J~L

Pegou as torradas e as colocou no prato com rapidez para não queimar as mãos. Tirou as geleias do armário e as levou até a mesa, junto com o prato de torradas.

O suco já estava pronto, o café estava quase. Havia chá, caso quisessem, e panquecas.

Era um típico café da manhã dos Evans que Lily se lembrava bem. Estava orgulhosa por ter feito torradas na medida certa como sua mãe e panquecas tão fofas e suculentas quanto as que o seu pai fazia. Aquela manhã merecia uma boa refeição e a sua alegria só contribuía para o sucesso na cozinha. Olhou para a mesa posta e ficou contente com o resultado. Agora só faltava a segunda pessoa.

Não pôde não suspirar ao pensar na noite que teve. Foram tantos tipos de sentimentos bons e perfeitos acontecendo de uma vez, que ainda sentia-se anestesiada.

James Potter era a loucura na forma de homem, em todos os sentidos. Ele sabia como fazer uma pessoa feliz apenas com palavras, gestos, toques ou beijos. E quando juntava tudo, era o apocalipse.

Lily se pegou sorrindo como uma maníaca.

Os acontecimentos do Natal - os ruins - pareciam uma pequena sombra em sua mente. Ainda estavam lá, como uma pedrinha no sapato e que você não pode parar para tirar, tendo que continuar seu caminho com ela te apertando, machucando e arranhando. Mas tentava focar nas coisas boas que aconteceram, em todas as coisas boas que estavam acontecendo. Afinal, ela tinha seu namorado no andar de cima dormindo em sua cama, completamente apagado.

"Alma gêmea" era algo que também não saía de sua cabeça, porém, não sabia o porquê de não dar tanta atenção a isso quanto deveria. Não que ela não se importasse ou não achasse interessante, mas não a chacoalhava tanto quanto parecia chacoalhar James. Ele era uma corda tensa sobre o assunto e, apesar dela ter pensado que fosse por algo ruim, por ele não querer ser a sua, entendia suas razões e preocupações, mas eram desnecessárias. Lily o amava antes de saber qualquer coisa sobre alma gêmea e continuaria amando independente de qualquer mito, folclore ou patronos complementares que existissem.

E por isso ela não surtou, não levava aquela história toda tão a fundo, pois não mudaria nada. O que sentia por James não iria aumentar ou diminuir. Nada daquilo iria mudar algo em relação a eles, apenas, talvez, confirmaria que o que sentiam era real, que Lily se deixou apaixonar pela pessoa certa, que não existia pessoa mais certa para si do que James Potter.

E não poderia ser mais feliz com essa constatação.

O alarme dos cachorros soou pela casa toda e ela ouviu um baque surdo vindo do andar de cima. Seu quarto era acima da cozinha, então imaginou que James derrubou algo - ou ele mesmo - no chão.

Pegou sua varinha e colocou no bolso do seu roupão, caminhando até a porta da frente para ver quem se aproximava. Quando passava pelas escadas, ela foi impedida por um par de mãos em seus braços.

- Eu vou. - Disse James em suas costas. Se virando, constatou que ele usava calças e nada mais.

- E você vai atender a porta assim?

- Ou duelar com alguém. Vamos torcer para que seja só o primeiro.

- Deve ser apenas o garoto do jornal. - Lily desconsiderou a hipótese de duelo e fez menção de ir até a porta da frente.

- Ele já veio. - James apontou para o jornal em cima da mesa da sala. Ela não tinha visto antes.

- Você acordou com o menino do jornal?

- Fiquei surpreso por você não ter acordado. Se você não está se abalando mais com esse alarme infernal, temos que trocar.

A campainha tocou, deixando ambos tensos.

- Deve ser o vizinho, James. Comensais não tocariam a campainha.

- Talvez seja isso que eles querem que você pense. Fique aqui, por favor.

Com aquele traje nada preparado para atender a porta, James foi mesmo assim. Ele tinha a varinha em uma mão enquanto olhava pelo olho mágico. Virou a chave, deixando a corrente presa para que ninguém forçasse a abertura pelo lado de fora, e abriu a porta.

- Bom dia. - Ele cumprimentou.

Era uma loira razoavelmente alta. Ela tinha olhos verdes, mas longe de serem tão bonitos quanto os de Lily. Para James, ela também tinha uma espécie de cara de cavalo. Tinha certeza que Sirius diria isso se estivesse ali.

- Quem é você? - Ela perguntou, ríspida.

James balançou a cabeça com o choque da falta de educação daquela pessoa.

- Quem é você? - Ele replicou.

- A dona dessa casa! - A mulher grunhiu para ele. - Como ousa?

- Garanto que a dona dessa casa é bem diferente. Se você fosse dona da casa, não estaria entrando ao invés de apertar a campainha?

A loira abriu a boca completamente ultrajada, mas antes de responder, Lily apareceu em seu campo de visão por baixo do braço de James.

- Tunye?!

- Lily! - Petúnia quase engasgou de raiva, olhando de James para a irmã. - O que…? Você agora traz aberrações como você para a casa dos nossos pais?

Merlin, aquela era a irmã de Lily?! James não tentou esconder o choque que levava pela segunda vez daquela pessoa. Ela não tinha nada a ver com Lily, nadinha. E pela foto dos Evans, diria que ela foi adotada, já que não parecia com os pais também.

Talvez fosse o olhar. Aquela mulher tinha um olhar duro e frio, diferente de todos os outros membros da família.

- Petúnia! Por favor, não diga isso.

- Você chamou Lily de aberração ? - James perguntou, apenas agora deixando as frases daquela mulher assentarem.

- Não só ela, caso não tenha percebido. O que você está fazendo na minha casa?

James estava pronto para responder, mas Lily colocou-se à sua frente. Era quase engraçado, já que sua cabeça apenas alcançava os ombros dele.

- Se você quiser mostrar para a visita o quanto os seus pais te educaram bem, eu te convidarei para entrar e tomar café da manhã. Está cedo e acredito que você apreciaria algumas panquecas do papai. Mas se você quiser ser essa pessoa desprezível, que nada usa do que lhe foi ensinado, eu vou fechar a porta e garanto que não haverá chaveiro neste mundo que conseguirá abri-la.

Uma eternidade pareceu ter passado. James e Lily esperavam, enquanto Petúnia parecia ter uma guerra interna. A loira fechou os olhos por alguns segundos, arrumando sua postura, antes de abri-los e olhar diretamente para a irmã.

- Panquecas me soam bem.

- Ótimo.

Lily fechou a porta para retirar a corrente e abriu-a depois. Petúnia entrou no hall e olhou James de cima a baixo.

- Eu vou me vestir. - O maroto anunciou antes de subir as escadas, enquanto as duas irmãs seguiam para a cozinha.

Sem acreditar na reviravolta do que deveria ser aquela manhã - calma, com beijos e abraços-, Lily se via na cozinha com a sua irmã. A sua irmã que a detestava e que, pela primeira vez, mostrou que não se importava em xingar outros bruxos também enquanto adulta. Ela bem lembrava as vezes que a irmã chamou Severus de aberração quando eram crianças.

- Café ou chá? - Lily perguntou.

- Chá, como sempre. - Petúnia respondeu sem emoção.

Lily segurou o ímpeto de responder que não era obrigada a saber o que a irmã consumia, mas apenas seguiu seu caminho até o armário e pegou o pote de chás, colocando na frente de Petúnia. E como não podia perder a oportunidade, ela trouxe uma xícara de chá com água fria e colocou em sua frente.

- Desaprendeu a fazer chá naquela escola ou você espera um… - Apontando para a xícara com a varinha, Lily fez a água ferver debaixo do nariz da loira. - Você não espera que eu tome dessa água, não é mesmo?

- Você escolhe. Se não quiser, levante e esquente a própria água na sua casa.

Como não viu a irmã levantar ou alguma outra reclamação enquanto dava atenção ao café, presumiu que ela aceitou a água e preparava o seu chá.

- Quem é ele? - Petúnia finalmente falou.

- James Potter. - Se virou para encarar a irmã. - Meu namorado.

- Ele é uma ab…?

- Um bruxo! - Lily a cortou, seca. - Um dos melhores que eu conheço, mesmo tão jovem.

Petúnia pareceu processar a informação, provavelmente tomando aquelas palavras como uma ameaça velada. Bem, não era, mas era justo que soubesse que James era poderoso o suficiente para fazê-la se arrepender de algo, mesmo Petúnia não sabendo que ele nunca faria algo contra sua irmã.

- Pensei que você namoraria aquele garoto esquisito, o tal Snape que morava na parte pobre de…

- Pois não namora. - James se fez presente, tendo as duas irmãs virando-se para ele na porta da cozinha. Agora completamente vestido e maravilhoso como era. - Prazer, James Potter.

Ele ofereceu a mão para Petúnia, mas ela não parecia nem um pouco perto de aceitar o cumprimento. James olhou para Lily, que apenas balançou a cabeça, pedindo que ele desistisse. E ele assim o fez, deixando a mão cair.

- Ele parece mais limpo que o garoto esquisito, pelo menos. - Petúnia disse quase aos sussurros, mas os dois outros presentes ouviram.

- Ah, um elogio, finalmente. Estava esperando por um desde que me viu sem camisa na porta.

Lily foi até ele e lhe deu um beijo suave nos lábios. James sorriu para ela e lhe devolveu o beijo.

- Bom dia. Sente-se e aproveite. - ela disse, apontando para a mesa.

- Obrigado. Eu gostaria de ter preparado tudo com você. - Ele sussurrou e deu um beijo logo abaixo de seu ouvido.

- Acorde mais cedo na próxima vez.

- Na próxima vez, você não sairá da cama…

Petúnia limpou a garganta, fazendo-se presente. Ela levou o chá até os lábios com desdém, forçando ignorar o casal que quase se beijava apaixonadamente em sua frente.

- O café da manhã, sim. - Lily murmurou e voltou até a mesa.

Era um cenário estranho. Estar em casa sem os pais era estranho; ter Petúnia em casa era muito estranho, já que ela havia partido alguns anos atrás; ter James em sua casa era absurdamente estranho, porém, parecia a coisa mais natural de todas as outras agora. Porém, tomar café da manhã com James e Petúnia...aquilo tinha excedido as expectativas da estranheza.

- Você deve estar se perguntando o motivo da minha visita. - Petúnia começou. Ela ainda não havia tocado na comida, apesar de enviar olhares para as panquecas de tempos em tempos e ter tomado todo o chá.

- Eu não deveria, já que é a minha irmã e estamos na nossa casa. - Petúnia não pareceu se abalar e encarou Lily com tanto amor quanto olhava para um pedaço de sardinha. A ruiva limpou a garganta. - E apesar disso, na verdade, me pergunto o que você faz aqui tão cedo.

- São 9:30. Não é tão cedo.

- Para visitas sem aviso, sim.

James tentou parecer invisível ali. Gostaria de pegar sua capa e desaparecer, mas estava tendo a impressão de que a irmã de Lily iria surtar se fosse o caso.

- De qualquer maneira, estamos na região. Tenho que resolver todos os papéis do casório.

Gotículas de chá voaram pelo ar. As duas irmãs olhavam para James que acabara de cuspir um pouco do líquido ao engasgar. O maroto pegou o guardanapo e secou a boca.

- Desculpem. - Ele pediu enquanto se recuperava. - Você é noiva?

- Sim.

- Wow! - Foi quase inaudível, mas não para Lily. Teve que segurar o sorriso com a surpresa genuína dele.- Parabéns para você.

- Enfim...estou preparando os papéis. - Petúnia abriu sua bolsa e pegou um papel lá de dentro. - Eu sei que papai e mamãe iriam me obrigar a isso de qualquer maneira…- Lily começou a ficar ansiosa, feliz. Sua irmã iria chamá-la para ser sua madrinha. Depois de anos e anos de brigas...ela veio até ali, com a bandeira branca. - Então aqui está o seu convite.

A ruiva pegou o convite e o abriu, feliz. Os olhos correram por todo o texto enquanto o sorriso fechava pouco a pouco.

Era convidada. E só. Apenas mais uma convidada do casamento da irmã.

Levantou os olhos para ela. Conseguia ver que a irmã sabia que estava triste, que Lily imaginaria ser a madrinha ou parte importante.

- Convidada. - Disse Lily sem emoção.

- Sim. - Petúnia olhou rapidamente para James. - Você tem direito a um acompanhante.

James não respondeu a indireta, ainda encucado com a reação de Lily ao convite.

- Muito gentil da sua parte. Obrigada. - A ruiva continuou.

- Mais uma coisa. Eu preferiria falar sobre isso com você a sós, mas considerando quem é o seu namorado, não temos problema. - A loira se preparou toda para a próxima frase e os dois a olhavam como se ela fosse cuspir o segredo mais obscuro do mundo. - Vernon sabe sobre você.

Céus! Aquilo era quase tão chocante quanto.

- Sabe? - Os olhos verdes de Lily se arregalaram.

Aquilo era grande. Ninguém do círculo de Petúnia sabia sobre ela, nem sua melhor amiga desde a infância - e que provavelmente seria madrinha do casamento -, mas ela contou para o noivo.

- Eu tive que falar. Afinal, ele é a minha família agora.

James se levantou da cadeira fazendo-a arrastar pelo chão da cozinha com um barulho incômodo. Ele não disse nada, mas era claro para todos os presentes de que ele tinha muito entalado, louco para despejar em cima de Petúnia.

Lily apenas balançou a cabeça minimamente para ele e o maroto pareceu engolir todas as palavras que estavam prestes a acertar aquela pessoa desagradável sentada ao seu lado.

Passando a mão pela boca, como se tentasse recuperar o controle sobre si, James então forçou um sorriso.

- Alguém quer algo? Mais chá? Café? Mais…alguma coisa?- Ele perguntou. Seus lábios tremiam de raiva.

- Não, obrigada. - Lily respondeu pelas duas.

Ele se afastou e deu a volta no balcão. Lily sabia que ele se afastou para não fazer algo estúpido como colocar Petúnia de cabeça para baixo ou transformá-la em algum animal. Até mesmo, quem sabe, lançar uma maldição imperdoável.

- Se você não estiver ocupada amanhã, Vernon gostaria de te conhecer. - Disse Petúnia. As surpresas não paravam de vir.

- Verdade?

- Sim. Então estava pensando em irmos naquele restaurante na entrada da cidade.

Naquele momento, Lily estava pensando seriamente que seria levada para uma armadilha. Chegou a pensar se aquela era mesmo Petúnia e não um Comensal disfarçado, querendo matá-la, mas ninguém saberia como Petúnia adorava jogar a palavra "aberração" no ar em volta da irmã ou como aquele restaurante da entrada da cidade era importante para elas.

- Estaremos lá. - James confirmou o convite, surpreendendo a todos.

- Perdão? - Petúnia perguntou.

- "Estaremos lá", ele disse. - Lily confirmou ainda tentando deixar todas aquelas informações serem digeridas. Sua irmã ali para o café da manhã, junto com James, dizendo que contou ao noivo sobre ela ser bruxa e que ele queria conhecê-la. Era um pouco demais para engolir de uma vez. - Meu namorado e eu estaremos lá. Digamos, talvez, 19:30 ?

Petúnia olhava de um para o outro: a ruiva sentada ao seu lado e seu namorado em pé no meio da cozinha. Ambos a encarando com o desafio estampado em seus rostos. Ela iria retirar o convite por James também ir? Teria a coragem de insultar a ambos, quando parecia em desvantagem?

Mas ela apenas se levantou, arrumando a bolsa em seus ombros. Lily se levantou também.

- Até amanhã, então.

Foi a única coisa que a loira respondeu antes de pegar o caminho para a saída. Quando a porta fechou, Lily desabou na cadeira novamente, deixando a tensão escapar de seu corpo.

Infernos. Era para ter sido uma manhã perfeita, cheia de beijos, abraços e uma boa refeição. Era para estar sorridente, esbanjando felicidade…

Olhou para o convite em cima da mesa. Convidada, apenas uma mera convidada. Era isso que virou para a única irmã que tinha, a única parte da sua família que restava. Uma convidada, com direito a um acompanhante...que honra.

Foi tirada de sua autopiedade assim como foi tirada da cadeira: James a pegou no colo e começou a sair da cozinha.

- O que está fazendo?

- Te levando para onde não devíamos ter saído. - Ele lhe deu um beijo rápido e começou a subir as escadas. - Não se preocupe, o café da manhã está nos seguindo.

Olhando por cima do ombro dele, ela confirmou que tudo os seguiam. E o melhor: o sorriso de antes estava de volta.

Foi colocada na cama, as panquecas, chá, café e torradas espalhadas ao redor. James se sentou atrás dela, apoiando o rosto em seu pescoço enquanto pegava uma garfada de panqueca com mel.

- Obrigada. - Ela se viu agradecendo, mas parou de falar quando sentiu que James deixou um pouco de mel cair propositalmente em seu pescoço.

- Quem preparou tudo foi você. - Ele sussurrou em seu ouvido. - Eu que agradeço.

Os lábios dele desceram até o mel em seu pescoço, beijando-a tão deliciosamente, que nem lembrava mais de comer.

- Você dormiu bem? - Ela perguntou fechando os olhos. Apesar dos pesares, ela não tinha uma cama muito grande e eles ficaram colados a noite toda.

- Não poderia ter sido melhor. - Ele respondeu ainda com os lábios nela.

- Fico feliz.

- Então comece o seu café da manhã merecido.

Sem mais provocações, os dois deram a atenção apropriada para a comida. Ela ficou feliz que a panqueca realmente ficou parecida com a do seu pai e que tudo o que foi preparado, estava perfeito. No fim, eles tiraram todos os pratos e xícaras da cama e James os deitou novamente.

- Agora…- Ele disse colocando Lily deitada pela metade em seu peito. - Depois de eu ter lidado com o menino do jornal e voltar para cama, estávamos assim. - Ele a apertou. - Assim que eu me deitei, você me agarrou como a Lula Gigante e eu me senti no paraíso.

- Hmm - Ela ronronou enquanto se ajeitava nele, não duvidando de suas palavras.

- Então acho que devemos voltar para esse momento, que não deveria ter acabado. - As mãos dele passeavam por suas costas, subindo até seus ombros, depois descendo até onde seu braço alcançava.

- O seu pedido é uma ordem.

Ela estava feliz de novo e James deixou sua cabeça descansar no travesseiro, finalmente. Seu coração doía por ela, pela irmã terrível que Lily parecia ter e, provavelmente, o cunhado tão ruim quanto. Duvidava que aquela mulher tivesse encontrado alguém bom. Dificilmente alguém normal gostaria de alguém tão odiosa e ele não iria deixar Lily sozinha com eles, sendo alvo da maldade sem escrúpulos que deviam ter.

Ela a chamou de aberração. Na frente dele. Deve ter feito isso milhões de vezes, talvez na frente de muitas outras pessoas. Talvez seja assim que ela a descreve para o noivo.

Mas ele ia naquele jantar. Poderiam chamá-lo de aberração quantas vezes quisesse, mas não sairia barato caso decidissem fazer algo contra Lily.

Nem amanhã, nem nunca.


Assim que abriu a porta da Potter Cottage, Sirius correu como uma criança para dentro, indo e vindo de cômodos, depois subindo as escadas quase correndo.

Após deixar Lily no fim da manhã - bem a contragosto, aliás -, James voltou para a casa dos Potter em Londres, encontrando Sirius por lá. Remus voltara para casa dos Lupin e Peter para a de sua mãe.

- Tem um quarto de visitas. Sabe o que isso significa, não é? - A voz de Sirius veio do corredor de cima.

- Que eu terei meu quarto de Quadribol, colocarei a vassoura como uma jóia rara no meio, bancos em volta para que eu possa adorá-la e tudo mais.

James parou no batente da cozinha. Tantas lembranças boas ali, mas que seriam não substituídas, mas ganhariam novas como companhia. A antiga mesa dos pais ainda estava ali, as cadeiras de uma família pequena também.

- Não, idiota. Significa que você e Lily estarão casados, com filhos e eu ainda terei um quarto para mim.

Aquilo seria bom. Não Sirius e um quarto só para ele - apesar de que não teria como escapar daquilo, ele sentia -, mas da vida que queria ter ali. Com Lily.

Fez uma careta involuntária ao pensar no que ocorreu naquela manhã com sua irmã. Não imaginava que Lily convivesse com alguém tão odiosa daquele jeito e, ainda sim, a amasse tanto. Ou que não fosse tão rancorosa.

Mas por que ele estava pensando naquilo mesmo depois de ter tido aquela noite com ela? Santo Merlin, as surpresas não paravam de chegar. Quando a acompanhou de volta para casa, não imaginava que as coisas acabariam do jeito que acabaram. Não que ele fosse reclamar.

- Você terá que comprar uns móveis, mas com certeza será uma casa perfeita para depois de Hogwarts. - Sirius continuou a sua tagarelice enquanto descia as escadas. - O que Lily vai fazer com os móveis da casa dos pais? Eles ficariam legais aqui. Você poderia comprar a televisão e tudo mais…

- Sim, eu pensei nisso.

Falando em pais, ele lembrou de algo que tinha que fazer. Saiu da casa, olhando para a placa acima da porta onde estava escrito "Potter Cottage". Com a varinha, tirou a placa e levou para dentro.

- O que está fazendo?

- Quando estava no Ministério para assinar os papéis, nós tiramos a Potter Cottage do radar. Essa casa agora é apenas uma casa normal em Godric's Hollow que pertence ao casal Elvendork.

- Elvendork, hein? Você gostou da minha sugestão daquele verão.

- Odiei, na verdade. Mas calhou na hora quando me pediram uma sugestão. Você será o único a saber, aliás.

Sirius deu de ombros e continuou a vagar pela casa, olhando ao redor.

- Eu falei sério, sabe?! - O moreno de cabelos mais longos comentou. Ele se virou para James. - Sobre você e Lily nessa casa.

- Padfoot, eu acabei de pedi-la em namoro. Não é hora de eu falar em qualquer outra coisa além disso.

- Não sabia que tinha hora para essas coisas do futuro. Imaginava que era coisa do que sentia: se você sente que quer casar com ela e tudo mais. Talvez o que você sente por ela não seja tão forte assim.

James riu, sabendo o que o amigo estava fazendo.

- Eu odeio Lily com todas as minhas forças, por isso que eu faço tudo o que faço. Você está certíssimo. - James foi até a sala e imaginou-a mobiliada: dois sofás, uma mesa de centro e uma televisão perto da chaminé. Não tinha esses pensamentos domésticos recorrentes, mas agora tinha uma casa e se queria ser independente e não deixar sua mãe tomar conta de tudo, teria que lidar com aquilo sozinho e o mais rápido possível.

- Quando você vai trazê-la aqui? - Sirius perguntou.

- Logo.

- Claro que vai ser logo. - Sirius riu. - Eu sei que você fica desviando, mas está louco para casar com ela e encher esse lugar com pequenos James e Lilys.

Não respondeu, colocando toda a sua atenção na casa. No geral, ela estava em um ótimo estado, considerando o tempo que passou vazia e sem nenhuma visita. Seu pai deve ter vindo antes do Natal para conferir as coisas, pois não havia muito pó.

- Algo de interessante lá em cima? - Perguntou para Sirius.

- Alguns móveis, mas nada demais. - Sirius olhava pela porta do jardim de trás. - Uau, isso está precisando de uma boa podada. Eu não sou o melhor em Herbologia ou qualquer coisa relacionado a plantas, mas acho que posso dar um jeito nesse jardim.

Sem esperar uma resposta de James, o maroto abriu a porta e saiu. Sirius Black ocupado era sinônimo de tempo para fazer algo útil, então teria que aproveitar. Subiu os degraus devagar, quase sentindo a força das lembranças de correr por ali, ouvindo sua mãe gritar para tomar cuidado. Lembrava também da voz do seu avô, chamando-o em seu quarto para mostrar algo novo que trazia do Ministério ou quando trazia um presente para o neto.

O quarto em questão tinha a porta fechada. James parou em frente a ela, sabendo que nunca poderia entrar sem bater, já que seu avô fazia reuniões secretas com a Wizengamot pela lareira. Sorrindo nostálgico, ele continuou seu caminho, parando no quarto que era dos seus pais e que estava completamente vazio agora...

- O que é isso?

Em cima do beiral da janela, havia uma pequena vassoura e uma carta. Ao se aproximar, um soco de memória o atingiu: ele tinha aquela vassoura de pelúcia desde os cinco anos. Ela não fazia nada: não voava, não fazia barulho, completamente estática. Mas era um dos seus brinquedos favoritos. Seu pai costumava dizer que, além das vassouras que voavam de verdade, James também precisava ter algo que o lembrasse de ter os pés no chão. Na época, ele achava que era puro blablabla, mas hoje aquela frase era mais clara.

A carta estava com uma leve camada de pó, o que indicava ter chegado ali há algumas semanas, talvez.

"Esse foi o nosso lar por tantos verões, outros tantos invernos. Tantas lembranças, tantas risadas, alguns choros e muitos gritos de alegria.

É a sua vez de trazê-los de volta. E conhecendo-o como conhecemos, sabemos que esses corredores, esses cômodos, a cozinha...todos eles serão repletos de gargalhadas e muito amor.

Mal podemos esperar para um Natal em família...com a sua nova família.

Euphemia & Fleamont"

Essa carta e a vassoura de pelúcia não poderiam ser mais significativas. Seu maior desejo era poder fazer exatamente o que seus pais desejavam naquela carta. Primeiro, lutar para que ele pudesse trazer a tranquilidade para sua vida, a vida de Lily e todos os outros. E encher aquela casa de risadas...e alguns James e Lilys.

Guardou a carta e a vassoura no seu bolso extensivo. Olhou ao redor do cômodo, sabendo que agora ali seria o seu novo quarto.

Saiu para o corredor e foi até o seu antigo quarto. Ainda tinha as marcas dos pôsteres de Quadribol. Ficou feliz em não ver o poster de Roderick Plumpton, aquele idiota que deve ter agarrado o pomo de ouro mais rápido do mundo com o vazio que tinha em sua enorme cabeça. Não acreditava que o cara que venerava falou daquele jeito com a sua namorada. Na época, Lily era apenas seu par para a Slug Party, mas ainda sim!

Ali também estava vazio, então voltou para o corredor. Enquanto passava em frente ao quarto onde o seu avô costumava dormir, ele parou. A porta continuava fechada, mas havia algo diferente, como se alguma magia estivesse zumbindo para fora.

Encostou na maçaneta e sentiu a magia que vinha do quarto. Sem esperar, abriu a porta pronto para algo delirantemente louco ou incrível, mas se deparou com o lugar quase vazio. Não havia cama, armário, poltrona que ele costumava ler o jornal ou cartas, nem o tapete enorme cobrindo quase todo o chão. Apenas uma escrivaninha no canto, uma maleta em cima.

H.L.P estavam estampadas em uma bonita caligrafia na maleta. James lembrava de ver o avô com a mesma quando chegava de reuniões. Ele já não mais participava da Wizengamot, mas era tão apreciado e confiável, que os membros da Corte Bruxa nunca o deixaram de fora, mesmo com sua história de ir contra o Ministro quando era um participante ativo e ter sido o responsável pela saída dos Potter da Sagradas Vinte e Oito.

Se perguntou por quê seu pai deixaria a escrivaninha e a maleta ali, ao invés de tirá-las. Perguntaria mais tarde.

Quando seus dedos encostaram nas duas pequenas fechaduras da maleta, elas abriram sem que James forçasse ou mesmo fizesse o mínimo esforço para isso.

- Estranho. - Comentou alto, sabendo que seu avô nunca deixaria a maleta ser aberta tão facilmente.

Havia muitos pergaminhos ali. Alguns completamente em branco. Para um maroto, um pergaminho em branco bem guardado não era realmente um pergaminho em branco, então esses foram deixados de lado, mas não esquecidos.

Havia anotações e bem chatas, por sinal. Muitas delas. Não faziam sentido, aliás. Talvez eram conversas ouvidas às escondidas e aquelas palavras deviam fazer sentido para algo no momento, mas era uma incógnita para James. Deixou de lado também, mas não esquecidas.

Já quase no fundo da maleta, viu um envelope. O fato de ser uma carta não era o problema, mas quem era o destinatário.

Albus Dumbledore.

Ok. Isso não deveria ser algo tão chocante, uma vez que Dumbledore fazia parte da Wizengamot enquanto seu avô ainda era vivo e era o líder hoje em dia. Mas por que teria uma carta, que claramente seu avô escreveu e enviou, de volta em sua maleta?

Tirou o pergaminho de dentro e, novamente, em branco. Pegou sua varinha do bolso. Sabia que pedir para revelar o conteúdo não seria o suficiente, mas poderia começar com alguma dica, assim como acontecia com o Mapa.

- Revelio.

A curiosidade do que poderia aparecer - e que ele sabia que não seria o conteúdo da carta -, virou decepção quando nada ocorreu.

Nem uma mensagem ofensiva? Nem um comentário sarcástico? Oras, onde estava aquele Henry Potter que nunca o decepcionou? Que o ensinou tantas maneiras de enganar ou brincar com as pessoas?

O pergaminho estava tão vazio quanto anteriormente e o fato do conteúdo estar tão bem escondido, só fazia com que James quisesse descobrir mais do que nunca o que seu avô estaria conversando com Dumbledore e fazendo sua própria carta retornar depois.

- O jardim está bem melhor agora, mas não garanto a sobrevivência de algumas plantas. - Sirius disse entrando no quarto. Ele cruzou os braços e apontou com a cabeça. - O que achou aí?

- Eu sou intrometido! - James respondeu.

James e Sirius enrugaram a testa, confusos.

- Isso não é novo, mas o que você achou aí enquanto se intrometia nas coisas alheias?

- Eu sou intrometido? - James repetiu.

O que estava acontecendo? Ele não estava querendo dizer aquilo, mas ainda sim, era só o que parecia sair da sua boca.

Sirius se aproximou, um sorriso maroto brincando em seu rosto.

- Ah, James James. O que você andou aprontando?

- Eu sou intrometido! - James apontou para a maleta. Mas ao diabo com aquilo, nada que pensava e queria falar, saía de sua boca.

Maldição. Seu avô tinha enfeitiçado aquela carta!

- H.F.P. Vovô Harry, eu imagino? - Sirius perguntou.

- Eu sou intrometido. - James respondeu, soando como uma confirmação.

- Uma das pessoas que eu gostaria de ter conhecido. - Sirius pegou os pergaminhos e tentou olhar por eles. Aquelas com as anotações aleatórias chamaram sua atenção, mas pareciam fazer tanto sentido para ele quanto para James. - São todos artefatos das trevas. - Sirius virou os pergaminhos, mas não achou nenhuma outra informação, então os colocou de lado. - O que são todas essas anotações?

- Eu sou intrometido. - James respondeu, dando de ombros. - Eu sou intrometido!

Ele entregou a carta endereçada à Dumbledore. Sirius olhou do pergaminho vazio e depois para James.

- Você quer me dizer algo com isso, mas eu estou um pouco limitado aqui.

- Eu sou intrometido. - James repetia. Pegou o envelope que continha o destinatário. - Eu sou intrometido? Eu sou intrometido!

- Ok. Pelo seu tom e sua cara, você quis dizer algo como "Eles eram conhecidos? Eu não sabia!"

- Eu sou intrometido! - James comemorou e deu um tapa no ombro de Sirius, o parabenizando.

Sirius estudou o pergaminho por alguns segundos. Olhou para James, que o observava ansioso.

- Você tentou revelar a mensagem e acabou sendo enfeitiçado, não é? - James parecia enviesado, mas assentiu. Sirius riu. - Eu me daria tão bem com o seu avô.

- Eu sou intrometido. - James apontou para o pergaminho. - Eu sou intrometido? - Apontou para o nome de Dumbledore e depois para a maleta.

- Quer saber por que a carta estava com o seu avô, se o destinatário era Dumbledore ? - James confirmou. Não era difícil desvendar o que James falava, já que Sirius se pegou pensando a mesma coisa. - Bem, acho que temos que arrumar um jeito de ver o conteúdo. Você usou Revelio?

- Eu sou intrometido! Eu sou intrometido, eu sou intrometido. Eu sou intrometido: eu sou intrometido? Eu sou intrometido!

Segurando a risada, Sirius assentiu. Seus lábios tremiam, mas tentava não rir do amigo que parecia tão aplicado em sua explicação, fazendo gestos e caras e bocas. Não conseguia entender cada frase, mas conhecia James o suficiente para compreendê-lo no geral, sabendo como ele pensava. Era algo natural, ele nem precisava se esforçar

- Em algum momento, você pensou que poderíamos ter alguma pista, igual ao Mapa.

- Eu sou intrometido! - James confirmou novamente.

- Certo, vemos que não funcionou. Podemos usar aquele livro que pegamos o feitiço para o Mapa, mas ou esperamos a volta para Hogwarts ou teremos que ir até o Beco Diagonal.

James olhou para o relógio.

- Eu sou intrometido. - O moreno deu de ombros.

- Sim, teríamos tempo de ir. Então vamos. - Colocando as coisas dentro da maleta e a fechando, James a pegou. - Mas Prongs, por favor, deixa que eu falo. Não precisamos anunciar para todos que você caiu em um truque desse nível, ok? Não vamos manchar nossa reputação.

- Eu sou intrometido!

- Vai você!

Assim, os dois amigos partiram


Nada havia dado certo sobre a carta de Dumbledore e seu avô. Absolutamente nada. Os dois marotos foram duas vezes no Beco e uma na Travessa do Tranco desde ontem- e que seus pais não descobrissem isso -, então deixou melhor deixar de lado por um momento.

Naquele novo dia, ele tinha uma missão que, talvez, fosse ainda maior.

Apertou a campainha e uma sorridente Lily lhe encheu a vista segundos depois. Ela estava linda como sempre, em um vestido verde e cabelos em ondas.

- Você está…

- Linda, eu sei. - Ela brincou e o puxou para um beijo. - E você está mais lindo que o normal nessas roupas trouxas.

- Dificilmente eu fico feio, sabe.

Lily sorriu com uma sobrancelha levantada, mas pegou seu casaco e bolsa, e saiu da casa.

- Obrigada por estar indo nesse jantar comigo. - Ela disse enquanto andavam tranquilamente pela calçada em direção ao beco para aparatarem.

- Será um prazer.

- Não tenho tanta certeza.

James beijou a mão dela, aquela em que tinha entrelaçada com a sua. Se aquele jantar não fosse prazeroso para ela, ele faria questão de não ser para ninguém. Não estava em Hogwarts, mas poderia mostrar para uns trouxas ou outros que o primeiro apelido dos Marotos, que era *Os Merdosos* para muitos alunos, não era à toa.

- Mas a comida é muito boa, você vai gostar. - Lily continuou. Quando entraram no beco, ela parou e olhou para ele, um pouco desolada. - Mas me desculpe, pois esse é o nosso primeiro encontro juntos, como namorados. Merlin, que horror!

- Não é. Vamos considerar que é um reconhecimento do seu futuro cunhado. Como se estivéssemos em Hogsmeade para supervisionar alunos, juntos. Não seria um encontro.

- Certo. - Ela não parecia muito convencida. - Mas precisamos resolver essa pendência.

- Quando quiser. Amanhã mesmo, o que acha? Dois dias antes de acabar o ano de 1977, eu levarei Lily Evans para um encontro oficial estando juntos.

Os olhos verdes brilharam para ele.

- Seria ótimo.

James deu um beijo suave em seus lábios.

- Combinado. Agora, nos leve até esse restaurante. Eu mal posso esperar para encontrar com o super sortudo que conquistou sua adorável irmã.

Ele ofereceu o braço para que Lily os levasse. Aparataram suficientemente perto, entre algumas espessas árvores de um parque. Algumas pessoas pareciam desconfiar de um casal que saía do parque naquela hora, principalmente um cara com os cabelos despenteados e cheios de folhas, tentando arrumar os fios.

James começou a sentir o nervosismo de Lily apenas em como sua mão estava inquieta na sua. Queria saber o motivo da inquietação: se era por conhecer o cunhado que sabia que eram bruxos ou com a possibilidade de sua irmã agir como uma cavala bruta na frente de todos de novo. Mas respeitou o silêncio de Lily naquele momento, pois ela parecia precisar de tempo para lidar com aquilo.

Assim que passaram pela porta, não foi difícil encontrar o casal.

E Merlin, aquele homem era...como ele poderia dizer sem ser maldoso?... provavelmente não havia adjetivo. Mas ele tinha cara de quem queria botar aquele lugar abaixo e teria o total apoio de sua noiva.

- Ele parece horrível. - Ouviu a voz baixa de Lily.

- Só conferindo para ter certeza.

James não precisava de mais certeza do que seus olhos lhe davam, mas não diria aquilo para Lily.

Assim que foram avistados por Petúnia, James já sabia como seria o desenrolar daquela noite, pois estava claro na expressão da loira que ela não se deixaria levar por dois bruxos na frente do noivo.

Que começassem os jogos então.

- Boa noite. - disse uma sorridente Lily. Ela era boa demais para aquele mundo, pensou James.

O noivo levantou os olhos do menu e os encarou. Ele tinha um bigode bem respeitável e James imaginava que o pobre coitado ficava horas arrumando-o pela manhã apenas para tentar impressionar.

- Vernon, essa é Lily, minha irmã. - Petúnia se deu o trabalho de se levantar. - E esse é seu namorado, ahm…

- James Potter! - James a ajudou.

- Seu namorado, Sr. Potter. Bem, esse é Vernon Dursley.

- Prazer, sr. Dursley.

Lily ofereceu a mão para cumprimentar o homem e James apenas esperou aquele infeliz ignorá-la, já que ele de fato demorou, antes de lançar um olhar para a noiva e aceitar o cumprimento de Lily. James deixou o ar escapar, relaxando um pouco. Ele mesmo cumprimentou o tal Dursley e sentaram-se. Incrivelmente, ninguém se importou em cumprimentar Petúnia. James mesmo não iria cair naquela armadilha novamente, ainda que tivesse certeza que ela não deixaria de apertar sua mão na frente do noivo que havia aceitado fazê-lo.

- Devo dizer que é um prazer conhecê-lo, Sr. Dursley. Petúnia falou bastante sobre você em muitas reuniões familiares.

- Imagino que sim. - Vernon respondeu. O homem olhava de Lily para James, os estudando, seus olhos pequenos ficando ainda menores com aquele olhar minucioso.

Lily tossiu de leve, sorrindo um pouco sem graça.

- Pois é. Me alegrei bastante quando soube sobre esse nosso encontro. Eu queria muito finalmente me encontrar com o homem que roubou o coração da minha irmã.

Ah, Lily, pensou James. Você é realmente muito boa para esse mundo. Aquele cara parecia tão pouco interessado em conhecê-la, que James tinha que controlar o desejo de descrever o quão magnífica ela era, a bruxa extraordinária que se tornou, a mulher mais interessante daquele restaurante e de todos os outros. E queria que ele olhasse para a antipatia pura que era a sua noiva, que dava vontade de James subir até o gol do campo de Quadribol e se jogar lá de cima.

- Não poderíamos fazer de outra forma. - E ele continuava daquele jeito desinteressante e desinteressado.

A mesa caiu no silêncio. James poderia facilmente quebrar o gelo, mas achava que estava na vez de alguém do outro lado da mesa de fazer algum esforço. Mas claro que nenhum deles deu nem um passo para começar uma conversa.

Ele não entendia. Petúnia aparecia na casa dos pais para contar para a irmã que o noivo bigodudo sabia dela, queria conhecê-la e ficavam com aquela cara de mandrágora fora do vaso agora?

- Tenho certeza que Petúnia lhe disse, mas vínhamos muitas vezes aqui com nossos pais. - Lily tentou puxar a conversa novamente. Era a única que se esforçava ali e James percebia o quanto aquilo era importante para ela e o quanto não parecia ser para a irmã e o noivo.

- Não, ela não me disse. - Dursley respondeu e, então, soltou o que finalmente parecia engasgado desde o começo, sem enrolar nem um segundo a mais. - Então você é uma bruxa?

- Vernon! Fale mais baixo, por favor.

Aha! Ali estava o tópico que fazia com que aqueles dois abrissem as malditas bocas.

Lily se remexeu na cadeira com a pergunta. James continuava ainda com a sua observação, sentindo os ânimos e humores da mesa. Lily devia estar estranhando seu comportamento, já que ele era sempre alguém ativo em conversas, mas aquilo parecia importante demais para que ele agisse impulsivamente.

- Sim, eu sou. Nós somos. - Ela apontou para ambos. - Fico feliz que tenha ficado ok com a informação. Como Petúnia disse: você faz parte da família agora, então precisava saber.

Foi a vez de Petúnia se remexer na cadeira. James espremeu os olhos, atento para qualquer merda que saísse daquela boca na direção da irmã.

- Petúnia será a minha esposa agora e não há segredos entre nós. - Dursley desviou o olhar de Lily para James. - Eu conheço um Potter. Trabalhamos juntos há alguns anos atrás.

- Digo com toda a certeza que não é alguém da minha família.

- Vocês podem estar relacionados, mas bem distantes.

- E eu asseguro que não. Ele era um trouxa, eu imagino?

Vernon franziu a testa e Petúnia respirou fundo. Lily pareceu a única a não se importar.

- O que quer dizer com isso? - Vernon perguntou.

- Que ele não era bruxo. - James olhou para Petúnia. - Talvez sua noiva não o deixou a par da terminologia. Mas o seu conhecido devia ser um trouxa, pois não conheço e não tenho informação sobre nenhum Potter bruxo que esteve trabalhando em uma empresa trouxa nas últimas décadas. Quiçá séculos. Talvez milênios.

- O que James está tentando dizer, é que sua família é tradicional bruxa. Apesar de que se há uma família bruxa Potter e uma trouxa Potter, eles podem estar relacionados bem distantes.

- Havia mais de uma família Potter na Inglaterra. - James respondeu, se virando para a namorada. - Mas esse cara que o Sr. Dursley trabalhou não tem a ver com a minha família.

- E qual seria o problema em ter? - Dursley perguntou.

- Nenhum. Eu não poderia me importar menos em ter parentes trouxas. Eu não sou dessa estirpe de babaca.

James sorriu. Um sorriso passivo-agressivo e seus olhos desviaram leve e inocentemente na direção de Petúnia. Levou uma cutucada de leve de Lily embaixo da mesa, apesar de perceber um sorriso leve na namorada.

O tal Vernon Dursley. Ele, talvez, parecia mais bobo do que ameaçador. Se James relaxasse sobre Petúnia, poderiam se divertir. Talvez tirar uma com a cara desse cara...

- O que vamos pedir? - A ruiva perguntou com entusiasmo enquanto pegava o menu, tentando relaxar os ânimos. - Ah, eles ainda têm o preferido do papai.

Petúnia pegou o menu ao seu lado e o abriu rapidamente, conferindo-o. James colocou um braço por trás da cadeira de Lily e se aproximou, querendo conferir com ela. Vernon, que havia aberto o próprio menu, largou-o logo em seguida e tentou olhar por cima dos ombros de Petúnia.

- Qual é o seu favorito? - James perguntou para a namorada.

- Este. - A ruiva apontou para um prato. - Mas não é bem uma refeição de adultos, não é? Então acho que vou do especial do dia.

- Não existe essa coisa de refeição para adultos. Se você quer comer este, peça este. Eu não vou te julgar e ainda peço o mesmo. Me parece delicioso.

- Hm. - Lily olhou do menu para o namorado. - Você está certo. E eu tenho certeza que você não vai se decepcionar.

O maroto riu e deu um rápido beijo nela, enquanto a acariciava no ombro. Os dois olharam para frente, no mesmo momento que Petúnia e Vernon desviaram os olhares e voltaram para o menu rapidamente.

- Não estou surpresa. - Petúnia resmungou baixinho. James resolveu ignorar essa cutucada, já que a sua maravilhosa cunhada parecia estar se mordendo de inveja.

Faltava um pouco de tato da parte de Dursley com aquela Evans, ele podia dizer.

- Dursley, Lily me disse que você trabalha com Petúnia. Como foi esse maravilhoso encontro amoroso? - James perguntou relaxando na cadeira já que ele e sua namorada já tinham escolhido. Vernon levantou o olhar do menu de Petúnia.

- Foi bem romântico, na verdade. - O aperto de lábios de Petúnia, que ainda escolhia o seu prato, indicava outra coisa. - Foi irresistível, mais forte do que nós.

- Entendo. - James comentou observando os dois.

Não poderia dizer que era especialista em casais, mas na sua frente não parecia ver a fúria da paixão acontecendo. Não duvidava que deveriam gostar um do outro, claro...mas...parecia faltar algo.

Talvez fossem apenas reservados?

Olhou para Lily, que o olhou de volta, e ficou feliz em poder mostrar para todos o quanto aquela mulher linda estava fazendo-o feliz. Mesmo mal completando três dias que estavam oficialmente juntos.

- Então você teve aquela loucura de vê-la e ter certeza que era ela? - O maroto perguntou virando-se para Vernon.

- Claro. - Vernon respondeu com um pouco de pressa. - Amor à primeira vista, certo? - Os olhos de Vernon caíram em Petúnia, que sorriu um pouco sem graça.

- Claro. Com certeza.

- Almas gêmeas, talvez. - James comentou cutucando Lily inocentemente e riu.

- Almas gêmeas, com toda a certeza. - Vernon confirmou e colocou o braço por cima da cadeira de Petúnia, apesar de ter alguma dificuldade com o terno que parecia pequeno demais para os seus braços.

- Com toda a certeza. - James repetiu.

O atendente se aproximou da mesa e pegou o pedido dos quatro. Vernon demorou mais de cinco minutos escolhendo um vinho, comentando sobre cada um do cardápio e explicando por quê combinava ou não combinava com a escolha de comida de cada um. Ninguém parecia tão incomodado com aquilo quanto Petúnia. Lily parecia se divertir tanto quanto James com aquela tentativa de demonstração de superioridade.

No final, ele pediu duas garrafas diferentes, dizendo que não se importava em pagar por elas.

- Se não se importam com a minha indiscrição, percebi que chegaram atrasados. - Vernon puxou assunto logo após o atendente se afastar.

Agora Vernon Dursley pareceu ter adquirido certo interesse em conversar e James não estava gostando daquele toque apimentado no tom que usava.

- Chegamos? - Lily perguntou inocentemente, mas James ouviu o toque sarcástico flutuando para fora de sua boca. Ela também estava incomodada.

- Pois sim. - O homem confirmou.

- Eu pensei que tínhamos marcado para às 19h30 e chegamos aqui às 19:29. Eu mesma confirmei no meu relógio. - A ruiva respondeu, o tom ainda bem educado.

- Talvez o seu relógio esteja atrasado. - Petúnia quem respondeu dessa vez, parecendo feliz em retrucar a irmã.

- Ou talvez o seu esteja adiantado! - James, então, se intrometeu.

A tensão que vinha de Petúnia e James era tão forte e visível, que era quase como fumaça.

Lily limpou a garganta, rindo um pouco. Vernon apenas lançou olhares para a noiva.

- Bem, não importa. Mas estava a ponto de dizer algo, Sr. Dursley? - Lily se virou para o cunhado, ignorando os olhares de Petúnia para ela e James.

- Estava apenas me perguntando se não estava na hora do Sr. Potter trocar de carro. Talvez para algo mais potente. Qual carro possui? - Vernon sentou-se ereto, mexendo no bigode. - Mês passado, comprei um de última geração. Muito confortável, muito veloz, muitos cavalos. Não é mesmo, querida?

- Sim, absolutamente. Muito confortável, de fato.

James, com o braço ainda descansando atrás da cadeira da namorada, segurou alguns fios ruivos, brincando com eles, mostrando o quanto aquilo não o atingia.

- Ah, qual carro comprou, Sr. Dursley? - O maroto perguntou parecendo interessado, mas Lily conhecia o sarcasmo de James Potter.

- Aston Martin DB5. - Vernon estava muito orgulhoso ao dizer. Parecia que sua boca iria explodir de orgulho a cada palavra. No fim da frase, era como se sua cabeça inteira fosse explodir.- James Bond te diz algo, Sr. Potter? Quem não o conhece, não é mesmo? Pois consegui um ótimo preço nessa belezinha. 282 cv de potência às 5.500 rpm...nada mal, não é mesmo?

Petúnia quase pulava de excitação pelo noivo. James olhou para Lily e sorriu. A ruiva fez uma cara engraçada de quem não entendeu nada do que o cunhado dissera, mas não se importava nem um pouco.

- Me parece ótimo. - James respondeu. Aquele homem era hilariamente decepcionante. Mas ainda hilário.

- Creio que o seu veículo não conseguiria chegar a tal performance, ou não estariam atrasados hoje. - James sorriu, tranquilo. - Ao julgar pelo penteado, creio que deveria fechar as janelas. - O maroto continuou sorrindo. - Digo, qual mulher gosta de chegar no restaurante com os cabelos levemente esvoaçados?!

O sorriso de James fechou. Lily levou uma mão ao cabelo, querendo garantir que tudo estava bem. Os cabelos ruivos estavam impecáveis como sempre, o que esse idiota estava falando?

- Hmm. - James começou, se ajeitando em sua cadeira. - Saímos de Cokeworth um segundo antes de chegarmos aqui, então eu diria que nosso meio de transporte é levemente mais rápido que o seu. - O moreno forçou um sorriso educado. - Mas sobre o meu veiculo...ah, sobre ela eu teria muitas coisas a dizer. O senhor trabalha em um escritório, certo? Talvez não entenda muito de aerodinâmica, mas tentarei ser o mais claro possível, então não se preocupem.

Lily revirou os olhos disfarçadamente, mas divertidamente. Agora que Vernon Dursley decidiu entrar naquele assunto, ele teria que aguentar James despejar todo o seu conhecimento sobre vassouras e suas performances.

- No momento, a minha Nimbus 1500 está atualizada e ótima, mas conheço os rumores da Nimbus 1700 chegando. É nela que estou focado agora, mas talvez não saia antes de Fevereiro. Assim como a Nimbus 1000 e 1500, ela trará o grande ponto alto de poder girar 360° no ar, mas com a nova aerodinâmica, permitindo uma linha de corrente...

Vernon tinha a boca levemente caída, os olhos completamente confusos. Petúnia olhava do maroto para Lily, parecendo perguntar-se o que estava acontecendo. Lily apenas olhava para o namorado, nunca estando tão feliz por ele, vendo-o falar sobre coisas tão complicadas de aerodinâmica e física em geral, coisas que ela nunca imaginaria sair da boca de um bruxo. Aparentemente, os donos de vassouras e as empresas tinham que estudar bastante sobre aquilo, o que fazia sentido, já que o ar era algo que bruxos e trouxas deveriam aprender a lidar.

- ...de qualquer maneira, não costumo usar a vassoura para deslocamentos, ou não para longas distâncias. Aparatação é o mais rápido e seguro, já que não interessa se está chovendo, nevando ou um sol de rachar a cabeça ao meio. Mas não, um carro não me interessa. Alguns bruxos gostam de modificá-los para se misturarem com trouxas, mas não vejo graça. - James pareceu se lembrar de algo e se virou para Lily. - Você não sabe que Sirius tem uma moto!

- Sirius tem uma moto? - Ela repetiu, surpresa.

- Sim. Ela é bem legal, ele a modificou. - James se aproximou dela como se fosse contar um segredo. - Ela voa.

Lily deixou a boca cair.

- Sirius Black tem uma moto e ela voa?! Por que estou sabendo disso só agora? Eu adoraria dar uma volta.

- Eu aposto que ele adoraria te levar. Antes de voltarmos para Hogwarts, vamos fazer isso acontecer.

A felicidade tão fácil no rosto dela apenas por uma volta de moto com Sirius deixava James tão absurdamente feliz, que nada mais parecia importar. Ele se virou para frente e encontrou o outro casal completamente deslocado, os narizes levemente tortos por toda a conversa que presenciaram.

Antes de qualquer reação ou comentário, o atendente voltou com o pedido de todos. Petúnia e Vernon tinham um elaborado prato, James e Lily pareciam os mais felizes do mundo com seus pratos ordinários, com muitas batatas fritas. Vernon fez questão de servir a todos com o vinho caro que ele fez questão de frisar mais uma vez, tentando falar sobre a produção complexa daquela vinícola francesa. Até Lily perceber na garrafa que era um vinho italiano e não francês, mas preferiu não comentar.

Eles começaram a comer tranquilamente, ocorrendo algum comentário aleatório ou outro, na maior parte do tempo entre noiva e noivo e namorada e namorado, não entre os casais.

- Desculpe, Sr. Potter, eu não queria comentar, mas isso ficou na minha cabeça por longos minutos…- Vernon chamou a atenção de todos. Lily parou de cortar sua carne e olhou para Vernon. Era como se ele e Petúnia fossem uma pessoa só, fazendo Lily sentir a afronta saindo dos poros daquele homem. Nada de bom viria daquele momento adiante. - Mas vassouras? Este é o seu veículo?

James riu. Ele levou seu tempo para mastigar antes de responder. Enquanto isso, Lily se permitiu responder.

- Vassouras são ótimos meios de locomoção. São muito confortáveis, especialmente se você tem alguém com você e que sabe o que está fazendo. - Ela lançou um olhar para o namorado, que piscou para ela. - Além de ser barato, convenhamos. Não há toda a manutenção de um carro ou o combustível e…

- Ainda há muita manutenção. Você não me vê perdendo horas com ela no vestiário ou no campo.

Um som de compreensão vindo de Vernon chamou a atenção dos outros três na mesa. Ele mexia naquele bigode ridículo e irritante, um sorrisinho de escárnio. Ele levou um pedaço da sua carne até a boca e mastigou, contemplando a rua pela janela e parecendo feliz com o que pensava.

- Gostaria de compartilhar seus pensamentos? - Lily perguntou um pouco mais fria, começando a demonstrar que suas perguntas por educação estavam chegando ao fim do estoque.

- Talvez não seja o ideal. Um assunto tão delicado não deveria ser discutido assim.

- Não somos tão delicados assim, querido Vernon. - Disse James usando o primeiro nome do homem pela primeira vez. - Vamos lá, eu vejo que tem algo rondando sua cabeça sobre as vassouras.

- Há coisas que não valem a pena conversar. - Petúnia, que mais parecia uma decoração no jantar do que qualquer outra coisa, finalmente disse depois de tantos minutos.

Aquilo estava estranho, pensou Lily. O que o querido Vernon Dursley teria a dizer sobre vassouras? Vassouras bruxas, no caso? Tinha certeza que ele nem pegava em uma para varrer algo que derrubara, imagina para limpar uma casa ou mesmo para varrer sua mania de superioridade para debaixo daquele bigode horrível.

Olhou para James e prestou atenção em seu rosto, na barba que ele já tinha e que o maroto parecia não estar interessado no momento, a tirando todas as manhãs. Já o viu com ela uma vez, lhe dava um rosto mais maduro, mas tinha a impressão que ele não queria muito mostrar toda aquela maturidade para o mundo ainda. Para o mundo, ele ainda queria ser o maroto e ela nunca o julgaria por isso, pois sabia o quanto ele carregava em seus ombros já naquele estágio e não queria que o seu James perdesse aquele lado tão maravilhoso por conta dos problemas ou de uma maturidade avançada e precoce.

Terminaram o jantar no mesmo silêncio de antes, com os mesmos pequenos comentários aqui e ali. O casal mais velho dispensou a sobremesa, enquanto o mais jovem pediu o maior sundae do restaurante para dividirem. Aquela cena parecia não agradar Petúnia, vendo-a segurar para não revirar os olhos quando assistia James e Lily dividirem a sobremesa com uma grande felicidade.

- Não precisavam pedir apenas uma sobremesa. - Petúnia colocou para fora o que parecia incomodá-la. - Era perfeitamente aceitável pedir dois sundaes.

- E qual seria a graça? - James perguntou inocentemente levando uma grande quantidade de sorvete à boca.

- Evitaria essa cena. Parece que não temos dinheiro para pagar pelo jantar. - A loira reclamou baixinho a última frase, olhando para os outros clientes do restaurante que estavam perfeitamente tomando conta de seus problemas, nem um pouco preocupados com dois adolescentes dividindo uma sobremesa grande.

- Você é a única a pensar isso. - Lily respondeu. - Não vejo ninguém incomodado.

- Pois eu estou. - A irmã voltou a reclamar.

- De fato, não havia necessidade de dividirem a sobremesa. - Vernon disse. - Não se preocupem, eu pagarei a conta. Sei que viver de subsídios de desempregados não deve ser fácil, mas poderiam ter nos avisado.

- Perdão? - James perguntou soltando uma risada pelo nariz. - Quem lhe disse que alguém aqui vive de subsídios de desempregados? Aliás, qual seria o problema se fosse o caso?

- Nenhum problema, mas pagar por uma refeição cara assim deve ser pesado. Por isso digo: não precisavam dividir a sobremesa, já que eu estarei pagando pelo jantar. Assim, isso lhe permite, talvez, guardar dinheiro para a manutenção de sua vassoura.

James e Lily se entreolharam, sem acreditar no que ouviam.

- Voce é muito gentil, querido. - Petúnia colocou uma mão no ombro do noivo, o parabenizando.

- Veículos devem ser muito caros no mundo bruxo para viverem de vassouras. - Vernon deu de ombros. - O governo bruxo ajuda neste caso também?

James deixou o sundae de lado e cruzou as mãos na mesa. Lily não via raiva em sua postura ou olhar, mas algo o incomodava enormemente. Diria que James não estava sentindo-se ofendido por sua própria condição, mas pelas merdas que saíam da boca de alguém que acabaram de conhecer e que poderiam ofender qualquer outra pessoa. Com certeza, Lily sentia-se assim. Era perto de pena.

- Conhece Gringotes? - O maroto perguntou.

- Eu receio que não. Esse é o nome do programa de ajuda? - Vernon tinha aquele olhar de alguém que via os outros de cima. Lily olhou para Petúnia, começando a ficar terrivelmente triste por ver onde a sua irmã estava indo.

E o pior: o olhar da irmã espelhava o de Vernon Dursley. Se seus pais estivessem ali, não poderia dizer o quanto aquilo os decepcionaria. O que acontecia com a sua irmã?

- Não, é o banco bruxo.

- Onde você pega empréstimos?

- Você pode, claro, mas onde você deposita e guarda sua fortuna também. - James sorriu, parecendo leve. Ele não parecia levar Vernon Dursley tão a sério, não tanto quanto ela o levava por ser o futuro marido de sua irmã. - Podemos dizer que a família Potter tem um singelo cofre por lá.

Vernon deu uma risada pelo nariz e parou, olhando para a noiva, depois riu de novo. O homem parecia não saber o que dizer.

- Claro. Nos bancos trouxas, ricos, classes médias e pobres possuem contas nos mesmos bancos também. Uma prática normal, todos devem ter um lugar para colocar seus trocados.

- Exatamente. A fortuna Potter é guardada lá, em ouro.

- Ouro?!

- Sim. Ouro e galeões, claro. A família Potter também guarda um pouco de libras, já que fazemos algumas transações com o mundo trouxa, mas deve rondar os 300 mil, máximo. Não é sempre que fazemos essas transações e ter mais do que isso em libras é desnecessário para nós, então guardamos a grande parte em ouro e galeões. - James tomou um gole de vinho no fim de sua frase.

Lily nunca havia conversado sobre isso com James antes e ela sabia o quanto sua família era rica, mas ouvir aquilo era um pouco chocante. Ele nunca foi de se gabar de sua fortuna.

- Isso é ridículo! - Vernon quase gritou e levantou de sua cadeira, assustando a todos ao redor. - Viemos aqui para conhecê-los, dar-lhes essa oportunidade de nos mantermos civilizados, mas vejo que é impossível com alguém que não leva nada a sério, inventando coisas apenas por não conhecermos o seu mundo.

- Nada a sério? - James perguntou largando o seu vinho. - Quem estava brincando à beira do ridículo sobre isso, foi você.

- Eu sinto muito se sentiu-se humilhado por não ter dinheiro, não era necessário começar com brincadeiras assim enquanto eu apenas queria ajudar. - Apesar do "sinto muito", Vernon parecia longe de sentir qualquer coisa além de indignação. - Eu ofereci para pagar o jantar e é assim que sou agradecido? Sendo feito de palhaço?

James se levantou. Vernon se esticou ainda mais, tentando ficar quase do mesmo tamanho do maroto, o que não seria possível já que James era quase dez centímetros mais alto.

- Não é necessário pagar o jantar. - James colocou a mão no bolso e puxou uma nota de 50 libras.

- Isso não daria para pagar nem os vinhos que pedi. - Grunhiu Vernon.

- Está vendo essa nota? - James fez um gesto rápido com os dedos, fazendo a nota única de 50 libras virarem duas notas. - Quer ver mais? - Com um outro gesto, outra nota apareceu. E depois novamente. - Ah, eu soube uma vez desse velho truque dos trouxas… - O maroto se aproximou e levou sua mão até o ouvido esquerdo de Vernon, tirando dali mais duas notas de 50 libras.

Sem perceber, Vernon levou a mão até o ouvido como se quisesse tirar um inseto dali.

- Ah, acha que pode replicar uma mágica tão elaborada quanto essa? - James riu. - Mas se ficou espantado com isso, veja o que posso tirar do lado direito.

James levou sua mão na orelha direita de Vernon e tirou uma nota de 100 libras.

- Pare com isso! - Vernon pediu sem paciência.

Parecendo quase sem paciência quanto Vernon, James jogou o bolo de libras na mesa, muito mais do que era necessário para o jantar todo.

- Como pode ver, não é necessário que pague o jantar. Vamos deixar essa por minha conta e evitamos que use o dinheiro para a manutenção do seu carro, aquele mesmo que encontrou por um preço tão bom.

Petúnia se levantou, fazendo Lily levantar-se também.

- Isso é o que as aberrações fazem, eu não deveria estar surpresa.

- Tuney, por favor. - A ruiva pediu. Aquilo estava indo pior do que ela imaginava. Deveria ser uma chance para se reconectarem, tentarem mais uma vez uma irmandade pura, sem brigas. Ambas tinham encontrado alguém que amavam, Sr. Dursley até sabia que era uma bruxa. - Por favor, vamos nos sentar, conversar.

- Eu dispenso estar na companhia de...de…- Petúnia olhou James de cima a baixo. - De vocês. Vernon quer apenas ajudar, ele não brincou com vocês em momento algum.

- Nós não brincamos com vocês também.

- Não, apenas fazendo esses truques de duplicar notas falsas para tentar impressionar. - Vernon olhou para o dinheiro jogado na mesa. - O senhor não deve passar de um mágico fajuto, amador. Toda essa conversa sobre vassouras, bancos bruxos…- Vernon olhou para a noiva, não querendo continuar a frase. - Vamos embora, Petúnia.

Vernon deu as costas e se dirigiu à saída. Petúnia olhou para Lily, não escondendo o desgosto para qualquer um que quisesse ver.

- Ilusão pensar que você poderia melhorar, Lily. No final, só encontrou alguém tão decepcionante quanto você. - James iria responder, mas Lily segurou seu braço, o impedindo. - Estou feliz que eu tenha encontrado alguém para continuar a minha família, pois continuar com você seria impossível.

A loira se virou dramaticamente, fazendo seus cabelos voarem com violência, e saiu atrás do noivo.

As lágrimas vieram sem nenhum tipo de aviso. Lily caiu na cadeira e tampou o rosto, deixando o choro silencioso a tomar por inteiro. Aquilo havia sido um desastre completo. Petúnia e ela...aquilo estava perdido para sempre. Nunca recuperaria sua irmã, não aquela amorosa e doce Petúnia de quando eram pequenas. Agora era Petúnia, a mulher cheia de rancor, inveja e asco. Ah, e com um noivo tão horrível quanto ela. Agora que as coisas só iriam por ladeira abaixo, pois a irmã nunca se colocaria contra Vernon Dursley, isso estava claro. Petúnia encontrou, literalmente, sua alma gêmea.

- Lils…- A voz de James ao seu lado parecia carregada de culpa. Ele colocou uma mão em suas costas. - Me desculpe. Foi minha culpa, eu não deveria ter falado aquilo, mesmo que tenha sido um pouco na brincadeira.

- James, esse jantar foi horrível.

- Eu sei. - Ele suspirou. - Me desculpe. Eu prometo me retratar com o Sr. Dursley assim que o ver novamente. Acho que ele iria apreciar, assim como a sua irmã.

Lily meneou a cabeça. Aquilo não serviria para nenhum dos dois, não caso Durley fosse igual à Petúni. E ele parecia ser.

- Você se deixou levar um pouco pela pressão no final, mas não foi você quem destruiu esse jantar. Não sozinho...fomos todos nós. E mesmo nós dois sendo os mais pacíficos, não estávamos com a bandeira branca levantada, não é? Era uma guerra pronta para ser iniciada.

Levantando o rosto e enxugando as lágrimas, Lily se esforçou para se recuperar. Não podia e não queria ser deixada levar pela maldade daqueles dois. Ela não queria que as coisas fossem daquele jeito e queria ter tido um jantar agradável, mas seu inconsciente já sentia a tensão desde o começo. James era correto em pedir desculpas por sua parte, mas ele não havia sido o único a errar ali e ele não seria o único a pedir perdão por isso tampouco.

Quando se virou para o namorado, viu que a culpa tomava seu olhar.

- Eu não queria te fazer chorar. Essa é a última coisa que eu gostaria de fazer na minha vida. - Ele disse. Lily o beijou levemente.

- Você não me fez chorar. - Ela sorriu ternamente. - Desculpe por te trazer e te proporcionar esse momento maravilhoso. - James meneou a cabeça, não querendo que ela se desculpasse, mas Lily colocou um dedo em seus lábios e continuou. - Que tal terminarmos esse sundae e irmos para casa depois? Eu não quero desperdiçar essa sobremesa tão cara.

Ela arrancou um sorriso de James, que se voltou para o sundae e entregou a colher dela, pegando a dele logo depois.

- Quem diria que um sundae seria o estopim de uma guerra? - Ele comentou.

- Será que Voldemort era apenas um garotinho sem o seu sundae no final de uma refeição? - Ela brincou dando uma bocada em sua colher.

- Honestamente, eu não ficaria surpreso.

Com as lágrimas secando e um sundae delicioso - ainda que seja perigoso o bastante para gerar discussões -, os dois terminaram a sobremesa, pagaram a conta e saíram do restaurante. E apesar das boas memórias que teve com seus pais, Lily pensou que gostaria que fosse sua última vez ali.


Com toda aquela loucura do fim de 1977, Lily estava pronta para 1978. Pronta para um novo ano, para trazer todas as coisas boas para ele e deixar as ruins para trás.

Tanta mudança, tantas coisas boas. Outras nem tanto, mas precisava focar nas boas agora. Elas eram tão importantes quanto o perigo que corria, pois sem elas, esqueceria de seguir em frente quando as coisas ruins chegavam.

Depois daquele desastre de jantar com o futuro casal Dursley, James a levou para um jantar na noite seguinte como um verdadeiro encontro para eles e Lily nunca ficara tão feliz em comer pipoca e waffles de chocolate no parque quanto naquela noite. Era tudo tão facil e tranquilo com ele. Adorava o olhar que trocavam, as palavras doces, os toques gentis e tão significantes. Aquilo era o que contava para ela agora e não mais xingamentos, desdém e inveja.

Então foi convidada para passar a virada de ano com ele. James disse que viria em torno das 20h para pegá-la e faltavam cinco minutos. Ficaram dois dias sem se ver e mal podia esperar para encontrá-lo, por mais bobo que aquilo soasse. Deu tempo de passar um batom e descer as escadas para esperar pela campainha, mas não foi a campainha e nem mesmo o alarme dos cachorros que a alertou de alguém se aproximando.

Foi o ronco de uma moto.

Uma buzina logo em frente da sua casa confirmou que a pessoa chamava por ela. Abriu a porta da frente e teve a maravilhosa surpresa da noite. Talvez a última do ano?

Sirius estava sentado em sua moto. Uma jaqueta de couro bem presa em seu corpo, botas e calças escuras e um sorriso de fazer qualquer pessoa morrer de coração compunham o seu visual. Sirius Black era muito bonito para o seu próprio bem e Lily não entendia como Marlene não estava trancada em armários de vassoura com ele.

- Hey gatinha. O que acha de uma volta comigo? O seu namorado não precisa saber. - Ele disse cruzando os braços.

Pegando sua bolsa e lançando todos os feitiços na casa, ela saiu super empolgada. A moto era linda e, aparentemente, normal. James havia dito que ela era modificada, mas Lily nunca diria que existia algo diferente.

- Eu terei a chance de andar na moto de Sirius Black? Quanto isso irá me custar? - Ela disse ao se aproximar dele.

- Muito. Mas quem pode sair perdendo é James. Quando ele pediu para eu te levar para uma volta, eu disse que não me responsabilizava por paixões avassaladoras que algumas pessoas poderiam sentir por mim.

- Você está bem certo. O que será de mim, apaixonada por Sirius Black, com tantas outras pessoas na mesma situação?

Sorrindo diabolicamente lindo, Sirius ofereceu a sua mão para que Lily subisse atrás de si. Não sabia para onde estava indo, mas tinha certeza que seria uma das experiências mais legais da sua vida. Afinal, estávamos falando de uma moto que podia voar.

- Eu estou aberto em te dar uma chance. - Ele respondeu. O maroto segurou seus joelhos e puxou Lily para grudar seu corpo no dele. Se ele fosse mesmo alguém que estivesse desejando, apenas aquela puxada em sua perna a faria derreter. - Não me entenda mal. Estávamos brincando de flertar, mas eu preciso ter você segura aí atrás. Então trate de se segurar em mim como se eu fosse a sua salvação, porque a minha vida depende de você chegar inteira no nosso destino.

Sem pestanejar, Lily abraçou a cintura de Sirius com força. Ela também não estava muito interessada em cair.

- E qual é o nosso destino, aliás?

- Godric's Hollow!

A moto roncou quando o maroto a ligou novamente. Seu estômago deu uma leve revirada, mas mais pela excitação do que por medo.

Com todo o barulho desconhecido na vizinhança, alguns curiosos olhavam pela janela, alguns outros levavam o lixo para fora, outros nem disfarçavam e apenas saíam de suas casas para conferir quem era o dono da moto.

Com toda aquela atenção, Sirius apenas acelerou e partiu da casa dos Evans como se fossem apenas duas pessoas normais.

- Onde fica Godric's Hollow? - A ruiva perguntou quando viraram na rua.

- Um pouco mais ao sul. Em uma hora devemos estar lá.

- Uma hora de moto não é muito longe.

Viraram em uma rua tranquila e vazia. Sirius olhou para todos os lados.

- De maneira trouxa, não. Mas voando sim. Segure-se!

No segundo seguinte, a moto apontou o nariz para o céu e as rodas saíram do chão. As mãos de Lily se fecharam com mais força em Sirius enquanto o seu estômago parecia confuso sobre revirar de emoção ou de receio. Eles continuaram a subir cada vez mais, as casas ficando menores a cada segundo, as nuvens se aproximando. Passada a surpresa, Lily conseguiu relaxar para curtir o momento. Voou algumas vezes com James, mas nunca tão alto quanto agora. Estavam muito mais altos do que a Torre da Astronomia.

Certo, aquilo podia ser um pouco assustador.

- Não olhe para baixo, mas para frente. - Sirius comentou ao perceber que Lily parecia ficar instável.

Lembrou-se de James dizendo algo parecido quando estavam escapando do aniversário do próprio Sirius para uma volta de vassoura. Tinha que subir no alambrado do pequeno terraço e olhar para baixo lhe dava quase tontura.

- Mais fácil falar do que fazer.

- Então vou te distrair, eu estava mesmo querendo conversar com você há alguns dias, Lily Evans.

- Oh-oh. O que isso quer dizer?

- Bem…- Ele começou. - Você está namorando o meu irmão e até agora eu não ouvi quais são as suas intenções com ele.

Ela riu.

- As piores possíveis, sempre. - Respondeu.

- Em qual sentido?

- No bom sentido.

Aquilo não tinha sentido, mas teve a impressão de que eles se entenderam.

- Certo. Vou considerar isso como se você não estivesse tirando com a cara dele ou que você não está procurando apenas um cara para aproveitar suas férias. - Ele fez uma pausa e virou o rosto para ela. - Correto?

- Você acha que eu estou nessa apenas para ter alguém durante as férias?

- De jeito nenhum, mas eu preciso confirmar.

- Por que? Eu estou dando sinais contraditórios?

Sirius desacelerou um pouco. Apesar do vento e do ronco da moto, era tão silencioso ali em cima. Entendia a razão de tantas pessoas gostarem de voar: no alto, você podia encontrar paz.

- Não. Eu quero saber, porque James não está nessa apenas para as férias.

No momento, Lily era namorada de James. Eles já se beijaram inúmeras vezes, eles se declararam um para o outro, dormiram - uma única vez - juntos. Poderiam dizer que o primeiro estágio havia sido completado até agora, prontos para partirem para todas as outras experiências juntas que teriam pela frente. E ainda sim, ouvir aquilo de outra pessoa fazia seu coração disparar.

- Eu também não. Eu amo James e eu não espero voltar para Hogwarts e deixar isso de lado.

Sirius virou para ela com um sorriso enorme.

- Cacete, Lily! Você não sabe o quanto eu esperei ouvir isso de você. - O maroto se virou para frente novamente, parecendo tão feliz quanto ela. - Merlin que nos acuda, porque James Potter vai ser o cara mais feliz de toda a existência.

- Eu espero que sim.

O voo pareceu até menos ameaçador agora. James virara uma espécie de amuleto da sorte, algo que lhe deixava calma, segura e pronta para enfrentar qualquer coisa. Não dizia fisicamente, querendo que ele fosse o cara que chegasse com o seu cavalo branco para lhe salvar - mesmo sabendo que James não hesitaria, assim como ela nunca hesitaria em salvá-lo também -, mas era a paz que ele lhe trazia. Muito mais do que estar ali em cima, voando.

- Então se não for muito te pedir isso, caso você decidir quebrar o coração dele, me avise antes. - Sirius cortou seus pensamentos. - Porque você iria, realmente, quebrar o coração dele e eu prefiro estar preparado para isso.

- Eu não me vejo quebrando o coração dele, Sirius. Não se ele não quebrar o meu.

- Ah Lily Lily. O seu coração está bem guardado com ele. - Novamente, ele se virou para a ruiva. - James sendo o cara mais feliz da existência, te fará a mulher mais feliz da existência também.

Não pôde não sorrir.

Ela já era.

E agora Lily percebia que uma hora de moto até poderia não parecer muito, mas com Sirius era o bastante para uma noite, com toda a certeza. Ela não sentia frio graças a magia, estava confortável e voar era maravilhoso. Mas Sirius era louco. Após aquela conversa em que ele parecia tomar conta dos melhores interesses de James, parecia que não era o suficiente.

Alguns minutos depois, ele resolveu voltar no assunto e perguntar se Lily diria sim caso James a pedisse em casamento. Não era necessário dizer que ela quase escorregou da moto, tendo que recobrar a sanidade depois daquela pergunta. Quem em sã consciência pergunta isso quando eles mal se tornaram namorados? Quem em sã consciência pergunta isso quando Lily estava em uma moto e voando quase tão alto quanto as nuvens?

- Eu preciso saber, marcar no meu caderno o que devemos trabalhar juntos. - Ele respondeu quando Lily o questionou.

- Temos coisas a trabalhar juntos? Nós dois?

- Claro, se houver obstáculos. Você aceitaria ou não?

- Sirius, eu me recuso a responder isso.

A moto parou de acelerar, o ronco silenciou...parecia que Sirius havia desligado a moto. O maroto virou para trás.

- James Fleamont Potter é material de casamento. O cara é bonito, louco por você, encontraria o segredo da paz mundial por você…

- Sirius, você desligou a moto? - Ela perguntou com a voz trêmula.

- ...e você não me responde se casaria com ele?

- A moto, Sirius.

- A moto está bem. Me diga: você realmente faria isso com ele?

Ela segurou os ombros dele, que estava quase sentado de lado para encará-la, e o chacoalhou.

- Liga essa moto! A gente vai cair.

- Talvez, mas estou esperando a sua resposta.

- Eu não posso responder isso, ainda mais sob pressão. Liga essa moto, Black.

Sentia que perdiam altura. Era bem devagar, quase imperceptível.

- Imagina a cena: James ajoelhando na sua frente, um anel bonito estendido…

- Merlin, você tem o mesmo problema de Marlene com essas histórias…- Agora o nariz da moto já virava para baixo. Era assim que morreria? Em uma discussão com Sirius Black nas alturas sobre casar com James Potter? - Sirius Black, liga essa moto!

- Você preferiria algo menos comum? Algo mais especial? Um pedido na frente de Hogwarts? Você aceitaria, certo?

O vento quase impedia as palavras dele chegarem até ela.

- SIM! SIM, INFERNOS. EU ME CASARIA COM JAMES. LIGA ESSA MALDIÇÃO DE MOTO!

Com o seu desespero, Lily não percebeu o sorriso empolgado de Sirius. Ele finalmente se virou e ligou a moto, recobrando o controle e a altura. O coração de Lily estava em sua boca, ela quase queria vomitar.

- Só para você saber, eu liguei o sistema de antiqueda. Isso quer dizer que a moto iria planar quando estivesse a cinco metros do chão. - Disse ele.

Ela ainda tentava recuperar sua sanidade enquanto engolia aquelas palavras. Aquele desgraçado!

Respirando fundo para recuperar o fôlego também, ela voltou a segurar a cintura de Sirius como antes.

- Só para você saber, eu diria sim para James mesmo sem o seu terrorismo nessa moto.

Ela ouviu a risada dele se perder ao vento.

- Essa é a minha Lily Evans! Por conta disso, vou deixar você pilotar o caminho restante.

Ah! Aquilo seria uma ótima ideia ou a pior ideia de Sirius Black.

J~L

O céu continuava parcialmente encoberto, algumas estrelas podiam ser vistas, a lua completamente escondida.

E vazio. Nem uma moto chegando, nada.

James cruzou os braços e continuou em sua posição: ao lado da porta, os olhos não deixando o céu por um segundo. Não estava ali por tanto tempo, sabendo que Cokeworth não era exatamente ali na esquina, mas cinco minutos já eram o suficiente para que começasse a ficar impaciente.

Os outros amigos já começaram a beber e comer dentro da casa. Não era para ser um jantar formal, mas uma festa de fim de ano para não morrer de sede, tédio e fome. Era a primeira festa que dava na sua casa. Sua casa, não a dos pais, não na sala comunal...não. A sua própria casa.

Já estava se acostumando com a ideia. Por ser um lugar onde já era acostumado desde criança, não parecia mudar muita coisa na sua cabeça. Para falar a verdade, o que continuava a bicar em seus neurônios era a maleta de seu avô e aquela carta para Dumbledore. Não achou o livro que precisava para quebrar o feitiço, e ficar 24h apenas repetindo "Eu sou intrometido" foi o suficiente para não testar qualquer outra coisa na carta novamente.

O problema era que seu avô era muito engenhoso. Talvez nem um feitiço era preciso, mas algo a mais...algo diferenciado para poder ver o conteúdo. E James não deixaria de tentar ver aquele conteúdo, porque era óbvio ser muito importante.

O ronco da moto começou a encher o silêncio da noite ali fora. O maroto começou a procurar entre as nuvens, mas deviam estar longe ainda.

Lily devia estar feliz com aquela surpresa simples. O brilho de curiosidade em seus olhos ao saber que Sirius tinha uma moto trouxa modificada foi tão puro, que não podia não pedir para o amigo lhe dar essa experiência. James sabia qual tinha sido a alegria em ter andado naquela moto pela primeira vez, mesmo sendo tão acostumado a voar. Era uma experiência toda diferente, com todo aquele aparato e lado trouxa envolvido.

Uma sombra saindo das nuvens chamou sua atenção, fazendo-o descruzar os braços, ansioso.

Espera. Por um segundo, sua alma saiu do corpo e voltou.

Aquela era Lily pilotando a moto?

Cinco segundos depois, pôde confirmar: era Lily pilotando a moto de Sirius.

Merlin, ele matava Sirius ou lhe dava um abraço? Não sabia qual dos dois soava melhor naquela situação.

Assistiu enquanto Sirius parecia guiá-la para descerem tranquilamente. Lily parecia estar delirante de felicidade enquanto pilotava, ouvindo com atenção as instruções de Sirius. Ambos pareciam bem concentrados no que faziam, já que nenhum deles parecia ter reparado em James ali embaixo, esperando. Se não fosse o seu melhor amigo e praticamente seu irmão ali, segurando no guidão da moto e tão colado na sua namorada, ele não acharia aquela cena tão legal quanto agora.

- Agora aperte de leve o freio esquerdo. Um pouco mais…

As duas rodas encostaram no chão e a moto vacilou por um momento. Não era fácil deixá-la em pé após um pouso se não estava acostumado. E se você nunca tivesse andado de moto, mais difícil ainda. Então não era novidade vê-los quase cair, mas sendo salvos por Sirius que pegou totalmente o controle da moto e os parou.

- Isso foi... fantástico! - A voz de Lily estava aguda de felicidade.

- Meu passeio de vassoura ficou para trás agora. - James comentou se aproximando e chamando a atenção dos dois.

- São experiências completamente diferentes. - Ela respondeu. Ali estava aquele brilho nos olhos verdes novamente.

Sirius merecia um abraço, no final das contas.

- Sua namorada está afiada, Prongs. Eu posso deixar a moto com ela a qualquer momento.

- Eu adoraria.

Merlin, esses dois juntos não iria dar certo. E o pior: nas presentes circunstâncias, não sabia quem iria levar o outro para o mal caminho.

Preferindo não responder sobre Lily solta pelo mundo na moto de Sirius, ele se aproximou e ofereceu sua mão para ajudá-la a descer. Agradecida, ela aceitou.

- Obrigada, Sirius. Foi perfeito. Tirando quando você quase nos matou.

James apenas olhou para o amigo. Sirius deu de ombros.

- Ela pediu o pacote "com emoção". - O maroto disse enquanto descia da moto. - Agora, onde estão todos? E quando eu digo todos, isso inclui a comida e a bebida.

Sirius entrou na casa, deixando os dois sozinhos em frente da Potter Cottage. Era a primeira vez de Lily por ali e a ruiva olhava ao redor, curiosa.

- Então estamos em Godric's Hollow?

- Sim. - James respondeu e não resistiu em dar um beijo em Lily. - Dois dias sem te ver...parece pouco para alguns, mas eu mal podia esperar por hoje.

Lily o abraçou pelo pescoço e o beijou uma vez mais.

- Eu também. Desculpe por sumir, mas não falta muito agora para eu resolver sobre a casa. Preferi fazer o meu máximo e poder aproveitar essa noite com todos vocês. Com você.

- Se esse é o seu desejo, então é o que terá. - Ele a abraçou mais forte. - Todos os seus desejos serão atendidos.

- Isso é uma promessa? - Ela perguntou aos sussurros.

- Uma promessa marota.

- Hm. Soa importante. - Ela sorriu.

- É muito importante.

Ele a beijou de novo, querendo matar aquela vontade dos beijos dela, de Lily. Foram dois dias infernais, quase sem cartas, quase sem notícias. A felicidade dessas 48h sem Lily, foram os patronos que recebia esporadicamente. Podia ouvir sua voz, apesar de não vê-la, então agradecia seu pai toda vez por ter ensinado aquele tipo de comunicação. As corujas de ambos também agradeciam.

- Isso não é fofo?

Marlene e Alice estavam paradas na porta. James segurou Lily ainda mais forte, fazendo-a tímida. Suas bochechas ficaram em um tom rosado.

- Quanto tempo achávamos que isso demoraria a acontecer, Lice?

- Torcíamos para que fosse mais cedo, mas hey…ainda estamos em 1977, então acho que é válido.

Com um beijo nos cabelos de Lily, James a soltou e foi em direção a casa.

- Nisso, eu retiro minha culpa. - Ele disse ao passar pelas duas grifinórias.

- Você era um idiota, então tem culpa sim. - Marlene retrucou. James parou seu caminho.

- Eu era um adolescente idiota, sim. Mas eu tentei, não tentei? - Ele lançou um olhar rápido para Lily antes de voltar para Marlene. - Mas para minha sorte de hoje e azar de antigamente, eu me apaixonei por uma mulher inteligente e boa demais, que soube o timing certo para nós.

Ele entrou na casa.

Lily sentiu seu rosto esquentar sob os olhares das amigas. Aquele típico olhar de "nós te avisamos" misturado com "hmm, o que tem para nos contar?". Elas já sabiam o que tinha acontecido por carta, mas devia ser completamente diferente vê-los em ação, especialmente depois de acompanhar aqueles meses em Hogwarts entre clube de duelos, a monitoria, dividir um dormitório e as fantasiosas histórias de Marlene.

- Eu estou tão feliz por você. - Alice começou. - Você merece tanto ser feliz, Lils, e eu sei que James vai ser uma grande ajuda para isso.

- Se ele te fizer infeliz, sabemos que você saberá como agir, em todo caso. - Marlene continuou. - Mas ajudaremos a acabar com ele, também.

- Acho que não será necessário, Lene. Eu estou me sentindo bem. - A ruiva respondeu com sinceridade. - Parece...certo.

- Claro que é certo. Vocês nasceram um para o outro.

Almas gêmeas, pensou ela.

- De qualquer maneira…- Ela abanou a mão, querendo mudar de assunto. - Eu mal consegui falar com vocês essa últimos dias, depois do ataque do Natal.

- Sim, bem...assim que meu pai soube do ataque, a família McKinnon saiu do Reino Unido em menos de cinco minutos.

- A minha também. - Alice concordou. - Eu não tive tempo de enviar coruja para ninguém e nem direito de enviar qualquer coisa assim que chegamos na Irlanda do Norte. Eu recebi sua carta, Lily, dizendo que estava segura...mas não pude retornar. Nem Frank sabia onde eu estava.

Falar sobre o ataque de Natal lhe dava arrepios. Apenas em saber que talvez tenha escapado por pouco de ser pega, sua cabeça girava. Isso apenas lhe mostrava o quão desligada estava do mundo bruxo enquanto fora de Hogwarts.

- Soube que o pai de Mary foi pego. - Marlene comentou.

- Mary McDonald? - Lily e Alice perguntaram ao mesmo tempo.

- Sim. Mary e a mãe estão arrasadas. Não sei se ela voltará para Hogwarts ao mesmo tempo que nós.

Ninguém merecia ser vítima do ataque, mas Mary já tinha sofrido tanto na escola com o ataque de Mulciber, deixando-a tão reclusa e assustada...não imaginava como ela estaria ao voltar.

O pior é que Lily sabia que essa notícia não seria a única. Muitas outras como essa voariam até seus ouvidos assim que percebesse uma Hogwarts completamente abatida, olhares perdidos, faltando alguns alunos.

- Garotas! - Remus apareceu na porta. Ele olhou para os lados, querendo conferir o que as mantinham ali fora. - Temos duas festas rolando? Uma dentro e outra fora?

- Não, estamos entrando. - Marlene abraços as duas amigas pelos ombros e as puxou. - Está na hora de comemorarmos um pouco. Comemorarmos a vida.

Ninguém ousou discordar.

L~J

E apesar dos pesares, mesmo com adolescentes com um pouco de álcool - alguns com bastante -, ainda era possível sentir que todos estavam abalados. Lily tentava não pensar no que tinha acontecido. Era difícil, mas se esforçou ao máximo. As companhias ajudavam também.

Duvidava que alguém ficasse triste por muito tempo ao lados dos marotos. E podia provar ali, naquele 31 de Dezembro de 1977. Os poucos convidados escolhidos a dedo, sempre quando chegavam, tinham aquela aura cabisbaixa, mas os marotos faziam questão de receber cada pessoa e tentar tirar aquele peso que eles carregavam. Era difícil não ver um sorriso ou outro depois de poucos segundos.

Ela se aproximou de James quando este tinha apontado para um corvino - que Lily tinha certeza que era um jogador de Quadribol -, a direção das bebidas. Seu namorado parecia exausto.

- Está tudo bem? - Ela perguntou.

- Sim. - Ele sorriu para ela. - Apenas alguns minutos para 1978 agora.

Lily tinha a impressão que ele estava tentando mudar de assunto.

- E você está cansado.

James deixou os ombros cair.

- Honestamente? Muito.

- James. - Ela se postou em sua frente, querendo olhar diretamente dentro de seus olhos. - Você não é responsável pela felicidade de toda essa gente. Nem você e nem ninguém. Parece uma esponja, sugando a tristeza de todos, mas você não pode carregar esse fardo.

- Eu só quero que eles possam esquecer um pouco o que está rolando lá fora.

- Mas você não pode ser o receptor de tudo isso. Você tem sua própria chateação para carregar.

O maroto respirou fundo, desviando o olhar.

- Eu sei.

Quando você conhece alguém que está sempre para cima, um sorriso no rosto e pronto para alegrar a todos ao redor e, de repente, o vê para baixo, uma sensação de que algo no mundo estava errado lhe atinge. Ver qualquer um daquele quarteto tão para baixo daquele jeito, fazia Lily sentir que deveria estar mal também, pois como alguém ousava ser mais feliz do que esses caras, certo?

- Eu tenho algo para você. - Ela disse. Precisava tirar aquela energia ruim de James, tentar lhe dar algo mais para pensar e sentir do que apenas aquela negatividade que ele vinha pegando para si.

- O que é? - O sorriso dele voltou.

- Algum lugar onde podemos fazer isso em particular?

A expressão de cansaço mudou para outra coisa. O sorriso de James era maior do que nunca.

- Com certeza.

- Espere, não é isso que está pensando. - Lily o corrigiu percebendo onde a mente dele vagava.

- Ah! - O sorriso dele perdeu a malícia, mas permaneceu. - Independente do que for, será melhor lá em cima.

Seguindo-o, eles subiram a escada. Lily não tinha tido tempo para explorar o lugar, permanecendo a maior parte do tempo entre a sala e a cozinha, então parou para prestar atenção. Até ali, não tinha visto fotos ou qualquer coisa que lhe daria a ideia de uma casa em uso por alguma família.

- De quem é essa casa? - Perguntou ao chegarem no andar superior.

- Minha.

- Sua?

James abriu uma porta e acenou para que ela entrasse. Era um cômodo vazio, mas era óbvio ser o quarto principal da casa apenas pelo seu tamanho. Havia uma lareira que devia trazer conforto no inverno, mas era a única coisa ali além de quatro paredes e duas janelas.

- Marlene comentou uma vez sobre uma casa em um vilarejo no interior, não? - Lily revirou um pouco os olhos sobre aquela vez em que James escutou a conversa das três. Pelo visto, ele nunca iria esquecer. - É essa. Godric's Hollow está no sudoeste da Inglaterra. Meus pais devem querer se livrar de mim, então me passaram essa casa no Natal. Era chamada de Potter Cottage.

- Agora não se chama mais?

- Para não ser ligada a família, assim ninguém com acesso aos endereços no Ministério saberá que algum Potter vive aqui.

Espertos. Queria ter pensado nisso ou ter alguém com boas influências no Ministério para que pudessem fazer isso antes com a sua própria casa.

A boa notícia era que agora não seria mais a sua casa e ela não teria que se preocupar com isso.

- Então o meu presente virá muito a calhar.

- Presente?

- Eu estava te devendo um, lembra? Aquele suéter rosa não era o suficiente. Principalmente depois do que me deu.

A foto magicamente alterada ficava ao lado de sua cama agora. O dia parecia mais alegre quando acordava e via seus pais lhe cumprimentando, como quando ela descia as escadas e os encontrava na sala e na cozinha.

- Lils, eu te disse que não era necessário.

- Ainda sim, eu quero te presentear.

Com a sua bolsa, ela se ajoelhou e a abriu, tirando uma pequena caixa. James se ajoelhou à sua frente, apoiando as mãos em suas coxas, curioso como uma criança.

- Teremos que pensar em um jeito para que você possa usar o seu presente.

- Eu não posso usar agora?

- Infelizmente não. - Com um aceno de varinha, a caixa aumentou de tamanho. No caso, voltando ao tamanho original. - Pode abrir.

Não esperando um segundo a mais, James se lançou na caixa, arrancando o papel de presente e abrindo as abas.

- Lily! - Ele disse baixo. Olhou para ela. - Isso é sério?

- Bem sério.

James desmantelou a caixa para que a televisão ficasse à vista para ambos.

- É a mesma da sua sala?

- A própria.

- Eu não posso aceitá-la. Era dos seus pais, não?

Engatinhando até ele, Lily sentou-se ao seu lado.

- Era. Eu tenho que me livrar de muitas coisas de casa, muitas delas que não consigo entregar ou vender para estranhos. A nossa televisão é uma delas. Eu passei muitos anos em frente a ela durante as férias, a minha família em volta. Muitas risadas conjuntas aconteceram por conta dessa experiência. - Olhando para James, ela sorriu, sabendo que estava fazendo a coisa certa. - Está na hora de um bruxo passar pelo mesmo e nada melhor do que confiar esse bem para alguém especial e a quem eu desejo muitas risadas e momentos felizes.

Ignorando a televisão, James saltou sobre ela e a beijou. Lily o recebeu com alegria, os dois deitados no chão do quarto, em um beijo calmo e cheio de sentimentos, enquanto a música e a festa pareciam tão longe agora.

Finalmente, depois de alguns longos segundos, James desgrudou seus lábios dos dela, apesar de ainda mantê-la firme em seus braços.

- Eu aceito esse presente com uma condição. - Ele disse.

- Ah, vocês estão aí! - A voz de Sirius na porta do quarto interrompeu o momento. Lily tentou sentar, mas James a manteve no lugar, não querendo quebrar aquele momento por conta de um Sirius intrometido e por ele mesmo ter esquecido de fechar a porta. - Dois minutos para meia-noite. Devo fechar a porta e deixá-los ou vocês descerão?

- Te dou cinco segundos para adivinhar a resposta. - James respondeu. Lily apenas riu baixinho, não querendo passar de ano de outra maneira.

- Certo. Bem, vou colocar a música mais alta, no caso das paredes serem finas.

- Obrigado. - Agradeceu o maroto ao chão.

Sirius estava prestes a fechar a porta, mas abriu novamente.

- Não esqueça do que conversamos, Lilykins. - Foi fechar a porta, mas parou novamente. - Feliz 1978, casal.

Assim, ele finalmente fechou a porta.

- Do que ele estava falando? O que você não deve esquecer?

Abraçando-o pelo pescoço e puxando para mais perto, Lily apenas deu de ombros.

- Nada. Apenas conversas.

- Devo me preocupar?

- Nem um pouco. Agora, você dizia sobre condições antes.

- Ah. A condição para eu aceitar esse presente. - Ele apontou para a televisão com a cabeça. Lily olhou para o objeto e de volta para o namorado.

- Qual seria?

Ao invés da resposta, Lily ganhou um beijo. Depois outro, depois na bochecha, do outro lado, seus lábios desceram até o seu ouvido.

- Que você estará comigo em todos esses momentos em frente à ela.

Ouviram os gritos e comemorações no andar debaixo, deixando-os ciente da chegada do novo ano. Eles sorriram e se beijaram em comemoração, mas quando Lily percebeu que aquele beijo estava evoluindo, quando as mãos já não pareciam tão inocentes e as pernas se enroscavam de uma maneira que deixava claro que os corpos não se separariam tão cedo, ela parou de beijá-lo por um instante.

- Eu quero estar com você em todos esses momentos. E todos os outros que vierem.

Quando o ano de 1977 começou, Lily não almejava muito. O luto ainda era bem presente, seus amigos faziam diferença em sua vida sendo seu suporte, sua irmã já havia desistido de ser uma família com ela. Imaginava que seria um ano duro, mas que não tinha outra opção, além de seguir em frente. Ela riu, teve bons momentos, mas teve também o pior verão da sua vida. Mas nada a prepararia para o amor que sentiria.

Não poderia imaginar o poder do amor que viria a sentir por alguém, ainda mais por James Potter. Ele a recebeu de braços abertos; a guiou entre feitiços, maneiras, esquivos e esperteza para sobreviver; mostrou que um jovem babaca poderia ser muito mais do que aquilo; a fez entender que o poder da amizade poderia ser mais forte do que o interesse amoroso, mais importante do que levar a garota que você gosta em uma festa - mesmo tendo arranjado um jeito de ir de qualquer maneira-. Não se considerava uma pessoa ruim, mas Lily sentia que crescia e parecia virar uma pessoa ainda melhor agora com alguém tão forte e pronto para tudo, como era James.

E a única coisa que podia pedir para 1978, era poder ser tão boa naquele sentido para James quanto ele era para ela.

- Caso eu não tenha dito hoje ainda: eu te amo. - Ele disse enquanto beijava seu pescoço lentamente.

- Você não tinha dito. - Ela respondeu sob um suspiro. - Nem ontem e nem hoje.

Ele se levantou para poder olhá-la daquele jeito que apenas James fazia, parecendo querer mergulhar em seus olhos, quase hipnotizando-a.

- Então para que fique claro: eu te amava em 1977 e eu te amo também em 1978. E será assim em 1979, 1980…

Rindo, ela o puxou de volta e o beijou. Beijou James Potter até cansar e assim o faria para sempre.


Lily havia encontrado o lugar mais confortável do mundo: os braços de James na manhã seguinte. Qualquer manhã seguinte, não interessa o que tenha se passado antes de dormirem. Durante a noite, ele ficaria próximo, entrelaçando as pernas, ou toques de mãos e corpos, mas era na manhã que ele se aproximava de verdade. Ele a pegaria em seus braços, apertando forte e não a soltando, enquanto voltava para o sono mais leve. Lily sorriria e se aconchegaria nele, deixando o calor dele embalar mais uma ou duas horas de sono.

E apesar de não se importar em continuar no chão, ficou feliz em ter conjurado uma cama para que dormissem após terem cumprimentado todos os amigos uma hora depois da virada do ano. Não tinha como melhor começar o ano de 1978 do que nos braços dele e isso começou a assustá-la, pois não achava que conseguiria se acostumar com a ausência dele mais. Não era uma necessidade, mas vontade. Vontade de tê-lo por perto, bem perto e colado.

Ao fundo, uma bagunça de pratos e canecas começaram a encher o corredor, chegando até o quarto. Alguns xingamentos também voaram até ela. Pelo visto, Sirius havia levantado e parecia nervoso naquele 1 de Janeiro.

- Eu vou matá-lo. - James resmungou entre seus cabelos e nuca. Seus braços a seguraram ainda mais forte. - Quem o convidou?

- Tenho certeza que ele não precisa de convite para estar em qualquer lugar perto de vocês. - Ela respondeu acariciando o braço dele. James praticamente ronronou com o carinho. - E eu acho isso lindo.

- Ter Sirius colado na nossa bunda o tempo todo?

- Você fica colado nas deles também, James Potter.

De alguma forma, sabia que ele estava sorrindo. Quando ele sorria, o ambiente parecia mudar, ficar mais leve e tão feliz quanto ele. Era um dom que ele tinha e que Lily descobriu ser uma expert agora em sentir.

- Você tem razão. Mas neste momento, eu estou mais feliz colado em você. - James projetou o corpo dele no seu, demonstrando o quanto ele estava colado e parecia não ser o suficiente. - Podemos ficar mais alguns minutos aqui antes de ir conferir quantas louças foram quebradas?

- Minutos, horas...um dia inteiro.

Sentiu o beijo dele em sua pele e sua mão parecendo acordar agora, soltando-a do abraço e deslizando por onde alcançava.

- Eu poderia ficar aqui o dia inteiro, minha mala para Hogwarts pode ficar pronta amanhã de manhã.

A volta para Hogwarts no dia seguinte parecia tão longe ainda, ao mesmo tempo que parecia bater em sua cabeça como um pica-pau, avisando que aquelas férias loucas, com tantos sentimentos loucos, bons e ruins, estavam no fim. A realidade de ser uma bruxa Monitora-Chefe chegava.

- Eu ainda tenho algumas coisas para resolver antes do trem amanhã. - Ela respirou fundo. A mão e a boca de James agora pareciam distraí-la o suficiente para que tudo aquilo começasse a ficar borrado e esquecido em sua mente.

- Eu vou te ajudar, então tudo irá acabar logo e poderemos voltar para esta cena o mais rápido possível.

Ela soltou um suspiro e fechou os olhos agora. Ele não ajudava com as palavras e em como trabalhava no corpo dela.

- Fechado.

O barulho na cozinha aumentou agora, assim como o adicional da voz de Peter. O que eles estavam fazendo que exigia tanto? Será que alguma louça sobreviveria aos marotos na cozinha?

James se jogou contra o colchão.

- Crianças! - Ele resmungou, mas suspirando logo depois. - Foram as melhores férias da minha vida, mesmo com notícias ruins e medos constantes. Mas parece que estou sentindo falta daquele castelo. E você? Está pronta para voltar para Hogwarts?

Virando-se para ele e sentindo-se no céu com os olhos brilhantes e os cabelos mais bagunçados que o normal do seu namorado, ela o abraçou e deitou em seu peito, enquanto James a abraçava.

- Eu sempre estou pronta para Hogwarts!

Ela sempre estaria.


N/A:

Feliz/Infeliz dia. Agridoce, não? Nem saberia como descrever esse dia para a gente. Mas enfim...

Um capítulo aleatório e apenas uma ponte para o resto da história. Apenas não queria deixar passar esse dia.

Como sempre, meu Instagram (anotado no meu perfil) traz as informações de dias de postagens, sneak peeks, muito mais e etc

Resposta para review sem logins:

Mah: Jily SEMPRE muito amor *-* E não, Sirius nao podia ganhar outra coisa, assim como James não podia ganhar outra coisa além de uma televisão, né. E eu super concordo com vc: a amizade dos Marotos é a coisa mais preciosa que existe e não ver isso ser explorado é triste. Isso merece os holofotes, assim como a relação Jily. isso é muito importante para ser deixado de fora. E olha, dessa vez nao tem att dupla, mas logo menos Wildest vem xD Beijoooosss.

Não esqueça daquele comentario marotinho ai ;) mesmo se não tenha gostado LoL

Beijoos! ;***