam prontos para atacar.
- Abaixe a varinha agora! - Moody pediu muito menos amigável do que antes.
- Abaixem vocês! - James retrucou, raivoso.
Do seu campo de visão direito, viu Lily correr até ele ao ouvir a confusão, tendo um dos Aurores apontando a varinha para ela, assustado.
- Parem. O que estão fazendo? - Ela perguntou antes de James entrar em sua frente, tirando-a da mira do Auror.
- Ela está desarmada. - James rugiu para o Auror mais novo. - Qual o problema de vocês?
Pomfrey também saiu do gabinete ao ouvir os gritos.
- Não posso deixá-los fora das minhas vistas? - Ela perguntou para os dois adultos. - Vocês não vão atacar esses dois na minha enfermaria, dentro do muro destes castelos ou em qualquer lugar.
- O seu querido aluno estava pronto para nos atacar. - Moody respondeu, dando um passo na direção de James.
- Você está louco? Substituíram seu cérebro por um de madeira também?
Moody foi para cima de James, que o confrontou. Ambas as varinhas apontadas para o pescoço um do outro.
- Não sei de onde está tirando essa estupidez que acha que é coragem, garoto, mas você está longe de vencer um Auror treinado. - Moody falava rápido, com a voz carregada de fúria.
- Do jeito que tem reagido, tem certeza que podemos dizer "treinado"? Me parece que o Ministério tem colocado apenas amadores para nos defender.
James foi pego pela gola da camisa e empurrado para trás, afastando-o de Moody, para que esse o atacasse, mas o maroto foi rápido em defender o feitiço. O outro Auror parecia pronto para entrar na briga, mas Pomfrey o impediu, fazendo com que sua varinha voasse para o outro lado da enfermaria. James criou um escudo em sua frente, já que Moody avançava em sua direção e Lily estava em suas costas, sem sua varinha.
- Tire esse escudo e tente derrubar esse Auror amador.
Era tentador, mas não podia correr o risco de Lily ou Pomfrey serem pegas em feitiços cruzados. Moody continuava a avançar, enquanto as mãos de Lily seguravam seus braços e o puxava para trás, tentando distanciá-lo do Auror raivoso.
- Não vale a pena acertar Aurores, quando parece que eles já são minorias lá fora para nos ajudar. - Lily pedia enquanto continuava a puxá-lo para trás, o escudo os acompanhando e Moody avançando.
Moody falava algo para ele, Pomfrey respondia da saída do gabinete, Lily retrucava em suas costas e o outro Auror parecia proferir palavras nada gentis para a curandeira. James apenas analisava a cena, tentando pensar, achando razões para aquela cena bizarra.
Mas não precisava pensar em uma maneira de sair dali, já que no segundo seguinte, a Fawkes entrou voando baixo pela enfermaria, chamando a atenção de todos. Ela gralhou alto e bateu suas asas em direção ao chão, obrigando todos os presentes a fecharem os olhos com o vento forte e a poeira que subiu em suas direções.
Quando James abriu os olhos, Dumbledore estava parado entre ele e Moody. Fawkes já se encontrava em cima de um dos armários de vidro da enfermaria, seus olhos escuros bem atentos em todos os envolvidos. Ela não parecia nem um pouco contente.
Dumbledore olhou para Moody, o outro autor, a senhorita Pomfrey e, por último, para seus Monitores-Chefes.
- Olá novamente, senhorita Evans. Vejo que tem mais energia do que quando nos vimos nesta manhã. Sente-se melhor?
James olhou por cima de seus ombros e viu Lily parar ao seu lado, arrumando o traje da enfermaria, completamente sem graça.
- Sinto-me melhor, diretor. Obrigada. - Ela limpou a garganta.
Todos pareciam perdidos com a repentina mudança no ambiente que a presença de Dumbledore causou. James nem sabia como ele surgiu ali, como Fawkes poderia trazê-lo de um lugar ao outro do castelo, mas não adiantaria tentar entender a mágica poderosa do diretor. Mesmo querendo muito aprender como fazer.
- Ótimo. Fico contente em saber que estamos todos bem. - Dumbledore olhou em volta novamente, parecendo medir os estragos que uma briga em sua enfermaria poderia ter causado, mas parecia contente em ter chegado a tempo.
O diretor foi até o maroto e pousou uma mão em seu ombro.
- Semana agitada, senhor Potter. Como se sente?
- Sinto que estão todos loucos! - Ele respondeu, nervoso, cuspindo a raiva que estava segurando até o momento. - Por que enviaram dois idiotas para interrogarem Lily? Ela não fez nada! Alguém checou se eles são mesmo Aurores ? Porque parecem mais dois imbecis que acharam no átrio do Ministério.
A explosão dele causou desconforto nos presentes, que esperavam que as coisas acalmassem com o diretor entre eles. Mas a maioria não conhecia James Potter com raiva.
- Eu mesmo chequei. - Dumbledore sorriu minimamente, o que deixou James com mais raiva ainda.
- Deveriam ter mandado outros.
- Oh garoto Potter. Sua raiva e palavras podem levá-lo direto para o Departamento de Aurores, você sendo filho de Fleamont ou não. - Moody deu um passo ruidoso em sua direção.
- Tente. - James respondeu, aproximando-se de Moody.
Os dois foram distanciados magicamente por Dumbledore, criando um espaço seguro entre eles.
- Sr. Moody, agradeceria se o senhor e o jovem senhor Dawlish pudessem esperar por mim em meu escritório. Eu lidarei com os meus alunos e logo estarei com vocês.
- Sempre mole com esses pirralhos, Albus.
- Se acostume com eles, Alastor. Vocês terão que conviver muito em breve. - James pôde ouvir o diretor murmurar para o Auror.
O que? O que diabos aquilo significava? Ele teria que conviver com aquele idiota?
Os dois Aurores saíram da enfermaria, deixando apenas Dumbledore, a senhorita Pomfrey, Lily e ele. Lhe parecia um grupo mais simpático do que o anterior.
- Quando soube que haveria um interrogatório com a senhorita Evans, eu recebi uma carta de seu pai, senhor Potter, avisando que mandariam apenas aqueles em que ele mais confiava no Ministério. - James pareceu surpreso com a informação, fazendo sua raiva diminuir vários níveis. - Ambos foram checados antes de usarem a rede de Flu e checados novamente quando aterrissaram no meu escritório. Se conhecesse o senhor Moody, saberia que estávamos lidando com o verdadeiro.
- Por que o seu pai faria isso? - Lily perguntou.
- Houve uma revolta de pais no começo da semana e meus pais souberam sobre você. Meu pai faz alguns trabalhos para a seção de Aurores e deve ter ouvido sobre o seu interrogatório, acredito.
Ele engoliu o bolo de constrangimento que surgiu. Tinha certeza que Fleamont havia feito aquilo por perceber que Lily era importante para o filho. Teria que agradecê-lo depois. Saber que alguém do lado de fora também estava de olho no que poderia vir ao redor de Lily, lhe deu um alívio descomunal.
- Estamos bem entendidos agora, senhor Potter? Eu poderia ser, de alguma outra forma, útil? - O diretor olhou para os três presentes.
- O senhor fez o bastante, diretor. Obrigada. - Agradeceu a senhorita Pomfrey. Os dois alunos assentiram, de acordo com a curandeira.
- Ótimo. Eu tenho dois Aurores mal encarados para lidar agora. Se me dão licença.
O diretor saiu, andando dessa vez, da enfermaria. James ficou decepcionado, esperando que ele tivesse uma saída tão chamativa quanto a sua chegada.
- Isso foi muito mais do que esperava deste dia. - Pomfrey reclamou, colocando as mãos na cintura e dando uma olhada pela enfermaria, para depois olhar para os dois alunos. - Eu vou deixá-los agora. - Pomfrey olhou para James, como se pedisse para ele tomar cuidado com o que falasse. O maroto acenou uma vez para ela.
- Melhor você voltar para a cama. - Ele comentou para Lily ao seu lado enquanto viram a curandeira sumir pelo seu gabinete.
- Eu estou bem farta de ficar deitada. - Ela riu, mas voltou naquela direção, apenas sentando-se na ponta da cama. - Que começo agitado.
- Eu não estava contando com toda essa bagunça quando você acordasse.
Ele sentou na cadeira logo em frente a ela e fechou os olhos, tentando fazer a adrenalina deixar seu corpo e poder voltar em um estado de relaxamento. Após alguns segundos, ele levantou a cabeça. Observando-a, percebeu que Lily parecia um pouco fora de si.
- Você parece cansada. Eu posso voltar depois.
- Se tem algo que não estou, é cansada. Apenas um pouco surpresa ainda com a loucura toda. - Ela riu um pouco. - Não vá.
Droga, não. As mesmas palavras que usou quando estavam a ponto de se beijarem. Foi o "não vá" dela que fez com que James ficasse onde estava, para depois ter a confirmação de que ela queria aquele beijo também.
E ele não podia falar nada. Malditamente nada.
- O que eles conversaram com você? - Perguntou, mudando de assunto em sua cabeça.
Lily revirou os olhos e soltou o ar pela boca.
- Primeiro, me fizeram um monte de perguntas como se eu fosse culpada de algo.
- Como assim?
- Eles me explicaram que, até onde sabiam, eu era vítima, mas ninguém poderia confirmar de quem. Vítima de um Comensal ou de um estudante ou comerciante ou Auror? Eu poderia ser uma seguidora de Voldemort e ter sido pega por alguém do lado deles.
- Eles te trataram como culpada? - A voz dele aumentou alguns tons.
- Se pensarmos bem, eles têm razão. Você me conhece e sabe de que lado eu estou, mas eles não me conhecem. E mesmo você me conhecendo melhor do que eles, talvez você não soubesse desse meu lado.
- Eu saberia se você fosse uma Comensal, Lily!
- Se eu tentasse esconder bem, talvez não. Mas isso não importa. Você sabe de que lado estou, mas eles não podem dizer isso, podem?
Revirando os olhos, ele deu o braço a torcer e assentiu.
- Sim, sim, faz sentido. - Respondeu a contragosto.
- Eu apreciaria se eles checassem as pessoas ao meu redor, neste caso. Talvez outra pessoa estivesse no meu lugar, mas não do mesmo lado que nós. Então acho justo que eles conferiram isso primeiro.
- Ok. Ponto para os Aurores. Uma palma para eles, yey. - James bateu uma palma, ainda contrariado. - E depois?
Lily levou o mau humor dele na esportiva, quase fazendo-a rir.
- Então quiseram saber do ataque. - Ela fez uma careta involuntária. - Acho que a senhorita Pomfrey conversou com você? - Lily o olhou um pouco de lado, quase querendo evitar seu olhar. Ela estava claramente chateada, não que ele pudesse culpá-la. - Explicou que eu não lembro de algumas coisas?
- Sim, ela me disse.
Os dois mantiveram o olhar um no outro por alguns segundos, até James ser o primeiro a desviar.
- O que você disse para eles? - O maroto perguntou, encarando as próprias mãos.
- A verdade: eu não lembro de nada. Ou nada concreto. Eu tenho uma cena na cabeça, de estar duelando com uma criança?! - A voz dela demonstrava sua confusão.
- Uma criança?
- Sim.
- Uma criança, Lily?
Ela riu com a cara de choque dele. Era a mesma que os dois Aurores tinham, a mesma que ela também teve quando pensou nisso.
- Segundo eles, não era uma criança. Acho que todos nós podemos concordar que uma criança não teria uma varinha e, muito menos, a competência. Então estão apostando em Comensais disfarçados. Polissuco. Não é a primeira vez que eles usam isso e os Aurores têm tido dificuldade em algumas cenas de ataques por conta desse método utilizado.
- Filhos da puta!
- Sim, eles são. - Ela deu um sorriso triste. - E isso é tudo o que lembro.
- Do ataque. - Ele disse.
- Sim, do ataque. Eu tenho várias memórias de Hogsmeade.
- E qual é a última?
Lily olhou para cima, pensando.
- Complicado dizer. Eu não sei o que foi por último ou não, é tudo muito confuso. Lembro de estarmos na colina, atrás da Casa dos Gritos.
- Sim. - Ele confirmou, se ajeitando, esperando.
- Lembro de algumas conversas, lembro da copa das árvores acima...acho que eu caí?
- Eu acho que não posso confirmar ou negar, imagino?
- Não, acho que não.
Os dois suspiraram juntos.
- Então eu duelando com a criança. Não tenho mais nada. Claro, lembro de tudo o que aconteceu antes: a caminhada, Honeydukes, Três Vassouras...eu lembro do meu dia até a colina, onde tudo fica confuso.
Ela havia esquecido! A informação foi como uma martelada na cabeça, chacoalhando todos os neurônios, todas as suas memórias. Era um beijo que ele nunca iria esquecer e que estava tão bem guardado, relembrando todos os dias, todo o tempo...que imaginava que se um dia alguém tentasse tirar sua memória, não conseguiria arrancar tudo desse beijo.
Mas Lily esqueceu. Havia sido muito recente e muito próximo do momento do ataque, do momento que a memória havia sido arrancada. O melhor beijo de James Potter era lembrado só por ele. Que maldito castigo.
Queria rir, como riu no gabinete de Pomfrey mais cedo, mas Lily ficaria um pouco confusa, então se limitou a respirar fundo.
- Pomfrey disse que você poderia ter alguns resquícios guardados ainda, por isso vem te ajudando. Talvez você consiga lembrar de algo mais.
Não podiam julgá-lo por manter as esperanças, certo?
- Sim. Esperamos que eu consiga algo mais.
Caíram no silêncio, onde não se olharam, perdidos em seus próprios pensamentos. E se ela tivesse alguma lembrança que fosse, mas estivesse com vergonha de perguntar ou comentar? Seria possível? Ele não a culparia. Não é todo dia que você pergunta a alguém se eles se beijaram, sem terem bebido todas as garrafas de álcool na noite anterior.
- Eu acho que sou o único que sabe que está acordada. As garotas ficaram bem preocupadas e iriam me matar se eu monopolizasse o seu tempo. - Ele sorriu. - Vou avisá-las.
Não percebeu a expressão de decepção de Lily, claramente querendo que o maroto ficasse mais.
- Ok.
- Você precisa de alguma coisa para a sua saída mais tarde? Talvez roupas?
- Acho que roupas seria uma boa ideia.
- Vou pedir para uma delas pegar para você. - Lily assentiu. - Eu volto mais tarde, ok?
Ele estava a ponto de se afastar da cama, mas Lily segurou sua mão. Queria tanto falar o quanto gostava quando ela fazia isso.
- Obrigada, James. Por tudo.
- Eu faria tudo de novo, caso você precisasse.
Lily sorriu e apertou sua mão, antes de soltá-la.
- Vejo você mais tarde. - Ela disse.
- Mais tarde. Logo. - Ele reforçou.
Com as mãos nos bolsos, impedindo-se de pegar Lily e não soltar mais, foi para a saída. Abriu a porta com força demais, querendo descontar sua frustração em algo. Precisava de um tempo para si, lamber as feridas de um beijo esquecido e pensar no que fazer.
A única coisa certa é que aquilo não iria desencorajá-lo e que, se beijou Lily pela primeira vez e ela não se lembrava, ele não teria problema em ter que refazer.
Só duvidava que esperaria tanto tempo desta vez.
Após muitos abraços apertados, broncas, "eu te amo, mas por Merlin, você é muito louca" e tantas outras coisas, Marlene e Alice se espalharam cada uma de um lado da cama e sentaram ao lado de Lily. Era tão bom estar rodeada de boas pessoas e que a queriam tão bem, que o fato de ter perdido alguns minutos de memória, estava sendo vencido por todo aquele sentimento bom.
- Parece que você foi embora por tanto tempo, ao mesmo tempo que nos dá a sensação de que nunca esteve ausente. - Disse Alice.
- Brincar com a sua cara nunca me fez tanta falta, Lilykins.
- E você parece tão bem e saudável. Como se sente?
- Muito bem, na verdade. Sinto que minha energia foi renovada. Parece que esse feitiço deve fazer algum bem, de alguma forma. - Ela sorriu.
- Só para você. Porque para quem ficou aqui esperando, foi horrível.
Lily deu dois tapinhas na mão de Alice.
- Tudo acabou agora. Vocês estão livres dessa preocupação.
- Nossa semana foi bem diferenciada, pelo menos. - Marlene começou. - Passamos menos tempo enrolando, mais tempo revisando, já que anotamos muita coisa para você e líamos depois. Acho que estamos mais inteligentes, graças a você.
- Fico feliz em ter ajudado. - Lily respondeu ironicamente. - Obrigada por terem lido. Eu fiquei sabendo que podemos aprender enquanto dormimos...não sei se é verdade.
As duas amigas olharam para ela, confusas.
- Onde viu isso? - Alice perguntou.
- Não sei. - Lily deu de ombros. - Acho que li em uma revista trouxa uma vez.
- James leu essa revista? Porque ele, com certeza, pensa assim e queria que você não perdesse nada das aulas nesta semana. - Alice comentou olhando para Marlene, como se esperasse a confirmação da amiga.
- Esperamos que vocês dois estejam certos, porque muitos centímetros foram escritos e muitos outros foram lidos. Então espero que você esteja mais inteligente hoje do que há uma semana. - Disse Marlene fazendo uma careta cansada, mas abraçou a ruiva mesmo assim.
Senhorita Pomfrey interrompeu a conversa ao trazer uma poção para Lily tomar e confirmar se as poções dadas pela manhã, fizeram efeito.
- Você está ótima, querida. Poderá voltar hoje para a vida normal. - A curandeira disse, arrancando um sorriso genuíno de Lily. - Mas sem esforço agora e nem nos próximos dias. Retorne a rotina calmamente.
- Eu irei.
A curandeira voltou para o seu gabinete, deixando a boa notícia ser bem recebida pelas três grifinórias.
- Chega de ala hospitalar, sem enfermaria. Sem mais leituras de notas…
- Eu vejo que ler para mim foi mesmo um incômodo enorme. - Lily reclamou para Marlene.
- Ela só está reclamando, porque Black ficou responsável pela leitura do seu livro. - Alice riu da cara da amiga quando disse a verdade.
- Por que ele teve que ler algo legal? Ele nem é o seu melhor amigo. - Marlene olhou para as unhas.
- Não sabia que ficaria com ciúmes de mim com Black e um livro, Lene.
A garota apenas reclamou baixinho, ainda olhando para as unhas.
- O importante é que você vai sair daqui e que está bem. - Alice continuou. - E acho que Marlene está reclamando de barriga cheia, porque ela nem fez o mais pesado.
- Desculpa? Eu li linhas e linhas de Poções e Feitiços para ela. Tem algo mais monótono que isso?
- Eu li Runas, Lene! Sabe o que é explicar Runas para alguém que não está vendo os desenhos e tudo mais?- Alice se exasperou, mas revirou os olhos depois. - Ainda sim, ainda estamos reclamando de barriga cheia. Se tem alguém com qualquer motivo para reclamar, esse alguém é James Potter e não Marlene McKinnon. E você sabe disso.
Aquilo pareceu quase um feitiço de silêncio, pois fechou a boca de Marlene na mesma hora. Lily olhou de uma amiga para a outra, esperando a continuação.
- O que eu perdi? - A ruiva perguntou.
- Tudo, você perdeu tudo o que James fez por você. O jeito que ele gerenciou toda a situação…- Comentou Alice. - Nós não poderíamos ter feito melhor.
- Senhorita Pomfrey comentou um pouco por cima sobre ele ter ficado bastante por aqui.
Aquilo a fez sorrir, ao mesmo tempo que se sentiu culpada pelo maroto ter perdido tanto tempo na enfermaria por conta dela. Ele era inteligente e duvidava que teria notas ruins um dia, mas se acontecesse agora, justo no último ano e por conta dela, a culpa seria horrível de se levar.
- Não, não. - Marlene balançou as mãos. - James não só ficou aqui, ele foi o responsável por tudo. Tudo o que acontecia, víamos com ele: guarda ao lado da sua cama, anotações para lermos para você, trazer coisas que você poderia precisar. Estávamos lidando com alguém da sua família, basicamente. Ele só deixava o seu lado quando realmente precisava. Caso contrário, estaria aqui 24h por dia. Todos concordavam que, mesmo ele nunca ter pedido explicitamente, ele deveria ser o primeiro avisado quando você acordasse. Era simplesmente fato para todos. Não eu, nem Alice, nem a senhorita Pomfrey ou qualquer outro. Mas ele.
Os olhos verdes se arregalaram com a informação.
- Sério?
- Sério! - Alice respondeu. - Então, se você tem ou teve qualquer dúvida sobre o quanto ele gosta de você, por favor, não tenha mais. James faria qualquer coisa para te ver acordada e te ver bem.
Seus olhos marejaram. James não deveria ter se preocupado tanto, ter passado por esse momento. Mas ela não podia negar que era bom ter alguém que a queria tão bem assim.
E ela sabia que, caso fosse o contrário, não sairia do lado dele para nada.
- Guardas ao lado da cama? - Ela perguntou, de repente, percebendo o que a amiga havia dito.
- Sim. Não deixamos você sozinha em momento algum. - Alice confirmou. - Acho que os Aurores vindo falar com você, já te dá uma ideia do que pode ser.
- Eles acham que eu sei algo.
- Eles acham que você conhece quem te atacou. - Marlene disse rangendo os dentes.
Não entendeu quando dois Aurores vieram para interrogá-la. Primeiro, a trataram como alguém que poderia tanto estar do lado de Voldemort, como se também fosse uma vítima. As perguntas eram invasivas, pessoais até, mas com múltiplos significados por trás.
Ela não tinha motivos para se preocupar, sabendo de que lado está, mas se tivesse qualquer coisa para esconder, tinha certeza que iria escapar no meio da conversa. Além do mais, ela não pôde ajudar muito, com a falta de memória.
Aquilo foi até pior do que saber que foi atacada. Senhorita Pomfrey garantia que apenas alguns minutos foram retirados, mas como Lily poderia saber? Se tivessem tirado qualquer informação importante, ela nunca saberia...nunca lembraria. E aquilo ficaria perdido para sempre.
Estava proibida de pedir para alguém lembrá-la dos ocorridos, mas poderia perguntar algo de momentos anteriores.
- Vocês confirmam que meus pais faleceram em um acidente e que eu tenho uma irmã chamada Petúnia ?
As duas amigas a encararam, um pouco surpresas pela pergunta aleatória.
- Sim, Lily.
- Sou da Grifinória, estamos no sétimo ano. Sou Monitora-chefe. Certo?
- Certo.
- James é o Monitor-Chefe?
- Sim.
- Eu tenho aulas de monitoria de duelos?
- Sim.
- Alice namora Frank, Marlene terminou com Fabian e teve alguns momentos com Black?
Marlene bufou e Alice riu, mas ambas confirmaram. Nada parecia ter sumido. Não coisas importantes de sua vida, pelo menos.
- Acho que tudo ainda está aqui, então.
- Claro que sim. O feitiço não levou coisas de antes, Lily, não se preocupe. Você precisa focar apenas nos trinta minutos perdidos, ok? - Alice começou. - Qual a última coisa que lembra?
Tinha que se acostumar em ser perguntada sobre isso. Cada um deles deve ter tido alguma interação com ela e deveriam querer saber até onde ou quando ela se lembrava. Acreditava que James poderia ajudá-la a dizer o que pode ter sido a última lembrança, porque eles estavam juntos, mas não podia perguntar. Ainda.
- Lembro de ir ver o pôr do sol. Na colina, atrás da Casa dos Gritos. - Viu as amigas sorrirem. - Lembro de algumas conversas lá...meu Merlin! - A ruiva colocou as mãos no rosto, lembrando de perguntar a James sobre animagos e interações entre eles. - Ah Merlin.
- O que foi?
- Ah, nada. Um momento constrangedor, uma pergunta imbecil minha. Eu poderia ter esquecido isso!
Mas claro que ela não iria esquecer o que deveria. Tantas coisas que poderia lembrar, mas foi justo esse momento que decidiu criar raízes na sua cabeça.
- O que mais? - Marlene perguntou.
- Acho que caí. - Franziu a testa. - Eu vi uns hematomas no meu corpo hoje cedo, como se tivesse caído há alguns dias, e lembro de olhar para a copa das árvores, como se eu estivesse no chão. Outro momento constrangedor, provavelmente. - Ela riu sozinha.
- Algo mais?
- Um monte de gente correndo na minha direção. Eu não consigo lembrar de James comigo nessa hora. - As amigas se entreolharam, já que sabiam o que havia acontecido da parte de James. Comentou sobre duelar com uma criança, tendo as duas amigas com a mesma expressão de todos os outros. - E só. É tão estranho saber que muita coisa aconteceu e eu não sei. Para mim, nada, além disso, existiu.
- Imagino que deve ser um pouco frustrante. - Alice comentou.
- É muito frustrante. Mas acho que só posso ficar aliviada em estar bem, na medida do possível. E todos vocês também.
- Então o rumor é verdadeiro: a ruiva voltou para nós!
As garotas viram Sirius, Remus e Peter parados perto do biombo. Cada um deles, trazia algo: Sirius com muitos balões e alguns escritos "sono da beleza acabou", "chega de pular aula, vai estudar", "Você perdeu seu distintivo" e "vai repetir o sétimo ano"; Remus tinha um buquê de flores vermelhas bem bonitas e Peter carregava uma caixa enorme de Shock-o-Choc. Lily só pôde sorrir enormemente para eles.
- Muito positivismo. - Marlene comentou ao ler os balões.
- Nada melhor do que uma boa dose de positividade para fazer a ruiva decidir sair desta cama. - Sirius respondeu.
- Obrigada por tudo. - Ela dizia para os três ao receber os chocolates, as flores e os balões. - Foi muito gentil terem trazido algo, não era necessário.
- Eu posso pegar os chocolates de volta, então.
Lily bateu na mão de Peter.
- Agora que trouxeram, não vejo razão para pegar de volta.
- Como está se sentindo, Lily? - Remus perguntou dando um empurrão em Peter.
- Bem, obrigada. Soube que posso sair e voltar a rotina hoje, assim não precisarei repetir o sétimo ano. - Ela disse lançando um olhar para Sirius e o balão.
- Que bom. Você estando bem, a vida vai melhorar muito a nossa volta. - Sirius começou e se sentou aos pés da cama como se fosse a sua. - Não que eu me importasse em ler para você, mas né...a gente sabe que não haverá mais alguém parecendo cadavérico e invadindo salas comunais por aí.
As três garotas olharam confusas para o maroto. Remus bateu a mão na testa.
- Do que está falando? - Lily perguntou.
- Nada. Ele gosta de falar as coisas para impressionar as pessoas, causando confusão. Não dêem ouvidos para ele. - Remus se intrometeu rapidamente. Sirius deu de ombros e sorriu, parecendo satisfeito consigo mesmo. - De qualquer modo, é bom te ver acordada de novo.
- Assim como os sonserinos estão aliviados. - Sirius comentou.
- Cala a boca, Sirius! - O maroto foi repreendido novamente. Peter ria, já que entendia do que falavam, mas as garotas continuavam perdidas.
- O que aconteceu com os sonserinos neste tempo que estive apagada? - Lily olhou para as amigas, mas elas deram de ombros, sem entender também.
- Eu soube de alguém jogando uma bomba de bosta e deixando as pessoas loucas por alguns minutos na sala comunal da Sonserina, mas não vejo nada relacionado com você. - Marlene comentou.
Lily voltou os olhos para os marotos. Remus tentava parecer angelical, Peter olhava para os pés e Sirius mostrava todos os seus dentes em um enorme sorriso.
- Bomba de bosta. Ouviram essa? - Ele perguntou dando um cutucão na barriga de Remus e um tapa leve em Peter.
- Nós já sabíamos que jogaram uma bomba de bosta lá, Sirius. Não finja surpresa.
- Isso foi coisa sua, né? - Marlene perguntou.
- Minha? - Sirius perguntou. - Bem que eu gostaria, mas não.
- E quem…?
- Isso é passado. Alguém foi estúpido de ir lá mexer com essas pessoas, mas Dumbledore resolveu tudo. - Remus cortou Alice, querendo encerrar o assunto. - Então, você tem interesse em abrir essa caixa de chocolates?
Sorrindo, a ruiva pegou a caixa e a abriu, oferecendo-a para Remus que pegou dois, sendo seguido do próprio Peter, mas Sirius recusou, assim como as duas garotas.
- Onde está Potter, afinal das contas? - Marlene perguntou.
- Não sabemos. Ele nos encontrou, contou um pouco do que houve na enfermaria e de que Lily estava acordada e foi embora. - Remus respondeu após engolir o segundo chocolate. - Acho que tinha reunião com os professores, já que ele saiu reclamando algo sobre McGonagall conseguir achá-lo até nos lugares mais improváveis.
- Ah não. Ele ficou com toda a monitoria nas costas. - Lily ficou ereta, os olhos arregalados. - Eu tenho que ir também, deve ser algo importante, já que essa reunião não estava planejada há uma semana.
- Sente seu traseiro de volta nesta cama, Evans. - Sirius apontou para ela. - A senhorita não está saindo daqui para ir em reunião nenhuma. Eu garanto que James Potter é competente para participar de uma reunião de professores sozinho e qualquer informação importante, nós saberemos logo. - Sirius se aconchegou mais em seu lugar.
- Mas James…
- Está fazendo um trabalho incrível, com a ajuda de todos os monitores. - Remus continuou.
- Então ao invés de sair por aí fazendo o que não deve, que tal contar como é ser a mais nova desmemoriada do castelo?
Sirius levou um tapa na cabeça de Remus, antes de uma travesseirada de Marlene.
Todos eles ficaram ali por um bom tempo, até Pomfrey ser obrigada a expulsar todos para que cuidasse de Lily e checasse se ela estava boa o bastante para voltar para a vida normal. O sol já havia se posto, o que lembrou Lily de uma semana atrás - o que ela conseguia lembrar, claro -, pegando-se com muitas perguntas, que sabia que existiam respostas, mas não podia tê-las tão fácil ainda.
Entre todas as lembranças, as poucas que tinha, havia uma "sensação". Era engraçado e estranho, pois não conseguia ver nada, ou seja, não tinha imagens de algo, mas tinha sensações. Sensação de bem-estar, sensação de que tudo estava muito bem, com algo enrolado em si, bem forte, fazendo seu coração disparar.
Eram galhos e folhas circundando o seu corpo todo? Porque tinha a impressão que envolvia esses elementos, mas que havia mais do que isso. Porém, como galhos e folhas lhe dariam essas sensações…? Ou era uma lembrança de braços? Aquilo faria muito mais sentido. Braços a segurando forte, calor por todo o seu corpo, como se outro corpo estivesse colado ao dela.
Soltou todo o ar que segurava. Será? Será que eles se beijaram e ela havia esquecido? Esperou tanto por isso e algum desgraçado apagou sua memória, uma das poucas que nunca queria ter esquecido?
- Até quando a senhorita pensa que eu ficarei sem saber do que aconteceu? Digo, se eu quiser perguntar algo para alguém sobre o tempo que esqueci? - Perguntou quase impaciente para a senhorita Pomfrey após terminarem a última sessão do dia, tentando ligar algumas lembranças.
A curandeira largou seus livros em cima da cama de Lily, que estava em pé agora e vestida com suas roupas normais, ao invés de um pijama da ala hospitalar.
- Não recomendo até terminarmos nossos exercícios, querida. Eu quero tentar o máximo possível em trazer sua memória ou ligar o máximo de pontos possíveis. Aguente mais um tempo.
- Sem problemas. - Respondeu, um pouco desanimada.
- Todos nós queremos saber quem a atacou, mas vamos fazer isso lentamente, ok?
- Claro.
Para falar a verdade, não era tanto sobre o seu ataque que ela tinha curiosidade. Mas todo o passeio de Hogsmeade. Tudo. Tudo o que, possivelmente, aconteceu.
Para ela, o ataque ocorreu, talvez conhecesse a pessoa e tinha a impressão que não ocorreria de novo. Se fosse alguém conhecido, dificilmente teria a coragem de fazer de novo, considerando o perigo. Ou teria que vir para matá-la. Talvez fosse a sensação de segurança que sentia no momento, rodeada de pessoas que a faziam sentir-se segura, que não a deixava tão preocupada.
- A boa notícia é que você está bem e pode voltar ao seu dormitório e às aulas amanhã. Mas gostaria de vê-la no final do dia, ok?
- Estarei aqui, senhorita Pomfrey. Obrigada.
- Foi um prazer, querida.
Lily pegou os balões, flores, chocolates e mais algumas lembranças e pergaminhos e foi acompanhada até a porta pela curandeira.
- Boa noite, senhorita Pomfrey.
- Boa noite, senhorita Evans.
Com um sorriso, a curandeira abriu a porta para ela e Lily saiu.
Na parede logo em frente da porta, estava James com os braços e tornozelos cruzados, a cabeça baixa, mas os olhos fixados nela. Ele abriu um sorriso enorme ao vê-la.
- Precisa de ajuda com tudo isso? - Ele perguntou vindo até ela e pegando os chocolates, algumas flores e os pergaminhos, deixando-a apenas com os balões e as flores de Remus.
- Obrigada. - Respondeu encarando-o, extasiada. - Eu não sabia que estava aqui fora.
- Eu poderia ter entrado, mas imaginei que precisava se arrumar.
- Não precisava perder sua noite e jantar para me esperar.
- Eu não ia te deixar voltar sozinha depois de uma longa semana de espera.
Apesar de não sentir que ficou desacordada por uma semana, as palavras dele lhe abraçaram, mostrando o quanto sentia falta dele, do quanto aquela parte da vida dela estava vazia.
- Fico feliz em ver que pensa assim.
James sorriu verdadeiramente para ela e tirou algo do bolso.
- Eu tomei conta dela neste tempo, mas está na hora de voltar para você.
Era a sua varinha. Enquanto estava na enfermaria, pensou que havia perdido no ataque e que teria que comprar uma nova. Mas James não fazia as coisas pela metade, fazia?
- Até a minha varinha você recuperou. - Ela disse.
- Ela foi bem cuidada e polida, mas está com algumas marcas.
- Não importa. Obrigada por ter pego e cuidado dela.
Os dois Monitores-Chefes começaram a descer o corredor com uma senhorita Pomfrey bem feliz e sorridente espiando da porta. Lily não conseguia tirar o sorriso do rosto, como se fosse uma criança com um doce após um dia todo esperando por ele. Olhou para James, o que fez o maroto olhar para ela e sorrir também.
- Você parece bem feliz em voltar para o dormitório. - Ele comentou.
- Podemos dizer que sim. - Ela sentia-se realmente feliz e pronta para voltar à rotina. Ao lado dele. - Houve uma reunião hoje?
James assentiu e fez uma careta.
- O diretor dará um aviso no jantar. - Ele olhou com dificuldade para o relógio. - Em alguns minutos, imagino.
- Eu não vou descer para o jantar, então pode dar a notícia agora.
- Por que não vai descer para jantar? Você não vai sair da enfermaria para ter que voltar logo depois, não é?
Lily apenas negou com a cabeça, o sorriso ainda no rosto e uma expressão de tranquilidade.
- Apenas feliz demais para descer e chamar a atenção por ter ficado na ala hospitalar por uma semana. Além do mais, quero me preparar para a semana e conferir tudo o que perdi com as anotações que vocês trouxeram etudo mais. Eu vou comer alguma coisinha depois.
- Bom, não se agite muito sobre as aulas. - Ele disse. - Esta semana será a última.
- A última?
Ela parou no corredor, obrigando-o a parar também.
- Antes já estava planejado sermos mandados mais cedo para casa, agora iremos mais cedo ainda. Parece que vão fazer um trabalho intenso no castelo, como verificação da segurança e novas proteções. Dumbledore e o Ministério não querem que algo aconteça aqui dentro, como aconteceu em Hogsmeade. Seremos mandados embora no sábado que vem, com atividades e estudos para as semanas que deveríamos passar aqui normalmente.
- E os estudantes que não podem voltar para casa?
- Pela lista, não são muitos, já que os pais querem trazer os filhos para casa. Mas os que ficarem, terão todo o suporte que precisarem durante esse tempo.
Que loucura. Um ataque em Hogsmeade que desencadeou tudo aquilo. Tentou pensar se faria o mesmo com seus filhos, trazendo-os para casa após um acontecimento daqueles, mas só entenderia aquela lógica quando fosse mãe.
Aquilo a fez olhar para James e desviar o olhar rapidamente.
- Seus pais estavam a favor de te tirar antes? - Resolveu perguntar.
- Não. Acham besteira trazer crianças para fora neste momento. Ataques estão ocorrendo longe de Hogwarts também. Mas resumindo o que minha mãe disse: apenas sendo pais para entender esse desespero.
- Ela não está errada.
Chegaram no dormitório e Lily se sentiu em casa. Entrando na sala comunal que dividiam, era chegar em casa. James espalhou algumas flores pelo lugar, assim como pergaminhos, quase como se tivesse planejado com bastante antecedência onde colocar cada coisa.
- Pronto. Agora não parece apenas James, mas temos bastante Lily esparramada. - Ele disse parecendo bem satisfeito. - Eu vou descer para jantar, porque tenho que servir de apoio para a notícia. Mas que tal se eu pedir para Fixez te enviar algo para comer?
- Não precisa se dar o trabalho de ir até a cozinha para isso, James.
- Não será trabalho. E ele ficará muito feliz.
Ela revirou os olhos.
- Obrigada, mas esses favores terminam aqui, ok?
James estalou a língua e revirou os olhos, enquanto a assistia subir para o seu quarto.
Por alguns momentos, James apenas ficou ali, olhando para o nada, situando-se, deixando sua cabeça entender que tudo estava voltando ao normal. Apenas uma semana havia se passado, mas James tinha a impressão que ela ficou fora por muito mais. Ouvir barulhos vindo do andar de cima era quase estranho para ele, mas era um alívio também.
Lily estava bem, de volta...e, aparentemente, não se lembrava do beijo.
Bagunçou os cabelos, nervoso. Enquanto esperava pelo interrogatório dos Aurores, leu dois capítulos do livro da senhorita Pomfrey. Depois, leu os outros três restantes em pé, em uma sala vazia. Andando em círculos, parando na janela e pensando, andando em círculos novamente. Até agora, não sabia o que pensar.
Ele, não um feitiço ou poção, mas ELE havia ajudado Lily a melhorar. Foi ele, que estando ao lado dela, deu toda a força que ela precisava para se recuperar mais rápido e bem melhor do que se dependesse apenas dos cuidados normais.
Aquilo era surreal de pensar, apesar de fazer sentido tudo o que sentiu naquela semana, todo o cansaço que sentia, aquela falta de energia e Lily estar melhorando a cada dia.
Segundo o livro, as almas gêmeas fazem tudo o que é necessário para manter sua outra metade bem, para assim seguirem em frente juntas. É algo que nenhum dos dois poderia saber, nenhum dos dois poderia identificar, pois era feito de um jeito simples.
Pomfrey havia dito sobre ninguém poder intervir e era verdade. Era uma cura feita de um ato puro e ingênuo, de uma alma que reconhecia a outra sem intervenção externa, sem comandos...apenas o reconhecimento entre elas e a cura sendo feita de uma maneira "natural". Aquilo explicava a necessidade que ele sentia de estar ao lado dela, mas sabia que ia além daquilo. Era também por amor, por vontade de não perder o momento que acordasse e pudesse falar com ela novamente e vê-la bem.
O livro também falava e deixava claro que ressurreições não eram possíveis, mas havia pouco estudo sobre o que ocorria com a alma das almas gêmeas quando estas morriam. Apenas um fantasma não passou para o outro plano, e que foi capaz de dar alguns detalhes, porém não muitos. Mas ressurreições não pareciam ser a missão que almas gêmeas carregavam.
- Preciso parar de enlouquecer com isso.
Não querendo mais pensar em almas gêmeas, ele saiu do dormitório tentando focar no jantar.
Sabe aqueles momentos que você fica com raiva do seu "eu" do passado? Quando você se pergunta o que estava pensando quando tomou aquela decisão?
Lily perguntava-se aquilo enquanto via a bagunça em seu quarto. As roupas um pouco espalhadas por todo o lugar, quando escolhia o modelo certo para o encontro com James em Hogsmeade. Ela riu sozinha com aquilo. Não podia imaginar que voltaria desacordada e voltasse ao normal apenas uma semana depois. Mas ainda sim, perguntava-se o motivo de não ter arrumado tudo no mesmo dia. Mas conseguiu usar uma hora do seu tempo para arrumar tudo, ao mesmo tempo que lia uma ou outra anotação de diferentes matérias.
Aquela campainha bizarra soou pela segunda vez na vida de Lily, avisando que alguém queria falar com algum dos Monitores-Chefes.
Era a hora do jantar e todos deveriam estar lá embaixo, inclusive James. Por que não falaram com ele diretamente? Não que ela queria que o maroto tivesse toda a carga do trabalho em suas costas, mas achou estranho alguém procurar por um deles ali, naquela hora.
Desceu as escadas e viu uma bandeja em cima da sua mesa de trabalho e um cheiro maravilhoso que tomava todo o lugar. Aquilo era coisa de Fixez, tinha certeza. Sorrindo, foi até o quadro e o abriu.
E pela segunda vez, era Severus Snape.
Ficou sem fala e, por alguma razão, sentiu um certo receio de sua presença. Não entendia o motivo disso naquela altura do campeonato. Ele não iria atacá-la só por estar sozinha, certo?
- Oi. - Ele a cumprimentou, um pouco tenso.
- Não vejo pergaminhos com você. Não será uma nova tarefa de última hora que esqueceu de nos avisar, eu espero?
Ele pareceu aceitar o ataque, mas se recuperou rapidamente.
- Podemos conversar?
- Sobre?
- Sobre Hogsmeade.
Aquilo fez com que seu sarcasmo escorregasse de sua língua e fugisse. Lily limpou a garganta e deu espaço para que ele passasse.
- Não sei o que tem para dizer sobre Hogsmeade, mas confesso que chamou minha atenção. - Ela disse enquanto fechava o quadro.
Severus parou no meio da pequena sala comunal e, mesmo que tenha sido a segunda vez que ele estivera ali, foi a primeira que Lily analisou o ambiente com a sua presença. Ele não parecia se encaixar naquela sala, naquele lugar onde algumas memórias boas existiam com James. Se Severus fosse escolhido como Monitor-Chefe, imaginava que o lugar seria mais sombrio, mais frio, menos vivo. Não por ele ser um sonserino, mas por ser ele e sua falta de simpatia, vivacidade e empatia.
- Primeiramente, como se sente? Eu não sei se Potter ou qualquer outro disse, mas eu fui te visitar.
- Ninguém pareceu achar uma informação importante. - Ela cruzou os braços. - Você não foi o único a me visitar, devo dizer, e não vi ninguém querendo se gabar por isso.
- Eu não quero me gabar, apenas dizer que eu me importo com o que aconteceu e que fiquei preocupado. - Ele colocou as mãos para trás, ajeitando a postura. - Eu não sei muito o que aconteceu, mas soube que Potter a trouxe de volta.
- Não que eu estivesse acordada para saber, mas sim, foi ele.
O sonserino assentiu.
- Você não respondeu como se sente. Sequelas do ataque, do feitiço usado?
- Estou bem, graças a senhorita Pomfrey e todos os outros que me ajudaram.
- Fico feliz que esteja bem.
Era engraçado. Normalmente, quando alguém dizia isso, havia algum sorriso que acompanhava. Mas Severus já estava tão batido da vida, tão incrustado em uma situação de ódio e raiva pelos outros, que duvidava que sorrisse hoje em dia. Não duvidava que ele estivesse feliz em vê-la bem, mas era triste ver seu amigo de infância naquelas condições.
- Obrigada. - Respondeu, sem um sorriso de agradecimento. - Isso é tudo? Como pode ver, estava prestes a jantar.
Ele abriu e fechou a boca algumas vezes, antes de optar por fechá-la. Sem ser pedido, Severus deu as costas e foi para o quadro, pronto para sair.
Lily deixou todo o ar sair de seus pulmões e agarrou o encosto da poltrona, querendo se livrar daquele peso gigantesco que era a decepção.
- Fui eu.
Lily se virou para o quadro onde Severus estava parado. Ele se virou para encará-la, seus olhos negros pareciam um pouco com os que conheceu anos atrás.
- Você...o quê? - Ela perguntou pausadamente, não querendo ouvir o que pensava que iria ouvir em seguida.
- Eu te ataquei.
Sem demora, ela invocou sua varinha que estava no quarto e apontou para ele. Seu peito doía, seu estômago retorcia.
- Você me atacou?
- Lily, me deixe explicar.
- Como pode haver alguma explicação para isso? - Sua voz estava mais grossa com a raiva.
- Há uma explicação. Apenas me escute.
Queria que ele saísse dali, que nunca mais o visse...que desaparecesse.
- Saia daqui.
- Lily, por favor. - Ele jogou a própria varinha longe, mostrando que não iria atacá-la. Lily estranhou a varinha dele ser diferente da que conhecia, mas não deu muita atenção a isso. Talvez tenha perdido a antiga na merda do ataque de Hogsmeade. Teria sido bem feito.- Faça o que quiser de mim depois, mas me deixe explicar primeiro.
- Não.
Ela meneava a cabeça e ia para trás, a varinha ainda bem apontada para ele.
- Os Comensais que queriam te atacar. Eles queriam te matar, provavelmente torturar antes. Eu não podia deixar isso acontecer.
- ENTÃO VOCÊ ME ATACOU?
A voz dela ricocheteou pela sala. Ouviu o pio de Heros lá de cima, reclamando do barulho.
- Eu te tirei de jogo. Lancei um feitiço que daria a impressão que estivesse completamente fora, assim eles não iriam continuar com o ataque. - Severus estava desesperado. - Eu quis te ajudar.
- E a sua ajuda é me atacar, me deixar caída no meio de Hogsmeade para ser atacada por outras pessoas, talvez...AO INVÉS DE LUTAR COMIGO?
Os olhos dele se abriram e sua boca fechou.
- Lily, as coisas são difíceis…
- Ser um Comensal é difícil, eu imagino. Ao invés de lutar ao meu lado contra quem queria me matar, você me atacou. - Lily abaixou a varinha e se aproximou dele. - Você me atacou, Severus. E eu que pensava que um "sangue-ruim" vindo de você era o auge da sua sujeira, da sua maldade, da sua falta de empatia. Mas você consegue ir cada vez mais longe...qual será o próximo passo? Me matar? Matar minha família? Fazer a vida das pessoas que eu amo, um inferno? Um inferno que você viveu? Você quer repetir com as pessoas ao redor, tudo o que você viveu, ao invés de acolher quem precisa, como você precisou?
- Por favor.
- Eu te acolhi, assim como eu sentia que havia sido acolhida por você. E o que você faz para homenagear todos os anos que fomos amigos? Me chama de sangue-ruim na frente da escola e me ataca ao invés de lutar comigo.
Alguns objetos ao redor começaram a chacoalhar, fazendo Severus dar um passo para trás. A raiva de Lily começava a chegar em um nível incontrolável, podendo influenciar o ambiente sem que ela percebesse.
- Você roubou a minha memória também.- Ela acusou, a voz mais controlada.
- Apenas por querer explicar eu mesmo o que ocorreu.
- Você a tem?
- Não.
Aquilo parecia uma piada e uma de muito mal gosto.
- Saia.
- Escute, eu espero lhe retribuir isso um dia. Eu daria a minha vida por você.
- Você daria no futuro sua vida, mas sua lealdade aos dezessete anos lhe parece um pouco pesado demais, não? - Severus engoliu em seco. - Eu não quero que dê sua vida por mim, eu não quero nada seu. Eu nem vou te denunciar, sabe por quê? - Ela se aproximou ainda mais dele, ficando apenas um palmo de distância. - Porque você merece ter essa culpa, que eu vejo que está te corroendo, pesar em seus ombros. Você não merece Azkaban, Severus Snape, você merece sentir a culpa de ter feito o que fez, e saber que você nunca será capaz de se redimir. Isso, talvez, te impeça de repetir com qualquer outra pessoa.
- Desculpe, Lily. Você está certa, mas queria que pudesse entender a situação.
- Eu entendo muito bem a situação. - Ela deu as costas para ele. - Agora saia, antes que descubram que está aqui. Eu disse que não te denunciaria, nem acabar com você eu farei...mas não posso garantir que outra pessoa pense o mesmo.
Tinha certeza que o sonserino sabia de quem ela falava.
- Eu gostaria que você pudesse ver o meu lado e entender que eu fiz para te ajudar. Eu nunca faria algo para te machucar de propósito, Lily, por favor. Apenas compreenda isso. Eu sei que ficarei arrependido por todo o sempre por ter agido assim, mas..
- Eu espero mesmo.- Ela o cortou. - Agora vá atrás dos seus amigos Comensais. Devem estar esperando por você para invocar uma entidade medonha no fundo do lago.
Severus, vendo que insistir não o levaria a lugar algum, ele abriu primeiro por fora. Os dois ocupantes do lugar encararam James parado no batente do quadro, enquanto os encarava de volta.
Ele parecia longe de estar feliz ou surpreso. Aparentemente, ele já sabia que Severus estava ali.
- O mapa. - Lily sussurrou baixo, apenas para si.
James entrou, obrigando Severus entrar novamente, sem tirar os olhos do maroto. O sonserino se encontrou encurralado com Lily em suas costas e James Potter em sua frente.
- Perdido? - O maroto perguntou, a voz falsamente controlada.
- Ele queria saber como eu estava. - Lily respondeu por Severus.
- Devo dizer que o Salão Principal se encontra no térreo, onde todos os alunos estão jantando. - James tinha a atenção voltada completamente no garoto a sua frente. - Então faça esse favor para todos nós e desça.
Agora a expressão de desolação não existia em Severus, apenas a repugnância em direção ao maroto.
- Se eu tiver que falar com a Monitora-chefe e ela aceitar a reunião, não será você que impedirá.
- O Monitor-Chefe não poderá impedir, mas James Potter pode pensar diferente.
- James, apenas deixe-o ir.
Não valia a pena. Ele não valia a pena o estresse, a raiva e a paz deles.
Parecendo considerar o pedido dela, James deu um passo para o lado e deixou o sonserino passar. Eles se olharam duramente até Severus chegar ao quadro e sair.
O lado bom é que James não pareceu ter escutado o que se passou por ali, que Severus havia sido o responsável pelo ataque.
Merlin! Lily sentou na poltrona, sem acreditar. Severus Snape a atacou. Não Mulciber, nem Dolohov ou Avery. Seu próprio ex melhor amigo. Arrancou sua memória para que ela não acordasse e o acusasse logo em seguida...perdeu trinta minutos da sua vida por um decisão dele, por uma escolha dele.
E usa a desculpa de atacá-la para não acontecer algo pior. Quais condições ela estava? Amarrada sem poder se defender? Tinha o próprio Voldemort em sua frente? A situação era tão difícil, que ela não conseguiria sair sozinha?
Preferiria ter morrido lutando. Não queria morrer agora, mas teria lutado.
- Lily? - Ela levantou os olhos e encontrou James parado em sua frente. - O que aconteceu? O que ele fez?
- Nada. Nada, ele não fez nada.
- Você está perturbada como nunca. Ele disse algo, não? Foi sobre o ataque?
- Não, James. Apenas brigamos. - Ela apoiou a cabeça nas mãos. - Nada demais.
Quando as notícias ruins iriam parar de chegar naquele dia? Estava desacordada e parecia que tudo de ruim estava à espreita, esperando que ela acordasse, para que caíssem como bombas, uma atrás da outra.
Tinha que pensar em algo bom, tirar sua mente daquele lugar escuro que parecia se embrenhar.
- Vou jantar! - Ela disse, de repente, se levantando. James teve que dar um passo para trás para não levar uma cabeçada dela.
- Fixez parece ter enviado tudo. - Ele comentou vendo-a indo até o prato e levantando a tampa. - Tem certeza que tudo está bem?
- Sim, está tudo bem. - Ela limpou a garganta. - Você jantou?
- Sim.
- Então teve tempo de comer antes de me espiar pelo mapa?
Seu tom irônico não escapou dos ouvidos de James.
- Foi Sirius quem viu Ran-Snape no mapa, não eu.
Lily sentiu as bochechas pegando fogo com o tom e frase malcriada para ele. Não era culpa de ninguém Severus ser um idiota e, depois de tudo, James não merecia ser o alvo de seu desgosto.
- Desculpe. - Ela disse, sinceramente. - Você não merece receber nenhuma das minhas frustrações. Acontece que você chegou no momento em que elas estavam no pico. - Lily sorriu sem graça. - Desculpe.
- Está tudo bem. - Ele deu de ombros. - Você já me viu em estados piores. Além do mais, se eu for estar ao seu lado apenas para receber elogios, acho que não terá tanta graça.
James piscou para ela e puxou a cadeira da mesa, fazendo uma mesura exagerada, para que Lily sentasse para jantar.
- Obrigada, senhor Potter. Estou ficando mal acostumada com todos esses mimos.
- Tem razão. Acho melhor parar. - Ele aproximou o prato para ela mesmo assim e entregou os talheres. - Eu te vejo mais tarde, ou amanhã. Tenho ronda agora.
- Ah, claro. Depois eu mudarei as rondas desta semana. Não foi justo eu ter ficado uma semana sem fazer e você ter ficado com tanto trabalho.
- Você estava desacordada na enfermaria, Lily! Não é caso de justiça ou injustiça. E você tem programada uma ronda com Remus na sexta, então tenho certeza que ele te fará trabalhar pesado na última ronda do ano.
- Bem típico dele. - Ela resmungou e deu uma garfada no jantar.
- Bom apetite. Até amanhã.
- Até amanhã. Boa ronda.
James sorriu para ela e se virou para o quadro, o sorriso morrendo no segundo seguinte. A raiva fazendo-o trincar os dentes
Se ele não matasse Severus Snape até o fim do ano letivo, aquilo seria um milagre
Foi uma semana intensa.
Os alunos estavam divididos entre a felicidade de antecipar as férias, com o cansaço do trabalho pesado que estavam recebendo dos professores.
Para Lily, estava ainda dobrado. Usava as anotações que seus amigos fizeram durante a semana passada para poder compreender as aulas daquela semana e poderia dizer que estava funcionando muito bem. Tudo estava bem detalhado, o que fazia tudo mais fácil, além de ter a impressão que terem lido para ela, ajudou. Não diria que sabia tudo de cor, mas as matérias pareciam mais tranquilas de serem compreendidas. Às vezes, até se pegava pensando se já não tinha estudo o assunto antes, já que lhe parecia vagamente familiar.
Os olhares estavam por todos os cantos, assim como os cochichos. As perguntas começaram a vir na parte da tarde da segunda-feira, com curiosos querendo ter detalhes da briga intensa que ela teve com dois Comensais e um dragão nas florestas de Hogsmeade. Cortesia de Sirius, que espalhou a história, fazendo Lily a pessoa mais interessante do castelo.
Ela não negou a história.
Todas as aulas e lições encaixavam com a Monitoria e com as sessões com a senhorita Pomfrey. Conseguiu recuperar alguns detalhes da meia hora perdida, como quando chegava no meio da loucura por aparatação, com James ao seu lado. Também se lembrou de ter caído sim e deslizar pela terra e folhas. A curandeira tinha reuniões com James depois de suas sessões para confirmar se o que Lily lembrava era correto e ficava feliz toda vez que ele confirmava, mostrando que as sessões ajudavam muito. Apesar de saber que as sessões eram mais focadas em fazer Lily lembrar de quem potencialmente a atacou, ela apenas ia para que pudesse recuperar as lembranças de antes do ataque, enquanto ainda estava na colina, já que Severus Snape havia feito o favor de lhe dizer quem foi o idiota responsável.
No final da semana, a exaustão do castelo era visível. O jantar era formado por estudantes cansados, alguns dormindo enquanto mastigavam, e prontos para voltarem ao dormitório e terminar de arrumar suas malas para embarcar de volta às suas casas no dia seguinte.
- Você já tem toda a mala pronta. - Lily comentou para Remus enquanto faziam a ronda de sexta.
- Eu tenho um cérebro. Não deixaria para fazer depois dessa semana e uma ronda. - Ele olhou para ela. - Tenho certeza que você também.
- Gênios pensam iguais. - Ela sorriu.
- Então que tal usarmos nossa genialidade para dar uma última volta no temível corredor do temível armário de vassouras e irmos embora? Não há estudantes deste castelo acordados e com energia o suficiente para estarem fora da Sala Comunal hoje, mas nunca se sabe.
- Não me peça duas vezes.
Eles tomaram o rumo para tentar encontrar algum casal com energia renovada no tão disputado armário de vassouras, mas estava vazio. De lá, foram em direção aos dormitórios dos Monitores-Chefes, tendo Lily desejando sua cama mais do que nunca.
- Eu sei que tudo o que aconteceu na semana passada tem um impacto muito forte em você, mas...eu te sinto um pouco estranha.
Lily se virou para Remus, que olhava para frente, pensativo.
- Estranha como?
- Estranha do tipo de estar sofrendo sozinha. - Remus lançou uma olhada para ela, antes de continuar. - Eu sei o que é isso, esconder algo e sofrer sozinho.
- Não é nada, Rem.
- É tudo, se isso te faz sofrer. Tem algo a mais do que ocorreu semana passada?
Contar para alguém, compartilhar o que soube de Severus era tentador, mas não iria ajudar. A decepção ainda estaria ali, a tristeza continuaria ali e, provavelmente, as coisas poderiam piorar.
Pensou muito sobre o ocorrido, sobre o que lhe foi dito. De fato, poderia ter sido pior e Lily poderia ter morrido ou ter sofrido muito mais. Tinha que parar de fingir acreditar que Severus Snape pudesse lutar ao seu lado um dia, porque aquilo não parecia tão perto de acontecer quanto sua irmã ser adorável com ela. Aquela faísca de esperança havia sumido há alguns dias atrás e tinha que encarar a realidade de que estavam em lados diferentes e nem com a sua vida em risco, de alguém que ele diz se importar tanto, ele se posicionou diferente.
Aquela tristeza era algo que tinha que lidar sozinha e assim seria.
- Não é nada demais, Rem, mas obrigada. Preciso apenas me certificar de compreender que o que ocorreu não pode ser mudado e seguir a vida longe o bastante da causa do problema.
O maroto franziu as sobrancelhas, mas não respondeu.
Quando chegaram até o quadro do dormitório, ouviram música alta. Eles se entreolharam.
- James costuma fazer isso? - Remus perguntou.
- Não tão alto assim.
Deu a senha e entrou na sala comunal e...havia uma festa.
Com vários grifinórios e bebida.
- Vocês chegaram mais cedo. - Sirius os cumprimentou. - Ainda temos cerveja amanteigada, mas não garanto duas para cada. Todo mundo bebeu bastante já, não esperava isso.
Isso ela poderia confirmar. Muitos alunos estavam caídos em alguns pontos do lugar, dormindo mesmo com a música alta e as conversas. Poucos restavam em pé e dançando.
Uma coisa Lily poderia dizer também: havia demorado para uma festa acontecer ali. Considerando quem dormia ali e de quem era amigo, três meses e meio foi um limite bem aceitável.
- Obrigada. - Agradeceu Sirius pela cerveja. Deu longos goles, querendo que aqueles dias sumissem da sua vida. - Vocês não se importam se eu terminar essa cerveja no meu quarto?
- Er, sobre isso. - Sirius sorriu sem graça. - Pode ser que seu quarto esteja ocupado.
- Por quem? - Era só o que faltava agora: um casal no seu quarto!
- Calma, nada demais. Algumas garotas beberam demais e elas foram dormir lá em cima. Alice e Marlene entre elas, mais Johanna do time do Quadribol e Mary McDonald. - Isso queria dizer que o quarto estava lotado. Santo Merlin. - Mas James tem um plano para você. Ele está lá em cima, terminando a mala.
Lily apenas olhou para Sirius, tentando acreditar que aquilo era vida real. Depois, se virou para Remus, que tinha um olhar de pesar.
- Desculpa por eles, mas eu tentei de tudo e não deu certo colocá-los no lugar.
- Vamos lá, é a nossa última noite de 1977 aqui. Nossa última viagem de Natal para fora de Hogwarts. Temos que comemorar.
A ruiva deixou o maroto tentando convencer o próprio amigo e foi em direção as escadas. Não estava brava com a festa em si, mas estava cansada o suficiente para não querer comemorar a "última noite do ano de 1977 em Hogwarts".
O quarto de James estava aberto, então se aproximou, dando três toques na porta. James apareceu na porta do banheiro e sorriu para ela. Não o via completamente, mas percebeu que ele estava sem camisa, talvez saindo de um recente banho.
Foca em outra coisa, Lily
- Entra. Eu chego em um minuto. - Ele pediu, sumindo logo depois.
Ela entrou em seu quarto, vendo que as malas dele já estavam prontas e a maioria das coisas, arrumadas.
- Você não é mesmo tão bagunceiro. Remus me disse, lá no começo, que você era limpinho.
Ouviu a risada dele no banheiro.
- Sim, sou limpinho. Com bagunça aqui e ali, mas limpinho. Isso é o resultado da varinha de uma mãe bem perto da sua orelha desde pequeno. - Ele respondeu lá de dentro.
- Entendo. Ela fez bem.
Um movimento perto da janela a assustou. Uma enorme coruja estava empoleirada ali, toda majestosa, um olhar curioso para ela. Lily não tinha ideia de como não havia reparado na ave antes, mas talvez seja pelo quarto estar decorado com tantas coisas coloridas e rosas, que sua mente deve ter passado batido.
- Essa não é a sua coruja.
- Do meu pai. A minha nunca fica por perto. Ela deve participar de mais festas do que eu. Às vezes, tenho que pegar a dos caras para enviar algo.
- Rebelde.
- Rebelde que adora pedir petisco como se fosse a coruja que mais trabalha nesse mundo.
James saiu do banheiro em roupas normais, mas longe de estar pronto para ir em uma festa no andar debaixo.
- Isso me soa...
- Não diga que soa como o dono. - Ele pediu, rindo.
- Fato. Você tem trabalhado bastante, merece seus petiscos.
O expressão sossegada dele pareceu escorregar, mas ele se recuperou rápido.
- Sobre a festa…- Ele começou um novo assunto. - Foi algo de última hora. Queríamos apenas ter algo bom antes de irmos. Tem algumas garotas dormindo no seu quarto, então vou deixar o meu para você.
- E onde irá dormir?
- Na Torre da Grifinória, provavelmente. Ou lá embaixo.
- Eu posso ir dormir na Torre, sabe? Ela vai estar bem vazia, já que muitas das ocupantes estão no meu quarto.
- Não se preocupe, eu vou. Você já está bem cansada da ronda. Eu vou começar a expulsar as pessoas lá embaixo. - James deu uma olhada pelo quarto, antes de continuar. - A cama está limpa, o banheiro está limpo, tudo está limpo para uma hóspede.
- Como o limpinho que você é.
Ele assentiu, rindo.
- Como o limpinho que eu sou. Obrigado, Remus. - Ele grunhiu.
- Você poderia ser conhecido por coisas piores.
- Isso é verdade.
James sentou na cama, colocando seus tênis e Lily não pôde deixar de observá-lo. Assim como Remus parecia ter reparado que algo havia de errado com ela, Lily percebia que havia algo de errado com James.
Naquela semana, ele não havia mudado com ela, mas havia algo em seu olhar. Pegava-o olhando para ela, mas como se não a visse de verdade, parecendo estar longe, pensando em algo sério. James também abria a boca algumas vezes, querendo dizer algo, mas parecia desistir depois. O maroto estava mais relaxado sobre todo o acontecimento, do ataque de Hogsmeade, então não parecia preocupação.
Lily sentou na cama ao seu lado e encolheu as pernas e as abraçou, olhando para o longe. Sentia o olhar de James em si, do jeito que havia acabado de descrever.
- Há algo que você queira me dizer, James? - Ela perguntou sem olhar para ele.
- Eu?
- Sim. Ou talvez perguntar?
- Acho que as únicas perguntas que eu tenho ou qualquer coisa que eu queira dizer, você não tem as respostas ou não podemos ainda falar sobre. - Ele riu, um pouco sem emoção.
- Eu tenho tantas perguntas também e que não posso ainda perguntar, mas acho que, em pouco tempo, não poderei me impedir de ir atrás delas.
Os dois pareciam pensar nas perguntas - algumas delas sendo as mesmas -, que queriam tanto respostas, que poderiam ajudar tanto aquela inquietude que nebulava a cabeça de ambos.
- Quando você alcançar esse limite e se eu puder te ajudar a respondê-las, eu prometo não dar minha visão dos acontecimentos, mas apenas responder o mais sinceramente possível.
- Obrigada. Acho que você será capaz de responder.
Sorriu, fazendo James sorrir com ela.
- Quando se sentir pronta. - Ele respondeu, parecendo finalizar o assunto. Eles não podiam ir muito longe ainda, então ela não achou ruim não falar mais sobre isso naquele momento.
Ela apoiou o rosto em seus braços, em sua direção, antes de recomeçar a conversa.
- Vai ser estranho estar lá fora neste Natal. Tanta coisa mudou. - Lily comentou, ajudando a mudar de assunto.
- Serão longos dias fora de Hogwarts. Especialmente para você, que disse ter muita coisa para resolver.
- Sim, tenho. Terei que voltar para o mundo trouxa, documentos trouxas, lidar com trouxas. Eu estava bem apenas em Hogwarts, cuidando da minha vida.
- E você ainda vai passar o Natal sozinha?
- Provavelmente. Natal não parece ter o mesmo gosto de antes, então eu não me importo.
James meneou a cabeça, sentindo por ela chegar naquele estado de tristeza em que o Natal virou apenas uma data normal. Eles iriam ver sobre isso. Não podia deixá-la passar por essa data daquele jeito.
Mas pensaria melhor nisso mais tarde. Agora, ele tinha que resolver um problema mais específico e se não fizesse agora, se arrependeria.
- Ahm. Nós estamos indo embora mais cedo. - Ele começou. Ela assentiu. - Vamos ficar longe de Hogwarts muito mais tempo do que estamos acostumados.
- Sim.
- Então eu estava me perguntando... se eu poderia te ver. Lá fora, algum dia desses.
Lily sorriu, o que fez uma esperança enorme crescer em seu peito.
- Você está tão acostumado com a minha presença assim? - Ela brincou.
- Podemos dizer que sim. - Ele sorriu.
Jogando as pernas para fora da cama, ela sentou na ponta e olhou para ele.
- Seria legal te ver lá fora, James. Digamos que eu estou bem acostumada com a sua presença também.
Ótimo! Eles estavam indo pelo bom caminho. Se Lily não tivesse mais interesse nele, talvez não aceitaria, talvez arranjaria alguma maneira de escapar de vê-lo, certo? Havia ainda esperança de beijá-la de novo antes de voltarem para Hogwarts, de tirar essa questão de sua cabeça e poder ter Lily em seus braços de novo.
Merlin, como ele queria tudo aquilo de novo.
- Espere pela minha carta, então. - James se levantou e foi até a porta.
- Eu estarei esperando.
- Você a receberá mais brevemente do que imagina.
Os lábios dela esticaram para um lado, fazendo-a ficar misteriosa e sedutora ao mesmo tempo.
- Não me decepcione. - Ela finalmente disse.
- Eu não irei. - Ele piscou para ela e deu aquele sorriso de lado que fazia Lily suspirar. - Boa noite, Lils.
- Boa noite, James.
Sem dizer mais nada, James saiu do quarto e fechou a porta.
Lily se jogou na cama e sorriu como uma boba. Virou de lado, se acomodando...deixando todo aquele cheiro de James lhe invadir. Fechou os olhos e respirou fundo, não querendo perder nem um aroma daquele quarto, da cama dele.
Iria dormir pela primeira vez na cama de James Potter, mas sem ele.
Dessa vez.
J~L
Do lado de fora, sentindo-se bem e com as energias renovadas, James tinha o mesmo sorriso bobo dela. Como na Slug Party, quando ele disse que não a decepcionaria, ele cumpriria aquela promessa novamente.
Sentia que o Natal de 1977 seria muito melhor do que qualquer outro.
N/A:
Happee Birthdae Harry
Oi, gente. Esse capítulo pode conter erros, então me desculpem. (muitos sabem como e em quais circunstâncias ocorreu a revisão dele).
O próximo vem no fim de semana do 13 ao 15, pois será antes das minhas férias. Assim vocês não ficam muito tempo sem nada. Então depois, voltarei no fim de semana dos dias 28 e 29.
A vida está difícil, mas eu não estou desistindo da fic, gente. Relaxem. Às vezes, a cabeça precisa descansar.
Resposta para review sem logins:
Cin: Opa, siiim. Ela acordou. Foi tenso o outro, esse foi levemente mais tranquilo, né. Tirando a parte do James quase duelar com Aurores, mas né...essa parte a gente pula. Fico feliz que tenha gostado da leitura e que esse capitulo tenha oferecido o mesmo. Beijooos, linda.
Mah: Se a Lily não acordasse logo, acho que o James iria enlouquecer de vez mesmo. Espero que tenha gostado do reencontro deles, apesar de um pouco tenso. James contribuindo de muitas formas é amorzinho xD Beijoos, lindaa.
Sneak Peek no meu Instagram amanhã. Prometo ser bem boazinha.
Beijos e fiquem bem ;*
