J~L

Estar de volta ao mundo trouxa era tão doloroso quanto bater com o dedinho do pé na quina da mesa.

A viagem de trem para Londres foi calma. Na verdade, calma era um jeito bem peculiar de nomear. Era mais uma tensão onde deixava todos letárgicos, o que ajudava o trabalho dos Monitores e Monitores-Chefes que faziam as rondas. Lily ficou boa parte do seu tempo em um vagão dos Monitores, tentando recuperar o que perdeu na semana que ficou na enfermaria, assim como preparando as diretivas e novas rondas para quando todos voltassem. Teve a companhia de um ou outro Monitor, duas vezes de James que a ajudou com algumas papeladas e outras de Remus que agilizou com as escalas de rondas.

Quando chegaram em Londres, ela fez a vistoria do trem na parte da frente, enquanto James fazia na parte de trás, até se encontrarem na porta de saída do meio.

- Tem certeza em voltar para casa sozinha? - Marlene perguntou quando Lily finalmente saiu do trem e se juntou aos amigos na plataforma.

- Sim. Aparatar fica mais fácil e rápido, e tudo estará bem.

- Nós estaremos por lá na segunda-feira, para te ajudar com tudo. - Alice disse ao se aproximar.

- Só não me coloque no antigo quarto de Petúnia, por favor. - Marlene pediu.

- Aquele quarto está bem fechado e trancado. Por ela mesma, aliás. - Lily revirou os olhos. - Como se eu não pudesse abrir a porta rapidamente com um feitiço.

- De qualquer maneira, acho melhor mantermos deste jeito. Dormiremos no seu quarto, do jeito que fizemos alguns verões. - Alice comentou, antes de ser abraçada por Frank. - Nos vemos na semana que vem. Por favor, respondam as minhas cartas. Eu vou mandar muitas, mesmo que esteja programado para nos ver em alguns dias.

Alice deu um beijo em cada uma das amigas e partiu com Frank, passando pelos marotos e se despedindo também. O casal passou para a Londres trouxa, deixando Lily se perguntando para onde iam, mas deviam querer ter um encontro a sós antes de voltarem para casa.

- Bom, eu vou te deixar, porque tem alguém a alguns metros de distância que não para de olhar para cá, querendo se despedir. - Marlene dizia enquanto sorria e olhava para o grupo atrás de Lily.

- Claro, você pode ir lá e se despedir de Sirius Black, Lene. Não me deixe te impedir.

Marlene revirou os olhos.

- Minta para você mesma, Lily. Continue assim. - Marlene disfarçou, limpando a garganta. - Eles estão vindo, de qualquer maneira.

Os quatro garotos, de fato, se aproximaram, obrigando-as fingir conversar sobre algo diferente.

- Eu te vejo em breve, Monitora-Chefe. - Remus disse ao seu lado. - Eu tenho o pergaminho das rondas que preparamos no trem e te envio assim que eu cansar das férias e quiser fazer algo diferente.

- Não precisa trabalhar nisso nas férias, Rem. Aproveite e me envie cartas, por favor. Eu não posso ficar muito tempo sem falar com você, você sabe.

- Eu enviarei.

- Eu posso enviar também? - Sirius perguntou se apoiando no ombro de Remus. - Eu sou muito breve nelas, mas gosto de respostas de duas páginas.

- E se eu te mandar livros trouxas que eu tenho, posso ter algumas linhas de comentários a mais?

Os olhos de Sirius abriram com curiosidade e nítido prazer.

- Eu estou interessado, me parece uma troca justa, Evans. - Ele bagunçou os cabelos dela. - Nos vemos por aí, McKinnon. - Ele disse piscando para a garota, que assentiu.

- Se você tiver sorte. - Ela respondeu.

- Sabemos que eu terei.

Sirius puxou Peter com ele e Remus os seguiu, deixando apenas um maroto com as duas garotas. Marlene pegou sua mala com sua coruja.

- Tchau, James. Nos vemos logo. - Marlene disse. Lily levantou uma sobrancelha, estranhando. - Não faça nada que eu não faria nessas férias.

- Difícil, mas tentarei. - O maroto respondeu.

- E você…- Marlene se virou para Lily. - Grite se precisar de nós antes da semana que vem. Nos falamos logo.

Marlene deu um beijo no rosto da amiga e acenou para James, rolando a sua mala pela plataforma e passando para a Londres trouxa. Lily não sabia para onde ela ia, já que deveria apenas aparatar para sua casa, mas às vezes era mais fácil não tentar entender Marlene Mckinnon.

- Sei que você estará bem ocupada nesses próximos dias, então não vou te perturbar. - James começou, dando uma olhada rápida para o lado e conferindo se seus amigos estavam os observando, mas eles pareciam ocupados conversando. - Mas se você precisar de alguma coisa, me chame.

- Obrigada, o mesmo para você. - Ela sorriu. - E eu estarei esperando pela sua carta.

James se aproximou e deu aquele beijo demorado e gostoso em sua bochecha.

- Eu disse que não ia te decepcionar. E isso é uma promessa. - Ele sussurrou. - Até logo, Lils.

- Até logo.

O maroto se afastou e foi até os amigos, prontos para passarem para a plataforma ¾ e cair na Londres trouxa. Ele deu uma última olhada para ela e acenou, piscando. Lily devolveu com um aceno e um sorriso sincero. Não poderia dizer o quanto sentiria a falta dele nos próximos dias. Sirius e Remus passaram primeiro, Peter foi logo depois e James estava pronto para passar, mas parou, olhando para ela de novo. Lily estava tendo a impressão de que não era a única que não queria partir e deixar alguém para trás.

Ela riu e fez um movimento com a mão para que ele passasse, mas James se virou para ela e fez o mesmo sinal, pedindo que ela partisse primeiro. Respirando fundo e revirando os olhos, Lily pensou em sua casa e aparatou, tendo o sorriso de James como a última imagem da plataforma.

Chegou em um beco não muito longe da casa dos Evans em Cokeworth. Encostou na parede, deixando a tontura passar por alguns segundos. Carregando sua mala e a gaiola vazia de Eros pela rua já iluminada, andou os poucos metros que tinha, sendo a única pessoa por ali, deixando as rodas de sua mala ecoarem pelo vazio.

A cada passo que dava, seu coração disparava mais. Já via a pequena varanda de entrada da casa e seus lábios tremeram, os olhos enchendo de lágrimas. Sentia-se tão longe dos pais estando ali, quanto sentia que se aproximava. O fato de que era ali que sempre os encontrava e que não os encontraria mais, a deixava mais longe deles do que quando estava em Hogwarts, um lugar que eles nunca estiveram, e pensava neles, lembrando da vida que tiveram, das boas lembranças.

Parou em frente da varanda. Era claro para qualquer um que a casa ficava vazia por alguns meses. As ervas estavam razoavelmente altas, algumas raízes cresciam por entre as madeiras da entrada e os vidros estavam bem sujos. Sua irmã não passou por ali em momento algum, era certo.

Havia colocado alguns feitiços contra roubos e invasão, então os desfez discretamente, entrando logo em seguida. Acendeu a luz enquanto tossia com o cheiro de mofo e o pó, encontrando a sala de estar e televisão do mesmo jeito que as deixou alguns meses atrás quando partiu para Hogwarts: vazias, sem vida, sem o calor que a sua família trazia.

Pegou a varinha e com um aceno, todas as janelas da casa se abriram, fazendo uma corrente de ar gelada tomar a casa. Ela ajeitou o casaco, deixou a mala na porta e começou a apontar para todos os lugares, deixando a magia trabalhando a seu favor e limpando toda a casa.

A geladeira estava vazia, já que havia se livrado de toda a comida antes de partir, mas a enfeitiçou para limpar novamente. Pela cozinha, panos e produtos voavam por todos os lados, trabalhando pesado, enquanto ouvia o aspirador passando pela sala. Duas vassouras faziam sua parte no andar de cima, enquanto ela checava o jardim de trás: precisava de uma boa mão verde para tomar conta de toda aquela grama e ervas daninhas que estavam por todos os lados. O antigo balanço das irmãs Evans estava sendo quase engolido pelos arbustos que o rodeavam.

Subiu até o primeiro andar, quase tropeçando em uma vassoura apressada que acumulava cada vez mais pó em um canto do corredor, e foi em direção ao banheiro para jogar a sua magia por lá, mas ao passar em frente de seu quarto, algo a fez parar: na janela aberta, tinha uma coruja. Aquilo arrancou um sorriso entre as lágrimas secas, e foi até ela.

- Eu te conheço, apenas de vista. Soube que você não trabalha muito. - A ruiva acariciou suas penas. A coruja, parecendo ofendida, piou para Lily. Ela riu. - Desculpa, essas palavras não são minhas, estou apenas repetindo.

Ainda ofendida, a coruja levantou a pata para mostrar o pergaminho que a esperava. Lily o pegou, sentindo uma felicidade tomar conta, cobrindo a tristeza de alguns momentos atrás.

- Venha, eu tenho petiscos lá embaixo. Eros não está aqui, então não vai se importar em compartilhar um pouco com você.

Seguindo a ruiva escada abaixo, a coruja voou por toda a sala e pousou na mesa de centro, esperando Lily voltar de sua mala ainda na porta com uma caixa de petiscos para as corujas. Sentou-se e entregou alguns para a ave, que parecia muito feliz agora. Lily desviou a atenção para o pergaminho e o abriu:

"Sei que uma carta 'muito tarde' te decepcionaria...mas espero que 'muito cedo' não te decepcione também.

Essa nota é para te avisar que eu estarei livre qualquer dia e que, talvez, fique mais fácil você me avisar quando tiver tempo.

P.s: Sim, eu enviei essa carta do trem, mas foi o único momento que a minha coruja estava por perto para trabalhar. Não lhe dê muitos petiscos, porque ela não queria muito sair nesse frio."

- Ah, tarde demais. - Ela disse em voz alta ao ver a coruja comer o sexto petisco que Lily lhe dera. - Você é muito cara de pau. - Disse olhando para a coruja, que parecia ignorar as palavras dela propositalmente, com uma cara debochada.

"P.P.S: agora é a sua carta que estarei esperando. Não me decepcione.

James."

Lily olhou da coruja para a carta e começou a rir. Ele conseguiu inverter as coisas agora, mas talvez não estaria esperando uma resposta tão rápida, então correu até sua mala e pegou um pergaminho, porém deixou a pena e tinta de lado, usando uma caneta.

"Sinto informar que sua coruja preguiçosa recebeu mais petiscos do que, aparentemente, merecia. Na próxima vez, deixe instruções do lado de fora da carta.

Essa resposta vale como uma carta? Eu acredito que sim. Não há nada demais para contar, além de chegar em uma casa cheia de pó. Nessas horas eu agradeço muito ser uma bruxa.

Espero que tenha chegado bem em uma das propriedades Potter. Seria essa a de Londres? A da Escócia? A do interior do país? Marlene não me informou sobre isso dessa vez.

P.S: Espero sua resposta.

Lily"

Pegou-se fantasiando agora, querendo que os dias conturbados e cheios que viriam a partir de segunda-feira, terminassem logo e ela pudesse vê-lo.

A coruja dele piou para ela. Lily levantou uma sobrancelha inquisidora para a ave.

- Você teve mais petiscos do que deveria. - Ela enrolou o pergaminho da resposta e amarrou na pata da coruja. - Agora me faça esse favor e entregue essa carta para o seu dono? Não volte até ele mandar uma resposta. Se possível, bique ele até que ele decida pegar um pergaminho para escrever.

A coruja piou novamente, parecendo gostar da ideia, e partiu pela janela aberta da sala. Achando que a casa foi ventilada o bastante e querendo se aquecer, Lily fechou todas as janelas e lançou vários feitiços de segurança por todo o lugar.

Acendeu a chaminé da sala e terminou em velocidade máxima toda a limpeza da casa. Mais uma vez, ser bruxa era uma maravilha. O único problema, agora, era comida. Como já discutido como James no Halloween, não podemos criar comida do zero, então teria que ir até o mercado.

Ah, o Halloween. Parece que foi há um ano atrás. A brincadeira de dar doces, James duplicando os seus para Lily não ter que se sujeitar aos pedidos, ela dando um doce para que ele duplicasse e não tivesse que se sujeitar aos pedidos, o jantar na cozinha… havia sido um bom Halloween.

Parecia que sua missão nos próximos dias, sem James com ela, era lembrar de cada pedacinho de momento que compartilharam naqueles meses. Pelo menos os momentos que se lembrava.

L~J

Na segunda-feira, Marlene e Alice chegaram para ajudá-la em sua missão com os advogados, as visitas finais dos possíveis compradores da casa e para, acima de tudo, serem o suporte emocional para aquele momento.

Petúnia continuava sumida e sem dar sinal de vida, sem se importar com a venda da casa. Tentou ligar para a irmã na quarta-feira, mas sem resposta, o que só fazia com que Lily acumulasse decepção com a irmã mais velha. Porém, havia outra coisa que vinha acumulando e que era muito mais agradável e que esperava por elas a cada minuto: cartas de James Potter.

Todos os dias, recebia de duas a três cartas dele, e Lily respondia-o com a mesma intensidade. Tiveram que começar a usar as corujas alheias, pois a coruja dele e Eros começaram a recusar a fazer ida e volta tantas vezes. A carta dele como resposta no sábado que havia chegado ali, deu a certeza do cansaço delas, já que James estava em Londres e ela estava em Cokeworth, na região central da Inglaterra.

"Eu não sei o que você disse para a minha coruja, mas ela ficou bem feliz em me bicar por longos dez minutos, até eu terminar essa nota.

Estou em Londres. Pode avisar Marlene que os Potter passam, de fato, a maior parte dos dias aqui quando estou em Hogwarts. Mas iremos para a Escócia no Natal.

P.S: fico feliz por saber que há algo de Hogsmeade que você também se lembra. Se tivesse esquecido dessa conversa, eu iria ficar desapontado. Marlene foi ímpar naquela vez."

Então, com a distância, começou a usar as corujas de Alice e Marlene enquanto Eros descansava. James usava a coruja de Sirius e de seu pai quando a sua fugia para não trabalhar mais, mesmo com os petiscos a mais dados. Ela era mesmo uma coruja preguiçosa.

- Bem, como se sente? - Marlene perguntou. Estavam sentadas no chão, ao redor da mesa de centro da sala e duas caixas de pizzas.

Naquela tarde de sexta-feira, havia recebido a confirmação da venda da casa. O papel seria assinado por ela na semana que vem e Petúnia teria que assinar sua parte. Quase disse ao advogado que gostaria de levar o papel até a irmã em Londres, usando como desculpa para, talvez, ver James. Mas Petúnia iria matá-la se aparecesse em seu apartamento e seu namorado a visse. Lily não o conhecia, mas tinha a impressão que ele seria tão agradável quanto a irmã, considerando o que já leu dele nas cartas.

- Sinto que cumpri uma tarefa. Ainda não compreendi que não voltarei mais aqui quando eu voltar de Hogwarts. Talvez seja algo para digerir mais tarde.

- Sei que a casa guarda muitas memórias de seus pais, mas elas também estão guardadas em você, Lily. Não ter mais a casa não fará com que todo o amor e lembranças se apaguem.

- Sim, eu sei.

Respirou fundo e deu uma mordida na pizza. Havia tido jantares daquele jeito com a família inúmeras vezes. O fogo da chaminé os aquecendo, pizzas compradas do mesmo restaurante, conversas e risadas, muitas vezes brincadeiras também. Eles faziam tanta falta e por tanto tempo já, que não conseguia chorar mais. Era uma dor constante agora, que estava acostumada.

Sem falar nada, levantou e foi até a cozinha. Pegou o telefone e discou, sem pensar no que fazia e sem querer frear aquela coragem repentina.

- Alô.

A voz da irmã lhe deu um gelo no estômago.

- Tunye. - Disse com a garganta quase fechando. Recebeu um longo silêncio de volta.

-Lily! - A irmã respondeu, seca. - Você não deveria estar naquela escola de aberrações?

- As férias começaram mais cedo. - Fechou os olhos com força, não querendo deixar aquelas palavras atingirem. - Escute, a casa foi vendida. Você terá que assinar o papel.

-Será enviado para Londres? Eu não tenho tempo para ir até Cokeworth.

- Sim, será enviado pelo advogado.

-Ótimo. Era só isso?

Como ela podia ser assim com a própria irmã? Por que não podia ter o mínimo de consideração, de amor ou respeito?

- Eu sinto sua falta. - Disse, sem querer guardar aquilo para si. - Sinto falta da minha irmã, da minha família. De nós.

Outro longo silêncio foi a sua resposta, antes de Petúnia desligar.

Lily pendurou o telefone novamente e se recostou na parede. Não queria chorar, mas doía. Doía como o inferno.

Talvez devesse apenas engolir aquela vontade de tentar fazer a irmã cair na real e seguir sua vida com a única família que tinha: a que tinha em Hogwarts.

Espiou a sala, as duas amigas sentadas no chão e rindo. Marlene gargalhava enquanto Alice limpava o molho de tomate no nariz e jogava o guardanapo de volta em Marlene. Aquela cena lhe fez rir, aqueceu o seu coração.

Tinha tantas pessoas que a amavam de volta. Não podia se perder por apenas uma se negar a isso.


Sirius abriu a porta de seu quarto, sem nem bater, enquanto segurava um livro em suas mãos.

- Eu amo essa mulher! - Declarou.

James levantou uma sobrancelha e deixou a sua revista de Quadribol cair em seu colo.

- Você ama alguém, Sirius? - Perguntou sarcástico.

- Sim. E ela se chama Agatha.

- Quem diabos é Agatha?

- Christie. Agatha Christie. Essa mulher é genial. Já leu este livro?

Na capa, só podia ver os pés de alguém e uma mala. O nome da autora estava em laranja, no topo, maior até do que o título do livro. Um pouco egocêntrico?

- Nunca vi.

- Lily me mandou há dois dias e eu não consegui parar de ler.

- Por isso ficou trancado tanto tempo no seu quarto? Pensei que tinha morrido. Sempre quando passava em frente, tentava perceber se o corpo já começava a cheirar. - James voltou seus olhos para a revista. - Convenhamos, Sirius Black calado, sem espernear a presença em todos os lugares, é um pouco estranho.

- Não, idiota. Eu estava lendo isso. - Sirius olhava fascinado para o livro. - Se você não quiser, eu posso casar com Lily? Assim terei todos esses livros disponíveis.

- Você pode tentar propor. Assim veremos se ela vai responder a carta, pelo menos. - James respondeu enquanto olhava para a janela quando o vento balançou um galho da árvore, dando a impressão de que era uma coruja chegando.

O livro que Sirius segurava acertou seu rosto em cheio, fazendo-o xingar o amigo.

- Prongs, está chovendo muito. Não terá carta hoje, para de ficar ai sonhando.

De fato, chovia muito desde aquela manhã. Inferno de chuva. As corujas deviam estar abrigadas em algum lugar, esperando o pior passar, mas o pior não passava. Não sabia se a sua carta foi entregue e a resposta dela que demorava, ou se o contrário.

Será que ela achava que ele não havia respondido a última? Será que ela sequer se importava?

Quase duas semanas já se passavam e eles apenas trocavam cartas. Intensamente, mas apenas cartas. Tinham conversas por escrito como se estivessem frente a frente, mas com a infeliz distância deixando as respostas demorarem um pouco mais do que o normal.

Sua mesa no quarto estava abarrotada de pergaminhos, alguns com a escrita em pena e outras com caneta. Adorando o fato de que ela respondia mais rápido quando usava a caneta, ele pediu uma emprestada. Sirius a roubou. Então teve que pedir outra. Era muito mais rápido escrever com elas, apesar de ser obrigado a treinar antes...a ponta deslizava muito rápido no pergaminho, fazendo suas letras ficarem um pouco longas e altas, mas conseguiu se acostumar eventualmente.

A véspera de Natal seria em dois dias e Lily só ficaria livre dos afazeres nesta semana, mas ainda não havia recebido confirmação de quando.

Se sua coruja voltasse logo, poderia saber quando!

- Merda de chuva. A sua coruja está aí?- Perguntou checando a janela, desejando que a chuva tivesse parado.

- A minha coruja, querido Prongs, sumiu! - Sirius respondeu indo até ele e recuperando o livro que jogou no amigo. - Porque você abusou tanto do serviço dela, que a coitada desapareceu. Eu usei a da sua mãe para enviar uma carta para Remus sobre o Natal.

Ah, uma boa ideia. Poderia usar a coruja da sua mãe, já que a de seu pai havia sumido também.

- Não. - Sirius o impediu de se levantar. - Você está proibido de usar qualquer outra coruja desta casa.

- Como é?

- Isso mesmo o que ouviu. Deixe um pouco do trabalho do correio para nós também. Se quiser, vá até o Beco Diagonal e envie suas cartas pelo correio normal. Você tem que ir até o Ollivanders para ver a sua varinha, não?

- Sim.

- Então aproveite e use os Correios. Ou compre umas dez corujas a mais.

Euphemia apareceu na porta, interrompendo a resposta, nada educada, de James.

- Queridos, o jantar está pronto. James, que marca vermelha é essa no seu rosto?

- Agatha Christie estava lhe dando uma lição. - Sirius respondeu, enquanto James se levantava e conferia o rosto no espelho. - Papai está vindo?

Ela negou, deixando claro sua decepção. Era a oitava noite que Fleamont não compartilhava a refeição com eles, estando preso no Ministério, ajudando os Aurores. Não ouviam nada sobre o que acontecia, o Profeta Diário não anunciava nada de preocupante, então ficavam confusos sobre o que poderia estar acontecendo.

- Vamos aproveitar esse jantar como temos feito esses últimos dias, sim? - Euphemia recuperou o sorriso. - Vamos, queridos, vamos.

Sirius saiu na frente com ela, abraçando-a e fazendo alguma piada, tentando animar Euphemia. James ouviu a risada da mãe no fim do corredor e sorriu, enquanto ia até a janela e olhava para as nuvens carregadas de chuva ainda, deixando claro que ficariam ali por um bom momento.

Não teria carta de Lily hoje, imaginava. E era louco o quanto isso fazia falta, o quanto ela fazia falta. A partir do momento que teve Lily todos os dias ao seu lado, se apaixonando cada vez mais por ela, vendo-a corresponder, e também tê-la como amiga, ficar quase duas semanas longe era horrível.

Sem contar a semana que ficou ao lado dela, mas com Lily desacordada.

Bom, não dava mais. Ele teria que fazer algo sobre isso e o dia seguinte lhe soava perfeito, com chuva ou sem chuva.


O alarme começou a tocar.

Não era qualquer alarme, mas um feitiço que ativa latidos altos de cachorros de porte grande soando pela casa até a porta, como se três caninos estivessem prontos para atacar quem estivesse se aproximando muito da casa. Era uma barulheira infernal, de fato, mas necessária. Toda manhã ela sofria com aquilo quando o garoto do jornal vinha até a porta para entregar-lhe. Mas estar ali sozinha não era exatamente a coisa mais segura naquele momento, então tinha que se precaver.

Porém era meio da tarde daquele dia que foi um pouco longo. O último dia de resolver papéis e que podia ficar tranquila. Não havia jornal para ser entregue naquela hora ou qualquer outra coisa, então pegou sua varinha, esperando. O dia seguinte seria véspera de Natal e ainda tinha que se programar para fazer compras. Ser mergulhada naquela vida de adulto tão subitamente era tão confuso e cansativo.

A campainha tocou. Não havia marcado nada com ninguém, nem o advogado, nem suas amigas. O frio lá fora só fazia com que todos ficassem em casa, em frente de suas lareiras e tomando chocolate quente. Inclusive, era exatamente o que Lily fazia naquele momento, junto com alguns livros de poções que trouxera com ela. Também estava a espera de uma carta de James, já que não as recebia desde ontem e não sabia o motivo, fazendo-a tentar relembrar o que havia dito na última carta para que ele não a respondesse mais.

Se levantou, sua varinha bem firme em sua mão, e foi lentamente até a porta. Passou o trinco que impedia qualquer um de abrir a porta por fora antes de abrir uma pequena fresta.

O rosto dele estava lindamente contorcido por conta dos latidos, uma das mãos apoiadas no batente da porta. A toca preta escondia a maior parte dos cabelos despenteados, mas deixava alguns fios para fora, dando um charme a mais. Os olhos de tons bonitos por trás dos óculos habituais e as roupas trouxas o faziam se misturar entre qualquer um na rua, sem dar a entender que ali estava um estudante de Hogwarts aproveitando as férias de natal.

Resumindo, James Potter, na sua porta, estava lindo e ela percebeu o tamanho da saudade que sentia dele com todos aqueles dias sem vê-lo.

Aquela visão era ainda melhor do que qualquer coruja com uma carta para ela poderia ser.

- Oi!

Aquele simples cumprimento e aquele sorriso tão puro era o suficiente para deixá-la rendida completamente.

- Oi. - Ela respondeu, assim como também sorriu de volta. Ficar tanto tempo longe era um potencializador de beleza, talvez, pois James Potter parecia ainda mais bonito hoje. Se ele fosse mesmo o James Potter. - Eu adoraria abrir a porta para você, mas preciso mais do que o seu sorriso para ter certeza de que você é você mesmo. O verdadeiro James Potter nem sabe onde eu moro.

- O verdadeiro James Potter sabe o seu endereço, mas não pode revelar ainda o motivo. - Lily levantou uma sobrancelha, muito mais desconfiada, então ele continuou. - Em Hogsmeade, você descobriu que o verdadeiro James Potter teve alguns encontros na Madame Puddifoot e que ele prefere cortar uma parte específica do seu corpo do que voltar lá. Você lembra disso, talvez?

Ela foi obrigada a rir. Fechou a porta rapidamente para poder tirar a tranca e abri-la completamente. Acenou em suas costas para fazer o alarme dos cachorros parar.

- Esperamos que você nunca precise voltar lá. - Ela disse sentindo a felicidade em ver que era ele de verdade ali.

- Se tudo der certo, acho que não será necessário. - James apoiou o ombro no batente da porta. Ela arriscaria dizer que ele estava tão feliz em estar ali quanto ela. - Quantos cachorros você tem dentro de casa? - O maroto perguntou.

- Muitos! - ela respondeu. Olhou para a rua e calçada, mas não havia mais ninguém ao redor. - Está sozinho?

- Sim. Eu iria te mandar uma carta, mas além de achar que não estamos recebendo as respostas por conta das chuvas em Londres, também achei que vir até aqui seria mais rápido.

Ah, o problema não foi algo que disse para ele, mas a chuva! Aquilo era um alívio. Não chovia em Cokeworth, mas não parou para pensar sobre o mal tempo que poderia haver em Londres.

Trocar tantas cartas por dia era maravilhoso, mas cansativo e causava ansiedade também. Mas o que poderia fazer? Estava completamente apaixonada por ele e passar as férias de natal longe a deixava com vontade de ter notícias, de conversar. Não que ele pudesse dizer algo diferente, já que quem começou com as cartas foi ele mesmo e ele respondia tão assiduamente como ela.

- Você quer entrar? - ela perguntou, apontando para dentro.

- Claro!

Era muito estranho ver James Potter em sua casa. Eram dois mundos diferentes, literalmente, colidindo em sua frente: seu mundo trouxa e seu mundo mágico. Parecia uma ilusão. Uma casa com tantas memórias, boas e ruins, de toda a sua vida...misturada com alguém que representava a sua nova vida, aquela que vivia por sete anos agora.

Eles foram até a sala, Lily pegando o casaco dele e o pendurando perto da porta. James tirou sua toca, fazendo seus cabelos apontarem charmosamente para todos os lados. Ela viu que ele tentou domar os fios rapidamente, mas sem muito sucesso.

- Ah, uma televisão! - James se aproximou do aparelho e o encarando fascinado. - Meu pai recebeu uma de alguém do Ministério, mas até hoje não soube fazer funcionar.

- Bem, você precisa de eletricidade e uma tomada.

- Foi o que eu disse para ele, mas já que não temos em casa, acho que continuará guardada no armário! - Ele se virou para ela. - Você poderia me mostrar como funciona depois? Eu apenas estudei sobre isso, mas nunca a vi ligada tão de perto, apenas pelas vitrines de lojas trouxas.

- Eu posso te mostrar agora. - Ela respondeu.

Lily foi até o aparelho e o ligou. Os olhos de James se alargaram com a surpresa quando The Muppet Show tomou conta da tela. Por alguns segundos, Lily apenas assistia James assistindo o programa, completamente concentrado.

- Interessante. Eu não me lembro de ter estudado sobre a televisão ser assim.

- Assim como?

- Feita com esses bonecos.

A risada que a ruiva deu foi alta, tirando a atenção do maroto da tela.

- Não, isso é apenas um programa. Um pouco infantil, mas eu gosto.

- Hmm…- ele voltou seus olhos para a tela.

- Não que eu esteja reclamando, mas por que está aqui?

James se virou para ela, como se estivesse pensando se Lily tivesse dito algo, até parecer lembrar da existência dela e desviar sua atenção da televisão.

- Sim. Er...desculpe vir sem avisar, foi uma decisão de última hora. Uma decisão de última hora ontem, mas estava chovendo muito em Londres e eu não tinha coruja e eu acho que as minhas cartas foram extraviadas. - Recuperou o fôlego, antes de continuar. - Eu gostaria de saber se você está livre hoje. Na sua última carta, faltava apenas uma reunião ontem, então pensei…- Ele não terminou de falar e deu de ombros, um pouco encabulado.

Lily quase riu. Era fato de que ela esteve ocupada por muitos dias, correndo para todos os lados e estavam sempre comentando sobre isso nas cartas. Sabia que James estava esperando pela luz verde dela, avisando-lhe que estava tranquila. Na verdade, havia escrito já uma carta e iria mandá-la assim que descansasse um pouco nesta tarde, avisando que estaria livre a partir do dia seguinte.

Mas ele não parecia com muita paciência para esperar. O que no fundo é bom, pois estava se forçando a não mandar aquela carta desde ontem. Não queria parecer desesperada para vê-lo, mesmo que fosse verdade, mas ele não parecia se importar em demonstrar isso, então por que deveria se importar também?

- Sim, eu estou. Por que?

- Gostaria de vir comigo até o Ollivanders? Eu preciso dar uma olhada na varinha e ver se está tudo bem. Depois de ouvir uma boa bronca sobre o quase ataque à dois Aurores na enfermaria, achei melhor conferir qual o problema logo, antes que a coisa piore.

Sabia que James poderia muito bem ter ido sozinho, ou ter chamado alguns dos marotos para ir com ele, mas ela sentiu uma alegria nova em saber que ele havia pensado e considerado a companhia dela.

- Você se importa em esperar enquanto eu me preparo?

- Absolutamente não. - Ele sorriu. - Posso continuar…? - Ele apontou para a televisão e Lily assentiu, meneando a cabeça com a alegria dele.

Pelo menos ela já tinha tomado banho e o cansaço de alguns minutos atrás foi esquecido, então só precisou se arrumar e colocar roupas quentes. Vinte minutos depois, ela desceu e pegou seu casaco do armário do corredor antes de voltar para a sala. James estava sentado no sofá, os cotovelos apoiados nos joelhos e o rosto esticado em direção à televisão. O maroto olhou para trás quando ouviu seus passos e se levantou rapidamente.

- Se divertiu? - ela perguntou.

- Talvez eu peça para que meus pais pensem em ter a eletricidade em casa. Ver coisas em uma caixa quadrada parece interessante quando não se tem nada para fazer. - ele deu ombros. - Onde estão os cachorros, afinal? Eu não vi nenhum pronto para pular no meu pescoço.

- Tranquilos na parte de trás da casa. - Ela se divertiu internamente. - Vamos?

James vestiu seu casaco e gorro novamente. Lily pegou seu próprio gorro branco e o vestiu.

- Podemos aparatar diretamente no Beco Diagonal. - Ela sugeriu.

- Você me daria a honra? - Ele sorriu brincalhão, oferecendo seu braço a ela, que aceitou. Seria mais fácil um deles aparatar e levar o outro consigo, então eles chegariam no mesmo ponto.

Lily respirou fundo antes de ver o corredor de entrada de sua casa desaparecer e aquele puxão em seu umbigo lhe causar certa tontura e enjoo. Seus pés atingiram o solo e ela deixou a tontura passar por alguns segundos antes de sentir que ainda tinha seu braço entrelaçado ao de James.

- Você está bem? - ele perguntou.

- Sim. A Professora McGonagall me disse que muitos nascidos trouxas podem levar alguns anos para se acostumar com a aparatação, já que nunca havíamos feito nem aparatação acompanhado antes. Mas estou bem.

Gentilmente e timidamente, ela descruzou os braços, crente que James apenas os manteve assim para servir de apoio para ela.

Quando tirou aquele fato da cabeça, ela olhou em sua frente, para o Beco Diagonal quase vazio. Apenas uma dezena de bruxos e bruxas andavam por ali e todos pareciam se apressar com seus deveres para irem embora logo. Uma sensação bizarra e sombria passou por todo o seu corpo e ela olhou para James: ele também olhava para o lugar, uma ruga enorme em sua testa.

- Eu acho que não foi uma boa ideia te trazer aqui! - ele disse baixo, quase como se tivesse pensado alto.

- Eu vim e com prazer. - Ela respondeu. James se virou para ela.

- Ainda sim… - ele comentou. - Eu não sabia que o medo havia chegado a esse ponto.

- Bom, não vamos ficar com medo também. Estamos aqui e vamos checar a varinha com o Ollivanders.

A ruiva saiu na frente, instigando James a segui-la.

- Padfoot! - ela ouviu ao seu lado e se virou para vê-lo segurar um espelho. Ambos pararam novamente.

- O que…?

-Prongs! Onde você está? Você saiu e nem avisou para onde ia. Entende-se: nem me chamou!

Era o rosto de Sirius Black. No espelho!

- Estou no Beco Diagonal e…

- Isso é em tempo real?

Lily se aproximou de James, o cortando, e deu uma olhada melhor no espelho. Já ouviu falar desses espelhos, mas nunca tinha visto um. E depois James havia ficado chocado e maravilhado com a televisão, mas aquilo era muito mais legal. Era um telefone com imagem!

Os olhos cinzas de Sirius se abriram em surpresa, provavelmente reconhecendo Lily.

-Evans! - O tom de reconhecimento estava nítido em sua voz. Lily tirou o espelho da mão de James e o segurou. Era como se ela fosse Sirius Black tamanha era a qualidade da imagem do maroto em sua frente.

- Uau, isso é muito legal. Eu sinto que sou você, me olhando em um espelho.

Sirius riu, assim como James.

-Você não teria essa sorte. Essa beleza é para poucos.

- Aposto que você está se sentindo bem se vendo como ruiva. - ela brincou.

-Não é nada mal, isso é fato. - Sirius deu de ombros e pelo seu movimento, parecia se deitar. - O que está fazendo com James no Beco Diagonal? Isso foi por acaso ou… - Ele deixou a sugestão no ar, mas ela entendeu o que ele estava sugerindo.

- Eu não acho que seja acaso um James bater na minha porta.- Ela respondeu.

- Eu poderia ter o espelho de volta? Antes que vocês dois continuem essa zueira e sabe-se lá onde irá parar. - James pediu, mas tinha um sorriso no rosto.

- Tchau, Black. Foi um prazer ter seu rosto por alguns instantes.

-Igualmente, Evans. - Lily devolveu o espelho para James, que o aceitou e acenou um agradecimento jocoso para ela. - E então? - Sirius perguntou sugestivamente para o amigo.

- Estamos no Beco Diagonal, vim ver Ollivanders sobre o problema da varinha. O problema é que eu acho que foi uma péssima ideia.

-O que está acontecendo? - Sirius mudou o tom.

- Vazio, estranho...me sinto mais na Travessa do Tranco do que no Beco.

-Bom, vá até o Ollivanders e volte. Eu sei que é importante que você cheque isso, mas não demore.

- Se não tiver notícias minhas em duas horas...

-Sim, eu farei o necessário. Vai dar tudo certo, você tem uma excelente duelista para guardar a sua bunda.

Ela sorriu com o comentário do maroto e se deixou ficar orgulhosa.

- Eu sei. - James concordou, olhando para ela e encontrando os olhos verdes. - Te chamo em duas horas, Padfoot!

-Nem um minuto mais! - Sirius disse e o espelho voltou ao normal.

O espelho foi guardado no bolso do maroto sob os olhos atentos de Lily. Por que ela não tinha um desses? Poderia ter um com Lene e Lice, seria muito mais rápido para se comunicarem.

- Você gostou do espelho? - a voz dele chamou sua atenção.

- Eu adorei! Você me deixará usar um dia? - Ela pediu. Do jeito que se sentia, tinha certeza que seus olhos brilhavam para ele.

- Se você me deixar usar a televisão novamente. - Ele sorriu.

- Combinado.

Eles voltaram sua marcha pela pequena rua. Era estranho, realmente, estar naquele estado e aquele ambiente sinistro. As pessoas que cruzavam seus caminhos pareciam tão desconfiadas quanto os dois estudantes, sempre dando olhadas de lado rápidas e passadas longas, não querendo ficar por perto por muito tempo.

Quando eles chegaram perto da Travessa do Tranco, Lily sentiu que James ficou inquieto, olhando por cima dos ombros a cada cinco segundos.

- James! - A voz dela saiu suave, não querendo colocar mais pressão nele do que já sentia. - Eu tenho certeza que Voldemort está preparando sua própria ceia de natal e está ocupado demais para vir até aqui e nos atacar.

- Você já veio no Beco um dia antes do Natal? - Ele perguntou, olhando para todos os lados.

- Não que eu me lembre. Eu creio que não.

- Este lugar fica lotado de gente, comprando presentes de última hora. Isto…- ele fez um gesto com a mão mostrando o lugar. -...é absurdamente bizarro.

- Eu te protejo, não se preocupe. - ela sorriu. Um leve sorriso alcançou os lábios dele, mas desapareceu rapidamente.

- Se algo acontecer enquanto estivermos aqui, eu nunca irei me perdoar. Eu deveria ter vindo sozinho, direto para o Ollivanders e partir rapidamente.

- Você quer que eu vá embora? - Ela perguntou. Sua voz deixando claro que estava brincando. Lily sabia que tinha que tirar um pouco do nervosismo dele.

- De jeito nenhum. Agora eu vou ficar com meus olhos em você até o fim.

Como se chamasse por isso, da Travessa do Tranco que estava a cinco metros de distância, três indivíduos dobraram a esquina correndo na direção deles. Lily e James estavam com suas varinhas em mãos em menos de dois segundos, com as costas contra a parede, Lily sendo colocada atrás de James pelo maroto e uma espécie de escudo havia se formado na frente deles.

Os homens apenas continuaram a correr e rir, parecendo completamente afetados por álcool ou alguma outra substância, os ignorando completamente. Eles assistiram enquanto os homens desapareciam e assustavam as outras poucas pessoas pelo Beco, fazendo inclusive uma mulher desaparatar com o susto.

Os dois pularam no lugar quando ouviram um barulho vindo do outro lado: um bruxo havia trombado com o escudo e James rapidamente o desfez, fazendo o homem se assustar dessa vez.

Por toda aquela cena cheia de sustos, Lily percebeu que a onda de medo era mais um tsunami varrendo todas as pessoas por ali. Estar em Hogwarts e ler as notícias pelo jornal, ouvir os colegas falarem de suas experiências ou de suas famílias era muito diferente de estar aqui fora e sentir e ver com sua própria pele e olhos como o mundo bruxo estava absurdamente tenso.

- Ele não percebeu que estávamos aqui? - Lily perguntou assistindo o bruxo que trombou no escudo passar a mão na testa e reclamar consigo mesmo.

- Era um escudo com feitiço de desilusão. Ele não nos via. - James respirou fundo. - Vamos, estamos quase lá.

Uma rápida caminhada depois, eles finalmente chegaram na loja de varinhas. Garrick Ollivander apareceu muito curioso de cima de suas escadas ao ouvir a porta abrir e pareceu relaxar ao ver dois estudantes.

- Boa tarde! - Ollivander desceu as escadas. - Eu não vejo clientes e ex-clientes por aqui há quase uma semana.

- Boa tarde, Sr. Ollivander. - Lily respondeu prontamente. - Essa situação não é nova por aqui?

- Ah não. Não, de jeito nenhum. Desde o desfile aberto de Comensais pelo Beco Diagonal há quase uma semana, nós não temos muitos transeuntes por aqui. Nosso querido Beco virou fantasmagórico e triste.

- Comensais estiveram por aqui? - James perguntou. - Isso não foi noticiado em lugar nenhum.

- Sim. Dezenas deles. Não fizeram absolutamente nada, mas queriam deixar claro que se quisessem, poderiam tomar conta de tudo. Acredito que o Ministério conseguiu abafar o ocorrido. Parece que os Aurores estão trabalhando em dobro para que nada escape e cause mais pânico. - Ollivander tinha uma expressão de desolação. - Eu espero que tempos melhores estejam em nosso futuro, jovens.- O homem suspirou, olhando por sua loja. - Mas me digam, em que posso ajudá-los? Eu sinto o canto felizes de suas varinhas e me lembro bem de quando vieram buscá-las.

- Lembra? - Lily perguntou, chocada.

- Ah sim, sim. Salgueiro, 26 centímetros. Ótima para encantamentos, então imagino que seu tempo em Hogwarts esteja agradando muito os professores.

A ruiva se permitiu ficar vermelha enquanto James se virava para ela e sorria.

- O senhor não saberia o quanto! - James respondeu por Lily.

- E a sua...sim, mogno de 28cm, flexível. Ótima para transfigurações. McGonagall deve estar radiante com tal aluno.

- Bem, você, de fato, é um dos alunos que ela mais adora. - Lily confessou com um pequeno riso.

- Isso é devido ao meu charme. - James deu de ombros, fazendo Lily revirar os olhos. O maroto se virou para Ollivander. - Eu estou com um pequeno problema e acho que o senhor poderia me ajudar.

- Problema? Você quebrou a varinha?

- Não. Na verdade, ela está agindo de um jeito estranho. Acho que está com defeito.

Ollivander deu um passo para trás, desacreditado.

- Impossível.

- Eu creio que não. Eu vi o defeito...James deve ter algumas boas queimaduras nas pernas. - Lily apressou em dizer.

- O que acontece, rapaz?

- Bem…- James começou, mas lançou um rápido olhar para Lily antes de continuar. - Faíscas e fagulhas de repente.

- Do nada?

- Er...talvez?

Os olhos azuis de Ollivander, de repente, se viraram para Lily antes de voltarem para James.

- Poderia me emprestá-la por um momento? - James tirou sua varinha do bolso e lhe entregou. Ollivander a pegou e a trouxe para perto do ouvido, como se a ouvisse. Ele abriu um sorriso. - Eu já volto!

Deu as costas para os dois e subiu rapidamente as escadas, desaparecendo por uma pequena porta à direita.

- Não creio que ele se lembre de quando vendeu as varinhas para nós. - Lily meneava a cabeça.

- Ollivander se lembra de todas as varinhas que vende. Ele fez a mesma descrição das varinhas dos meus pais quando eu vim comprar a minha.

- Impressionante! Não é à toa que é tão renomado.

A ruiva começou a passear pela loja, olhando para a imensidão de caixas de varinhas por todos os lados. Um vulto no topo das escadas chamou a atenção de James: Ollivander fez um sinal para que ele subisse.

- Lily, eu tenho que subir. Não saia, por favor.

- Eu não sou uma criança, James. - Ela resmungou. - Mas eu não pretendo sair.

Ele acenou, agradecendo, e subiu os degraus de dois em dois, seguindo Ollivander pela porta. Era um pequeno escritório, com paredes cobertas de desenhos de varinhas e detalhes escritos por todos os pergaminhos. Uma mesa e uma cadeira estavam mais ao fundo, igualmente cobertos de pergaminhos. Era uma sala amarelada, James tinha a impressão, com todos aqueles pergaminhos por todos os lados.

- O senhor vem tendo alguns problemas emocionais?

- Perdão? - James perguntou subitamente. Que tipo de pergunta era aquela?

- Sua varinha está em ótimas condições, não poderia estar melhor. O escudo com desilusão realizado à pouco foi brilhantemente conjurado.

- E então?

- E então eu gostaria de ouvir do senhor, senhor Potter, quando as faíscas e fagulhas ocorrem. - James fez uma careta. - Meu garoto, eu preciso saber para poder ajudá-lo.

Desistindo de esconder qualquer coisa, ele apenas olhou para a porta e depois se virou para o homem.

- Todas as vezes, estava relacionado a alguém. Mas nem todas as vezes que estou com a pessoa, isso ocorre. - O maroto sussurrou.

- Sim, eu vejo. - Ollivander soltou um pequeno sorriso. O homem fitou James por alguns instantes. - O senhor sabe, com toda a certeza, como nossa magia está relacionada conosco, certo?

- Sim.

- Pois bem. Ela faz parte de nós. Imagine que somos todos varinhas: nós temos nossa casca, nossa personalidade, no que somos bons e no que podemos melhorar e temos o nosso núcleo, que é nossa magia. Este núcleo comanda tudo, desde nossa casca até a mínima característica boa ou ruim. Quando nossa magia, nosso ser, nosso "eu" está enfrentando problemas, é normal que as coisas saiam de controle. - Ollivander ofereceu a varinha de volta para James, que a pegou. - Não há nada de errado com a sua mogno, mas há algo errado entre o senhor e o gatilho de seu descontrole.

Era algo que ele não queria ter escutado. Preferia ouvir que teria que comprar uma varinha nova, ainda que não quisesse ter que se adaptar com uma nova varinha e gostasse muito da sua mogno.

Lembrou do episódio de Lily durante a monitoria de duelo. A explosão de magia dentro da sala que o acertou, tão forte… apenas lembrar daquilo, tinha arrepios pela nuca. Talvez cada bruxo, dependendo do que passava, exteriorize aquilo de jeitos diferentes. E o dele vinha naquela forma.

Não que ele pudesse comparar o que Lily sentia, causando aquele episódio, com o que ele estava enfrentando. O que ele tinha para resolver era minúsculo ao lado do sofrimento dela.

- O que eu não entendo é que mesmo estando feliz, isso acontece. Na maior parte, na verdade, foi quando eu estava feliz.

- Meu garoto, um problema de magia não precisa acontecer apenas em cenários negativos. Talvez haja algo nesses sentimentos que deve ser botado em ordem, ou decidido ou aceito. Saia de cima desse muro. Pense nisso.

- Certo.

Isso fazia muito sentido. A varinha não vinha dando problema há algum tempo, mas foi só tudo aquilo acontecer com Lily em Hogsmeade, a memória dela, o ataque...e lá estava novamente as faíscas e as luzes.

- Neste meio tempo, posso ajudar com outra coisa. - Ollivander foi até uma gaveta do outro lado da sala, abrindo-a com cuidado e retirando uma caixa de couro de dentro. - Vamos evitar que perca a perna ou se queime mais por aí.

James recebeu a caixa e a abriu rapidamente. Era um coldre para varinhas e que parecia muito antigo. Até o cheiro lhe dava a impressão dos anos que aquele objeto deveria ter.

- Dizem que esse coldre foi feito com o couro de um dragão milenário que morreu após anos ao lado do próprio Merlin.

- Isso deve valer uma fortuna. Por que está me vendendo?

Tirando-o da caixa, ele passou os dedos pelas fitas de couro que entrelaçavam-se, formando o coldre. Nunca havia visto algo tão bonito assim.

- Não estou vendendo. Estou lhe dando.

- Dando? - James quase engasgou. - Não, não posso aceitar.

- Pode. O senhor fará melhor uso dela neste momento, do que ficar dentro dessa gaveta. - Ollivander parecia orgulhoso de si mesmo. - Eu sinto que guardar bem a sua magia, é mais importante agora do que guardar um pedaço de couro dentro deste escritório velho. E não se preocupe, eu já dei um coldre que, provavelmente, pertenceu à Varinha das Varinhas antes. Nada supera o valor de algo valioso, que o próprio uso. Eu não quero guardar as coisas valiosas, mas passar para alguém que saberá usar.

Não sabia se concordava com ele, mas com certeza iria fazer bom uso. Ou talvez guardar, com medo da varinha explodir o coldre alguma hora.

- Obrigado. Eu vou tomar conta dele.

- Faça um bom uso, principalmente. - Ollivander observou o maroto por um instante. - Ela é uma bela jovem e muito esperta. - Ollivander sorriu. - E esperando por você lá embaixo. Faça um bom uso do seu tempo também, jovem.

Lily saiu de um dos corredores entulhados de varinhas quando começou a escutar passos nas escadas. Encontrou James e o Sr. Ollivander perto da porta, se despedindo com um aperto de mão.

- Resolvido? - Perguntou, se aproximando deles.

- Temos um caminho, o que já é melhor do que não ter resposta nenhuma. - Ollivander disse.

- Obrigada por nos receber e espero um dia vir com meus filhos e testar sua memória novamente. - Lily sorriu. O homem riu por um instante.

- Eu tenho certeza que lembrarei, Srta. Tenham cuidado.

Uma Lily satisfeita e um James pensativo saíram da loja. O movimento continuava o mesmo: monótono. Naquele momento, não havia ninguém por perto e o silêncio era um pouco arrepiante, mas ela não quis comentar.

- Está tudo bem? - ela perguntou. James se virou para ela e sorriu.

- Sim, está tudo ótimo.

- O que é esta caixa?

- Um coldre. Eu vou usá-lo por enquanto, para evitar que a minha própria varinha me mate.

Lily pegou a caixa de sua mão e abriu, conferindo o coldre de couro dentro.

- Muito bonito. Parece antigo.

- Pelo o que eu ouvi, é. Um dragão milenário que esteve com Merlin?! De qualquer forma, não quero pensar nisso, ou vou me arrepender de usar depois.

- Tudo bem, não vamos falar sobre o seu coldre especial e antigo. - Ela devolveu a caixa para ele. - Você gostaria de tomar uma cerveja amanteigada comigo?

James olhou para os lados, completamente incomodado com o ambiente a sua volta, provavelmente querendo aparatar com ela naquele exato momento para bem longe dali.

- Te convidar para beber uma cerveja amanteigada estava nos meus planos, mas…Seria uma boa ideia? - Ele perguntou, coçando a nuca.

A ruiva apenas revirou os olhos e o puxou pelo braço, indo na direção do Caldeirão Furado. Após pedirem suas cervejas e Lily fazer questão de pagar por ter sido ela o convidar, James os sentou longe dos poucos clientes do lugar, mas não antes de colocar um feitiço de desilusão em ambos para que ninguém os visse. As varinhas estavam em cima da mesa, ao lado da mão que usavam, para caso precisassem reagir rapidamente.

Lily começou a tomar de seu grande copo em um silêncio agradável, mas com um incômodo interno. Enquanto James estava com o Ollivanders no primeiro andar da loja, ela passeou pela loja enquanto refletia sobre o assunto. Ela olhou para cima, para James e depois desviou os olhos, não sabendo se valeria a pena falar sobre aquilo, se era apenas besteira de sua cabeça.

No minuto seguinte, após pensar e repensar, ela percebeu que iria incomodá-la por um longo momento se não falasse com ele.

- Eu...caham…- ela limpou a garganta, brincando com seu copo. James desistiu de beber sua cerveja para prestar atenção nela. - Você não confia em mim!

- Han? - Ele perguntou, perdido.

- Perto da Travessa do Tranco. Nós dois reagimos ao mesmo tempo quando aquele grupo veio correndo da esquina, mas você me jogou para trás...e me cobriu. - As sobrancelhas de James quase se juntavam de tanto que as franzia. - Eu estava pronta para proteger, atacar...mas você apenas tomou as rédeas em suas mãos e se colocou na frente. - Ela soltou todo o ar de uma vez. - Você não confia em mim. Ou, talvez, por conta do que ocorreu em Hogsmeade, não confia mais.

James colocou sua cerveja vagarosamente na mesa, não tirando os olhos do copo. Ele piscou algumas vezes antes de levantar os olhos para ela.

- Lily, eu confio 100% em você. - Ele cruzou os braços na mesa, sem tirar os olhos dela.

- Então por que não me deixou lutar com você, lado a lado, caso precisássemos?

- Nós não precisávamos lutar, não havia motivo para isso. Mesmo se fossem Comensais ou o próprio Voldemort ali, nós não precisávamos e nem deveríamos atacar, mesmo a vontade de botar aquele estrume de dragão no chão para nunca mais levantar. Estávamos em desvantagem e nos proteger era a melhor escolha.

- Mesmo que apenas precisássemos nos proteger pelo susto que tomamos ou o que fosse...eu queria estar ao seu lado, não atrás de você, como se esperasse que você fizesse tudo.

- Eu te vi derrotar Dolohov na apresentação do clube de duelo em segundos; você derrotou Mulciber nos corredores de Hogwarts e isso já contamos dois aspirantes Comensais na sua lista. Eu te vi confundir e acabar com Sirius e Remus... durante a monitoria, eu te vi fazendo coisas absurdamente boas, coisas que apenas quem é muito bom no que faz poderia fazer. Você é a mulher mais inteligente que eu já conheci, a melhor aluna daquele lugar, a melhor monitorada do clube de duelos…- Lily abriu a boca para retrucar, mas ele levantou uma mão a impedindo, um sorriso escapando dele. - Eu confiaria a minha vida em suas mãos, naquela situação ou em qualquer outra.

- Eu não entendo, então.

- O que você não entende…- Foi a vez dele de se arrumar na cadeira. - ...é que eu sei que você é completamente capaz de lutar suas batalhas e muito competente nisso, mas antes de tudo, o meu instinto foi proteger você e eu me colocaria entre você e alguém, entre você e uma varinha, não importando se eu estivesse armado ou não, são ou louco, com chances de ganhar ou morrer.

- James…

- E isso não é por achar que eu sou mais capaz do que você. Esse James que reagiu daquele jeito e que provavelmente reagirá assim novamente se precisar, não é o James duelista, mas o James Potter que não quer perder Lily Evans. - Ele pegou seu copo de cerveja e parou o gesto no caminho à boca. - Ainda que eu seja esses dois James de qualquer maneira.

Finalmente ele levou o copo de cerveja até a boca e bebeu um grande gole enquanto Lily ainda o encarava.

- Acho que temos um problema. - Ela disse finalmente. James a interrogou com um olhar curioso. - Existem muitas versões minhas, todas as que formam essa Lily Evans aqui, e ela está nervosa por ter sido colocada para trás, em vê-lo como um escudo, porque antes da Lily Evans orgulhosa, aquela que queria lutar também...antes desta, existe uma versão minha que é maior e mais forte e ela é a que se jogaria em frente de um feitiço direcionado a você sem pensar, porque essa Lily Evans não quer perder James Potter.

O sorriso dele se abriu, a fazendo sorrir de volta. Ainda que fosse uma conversa um pouco estranha, sobre morte, se colocar em perigo ou mostrar o quanto estavam prontos para morrer ou morrer tentando, havia sido o mais perto de uma declaração apaixonada de ambos. Aquela constatação a fez sentir o coração acelerar tanto, que quase era difícil de respirar.

A varinha de James em cima da mesa começou a acender e girar levemente, como se estivesse pronta para agir sozinha e soltar feitiços em todos do lugar. Ele rapidamente a pegou e a colocou em seu coldre antes que alguém fosse pego de surpresa por uma fagulha na cabeça.

- Sim, eu acho que temos um problema. - James comentou ainda sorrindo.

L~J

Os dois passaram mais de uma hora conversando e bebendo, como se não tivessem trocados centenas de cartas nas últimas duas semanas. A conversa era fluida e interessante, Lily gargalhava muitas vezes, como sempre acontecia quando tinha aqueles momentos com ele.

E eram momentos muito bons, que sentiu falta, que parecia estar viciada e desejava ter por toda a vida: sentar em qualquer lugar que fosse, James ao seu lado, e conversarem sobre tudo e sobre nada, fazerem piadas, flertarem e deixar a alma mais leve, mesmo com todo aquele clima bizarro ao redor.

Quando James anunciou que não poderia demorar muito mais, partiram do Caldeirao furado até o Beco. Lily segurou no braço de James e pensou em sua sala de casa antes de aparatar. Seus pés atingiram o chão e apertou os olhos fortemente, lutando contra a tontura.

- impossível não haver algo que pudéssemos fazer sobre esse seu problema com aparatação. - Ela ouviu a voz de James antes do rosto dele aparecer na escuridão da tontura. Ele colocou os dois casacos no encosto do sofá e a caixa do coldre, e a olhava de perto. - Não acho muito seguro você chegar em algum lugar e não poder ver o que tem à sua frente.

- Seria interessante achar algo contra isso, mas segundo McGonagall, apenas o tempo irá ajudar. Eu já estou melhor desde quando começamos a aparatar, então acho que logo menos eu me acostumarei.

James assentiu antes de seus olhos desviarem para a televisão e depois se virou para ela. Lily percebeu uma vontade nos olhos dele de alguém que adoraria sentar no sofá e passar o resto da noite na frente da tela.

- Obrigado por vir comigo hoje, mesmo colocando sua vida em perigo. E obrigado pela cerveja amanteigada, acho que estou te devendo uma.

- Você não está me devendo nada. - Ela revirou os olhos. - E você não me colocou em perigo. Eu fiquei feliz pelo convite.

Um pequeno barulho veio do relógio de James, chamando a atenção do maroto.

- Eu preciso chamar Sirius e dizer que estou bem. - O maroto tirou o espelho do bolso e Lily, sem perceber, sorria maravilhada em poder vê-lo funcionando novamente, portanto ela ficou ao lado de James, mas longe o suficiente para não aparecer no espelho. - Padfoot!

O rosto bonito de Sirius apareceu alguns segundos depois.

-Você ainda está vivo. Eu já estava mudando as minhas coisas para o seu quarto e discutindo sobre os papéis de adoção com os seus pais.

- Sim, ainda vivo e bem. Eu não vou demorar.

- Vou avisar seu pai então. Ele não ficou muito feliz sobre a sua visita ao Beco.

- Bem, se ele tivesse me dito o quão ruim as coisas estavam, ao invés de me deixar de fora, eu não teria ido. - James suspirou. - De qualquer jeito, eu volto logo.

- Não espere uma comitiva muito alegre quando chegar. E se você demorar muito mais, eu sinto que o Auror Moody será o responsável pela sua caça no mundo trouxa, então não recomendo perder muito mais tempo.

- Avise que eu não vou demorar e a caça é totalmente dispensável.

- E só para avisar: Moony confirmou que chega hoje à noite e que tudo estava ok com todos para amanhã.

James limpou a garganta e rapidamente virou o espelho para Lily. A ruiva teve que afastar o rosto com a surpresa.

- Diga tchau para Sirius, Lily! - Sirius levantou as sobrancelhas e sorriu.

- Ah! Oi, você ainda está com ele. Tomou conta do Potter para nós?

- Sim. Eu lutei contra dragões, duendes e comensais. Foi duro, mas ele saiu sem um arranhão.

- Muito bem, estou orgulhoso. Como recompensa, você poderia me enviar uma outra coisa daquelas que usamos para escrever. A minha está falhando.

- Eu devo te dar uma recompensa? E você usou toda a tinha? Já?

- Não sei, talvez? Elas são ótimas para desenhar e pintar também.

Meu deus, Sirius Black usou uma caneta esferográfica para ficar desenhando. Claro que não devia ter mais tinta.

- Eu vou ver o que posso fazer por você. - O maroto parecia o feliz dos felizes. - Aliás, me chame de Lily. - ela sorriu, dando de ombros.

- Me dando mais uma daquelas, você pode me chamar do que quiser, Lily! - Sirius piscou para ela. - Eu acho que vejo você em breve.

- Vejo você em breve...eu acho. - Ela olhou para James, que fez uma cara de quem não havia entendido também. A maroto trouxe o espelho novamente para o próprio rosto.

- E eu vejo você em breve.

-Contando os minutos para te ver, carinho. - Sirius mandou um beijo e desligou. Lily riu.

James guardou o espelho de novo no bolso e respirou fundo. Se ele estivesse sentindo o mesmo que ela, então ela entendia o suspiro dele: também não queria que ele fosse embora, tendo que voltar às cartas e dependendo do tempo de Londres para que elas chegassem.

- Bem, parece que você é requisitado em outro lugar. - Lily fez um pequeno bico, triste por ele já ter que partir. - Até logo, espero.

Lily se aproximou e ficou nas pontas dos pés, dando um beijo na bochecha de James. A pele dele era quente e macia e o maroto tinha um cheiro gostoso de perfume. Ela se afastou, abaixando os pés de volta. James abriu os olhos e a encarou, ficando assim por alguns segundos.

- Sim, até logo! - Ele respondeu claramente desapontado também.

Não estava crendo que teria que ir embora agora, daquele jeito, com o beijo dela parecendo queimar em seu rosto. Aquele beijo em Hogsmeade voltou com toda a força, uma cola em seus pés que o impedia de aparatar até sua casa.

Queria dizer para ela, queria trazer uma penseira e mostrá-la tudo o que aconteceu - mas seria muito bizarro assistir a cena, talvez? -, apenas queria que ela se lembrasse ou que soubesse o que aconteceu, então ele saberia se avançava e a beijava de novo naquele exato segundo.

Mas ele não ia dizer, não quando ainda não sabia o que falar, como explicar, sem criar um ambiente bizarro. Não era a coisa mais fácil de dizer para alguém que se beijaram, mas a pessoa não lembrava. Como ela reagiria?

Desviou o olhar dela e se virou para o sofá, onde seu casaco e a caixa do coldre estavam.

- James. - Ele se virou, ainda segurando o casaco, ficando petrificado no lugar.

- Lily? - Ele perguntou quando a ruiva demorou para responder.

Os olhos dele a hipnotizavam agora, pedindo para ela se aproximar. Lily sentia-se rendida completamente, não querendo mais esperar. Teve sua dose de espera e não aceitaria mais nem um minuto daquilo. Então mal percebeu quando seus pés quase tocavam os dele, que faltavam apenas alguns centímetros para que seus corpos também se tocassem.

- Eu quero te perguntar uma coisa. - Suas palavras saíam tão baixas, que esperava que ele as ouvisse.

Viu uma sombra de receio e curiosidade nos olhos dele.

- Eu espero ter a resposta.

- Você a tem.

James se remexeu no lugar e fixou o olhar em seus olhos, parecendo se preparar para o que vinha. Ela não tinha outra maneira de perguntar, então tentou respirar fundo disfarçadamente, antes de lançar a pergunta:

- A gente se beijou em Hogsmeade?

Ele estava longe de esperar por aquilo, ela percebeu. James parecia genuinamente surpreso com a pergunta, engolindo duas vezes antes de dizer algo.

- Você confia em mim para te dizer a verdade? - Ele perguntou baixo, olhando da boca dela para os olhos novamente.

- Eu confio a minha vida em suas mãos. Então eu mais do que confio que me dirá a verdade.

Os olhos dele vacilaram, pareciam querer ficar firmes nos olhos dela, mas eles desceram em direção a sua boca novamente. Aquilo fez com que Lily também olhasse para a dele, desejando cada vez mais aqueles lábios.

- Tem certeza que quer a resposta?

- Absoluta.

James molhou os lábios inconscientemente e tomou fôlego enquanto levantava os olhos e a encarava. E então ele respondeu, simplesmente respondeu, deixando aquela única palavra sair de sua boca:

- Sim.

Claro que a resposta era sim, mas era ótimo ter a confirmação dele. Aquela sensação que lembrava era dos braços de James nela, a felicidade que lembrava sentir era de estar beijando James. Não duvidou em momento algum quando começou a ter aquelas lembranças sensoriais.

O seu corpo não esqueceu do corpo dele e aquilo era uma delicia de saber.

- Obrigada pelo esclarecimento.

Lily o puxou pelo pescoço e o beijou. E lá estava a confirmação de que James não havia mentido: os braços dele a enlaçaram exatamente como ela lembrava, os lábios dele tão perfeitamente em harmonia com os dela, de um jeito que apenas duas pessoas que já se beijaram poderiam ter.

Sim, eles haviam se beijado e era a mesma sensação maravilhosa das lembranças, mas de um jeito melhor, pois agora era realidade, saindo das divagações e flashes de memórias. Agora era real.

As mãos de Lily subiram até o gorro que ele ainda usava e o tirou, jogando para trás, então podia sentir seus dedos em seus cabelos, deslizando pelos fios macios do jeito que ela sempre quis fazer. Se perguntou se havia feito o mesmo em Hogsmeade, mas duvidava que teria perdido aquela oportunidade. James suspirou com o carinho dela e a pressionando mais contra si, mostrando que estava tão feliz quanto ela.

Não sabia como sua mente conseguiu se livrar da memória de um beijo de James Potter, porque honestamente, era perfeito.

Se separaram, apenas as bocas longe uma da outra. James segurava firme o rosto dela, os narizes se tocando, os olhos fechados. A necessidade dele, de seu beijo, eram enormes, nem lhe dando a impressão que haviam acabado de se beijar. Lily precisava mais dele, de mais outro beijo, de tudo. De repente, sentia no ar a vontade que ainda não havia sido nutrida, pelo contrário, parecia longe de acabar. E ela sabia que James estava sentindo o mesmo, ainda que não tivesse dito nem um "a" até o momento.

Era o jeito que ele respirava, como ele a segurava e como seus lábios não a beijavam, mas passeavam levemente pelos dela. Ele queria mais, de novo, assim como ela.

- Foi assim em Hogsmeade? - Ela perguntou.

- Não exatamente. - James respondeu, dando um leve beijo na lateral da sua boca.

- Não?

Sem aviso, James sentou no encosto do sofá e, ainda segurando-a contra ele, o maroto caiu para trás, trazendo Lily consigo e caindo no sofá grande e confortável. Ela riu com surpresa, fazendo James sorrir.

Eles se ajeitaram, suas pernas se entrelaçaram, dando a Lily uma sensação de reconhecimento daquele movimento. James era muito mais alto do que ela, com o corpo muito mais firme e preparado por conta do Quadribol, então ela sentia-se quase sumindo ao seu lado, mas de um jeito muito bom. Nunca esteve mais aconchegada em sua vida do que agora.

James passou os dedos pelo rosto dela, levando-os aos cabelos rubros depois.

- Foi mais ou menos assim.

Eles se beijaram novamente, mas com mais urgência. E ela o aceitou, tão aplicada quanto ele. O romance havia ficado para trás, a delicadeza havia sido considerada no beijo anterior. Agora, eles se beijavam com fervor, as mãos não conseguindo ficar paradas: passeavam pelas costas, pelos pescoços, rostos, desciam novamente para a cintura.

Como um filme em sua cabeça, Lily teve essa lembrança de volta. Lembrava das pernas de ambos enlaçadas, mas agora tinha essa pequena memória de estar com os joelhos na terra, o corpo dele embaixo do seu. Merlin, ela havia beijado James no chão e, não contente, em cima dele.

Mas agora não era hora de surtar por isso, porque estava quase acontecendo a mesma coisa ali e ela precisava aproveitar. E ela poderia dizer que aproveitou muito. Desde o beijo, a boca dele, seus corpos juntos de uma maneira tão íntima, até suas mãos dentro da blusa dele, o corpo dele tão quente. As mãos de James por baixo de sua blusa, chegando perto o bastante de tocá-la, mas não passando daquele limite. Mas não disse nada quando, alguns minutos mais tarde, ele tinha a mão em suas coxas e subiu até seu quadril, apertando-a de uma maneira que a fez suspirar. Aquilo a encorajou a fazer o mesmo, conferindo o quanto exercícios de Quadribol fortalecem os músculos dos jogadores.

O corpo dele era um paraíso e ela apenas queria descobrir cada vez mais.

Depois de longos minutos apenas aproveitando aquele primeiro beijo (segundo ou terceiro) oficial deles, James sabia que tinha que ir embora antes que alguém resolvesse vir atrás dele. A última coisa que queria era ter Aurores, a mando de seu pai, invadindo a casa de Lily porque ele disse que estava chegando, mas estava demorando mais do que deveria. A vergonha seria maior do que a dor em ter que soltá-la naquele momento.

E apesar desse pensamento, quem pareceu ter forças para por fim no beijo havia sido Lily. Ela segurou o rosto dele e deu um último beijo em seus lábios. Eles se olharam e James não pôde se impedir de sorrir para ela, e acabou recebendo um sorriso de volta.

- Foi assim em Hogsmeade então? - Ela perguntou.

- Não. - James se impediu de dizer que havia sido tão bom quanto, não querendo deixar a sua visão do acontecimento não influenciá-la. Então apenas acariciou o rosto dela, sorrindo. - Mas apenas porque não tivemos tempo, eu imagino. Estávamos ainda em um estágio entre o primeiro beijo e o segundo de hoje.

Ela sorriu, tímida. Um pouco sem jeito, Lily levantou do sofá, sendo seguido por ele.

- Acho que agora você não tem muita escolha, além de voltar para casa, certo? - A voz dela estava mergulhada em decepção, assim como ele mesmo se sentia.

Eles estavam sozinhos em uma casa, sem adultos por perto, e ele teria que ir embora. Pegou-se agradecendo, ironicamente, ao pai e ao time de Aurores por isso. Um agradecimento especial para Voldemort também, que estava ajudando a empacar aquele momento.

- Se precisar de mim…- James tirou um pergaminho do bolso, levantando na altura dos olhos dela. - Me procure. Não importa a hora. Esse pergaminho servirá como uma chave de portal, só precisará repetir o endereço em voz alta.

As pequenas e delicadas mãos dela seguraram o pergaminho e o abriu, encontrando o endereço da casa dos Potter em Londres.

- Se você precisar de mim, já sabe onde me encontrar. - Lily respondeu sorrindo. - E obrigada. - ela disse e balançou o pergaminho.

James se abaixou e deu um último beijo nela antes de soltá-la. Viu seu gorro caído no chão e fez menção de pegá-lo, mas Lily teve a mesma ideia, fazendo as cabeças baterem no meio do caminho.

- Desculpa! - eles disseram ao mesmo tempo e riram, cada um colocando a mão em um lado da cabeça.

- Desculpe, eu pensei que havia jogado seu gorro no sofá, mas ele caiu no chão. - Ela se apressou a dizer e a se abaixar, pegando o gorro. Ela bateu a mão na peça, tentando limpar a sujeira inexistente.

- Não tem problema.

Ele aceitou o gorro que ela lhe entregou e o colocou de volta, assim como pegou seu casaco e o pendurou no braço.

- Até logo, James. - ela disse.

- Até logo, Lils.

James lançou o melhor e mais sexy olhar para ela, acompanhado de um sorriso diabólico, antes de partir, deixando-a mais decepcionada por sua partida do que antes.

Uau. Eles haviam se beijado. Finalmente. De novo, aparentemente.

Lily sentou no encosto do sofá e se deixou cair para trás, e encarando o teto. Que beijo! Como ela queria poder beijá-lo mais e mais e sem parar.

Em sua mão, sentiu um movimento e a abriu. O pergaminho que James havia lhe dado se transformou no passarinho. Um canto feliz e alto soou por toda a casa e Lily o assistiu voando pela sala, feliz com suas pequenas asas batendo freneticamente e dando mergulhos na direção dela, antes de voltar a voar bem alto. O sorriso não saia do rosto dela enquanto assistia aquela cena maravilhosa.

Depois de fazer uma linda festa no ar, o passarinho desceu vagarosamente em movimentos circulares até ela. Ele se aconchegou em seu rosto e esfregou sua cabeça na bochecha de Lily, antes de levantar voo novamente e se acomodar em cima da estante ao lado da televisão.

Parece que James havia lhe deixado um pedaço seu com ela, afinal.

J~L

James jogou o casaco e o gorro na cama antes de sair do quarto à procura de alguém. Desceu as escadas e ouviu uma voz vinda da sala de estar e foi em direção à ela.

Euphemia tirou os olhos de um livro que estava apoiado em suas pernas e levantou as sobrancelhas ao ver o filho entrar com um sorriso enorme no rosto. Como ela estava sozinha, provavelmente esteve discutindo sobre o que lia. Sua mãe fazia muito isso quando discordava de algo ou se irritava com a leitura.

- Sorria enquanto pode, James Fleamont Potter. Estávamos esperando-o chegar para ter uma conversa com o senhor.

- Mãe…- ele se aproximou e deu um beijo na bochecha de Euphemia. - Não há nada que vai estragar este dia.

Aquela frase pareceu amolecer Euphemia, a fazendo sorrir.

- O que aconteceu, filho? Sirius nos disse que foi até o Beco Diagonal.

- James!

A voz de Fleamont fez James se virar para a porta. Seu pai estava muito mais sério e duro do que sua mãe. Respirou fundo, mas manteve o sorriso.

- Desculpe por não avisar. Eu não sabia que o Beco Diagonal estava no estado que estava e acreditem, eu não iria lá se soubesse.

- Ou talvez não sozinho. Provavelmente arrastaria Sirius com você apenas para tentar ver o que aconteceu e tentar pegar alguns Comensais vocês mesmos. - Fleamont respondeu se lembrando do incidente com James, Sirius e sua moto durante o verão passado, quando estavam sendo perseguidos e lutando contra dois Comensais e acabaram se envolvendo com dois policiais trouxas. Fleamont e alguns Aurores do Ministério tiveram que achar os dois policiais e oblivia-los.

Não sabia o que responder, porque havia uma grande chance de seu pai estar certo.

- Bem, não foi o caso. - James se sentou ao lado de sua mãe. - E eu não pretendo voltar lá, apenas se for extremamente necessário, e eu avisarei vocês.

- E com um Auror com você.

- Pai, eu não preciso de segurança e não sou uma criancinha. Eu sei me defender.

- Não vamos correr nenhum risco, filho. - Euphemia quem respondeu dessa vez. - Não são apenas famílias trouxas sendo atacadas e você sabe.

- Voldemort e sua corja sabem de nossos interesses políticos. Eles sabem que defendemos e defenderemos sempre o bem-estar e o direito dos trouxas e nascidos trouxas. A família Potter nunca dará um pé para trás sequer sobre esse assunto, então somos uma família bem visada. Nem o lugar na Sagradas Vinte e Oito impediu o seu avô de lutar por isso.

- Eu pensei que nós não nos importássemos com essa porcaria de Sagradas Vinte e Oito. - James respondeu com uma careta.

- E não nos importamos. Eu quero te fazer entender tudo o que fizemos, fazemos e faremos sobre esse assunto e isso desagrada com quem estamos lutando contra. Então é seu dever ser cuidadoso e…

- Eu sou cuidadoso e eu serei, principalmente quando eu começar a lutar contra isso.

- Filho, por favor…

- Eu tenho dezessete anos e escolhi o que quero.- Ele cortou Euphemia. - Sem lutar contra isso, sem acabar com Voldemort, não há outra coisa no mundo que eu estaria tranquilo em fazer. Se eu tiver que morrer tentando, então eu morrerei tentando, mas eu garanto que eu vou trazer alguns bastardos comigo caso aconteça.

- Eu não quero ficar aqui ouvindo isso.

Euphemia se levantou e quase trombou com Sirius entrando na sala. O maroto a abraçou e deu um beijo na matriarca da casa.

- Seu filho menos preferido está te chateando? - Sirius perguntou.

- Ele não para de falar sobre a guerra e de se enfiar nisso tudo. - Euphemia lançou um olhar para James, que revirou os olhos. - Ele não sabe que isso é o que uma mãe mais odiaria ouvir.

- Ele está falando sobre Voldemort? - Sirius estava surpreso e olhou para James. - Sério mesmo? Você passou sua tarde com Lily e chega aqui falando sobre aquele idiota?

- Lily? - Euphemia e Fleamont perguntaram ao mesmo tempo, se virando para o filho.

Por um lado, James ficou irritado por Sirius comentar isso na frente dos pais. Por outro, isso o fez lembrar do beijo deles. Da tarde, da conversa, da companhia e do beijo. Beijos, na verdade. Só de pensar naquilo, ele sentia uma felicidade imensa.

Olhou para cima e viu os três ocupantes da sala olhando-o com curiosidade.

- Olha esse sorriso de idiota que ele está. - Sirius apontou. - Estamos condenados a viver essas férias com James sonhando acordado o tempo todo.

- Você levou a senhorita Evans até o Beco Diagonal? - Fleamont perguntou franzindo a testa. - Você esteve com ela hoje? No Beco Diagonal?

- Eu não sabia o que estava acontecendo. - James repetiu. - Acreditem em mim, eu não iria sozinho se soubesse o que estava acontecendo e nunca, nunca, levaria Lily.

- Vocês deveriam ter ido embora assim que perceberam que algo estava errado. - Euphemia disse.

- Eu concordo, mas nós fomos cuidadosos. Eu nos desiludi para que ficássemos mais seguros.

- E por que você teve que ir até lá?

- Tive que ir até o Ollivanders para checar um problema. - O maroto respondeu o pai.

- Você quebrou sua varinha? - Euphemia perguntou.

- Não. - ele suspirou e se recostou no sofá, olhando para o teto. - Apenas tenho que lidar com a minha magia. Aparentemente eu estou em um processo de decisão sobre algo e isso está deixando a minha magia fora de controle. O que causou aquele incidente na enfermaria e que pensam que era apenas o filho de vocês querendo enfrentar Aurores por diversão, aliás.

Se perdeu novamente nos pensamentos. Aquilo havia sido um passo, certo? Ele queria mais do que tudo estar com ela, isso foi algo que nunca teve dúvidas, mas talvez o problema era sobre agir, sobre ir em frente de verdade com aquilo e não apenas convites para Hogsmeade que ele torcia para serem aceitos. Eles haviam chegado em um nível onde era possível fazer acontecer.

E ele queria fazer aquilo acontecer mais do que qualquer outra coisa.

- James and Lily sitting in a tree, K-I-S-S-I-N-G. First comes love, then comes marriage, then comes Lily with a baby carriage.

James olhou nervoso para Sirius, mas sorriu após ver sua mãe bater palmas com a música e Fleamont rir.

- Quero conhecer Lily. Por que não a traz para conhecermos? - Euphemia dizia empolgada.

- Na Peverell's creek. O que acha? - Fleamont deu a ideia.

- Não me soa como uma má ideia. - ele murmurou.

- Chame os pais dela. Seria adorável conhecê-los também. - Os olhos de James caíram em pesar e sua mãe pareceu compreender imediatamente. - Oh!

- Sim. - ele respondeu.

- Com quem ela mora atualmente?

- Lily mora em Hogwarts, mãe, esqueceu?

- Mas agora, hoje...ela está com um familiar? Com amigos?

- Ela está sozinha.

-Sozinha?! - Euphemia quase gritou com incredulidade. - Sozinha para o Natal? Como você ousa deixá-la sozinha para o Natal? Você ousa deixá-la sozinha com o mundo do jeito que está?

- As amigas dela a chamaram para passar o Natal em suas casas, mas Lily negou. - Sirius explicou.

- E se ela não quis passar com elas, eu duvido que ela quisesse passar comigo. - James continuou.

- Porém, temos um plano! - Sirius finalizou e piscou para James que assentiu de volta.

- E eu, talvez, tenha deixado um pequeno ajudante com ela hoje. Ele vai cuidar dela. Se caso algo acontecer, ele vira uma chave de portal e trará Lily imediatamente para cá.

Euphemia e Fleamont se olharam, parecendo ter uma conversa silenciosa. Um sorriso brotou no rosto de sua mãe e Fleamont a acompanhou.

- Bom, eu ainda quero conhecê-la. Traga-a para Peverell's Creek. Eu tenho muito o que conversar com Lily, a garota que roubou o coração do meu filho.

- Hehe eu quero estar presente. - Sirius comentou.

James apenas coçou a nuca, pensando se era mesmo uma boa ideia.


N/A:

Esse capítulo estava pronto a tanto tempo, mas tanta coisa mudou ao longo da história, que tive que mudá-lo. Espero que as coisas façam sentido.

Próximo capítulo na semana do dia 28/08, se tudo der certo. Sneak Peak chegando amanhã no Instagram :D

Resposta para review sem logins:

Mah: Ai, eu acho que o Snape nao tem nada nao, amiga. Aquilo ali ja era. Sobre o natal da Lily, acho que vamos descobrir no proximo capitulo :D hehehe Beijoooos

Cin: Sempre fico super feliz quando voces gostam do capitulo *-* Quanto a ela relembrar do beijo: acho que tivemos algumas respostas hoje hahahha e obrigada pelas palavras. Fico realizada ao saber que voces sentem as emoçoes deles também. Melhor sensaçao do mundoooo. Beijoooos.

Beijos! ;**