J~L
Enquanto lia o seu livro no corredor do segundo andar, sentada no chão perto da grande janela que tinha vista para a floresta, tentava não pensar na loucura que havia sido aquele dia. Ou no caso, tentava não negativar o fato de estar bem.
Era difícil. Pensar nas pessoas que perderam suas vidas naqueles ataques em pleno Natal lhe trazia uma imensa dor no coração, achando a vida injusta por algumas pessoas conseguirem escapar e outras sem a sorte de ter tido um aviso em boa hora.
Se começasse a contar quantas vezes James salvou sua vida, estaria devendo por várias encarnações. E naquele caso, não importava se ela estivesse como um alvo ou não, mas foi salva e protegida.
- Lily!
Ela se levantou quando viu Fleamont se aproximar. Não via os pais de James por algumas horas desde a partida dos marotos e não queria atrapalhá-los, por isso preferiu tentar ler algo perto de seu quarto.
- Sr. Potter.
- Me chame de Fleamont, por favor. - ele sorriu. O pai de James se aproximou da janela e deu uma olhada para a floresta. Ela tinha a impressão que ele devia fazer aquilo com frequência naquela noite. - James me disse sobre o quão extraordinária é com Poções.
- Não sou extraordinária. - ela riu sem graça. - Eu apenas gosto muito e tenho muito interesse, o que acaba trazendo boas notas. Extraordinário eu diria o senhor, que conquistou prêmios e criou poções ótimas para o mundo bruxo.
- Graças a muito estudo, o que parece estar sendo o seu caminho. - ele disse, feliz. - Eu estou preparando poções para os garotos amanhã e uma mãozinha de alguém que "gosta muito e tem muito interesse" seria de grande ajuda. O que acha?
A excitação tomou conta dela. Teria uma chance de preparar poções com um dos melhores pocionistas da atualidade.
- Seria um prazer!
Fleamont a levou até o térreo e depois o seguiu por uma estreita escada até uma espécie de porão, mas aquele lugar estava longe de ser um porão. Era uma sala de preparação de poções enorme e completa. Estantes e mais estantes cheias de livros, caldeirões, balanças, tubos de ensaio e muitas outras coisas que ela nem fazia ideia. O ar tinha aquela típica fumaça de salas de poções, com cheiros variados que ela tanto amava.
- Você tem aquele olhar. - Fleamont disse. Ela se virou para ele.
- Olhar?
- Olhar que vemos apenas em pessoas que realmente amam poções quando entram nesse ambiente.
- Eu realmente adoro esse ambiente.
Ela o seguiu até uma bancada onde continha alguns ingredientes.
- Poção Limpa Ferida. - ela disse ao bater o olho.
- Exato. Está familiarizada.
- Sim. Eu posso me ocupar dela, se quiser.
- Ótimo. Eu vou preparar algumas poções revitalizantes.
Lily arregaçou as mangas e limpou as mãos antes de começar. Enquanto amassava os escaravelhos até virar pó, ela se permitiu olhar para o trabalho de Fleamont. A maneira que ele andava pelo lugar, o jeito que lidava com cada ingrediente, a forma que cortava ou os separava...era tão profissional e ao mesmo tempo tão calmo. Algo que apenas alguém absurdamente confortável e bom no que fazia poderia ter. Gostaria de ser daquele jeito um dia, com tanta confiança nos próprios pés e mãos em volta de tantas coisas e ingredientes importantes.
Ele levantou os olhos para ela e sorriu enquanto Lily cortava as sanguessugas na vertical e as separava.
- Lily?
- Sim? - ela levantou o olhar.
- Você não deveria picar as sanguessugas? - ele perguntou.
- Ah! Bem, se você as corta na vertical, acabam por dar mais suco na poção, o que acaba ardendo menos na aplicação e ajuda um pouco mais na cicatrização. Eu gosto de usar uma poção cicatrizante após essa, mas as sanguessugas na vertical ajudam bastante.
Continuando o seu trabalho, ela voltou o olhar para os cortes das sanguessugas, enquanto Fleamont a encarava, abismado. Ele rapidamente pegou um pergaminho e anotou a informação.
- Assim como quando se faz a poção revitalizante. - Ela continuou, sem olhá-lo. - Se você colocar o pó de unicórnio antes do pó de polvo, ela durará mais. Uma vez eu fiquei quase 24h sem sono por conta dela, o que me ajudou bastante nos NOMS. Eu recomendaria apenas em casos extremos. Naquela vez, eu tinha que estudar bastante para Runas.
Os olhos castanhos-esverdeados de Fleamont se abriram em surpresa. Nunca havia tentado aquilo. Olhou para os ingredientes em sua frente e decidiu fazer uma das doses como Lily havia dito apenas para testar em si mesmo. Ter seu filho e seus amigos revitalizados já era muito por algumas horas por dia. Se os tivessem por 24h, aquele chalé viria abaixo.
Trabalhando bem concentrados, ambos passaram duas horas preparando as poções e as guardando para o dia seguinte. Lily ainda estava em êxtase com aquela oportunidade, tendo algumas explicações de Fleamont em como lidar com certos ingredientes de uma forma mais dinâmica. Era praticamente uma aula com um dos melhores e ela não podia esperar para ter outra sessão daquelas.
- Foi um prazer enorme,Lily. Eu creio que aprendi novos truques essa noite. E eu garanto que os testarei com prazer.
- Obrigada. E eu levarei os novos ensinamentos comigo. - ela também agradeceu.
Fleamont continuou em sua sala de poções enquanto Lily subia para o quarto, os pergaminhos com anotações embaixo do braço. Há muito tempo não sentia, mas naquele momento a saudade de ter e poder conversar com Severus sobre isso bateu forte. Era loucura pensar que ele havia ido por aquele caminho agora, não combinando em nada como era quando amigos.
Ou pior: ter feito o que tinha feito com ela.
Ele ficaria fascinado em ouvir as histórias e notas de Fleamont Potter, mas ele não merecia ter mais informações boas daquelas. Não quando fosse usar para melhorar aquele outro lado da guerra.
Ela não tinha pijamas na mochila preparada para fuga, então teria que se contentar em dormir com as roupas debaixo. O quarto estava bem aquecido com a sua própria lareira, então não teria problema. Colocou um roupão grosso e quente disponibilizado e se sentou na cadeira, de frente para a janela e observou a floresta.
Onde eles estariam naquela hora? Estariam bem?
Se levantou e abriu a janela, o vento congelante acertando-a em cheio no rosto. Nevava um pouco, bem fraco, e ela tentava ouvir algo vindo das florestas, mas estava puro silêncio. Queria ser um passarinho agora, podendo voar por toda a extensão da floresta e poder achá-los.
Aliás, tinha tantas perguntas sobre como eles se transformaram em Animagos. A preparação era tão específica, trabalhosa e longa...
Como eles haviam passado um mês com uma folha de mandrágora na boca? Deve ter sido durante o verão, pois como eles esconderiam aquele fato de todos, inclusive professores? Não lembrava dos Marotos passarem tanto tempo sem falar ou quase não abrir a boca para se expressarem em momento algum.
Ouviu um uivo alto e não muito longe. Seus sentidos despertaram na mesma hora, os olhos correndo por todo e qualquer pedaço de chão da floresta que alcançava. De repente, entre as folhas densas, viu patas e sombras. Não tinha ideia de quem ou o quê. Eles estavam bem perto agora.
Com uma coragem louca, ela pegou sua varinha, correu do quarto e desceu as escadas rapidamente. Colocou suas botas, vestiu o casaco por cima do roupão e saiu para a varanda do chalé.
Sim, ela os ouvia. Ouvia as patas contra a neve, ouvia grunhidos e rosnados. Lily sorria fascinada ao ouvi-los, não acreditando que não eram animais, mas sim seus amigos.
E na escuridão da floresta, bem a sua frente, viu dois olhos brilhantes em sua direção. Eles pareciam se aproximar vagarosamente, como se estivesse pronto para atacar. As mãos de Lily seguraram forte a balaustrada de madeira, o coração batendo forte.
Saindo da escuridão, a forma do lobisomem começou a se formar: o longo focinho, os olhos nervosos e brilhantes, os dentes enormes para fora. Remus rosnava para ela e estava claramente descontente em vê-la ali.
Sabia que era um lobisomem e considerado uma besta horrível para a maioria, mas para Lily ele era esplêndido. Era bem grande, talvez por Remus ser alto? Não sabia se aquilo teria alguma conexão, mas não conseguia evitar fazer comparações do lobisomem em sua frente e com Remus. Aqueles olhos agora tinham tanta raiva, tanto ódio...tão diferente dos olhos doces do seu amigo.
De repente, o lobisomem avançou com a intenção de atacá-la. Lily, no instinto, deu um passo para trás, mas Remus bateu contra a proteção invisível, choramingando por um momento. Aquilo pareceu ter irritado-o ainda mais, fazendo-o uivar muito alto, fazendo Lily arregalar os olhos. Ele avançou novamente e, mais uma vez, bateu com força no vazio. Uma marca de sangue surgiu na proteção de Fleamont.
- Você está se machucando! - ela disse. Deu alguns outros passos para trás, querendo sumir da vista de Remus e impedi-lo de continuar a avançar e se machucar.
Derrapando e vindo do mesmo caminho do lobisomem, o cachorro preto chegou ao lado de Remus. Latindo, o cachorro pulava no lobisomem, as patas o empurrando para trás. O lobisomem reclamou e deu uma patada no cachorro, que apenas balançou a cabeça com o distúrbio momentâneo. Lily ouviu mais passos chegando e assim que o viu, ela sabia quem era.
O cervo era absurdamente grande e imponente. Ele bateu com uma pata no chão e foi para cima do lobisomem, o empurrando com o corpo para longe. O cachorro latiu e pegou o caminho para a floresta e olhando para trás, como se chamasse o lobisomem para segui-lo. O lobisomem olhou para o cachorro e depois para Lily, parecia tentar decidir o que fazer. O cervo o confrontou de novo, o empurrando em direção ao cachorro.
Um rato razoavelmente grande saiu do meio das folhagens e subiu no lobisomem, o puxando pela orelha, irritando-o. Logo em seguida, o rato desceu e correu atrás do cachorro. O lobisomem os seguiu.
Lily respirou aliviada. Não queria que Remus se machucasse mais do que o normal e ainda por cima por sua causa.
O cervo se virou para ela. Sim, era ele. Não tinha como ter alguma dúvida, e não sabia o por que disso, mas o cervo tinha a mesma aura, o olhar, o jeito de se portar. Era James com toda a certeza.
Antes de descer pelas escadas de madeira, ela olhou pela floresta e tentou conferir se tinha algum sinal de Remus, mas não via e nem ouvia nada. Foi com passos decididos até a proteção, sabendo que estava salva caso Remus voltasse. O cervo a assistia se aproximando e se empertigou, como se tivesse se exprimindo para ela.
- Oi!- ela disse e o cervo soltou uma bufada para ela.- É um prazer te conhecer, Prongs! - Com outra bufada, ele balançou a cabeça e a abaixou. Queria tanto poder passar por aquela proteção e chegar até ele. - Agora eu posso confirmar que você não poderia nos salvar caso caíssemos da vassoura no aniversário de Sirius. - Ela riu levemente. Se aproximou ainda mais da proteção e colocou suas mãos ali, querendo se aproximar dele o máximo que podia. - Espero que estejam aproveitando a noite...
O uivo de Remus pareceu explodir pela floresta agora, fazendo os pêlos de Lily se arrepiarem. O cervo fez um aceno para trás de Lily, parecendo apontar para a casa. A neve começava a cair com mais força agora e o frio já começava a congelar seus dedos.
- Eu te vejo amanhã. Tomem cuidado.
Deu alguns passos sem conseguir tirar os olhos dele. Assim como Remus, ela pensou se a forma humana poderia influenciar a sua forma animaga, pois James com todo o seu porte altivo, seu corpo de Quadribol, seu olhar maroto e doce também...pareciam refletir bastante no Prongs. Subiu as escadas e deu uma última olhada nele, que ainda estava parado no mesmo lugar, a assistindo. Lily acenou para ele e sorriu, entrando na casa. E só então, o cervo se virou e correu de volta para a floresta.
Acordou um pouco atordoada, sem saber onde estava, com barulho e conversas baixas vindas do andar debaixo. Se lembrando em seguida de onde estava, porque e com quem, ela jogou as cobertas para o lado, colocou o seu roupão e saiu do quarto apressada. Percebeu que o sol estava despontando e anunciava um lindo dia.
Desceu as escadas tentando não fazer muito barulho e não acordar quem estava dormindo e correu para a cozinha, onde ouvia as conversas.
Fleamont foi o primeiro que viu. Ele estava levitando alguém e seu coração parou ao ver Remus apagado. Colocou a mão na boca para evitar soltar qualquer ruído, mas aquela cena lhe quebrou por dentro. Eles passaram por ela, indo em direção às escadas. Fleamont apenas sorriu, tentando passar alguma tranquilidade.
- Ele está apenas dormindo, cansado.
A voz ao seu lado a fez virar e encarar Sirius. Ele estava bem bagunçado, seus cabelos bonitos e sempre brilhantes eram uma bagunça de folhas e pequenos gravetos. Seu rosto estava sujo, mas o sorriso continuava ali.
- Tem certeza? - ela perguntou de volta.
- Absoluta. Ele sempre apaga quando volta. - O maroto colocou uma mão no ombro dela como se quisesse aliviá-la da preocupação. - Ele vai descansar a manhã toda, Fleamont vai lhe dar algumas poções na hora do almoço para que ele possa ficar em pé com dignidade, pelo menos, e à noite ele vai estar minimamente bem para jantar e talvez fazer um número leve de sapateado.
- Ok, certo. - ela tentou se acalmar. - Vocês estão bem?
Sirius deu de ombros.
- Estamos. Um pouco de frio. - ele riu. - Eu vou pegar meu chocolate quente e subir.
- Você está machucado?
- Apenas no braço.
- Ok. Eu fiz algumas poções ontem. Eu vou pegá-las.
Sem esperar uma resposta, Lily foi em direção a porta da sala de Poções de Fleamont e desceu. As que ela havia preparado estavam separadas e prontas para uso, então as pegou e subiu rapidamente.
Sirius ainda estava na porta da cozinha esperando enquanto bebia seu chocolate quente. Quando a viu, ele entrou no cômodo, sendo seguido por ela. O maroto se sentou perto da lareira da cozinha e tirou a jaqueta, depois a manga esquerda da blusa. Duas feridas profundas sangravam abundantemente e ela suspirou.
- James me disse que na Lua de Outubro você nos curou. - Sirius começou enquanto a assistia abrir a poção e embebedar um pano de feridas. - Eu nunca tive a oportunidade de agradecer, então muito obrigado.
Lily levantou os olhos para ele.
- Foi um prazer. - Respondeu sorrindo.
- Imagino que tenha sido. Não são todas que chegam tão perto e podem me tocar seminu daquele jeito.
Ela riu enquanto colocava o pano contra a pele dele. Como na primeira vez, ele não reagiu.
- Que sorte a minha. - Ela brincou.
Sirius podia ser muito tagarela, então enquanto ela o curava, o maroto não parava de falar. Não havia assunto específico, apenas falação de tudo o que parecia vir na mente dele. Lily o respondia ou discordava, às vezes apenas ria. Ele também trouxe magicamente um chocolate quente para ela, que ia bebericando enquanto tomava conta dele.
- Você está pronto.
Dando uma olhada no próprio braço, Sirius assentiu e sorriu, aprovando o resultado.
- Como a sua poção deixa uma cicatriz menor e mais fina do que a de Pomfrey?
- Um pequeno segredo. - Lily piscou para ele. Quando o maroto se levantava, ela limpou a garganta. - James e Peter?
- Ah! Eles estão ainda lá fora tentando consertar algo com uma árvore que Remus, não sabemos como, conseguiu arrancar pela raiz. Eu o trouxe para cá e eles devem estar chegando.
- Ok, obrigada.
- Boa "noite", Lilykins. - ele disse. - E obrigado de novo. Estou pronto para dormir agora.
Sirius saiu da cozinha, deixando-a sozinha. Ainda estava cansada e sonolenta, mas queria esperar pelos outros dois e checar se estavam bem e se precisavam de cuidados. Ela esperou por mais de dez minutos, acompanhando os ponteiros do relógio girarem e sem novidades. Finalizou o seu chocolate quente e não tirou seus olhos da porta do alçapão.
Quando a porta abriu, ela deu um pulo da cadeira e se levantou. Os cabelos de Peter estavam quase na mesma situação do que os de Sirius. Ele se assustou ao vê-la ali parada.
- Você me deu um susto do inferno, Evans! - ele disse colocando a mão em seu peito.
- Desculpe. Estava esperando por vocês.- Ela disse enquanto Peter se postava no meio da cozinha e pegando uma xícara de chocolate quente pronto. - Você está machucado?
- Não, estou inteiro. Sabe como é, eu sou bom nisso.
- Como é?
A voz de James chamou a atenção de ambos. O maroto saiu do alçapão e fechou a porta em seguida.
- Eu nunca me machuco nas luas.
- Claro que não, você é um pedaço de bicho lá que mal toca nele.- James respondeu se jogando na cadeira da cozinha e pegando a sua xícara de chocolate quente. Era a última e de repente, mais xícaras apareceram. Agora ela entendia por que todos tiveram a sua: elas estavam sendo repostas magicamente, talvez vindo de algum estoque de Euphemia.
Ele parecia absurdamente cansado e tão bagunçado quanto os outros dois marotos.
- Está machucado? - Ela perguntou. James respirou fundo.
- Sim.
- Bom, eu vou deixar vocês a sós. Até mais tarde.- Peter saiu com um sorriso maroto no rosto e foi em direção às escadas.
Não perdendo tempo, Lily tirou todos os frascos que precisaria usar nele e lavou suas mãos rapidamente.
- Ok, estou pronta.- Ela disse.
- Você sabe que não precisa fazer isso, certo?
- Anda logo, James. - ela respondeu não querendo entrar naquela discussão.
James se levantou e trouxe magicamente o longo banco da mesa da cozinha até a lareira. Ele se sentou no banco com uma perna de cada lado e com uma careta de dor, ele começou a tentar a tirar a camiseta de manga longa que usava, até ela intervir.
- Espere, eu te ajudo.
Não sabendo onde ele estava machucado e qual a gravidade, Lily foi lenta e cuidadosa com os gestos: tirou um dos braços dele de uma manga, depois o outro e só depois tirou a peça pela cabeça dele.
E agora ela entendia a dor que ele devia estar sentindo. Assim como na vez que o ajudou com os machucados, hoje ele tinha três enormes marcas de garras, mas dessa vez em seu peito. Tentou se controlar para não reagir mal aos machucados. Ou ao corpo dele.
Se sentou em sua frente com as pernas de cada lado, assim como ele, pegou o pano e embebedou-o com a poção.
- Posso? - ela perguntou.
- Fique à vontade.- ele respondeu.
E claro, mais uma vez, nenhuma reação da parte dele com a poção. Enquanto ela começava o trabalho, ele bebia seu chocolate quente como se nada estivesse acontecendo.
- Um cervo, então.- ela disse com um sorriso brincando em seus lábios.
- Um cervo.- ele confirmou.
- Como é ser um animago?
O maroto parou o seu chocolate no meio do caminho até a boca e olhou para cima, pensando.
- Hm...complicado explicar. Eu sou eu, mas com a visão, olfato e audição diferentes, melhores. Eu me sinto mais forte, mais quente e rápido. Como se fosse a minha forma humana que foi atingida por um feitiço estranho, me dando poderes, porque a minha mente continua a mesma. - James devaneou por alguns segundos antes de continuar. - Eu me sinto livre também. Os problemas ainda existem, mas parecem ficar um pouco para trás.
Um silêncio caiu sobre eles. Lily ainda tinha algumas questões, principalmente sobre o processo de transformação, mas com uma rápida olhada para ele, a ruiva viu que aquele silêncio era estranho. James estava muito quieto, de um jeito que a fazia sentir que algo estava perturbando-o.
- O que aconteceu? - Lily resolveu perguntar.
- Nada. Por quê?
- Você está quieto, mas um quieto ruim.
Os olhos dele subiram, encarando o teto novamente. Lily desviou a atenção de seu machucado por um momento para olhá-lo.
- Apenas pensativo. Pensando sobre Remus.
- O que sobre ele?
- Seu futuro. - a voz dele estava suave e baixa. - Como faremos para ajudá-lo quando não estivermos em Hogwarts, um emprego que ele possa conseguir, estudos que quer fazer... - James se perdeu em pensamentos.
Foi a vez de Lily respirar fundo. Se ela tinha preocupações com seu próprio futuro, não podia imaginar Remus. O que lhe causava raiva era que Remus era a pessoa mais doce, gentil e merecedora que conhecia, tão inteligente que poderia seguir quase qualquer carreira que almejasse. Mas sabia que sua condição iria colocar um alto muro entre ele e suas vontades. E aquilo era uma das coisas mais injustas que ela sabia que aconteceria.
- Sirius com sua loucura irresponsável. - James continuou. - Quer virar um auror, mas terá que provar muito que o "Black" está apenas no nome. Eu odeio quando as pessoas escutam seu sobrenome e já o julgam como um daqueles...- ele não continuou, mas ela imaginava qual adjetivo ele queria usar.- Peter é tão lento e preguiçoso com as coisas, que eu não sei o que vai conseguir fazer da vida.
Ela começou a tratar a segunda marca de garra agora.
- Você se preocupa absurdamente com eles.
- Sim, demais. E eles merecem.
- Eu tenho certeza de que eles se preocupam com você também.
- Pff ! - ele soltou. - Por que se preocupariam? Felizmente, eu não tenho muito do que reclamar do meu futuro.- ele dizia em um tom de infelicidade. - Isso me atormenta, porque eu sei que tenho bastante, enquanto eles não. Eu não tenho problema com o nome da minha família, com uma condição que não posso mudar, com a preguiça de ir atrás de um futuro. Mas enquanto isso, eu os vejo passar por isso.
Lily o escutava enquanto terminava de tratar a segunda marca de garra.
- Bem...- ela começou. - Você não é perfeito, James Potter. - ela sorriu ao dizer isso. - Independente do que você vê e compara com eles, isso não quer dizer que eles não se preocupam e desejam o melhor para você. Talvez Sirius olhe para você e pense "coitado do James, o que fazer com aquele cabelo?", ou Remus pense "pobre alma, não consegue nem ver a diferença entre um show de bonecos esquisitos e pessoas na televisão" e Peter tenha em mente "olhe para ele, sempre muito machucado, enquanto eu posso ir direto para cama dormir".
Um pequeno sorriso estampou o rosto do maroto.
- Eu não duvido que Sirius pense isso do meu cabelo.
Eles riram juntos enquanto Lily partia para a terceira e última marca.
- Você se preocupa com todos, mas tem que deixar os outros se preocuparem com você também.
- Meus problemas são ridículos comparados aos deles. Eu não quero que percam tempo comigo.
- Você não tem escolha, sabe? Eles te amam tanto quanto você os ama. E quando isso acontece, você se preocupa, você quer ajudar e quer o melhor para a pessoa. - Ela respirou fundo antes de continuar. - Talvez não tenha percebido, mas tem algo que todos devem pensar com toda a certeza: você quer ajudar com a guerra, tão ansioso para estar lá fora e acabar com alguns Comensais...isso é preocupante. Sente a necessidade cega de ajudar a todos, carregando esses pesos nos ombros, deixando a emoção se envolver demais. Acho que lembramos que a primeira regra do clube de duelos é não trazer emoções para os duelos, não? - James deixou a cabeça cair. Lily sorriu gentilmente. - E você é movido por emoções. James Potter é pura emoção!
Não podia falar o quanto se preocupava com ele. Aquilo, talvez, poderia dizer o quanto ela gostava dele, o quanto a paixão por James era grande.
O quanto ela, potencialmente, o amava.
Engoliu em seco ao pensar naquilo. Não havia outro nome para aquele sentimento, tinha? Paixão? Ela havia se apaixonado antes, sentido a tal da "paixão", talvez...mas com James era diferente. Havia a paixão, a loucura, a necessidade e vontade física e emocional, mas outra coisa a mais também.
Voltou sua atenção para a última ferida, tentando não pensar naquilo. Tinha James em sua frente, sem camisa, suas mãos nele e a última coisa que tinha que pensar era em seus sentimentos, ou então seu trabalho não seria bem feito.
Aquela ferida era menor do que as outras, talvez tenha sido mais de raspão, então foi mais rápido de lidar. Sabendo que ele devia estar cansado e querendo ir dormir, ela pegou a poção cicatrizante e tentou se apressar.
- E então, há você! - Ele disse finalmente depois de minutos em silêncio.
Lily levantou a cabeça para ele.
- O que "há você"?
- Eu penso em você. Muito. O tempo todo.
Seu coração disparou.
- Em mim? - ela perguntou um pouco no automático. Seu peito doía com a maneira que seu coração parecia louco.
James assentiu antes de continuar.
- Eu não posso fazer nada pelo seu passado, mas eu posso fazer pelo seu presente e pelo seu futuro.
Havia parado tudo o que fazia e o encarava. A intenção era de não pensar naquilo, mas como podia ignorar depois de James dizer tal coisa?
- Eu...- Sua cabeça parecia feita de vento.
- Lily...- ele se aproximou. As pernas dela, menores, ficaram entre as dele agora, pressionadas contra o banco de tão perto. - Você nunca estará sozinha, eu nunca vou te deixar sozinha.- Ela fechou os olhos e James se aproximou, encostando o seu rosto no dela carinhosamente.- Independente do que acontecer entre nós, eu vou te ajudar, eu vou estar ao seu lado e não haverá mais um dia da sua vida que você irá chorar por pensar que não há ninguém ali para você.
Lily não conseguia respirar corretamente.
- James! - Sua mão subiu e pousou no peito dele. A pele dele estava tão quente, talvez por ser o lado que estava virado para a lareira. Sentiu quando ele respirou fundo antes de continuar.
- Eu quero ficar com você, Lily. Eu quero estar ao seu lado e eu quero tanto que você queira também.
- Eu quero. - A mão dela subiu e desceu pela sua pele, sentindo o corpo de James se arrepiando sob sua mão. - Eu quero ficar com você, e não é apenas como amiga, nem como Monitora-Chefe.
- Então...- Lily abriu os olhos, as cabeças ainda juntas. - Eu sei que a minha mãe adiantou um pouco a coisa no jantar de ontem, mas você aceitaria ser...bem, você aceita ficar comigo? - Ele parecia muito sem jeito ao perguntar, quase fazendo-a querer rir. - Como minha namorada, eu digo.
- Sim! - ela respondeu de imediato. - Eu aceito.
James levantou as mãos e segurou o rosto dela.
- Esse é o Natal mais tenso e aterrorizador...mas, ao mesmo tempo, o melhor que já passei.
E sem demora, ele a beijou. Um beijo tão profundo, que a lareira parecia fichinha para o calor que Lily começava a sentir. Ela se sentou bem reta para que pudesse abraçá-lo melhor, mas como ambos estavam com uma perna de cada lado do banco, um vão ficava entre eles.
Aquele espaço entre eles era terrível, então James pegou as pernas de Lily e as colocou por cima das suas, para logo depois a puxar para o seu colo. Agora podiam se abraçar como queriam enquanto o beijo continuava. Lily passava as mãos por seus cabelos e descia pelos ombros, pelos seus braços, tentando sentir cada pedaço dele. O maroto resolveu desfazer o nó do roupão de Lily para também sentir seu corpo melhor, mas assim que suas mãos entraram, encontrou a pele dela. Muita pele.
Ele parou o beijo e olhou para baixo.
Aquele era sim o melhor Natal de sua vida. Ele estava com Lily, ela havia aceito ser sua namorada, a beijava de um jeito que o deixava em puro fogo e agora a tinha em seu colo, com apenas suas roupas de baixo.
James levantou os olhos rapidamente. Talvez ela não quisesse que aquilo acontecesse, já que ela tinha o roupão bem fechado e fora ele quem o abrira. Sem olhar para baixo, sem tirar os olhos dos dela, ele tateou e encontrou o cordão e começou a fechá-lo.
As mãos dela o pararam.
- Está tudo bem, James.
Lily voltou a beijá-lo enquanto guiava as mãos dele até sua cintura, por baixo do roupão, e voltou a abraçá-lo. James sentiu que derretia agora. Todo o cansaço da noite enérgica que passara, toda a tensão do dia anterior, estar acordado por quase 24h agora...nada era maior do que a vontade dele de ficar ali para sempre com ela. De beijá-la, abraçá-la, ter suas mãos deslizando pela cintura dela, suas costas, todo o caminho até a sua nuca e a apertando contra ele, sentindo a sua pele e o pouco de pano dela contra a sua pele, as pernas dela o abraçando pela cintura...Era muito mais do que ele havia imaginado quando saiu daquele alçapão naquela manhã, muito mais do que podia imaginar dias atrás.
Ele queria tocá-la, deslizar suas mãos pelo corpo dela, por lugares que ele não sabia se teria consentimento. Queria também beijá-la por cada centímetro de pele que ele via e por isso ser um pouco menos radical, optou ir por esse caminho, beijando-a no pescoço um pouco mais rude do que a beijou nos lábios, a mordendo de tempos em tempos e deixando sua língua entrar em contato com a pele dela. Continuou avançando quando percebeu que Lily estava gostando, apertando-o mais com suas pernas, gemendo baixo perto de seu ouvido, o deixando ainda mais louco.
Seus lábios chegaram na clavícula dela, os olhos bem abertos sem perder nenhum detalhe de sua pele, das pequenas sardas que tinha espalhadas por seu colo. Lily Evans era linda em cada canto que via e não podia acreditar que ele, agora, era seu namorado e estava ali com ela, sua boca descendo pelo corpo dela.
E sabendo que estava chegando em uma zona perigosa, onde ou ele avançaria muito ou parava, James decidiu que parar era a melhor pedida. Se ambos quisessem continuar, eles estavam no meio da cozinha e tinha certeza que alguém iria entrar a qualquer momento, e ser pego em um estado avançado de amassos com Lily não era o melhor cenário em sua cabeça.
- Estamos no meio da cozinha. - ela disse em um sopro, sua voz quase falhando e parecendo ler os pensamentos dele. - E você está cansado, precisa dormir.
James riu enquanto subia seus beijos, voltando para o pescoço dela em um ritmo mais lento e menos feroz do que antes, como se quisesse reverter tudo o que eles sentiam, todo aquele fogo e vontade que criaram.
- O meu suposto cansaço não impediria nada. - ele disse quando subiu seus lábios até o ouvido dela. - Mas estar no meio da cozinha com os meus pais podendo aparecer a qualquer momento, sim.
- Mantenha esse pensamento, então...para quando não estivermos mais tão expostos.
Lily depositou um último beijo nele antes de levantar de seu colo e fechar o seu roupão, os olhos de James não desgrudando do corpo dela. Precisando passar para outra coisa, o maroto pegou sua camiseta e a vestiu.
- Obrigado pelo tratamento médico. - Ele se levantou.
- De nada. - Ela respondeu sorrindo.
No mesmo instante, ouviram uma porta se fechando no andar de cima e passos pela escada. Eles se entreolharam aliviados por terem parado a tempo. Uma canção era cantada bem baixa enquanto os passos se aproximavam e Euphemia parou na porta da cozinha ao ver o filho e Lily ali. A ruiva guardava as poções e James colocava o banco que estavam sentados anteriormente, ao lado da mesa.
- Bom dia. - Euphemia disse. - James, você está bem?
- Estou ótimo, mas cansado. - ele respondeu. - Vou dormir algumas horas, mas acordarei antes do almoço. - O filho deu um beijo no topo da cabeça da mãe.
- Precisa de ajuda com algo, Sra. Potter? - Lily perguntou enquanto guardava as poções .
- Me chame de Euphemia, querida. E obrigada, mas creio que precisa descansar também. Durma um pouco e nos veremos logo.
Assentiu e saiu da cozinha, descobrindo James esperando por ela. Ele pegou sua mão e subiram para o segundo andar sem conversar, apenas com aquele bom sentimento que parecia passar por suas mãos. Aquilo dava a certeza de que tinha encontrado o seu caminho, o único caminho que queria seguir agora...com as pessoas certas ao seu lado. Com James.
Quando chegaram até a porta de seu quarto, ela se virou para se despedir dele, mas James a colocou contra a parede e a beijou novamente com tanta aplicação quanto a alguns minutos antes e, claro, ela correspondeu. Estavam correndo mais riscos ainda ao estarem perto do quarto de Sirius e aquele em que Remus dormia, assim como qualquer um poderia aparecer pelas escadas e vê-los, mas ele não parecia se importar tanto agora.
- Sirius está dormindo igual uma pedra, Remus está mais acabado do que todos nós e em dobro e Peter só acordaria caso sentisse cheiro de comida. - James respondeu aos sussurros sua pergunta não feita enquanto a beijava pelo rosto, descendo cada vez mais. - Meu pai está na sala de Poções e minha mãe na cozinha. E eu...estou beijando a minha namorada como ela merece. Me pare, caso ela não queira.
Ele não abriu o seu roupão dessa vez, mas o abaixou um pouco pelo seu ombro esquerdo e começou a deixar um rastro de beijos por ali. Se ele pensava que Lily diria algo para parar, ele precisava conhecer melhor sua namorada quando se tratava daquela questão, principalmente com toda aquela tensão sexual que vinha crescendo e sendo segurada entre eles desde Setembro.
Jogou a cabeça para trás e apenas deixou James beijá-la como quisesse porque, Merlin, ela queria ser beijada daquele jeito por ele. Os lábios dele foram seguindo seu sutiã, da alça no ombro, descendo até a borda no alto de seu seio. Ele deu uma leve mordida que repercutiu em todo o seu corpo, fazendo-a gemer baixinho.
De repente, James levantou o rosto e a beijou com todo o fogo que havia sido criado naquele momento e Lily já não raciocinava mais, levando suas mãos para o nó do roupão, querendo abri-lo, mas parou o movimento quando percebeu que James soltou uma das mãos e abriu a porta de seu quarto. Já estava pronta para puxá-lo com ela para dentro, mas ficou surpresa quando James parou de beijá-la, com a respiração completamente descompassada, e guiou Lily, apenas ela, para dentro do quarto.
- Melhor você entrar e trancar essa porta. - Ele disse tentando respirar normalmente.
- Tem certeza? - Ela perguntou, fazendo James fechar os olhos com força.
- Sim. Eu te vejo mais tarde. Tenta descansar um pouco.
Apesar de tudo, ele a beijou novamente, mas mais leve e rápido do que antes. Colocando as mãos em seus bolsos, ele atravessou o corredor e abriu o quarto de Sirius, que dividia com os outros dois marotos para deixar Remus tranquilo em um quarto só para ele.
Ela consertou o roupão que ainda estava com metade pendurado em seu braço e entrou no quarto, lançando um olhar nada inocente para ele, e fechou a porta. James apenas bagunçou os cabelos com força e entrou no quarto rapidamente antes de mudar de ideia.
Após virar e revirar na cama, Lily deve ter dormido por quase duas horas antes de desistir e se preparar para o dia. Após um banho, decidiu descer e procurar ajudar alguém que precisasse. Os quartos dos marotos estavam fechados e provavelmente ficariam assim por mais um tempo, porém ela estava mais tranquila ao saber que eles tinham ido para a cama curados, podendo desfrutar de um sono melhor.
Enquanto descia as escadas, viu Euphemia saindo de seu quarto no primeiro andar.
- Dormiu bem, Lily? - Ela perguntou enquanto se aproximava e desceram juntas para o térreo.
- A cabeça ainda estava um pouco agitada, mas duas horas foram o suficiente.
- Venha. Vou te dar algo para comer e podemos conversar.
Foi levada até a cozinha e sentada ao lado da janela com uma bela vista das montanhas nevadas por ali enquanto Euphemia lhe trazia alguns pães com diferentes sabores e uma caneca de chocolate.
Não que pudesse dizer para a mãe de James que um dos motivos de sua insônia foi o fato do seu filho ter lhe deixado pendurada no precipício antes de decidir que haviam tido o bastante e a enviado para o quarto sozinha. Não, teria que falar sobre a outra coisa que lhe deixava uma pilha de nervos.
- Obrigada. - Agradeceu quando Euphemia sentou-se em sua frente. Era uma sensação boa estar ali, com ela. Todas as boas conversas com a própria mãe ocorreram na cozinha, as duas sentadas com alguns biscoitos e chá sendo devorados entre risadas e choros. Se sua mãe pudesse vê-la agora, teria certeza que estaria feliz em ver Lily tendo um momento bem parecido com alguém tão boa quanto Euphemia.
- Acredito que ainda esteja com a cabeça nos acontecimentos de ontem, querida. - Euphemia começou. - Gostaria de colocar para fora algo que esteja te consumindo ao ponto de não deixá-la dormir?
Seus dedos seguraram com força na xícara, deixando o calor do chocolate viajar por todo o seu corpo.
- Esta é a segunda vez que a senhora passa por algo parecido, não? Por uma guerra tão cruel assim.
- Infelizmente, sim. - Euphemia suspirou. - Tivemos a maior parte da nossa juventude durante a guerra, que durou tantos anos. Quando tudo terminou, éramos ainda muito jovens, um pouco mais velhos do que vocês. Fleamont e eu já éramos casados, estávamos tentando o nosso bebê e era tão complicado. - Ela dedilhou a mesa, como se tivesse sido levada rapidamente para uma memória dolorida. - E quando tudo começou a ficar mais intenso com Grindelwald, eu só conseguia pensar que meu futuro estava escrito com uma tinta vermelha e que nossos planos não serviriam de nada, pois estava ficando cada vez mais sombrio e complicado a cada dia. Fleamont era a minha rocha, enquanto eu tentava ser a dele.
- Eu sinto muito por terem passado por isso e por tanto tempo.
- Eu também, querida, eu também. Mas o que eu aprendi com esses anos sombrios e sangrentos, era de não deixar minha vida passar sem fazer tudo o que eu queria. Frequentei Hogwarts, fiz o máximo para os meus estudos, aproveitei a vida com os meus amigos. Anos mais tarde, quando tudo ficou pior, eu queria desistir de tentar ter um filho, mas Fleamont me mostrou que não poderíamos desenhar nosso futuro de acordo com Grindelwald. Ele ganharia a guerra caso todos nós desistíssemos. Bem, não ter tido um filho naquela época não foi por conta da guerra, mas nos forçamos a ver as coisas de um jeito diferente, de aproveitar a vida como podíamos, de lutar contra tudo isso, mas também lembrar que tínhamos um ao outro e que nossas vidas não podiam parar.
- Como esquecer que muitos de nós estão morrendo lá fora? Que pessoas estão caçando e matando pessoas como você?
- Não podemos. Não há como esquecer e não há como ignorarmos. - Euphemia se alongou pela mesa e pegou a mão de Lily. - Eu não sou um alvo como você é, querida, e eu tenho plena consciência disso, mas também não estamos a salvo. A família Potter é uma das grandes inimigas de Voldemort e seriamos um triunfo enorme caso os Comensais colocassem suas mãos em nós. Eu me deito todas as noites agradecendo por James estar seguro em Hogwarts e Fleamont trabalhando rodeado de boas pessoas, mas eu sei que a qualquer momento, isso pode virar terrivelmente para o pior cenário possível. Eu tive famílias amigas que foram dizimadas a alguns meses, perdi familiares, perdi melhores amigos...tem sido muitas subtrações nos últimos tempos, mas...- Euphemia apertou a mão de Lily com uma força que lhe trazia muito conforto. - Eu acabei de ter uma adição maravilhosa. E são por esses momentos que eu espero todos os dias: mais sorrisos e menos lágrimas. Isso só será possível, se continuarmos nossa vida. Sabemos que, uma hora ou outra, deixaremos esse mundo e não é por isso que paramos de viver, certo? Isso também serve para momentos de guerra.
Lily limpou uma pequena lágrima e sorriu para Euphemia, apertando sua mão de volta.
- Obrigada pelas palavras.
- De nada. Saiba que se precisar conversar, eu sempre estarei aqui para você. - Euphemia soltou a mão de Lily para oferecer um pão com gotas de chocolate para a ruiva, que aceitou. - Eu estou muito feliz em conhecê-la e espero tê-la por perto por muito mais tempo.
- Isso não depende apenas de mim. - Ela brincou e riu, fazendo Euphemia sorrir.
- Eu conheço James como conheço Fleamont. Eles são bem parecidos em muitas coisas, às vezes chega a ser irritante. O meu filho pegou a maior coisa dos Potter, graças a Harry.
- Harry?
- Seu avô. Se chamava Henry, mas era conhecido como Harry por nós. - Lily lembrava de James ter comentado sobre Henry Potter e sobre como ele era a sua memória feliz para os treinamentos do patrono antes do quinto ano. - James puxou a insistência, a obstinação e a paixão por tudo o que faz dele. E o olhar que James tem, passa uma mensagem bem clara para nós, Fleamont e eu. - Euphemia sorriu abertamente para Lily. - James te ama loucamente, querida, então nunca duvide quando ele te diz isso.
- Eu acho que ele não chegou nessa fase ainda.
A voz de Remus vindo da porta sobressaltou a ambas. Ele estava recostado no batente, parecendo bem fraco, completamente pálido e com novas cicatrizes em seu rosto.
Euphemia e Lily se levantaram e foram até ele, ajudando-o a sentar.
- O que está fazendo aqui embaixo, Remus? - Euphemia trazia alguns pães e um chocolate quente até ele. - E sozinho, ainda por cima.
- Estava morrendo de fome e não queria acordar ninguém para isso.
- Sabe que qualquer um acordaria com um sorriso no rosto para te ajudar. - Lily respondeu, sentando em sua frente. - Na próxima vez, chame alguém.
Remus apenas assentiu no melhor modo "você sabe que eu estou concordando, mas sou muito teimoso para aceitar". Ficaram quase uma hora juntos conversando, tentando deixar Remus forte com muitos pãezinhos, mas não o suficiente para tirar sua fome para o almoço que não tardaria.
- O que você está fazendo aqui embaixo?
A voz de James encheu a cozinha com surpresa ao ver Remus. Peter estava logo atrás dele.
- Eu pedi ajuda para que me trouxessem para baixo. - Remus respondeu com a maior cara de anjo que poderia fazer.
- Você acha que acredito nessa merda, Lupin? - James perguntou.
- James! O linguajar, por favor. - Euphemia o reprimiu enquanto levantava e trazia mais alguns pãezinhos para os recém-chegados. - Onde está Sirius?
- Não conseguimos acordá-lo. - Peter respondeu sentando ao lado de Remus.
James deu a volta na mesa e pegou o lugar ao lado de Lily, sorrindo para ela. Ele segurou a mão dela embaixo da mesa, como a cumprimentando, antes de atacar a comida colocada em sua frente. Lily voltou seu olhar para a mesa e sorriu. Quando levantou o rosto, deu de cara com Remus a encarando. O maroto mastigava enquanto parecia querer rir.
- O que foi? - Ela perguntou.
- Não sei. Há algo que eu deveria saber?
- Eu só não te respondo como deveria, porque você ainda está cansado.
- Cansado: absurdamente. Obtuso: jamais.
Lily fechou os olhos e meneou a cabeça. Tinha que parar de colocar Remus em um pedestal angelical, porque ele estava longe de estar na parte de querubins de um museu, estando bem alocado no setor dos diabólicos.
- Bom, eu vou trazer Sirius para comer. Logo menos estaremos sentados para almoçar e ele ainda estará sonhando em estrangular Walburga. - Anunciou Euphemia saindo da cozinha.
- Pena que são apenas sonhos. - Peter resmungou, tendo os outros dois marotos concordando. Lily não quis perguntar, pois sentia que era algo entre eles e que Sirius não gostaria de ter seus segredos espalhados por aí.
Após Sirius ter sido arrastado da cama até a cozinha por Euphemia e ter comido com os olhos fechados e resmungando coisas sem sentido enquanto todos conversavam, Fleamont se juntou a eles para a conversa e risadas. O horário do almoço passou com a comida maravilhosa servida por Euphemia novamente e Lily não poderia estar mais feliz com aquelas horas em que passaram juntos como uma família diferente e completa.
- A mousse de chocolate estaria pronta, querida? - Fleamont perguntou para Euphemia.
- Sim. Você gostaria?
- Não, mas gostaria que as crianças tivessem um pouco. - Os marotos e Lily ficaram confusos com a conversa. - Comam uma boa quantidade de mousse de chocolate e depois me encontrem lá fora. Eu gostaria de lhes ensinar algo muito útil.
Assim, Fleamont saiu da cozinha deixando a confusão ainda no ar. Euphemia deu de ombros, já acostumada com o marido, e foi atrás da mousse. Sirius se levantou para ajudá-la.
- Você precisa ir embora hoje? - James perguntou para Lily.
- Sim.
- Acha que podemos adiar por algumas horas? Quero fazer algo que não tive tempo em Hogwarts e eu havia dito que faria.
- O que é?
- Te levar para voar.
Naquele momento, ela apenas queria pegar a mão dele e a primeira vassoura que encontrasse - esperando ser uma que voasse, claro-, e se deixasse ser guiada por aquela paisagem perfeita lá fora.
- Eu poderia adiar para poder voar com você. - Ela respondeu baixinho. Eles sorriram um para o outro, os rostos juntos em cumplicidade.
- Vocês estão juntos?
Eles se viraram para Sirius parado no meio da cozinha com os pratos de sobremesa em mãos. Ele parecia surpreso, mas de uma forma positiva.
- Você poderia ser mais discreto, seu idiota? - Disse Remus.
- Moony, olha isso. Eles estão juntos! Você quer discrição quando a gente descobre isso?
- Sirius...- James tentou, mas o amigo o cortou.
- E você nem me contou? - Sirius se virou para Lily. - Você pode ter James Potter para você, Lily Evans, mas você tem que nos informar pelo menos. Os planos mudam desse jeito. Vamos ter que reagendar tudo quando voltarmos para Hogwarts.
- Nós não temos nada agendado. Você nem tem um calendário, as vezes nem sabe que dia da semana estamos. - Remus retrucou.
- Isso é mentira. Acontece raras vezes.
- Pff. - Peter soltou.
- O que você está dizendo aí, Wormtail? Você pelo menos sabe que dia é hoje?
Um entrave sobre quem era o pior maroto começou na mesa, deixando a cozinha bem agitada e barulhenta. Sirius quase jogou o prato em Peter; Peter quase jogou em Remus, que estava pronto para acertar James com uma colherada de mousse, enquanto James mirava seu jato de suco de abóbora em Sirius.
Lily não podia fazer nada, além de torcer para não ser atingida. Tentou falar no começo, acalmar tudo, mas ninguém lhe dava ouvidos. Euphemia, bem acostumada com aquilo tudo, apenas ia para lá e para cá na cozinha, distraída com outras coisas. Ela parecia feliz com uma bagunça de adolescentes no ambiente.
Alguém teria que ter a voz de comando ali.
- Chega! - A ruiva não havia gritado, mas sua voz tinha sido mais altiva e com mais energia. Funcionou, fazendo os quatro se virarem para ela. - Muito bem. Talvez possamos comer a mousse agora? Me parece deliciosa.
Os marotos voltaram a se sentar.
- Vocês não terão problemas com os filhos, Prongs. - Sirius murmurou do seu lugar.
- Enfia essa colher na boca e come, Padfoot. - James respondeu se remexendo no lugar e lançando um olhar de desculpas para ela.
Ela sorriu. De repente, Lily se viu alguns anos mais a frente, sentada na cozinha de um lar amoroso como aquele e os quatro ao seu lado.
Uma ou duas crianças sendo mimadas e estragadas por eles também.
J~L
Fleamont estava bem coberto e protegido com o seu casaco e um chapéu preto que Lily achou bem estiloso. Lhe lembrava da máfia...o que a lembrou de James vestido de Don Corleone no Halloween.
Ouvindo os passos dos cinco, Fleamont se virou e sorriu.
- Aí estão vocês. Comeram a mousse de chocolate que Euphemia preparou?
- Sim. Uma delícia, como sempre. Mas por que tínhamos que comer antes de vir? - Perguntou Sirius.
- Para ajudar com o humor de vocês e, por conseqüência, com os patronos.
- Patronos ? - James exclamou.
O que iriam fazer com os patronos ? Olhou para Lily, que parecia curiosa e feliz por aprender algo novo, enquanto o seu âmago sofria.
Teriam que convocar os patronos? Todos eles? Poderia ele não participar? E Lily!
- Qual o problema? Eu sei que você convoca um ótimo patrono corpóreo. - Fleamont comentou. - Enfim, hoje eu vou mostrar como se comunicar com um.
- Podemos nos comunicar com patronos ? - Remus parecia surpreso.
- Sim. É assim que muitos Aurores e outros desse lado da guerra se comunicam: fácil, rápido e seguro. A mensagem será entregue apenas para a pessoa designada.
Lembrava de ter visto o patrono enorme no corredor do Ministério no dia anterior. Então devia ser algum Auror ou alguém da Ordem enviando uma mensagem diretamente para o seu pai. Aquilo poderia ser muito interessante, mas NÃO. Não agora, não ali...Merlin, seu coração ia pular pela boca.
- Você vai vomitar ou algo assim? - Remus perguntou ao seu lado. - Você está mais branco que a neve.
James apenas balançou a cabeça. Olhou para todos eles, que pareciam contentes com o plano, alheios ao que estava prestes a acontecer.
Talvez ele estivesse exagerando ou talvez ele tinha o direito de não querer expor aquele tipo de informação para toda uma galera. Por mais que Lily fosse sua namorada agora, não queria que aquela bomba caísse neles. Era algo um pouco difícil de digerir, por mais que você gostasse da pessoa e que fosse algo bom. E a última coisa que queria era Lily entrando em parafuso por conta disso.
- Eu combinei com Lily de levá-la para um passeio, ensiná-la a voar e tudo mais. Podemos fazer isso depois?
James pegou a mão da ruiva e começou a puxá-la.
- Tenho certeza que teremos tempo de fazer isso antes de eu voltar para casa. - Ela disse, o parando. - Mas isso dos patronos é importante. Podemos nos ajudar, aliás, já que não são todos que possuem um espelho para se comunicar.
Engoliu em seco. Ela estava certa e não queria tirar essa boa oportunidade de nenhum deles.
- Certo.
Parecendo feliz com a resolução, Fleamont sorriu e pediu para se aproximarem.
- Todos são capazes de conjurar um patrono corpóreo ? - Ele perguntou. Todos confirmaram. - Ótimo. Para usá-lo como meio de mensagem é muito simples, uma vez que o mais difícil vocês já fazem com maestria. - Fleamont olhou entre eles e se aproximou de Peter. - Peter, poderia se esconder na floresta? Vamos lhe enviar uma mensagem.
O maroto assentiu e se apressou por entre as árvores. Lily teve a impressão que ele desapareceu muito rápido, provavelmente se transformando em animago para agilizar. Considerando que Sirius era um cachorro e James um cervo, ele só podia ser o rato que viu ontem.
- Quem gostaria de tentar primeiro? - A mão de Lily se levantou rapidamente, logo atrás da de Sirius. James quase se escondia atrás de Remus. - Vamos deixar a honra para a nossa convidada, Sirius?
O moreno se virou para trás e viu a mão de Lily no ar.
- Namorada-do-Prongs, você pode ir primeiro.
Ela agradeceu com um aceno de cabeça e um olhar de lado.
- Querida, você já conjurou um patrono e o manteve por alguns momentos com você?
- Sim. Ele se vai apenas quando eu peço.
- Ótimo. Já temos 80% do processo em mãos. O próximo passo é fazê-lo absorver sua mensagem. Ou seja: gravá-la. O último passo, é enviá-lo. Essas são as partes mais fáceis.
- Um patrono não pode ser interceptado ? - Remus perguntou.
- Não sabemos. Eu nunca perdi uma mensagem e ainda não ouvi alguém dizendo que perdeu a sua. Mas vamos pensar que não sabemos se isso é possível, então recomendo serem breves e enigmáticos caso seja algo importante. - Fleamont respondeu. Ele se virou para Lily novamente. - Pronta para uma mensagem para Peter?
- Prontíssima.
- Faça as honras, querida.
Fleamont deu espaço para ela, ficando perto dos outros três marotos.
Ela pensou no dia do picnic, aquele dia da foto bruxa que agora tem. Uma felicidade sem igual tomou conta dela, como se tivesse tomado uma poção para isso. A diferença agora era que, naquela equação, estava James. Era estranho e divertido, pois ele estava longe de ter participado daquele dia, mas agora havia virado uma peça chave dele.
Sua presença parecia ser inevitável nas lembranças. De certa forma, quase imaginava aquele menino de cabelos bagunçados e óculos, tão jovem quanto ela, correndo ao redor e rindo. Aquele presente havia mexido tanto com ela, que até sua memória afetiva do momento mudou.
- Expecto patronum.
Sua corsa, se isso fosse possível, parecia ainda mais brilhante e perfeita do que nunca. Parecia que ela tinha encontrado o pensamento feliz perfeito para um patrono. O pensamento mais poderoso que podia ter, mesmo não sendo totalmente real.
Se virou para trás, o coração batendo tão feliz...mas seu sorriso se fechou. Fleamont, Sirius e Remus estavam completamente chocados, boquiabertos, enquanto assistiam sua corsa correr feliz pela neve. James, por outro lado, olhava para o céu, como se avistasse algo muito interessante. Ela olhou para cima e não viu nada. Olhou para os outros três, que ainda estavam em um estado embasbacado, antes de se virar para o seu patrono.
Qual é? Qual era o problema da sua corsa?
- O que há? - Perguntou, colocando as mãos na cintura. Já não bastasse James ter reagido estranho com o seu patrono, agora eles também?
- O que há o quê? - James perguntou e sorriu forçado. - Não há nada. Eles viram um coelho estranho correndo ali na floresta, só isso.
- Não. Minha corsa é o problema. Você disse que não existia problema com ela, mas aparentemente há.
O maroto mordeu as bochechas e parecia procurar algo para dizer, mas um outro alguém encontrou as palavras primeiro.
- Puta merda, Prongs. - Sirius comentou, olhando para o casal. - Por isso...por isso você perguntou aquela vez. Você perguntou sobre...
- Não perguntei nada. Você está sonhando. - James o cortou.
Fleamont limpou a garganta, chamando a atenção. Ele passou a mão pelo rosto, deu uma singela olhada para o filho, e depois retornou para Lily.
- Vamos, er, continuar.
- Se o senhor me permitir, Fleamont, eu gostaria de saber qual o problema em ter uma corsa como patrono.
- Não há problema, Lily. - Disse Remus ainda se recuperando do choque.
- Claro que há. Olhe para vocês três. Estão do mesmo jeito que James estava quando a viu pela primeira vez.
Os três ficaram quietos por um momento. James bagunçou os cabelos com força e com as duas mãos.
- Lily. - Ele começou. - Eu te explico depois. Eu prometo.
- Isso não soa reconfortante.
- Não se preocupe, pois você ter uma corsa não é um problema, nem uma solução...mas uma porra de loucura! - Sirius quem dizia, enquanto sorria como um doido, dando uma cotovelada em Remus. O amigo reclamou de dor. - Quem diria?
James se aproximou da ruiva, uma ruga enorme entre as sobrancelhas.
- Eu prometo te explicar, mas não pense que é algo ruim. - Ele parou e pensou por um segundo. - Não deveria ser, pelo menos. Você é a única que pode julgar ser algo bom ou não.
- O que você julga? Qual a sua opinião? - Ela perguntou.
- Eu acho...- Ele gaguejou mais duas vezes antes de deixar os ombros caírem e olhar para ela. - Eu acho ótimo!
Os olhos dele não mentiam, mas ela sentia um "porém" naquela história.
- Vamos falar sobre isso depois.
Sua corsa havia sumido, já que ficou tensa e preocupada demais para lhe dar o que precisava, então a invocou novamente e decidiu não olhar para mais ninguém do que o seu patrono que parecia se divertir com a neve.
- Certo. - Fleamont se postou ao seu lado. - Faça com que ela se aproxime. - Lily assim o fez e a corça galopou até eles, parando logo em frente de Lily, como se esperasse algum comando. - Você tem todo o controle, Lily, e isso é ótimo. Agora pense em sua mensagem, mas para isso, tem que continuar sentindo essa conexão com o seu patrono. Depois, direcione para a pessoa que precisa, pensando nela e em seu nome.
Aquilo parecia um pouco mais difícil do que ela previu, mas não iria deixar ser pega pela dificuldade que sentia. Se ajeitou, não tirando os olhos da corsa em sua frente.
"Eu te vi roubando o chocolate de Remus na mesa hoje mais cedo" pensou. Logo depois, pensou em Peter, em seu rosto e em seu sobrenome, tudo o que podia.
A corsa, de repente, deu as costas e correu em direção a floresta. Lily ficou chocada por aquilo ter, aparentemente, funcionado.
- Muito bem, Lily. Você foi ótima. - Fleamont deu duas batidas gentis em seu ombro. - Esperaremos Peter voltar e confirmar se recebeu a boa mensagem.
Estava orgulhosa do seu feito e por ter sido em sua primeira tentativa. Olhou para os marotos restantes e eles a cumprimentaram, apesar de James estar feliz por ela, mas preocupado.
- Quem quer ser o próximo? Sirius? - Fleamont chamou. O maroto se postou ao lado de Fleamont e ouviu novamente as instruções. Ele assentiu e trouxe o seu patrono para a cena. O cachorro era quase tão grande quanto a sua forma animaga, podendo facilmente colocar qualquer homem em seu devido lugar.
O maroto pensou por alguns segundos antes do cachorro sair correndo pela neve. Ela queria rir, pensando no quanto os dois eram parecidos. Pelo o que lembrava, nem todos os patronos eram suas formas animagas, mas achava que para Sirius fazia sentido.
- James! - Fleamont acenou para que o filho se aproximasse. Remus não estava forte nem perto o suficiente para tentar, então ele apenas assistiria aquele treinamento.
- Não posso fazer isso depois? - Ouviu James sussurrar para o pai. Lily olhou para os outros dois marotos que pareciam ter ouvido também.
- Isso é importante, filho. Não se preocupe, isso não vai piorar ou melhorar a situação.
James apenas assentiu. Sem esperar que o pai explicasse o que ele havia escutado duas vezes, James logo conjurou seu patrono. O cervo que Lily agora via era tão parecido com a forma animaga de James quanto aconteceu com Sirius.
Hm, um momento.
Um cervo e uma corsa. Espremeu os olhos enquanto tentava se lembrar um pouco da enciclopédia dos patronos que havia lido no começo do semestre, mas parou de pensar naquilo ao ver o cervo de James correr para a floresta como todos os outros patronos fizeram.
- Eu pedi para Peter voltar, aliás. - James anunciou. - Se ele não voltar em alguns segundos, então não funcionou.
Ele parecia abatido, extremamente preocupado. Aquela coisa toda de corsa estava deixando-a extremamente curiosa, mas parecia tocar James de uma maneira ainda mais forte. Ele disse que não era algo ruim, então só podia estar se preocupando com algo desnecessário. Se fosse preocupação com ela, não queria que ele perdesse seu tempo, então se aproximou dele para tentar melhorar o seu humor.
- Eu não duvidaria do seu patrono ter sido o único a chegar até Peter. - Ela tentou descontrair.
- Ah, muito obrigado, Lily! - Disse Sirius de seu lugar. - A sua falta de confiança me toca de uma maneira extraordinária.
Ela fez uma careta para ele e apontou com a cabeça para James que estava um pouco mais a frente dele. Sirius apenas fez um aceno com a mão para que ela deixasse para lá.
Passos apressados na neve os alertaram a tempo de verem Peter voltar até eles levemente sem fôlego. Céus, ele precisava de alguns exercícios.
- E então? - Fleamont perguntou.
- Recebi algo sobre chocolate de um cervo sem chifre...
- É uma corsa, muito obrigada. - Lily o cortou e comprimiu os lábios um pouco incomodada de sua linda corsa ser chamada de cervo sem chifres.
- Ah, desculpe, Lily. Bom, uma corsa que falou algo sobre chocolate, o cachorro de Sirius dizendo pela metade algo que eu não vou repetir na frente de Lily...- Todos olharam para Sirius, que deu de ombros. - E James pedindo para eu voltar.
- No final, eu fui mesmo o único a entregar a mensagem, não? - James deu uma olhada de lado para Sirius.
Os dois entraram em uma discussão entre "fiz de propósito" e "minha bunda que sim", enquanto Lily apenas ficou ao lado de Remus aproveitando a paisagem bonita que Peverell's Creek proporciona e esperando a discussão acabar. Aparentemente aquele tipo de coisa era frequente e normal.
- Eu soube que nos vimos ontem à noite. - Remus comentou ao seu lado. - Eu não sei o que eu fiz, porque estou longe de qualquer consciência bruxa naquele estado, mas espero não ter te assustado.
Lily enrolou seus braços no braço de Remus e o segurou forte, encostando sua cabeça em seu ombro.
- Eu fiquei com medo de você se machucar na proteção, mas do contrário, honestamente, eu só queria poder estar ali com você e ajudando.
- Não, você nem pense em se transformar em animaga também.
- Olha, eu nem tinha considerado, mas agora que você comentou...
Remus começou a balançar a cabeça e levou Lily até Fleamont, este que assistia com preguiça e tédio a discussão entre os dois marotos mais adiante.
- Que tal botarmos todos eles para treinarem mais? - Remus perguntou. - Assim as duas crianças param de discutir e a gente tira as ideias incabíveis da cabeça de Lily.
- Sim, vamos treinar mais. - Fleamont comentou revirando os olhos ao ver James atacar uma bola de neve na cara de Sirius, que começou a querer revidar. - James Fleamont e Sirius Orion! - Os dois congelaram com seus nomes e o tom sério de pai que Fleamont usou. Lily lembrava de seu pai também usar aquele tom quando queria cortar a discussão das filhas no mesmo segundo. Sempre funcionava. - Agora que tenho a atenção de todos, vamos continuar os treinos. James, você vai para a floresta, assim posso ensinar Peter e acertar as coisas com Lily e Sirius.
Sem discutir, James se foi. Sirius limpou a neve que ainda tinha pelos ombros e seu casaco.
- Eu deixei ele me acertar, sabe? - O maroto reclamou ao se aproximar. - Só porque ele tem bons reflexos também, mas eu iria pegá-lo de jeito.
- Claro, Padfoot, nós sabemos. - Peter deu dois tapinhas em suas costas.
Por uma hora, o treino com os patronos trouxe bons resultados e um Fleamont muito feliz: todos eles podiam se comunicar com frases inteiras e perfeitas. Até frases longas foram possíveis trocar.
E com o cair da tarde, Remus foi ficando mais cansado, sendo levado para o terraço principal com um cobertor e um chocolate quente preparado por Euphemia, além de uma poção de Fleamont.
- O pôr do sol está quase vindo. Acho que é a nossa hora. - James sussurrou para ela.
- Então eu estou pronta.
Trazendo duas vassouras, James se aproximou dela. Eles eram os únicos restantes perto da floresta, mas logo em frente da casa. O frio parecia aumentar a cada minuto, mas um feitiço para aquecê-los lançado por James vinha muito a calhar.
- Eu vou te dar a vassoura doméstica. Espera, deixa eu terminar de explicar. - Ele se apressou em dizer quando viu que ela iria reclamar. - Você não quer usar a de jogo, porque ela é muito rápida, menos instável e com uma frenagem brusca. Apesar da aerodinâmica ser boa para...
- Você pode cortar a parte técnica, senão eu tenho a impressão de que ficaremos aqui para sempre. - Ela disse, rindo.
- Você não está errada. - Ele concordou. - De qualquer maneira, a doméstica não é tão rápida, mas tem uma frenagem mais confiável para quem não está habituado a voar e você tem que fazer movimentos fortes para mudar a trajetória.
- E queremos que eu faça força para mudar a trajetória? Digo, se tiver uma árvore na minha frente, eu devo simplesmente aceitar o meu destino?
- Por isso há um bom sistema de frenagem. Além do mais, fazer força para virar não quer dizer que você não conseguirá, mas a vassoura de jogo é feita para mudar a trajetória muito rápido, com um dedo eu posso mudar de direção rapidamente...mas eu estou acostumado a voar. - Ele entregou a tal vassoura doméstica para ela. - Diferente de Lily Evans.
- Talvez você tenha me convencido.
Ela preferia bater em uma árvore por não conseguir virar enquanto ia devagar, do que acertá-la por ter virado bruscamente para o lado em alta velocidade. Do males, o menor.
- Em posição, Evans! - James se colocou em posição.
- Você vai começar a me chamar pelo sobrenome?
- Quadribol pode fazer isso comigo.
- Mas não estamos jogando Quadribol. - Ela disse quase desesperada.
- Não, não estamos. - Voando baixo e devagar, ele se aproximou dela e deu um beijo rápido em seus lábios. - Eu estou levando a minha namorada para voar. - Aquilo derreteu seu coração e aquele feitiço para aquecer parecia ter ficado mais poderoso. - Sem pensamentos impuros sobre o que eu vou falar agora, mas coloque essa vassoura entre as pernas agora, Evans.
Lily, obviamente, soltou um sorriso malicioso enquanto se colocava em posição.
- Você se lembra que eu não voei sozinha por muitos anos, certo? - Ela perguntou enquanto tinha seus pés saindo da neve por alguns centímetros. Pelo menos lembrava de como decolar e já era algo a menos para se preocuparem.
- Você voou perfeitamente no aniversário do Sirius. - Ele comentou sorrindo ao vê-la ganhando altura aos poucos e de uma maneira controlada.
- Nós sabemos que, no fundo, era você quem estava nos controlando.
- De jeito nenhum! Você quem desceu e nos conduziu até os jardins. - Ele levantou o rosto para ela e voou mais alto para acompanhá-la. - Você fez todo o trabalho.
- Então, se isso for mesmo verdade...- Ela subia cada vez mais, James ao seu lado e subindo ao seu ritmo. Ela olhou por cima do ombro dele e franziu o cenho. - O que é aquilo?
James se virou para trás, não vendo nada. Esperou por dois segundos para confirmar que estava certo em não ver nada e se virou para frente novamente...para o vazio. Olhou para cima e viu Lily se distanciando.
- Mas...
- Você vai ter que vir me pegar, Potter! - Sua voz saiu abafada pelo vento e seus cabelos ruivos voavam por todos os lados enquanto ela continuava a se distanciar dele.
Ele olhou para o relógio e viu os segundos passando. Quando quinze segundos passaram, ele se ajeitou e disparou como um raio atrás dela, como se Lily fosse a goles mais preciosa do jogo mais decisivo da sua vida.
Já mais abaixo, na varanda e bem aquecidos, Sirius e Remus assistiam a interação dos dois.
- Eu realmente acho que se Lily pedir um pedaço da lua, o James consegue. - Sirius comentou enquanto tinha os braços cruzados e vendo James acelerando atrás de Lily, a pobre ruiva que mal sabia o que vinha para ela enquanto voava rápido, mas bem precariamente.
- Sem um pedaço dela, a lua nunca mais ficaria cheia. No final, ele estaria fazendo um favor para ela e para mim. - Remus comentou também olhando para o céu e os amigos.
James chegou em Lily rápido, muito mais do que ela poderia imaginar, já que ela gritou de susto, ecoando por todo o lugar junto com a sua risada quando James a segurou e a tirou da sua vassoura, pegando-a em seu braços. Os dois marotos não faziam ideia do que ele falava, mas Lily ria mais e mais.
- Retificando: se Lily pedisse um pedaço da lua, James a traria inteira. - Disse Sirius sem tirar os olhos deles.
- Com alguns pares de estrelas junto. - Remus completou. Assistiram a cena por alguns segundos, antes de Remus continuar. - Eu acho que o Prongs conseguiu, finalmente, o que tanto queria.
- Está meio óbvio, não? - Sirius debochou.
- Não digo isso, seu idiota. - Remus sorriu e se acomodou melhor na cadeira enquanto via James ajudando Lily voltar a sua vassoura e Lily tomando cuidado para não cair e não deixar James cair com ela. - Estou dizendo sobre o fato de que se James pedisse um pedaço da lua, Lily a traria inteira para ele também.
Sirius ficou pensativo por alguns segundos. O casal brincava, as risadas agora se misturavam no ar. Não precisavam estar perto para saberem o quanto estavam felizes.
- Com alguns pares de estrelas junto... e provavelmente de um jeito mais inteligente do que ele faria. - Sirius riu ao pensar na hipótese.
- Não podemos negar a impulsividade dele e a sagacidade dela.
Caíram no silêncio entre eles, deixando James e Lily serem os responsáveis pela música ambiente, ou seja, a felicidade de um casal apaixonado juntos e felizes.
J~L
Lily desceu da vassoura em um ponto longe da propriedade porque não conseguia mais se manter no ar com tanta dor por rir demais. Sentia pontadas na barriga e precisava se recuperar para não cair lá de cima.
James desceu logo em seguida, vendo a namorada rir. Era o melhor som do mundo e a melhor visão seus olhos fechados e escorrendo lágrimas de tanto rir.
- Eu...nossa, eu preciso me recompor. Você é louco, James. - Ela agora parecia mais recomposta.
- Talvez. - Ele respondeu se jogando contra um monte de neve e se ajeitando para ficar confortável. Sabia que o feitiço aquecedor não iria ajudar muito na neve, mas alguns minutos eram garantidos.
Ela se jogou ao seu lado, completamente livre de qualquer imagem da Lily certinha que ela já tenha passado em Hogwarts para os professores. Lily parecia livre e feliz, e saber que fazia parte daquilo lhe deixava nas nuvens.
Não estavam em uma colina, mas era o suficiente para apreciar o pôr do sol, algo que virou tão significativo agora. Lily deitou a cabeça em seu ombro e James pegou sua mão e a entrelaçou, sentindo o calor que passava entre eles.
Foi fácil colocar de lado o que havia acontecido mais cedo sobre os patronos, mas agora que Lily sabia que havia algo, não poderia mais não falar com ela, não explicar o que se passava. Sabia também que ela perguntaria mais cedo ou mais tarde e tinha a impressão que ela não tinha perguntado ainda, porque percebeu que ele reagiu um pouco mal sobre isso.
Mas não podia mais fugir daquele assunto, por mais tranquilos e felizes que estavam agora.
- Eu quero te explicar sobre os patronos. - Ele disse sem parar para pensar duas vezes. Talvez desistiria se pensasse por mais tempo.
- Sou todos ouvidos. - Ela respondeu com a voz tranquila, lhe passando a serenidade que ele precisava.
Desentrelaçou a mão dela para ainda segurá-la, mas passeando seus dedos em sua palma, acariciando cada canto. Olhar para ela, mas não para seu rosto, parecia mais fácil de contar o que tinha que contar.
- O fato de você ter uma corsa...- James fez uma longa pausa, como se cada segundo adiado fosse crucial. - Bem...sabe, eles dizem por aí que...quando você tem, ahn, um patrono que combina com o da outra pessoa, acaba que...bem...
- Você diz como a minha corsa "combina" com o seu cervo - Ela parecia carregar toda a paciência com ela e James agradeceu internamente por isso.
- Ahm, se formam um casal...sim.
- Certo.
- Certo. Então...a sua corsa meio que combina com...ahm...o meu cervo. Eles tem um nome para esse tipo de acontecimento.
Lily levantou a cabeça de seu ombro, mas não olhou para ele. O fato de que ela não gritava e corria em volta já era um bom sinal.
- Patronos complementares. - Ela pensou alto. Ah droga, ela já sabia deles. Com certeza deve ter entendido tudo. - Eu li sobre isso naquela enciclopédia, mas não prestei muita atenção, mas eu lembro...agora eu lembro.
- Sabe, isso não é lá grande coisa. - James tentou suavizar. - Além de nem todos acreditarem nisso.
- Almas gêmeas. - Ela disse baixo novamente. Lily parecia ler suas memórias em voz alta. Seus olhos encontraram os de James. O maroto mexeu nas mangas das jaquetas, sem graça, sem saber o que fazer.
Começou a ver como os olhos dela mudaram agora, com muitas questões e muita confusão. Ele não poderia julgar a coitada. Na verdade, ela estava reagindo melhor do que ele esperava.
- Isso é um tipo de mito, sabe? Deve ter algo assim no mundo trouxa. Como a Black Annis, que na verdade era apenas uma bruxa muito talentosa e gentil com um filho lobisomem...por isso os uivos que as pessoas ouviam e creditavam a ela. Annis agia estranho com as pessoas, mas apenas para mantê-las longe de sua casa e de seu filho, evitando que fossem se aventurar perto demais na lua cheia e serem pegos por ele.
- Eu morria de medo da Black Annis. - Lily comentou, não parecendo seguir o mesmo caminho de James naquela história. - Petúnia vivia dizendo que ela viria a noite e me levaria.
- E ela veio? Não. O mesmo com os patronos. É tipo um folclore e...
- Então você não acredita nisso?
James fechou a boca de imediato. Lily o encarava com uma curiosidade imensa, quase infantil, esperando por sua resposta.
Ele acreditava? Dê certo que ele foi atrás das informações, de certo que toda vez que falava disso, seu coração disparava e ficava nervoso. Dê certo também ficava nervoso por medo de Lily descobrir e surtar, causando algo negativo na relação deles.
Mas ele desacreditava? Ele amava Lily mais do que imaginava ser possível, isso seria sinal de serem almas gêmeas ou apenas um cara que ama muito uma mulher?
Se seus patronos fossem diferentes, eles ainda estariam ali, juntos? Ele não conseguia imaginar que não. Era louco pensar nisso, pois não tinha experiência na coisa todo do amor, ou não o romântico. Amava seus pais, amava seus amigos, mas romanticamente falando ele amou uma pessoa apenas e ela estava na sua frente. Já tinha tido interesses por outras garotas, mas não poderia dizer que foram amores. Mas Lily? Ele sabia que era amor, pois era algo muito fora do normal.
- James?
Ele havia ficado calado por muitos segundos e Lily esperava por sua resposta.
- Eu acho...que pode ser real. Mas...- Não sabia o que falar. Não queria forçar algo, e não queria ouvir - nem dela e nem de ninguém -, que o que eles estavam construindo era por terem os caminhos traçados. Era tudo muito bonito e tal, mas um lado dele queria saber que Lily gostava dele por ela mesma.
- Mas...? Você acha isso ruim? Ou ruim por ser comigo...?
- Não! - Ele se apressou a responder. - Eu não imagino pessoa melhor para ter um patrono complementar.
- Por que você soa tão esquivo e desesperado? Digo, eu ainda estou em choque e um pouco anestesiada, provavelmente não tendo a informação bem digerida, mas você soa como se detestasse a ideia ou não quisesse acreditar. Isso está soando pior do que qualquer outra coisa sobre a qual eu deveria estar surtando.
James fechou os olhos com força antes de abaixar a cabeça rapidamente.
- Lily. - Ele disse. Levantou o olhar para ela e se aproximou. Segurou o rosto dela entre suas mãos e a encarou por alguns segundos, apenas admirando seu belo rosto, os olhos um pouco chateados. - Se eu pudesse escolher qualquer pessoa para ser minha alma gêmea ou qualquer coisa parecida, seria você. Eu sempre escolheria você, eu sempre vou escolher você. A tensão que você vê é de um cara que é tão apaixonado por uma garota, que morre de medo dela estar embarcando nessa aventura com ele por conta de uma coisa de patronos. Eu estou sendo mimado o suficiente para que você me queira por me achar bonito, legal e bom o suficiente para estar do seu lado...não por algo de almas que te forçam a querer ficar comigo. Pode soar muito confuso, mas não sei como explicar melhor. Mas eu...
Lily o calou com um beijo suave.
- Eu tenho certeza que, se tudo isso existe mesmo, as almas gêmeas vão além do romance. - Ela começou, sem se afastar muito dele. - Que existem aquelas almas gêmeas que são apenas amigas, apenas companheiras...se me perguntassem, eu diria que Sirius era a sua. - James sorriu. - Eu ainda preciso de tempo para processar a informação, talvez eu precise ler mais sobre, mas de uma coisa eu tenho certeza: eu te acho muito bonito, legal e bom o suficiente para estar ao meu lado. E eu não queria estar amarrada espiritualmente com outra pessoa além de você. - Lily se reaproximou, seus lábios tocando os dele. - Então se você quer ficar feliz por termos nos encontrado e que a nossa história parece ser maior do que imaginamos, então fique, porque eu quero muito me deixar ser feliz por isso, mesmo não entendendo realmente o que tudo isso quer dizer ainda.
Merlin, ele amava Lily Evans.
Ele a beijou com toda a felicidade que sentia. Um peso saiu de seus ombros agora, pois não precisava carregar aquela informação apenas para ele. Lily agora sabia, independente de almas gêmeas existirem ou não, e não enlouqueceu. Bem, ela ainda precisa processar tudo e, conhecendo-a, ela encontraria todos os livros possíveis sobre isso e os leria, tentando entender tudo...e alguma hora, ela cairia nas mesmas palavras que ele: almas gêmeas não, necessariamente, ficam juntas e que possuem missões na terra para vencerem. Aquilo era o pior, mas não iria se abater por isso, não agora quanto tudo estava indo tão bem.
Não cansaria de repetir: aquele era o Natal mais louco, mas o melhor Natal de todos.
Estava triste em ter que ir embora, mas não poderia deixar tudo o que tinha que fazer para trás. Ainda havia muito a ser encaixotado, ser levado para doação e arrumação a ser feita. Agora teria que usar a magia para acelerar as coisas, mas um livro de feitiços domésticos que a mãe de Marlene emprestou ajudava bastante.
Além do mais, muita coisa aconteceu em poucas horas e sua cabeça precisava relaxar para poder absorver tudo: o lobisomem, os animagos, virar namorada de James Potter, descobrir que tinha um patrono completementar com James Potter. Merlin, essa última ainda estava fresca demais, não lhe dando tempo para absorver nada. Ficou tão tensa com o fato de James estar tenso, que apenas queria que ele ficasse bem, esquecendo completamente de pensar no assunto propriamente.
- Lily, poderia me acompanhar até a sala de Poções por um momento? Gostaria de um parecer de alguém tão bom sobre uma questão. - Fleamont pediu ao encontrá-la na sala com sua mochila entre suas pernas, esperando pelos garotos.
- Claro.
Deixando sua mochila no mesmo lugar e seus pensamentos loucos, ela desceu as escadas com ele até a sala de Poções, tendo aquela sensação boa novamente que aquele ambiente lhe trazia.
Eles caminharam até a bancada principal onde avistou um caldeirão borbulhando lentamente ao fim da realização da poção. A fumaça fazia alguns desenhos no ar, mas parecia se desfazer, como se tivesse alguém apagando os desenhos antes de se formarem completamente.
- Estou tendo um problema com essa. É para uma loção, mas o odor está me dando trabalho.
- Qual o problema do odor? - Lily perguntou se aproximando do caldeirão.
- Me diga você. - Ele apontou para que ela fosse mais além e cheirasse o conteúdo do caldeirão.
E assim ela fez. Uma, duas vezes. Olhou para o conteúdo e mexeu devagar, tentando trazer o aroma até seu nariz. Mas nada.
- Eu...eu receio dizer não sentir cheiro de nada.
- Nada? - Fleamont quase engasgou. - Nem um pouquinho? Digamos de, ahm, Cauldron Cakes?
- Não. Nem um pouco.
- E vinagre?
- Vinagre? Fico feliz em não sentir cheiro de vinagre, pois uma loção com esse cheiro não seria agradável. - Ela riu.
Os olhos de Fleamont brilhavam. Lily ficou extremamente confusa.
- Isso é...fabuloso.
- Lily? - Ouviram James descer as escadas e vir até eles. O maroto olhou para Fleamont, depois para Lily, achando estranho a expressão do pai - O que está acontecendo?
- Pedi ajuda para Lily sobre o odor dessa poção. - Fleamont apontou. - Poderia nos ajudar também?
James deu de ombros e colocou o rosto perto do caldeirão. Automaticamente, Fleamont e Lily seguraram seus ombros e o puxaram para trás.
- Francamente, James Potter. Não se coloca o rosto em um caldeirão, principalmente com uma poção tão fresca. Nunca sabemos se pode explodir ou expelir algo em você. - Lily o advertiu.
- Escute Lily e você vai sobreviver até o fim do ano nas aulas. - Fleamont olhou para ela e sorriu orgulhoso.
- Bla bla bla, Poções é o máximo, bla bla bla. - James desdenhou, mas sorria levemente ao vê-los tão alinhados. - De qualquer maneira, não cheira a nada.
- Jura? - Seu pai perguntou mais feliz ainda do que antes. - Nem um pouco de nada?
- Nadinha. Deveria cheirar a quê?
- Vinagre ou Cauldron Cakes, aparentemente. - Lily respondeu, dando de ombros.
- Vinagre? - James quase gritou. - Eu odeio vinagre. Se tivesse qualquer coisa perto do cheiro de vinagre aqui, eu já estaria vomitando. Cauldron Cakes é o meu doce favorito, e de novo, nada cheira a Cauldron Cake nesse caldeirão ou na sala. - James se virou para Lily. - Apenas baunilha vindo de você.
- Meu creme. - Ela respondeu.
Fleamont parecia nas nuvens de felicidade, alheio a conversa dos dois apaixonados ao seu lado.
Pelo santo cajado de Merlin, eles não sentiam cheiro de nada com Amortentia, assim como alguns livros sobre almas gêmeas diziam. E sabia que a poção estava correta, pois o cheiro de rosas e Cauldron Cakes enchiam aquele lugar. Euphemia também confirmou sentir cheiro de menta e Cauldron Cakes. Cada um sentindo o cheiro favorito do outro e ambos sentindo o de James, lembrando-os quando o filho ainda era pequeno e vivia devorando o doce, fazendo-o cheirar a um Cauldron Cake de duas pernas, tendo o bolinho perdido pelos cabelos ou com migalhas em suas roupas e bochechas.
- Eu preciso enviar um relatório para a comunidade internacional. - Pensou alto.
- Por que? - James perguntou. Fleamont balançou a cabeça.
- Nada, nada. Er, bem... Antes que partam, eu devo avisá-los que um time pequeno de Aurores e Inomináveis estarão esperando por vocês.
- Na minha casa?
- Sim. Eles irão procurar por qualquer sinal de artes das trevas, tentativas de arrombamento ou qualquer coisa que poderia ameaçar sua vida. - Fleamont se virou para o filho. - Seja educado.
- Que tipo de sugestão é essa?
- De quem trabalha com Moody e não quer ficar consertando a bagunça do filho cabeça dura.
James revirou os olhos e assentiu.
- Tanto faz. - Reclamou o maroto. - Você está pronta? - Perguntou para Lily
- Sim. - Se virando para Fleamont, Lily estendeu sua mão. - Obrigada por tudo. Foi um prazer preparar Poções com o senhor e passar o Natal com a sua família. Obrigada também pela sua ajuda para o meu retorno para casa, sei que os Aurores estão muito ocupados para isso, mas eu estarei menos preocupada agora.
- Não há de quê, querida. Eu direi então "Até logo".
- Até logo.
Voltaram para o andar principal da casa e encontrou todos os marotos restantes e Euphemia. Lily se despediu de Remus, Sirius e Peter dizendo que os veria em Hogwarts em alguns dias. Quando se virou para a mãe de James, viu que ela segurava um sorriso.
- Eu espero vê-la logo, Lily. Foi um prazer. - Foi abraçada com força e retribuiu. Não poderia dizer o quão agradecida estava por como Euphemia a fez sentir-se bem naqueles dias. - Obrigada pelo sorriso do meu filho.
Não conseguiu responder, mas sabia que Euphemia entendia seu silêncio como algo bom.
- Você nos leva? - James perguntou oferecendo o braço para que ela o segurasse.
- Com prazer. - Se virou para todos e acenou. - Obrigada e até mais.
Quando Lily pensou no pequeno beco não muito longe de casa, viu o aceno de Euphemia e dos marotos e sorriu antes de aparatar.
A mão de James já estava firme em seu braço quando pousaram, segurando-a para não cair com a tontura, mas dessa vez voltou ao normal mais rápido. Talvez, com o fato de estar aparatando mais vezes seguida, seu corpo estava querendo se habituar também.
- Tudo bem? - Ele perguntou.
- Sim, está ficando mais fácil. Tenho aparatado bastante nos últimos dias.
- De volta para Hogwarts, eu posso te levar para Hogsmeade toda a semana e brincarmos de pega-pega de aparatação. Chamaremos todos os outros e colocaremos aquele lugar abaixo.
- Eu adoraria. - Ela riu com a ideia. Nunca teve a oportunidade de brincar daquilo e tinha certeza que seria uma das coisas mais divertidas para fazer com todos eles.
- Potter! - A voz arrogante veio da entrada do beco. Alastor Moody os encarava sem um pingo sequer de paciência para namorados que planejavam brincadeiras em Hogsmeade. - Se puder ir mais rápido, temos coisas muito importantes para fazer.
James reclamou ao seu lado, mas pegou em sua mão e foi até o Auror.
- Poderia ter mandado outra pessoa em seu lugar. Ou não vir ninguém.
- O seu pai foi direto em seu pedido para que eu viesse, então não é hora de reclamar que um dos melhores Aurores veio até você para ajudar.
Moody saiu mancando, sem esperar resposta.
- Você tem que pegar mais leve com ele. Não há motivo para vocês dois brigarem. - Disse Lily.
- Ele me irritou bastante na enfermaria naquela vez. Vamos dizer que criamos uma inimizade, mas eu não o odeio. Fico feliz que venha para te ajudar.
Junto com Moody, havia um outro Auror, mas diferente do que esteve na enfermaria.
- Potter, senhorita Evans. Sou Auror Robards. Conheço e trabalho com Fleamont há alguns meses já. - Ele cumprimentou os dois com um aperto de mão, tentando parecer o mais normal possível, caso algum trouxa estivesse olhando pela janela. - Eu averiguei feitiços das trevas ou qualquer outra coisa que pudesse feri-los, mas a única coisa detectável são os feitiços de segurança feitos pela senhorita Evans. Estamos seguros para entrar.
- Obrigado, Sr. Robards. - Lily agradeceu. - Podemos entrar, eu acredito?
- Preferimos entrar primeiro, se não se importa. Há dois Inomináveis que entrarão pela porta do jardim de trás, e Moody e eu entramos pela frente. Preferimos que ficassem aqui fora por enquanto, mas terá que tirar os feitiços de segurança primeiro.
- Claro, claro.
Lily foi até a pequena varanda, deu uma olhada disfarçada para os lados, tirou sua varinha do bolso e partiu por alguns segundos de magia sendo retirada da casa. Quando acabou, colocou a varinha de volta e deu espaço para que Moody e Robards entrassem.
- O seu pai não precisava mobilizar dois Aurores e dois Inomináveis para vasculhar a minha casa.
- Ele nunca te deixaria voltar para cá sem ajuda. E se não fossem eles, seriam Sirius, Peter e eu. Menos profissional, mas acho que daríamos conta.
- Claro que vocês dariam.
Enlaçou o pescoço dele e o beijou docemente.
- Você não se importa se os seus vizinhos te verem beijando um cara tão bonito na porta da sua casa? E que esse cara calha de ser o seu namorado? - Ela riu em seus lábios.
- Eu quero que eles tenham certeza do quão bonito o meu namorado é.
- Então vamos dar um show para eles.
Ele a abraçou tão forte que os seus pés saíram do chão e o beijo dele era tão bom e possessivo, que duvidava que algum vizinho teria dúvida de que aquele cara estaria ficando em sua vida para valer.
Ficaram assim por alguns minutos, até alguém limpando a garganta chamou a atenção. James colocou Lily de volta no chão.
- A casa está limpa, sem indícios de que alguém tentou forçar a entrada ou lançar qualquer feitiço em móveis ou caixas, já que há muitas. Está seguro. - Robards disse.
- Obrigada pela ajuda de todos. Eu sinto muito por terem sido deslocados até aqui para isso, mas vocês me deixam mais tranquila com essa notícia.
Moody saiu da casa e parou ao lado dela.
- Não costumamos fazer esse tipo de trabalho, mas considerando tudo o que aconteceu com a senhorita em Hogsmeade, os ataques no dia 25 e Fleamont ser um bom amigo, seria uma desonra para o juramento que fiz quando me tornei um Auror, que é proteger a todos. Fique bem, senhorita Evans. - Moody olhou para James e pareceu segurar a careta. - Potter!
- Moody! - Ele se despediu do Auror. - Obrigado, Robards. Agradeça aos outros também.
- Será feito, senhor Potter. Boa noite.
O jovem Auror seguiu Moody e pareciam ir na direção do beco onde haviam aparatado alguns minutos atrás. Quando eles desapareceram pela calçada, Lily entrou na casa, sendo seguida por James. Na sala, encontrou o cômodo exatamente como o deixou quando Sirius a buscou: o aspirador estava caído no chão perto do sofá, um vaso que tinha sido atingido pelo feitiço que ela lançou continuava no chão. Nada e nem ninguém parecia ter entrado ali e quando os Aurores fizeram a varredura, não pareceram ter tocado em nada.
Olhou para cima da lareira, onde costumava estar a foto versão trouxa do seu dia mais feliz, mas ela não estava lá. Franziu o cenho por um momento, mas percebeu que nenhuma outra foto também estava à vista, já que ela tinha colocado-as em caixas.
Sem dizer nada, ela subiu até o andar de cima e passou rapidamente pelo quarto dos seus pais que continuava do mesmo jeito de antes: vazio, tudo já encaixotado lá embaixo. Respirou fundo e foi até o fim do corredor, entrando em seu quarto. Tudo estava igual também.
Ela não estava duvidando do trabalho de Aurores tão competentes, mas precisava conferir que tudo estava em seu lugar de qualquer maneira, como se ver com os próprios olhos lhe desse a paz de espírito que procurava.
- Esse é o seu quarto, então?
James estava parado na porta e olhando dentro do cômodo. Ele entrou e parou, parecendo tão grande em comparação aos móveis, em comparação a vida que ela estava tendo ali agora.
- Costumava ser mais decorado, a maior parte já está em caixas. - Ela respondeu olhando ao redor, lembrando onde cada objeto ficava, onde cada pôster estava pendurado.
- Ele ainda tem você em todo lugar e olha que eu nunca vim aqui. - Sorrindo, ele se aproximou, olhando pela janela como se procurasse sinal de algo que não deveria estar perto da casa. - Você está segura. - Lily não sabia se ele dizia aquilo para ela ou para si mesmo. O fato dele fechar a cortina logo depois lhe deu a ideia de que, talvez, tenha sido para ambos. - Vai ficar bem, mas lance todos os feitiços possíveis.
- Eu irei, não se preocupe.
Ali, tendo James em sua frente, o seu namorado, o cara com quem ela compartilhava o tal de patrono complementar, uma frase de Euphemia daquela manhã rondava sua cabeça: Sabemos que, uma hora ou outra, deixaremos esse mundo e não é por isso que paramos de viver, certo?
E se acontecesse algo com ela durante aquela madrugada? Ou com ele? Não gostava de pensar naquilo, mas havia uma chance de algo horrível cair sobre eles. Então olhou para James, que ainda olhava ao redor, parecendo absorver o quarto dela, provavelmente imaginando como deveria ser com a decoração.
- Você tem que ir embora logo? - Perguntou. James olhou para o relógio e deu de ombros.
- Não tenho nada me esperando, além do jantar e...
Lily o beijou, o surpreendendo. James a beijou de volta docemente. O coração dela, como sempre quando estava com ele, parecia ter vida própria e dançar em seu peito, fazendo-a quase sorrir. Mas não queria estragar o momento, apenas querendo aproveitar a presença dele, o beijo dele, o fato de que ele era agora seu namorado e mal podia esperar para ver os queixos caírem quando voltassem para Hogwarts.
Mal podia esperar para aproveitar cada momento com ele, sem ter certeza para onde aquela guerra iria levar a todos, se perderia James, se ela se perderia dele antes. Era tudo tão incerto, um futuro que deslizava sobre o gelo fino que poderia se partir tão rápido...
Vagarosamente, ela tirou a jaqueta dele de seus ombros, deixando a peça cair aos seus pés.
- Eu acho que devemos aproveitar o tempo que temos, James. - Ela disse subindo o olhar para ele. - Demoramos anos para nos aproximar, meses para chegarmos aqui...para que perder tempo?
James abaixou o rosto até o dela, abraçando-a pela cintura e colando seu corpo ao dela.
- Quem disse que estamos perdendo tempo? Neste exato momento, eu estou achando que estamos no tempo perfeito.
Ele a beijou lentamente, de uma maneira provocativa. E Lily caiu naquela armadilha perfeita, se entregando e derretendo nos braços dele. Deixou suas mãos viajarem pelos braços dele, sentindo cada músculo se retesando com o toque dela mesmo por cima de sua camisa. Quando chegou ao pescoço dele, deixou suas mãos descerem pelo seu peito, aproveitando a viagem até a lateral de sua barriga. Segurou na ponta da peça e a puxou para cima, fazendo James se afastar alguns centímetros e deixá-la tirar aquela peça.
O corpo dele era incrível e não perdeu tempo em tocá-lo novamente, tão leve, que viu o quanto ele se arrepiou.
Sem esperar, James a beijou novamente e mais veroz do que antes. As mãos dele agora pareciam querer sua vez, passeando pelo corpo dela, até chegarem no mesmo ponto e puxar a blusa que Lily vestia. A ruiva levantou os braços e o deixou tirá-la. Ele a olhou, como ela deve ter feito quando viu o corpo dele e entendeu porque ele a atacou com aquele beijo, pois o olhar dele era tão cheio de fogo, que não podia ficar apenas ali o encarando. Então ela o beijou novamente e poder sentir pele contra pele - sem contar o sutiã no caminho -, era a melhor sensação da vida: ele era tão quente; seu corpo era uma visão divina, mas melhor ainda ao toque. Enquanto passava as mãos por suas costas, sentia que tinha o homem mais bonito do mundo...e ele era todo dela, só dela. Finalmente.
Seu pescoço começou a ser beijado de um jeito tão excitante, que suas unhas fincaram nas costas dele por um momento. Merlin, se ele decidisse parar naquele momento, não saberia o que faria. Mas quando seus pés saíram do chão pela segunda vez naquela noite, e pela segunda vez suas pernas enroscaram na cintura dele desde aquela manhã, sabia que pegaram um caminho sem volta. Quando foi colocada contra a parede, teve ainda mais certeza daquilo, porque ela não deixaria que aquilo parasse.
- Você se importa se eu ficar um pouco mais? - Ele perguntou contra a sua pele, logo abaixo do seu pescoço.
- Eu estava pensando que talvez você não devesse ir embora.
James se afastou de sua pele e a encarou. Estava claro que ele se perguntava se tinha entendido nas entrelinhas.
- Se é aqui que você me quer, então eu não irei para lugar nenhum.
- Perfeito.
Ela o puxou de volta para si, não querendo se afastar dele nem mais um centímetro.
Mais delicado do que quando foi colocada ali, Lily foi retirada da parede. Ainda agarrada a ele com braços e pernas, foi fácil para James colocá-los na cama. E tudo aquilo não poderia ser mais certo, todas as sensações que tomavam conta dela agora, que era além de desejo, de atração física...era aquela vontade de James em sua vida por completo.
E tudo o que aconteceu depois só lhe confirmou. Quando os beijos dele ficaram mais ousados, quando as mãos de James deslizavam por cada curva, cada canto do seu corpo; Lily, querendo conhecê-lo tão bem quanto estava sendo conhecida, se permitiu passear e descobrir tudo o que ela queria. As roupas viraram tapetes do quarto agora; as palavras saíam por baixo de suspiros e gemidos; os corpos que viraram um só, ficando assim por longos minutos, deixando o conceito do tempo estar longe de definir o fim de tudo. O que sentiam e pelo o que passavam levaram os dois até o final...o que esperava por eles fora daquele quarto não ditaria quando terminaria.
Eles tentavam recuperar a respiração juntos. Apesar do frio que fazia lá fora, aquele quarto estava tão quente e aconchegante, tão confortável como nunca esteve antes. O coração de Lily diminuía os batimentos loucos, assim como sentia o de James parecer acompanhá-la. Ele a segurava tão forte contra ele que era impossível perder qualquer mudança em seu corpo. As mãos dele viajavam por sua perna, sua cintura e suas costas, e Lily continuou de olhos fechados enquanto aproveitava aquele carinho tão íntimo e forte pela primeira vez.
Tinha a impressão que as mãos e os lábios de James tinham alguma substância, poção ou feitiço para que ela sentisse um choque leve com cada contato entre eles. Sentia-se tão querida, bem cuidada...amada.
Seu coração voltou a acelerar como em uma corrida e um sentimento puro se instalou em seu peito, mas parecia que seu peito estava pequeno demais para guardá-lo. Precisava deixar aquelas palavras saírem.
Segurando o rosto dele, Lily o encarou. James tinha uma expressão de pura satisfação no rosto e quase inocente, fazendo com que ela sentisse mais vontade ainda de falar.
- James...- Eles continuavam com os olhos um no outro, o maroto esperando para que ela continuasse. Seus olhos estavam tão brilhantes, que Lily queria mergulhar neles e nunca mais sair. - Eu te amo!
O coração dele acelerou, conseguia senti-lo quase apostar naquela corrida com o dela. James segurou a mão dela que estava em seu rosto e a apertou contra a sua pele antes de beijá-la com delicadeza, cada dedo, sua palma, seu punho. Eram beijos com tanta dedicação, devoção, lhe dando aquela paz e certeza de que fez o certo ao lhe dizer aquilo
E segurando o rosto dela com o maior cuidado que tinha, James voltou a aproximá-los, seus lábios se tocando.
- Eu amo você, Lily.
Eles sorriram juntos e se olharam por alguns segundos, antes de se beijarem novamente e se entregarem ainda mais para aquela noite inesquecível.
N/A:
Postei e sai correndo.
Não esqueça daquele comentario marotinho ai ;) mesmo se não tenha gostado LoL
Resposta para review sem logins:
Mah: Ninguém se importa com o Peter hahahahahha ele bem que poderia desaparecer, so acho. Sirius nao podia ganahr outra coisa diferente do que canetas e afins xD Agora sobre a forma animaga, eu creio que sua resposta foi respondida xD heheehe espero que tenha curtido o capitulo *-* Beijoooss
Cin: Parabens atrasado xD Super atrasado, alias hehehhee Ah, eu adoro a amizade de geral. Com tanto trauma quanto a isso, eu tento colocar so coisa boa sobre isso nas historias xD Quanto ao Peter...o que eu posso adiantar é que ele AINDA não é um Comensal. No momento, ele é so o Wormtail mesmo. Mas né, quem se importa? A gente nao gosta dele mesmo de qualquer jeito xD Obrigada pelas palavras *-* Espero que tenha curtido o capitulo de hoje. Beijoooos
Beijoos! ;***
P.S: Black Annis é uma figura de bicho-papão no folclore inglês. Ela é imaginada como uma bruxa de cara azul ou bruxa com garras de ferro e um gosto pela carne humana. Diz-se que ela assombra o interior de Leicestershire, vivendo em uma caverna nas colinas de Dane, com um grande carvalho na entrada.(wikipedia)
