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02 DE JANEIRO 1978
James estava atrasado, o que significava que o Monitor-Chefe estava atrasado.
Os pais e familiares na plataforma também não ajudavam ficando no meio, acenando para os estudantes dentro do Expresso Hogwarts e empacando o fluxo.
- Eu vou te matar, Padfoot. - Falou para o amigo ao lado que corria tanto quanto ele.
- Não, você não vai.
- Na próxima, você fica para trás e se atrasa sozinho.
Quase esbarrou em um casal, preferindo se jogar para o outro lado e esbarrar em Sirius. Os dois marotos quase caíram, mas conseguiram recuperar o equilíbrio.
- Não terá "próxima", esqueceu? É a última vez que embarcamos nesse trem em direção à Hogwarts.
Assim que chegou até a porta, James se jogou ali dentro com a sua mala. Sirius fez o mesmo, acertando o malão em James.
Maldição! Dupla. Primeiro pela dor na sua perna por conta do malão. Segundo: era mesmo sua última vez embarcando para Hogwarts. Uau, aquilo o acertou em cheio. Todas as vezes que entrou naquele trem passaram diante de seus olhos agora, cada uma mais especial que a outra. Na primeira, tinha esbarrado em Sirius na plataforma, o que acabou fazendo os dois garotos conversarem como tagarelas até acharem uma cabine para chamarem de sua. Algum tempo depois, Lily e Ranhoso entraram. Lembrava de não ter dado muita atenção para eles no começo, não até a conversa chamar a sua atenção e ele se intrometer. Tinha aquela lembrança dos cabelos ruivos escuros e compridos, o olhar inocente e grande. Era tão óbvio que ela era trouxa, que nunca tinha participado daquele mundo, que James sentiu uma vontade enorme de puxá-la para perto e mostrar tudo o que ela perdeu e tudo o que encontraria.
Mas o Ranhoso havia sido mais rápido nessa.
- Continua, seu palerma. - Sirius o empurrou para desempacar o corredor.
- Não seja cara de pau em me apressar agora.
O trem apitou, informando que estavam partindo. Bem, aquela foi por pouco. Quem diria que sua última viagem contaria com Sirius esquecendo de levantar e atrasando a ambos? E ele ainda querendo parar para o café da manhã.
- Onde vocês estavam? - Remus perguntou saindo de uma cabine enquanto os amigos passavam pelo corredor.
- Onde não deveríamos estar. - James respondeu entrando na cabine, sendo seguido por Sirius.
- James se recusava a acordar e nos atrasou. Muita falta de responsabilidade do nosso Monitor-Chefe, eu diria.
Nem olhou para o amigo e se jogou ao lado de Peter.
- Como está a sua mãe, Wormtail? - O maroto perguntou.
- Melhorando e piorando. - Peter respondeu.
- Pelo menos o "melhorando" existe. Ela vai ficar bem nesses meses que você estará em Hogwarts?- Sirius perguntou.
- Uma tia da Irlanda veio para ficar com ela. - Dando de ombros, Peter continuou. - Vai ficar tudo ok.
- Certo. - Sirius se jogou do outro lado da cabine, suspirando. - Vamos colocar o plano "só mais seis meses" em ação aqui ou em Hogwarts?
- Hogwarts! - James respondeu enquanto se aconchegava e fechava os olhos, recuperando o fôlego. - Eu tenho que trabalhar logo menos.
- E aqui voltamos para o Monitor-Chefe. - Sirius reclamou do seu lado enquanto olhava pela janela. A plataforma já ficava para trás e as ruas de Londres passavam rapidamente pela janela, apesar das pessoas do lado de fora não perceberem o trem.
- Nós vamos te deixar algumas tarefas de monitoria novamente, não precisa ficar tão decepcionado. - Disse Remus ao lado do amigo. Sirius revirou os olhos, mas não reclamou.
- Onde está Lily? - Peter perguntou se virando para James.
Ainda com os olhos fechados para descansar os poucos minutos de paz que teria até as rondas e a reunião dos Monitores, James sorriu um pouco pelo canto dos lábios.
- Com as garotas, eu imagino. Vamos nos encontrar logo.
Ele tinha monopolizado Lily nos últimos dias, principalmente nas últimas horas. Estava na hora de deixar espaço para as outras pessoas também.
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- Você é ridícula! - Lily dizia no meio de uma gargalhada, quase perdendo o fôlego.
Duas cabines distantes da dos marotos, Lily, Marlene e Alice estavam aconchegadas de qualquer jeito, tomando conta de todo o compartimento.
- De qualquer maneira, foi isso o que aconteceu. - Marlene finalizou sua história. - Agora, de volta à Hogwarts, a vida continua.
- Você é a única que deve ter tirado algo bom dessa loucura de férias de Natal. - Alice comentou sobre a história maluca da amiga. - Bom, tirando Lily que engatou um namoro com James.
- Você tem Frank, um cara maravilhoso e que te ama. - Lily comentou terminando de trocar suas roupas trouxas pelo uniforme de Hogwarts. Alice se aproximou da amiga e começou a fazer o nó da gravata por ela.
- Isso é verdade e eu não troco isso por nada. - A grifinória sorriu. - Sabe, nas férias ele comentou algo, sobre o futuro.
- O que exatamente? - Marlene perguntou deitada em um banco inteiro, o rosto em direção à janela.
- Sobre após Hogwarts. Ele queria que pensássemos nisso, sobre como faríamos...queria saber o que eu queria.
- E o que você disse? - Lily perguntou. Ao terminar o nó da gravata de Lily, Alice sentou-se no outro banco vago.
- Eu disse que queria que ficássemos juntos, claro. Que podíamos planejar, sim, o que fazer.
- Certo. Conhecendo você, a conversa deu uma volta enorme, sem você dizer exatamente o que queria e Frank receoso de dizer o que todo mundo sabe. - Disse Marlene.
- O que todo mundo sabe? - Alice levantou uma sobrancelha.
- Que Frank quer te pedir em casamento!
Alice caiu no encosto do banco, completamente chocada. Lily olhou feio para Marlene, que deu de ombros e murmurou um "desculpa, mas é verdade".
- Quem te disse isso? - Alice rapidamente perguntou. - Frank te disse isso?
- Não. - Marlene sentou no banco, evitando o olhar de Lily. - Mas de alguma forma, está claro para todos. A gente vê de fora o que acontece, como ele age com você e tudo mais. Parece até que ele anda com um anel no bolso o dia todo, esperando uma boa oportunidade ou algo assim.
- Marlene! - Lily disse em tom de advertência.
- Mas é, não é?
- Não é. - Lily a corrigiu.
- Como você sabe que não é? - Marlene perguntou de volta.
- Ele disse que não quer se casar? - Alice também perguntou para a ruiva.
Colocando a mão no alto, Lily respirou fundo.
- Calma, ficou tudo muito confuso. Não é isso o que eu queria dizer.
- O que você quer dizer, Lily?
- Que Frank, sem dúvida alguma, quer casar com você. Esse cara é louco, maluco por você. Só não acho que ele ande com um anel para cima e para baixo.
Alice pareceu se acalmar, e as duas outras relaxaram. Após alguns segundos, a garota começou a sorrir.
- Vocês acham mesmo que ele vai querer casar?
- É óbvio, apenas aguarde e verá. E você dirá um grande SIM.
- Absolutamente!
Lily assistiu as duas amigas conversarem enquanto terminava de colocar suas meias e sapatos. Olhou para o relógio e confirmou que tinha que começar sua ronda.
- Eu vou ter que deixá-las agora. Nos vemos em Hogwarts.
- Bom trabalho, Monitora-Chefe, e não se tranque em um vagão para se agarrar com o Monitor-Chefe.
Lily abria a porta enquanto respondia.
- Ah, droga. Justamente o que eu tinha planejado.
- Verdade?
Ela se virou para encontrar James parado no corredor. Ele tinha o dom de sempre aparecer para escutar partes da conversa que não deveria.
- Está disposto? - Ela perguntou escorando-se na porta.
- Não me faça essas propostas que não pode cumprir, Monitora-Chefe Evans. - James olhou para dentro do vagão e acenou. - Olá, garotas.
- Olá, Monitor-Chefe. - Marlene respondeu. - Quem diria? Lily oferecendo um bom amasso em uma cabine vazia e você focado no trabalho. O que houve?
- Houve que eu tento não levar a Monitora-Chefe para o mal caminho.
- Me parece que ela quer te levar.
Lily acenou e fechou a porta da cabine não dando mais linha para aquela conversa. James a segurou e a beijou com saudade.
- Quanto tempo.
- Nos vimos, literalmente, essa madrugada. - Ela sorriu, mas não reclamou quando ele a beijou de novo.
- Muito mais tempo do que eu imaginava, então. - Ele, enfim, a soltou e ajustou a gravata da ruiva que saiu do lugar. - Está pronta para a primeira ronda?
- Sim. Acho que vai ser tranquilo, não há ninguém pelos corredores.
- São nessas horas que algo pode acontecer. Bom, eu posso fazer a parte de trás do trem e você fica com a da frente.
Lily assentiu. Eles sorriram um para o outro e foram em direções opostas.
O trem estava silencioso. Se Lily não tivesse visto todos aqueles alunos embarcando alguns minutos atrás, ela diria que o lugar estava vazio. Se ouvia conversas, elas eram baixas e a ruiva tinha que estar muito próxima de alguma porta para ouvi-las. Encontrou com o carrinho de doces duas vezes até então e estava longe de estar vazio como era o costume.
Estava tudo muito triste, sombrio, escuro. Com o inverno castigando lá fora, o dia virava noite rapidamente. As luzes amareladas do corredor não ajudavam a deixar o ambiente alegre.
Quando voltava da parte da frente do trem pela segunda vez, quase chegando ao meio, Lily viu James vindo na direção oposta. Com um balançar de cabeça, ele perguntou como estavam as coisas e Lily apenas deu de ombros. O maroto assentiu e deu meia-volta, indo em direção à parte de trás do trem novamente.
Lily também deu meia-volta e recomeçou seu caminho, quando uma cabine ao seu lado abriu, mas ninguém saiu. Aquilo poderia ser algo completamente normal e estava prestes a seguir seu caminho, quando foi puxada para dentro.
Sua varinha foi arrancada da sua mão enquanto caía no chão e seus lábios colaram magicamente um ao outro.
- Feliz 1978, Sangue-Ruim.
Ela reclamou, mas com a boca colada, não era o suficiente para qualquer pessoa ouvir do lado de fora ou das cabines ao lado. Avery e Mulciber a olhavam de cima, cada um de um lado de seu corpo.
Perfeito. Era tudo o que ela precisava agora.
- Esperei uma carta sua, mas fiquei desapontado. - Mulciber comentou enquanto abaixava-se. - Pensávamos que alguém tinha feito o nosso serviço e te arrancado do mundo.
Revirou os olhos, já que não podia responder. A sua varinha tinha caído em cima do banco, perto da porta. Conseguia fazer um feitiço de convocação não-verbal, mas sabia que teria que fazer disfarçadamente para poder pegá-los de surpresa. No final, eram dois deles contra ela dentro de uma cabine do trem.
- Pois é, porque nós não conseguimos. - Disse Avery.
Lily olhava firmemente para a varinha, por cima do ombro de Mulciber. Ela se mexeu levemente, quase caindo do banco. Ok...se ela conseguisse calar aqueles dois idiotas na sua cabeça, conseguiria fazer aquilo lentamente.
- Não, não conseguimos. - Mulciber concordou com o amigo. A varinha deslizou alguns centímetros pelo banco agora. - Porque, afinal, você não estava em casa no Natal, estava?
Lily desviou os olhos da varinha para o sonserino.
- Não estava. - Avery confirmou. - E esperamos por quase uma hora, pensando que você poderia voltar de qualquer lugar que estivesse, mas não voltou. Aquele feitiço dos cachorros foi uma boa ideia, aliás. Dolohov morre de medo de cães. - Avery se aproximou dela. - Mas não conte a ele que eu disse isso.
Então eles participaram do ataque aos trouxas no Natal. E eles estiveram em sua casa, provavelmente logo depois de Sirius ter resgatado-a. Era para ela estar morta agora, ou muito ferida. Ou desaparecida. Se não fosse por James e Sirius, Lily não teria embarcado nesse trem hoje.
Pior: se sua irmã estivesse em casa, com certeza estaria morta também. Ou se seus pais estivessem vivos e...
Merlin! Seu peito doía agora ao pensar naquelas possibilidades.
- Acho que ela não sabia que estávamos por lá. Olha a cara de espanto.
Os dois começaram a rir e, sim, ela estava espantada. Não gostava de demonstrar qualquer sentimento para eles, mas não era possível fingir que tudo estava bem quando você descobre que escapou da morte por um triz e como sua vida poderia ter desmoronado caso alguém estivesse na casa dos Evans naquele ataque durante o Natal.
Voltou seu olhar para a varinha e ela deslizou pelo banco, mas não perto o suficiente ainda.
Mas supreendendo-a, os dois se afastaram dela.
- Para a sua sorte, nós não podemos terminar o serviço hoje. Você e os idiotas que te rodeiam chamaram a atenção do Lorde. Aguarde um contato em breve. - Mulciber disse. - Você não faz ideia do quão sortuda você foi.
E assim eles saíram, deixando-a sozinha. Se apressou até a varinha e fez o contra feitiço para a sua boca.
O que foi tudo aquilo? Contato de Voldemort ? Ela escapou do ataque do Natal e de um ataque naquele instante?
Levantou, completamente perdida. Eles não precisavam dizer o quão sortuda era. Sentia que não, mas no fundo sabia que era.
Saiu da cabine um pouco desnorteada e voltou a caminhar pelo corredor. Não podia voltar para a sua cabine com as garotas, não podia encontrar James enquanto ainda estava naquele estado e não podia trombar com algum dos marotos. Então acabou pegando o caminho para a cabine dos monitores, onde teriam uma reunião logo menos, lhe dando tempo de se acalmar.
- Hey Monitora-Chefe Evans. Tudo bem? - Um monitor da Lufa-Lufa perguntou. Ela sabia o seu nome, mas estava um pouco ainda fora de si.
- Tudo.
Nem devolveu a pergunta e foi até a mesa, sentando-se. Pegou um pergaminho e começou a anotar algumas instruções para compartilhar com todos na reunião em alguns minutos. Tudo era feito no automático, deixando a pena fazer o seu trabalho, sua mão a guiando, seu cérebro dando a boa informação, mas completamente inconsciente. De alguma forma, ela estava em uma espécie de hipnose, fazendo as coisas sem se dar conta e pensando em outras ao mesmo tempo, mas tentando não pensar no fato de que escapou da morte certa.
Aquilo deixava suas mãos tremendo. Não era por medo, mas pelo choque da notícia do que poderia ter acontecido com ela. Lembrava de estar passando aspirador e cantando, tão feliz, quando Sirius chegou. E se não tivesse sido ele? Por pouco não foi ele.
A sala começou a encher com os monitores e conversas. Sua mão não parava com a pena e seus olhos não deixavam o pergaminho nem por um segundo, até sentir um formigamento estranho e levantou a cabeça para uma sala cheia de alunos a encarando. Incluindo James e Remus.
- Lily?! - James a chamou, preocupado.
- Começou a reunião? Me desculpem. - Se levantou e encarou a todos, ignorando a expressão de confusão do namorado e do amigo. - Olá, Monitores. Bom ano para todos. - Houve uma onda de saudações de volta. - Eu estou com algumas informações para repassar.
Pegando o pergaminho, ela começou a multiplicá-lo e passar para cada um deles.
- O que houve? - James sussurrou ao seu lado.
- Nada. - Ela sorriu e voltou o olhar para todos. - Houve mudança de horários para todos os anos e eles estarão na cama de cada aluno esta noite. É importante informá-los na Sala Comunal para que confiram antes das aulas de amanhã. O Monitor Lupin também nos entregará a nova escala de rondas que...
- Está na sua mão. - James cochichou.
Ela, de fato, segurava um pergaminho. Olhando de mais perto, viu a lista das rondas. Quando aquilo chegou ali? Onde ela pegou?
Olhando para James um pouco assustada, recebeu um sorriso encorajador enquanto ele tirava o pergaminho de sua mão delicadamente.
- Repassem para o Monitor ao seu lado. - Anunciou James enquanto multiplicava e passava para dois monitores em sua frente, que começaram a distribuir ao redor. - Lembrem-se que qualquer mudança de ronda deve ser informada aos Monitores-Chefes. Com as informações que a Monitora-Chefe passou e a escala de rondas, estamos bem. Alguma pergunta?
Os monitores negaram e se debandaram para o corredor e de volta a suas cabines.
Sentando-se na mesa e de frente para Lily, James a observava. Não a encarando, mas estudando-a. Seus bonitos olhos examinaram cada canto, cada pequena expressão que ela podia deixar escapar. Lily apenas o olhava de volta, mas diferentemente dele, ela tentava passar a calma que James parecia procurar.
- Eu não quero te forçar a me dizer qualquer coisa. - Ele finalmente disse. - Mas saiba que eu sei que algo aconteceu. Seus olhos não conseguem esconder isso.
- Obrigada.
- Mas...- Ele sorriu para ela enquanto colocava o cabelo ruivo para trás. - ...caso queira falar comigo, venha.
Se contasse algo para ele, as coisas escalariam muito. Assim como preferiu guardar para si a informação de que Severus a atacou em Hogsmeade, não queria dizer que foi alvo novamente.
Na verdade, Lily estava mais cansada de trazer essas coisas para ele do que ser alvo delas. James já tinha muito na cabeça e não queria adicionar mais.
Segurando o rosto dele, ela o beijou levemente.
- E então? Quantas rondas faremos juntos dessa vez? - Ela perguntou mudando de assunto.
- Ah, vejamos. - James pegou o pergaminho e o estudou por um momento. - Muitas. Muitas Sexta-Feiras, alguns vários Sábados...
- Hm...
- Isso quer dizer que após cada uma delas, um encontro terá que ser realizado. - Ele a abraçou pela cintura e a puxou para perto. - No lago...- Ele a beijou de um lado do pescoço. - Na Torre da Astronomia...- James a beijou do outro lado do pescoço. - Até mesmo Hogsmeade...- Um beijo abaixo de seu ouvido agora. - Passeios de vassouras a meia-noite...- Ele a beijou apaixonadamente, arrancando toda e qualquer preocupação que Lily parecia ter até aquele momento. - Ou...a gente volta direto para o nosso dormitório.
Lembrando-se das palavras de Mulciber, por mais estranho ser lembrar-se dele naquele momento: ela era muito sortuda mesmo.
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Os marotos andavam em uma fila horizontal, tomando todo o espaço, como se dominassem todos aqueles alunos voltando a Hogwarts: James na ponta direita, com Remus, Sirius e Peter em seguida. O Monitor-Chefe sorria. Ele brincava com alguns alunos que passavam, cumprimentava outros...colocou o pé para Dolohov tropeçar. O de sempre.
Olhando para a esquerda, viu Remus checando um pergaminho sobre as senhas das casas. Peter olhava reto, um pouco cansado, um pouco entediado. Já Sirius...
O amigo olhava para cima, na direção do castelo. Cada janela estava iluminada, o céu encoberto e cheio de estrelas ao fundo dava um toque a mais para a beleza do lugar. Hogwarts parecia um monstro em cima daquela rocha, mas uma fortaleza também. Um lugar seguro, um lugar onde eles podiam contar.
- Vocês se lembram da primeira vez que tiveram essa visão? - James perguntou.
- Sim. - Sirius respondeu imediatamente. - Ah sim, eu lembro.
- Foi bem assustador. - Respondeu Peter
Os três olharam para ele.
- Assustador? - Indagou Remus. Peter deu de ombros, um pouco sem graça.
- Eu sempre fui acostumado a uma casa pequena, um bairro pequeno...nunca coisas tão grandiosas assim. Mas uma vez que você se acostuma com elas, você quer mais. Nada de coisas pequenas e mesquinhas.
Nenhum maroto respondeu, admirando a vista que estava prestes a desaparecer por conta das copas das árvores e das escadas externas. James olhou para trás, checando Lily e as garotas alguns metros de distância. Elas conversam animadamente sobre algo que ele só podia imaginar, mas devia ser muito bom.
- Eu pensei que vocês fariam uma entrada triunfal hoje. - Peter comentou ao ver onde o amigo tinha sua atenção.
O maroto meneou a cabeça antes de responder.
- A grandiosidade da coisa é não precisar apresentá-la. Tudo virá à tona quando vier.
- Se fosse o James de 15 anos...
- Sim, Moony, se fosse o James de 15 anos, ele estaria fazendo merda. - James respondeu, mas com um pequeno sorriso de lado.
Olhou para trás novamente e recebeu uma piscada da namorada.
O Salão Principal parecia tão morto quanto o trem. Poucas pessoas pareciam interessadas no jantar ou mesmo em ouvir algum suposto recado do diretor. Os que ali estavam, não estavam empolgados. Aquela aura era tão horrível, que Sirius abortou o plano deles de uma cena de boas-vindas.
- Até eu tenho consciência. - O maroto disse. Alguns daqueles alunos tinham perdido família ou amigos no ataque de Natal e mesmo que uma boa risada pudesse trazer um pouco, pouco mesmo de alegria, os marotos não pensavam que seria muito respeitoso.
Lily estava um pouco cabisbaixa, mas era a pessoa que mais tentava animá-los. James só podia pensar caso fosse ela e sua família. Se a ruiva tivesse perdido alguém, ele odiaria alguns idiotas babacas fazendo pegadinhas. Se ele tivesse perdido alguém, se ele tivesse perdido Lily...
Não poderia imaginar o que faria com uns idiotas babacas fazendo pegadinhas.
- Último semestre em Hogwarts. - Marlene comentou quando o grupo passou um longo tempo em silêncio após a sobremesa. - Quais os planos?
- Acho que estudar para passar no N.I. . - Peter respondeu. - Estou atrasado com muitas matérias nesse quesito.
- Qual carreira você quer seguir, Peter? - Alice se juntou a conversa.
- Algo no Ministério. Honestamente, qualquer coisa. Talvez no Departamento de Jogos e Esportes Mágicos.
- Não sabia que você era ávido por esportes. - Lily comentou, curiosa.
- Ele não é. - Sirius respondeu.
- Sou sim.
- Você não é, Wormtail. Você mal sabe dizer todas as regras de Quadribol.
- E daí? Não existe apenas Quadribol como esporte.
- Verdade, mas você precisa saber sobre Quadribol também.
Aquele assunto tinha dado tanta confusão anteriormente, que James nem participava mais. Peter ficaria nervoso, Sirius riria do amigo e eles ficariam algumas horas sem se falar.
Porém, foi com aquela cena tão comum entre eles, que James percebeu que por mais que as coisas estivessem indo mal lá fora, eles ainda podiam fazer as coisas valerem a pena ali dentro. Como Marlene os alertou, aquele era o último semestre em Hogwarts, o lugar que passaram sete anos de suas vidas. Todos sentados ali chegaram naquele castelo apenas com um malão cheio de esperanças, vontades, inocência e prontos para terem suas mentes repletas com a grande experiência que apenas aquele lugar poderia proporcionar. Coisas ruins aconteceram, mas coisas boas também surgiram e eles ainda podiam adicionar mais boas memórias naquela equação.
A realidade dura e triste do mundo de fora estaria esperando por eles, mas por enquanto eles eram ainda alunos de Hogwarts, grifinórios do sétimo ano que precisavam passar o N.I. , uma taça de Quadribol para ser ganha, monitores com rondas e tarefas, alguns sendo monitorados e outros monitorando o grupo de duelo.
Hogwarts ainda tinha muito na manga para proporcionar e James mal podia esperar por aquilo.
12 DE JANEIRO 1978
As coisas começaram um pouco confusas em Hogwarts. Após a primeira semana ainda bem sombria, os alunos começaram a se achar, a se encaixar novamente naquela vida de estudantes, tendo que esquecer que presenciaram coisas horríveis durante suas férias de Natal, de sentirem saudade de colegas , familiares e de casa.
Janeiro foi o mês em que Lily, na primeira noite de volta em Hogwarts, renunciou ao seu quarto. O quarto de James já não era o quarto dele, mas deles. Na mesa de cabeceira da esquerda, o porta retrato que Lily foi presenteada no Natal pelo maroto com a foto de sua família ganhou casa desde o começo. O quarto da Monitora-Chefe era praticamente o seu closet e só. Às vezes, ela tomava banho naquele banheiro quando eles tinham que correr e dividir o chuveiro não ajudaria.
Janeiro foi, também, o mês em que Hogwarts descobriu que James Potter e Lily Evans estavam juntos.
Muitas pessoas poderiam ficar decepcionadas de como aquilo aconteceu, pois não houve fogos de artifício, não houve uma cena romântica de James pegando Lily nos braços no Salão Principal e a jogando para trás, lascando um beijo de tirar fogo. Não.
Durante os primeiros dias, eles voaram baixo, não propositalmente, mas não sentiam que precisavam ou tinham que mostrar para todos o que ocorria. Tudo era natural, desde os olhares e sorrisos, quanto os beijos que ocorriam quando se encontravam entre uma aula ou outra. O fato de não haver ninguém ao redor foi pura coincidência.
Em uma quinta-feira com uma forte nevasca, Lily terminava sua atividade de Runas com Alice. Olhou pela janela, tentando ter algum vislumbre do terreno da escola, mas era tudo um borrão branco com a neve pesada e o vento. Sabia que James queria retomar o treino de Quadribol naquele fim de semana, mas não anunciavam muito descanso daquele tempo turbulento.
- Já acabou, Lils? - Alice perguntou olhando para o pergaminho da amiga.
- Sim. Runas está ficando cada vez mais complicado. Sorte de Marlene que largou Adivinhação e ficou a manhã toda na cama.
- A tarde não será longa para os setimanistas. Só nos resta o almoço agora e mais duas horas de Poções depois.
Pelo menos um assunto que lhe agradava.
Entregou o pergaminho da tarefa à professora na mesma hora que o sino tocou anunciando o fim da aula. Todos os alunos pularam de suas cadeiras, tão preparados para saírem dali quanto ela.
Como já estava perto da porta, ela foi uma das primeiras a sair. O corredor estava apinhado de alunos saindo de todos os corredores e salas de aulas possíveis, mas mesmo com aquela multidão, Lily nunca perderia aquele rosto. James estava do outro lado do corredor, logo em frente à sua sala. Ele vestia aquele suéter da Grifinória que lhe caía tão bem, sua gravata estava desfeita e quase enrolada com o seu cachecol. Não vestia o casaco do uniforme, mas o segurava em uma das mãos.
Quando realizou que namorava um dos caras mais quentes daquele lugar, seu sorriso já estava todo mole. E quando ele sorriu de volta para ela, era como estar debaixo das cobertas e em frente da lareira.
- O que está fazendo nesse corredor frio? - Ela perguntou atravessando o mar de gente para chegar até ele.
- Esperando por você. O que mais teria de importante nesse corredor frio?
- Vocês são nojentos. - Remus comentou perto deles, mas sorria, acenando que estava pegando seu caminho para o Salão Principal com Alice.
Os alunos estavam ainda mais agitados em volta, parecendo mais apressados do que antes. A ruiva voltou o olhar para o maroto, que se desencostou da parede e colocou o seu casaco nos ombros dela.
- Como você sabia que eu estava com frio? - Ela perguntou abobada e feliz ao sentir seu corpo todo aquecer com o casaco do maroto.
- Você vive com frio. Seus pés e mãos parecem dois cubos de gelo e você está, constantemente, pegando minhas roupas para usar por cima do seu pijama que já é bem quente. - Ele se aproximou dela como se estivesse prestes a contar o maior segredo do mundo. - E por último, mas não menos importante: eu conheço a minha namorada.
Ele deu um peteleco no nariz dela, fazendo Lily franzi-lo.
- Obrigada pelo casaco. Verdade que eu estava com frio. - James levantou a sobrancelha com uma expressão de superioridade, todo cheio de si. Ela meneou a cabeça. - Você me acompanha para o almoço, então?
Aquela expressão de maroto que ganhou uma aposta alta se foi e as sobrancelhas de James desceram, seus olhos suavizaram.
- Era com esse convite que eu estava contando.
Acenando com a cabeça, James apontou para o corredor e o mar de estudantes. Antes dele dar um passo, Lily deslizou sua mão na dele e a entrelaçou. Esperou pela reação, por alguma palavra, reclamação ou discreto deslize para longe da mão dela e a afastando. Não sabia como deveriam agir em público às vezes, mas sentia que ao mesmo tempo que não se escondiam, também não queriam espalhar. Talvez eles estivessem se acostumando ainda com aquela novidade em suas rotinas em Hogwarts, se acostumarem sem o alarde das pessoas fofocando sobre eles, cochichos enquanto passavam. Queriam colocar tudo em ordem entre eles antes de fazer aquele relacionamento fazer parte da vida alheia - pois com o passado deles, iria ocorrer - e aproveitarem aqueles momentos apenas entre si e os amigos.
Mas não foi surpresa também quando James apertou sua mão e a aproximou mais de si.
- Você acabou de iluminar e aquecer o meu dia. - Ele comentou.
Sorrindo como uma boba e ignorando todos os olhares estupefatos, os cochichos e os dedos apontados, Lily deitou a cabeça no ombro dele e assim seguiram para um almoço em um Salão Principal aquecido e uma fofoca quentíssima rolando solta entre as cinco mesas: das quatro casas e dos professores.
30 DE JANEIRO 1978
Lily Evans tinha conhecido o significado do termo "andar nas nuvens" por mais de uma vez agora.
Em seu aniversário, no dia 30 de Janeiro, descobriu que ser namorada de James Potter poderia ser mais excitante do que qualquer outra coisa no mundo.
Raramente ela perdia algum dia de aula, mesmo quando estava doente. Mas na segunda-feira de seu aniversário, ela foi obrigada a desaparecer completamente. Ninguém a acharia nos terrenos de Hogwarts, pois havia sido sequestrada no meio da manhã e com uns óculos engraçados que deixavam o caminho que seguia completamente psicodélico, sem lhe dar ideia de onde ia. Ouvia alguns sussurros às vezes e sabia que havia mais de uma pessoa com James, porque sim, aquelas mãos que a guiavam eram dele. Não havia mãos que Lily conhecia mais naquele mundo do que as dele agora e as reconheceria se as visse, se apenas sentisse os toques, pelas curvas, pelos calos em lugares estratégicos por conta do Quadribol. Seu corpo estava tão acostumado com elas, seus cabelos adoravam os carinhos, suas mãos adoravam quando se entrelaçavam...
Tudo isso para dizer que Lily Evans conhecia as mãos de James Potter e que ela sabia que era ele quem a guiava.
Estava bem agasalhada, mas isso não a impediu de se arrepiar ao sair da passagem secreta. Sim, ela não enxergava nada, mas pelo tanto que andou, sabia que não estavam mais em Hogwarts. Apenas não tinha a mínima ideia de onde estava indo, ou de que lado estavam. Tinha desistido de perguntar qualquer coisa, pois não obtinha resposta alguma. A única coisa que percebeu foi a quantidade de passos na neve. Diria que ouvia pelo menos cinco pessoas andando, mas talvez arriscaria dizer mais.
- Vamos aparatar agora. - A voz de James em seu ouvido era quase um calmante. - Não se preocupe, eu tenho você. - A mão dele apertou ligeiramente em seu braço para demonstrar que ao aparatarem, ela estaria segura. Claro que ela estaria segura. Sempre estaria segura com ele.- Feche os olhos para não passar mal com o que vê nos óculos e com o que sente.
Fechou os olhos e o puxão em seu umbigo veio logo em seguida. Quando seus pés atingiram a neve em algum outro lugar, as mãos dele estavam lá, a segurando. Sua cabeça rodou um pouco e se esforçou o máximo para não abrir os olhos e ser acertada pelas imagens dos óculos.
- Está tudo bem? - Ele perguntou.
- Sim, tudo bem.
- Ótimo. - Ela ouvia os movimentos ao redor e tentava decifrar o que ocorria. - Só mais um minuto e então você pode tirar os óculos.
Assentiu e esperou. Neste meio tempo, além dos barulhos e cochichos, ela sentiu o calor chegar, como uma fogueira bem perto dela, mas não ouvia o fogo crepitando, então era alguma magia para aquecer aonde quer que estivessem.
Sem aviso, os óculos foram levantados devagar e ela levou alguns segundos para se acostumar com a claridade normal. Qquando pôde perceber onde estava e o que ocorria, suas pernas quase falharam e a levaram para o chão.
Estavam em um parque, perto de uma árvore. Havia uma mesa de picnic, até um carrinho de sorvete fictício mais ao fundo. Seus olhos lacrimejaram ao perceber que tudo estava tão parecido, mesmo com a neve sendo uma adição.
Era o parque que ia com os pais, aquele em que ela tinha a foto. A foto que James transformou para uma foto bruxa e estava sempre ao seu lado.
- Feliz Aniversário, Lily.
Quando olhou ao redor, viu Marlene, Alice, Sirius, Remus, Peter e Frank. Eles sorriram e seguravam balões e presentes.
Falhou miseravelmente para conter as lágrimas, mas seus lábios sorriam, querendo mostrar o quanto estava feliz. Nunca tinha ousado voltar ali, nunca sequer pensou em voltar para aquele mesmo lugar antes, mas agora sentia que deveria ter feito. Toda a lembrança de sua infância, seus pais, sua irmã amorosa...as corridas em volta da árvore, os joelhos ralados da grama, as bocas sujas de chocolate...era como se fosse ontem e como se todos eles, seus pais e sua irmã ainda amorosa, estivessem ali.
Lily sentiu-se completa, com todas as pessoas que amava.
- Você gostou?
Se virou para James, chocada.
- Eu amei. - Sua voz estava tão fraca. - Eu amei. Merlin, é o melhor aniversário que eu tenho em anos.
- Eu espero te fazer repetir isso em todos eles a partir de agora. - Ele cochichou e a beijou. - Vamos, temos um monte para comer e uma pilha de presentes para abrir.
Ainda completamente em choque, ela o seguiu até a mesa e sentaram-se para um brunch delicioso. Enquanto conversavam, ela olhava ao redor de vez em quando, sendo puxada pelas memórias. Cada lugar daquele parque, cada árvore, parecia ter uma história. Quando pensava na vida curta que teve com os pais, costumava achar injusto não terem tido tempo de aproveitarem mais. Ela passou anos longe deles, os vendo apenas nos Natais e no verão. Mas também tinha que lembrar que, antes de Hogwarts, eles tinham muitas memórias boas, simples e puras. Muitas delas estavam ali, naquele mesmo lugar.
- Como você descobriu onde era? - Perguntou para James.
- Marlene, Alice e eu investigamos a fundo. De verdade, tínhamos um mapa de toda a região de Cokeworth e os arredores, tentando achar.
- A região é conhecida por ter tantos parques. Vocês tiveram um trabalho enorme!
- Um pouco, mas a vontade de fazermos isso era ainda maior. - Ele acariciou a bochecha dela, olhando-a com muito carinho. - Não é novidade que você sente imensas saudades deles, ainda mais depois da venda da casa e da mudança que será quando você sair de Hogwarts. Queríamos que você se sentisse mais perto deles hoje, mesmo eu tendo certeza que eles nunca estão longe.
Lily pegou a mão dele que ainda estava em seu rosto, e a beijou.
- Obrigada, James. Você sabe como fazer uma pessoa feliz.
- Eu quero saber fazer você feliz. - Ele respondeu aproximando os rostos.- Esse é o meu único objetivo.
- Você faz, muito. Todos os dias.
- Bom. - Ele riu um pouco e deu um beijo em sua testa. - Prometo continuar o bom trabalho.
- Eu também...
James colocou um dedo sob os lábios de Lily, impedindo-a de continuar.
- Nem se atreva a dizer que você quer me fazer feliz, porque você faz mais do que isso. Além do mais, esse dia é seu e o que você sente é o que importa.
- Mas...
- Eu te amo. - Ele a cortou novamente. - Vamos terminar de comer, pois temos um bolo!
Os olhos dele brilharam e ela não insistiu mais.
E o bolo estava delicioso, preparado por Alice e Remus, não elfos. Os dois viraram os cozinheiros oficiais do grupo e Lily não iria querer de outra forma. Após abrir os presentes - alguns deles, James parecia mais empolgado do que ela para abrir -, Lily fez seu único e mais precioso pedido para eles. Graças a Remus que pensou em trazer um item muito importante, ela pôde realizar: uma foto. No mesmo lugar, no mesmo ângulo da que tinha com os seus pais.
Não foi preciso pedir duas vezes, pois todos se reuniram exatamente onde ela indicou. Com um feitiço de estabilidade em conjunto com um "wingardium leviosa" executado com maestria por Marlene, a câmera ficou na posição perfeita.
- Digam "cheeeeeerius" - Sirius gritou ao apontar para a câmera.
Lily riu e ganhou um beijo de James quando a foto foi tirada.
E ela a guardou como se fosse um tesouro. Assim que Remus a entregou, ela assistiu aquele grupo de amigos sorridentes, o amor tão nítido no rosto de cada um. Era como repetir a felicidade de ter estado ali com seus pais antes, mas uma felicidade diferente dessa vez.
Aquela foto recebeu um lugar especial ao lado da foto dos pais. No fim daquele 30 de Janeiro, sentada na cama de James - deles -, ela olhava para ambas as fotos, sorrindo como uma boba ao saber que dois dias tão especiais da sua vida, foram pegos em fotos. Elas ficariam guardadas para a posterioridade, mostraria para seus filhos e netos e contaria sobre a história de cada uma, sobre cada risada de cada dia, sobre como amava cada um deles, todos eles.
E dormiria desejando que aquele dia não acabasse, mas desejando e esperando pelos próximos dias felizes como aquele.
E eles viriam e ela os agarraria com toda a força e os aproveitaria até o último instante.
14 DE FEVEREIRO 1978
Corações, chocolates, sorrisos e aroma de poções suspeitas estavam por todo o canto da escola.
Era o primeiro Valentine's Day que Lily passava comprometida no castelo. Teve um relacionamento ou outro, mas nenhum deles aconteceu naquele período do ano. Exceto agora.
Não só era o primeiro Valentine's Day comprometida, como poderia dizer que era o primeiro que passava tão apaixonada. Nunca se importou muito com a data, apesar de achar engraçado algumas coisas que poderiam acontecer, algumas cenas desconcertantes - quando não era com ela, claro -, e tantos casais se formando...muitos para acabar uma semana depois.
Por isso, ela queria embarcar naquela data de cabeça dessa vez, nem que fosse uma única vez e voltasse a tratar aquele dia como outro qualquer depois. O problema é que ela queria fazer algo legal para James, mas conhecendo o namorado que tinha, sabia que seria difícil ser páreo para ele.
Como vencer o seu namorado, que pode ser o romântico dos românticos - sem nem se esforçar -, em um Valentine 's Day? Quando ela mesma não tinha nem ideia do que fazer naquela data, sem experiência alguma? E pior: ser uma porcaria de Terça-Feira.
Sentia que tudo o que poderia acontecer hoje, já aconteceu antes quando eles estavam na fase de flertes: o jantar de Halloween, o passeio de vassoura até o telhado da Torre de Astronomia, a saída em Hogsmeade...tudo. O que ela sentia, era que aquela data apenas fosse mais uma em que poderia beijá-lo sem parar, rir com ele, talvez ouvir música na sala do dormitório, um banho de banheira...
Conversando com as amigas sobre o assunto, elas disseram que Lily deveria conversar com James sobre isso, mas qual seria a graça? O quão decepcionado ele ficaria ao saber que ela não queria comemorar a data?
Então fez vários pequenos planos para o dia. Entregaria pequenas coisas para ele, pequenas surpresas. Ele iria gostar.
E começou bem cedo. Deixou James na cama, ainda bem adormecido, e foi até a cozinha.
- Obrigada pela ajuda, Fixez. - A ruiva não parava de agradecer enquanto o elfo dava algumas instruções para outros elfos ao redor.
- Sempre um prazer, senhorita Evans. Fixez envia o pedido em 10 minutos.
Agradecendo mais cinco vezes, Lily se apressou até o aposento dos Monitores Chefes. Atiçou mais a lareira, trazendo mais calor para o lugar e começou a se livrar de qualquer coisa não romântica do ambiente, como pergaminhos de monitoria, livros de Poções, anotações de Herbologia Avançada. Afastou o sofá e as poltronas no mesmo instante que o café da manhã foi enviado para mesinha central da pequena sala.
Aquela comida toda, que estava espremida, daria para um batalhão.
Ouviu passos descalços e um pouco cambaleantes descendo as escadas. Droga, ela nem tinha voltado para o pijama de novo.
- Lils? - A voz sonolenta dele chegou até ela antes do próprio James.
- Feliz Valentine's Day. - Ela disse se apressando até ele no fim das escadas, ficando na ponta dos pés e lhe dando um beijo suave.
O sorriso dele era tão grande que ter acordado as 5h da manhã para preparar aquilo tinha valido totalmente a pena.
- Feliz Valentine's Day. - Ele repetiu com os olhos brilhantes e também a beijou.
- O que está fazendo fora da cama? Eu estava indo te acordar.
- Eu virei, tateei e você não estava lá. - Ele respondeu ainda olhando surpreso para todo o café da manhã, sem notar o sorriso dela. Lhe fazia bem ouvir que ele sentiu sua ausência ao lado dele. - Quando você preparou tudo isso?
- Agora, essa manhã. Mas não me dê todos os créditos, pois eu tive ajuda.
- Não me importo, é perfeito. Obrigado! - O agradecimento dele era tão genuíno e feliz, que aqueceu Lily.
- Vamos comer?
Puxando-o, eles sentaram-se em volta da pequena mesa e pelos minutos seguintes, aproveitaram a refeição com toques, beijos, abraços. James também a surpreendia com palavras doces, colocando os cabelos ruivos para trás e beijando seu pescoço inocentemente, apesar de causar arrepios nela. Era um típico café da manhã deles, assim como tinha sido o primeiro em sua casa.
Havia começado bem. Agora começariam as pequenas coisas do dia.
Durante a aula de Transfiguração na parte da manhã, ela sentou-se duas fileiras atrás de James e Sirius, o que nunca ocorreu. O namorado até enviou um olhar desconfiado ao vê-la ali, mas não comentou.
- Você conseguiu preparar tudo a tempo? - Marlene perguntou enquanto também observava James. O maroto conversava animadamente com Sirius enquanto colocava seus livros em cima da mesa.
- Sim, consegui. O café da manhã foi quase por água abaixo, mas no fim, deu certo.
- O que devemos esperar agora?
- Ele abrir o livro de Transfiguração.
O feitiço que ela colocou ali deveria funcionar no momento que ele o abrisse, não importando a página. A qualquer momento aconteceria...
Dez minutos se passaram e James não abria o maldito livro. Começou a ficar impaciente. A professora deu todos os detalhes sobre a dissertação que esperava deles, indicou a página que deveriam ler, mas James Fleamont Potter não tocou no livro. Aquele cara simplesmente escrevia a dissertação sem olhar para uma linha de texto.
Inferno de garoto inteligente!
- Que diabos! - Ela comentou com Marlene. - É sério isso? - Apontou para James.
- Você subestimou a inteligência do próprio namorado.
- Não é possível que ele consiga fazer isso sem dar uma olhadinha sequer. É muito complexo.
- Não para ele, aparentemente.
Grunhiu. Uma surpresa a menos. Ou melhor: uma surpresa que poderia vir na hora errada.
- Ok. Bom, ainda há outras.
Ao terminarem o horário duplo de Transfiguração - sem James abrir o livro uma única vez -, Lily saiu da sala um pouco desapontada.
- Algum problema? - James perguntou ao ver sua expressão.
- Não. Nenhum problema.
- Não me parece.
- O quanto você sabe daquela matéria, James? - Ela perguntou sem rodeios, deixando-o confuso sobre o assunto repentino.
- Transfiguração ? Muito.
- Até sobre as leis de Transfiguração que estávamos estudando?
- Acho que sei o bastante. Por quê?
- Você é um chato! - James levantou uma sobrancelha e riu. - Te vejo no almoço, preciso correr para Runas.
Antes que ela pudesse se virar, James a beijou. Não um selar de lábios como despedida, mas um beijo que a fez agarrá-lo pelo pescoço e ficar um minuto apenas colada a ele.
- Te vejo no almoço. - Ele repetiu ao se separar dela.
- Sim. - Ela respondeu ainda tonta.
Sorrindo como o maroto safado que era, ele foi em uma direção, enquanto Lily pegava o corredor contrário.
Ah Merlin. Era aquilo que ela queria!
Sentiu que foi voando até a sala, quando deveria ter corrido. Aquilo, aquela coisa simples, um beijo de tirar o fôlego, era tudo o que ela queria. O dia inteiro.
- Frank me deu flores. - Alice comentou ao seu lado, tão aérea quanto Lily. - Acordei com flores voando em volta da cama. Rosas vermelhas.
Lily riu da cara de apaixonada da amiga. Era exatamente o que Alice gostava: o romance tradicional com flores, declarações, uma carta com poema, um Frank de joelhos na sua frente. A última parte ainda não havia chegado, mas chegaria.
- Aposto que ele tem mais coisas na manga.
- Será?
- Nos outros Valentine's Day, ele sempre te encheu de coisas. Do jeitinho que você gosta. - Lily apertou a bochecha da amiga. - E vocês irão jantar mais tarde, então ele vai te encher de mimos.
- O que James fez?
Como ela poderia explicar? Dizer que ele foi maravilhoso durante o café da manhã ou que deu um beijo surpreendente no meio do corredor? Para Alice, aquilo seria tão normal.
Para Lily, foi tão especial.
- Ele foi James. E foi perfeito.
- Hmmmm. - Alice riu, maliciosa. - Imagino.
Não, ela não imaginava.
Na hora do almoço, os amigos comeram juntos enquanto assistiam as típicas cenas do dia se desenrolarem no Salão Principal. Um corvino trouxe um urso gigante para a namorada, fazendo a garota rir um pouco desconcertada. Um sonserino levou um tapa no rosto de uma sonserina após tentar roubar um beijo. Um outro casal brigou, aos gritos, fazendo a garota sair quase correndo.
Um típico Valentine's Day em Hogwarts.
- Como é bom ser solteiro. - Sirius comentou.
- Quando as coisas estão ruins assim, sim. - Peter respondeu.
- Quando estão boas, também. - Sirius retrucou. - Não é mesmo, McKinnon?
Marlene levantou o olhar.
- Perdão?
- A solteirice. É uma maravilha, não?
- O que você quer, Black?
- Uma concordância?! - Sirius riu.
- Por que você não perguntou isso para qualquer outra pessoa?
- Porque Remus, apesar de afastar as pessoas, gostaria de ter alguém. - Remus lançou um olhar destilado de veneno na direção do amigo. - Peter nem pensa muito nisso.
- Penso sim. - O maroto se defendeu.
- E você é a única solteira restante no grupo. - Sirius continuou, ignorando Peter.
A garota apenas abaixou o olhar de volta para o prato.
- Há solteirice e solteirice. Algumas são boas, outras nem tanto. - Ela respondeu.
- Qual é a sua atualmente? - Sirius apoiou o rosto na mão.
- Quem disse que eu estou solteira?
Lily sabia que ela estava, mas tentou não reagir àquilo, assim como Alice. Os únicos que tiveram qualquer reação foram os marotos e Frank.
- Você não está solteira? - Peter perguntou, surpreso.
Marlene apenas deu de ombros, sem responder.
- E você está aqui conosco no almoço? Talvez essa pessoa não seja lá muito romântica. - Disse Sirius.
- Valentine's Day precisa apenas de romance? São só corações e flores para você?
- Touché. - Sirius jogou o corpo para trás, a observando. - Caso a pessoa não dê as caras hoje, saiba que eu estou disponível.
- Por ser dia 14 de Fevereiro, você tem coisas diferentes para oferecer?
- Cada feriado, um menu especial, querida.
Os amigos apenas ouviam e sorriam. Era sempre assim com os dois: flertes pesados, piadas sujas e, de repente, cada um ia para um lado. Desde os últimos meses de 1977 em que tiveram um caso rápido, eles voltavam para as provocações. Lily não entendia muito bem o que ocorria, já que Marlene tinha deixado bem claro que Sirius era um cara que a tirou do chão.
Provavelmente tudo ainda estava conectado com Fabian Prewett e como ela quebrou o coração do corvino.
Sorrindo como uma diaba, de um jeito que apenas Marlene conseguia, ela levantou da mesa.
- Quem sabe? - Ela disse e se afastou deles. Sirius a seguiu com o olhar, quase babando.
- Eu devo ir atrás dela? - Ele perguntou para ninguém específico.
- Não! - Lily e Alice responderam ao mesmo tempo. - Melhor esperar. - Alice explicou.
- Certo. Bom, não tenho nada melhor para fazer mesmo.
Se Marlene não estivesse interessada, teria cortado a brincadeira, mas deixou uma possibilidade aberta. Para Lily, aquilo significava que a amiga iria mais do que aproveitar a possibilidade mais tarde.
Ao fim do almoço, Lily foi para o quarto sozinha enquanto todos os outros seguiam para outras aulas, já que era a única com horário livre. A outra surpresa para James deveria ocorrer agora, na Herbologia Avançada. Ele deveria apenas, simples e apenas tocar no kit de Herbologia que tinha dentro de uma bolsa. Ele TINHA que usar o kit, diferente do livro de Transfiguração.
Pelo amor, ele não iria cavar terra com as mãos! Ou mexer em plantas venenosas sem as luvas ou qualquer outra coisa do tipo.
Ela pegou seu pergaminho com anotações de Feitiços e o livro. Tinha um feitiço muito importante que iriam treinar hoje e ela queria aperfeiçoá-lo, já que errou muitas vezes na semana passada. Tinha que dar certo dessa vez.
Quando estava bem concentrada por um tempo, uma melodia invadiu o quarto. A música vinha lá debaixo e estava bem alta. Ela conhecia aqueles acordes e percebeu que a música foi modificada para ficar nos acordes iniciais por um bom tempo, como se a chamasse.
Sem se importar em colocar os sapatos e indo apenas de meia, ela desceu apressadamente as escadas. Ao fim delas, se deparou com os móveis todos no canto e James no meio da sala, com as mãos nos bolsos. Assim que a viu, ele esticou uma mão, a convidando. Sem esperar nem mais um segundo, ela foi em sua direção.
James a pegou em seus braços e a colocou em posição de dança, mas não esquecendo de fazer um gesto para o rádio antes, liberando a música da melodia inicial e deixando a música começar de verdade.
Nos primeiros versos, eles dançaram lentamente, os olhos fixos um no outro, um sorriso nem um pouco pequeno e uma aura um pouco misteriosa.
Listen, baby.
Ain't no mountain high, ain't no valley low, ain't no river wide enough, baby.
If you need me, call me, no matter where you are, no matter how far.
Don't worry, baby
Just call my name, I'll be there in a hurry, you don't have to worry
- Preparada? - Ele perguntou.
- Sim.
Cause baby there ain't no mountain high enough
Ain't no valley low enough
Ain't no river wide enough
To keep me from getting to you, baby!
Naquele refrão, James a conduziu perfeitamente para uma dança animada, com direito a Lily rodando no lugar, sendo lançada para trás e voltando para ele, James girando a ambos. Ela ria à vontade, a mais feliz do mundo, amando cada passo, cada risada do próprio James e do cuidado que teve com ela.
-Remember the day I set you free, I told you could always count on me, darling. From that day on, I made a vow: I'll be there when you want me some way, somehow. - Ele cantou com Marvin Gaye enquanto continuava a dança com ela, impressionando Lily com o nível avançado de dança que ele possuía. Na Slug Party, ele havia demonstrado que sabia dançar e explicado que por ser de uma família tradicional bruxa, ele teve que aprender, mas não imaginava que ele era tão bom.
Por toda a música, ela foi guiada perfeitamente, dançando de um jeito que nem sabia que podia. As mãos de James, aquelas mesmas que ela não cansava de dizer que sabiam como tocá-la, a fazia dançar e segui-lo de um jeito incrível.
No fim, ele a beijou, mesmo ainda dançando, deixando a música ficar cada vez mais baixa, fazendo a temperatura de Lily subir.
- Eu adorei. - Ela sussurrou.
- Bom saber.
- Agora você é fã de Marvin Gaye?
- Depois daquela música maliciosa que dançamos ano passado, eu tive que conhecê-lo melhor. Essa música, pelo menos, não fica dizendo o quanto eu quero ter você na minha cama...apesar de sempre te querer na minha cama.
Ela riu e o beijou novamente.
- E eu sempre quero estar lá.
- Continue assim. - Ele selou seus lábios. - Mas tenha também em mente o que essa música diz, porque é verdade.
- E é recíproco.
- Eu sei. - James soava verdadeiro e era sempre bom saber o quanto ele sabia tudo o que Lily sentia por ele.
Ele a soltou a contragosto de ambos e pegou sua bolsa.
- Eu preciso te deixar agora, mas prometo mais danças mais tarde.
- Eu mal posso esperar.
- Lily Evans me esperando no fim de um Valentine's Day. Isso tem um gosto tão especial.
Roubando um outro beijo dela, ele saiu apressado pelo quadro. Lily começou a ter um pequeno ataque de felicidade ali mesmo na sala, sorrindo igual uma louca por ter o melhor namorado daquela escola. Mas sua felicidade caiu quando ela viu, em cima do sofá, o kit de Herbologia.
Maldição, ele esqueceu o kit. Aquele mesmo que deveria ser apenas tocado para que a surpresa dela saísse.
Não era possível!
Se jogou no sofá, encarando-o. Talvez ela fosse ruim naquela coisa de surpreender, bem diferente dele. Ah, estava sentindo-se horrível. Ela havia preparado várias surpresas durante o dia e só conseguiu realizar uma.
Tudo bem. Ainda havia os dois horários de Feitiços mais tarde e lá, lá, James não poderia escapar. E por falar nisso, tinha coisas para estudar antes da aula e era melhor voltar à realidade.
Uma hora depois, ela sentia-se pronta para arrebentar com aquele feitiço na aula. Flitwick ficaria nas nuvens ao vê-la realizar algo que ele a ajudou tanto na semana passada.
- Monitora-Chefe! - Alguém a chamou em suas costas.
- Pois não?
Era um lufano do sexto ano, se ela bem lembrava.
- Posso acompanhá-la?
- Onde? - Lily perguntou. Estavam no meio de um corredor aleatório, onde aquele garoto queria ir?
- Até a sua sala.
- E onde é a sua sala?
- Não tenho aula nesse período.
O que diabos ele estava querendo?
- Tem algo para me dizer? - Ela perguntou enquanto retomava o caminho, o garoto a seguindo. A sala estava a duas esquinas de distância, então seria uma caminhada razoavelmente curta.
- Muitas coisas, na verdade.
- Certo. - Ela arrumou sua bolsa no ombro. - Qual o seu nome?
- Nathan Wright.
- Ok, senhor Wright. O que tem a me dizer?
- Me chame de Nathan, menos formal.
Segurou o ímpeto de virar os olhos. Ele poderia ir direto ao assunto ou não?
- O que tem a me dizer, Nathan? - Queria muito repetir seu sobrenome, mas sabia que iria apenas dar mais voltas no assunto.
- Primeiramente: você tem olhos incríveis
Ah não!
- Obrigada. Isso é tudo?
- Seus cabelos também. Você tem uma ótima personalidade, ouvi dizer. Meu amigo é Monitor e vive falando o quão legal e justa você é.
- Gentil de sua parte. - Ela tentou sorrir sinceramente. - Bom, a minha sala está logo na esquina. Nos falamos outra vez.
Acelerou o passo, mas ele acelerou o passo com ela.
- Espere, eu tenho algo para você.
Eles pararam na esquina.
- Eu não tenho muito tempo, senhor Wright! Com licença.
- Não vai demorar. - Ele tirou uma pequena caixa do bolso e a ofereceu. - Chocolates. Acho que você deve gostar.
- Chocolates?
- Sim.
- Em pleno Valentine's Day? - Ela perguntou novamente.
- Eu não me importo em lhe dar mais amanhã também, se for o caso.
Lily pegou a caixa e olhou a embalagem feita à mão. Era bem bonita e convidativa, aliás.
- Eu vou aceitar, obrigada. - Nathan sorriu um pouco demais. - Mas vou avisando que vou testar se não há alguma poção dentro. Se eu encontrar, você estará de detenção por dois meses.
O garoto abriu os olhos, assustados.
- Eu não... não há nada aí.
Ele tentou pegar a caixa de volta, mas Lily a segurou com força.
- Isso eu descobrirei mais tarde.
Girou e foi em direção a sala enquanto ouvia os murmúrios e gemidos do garoto. De verdade que ele achava que ela cairia nessa? Se fosse mais nova, tão ingênua, talvez acontecesse. Mas no sétimo ano, depois de ter visto tanta bagunça sobre poções do amor em doces em todos os anos, ela nunca cairia naquela.
- O que é isso aí? - James perguntou já sentado no seu lugar e com os olhos fixos na caixa de chocolate.
- Exatamente o que a embalagem diz ser. - Ela respondeu sentando-se em sua frente, ao lado de Marlene.
- Quem te deu esses chocolates? - Sirius perguntou.
- Um lufano que terá detenção por dois meses. - Ela colocou a caixa de chocolate dentro da bolsa.
- Você vai guardar isso? - A incredulidade estava berrando na pergunta de James.
- Apenas para averiguações mais tarde. Eu não vou comer, James. Não subestime a minha inteligência.
- A última coisa que James precisava era você comendo chocolates com Amortentia nessa altura da vida, Lilykins. - Disse Sirius. - Se apaixonar por outro cara está fora de cogitação.
- Sempre bom saber que você me dá escolhas na vida, Sirius.
- Às suas ordens!
Se virou para frente, esquecendo os dois marotos atrás.
- Qual vai ser a surpresa dessa aula? - Marlene sussurrou para ela.
- Aquela que estava programada para ser a última, mas que será a primeira, na verdade.
- Nenhuma das outras deu certo?
- Nenhuma! Eu estou possessa de raiva, Lene. Nada deu certo.
- Essa dará.
Não deu.
Lily guardou a surpresa no objeto que James deveria manipular durante a aula. Ele só precisava interagir com ele, apenas isso. Nem tocar precisava. Mas, de alguma maneira, ao invés de James treinar ou demonstrar o feitiço, foi escolhido por Flitwick para ajudar os alunos com dificuldade.
- Isso está virando pessoal! - Ela grunhiu ao ver o objeto esquecido em cima da mesa dele quando o sino tocou anunciando o fim das aulas do dia. - Não creio!
- Obrigado a todos, vocês progrediram bastante hoje. - Flitwick dizia com um sorriso de orelha a orelha.
- Hunf! - Ela bufou. - Progredimos, certo.
Pegou suas coisas e saiu da sala, cabisbaixa.
Todas - TODAS - as surpresas do dia, das aulas, não funcionaram. Ela ficou dias procurando os encantamentos certos, planejando cada momento, e nada funcionou. E pior: James devia pensar que ela apenas planejou o café da manhã - a única coisa que deu certo - e nada mais.
- Hey!
James a alcançou no corredor.
- Hey! - ela cumprimentou de volta, mas com menos entusiasmo.
- O que foi? Eu sinto que estou perguntando isso o dia todo. Ele riu um pouco.
- Nada. Nada demais. - Ela sorriu falsamente. - Eu preciso ajudar Alice a se preparar. Nos vemos no jantar?
- Claro. - James parou seu caminho, apenas a observando. - Te vejo no jantar.
Tentando colocar a decepção consigo mesma no bolso, ela foi para a torre da Grifinória ajudar a amiga, que se descabelava.
- Eu não tenho roupa adequada para isso! - Alice olhava o guarda-roupa, frustrada.
- Você tem uma tonelada de roupa, Lice.
- Não para um jantar fora do castelo.
Frank, com a ajuda dos marotos, conseguiu um jantar fora de Hogwarts para os dois pombinhos. Lily tinha uma pequena, mas forte intuição de que aquilo não seria apenas um jantar de Valentine's Day. Do jeito que os garotos estavam empenhados em ajudar, aquela pulguinha atrás da orelha lhe dizia que Frank estava indo para aquele jantar com um anel. Lily não abriu a boca sobre a sua suspeita, pois Merlin a livrasse de colocar esperanças na amiga e não ser nada daquilo.
Mas se fosse, elas teriam uma Alice alucinada de alegria depois.
- E aquele vestido vermelho que você trouxe da Irlanda depois do Natal? - A ruiva perguntou quando não viu o tal vestido pendurado.
Alice arregalou os olhos e correu para a cama, jogando seu malão no chão e o abrindo. O vestido era a única peça ali dentro, claramente esquecida, já que estava toda embolada.
- Eu esqueci dele. Ele é perfeito, perfeito para hoje.
A amiga correu para o banheiro para se arrumar. Lily sentou na ponta da cama de Marlene, enquanto via a amiga olhar pela janela.
- Algum problema? - Resolveu perguntar ao ver que Marlene estava bem fora do ar.
- Eu vou encontrar Sirius mais tarde. - Ela disse.
- Você não me parece muito empolgada.
Não obteve uma resposta rápida. Marlene continuou olhando para fora, pensando por um momento.
- Fabian ainda está mal por conta de nós, sabia? - Marlene disse do nada. Lily ficou confusa no começo, mas decidiu seguir a linha de pensamento da amiga.
- Ele te disse isso?
- Sim. Não com essas palavras, claro. Mas disse.
- E essa informação está te deixando louca por dias. - A ruiva concluiu.
- Bastante.
Marlene se afastou da janela e parou em frente da amiga.
- Ele esteve assim por meses, logo menos fará um ano, Lily.
- Lene, você não terminou corretamente com ele, isso é certo. Mas você não podia continuar em um relacionamento que você não queria. Ele gostava muito de você, então eu arrisco dizer que mesmo se você terminasse de uma maneira mais apropriada, tendo uma conversa decente, ele ainda estaria triste por vocês.
- Mas isso é muito tempo estando triste por alguém! - Ela respondeu com firmeza. - Isso deve doer muito, deve...não sei, deve apenas doer muito. Consegue imaginar isso?
Lily observou a amiga esfregar as mãos e olhar para todos os cantos do quarto. Havia algo a mais naquelas palavras, algo escondido.
- Lene, por que você não solta de uma vez o que está te incomodando tanto? Deixa isso sair, você está precisando botar para fora a sua verdadeira preocupação.
- Isso é tão egoísta. - Marlene disse baixinho.
- Apenas diga, não importa se é egoísta ou não. Não estou aqui para te julgar.
Marlene ficou ainda mais agitada, parecendo lutar tanto contra aquilo, que Lily quase deixou o assunto para lá.
- Eu tenho medo. - Ela finalmente disse.
- Do quê? - Lily perguntou.
- De acontecer o mesmo comigo!
Agora estavam chegando a algum lugar.
- Você tem medo de alguma outra pessoa te machucar como você machucou Fabian.
- Exato.
As coisas faziam sentido agora. Sirius foi o único cara com quem ela se envolveu desde Fabian. A amiga estava bem interessada, apesar de não apaixonada, e ficou brincando e flertando por um longo tempo antes de ter algo com ele.
- Você ficou com medo de Sirius? - Ao ver a expressão de confusão da amiga, ela continuou. - Medo do que ele poderia fazer com você emocionalmente. Que você começasse a gostar dele e ele levasse tudo isso apenas como algo sem importância.
- Eu não sou apaixonada por Sirius Black, Lily.
- Mas poderia ser.
- Sim, mas não é o caso.
- Eu entendo que se deixar gostar de Sirius pode ser assustador, pois convenhamos, ele não parece levar isso muito a sério. - Alice começou a dizer da porta do banheiro. Ela estava já com o vestido e parecia ter sido engomado com um feitiço, pois estava impecável. - Mas não é justo com você mesma ficar assim. O amor é uma roleta russa, não podemos dizer que vai dar certo, assim como nada na vida.
- Gente, eu não estou apaixonada por Sirius Black. Além do mais, é fácil falar isso vestida para um jantar romântico com o seu namorado perfeito.
Alice riu debochadamente.
- Frank está longe de ser perfeito. Eu o amo, mas ele não é, porque ele é uma pessoa e não existe pessoa perfeita. Talvez esse seja o seu problema: procurar a perfeição onde ela não pode existir. Nem vinda de você e nem vinda de outra pessoa. É uma expectativa muito alta e perdida, que só vai te trazer tristeza.
Lily apenas assentiu, concordando com a amiga. Marlene cruzou os braços.
- Eu não quero perfeição, apenas não quero dor.
- Isso é ainda a busca por algo que não existe, Lene. - Disse Lily.
- Você teve perfeição até o momento, não teve o coração quebrado. - Marlene a acusou.
- Mas não por ter evitado as pessoas. Eu tive meu coração quebrado por alguém...
- Snape não conta. Urgh! - Marlene fez um sinal de vômito.
Olhando para Alice, as duas apenas menearam a cabeça. Não tinha como convencer Marlene com aquele estado de mente, então era melhor apenas seguir em frente.
Elas ajudaram Alice com um pouco de maquiagem, um bom perfume e escolheram seus sapatos. Quando estavam à procura dos acessórios, Lily disse que anéis não iriam combinar com o look, então melhor ir apenas com um colar simples e os brincos.
Melhor deixar a mão livre, para caso algo chegasse naquela noite.
Após deixar as duas amigas, uma delas bem pronta para o jantar, ela saiu da torre em direção ao seu dormitório. Trombou com alguns alunos que mereceram umas boas broncas pelas brincadeiras pesadas, um ou outro casal se beijando, um ou outro casal brigando; confiscou uma caixa de chocolate que estava sendo entregue de maneira suspeita...
O castelo estava em polvorosa.
Deu a senha para o quadro e se deparou com James saindo.
- Aí está você. Estive te procurando.
- Você poderia me encontrar com o mapa, não?
- Não está comigo. - Ele sorriu e pegou a mão dela. - Vem.
- Onde vamos?
- Lá em cima.
- Mas o jantar...
- Você está com fome? - Ele parou o caminho e olhou para ela.
- Na verdade, sendo bem sincera, não.
- Então vem.
Eles subiram rapidamente. Senhor Merlin, aquilo tudo era vontade? James nunca a arrastou daquele jeito para que tivessem algo. Mas ao chegar no quarto, James apenas os jogou na cama e a abraçou forte, enfiando seu rosto no pescoço dela e se aconchegando.
- O que está fazendo? - Ela perguntou rindo um pouco. - Não que eu esteja reclamando.
- Não é sempre que eu não sei o que fazer, então achei melhor fazer algo que sempre fazemos bem: se enrolar um no outro.
Ela riu um pouco mais, forçando James a segurá-la mais forte.
- O que você não está sabendo fazer, James?
- Essa coisa toda de Valentine's Day.
Lily se afastou um pouco, tentando encará-lo.
- Você está brincando, certo?
- Nem um pouco. Você estava toda pra baixo quando saiu da sala. Eu fiz algo errado, né? Ou algo que você não queria, ou não fiz algo que você queria. - E ali, James entrou em uma estrada de tagarelice nervosa. - Olha, eu ouvi quando você falou com as garotas sobre o dia de hoje, sobre você não curtir, etc. Mas você sabe como eu sou, não? Eu não poderia deixar esse dia passar em branco. Então ouvindo o que você queria, eu tentei colocar os beijos, uma música...eu estava preparando mais beijos, mais músicas, mais danças com você colada em mim, uma banheira enorme com todas as bolhas e odores que você desejasse, mas ao mesmo tempo, eu não queria te cobrir de coisas, já que você não gosta de Valentine's Day.
James recuperou o fôlego e Lily viu a brecha para poder falar.
- Você foi exatamente o James que eu amo. Foi delicioso o seu beijo, foi delicioso dançar com você...está sendo delicioso ficar aqui com você. Eu, de fato, não sou muito entusiasta dessa data, mas você me fez sentir aquela chama especial no peito com essas pequenas ações. E eu não preciso de mais, eu não quero mais. Quero apenas ficar aqui com você.
Ela o abraçou forte, seu rosto deitado no peito dele. Estar ali, sentir o cheiro dele, aquele cheiro de limpo, sabonete que ela tanto amava, era a melhor coisa do mundo. Mesmo tendo o namorado mais romântico do mundo, aquele que poderia ter feito mil e uma coisas por ela, era aquele momento que era tão esperado por ela: apenas eles ali, na cama.
- Porém...- ela continuou. - Você esquivou-se de todas as minhas surpresas hoje, James. Eu fiquei frustrada por isso, mas apenas por pensar que você acharia que eu não queria fazer nada para você.
- Você fez surpresas para mim? - A voz dele estava tão empolgada.
- Sim, mas eu sou péssima nelas, aparentemente. Então não se assuste caso algo ocorra quando você abrir um livro, tocar em algum kit específico nas próximas semanas, ok?
James suspirou e mais parecia de alegria do que decepção.
- Eu vou amar tê-las em qualquer momento nos próximos dias.
E James as teve. Apesar dele não saber qual livro e kit de qual matéria ele encontraria, ele as encontrou, o que causou risos nos alunos ao redor. Lily ria, pois tinha feito algo para chamar a atenção, que deveria quase ser vergonhoso para ele, mas James nunca se escondia, nunca tentou parar as surpresas, nunca se esquivou. Ele deixava tudo terminar, os olhos brilhando, até apontar para o que quer que fosse e gritasse:
- Foi a minha namorada! Lily, a minha namorada. Ela não é linda?
O que causava as bochechas vermelhas de Lily quando as pessoas viraram suas atenções para ela.
Bem, o que ela tinha na cabeça quando pensou ser capaz de vencer qualquer guerra contra James Potter, o maroto? Principalmente em um campo onde ele dominava?
Aceitou sua derrota: Valentine's Day não era para ela e nos próximos, ficaria muito contente apenas em beijar e dançar até cansar com James. Para sempre, beijar e dançar com James.
Ah, para ficar registrado: Alice estava noiva!
10 DE MARÇO 1978
Março foi o mês da primeira briga. A oficial. Remus sentiu-se honrado por ter sido em sua festa de aniversário.
A porta do aposento dos Monitores Chefes abriu e Lily entrou batendo os pés. James vinha logo atrás, um pouco cabisbaixo.
- Lily! - Ele a chamou, mas a ruiva se lançou nas escadas e subiu, fechando a porta do quarto com força.
Ok, ele entendeu. Ela estava furiosa. Não que tivesse alguma dúvida desde quando saíram da festa, mas ela não estava transparecendo para os outros. Agora ela já não precisava esconder.
O maroto subiu as escadas e virou para o seu quarto querendo conversar, mas qual foi a surpresa ao perceber que ela não tinha ido para o quarto dele, mas sim o dela. Ah, inferno.
- Lily. - Chamou do meio do corredor. Recebeu um grande silêncio de volta.
Admitindo a derrota e ele mesmo estando um pouco nervoso, foi para o quarto, fechando a porta. Olhando ao redor, só podia pensar que aquilo estava errado. Não era apenas o seu quarto mais. Por três meses, aquele quarto era deles. Todas as suas coisas estavam ali, tudo o que ela precisava estava ali.
Além do mais, eles gostavam de dormir juntos. As noites em que um ou outro dormia na torre da Grifinória, em seus velhos quartos, era horrível. Muitas vezes, James voltou para ela no meio da noite e muitas outras, Lily também o fez.
Ela iria voltar e iriam conversar. Não gostariam de ficar brigados e nem dormir separados, não mais.
A porta abriu de supetão e James se virou, quase surpreso por ter sido tão rápido.
Mas Lily mal olhou para ele. Apenas foi até a mesa de cabeceira e pegou o porta-retrato de sua família e deu as costas, fechando a porta logo em seguida. James ficou olhando para o vazio sem acreditar.
Se ela queria assim, que fosse. Sabia que Lily voltaria ali...era mais forte do que ela, mais forte do que ele. Se ele mesmo pudesse entrar em seu quarto, ele faria. Ele tentaria, pelo menos, e caso ela não o quisesse ali, ele sairia.
Mas ela voltaria. Certo? Certo.
Tomou um banho rápido e se jogou na cama. Lily viria e eles conversariam. Sobre o quê? Honestamente, ele nem se lembrava. Tinha sido uma briga tão besta, por algo tão pequeno, que ele não conseguia lembrar mais do que se tratava.
Riu por um momento. Eles estavam brigados por algo que ele nem se lembrava mais. Que besteira. Isso lhe deu mais a confirmação de que ela voltaria. Deitou no seu lado da cama, deixando o dela livre. Lily voltaria.
A qualquer momento.
Quando James acordou com a claridade dando um tapa no rosto, ele automaticamente rolou na cama, pronto para abraçar Lily. Mas ela não estava ali. Levantou a cabeça e conferiu que o travesseiro estava intacto.
- Merda, ela não voltou.
Jogou a coberta para o lado, se arrumou na velocidade da luz e saiu do quarto. A porta de Lily estava aberta, então ele se aproximou, imaginando ser um sinal de que ela estava pronta para conversar.
- Maldição.
O quarto estava vazio. A cama estava um pouco desarrumada, confirmando que ela dormiu ali. Ouviu um barulho no andar debaixo e foi para as escadas.
- Lily? - Ele chamou enquanto descia. - Evans!
Ao invés de olhos verdes, James se deparou com olhos cinzas sonolentos o encarando de volta.
- Que barulheira. Tinha esquecido que você era tão elétrico de manhã. - Sirius bocejou e se espreguiçou.
- O que você está fazendo aqui?
- Eu passei a noite aqui.
- Por quê?
- Porque vocês saíram brigados no meio da festa do Moony. Imaginei que duas coisas poderiam ocorrer: vocês se reconciliarem ou ela te matar. Então achei melhor ficar por perto e amenizar as coisas, caso voltassem naquelas brigas de antigamente. Mas talvez eu estivesse errado, pois você ainda está vivo e não me parece feliz. Existia uma terceira opção, afinal.
- Sim, existia. Você a viu passar?
- Não.
- Você esteve aqui para caso algo ocorresse e não viu quando algo ocorreu?
- Não, eu dormi.
Genial!
- Você está com o mapa?
- Também não. Está com Moony.
- Você serve para alguma coisa nessa manhã, Padfoot?
- Ai, isso doeu. Eu sirvo para muitas coisas e nesse momento, seria para te levar para o café da manhã. Estou faminto, aposto que você também. Além do mais, Lily deve estar lá.
O seu humor acabava de ficar bem ruim, o que não era muito comum. E nem muito legal.
Saiu pelo quadro e quase deixou-o bater em Sirius.
- Você não vai tomar banho e trocar de roupas? - O Monitor-Chefe perguntou quando deu uma rápida olhada em Sirius e confirmando que ele foi mesmo da festa de Remus para o sofá deles logo depois.
- Eu não ligo muito para quando as pessoas estão de mau humor, a não ser você e Remus. Vocês dois ficam insuportáveis, de verdade. - Sirius passou a mão no rosto. - Uma dor na bunda, enorme. Eu prefiro cortar as minhas bolas fora.
James queria responder, mas achou melhor ficar quieto. Descia as escadas com os passos largados, sem vontade, mas seus olhos bem atentos para qualquer cabelos ruivos que poderiam passar pelos corredores ou nos outros lances de escadas. Como era Sábado, não se via muita movimentação naquela hora da manhã, porém sempre havia alguns alunos matutinos aqui ou ali. Mas nada de Lily. Havia uma enorme chance dela estar na torre da Grifinória com as garotas.
Olhou para o lado quando ouviu uma risadinha.
- Qual o problema? - Perguntou.
- É bonitinho. - Sirius respondeu ainda com aquela risadinha.
- O que é bonitinho?
- Vocês dois. A primeira briga como casal, não? Eu não lembro de nenhuma outra. - James soltou todo o ar e acelerou o passo, deixando Sirius para trás. - Vai dizer que não é? Primeira briga do casal Potter-Evans foi no aniversário de 18 anos do Moony. Algo interessante para contar para os meus sobrinhos. - James continuou ignorando o amigo. - Claro, se vocês não terminarem e irem cada um para um lado.
Ele freou.
- Cala a boca, Sirius!
Aquilo nem estava em debate. Foi apenas uma briga e muito boba, por sinal. Eles iriam apenas conversar e se acertar, e Lily voltaria para o quarto e eles dormiriam por 48h seguidas para recuperar aquela noite que não passaram juntos e brigados. E ele iria acordar abraçado à ela, como ele sempre fazia, e teria o cheiro de Lily nele, um pouco de cabelo ruivo em seu rosto e tudo estaria normal novamente.
Quando entraram no Salão Principal, ele focou diretamente na mesa de Grifinória.
E lá estava ela. Seus olhos se encontraram e James imaginou que assim como ele a procurava por todo o lugar, Lily devia estar de olho na porta todo esse tempo, apenas esperando o momento que ele chegasse. A única coisa que James não esperava, era que ela se levantasse tão abruptamente.
Os dois marotos continuaram na direção das garotas e Lily jogou suas pernas para fora da mesa. Eles ainda se encaravam como se não houvesse mais ninguém em volta. Lily começou seu caminho até ele e era claro para qualquer um capaz de enxergar que ela ainda estava morta de raiva. Talvez ele ouviria umas tantas e boas na frente de toda aquela gente agora e...
Lily passou direto por eles, desviando o olhar de James no último momento e continuando o seu caminho para fora do Salão. Ele parou e olhou para trás, assistindo Lily desaparecer pelas portas.
Maldição!
- Bom, sem sobrinhos, então. Tem algum plano B? Alguma outra garota a qual pode ter um patrono complementar ou algo do tipo?
Agora ele não estava de mau humor, estava de terrível humor. A raiva...a raiva que sentia era um pouco doida. Mas não com raiva de Lily, mas da situação. O que tinha acontecido? O que ele deixou passar?
Antes de sequer pensar em se virar para a mesa ou decidir ir atrás de Lily, Marlene e Alice passaram por ele sem nem o cumprimentarem.
- A coisa está feia, Prongs. As amigas não estão falando com você.
- Não diga, Doutor Óbvio. Tem alguma coisa nova para dizer? O céu é azul, Moony é um lobisomem?
- Você é uma dor na bunda, eu já te falei?
- Já!
Mas dor na bunda foi o que James sentiu depois do almoço, pois o boato de que o relacionamento dos dois havia acabado chegou aos seus ouvidos.
- Quem disse isso? - Ele perguntou enquanto se levantava da grama. Os quatro marotos estavam encostados em sua típica árvore no jardim, a mesma em que ele dormiu encostado com Lily no ano passado.
- Aparentemente, um monte de gente. - Frank respondeu. - Como eu não te vi a manhã inteira, eu pensei que fosse real. Alice está no quarto trancada com todas as garotas e eu só obtive informações das fofocas.
Será que Lily tinha dito durante o café da manhã que eles haviam terminado e alguém ouviu?
Não, ela não faria isso.
- Frank, você acabou de quebrar James. - Remus comentou enquanto cutucava o amigo, fazendo James reagir.
- Preciso consertar isso. Lily Evans não terminou comigo e nem o contrário. OUVIRAM? - Ele gritou para os alunos não muito longe dali. Os quintanistas olharam para ele e se afastaram, cochichando. - Inferno!
Subiu os jardins bem determinado, deixando os amigos para trás. Como ele não tinha recebido o memorando de que estava tudo terminado? Não! Não estava nada terminado. E se estivessem...calma, ele tinha que pensar em tudo o que poderia dizer para Lily, porque Merlin, ela não podia deixá-lo.
No sentido literal, sim, ela podia. Mas ela não iria destruir seu coração assim, iria? Eles poderiam conversar, colocar tudo no lugar. Lily diria o que ele fez de errado, coisa que ele não lembrava, e se acertariam.
Pelo amor de Merlin, aquilo tinha que dar certo. Seu peito estava apertado agora. E se não desse? E se Lily quisesse mesmo terminar? E se tivesse que dividir aquele aposento dos Monitores-Chefes com ela até o fim do ano letivo, ouvindo o chuveiro, vendo-a todos os dias tão perto...talvez até saindo com outro cara.
Iria chover de caras aos pés dela!
- Foda-se!
Acelerou o passo ao entrar no castelo. Enquanto subia as escadas e ia até a torre da Grifinória, o "passo apressado" virara uma "leve corrida", que escalou para "corrida" até o quadro da Mulher-Gorda.
- Monitor-Chefe, como está?
A voz do quadro estava com a pura pena. Até o quadro estava sabendo daquilo?
- Diabretes! - Ele disse a senha, impaciente.
- Claro, querido, claro. Entre.
Olhou para o quadro, inconformado. Que diabos. Tudo o que menos precisava agora era ver uma pintura com pena dele.
Entrou na sala comunal e foi para as escadas do dormitório masculino. Estava mais do que na hora de resolver aquilo.
L~J
Algumas árvores já começaram a florir e trazer um pouco de cor para o terreno da escola. Com o sol de Março, o lago ficava bonito e quase a convidando para um mergulho.
Ouviu uma comoção no corredor. Lily desviou a atenção da janela do quarto feminino do sétimo ano e olhou para a porta, assim como Marlene e Alice.
E ela sabia. De alguma forma, ela sabia o que estava causando o alvoroço do lado de fora, as garotas em polvorosa, as risadas, os assovios...não precisava ser um gênio.
Três batidas na porta só confirmaram. Ela reconhecia tudo dele, até as batidas na porta.
Marlene fez menção de atender, mas Lily fez um sinal de que ela lidaria com isso.
O rosto dele estava diferente. Lily levou meio segundo para entender que o que via de diferente era uma expressão nova de James Potter: o temor. Ele tinha os olhos mais abertos do que o normal, sua boca estava longe de conter qualquer traço maroto. Estava branco, quase pálido.
Era diferente do olhar de medo que já viu nele quando envolvia ataques ou algo do tipo. Era diferente, quase um medo inocente, infantil.
- Você e eu...- Ele começou e, apesar da expressão de temor, sua voz estava firme. - Conversar. Em algum lugar reservado. Por favor.
Lily cruzou os braços e olhou ao redor, para todas as garotas que o encaravam ali, perguntando-se como diabos ele conseguiu chegar até o andar de cima. Isso era algo dos Marotos que Lily ainda não tinha conhecimento, aliás.
- Agora? - Ela perguntou.
- Sim. Te espero lá embaixo.
Ele deu as costas e saiu entre as grifinórias de todas as idades, se dirigindo para o fim do corredor ao invés da direção da escada.
- Boa sorte. - Alice disse logo atrás de si.
- Não acho que ela precise. - Marlene comentou.
Se despediu das amigas e desceu as escadas sob os olhares curiosos. James descia as escadas do dormitório masculino.
De alguma forma, os dormitórios se conectavam e eles descobriram. Um perigo, se alguém perguntasse o que ela achava sobre isso. Não podiam subir as escadas, mas havia um jeito de burlar pelo próprio dormitório masculino? O que as pessoas responsáveis pelo castelo tinham na cabeça? Ou melhor: eles sabiam que aquela possibilidade existia?
- No quarto? - Ele indicou com a cabeça a saída da sala comunal, deixando claro que gostaria que fossem para o aposento dos Monitores Chefes.
- Claro.
Ele saiu primeiro, deixando o quadro aberto para ela. Nos corredores, ele estava dois passos na frente, evitando contato visual. Lily suspirou, imaginando que seria uma conversa nada legal.
Assim que chegaram, James se recostou em sua mesa e cruzou os braços, a encarando.
- Eu sei que vou soar um imbecil neste momento, confesso, mas preciso perguntar isso. - Lily parou a sua frente e esperou. James bagunçou os cabelos com as duas mãos antes de fita-la novamente. - Lily, o que aconteceu?
Ela arregalou os olhos.
- Como assim?
- O que aconteceu? Honestamente, eu não sei. Estamos brigados e eu nem sei o porquê.
- Bem, eu estou surpresa.
- Por quê?
- Por você não se lembrar.
- Eu realmente não lembro, apenas de que estávamos discutindo na festa e viramos a cara. Deve ter sido por algo bem idiota por eu não me lembrar.
Lily começou a rir, fazendo o queixo de James cair. Ela riu um pouco mais e sentou-se no braço do sofá.
- Eu não acredito. - Ela disse.
- Podemos deixar a ironia de lado? Seria tão legal resolver esse problema. - James cruzou os braços novamente. - Hogwarts está falando que terminamos. As pessoas estão me olhando com pena!
Na última frase, Lily riu ainda mais, fazendo o cenho de James franzir profundamente.
- Lily! - Ele pediu, nervoso.
- Desculpa, mas...ah Merlin. Como dizer? - Ela enxugou uma lágrima de riso. - James...pff... desculpa. James, escute.
- Eu estou escutando. Escutando a sua risada. Qual a graça nisso?
- Não tem. - Ela segurou o riso.
- Então por que você está rindo?
Ela respirou fundo algumas vezes, tentando se acalmar. Levantou e foi até ele, parando bem próximo.
- Porque eu não faço a mínima ideia do que aconteceu também.
O maroto ficou parado, olhando para ela.
- Desculpe?
- Isso mesmo o que ouviu: eu não lembro o que aconteceu. Estávamos bebendo, comemorando. Me lembro de dançar com você e depois...entrando aqui com você, furiosa. Você estava furioso comigo também.
- Espera, espera. - Ele levantou as mãos no ar. - Você não lembra?
- Não.
James se afastou da mesa, passando por ela e indo até a lareira. Ficou por ali por uns dois minutos, pensando.
- Eu pensei que a briga tinha sido tão boba, que eu nem lembrava o motivo. Mas você me dizendo que não lembra, muda tudo. Isso não é problema de memória...
- Mas uma poção! - Lily completou por ele, parecendo entender tudo. Agora via sentido nas coisas.
Desde ontem, Lily pensava que eles tinham brigado, que James estava nervoso com ela e não queria conversa, o que a fez ficar furiosa. O motivo? Não conseguia lembrar. Podia jurar que tinha sido a cerveja amanteigada, mas não bebeu tanto, longe disso. Porém, ela não bebeu apenas cerveja amanteigada...
- As bebidas! - Eles disseram ao mesmo tempo. - Aquelas bebidas que aquela garota nos deu, dizendo que estava indo embora e não queria desperdiçar. - Lily terminou a frase.
Não sabia o que podia ter sido exatamente, pois foi um efeito um pouco bizarro. Conhecia poções que podiam causar certas discórdias, aflorar um lado violento, explosivo, mas algo que apagava a memória enquanto fazia as pessoas brigarem?
- Não consigo ver o que poderia ser. - Disse ele, também tentando achar uma explicação.
- Eu também não. Pode ser tanta coisa, até mais de uma poção misturada.
Ela podia dizer que achou que demorou bastante para que alguém brincasse com eles ou tentasse criar discórdia. Eles, de fato, viraram um casal visado no castelo, com olhares de "até que enfim" com "o que ele/ela está fazendo com ela/ele?". Recebia olhares tortos de algumas garotas e sempre soube lidar com aquilo, já que tinha consciência de estar com um garoto popular e bonito.
- Isso quer dizer que eu não estou solteiro?
Seus olhos voltaram para ele.
- Essa pergunta é feita com pesar ou alegria? - Ela levantou uma sobrancelha e sorrindo de lado.
- Adivinha! - Ele veio até ela com um sorriso brincalhão. Seus braços a puxaram para ele e James selou seus lábios.
- Acho que um pouco de alegria.
- Um monte de alegria. - Ele a pegou no colo, fazendo Lily soltar um pequeno "ah" surpreso. - Quantas horas você dormiu hoje?
- Umas cinco, eu acho.
- Então agora vamos subir e ficar cinco horas naquela cama. Você me deve isso, Evans.
- Quantas horas você dormiu? - Ela perguntou de volta.
- Talvez umas sete.
- Então depois das cinco horas, vamos adicionar mais sete. E não, adicionar duas horas nas cinco não será o suficiente.
- Eu nunca daria essa ideia estapafúrdia
James a levou para cima, cumprindo sua promessa. Ninguém de Hogwarts os viu até a manhã seguinte.
E o casal passou pela primeira briga sem maiores problemas, mesmo sabendo que alguém havia interferido...
...E sem descobrir que aquela bebida batizada com uma poção que deveria causar uma discórdia irreparável com quem bebesse, não funcionou como deveria, pois assim como Amortentia, ela também não funcionava com almas gêmeas.
27 DE MARÇO 1978
Ela percebeu quando ele se remexeu, parecendo ansioso e receoso.
- Você tem certeza disso, Lily?
- Absoluta.
- Como você sabe fazer isso?
- Porque eu aprendi, oras.
- Quando, com quem?
- E isso importa?
Pela expressão dele, importava.
- Não... exatamente. Quando aprendeu?
- No verão. Não nesse último, claro.
- E você sabe bem manejar enquanto usa?
Lily revirou os olhos.
- Sim. Eu sei exatamente o quê e como eu tenho que fazer. Eu não vou te machucar e, no fim, você vai pedir por mais.
- Veremos. - Ele murmurou.
Ela riu enquanto girava a chave e ligava o carro.
Era o aniversário de James e tudo o que ela queria, era tirar o maroto do castelo. Não para afastá-lo de ninguém ou não deixá-lo comemorar com os amigos. Na verdade, Sirius e Remus deram a ideia para ela do que fazer.
No ano passado, James havia dito que gostaria de ter um aniversário trouxa, com tudo o que tinha direito. Os marotos a avisaram e disseram que parecia destino os dois estarem juntos agora e que ela poderia realizar essa vontade dele.
- Você tem a licença para sair girando esse volante entre os outros carros? - Ele perguntou.
- É a terceira vez que você me pergunta isso. - A ruiva se permitiu rir.
- Eu queria apenas me certificar.
- Três vezes. Você quer se certificar três vezes. - O carro começou o seu caminho e James, não tão discretamente, pousou sua mão no banco e o apertou. - Potter, francamente. Eu voei em alta velocidade com você e na primeira vez, eu não parecia nem metade assustada quanto você está agora.
- Eu não estou assustado.
- Está quase tremendo os dentes.
- Eu não tremo os dentes de medo, Evans!
- Você está agora. - Ele soltou um palavrão, fazendo Lily rir. - Já escolheu o filme?
- Sim.
E ele teria direito a ir ao cinema, sendo levado por Lily em um carro trouxa que Fleamont conseguiu arrumar com um amigo do departamento de Artigos Trouxas.
- Sim. Aquele dos homenzinhos fora da terra.
- Hã?
- Você me mostrou o cartaz, lembra? Explicou toda a coisa dos homenzinhos verdes que moram fora da terra.
- Ah! - Ela riu. - Foi uma explicação um pouco ridícula dos extraterrestres. Não creio que eles sejam assim neste filme. Vimos apenas o cartaz.
James falava sobre "Contatos imediatos do terceiro grau". No cartaz, havia uma grande nave espacial e Lily explicou sobre a crença dos extraterrestres e que eram, normalmente, caracterizados como criaturas verdes. James explicou que os bruxos não tinham nada daquilo, apesar de ouvir uma coisa ou outra sobre e de como muitos deles usavam essa crença trouxa para acobertarem alguns feitos dos trouxas: luzes estranhas no meio da noite, alguns problemas em propriedades alheia, etc. O mundo bruxo tinha que usar de subterfúgios e aquilo era sempre útil. Apesar deles mesmos não negarem ou afirmarem a existência de vida fora da terra.
- Então assistiremos esse?
- Sim, por favor.
Antes de entrar no carro e agora que estava acostumado com ela dirigindo, ele exalava felicidade. Nunca imaginaria que a vontade do maroto para o seu aniversário de 18 anos seria um dia todo trouxa.
Assim que chegaram no cinema e compraram os ingressos - cujos James fez questão de pedir e guardar com ele -, eles foram até o estande de pipoca.
- Uma doce e outra salgada. Alguns chocolates também seriam legais. - Ele apontava. O vendedor apenas pegava tudo o que ele apontava. - O que é aquilo? Eu vejo pendurado em todo o lugar.
- Você, definitivamente, não vai beber isso. Nem você e nem Sirius. Nunca.
- Por quê?
- Porque vocês explodiriam o mundo com uma gota de Coca-Cola, imagine com uma garrafa inteira.
- O que isso faz?
- Mal. E para vocês dois, faria mal para vocês e para o mundo.
- Hunf!
Apesar da pergunta, o maroto não parecia interessado na bebida. Lily pagou todo o pedido após fazer James acreditar que o caixa era no mesmo lugar onde compraram os bilhetes - nesse meio tempo, ela fez o pagamento no lugar certo-, o que o deixou furioso.
- É o seu aniversário, eu quero te dar tudo isso. - Ela dizia quando entravam na sala e escolhiam os lugares.
- Eu pedi tudo isso, porque eu sabia que iria pagar. Me sinto um idiota agora te fazendo pagar pela metade do estande.
Lily jogou a mão no ar, querendo que ele esquecesse aquilo.
- Então não é a sua primeira vez no cinema, certo?
- Não. Viemos uma vez, mas Sirius ficou incomodado com o barulho, os sons altos, e quis ir embora. Então se ficamos dez minutos assistindo, foi muito.
- Sério?
- Sério. - Ele jogou uma pipoca na boca. - A casa dos Black é um lugar bizarro. Ela é afundada em silêncio no sentido de ninguém interagir normalmente, mas muito barulhenta com toda a guerra e brigas. Sirius não é um grande fã de barulho alto devido aos gritos da sua mãe, mas costuma disfarçar. Não se deu bem no cinema.
- Talvez se fosse um filme mais tranquilo?
- Talvez.
A partir do começo dos trailers, James fechou a boca e teve os olhos colados na grande tela. Lily achava a cena mais fofa dos últimos tempos. A mão dele procurava pela pipoca e quase errava a boca de tão concentrado que estava. Daria tudo para ter uma foto bruxa daquilo, mas além de não ter uma máquina, duvidava que as pessoas ao redor gostariam de flashes no meio da sessão.
- Aquilo seria o time da Grifinória treinando no escuro. - James sussurrou em certo momento onde luzes brancas voavam estranhamente pelo céu. Apesar de estar falando, ele não tirava os olhos do filme. - Quando treinamos a noite, é exatamente assim. Certeza que muitas luzes que os trouxas pensam ser extraterrestres, são apenas bruxos em vassouras.
Ela assentiu, rindo. Ele falava com tanta normalidade, que era engraçado. Mas ele não parecia ver graça mais quando o filme começou a engatar. James mergulhou na história, muitas vezes ele sentava na ponta da cadeira, ficando ainda mais vidrado.
- Wow. - Ele murmurava as vezes. - Nossa, eu nem pensaria...- Depois ficava minutos em silêncio, até voltar a falar. - Merlin, sério?
Quando o filme acabou, ele permaneceu na poltrona, encarando a tela vazia. Ele mexia nos próprios lábios, tão pensativo e concentrado, que ela não ousou interrompê-lo.
- Será? - Ele finalmente disse.
- O quê?
A essa altura, eles eram os únicos restantes na sala.
- Que eles existem mesmo? Eu nunca dei muito do meu tempo para pensar nisso, mas... realmente...agora tenho minhas dúvidas.
Lily levantou e ofereceu sua mão para ele. James aceitou, sem nem perceber.
- Bem-vindo ao velho debate trouxa "estamos sozinhos ou não?".
- Confesso que esse é um bom debate. O que você acha?
- Depois da minha vida ter virado de cabeça pra baixo ao saber que eu tinha magia, você acha que eu deixaria de acreditar nisso? Talvez não em hominhos verdes, mas algum tipo de ser vivo e bem distante.
- Hum.
Saíram do cinema e James continuou imerso naquilo. Se soubesse que criaria uma crise existencial no aniversário de 18 anos de James Potter, talvez escolhesse Grease e não um filme sobre aliens.
- Pronto para a segunda parada? - Ela perguntou chegando até o carro.
- Prontíssimo.
Eles viajaram por quase uma hora. James se divertia com as músicas trouxas no rádio, uma boa distração de todo o papo do filme. Ele fazia perguntas sobre o funcionamento do carro - que Lily tinha algum conhecimento graças ao seu pai que a ensinou a dirigir e a tomar conta de um veículo -, assim como as regras de trânsito que ele não compreendia, comentários sobre alguns prédios que não conhecia e a chocante pergunta sobre o que ele poderia fazer no mundo trouxa aos 18 anos.
- Muda alguma coisa? - Ele perguntou.
- Não, não creio. Podemos fazer muita coisa a partir dos 17 anos, assim como no mundo bruxo.
- E não há nada adicional ao ter 18?
- Penso que não.
- Tédio! - James resmungou. - Seria legal poder fazer algo aqui que eu não posso fazer como bruxo.
- Tipo o quê?
- Não sei. Algo bacana...mas que era ilegal antes. Entende?
- E desde quando você se importa quando algo é ilegal ou não? Estamos aqui, no meio da semana, escapando de Hogwarts. O que é contra as regras, sabe.
- O mais surpreendente de tudo isso, é que você não está surtando, Monitora-Chefe.
- Bem...- ela limpou a garganta. - Eu talvez tenha pedido permissão para a professora McGonagall.
James a olhou, espantado.
- Você o quê?
- Não poderíamos deixar o castelo sem Monitores Chefes, então eu conversei com ela. Remus está de plantão para nós.
Ele começou a estalar a língua e a menear a cabeça.
- Ah, Lily, Lily. E eu pensando que você tinha aceitado esse seu lado de grifinória fora da lei.
- Não se preocupe. Se ela não tivesse aceitado, eu já tinha planejado usar uma poção polissuco com Remus e Sirius.
- Ah! - Ele sorriu abertamente. - Isso me soa melhor.
Não demorou muito para chegarem ao destino agora. James saiu do carro e ficou olhando hipnotizado para a grande construção em sua frente.
- É o que eu estou pensando?
- Sim, é. Estará vazio, mas não tema: eu tenho uma ideia.
Eles entraram no enorme estádio de futebol. Não podia deixar de levá-lo ali, não para um cara que gosta tanto de esporte quanto ele. Não havia jogo, é claro, mas as visitas estavam sempre abertas ao público.
Ao chegarem no topo das arquibancadas, James parou e colocou as mãos na cintura, no estilo julgador. Ele parecia medir o tamanho do campo, as dimensões, até a altura do estádio. Não que isso fosse fazer diferença para um jogo de futebol, mas ele devia estar imaginando um jogo de Quadribol ou a possibilidade de um.
- Isso deve ficar uma loucura quando cheio.
- Você quer experimentar? - Lily perguntou enquanto o empurrava gentilmente até uma cadeira.
- Sim.
Ela deixou suas coisas ao lado dele e se preparou.
- Seja bem-vindo ao maior jogo do futebol inglês, James Potter.
Assim, ela lançou seu feitiço Illusio e os dois se encontraram em um jogo do Manchester United contra Liverpool.
A torcida cantava alto ao redor e o jogo parecia aquecido no campo. Lily não prestava atenção em nada além de James, no quanto ele parecia vibrar com aquele ambiente, como seus olhos brilhavam ao ver o jogo rolando. Em momento algum ele falou ou teve sua atenção arrancada daquilo, vivendo completamente a experiência.
- Temos que torcer pelo vermelho, certo?
- Bom, os dois times têm uniformes vermelhos, mas eles não podem usar ao mesmo tempo.
- E quem está usando vermelho hoje?
- Liverpool.
- Liverpool será, então.
Eles ficaram assistindo o jogo inventado por dez minutos. Lily criou um gol do Manchester para que James sentisse como os torcedores reagiriam àquilo, como lhe deu um gol do Liverpool para que ele tivesse a experiência de comemorar.
- Agora eu preciso ir em um jogo de verdade. - Ele disse ao voltarem a realidade. - Sirius vai ficar louco.
- Após Hogwarts, vocês terão muitas oportunidades. - De dentro de sua bolsa com um feitiço de extensão, Lily tirou um bolo com dezoito velas, todas elas em formato do gol de Quadribol. James parecia criança ao vê-lo. - Agora está na hora de você assoprar as velas e fazer um pedido.
Com um aceno rápido, Lily acendeu todas as velas e cantou docemente "Feliz Aniversário" para ele. James não parava de sorrir e a beijou ao final da música, tão docemente quanto.
- Eu preciso de pouca coisa hoje em dia. Tudo o que eu quero, eu tenho bem aqui. - Ele passou as mãos pelos cabelos dela.
- Tenho certeza que você encontrará algo para pedir.
- Uma vida inteira assim. Isso me soa como um bom pedido.
- Não desperdice o pedido com isso. Eu garanto que eu não vou a lugar algum e não será por conta de um pedido de aniversário. - Segurando o rosto dele, Lily o encarou firme. - Eu te amo, James. Hoje, o dia é seu, é tudo sobre você, então não ouse vir com essas suas palavras bonitas, pois é você quem deve ouvi-las. - Ele estava pronto para retalhar, mas ela o impediu. - Você é o cara mais doce, guerreiro e surpreendente deste mundo. Você faz tanto pelos outros, que eu sinto que mesmo se eu fizesse tudo por você, não seria o suficiente para recompensar. Eu adoro como o seu coração é cheio de bondade, mesmo com essa alma tão pentelha. Eu estou tão orgulhosa do caminho que você percorreu, de como você cresceu, de como você consegue trazer o melhor de todos nós a sua volta. Você é raro e eu sou tão feliz por estar aqui, que eu só posso agradecer por ter essa chance.
James a beijou em seguida. Foi com tanta paixão, que Lily poderia ficar ali para sempre, sem se importar de que estavam em um estádio de futebol.
- Eu te amo. - Ele disse, a voz um pouco trêmula.
- E eu te amo.
Após o momento que mexeu com ambos, eles conseguiram desligar-se da emoção e James assoprou suas velas. Ele não comentou nada, mas segurou a sua mão, deixando claro que o pedido tinha a ver com ela.
Algumas fatias de bolo depois, voltaram para o carro e foram em direção a casa do amigo de Fleamont, o dono do veículo, para devolvê-lo.
- McGonagall vai me matar. Ela nos permitiu sair apenas se voltássemos antes das 16h.
- Ela nem vai perceber que passamos duas horas a mais fora. - James a acalmou quando eles aparataram em Hogsmeade e seguiram para Hogwarts pela passagem do espelho.
- Claro que vai.
- Nah, não vai. E se for o caso, deixa que eu lido com ela.
Chegando ao espelho, eles confiaram que não havia ninguém por perto e saíram para o corredor do castelo, pegando caminho para seus aposentos.
O problema começou quando, ao virar na esquina, eles se depararam com McGonagall. Não só com ela, mas com um James e Lily em sua frente.
O casal original parou assim que os avistaram, mas não tiveram tempo para escaparem antes da professora os ver.
- Oh. - Ela olhou para o casal ao seu lado e depois para o casal recém-chegado. - Vejo que estou tendo alucinações. Eu espero que seja, pois com dois James Potter eu me retiraria do cargo.
Lily, a verdadeira, bateu com a mão na testa. Sirius e Remus não precisavam mais usar a poção, já que a professora havia aprovado a saída deles. Por que eles a usaram mesmo assim?
- Professora, vemos um par de impostores aqui. - A falsa Lily falou com a voz bem horrenda. Sirius estava sendo ela, era claro.
- É exatamente isso que eu vejo. - O James verdadeiro respondeu.
Um bate boca começou entre os dois casais, cada um tentando se livrar do problema, até McGonagall limpar bem alto a garganta, fazendo-os pararem no mesmo instante.
- Todos vocês, para o meu escritório. - Ela começou o caminho. - Acho que descobriremos quem é quem em algum momento. Enquanto isso, vocês farão uma pequena detenção. Os verdadeiros Monitores-Chefes poderão partir depois, já os outros dois...senhor Black e senhor Lupin, eu presumo...ficarão um pouco mais.
E assim os dois James e as duas Lilys seguiram a professora até o seu escritório.
- Uma detenção como Monitor-Chefe, hein. - Sirius, vestido de Lily e usando sua voz normal, disse. Aquilo quase fez James vomitar. - Nada mal para o seu aniversário.
- Sirius, só cala a boca. Ver Lily com a sua voz está me dando pesadelos.
- Bom saber. Acho que vou arrumar mais polissuco. Nada melhor como te assombrar quando você estiver sendo uma dor na bunda.
Com James não conseguindo olhar para aquela Lily falsa, os quatro partiram para sua mini detenção. Uma hora depois, Remus estava com as roupas um pouco curtas - ele era um pouco mais alto do que James -, e Sirius ridiculamente com uma saia mostrando sua roupa debaixo, a camisa do uniforma estourada em seus braços e peitoral e os sapatos de Lily destruídos.
Aquilo, talvez, tenha feito o maroto repensar se assombrar James valeria tanto a pena no futuro.
28 DE MAIO 1978
Maio poderia ter sido considerado o mês mais bizarro do ano.
Alunos do quinto e do sétimo ano viviam seus piores dias de estudos, perdendo suas energias, seus humores, suas vontades de viver graças aos N. e os N.I. . Lily estava entre eles. Era verdade que estava tranquila para algumas matérias, confiante em seus estudos durante o ano o bastante para saber que uma boa revisada seria o suficiente, mas não para todas as matérias. Runas era uma pedra no sapato; DCAT era bem complexo, porém com a ajuda de Remus, estava facilitando bastante. Poções, apesar de ser uma matéria que lidava com maestria, tinha muitos ingredientes e maneiras e condições. Ou seja: muito para se preparar, além de ser uma matéria que ela se recusava a ter algo menos do que "O". "Excede Expectativas" estava longe de atender as suas, então ela estava indo para um "O".
Por isso, naquele Domingo a visita a Hogsmeade era muito bem-vinda. Seria a última do ano, a última dos alunos do sétimo ano, e aquela sensação de nostalgia lhe tomava por inteiro.
Estava tudo florido e colorido. Os cheiros das flores estavam por todos os lugares, os visitantes pareciam tirar energia da alma para estarem ali, pois estavam bem animados. Eram risos e gargalhadas por todo vilarejo e Lily não conseguia se lembrar de uma visita tão alto astral.
Pela manhã, passou em cada loja possível para se distrair dos estudos e colocar seus olhos em algo diferente de pergaminhos com letras pequenas e livros. Marlene e Alice a acompanharam por horas, lembrando-a das primeiras visitas em Hogsmeade no terceiro ano onde as três viraram aquele lugar de ponta cabeça, decorando e até anotando cada loja para cada interesse.
Lembrou-se também de algumas visitas que passou com Severus ali. Elas foram raras e, quando pensava nelas agora, percebia o quão desconfortáveis elas eram. O sonserino nunca tinha interesse em entrar na maioria das lojas, sempre colocando algum defeito ou mil motivos para não perderem tempo ali. Era sempre uma tortura fazê-lo tomar ou comer algo, mas uma coisa que ele adorava era sentar de frente para a Casa dos Gritos, como se montasse acampamento, como se estivesse caçando. Se a ruiva considerasse agora como Severus Snap fato de que ele sempre desconfiava de Remus e sua licantropia, faz sentido ele montar guarda ali, como se a qualquer momento e no meio do dia, um lobisomem com uniforme da Grifinória e seus três amigos humanos saíssem dali para fazer compras.
No meio da tarde daquela visita, se encontrou com James. O maroto tinha muitas sacolas em mãos, muitas dela da Zonko's e ela preferiu ignorar aquele fato. Sentia que aqueles quatro não sairiam de Hogwarts apenas caminhando com suas bagagens, então era melhor fingir que nada acontecia.
- Que tal um picnic no nosso lugar? - Ele perguntou.
O "nosso lugar" era exatamente onde eles tiveram seu primeiro beijo - o qual Lily lembrava vagamente -, e onde eles sempre terminavam as visitas. Mesmo quando estava nublado, chuvoso, nevando...os dois sempre estariam ali, em um pôr do sol - mesmo se não pudessem vê-lo de verdade por conta do mau tempo - e seriam os últimos a voltar.
Às vezes, James trazia sua vassoura e eles chegavam no topo da colina mais rápido. Outras tantas, preferiam andar, como hoje.
- ...Então o garoto falou sobre o bendito coelho na cartola, igual ao seu cunhado na recepção do casamento deles. - James abriu os braços, claramente confuso. - Qual é a dessa coisa do coelho e uma cartola? Eu entendo que Vernon Dursley não quisesse falar comigo depois daquele jantar, mas não sei o motivo de me chamar de mágico amador para os convidados ao invés de bruxo e falar sobre eu tirar coelhos da cartola. Por que eu faria isso? Por que qualquer pessoa tiraria um coelho de uma cartola? O que o coelho estaria fazendo ali, de qualquer maneira?
O casamento da sua irmã no mês anterior tinha sido realmente uma chatice. Vernon se recusou a olhar para James, sequer falar. Petúnia a tratava como uma convidada indesejada. O que eles fizeram, então? Aproveitaram a festa como se não houvesse ninguém ali: dançaram até se cansarem; comeram tudo o que tinham direito; James fazia moedas desaparecerem das orelhas de crianças - com muita alegria, aliás- , pois os rumores de que ele era um mágico rodou a festa toda. O deboche de Vernon acabou virando contra ele e James foi um sucesso.
- Apenas algo sobre mágicos falsos no mundo trouxa, assim como a coisa da moeda na orelha das crianças.
- Isso soa bem chato, se quer saber a minha opinião. Se eu usasse uma cartola para uma mágica, provavelmente seria para...
James não terminou sua fala, pois ouviram um barulho vindo da borda da floresta. As varinhas estavam em mãos no momento seguinte, as sacolas esquecidas no chão.
Eles tinham as costas uma contra a outra, tendo a atenção em todo o perímetro. O fato de estarem rodeados pela floresta não ajudava, pois era fácil se camuflar. Poderia haver cem Comensais os observando e sem poderem distingui-los.
- Não ataque antes de termos certeza que não é um aluno. - James cochichou.
Lily não respondeu, mantendo seus olhos bem atentos.
- Não há necessidade de ataque.
Uma voz preguiçosa e macia veio da floresta na frente de James. Lily não se virou, sabendo que James poderia lidar com aquilo. Ela continuava olhando para o seu lado, querendo ter certeza que não seriam atacados pelas costas.
Mas quando ouviu os passos ficarem mais altos e sua frente estar vazia, ela se virou para se deparar com um homem razoavelmente alto - apesar de não tão alto quanto James -; cabelos claros, quase brancos, e vestes negras. Havia toda uma pompa no jeito que ele andava, como se movia. Ele era bonito e, acima de tudo, conhecido.
Conviveram por dois anos em Hogwarts, muitos diriam que não era muito, mas foi o suficiente para Lily pegar certo desgosto. Relembrava a cena de Severus sendo recebido por ele na mesa da Sonserina após ser sorteado para a Casa. E por dois anos, viu um certo laço ser criado entre eles, mesmo Severus ser apenas uma criança.
- Malfoy! - A voz de James parecia tão enojada quanto a sua diária.
- Potter!
Lucius Malfoy em Hogsmeade. Aquilo só cheirava a problemas, principalmente no meio da floresta.
Sozinho, até onde eles sabiam.
- Espero que isso tenha sido coincidência e uma bem triste. - Disse James. Ela percebeu que ele queria mantê-la atrás de si, mas Lily se forçou a ficar ao seu lado. Lucius parecia divertido ao ver a cena.
- Lamento informar que não. - Lucius começou a se aproximar e James apontou a varinha. Lucius parou no caminho e lentamente levantou suas mãos no ar. - Se eu quisesse atacá-los, eu já teria feito. Eu vim conversar.
A conversa forçada com Mulciber no trem em Janeiro voltou com força na mente de Lily. Durante todos aqueles meses, ela se forçou a esquecer. Não contou para ninguém, mas não quis deixar virar um problema. Então apenas deixou no fundo da sua cabeça, esquecido.
- Não acho que haja qualquer assunto em comum entre nós. - James replicou. Sua mão agarrava as vestes de Lily com tanta força, que o tecido a beliscava.
Lucius desceu o barranco entre eles, chegando até a estrada. James tentou, novamente, colocar Lily para trás, mas ela manteve sua posição ao seu lado.
O medo de James por ela era tão grande, que a ruiva sentia as ondas de magia saindo dele. Sabia que se ele estivesse ali sozinho, teria agido de maneira muito mais assertiva, muito mais no ataque do que na defesa, mas só pela maneira que ele agia agora, quase rasgando o seu casaco, tinha certeza que ele gostaria de evitar qualquer confronto.
E ele tinha razão. Eles viam Lucius Malfoy ali, mas ninguém garantia que não havia mais Comensais à espreita.
- Fiquei sabendo que é Monitor de Duelo, Potter. - Aquela voz era tão calma, que não combinava com a situação. Aquilo só deixava-a mais nervosa, dando a sensação de que eles estavam por baixo. - Na minha época, existia um Clube de duelos, mas muito diferente do que parece ocorrer agora. - Ele andava lentamente de um lado para o outro. - Para ser um Monitor de Duelo, você deve ser muito bom.
- O melhor, na verdade. - Lily soltou. James apertou seu casaco ainda mais.
- Ah, finalmente entrou na conversa, senhorita Evans. Então vamos lá, o melhor em quê? Em ataque? Em defesa? Os melhores feitiços, a melhor intenção?
- Tudo! - Ela respondeu. - James foi escolhido por ser melhor em tudo isso.
- Lily. - James pediu, baixo.
- Ele quer saber, não? Então vamos deixá-lo informado: todos os nossos acabaram com os seus. Vergonhosamente. O monitor de duelo da Sonserina caiu para James como uma criança.
- Você diz Severus Snape? - Lucius perguntou com um sorriso insolente, forçando surpresa com a informação.
A menção daquele nome fez Lily e James se remexerem.
- Exato.
- Tanto rancor no seu tom. Ele não era o seu melhor amigo?
- Não mais. - James respondeu sem pestanejar, mal dando tempo de Lily sequer reagir àquela acusação.
Lucius deu um sorrisinho irritante, como se tivesse uma piada interna. Maldição de homem.
- Eu imagino. Mas devo dizer que me surpreendi ao vê-la em Hogsmeade e não acompanhada dele, mas talvez a visita ao vilarejo tenha recebido um outro significado para vocês dois agora. Soube que uma no ano passado foi bem intensa.
Lily grunhiu. Mais tarde ficaria surpresa por ouvir aquele som sair de seu peito, mas a raiva que sentiu foi imensa. Lucius estava falando nas entrelinhas sobre o ataque de Severus contra ela, como se fosse uma brincadeira. Pelo menos James não parecia entender que havia algo escondido naquelas palavras, reagindo apenas ao fato de que Lucius comentava sobre o ataque de Hogsmeade como se fosse nada.
- Vamos aos negócios? - Lucius perguntou tirando dois pergaminhos elegantes da veste e ignorando a reação do casal em sua frente. - Aqui está: um convite. E devo dizer, muito especial.
- Que diabos...? - James exclamou, completamente perdido. Não o culpava. Se fosse o que Lily estava pensando, era normal que ele reagisse daquele jeito, já que ele não teve um memorando meses antes, como ela teve.
- Isso que você ouviu. Um convite especial, especialmente considerando...- Lucius olhou para Lily, a expressão de nojo quase escapando de sua máscara falsa. - Enfim.
Os pergaminhos voaram até eles, pousando em suas mãos.
"O mundo bruxo precisa de almas nobres e fortes como a sua.
A sua força e lealdade são notáveis e percorreram longos caminhos, chegando até a única pessoa que pode lhe trazer a glória após uma batalha.
Recompense suas lutas, suas cicatrizes, seu suor pela grandiosidade.
O Lorde vos acolhe e lhes paga sua devoção."
Eles pareceram terminar de ler ao mesmo tempo, pois ambos levantaram a cabeça e olharam para Lucius.
O choque não parecia o bastante. Lily não sabia o que dizer, pois soava como uma piada sem graça. Seria Sirius disfarçado de Lucius Malfoy?
- Espero que entendam a importância desse convite. O Lorde está mais do que aberto em esquecer os empecilhos ou diferenças que nos colocariam em lados opostos. - Lucius falava com clara devoção agora. - Juntando forças, o mundo bruxo estaria em boas mãos. Estaríamos formando uma sociedade livre, a magia sendo a dominante ao invés de ser a dominada. Pensem em como viveríamos, sem precisar nos esconder, nosso Ministério no topo do mundo ao invés de debaixo da terra. Seríamos aqueles que governam e não os que se deixam ser governados por uma raça ultrapassada.
James pareceu pensar que aquilo também parecia uma piada de Sirius, pois começou a rir. Na verdade, gargalhar.
- Que...? - Ele riu mais. - Que merda é essa?
O maroto não parava de rir, fazendo Lily começar a rir também. Talvez estava chocada demais e o fato da risada dele ser contagiante, ela se deixou levar. Os dois riram por algum tempo, até Lucius limpar a garganta.
Ele tinha a varinha apontada para eles e isso os fez parar de rir no mesmo instante.
- A graça acabou? - Eles também apontavam suas varinhas agora e, definitivamente, ninguém ria mais. Os três ficaram nessa posição por alguns segundos até, surpreendente, Lucius ser o primeiro a baixar seu braço, recuperando sua compostura. - Se eu fosse vocês, consideraria o convite. Principalmente você.
Ele era cuidadoso com o seu preconceito, ela via. Quantas vezes ele já não se imaginou lançando algum feitiço nada simpático em sua direção desde o começo? Ou a palavra "sangue-ruim" estar pendurada em sua língua, pronta para escapar?
- Se eu fosse você...- James pegou o pergaminho da mão de Lily, juntou com o seu e os enrolou. - Pegaria isso aqui e sumiria da nossa frente. E eu estou sendo bem educado sobre o que você deveria fazer com esses pergaminhos.
- Hum. - Lucius se aproximou. A varinha estava bem presa em sua mão, mas Lily a segurou ainda mais forte. - Lorde das Trevas não aceita "não" muito bem.
- Não me interessa, não é o meu problema.
Os olhos azuis caíram em Lily. Ela não se deixou abalar pelo asco que via ali ou menos ainda no asco que ela mesma sentia ao encará-lo.
- Essa é a sua resposta também? - Perguntou Lucius. Seu tom estava menos feliz e leve do que antes. Ela não respondeu de imediato, apenas o encarou. De verdade que ele pensa que ela aceitaria aquilo? Depois de tudo o que a corja deles fizeram e que ele, aparentemente, sabia muito bem?
Lucius deu um passo à frente, mas James também deu um em sua direção, ficando entre Lily e ele.
- Você está muito mais perto do que deveria. - James rosnou.
- Eu não a vejo reclamando.
- Você não vai querer vê-la reclamando, eu garanto.
Aquela típica conversa de homens era sempre um saco. Saiu de trás de James, pegou os pergaminhos de sua mão e os jogou para o ar, errando Lucius por pouco.
- Se o seu chefe não aceita um "não", então terá que se virar para explicar dois. Gostaria de agradecer a oferta, mas teríamos ficado melhor sem ela. Tenha uma boa tarde.
Ali, naquele momento, Lucius deixou sua máscara cair completamente. O canto de seu lábio subiu de raiva e sua testa franziu.
- Muito bem. - Ele disse arrumando suas vestes e tentando disfarçar o descontentamento. - Uma pena, de fato, tanto talento ser desperdiçado. Mas foi sua escolha.- Estava pronto para se virar, mas voltou. - Apesar de eu achar que nem todos os que forem apresentados para esta oferta, negarão. Há muitos entre vocês que adorariam um pouco de glória. Será que eles serão tão irredutíveis, como vocês? - James estava a ponto de espumar pela boca. O simples fato de que Lucius apresentava uma possibilidade de alguém do seu lado aceitar aquilo, parecia demais para o maroto digerir. - Não diga que eu não avisei. E não venham pedir misericórdia mais tarde.
Sem descer do pedestal que Lucius Malfoy sentia pertencer, ele lançou um último olhar de desprezo e aparatou.
Lily enlaçou o braço de James e o puxou, continuando o caminho que seguiam antes. Eles não falaram nada por um bom tempo, apenas ouvindo seus próprios pensamentos e os pássaros felizes na floresta.
- O que foi aquilo? - James, finalmente, perguntou. - O que diabos foi aquilo? Nós fomos chamados para ser seguidores de Voldemort? Como? Por quê?
Lily respirou fundo.
- Porque você é bom e todos sabem agora. Você provou mais de uma vez para muitas pessoas, além de ser o melhor monitor de duelo de Hogwarts. Ele vai querer os melhores ao seu lado.
- Ele chamou você também. - James olhou para ela. - E apesar de não fazer diferença para nós, pessoas normais, você é uma bruxa nascida no mundo trouxa. Se ele te chamou, é por saber o quão boa você é.
- Ou ele não sabe que sou trouxa.
- Ele sabe. Nunca deixaria de saber sobre as pessoas antes de chamá-las. Voldemort deve saber cada detalhe da sua vida, como sabe da minha. E eu mal posso dizer o quanto isso me desagrada.
Pegou-se pensando se quando Mulciber e Dolohov foram até sua casa durante o ataque de Natal, Voldemort já sabia sobre ela. Os dois sonserinos foram até lá de livre e espontânea vontade para matá-la ou Lily estava em uma lista de famílias trouxas?
Tinha tantas perguntas, mas o que adiantava tê-las? Do que adiantava respondê-las ? Nada mudaria.
- Não importa. - Ela disse alto e colocou um sorriso, soltando James e apressando o passo. - Vamos, Potter. Acelera, eu mal posso esperar para ter finalmente meu namorado nesse encontro.
James tinha a maior preocupação no rosto, era impossível disfarçar. Mas ele finalmente sorriu e apertou o passo para alcançá-la.
- O seu namorado já está aqui, neste encontro.
- Mas quero ele lá. - Ela apontou a colina com a cabeça. - No nosso lugar.
Oferecendo sua mão, James a pegou e puxou, lhe dando um beijo rápido.
Não haveria Malfoy, Voldemort ou o que quer que fosse que iria tirá-la da felicidade que James lhe dava.
Nunca.
04 DE JUNHO 1978
Midge pegou o pomo.
Midge realmente pegou o pomo. Com meia hora de jogo.
O coração de James explodiria agora mesmo. Tentou disfarçar que quase caiu da vassoura de felicidade e voou o mais rápido possível até o seu apanhador, que já descia no campo.
- Merlin! Merlin, Merlin, Merlin. - Ele repetia sem parar enquanto descia da vassoura e corria até o apanhador. Midge tinha o pomo erguido em sua mão, fazendo a arquibancada quase vir abaixo com a comemoração. - MIDGE!
- Capitão! - Ele respondeu ao vê-lo.
James o pegou no colo, jogando o garoto para cima. Ele não queria levantar o pomo, naquele momento nem a taça, mas o seu apanhador. Ele fez um trabalho espetacular e merecia ser ovacionado por toda Hogwarts.
Os outros jogadores chegaram logo seguida, derrubando os dois no chão.
James se considerava um cara muito feliz. Apesar dos problemas, ele era um cara de sorte e feliz. E naquele momento, aquela felicidade explodia pelos seus poros.
- Nós somos campeões no sétimo ano, Potter. - Sirius o segurou pelo ombro e o chacoalhou quando James finalmente se levantou. - Você prometeu que iríamos ganhar todas as taças desde que entramos nesse time e a gente cumpriu, seu idiota.
- A TAÇA É NOSSA! - James gritou e foi seguido pelo time.
Sentiu seus pés saírem do chão quando os jogadores da Grifinória o levantou.
- AO CAPITÃO POTTER! - Johanna King gritou.
- O MELHOR CAPITÃO DE HOGWARTS!
James ria. Ele não negaria, pois arriscando soar pretensioso, ele deu tudo de si para aquilo. Quando recebeu aquela braçadeira de capitão no quinto ano, quando era um moleque sem escrúpulos, sua vida mudou. Ele sentiu o peso da responsabilidade, da felicidade de um time e de uma casa inteira. Ele já tinha sido campeão duas vezes apenas como artilheiro, então ele levaria a taça todos os anos até o fim. Ele prometeu, ele trabalhou duro por isso e conseguiu.
Foi colocado no chão. Os torcedores invadiram o campo já. A jovem madame Hooch deu espaço para a comemoração, conversando com uma animada e emocionada Minerva McGonagall.
Muitos tapinhas nos ombros e abraços desajeitados começaram a vir para todo o time. James agradecia cada um enquanto seus olhos vasculhavam a multidão. Ele queria comemorar tanto aquela vitória com todo mundo, mas acima de tudo, com ela.
- Dêem espaço para a primeira dama! - Ouviu a voz de Sirius acima de algumas comemorações.
Remus vinha com Lily por entre todos. Ela correu em sua direção quando o caminho ficou livre e James a pegou no ar quando a ruiva pulou em sua direção. Nos últimos dois jogos, ela usava sua camisa de time, já que o cachecol estava dispensável com o tempo mais brando. Mas a camisa não tinha escrito "Capitão", mas sim "Potter". Sempre quando a via vestindo aquela camiseta, seja até mesmo em um domingo chuvoso de estudos no quarto ou servindo de pijamas as vezes, mais ele tinha certeza de que "Potter" combinava imensamente com "Lily".
Lily Potter soava tão bem aos seus ouvidos.
E ao chamá-la de Potter quando usava a camiseta, Lily atendia ao chamado. Ela sabia que não dava para escapar daqueles chamados, sendo dele, dos marotos ou das amigas.
- Você conseguiu, capitão. - Ela disse em seu ouvido.
- Eu consegui, Potter. - Ele respondeu sorrindo como um bobo.
- Tenho certeza que não sou eu por quem essas pessoas todas gritam.
- Na minha cabeça, poderia ser. - Ele respondeu a colocando no chão. - Eles deveriam, pelo menos. Você quem me deu forças para jogar esses últimos jogos, me ajudou com a monitoria, ficou acordada até tarde para revisar Poções após meus treinos noturnos...
- E que te beijou muito depois.
- Exato. - Ele riu.
Lily o puxou para baixo e o beijou.
Merlin, era por essa e outras que ele era louco apaixonado por aquela mulher. Por tudo o que ela fazia por eles, por ele. Existia tanto suporte, tanta ajuda, tantos empurrões para frente vindos dela, que James não poderia ser nada além de um Monitor-Chefe que surpreendeu a todos; o capitão que trouxe três taças de Quadribol consecutivas; o monitor de duelo que arrancava forças para treinar e ajudar os alunos.
Ele havia crescido e amadurecido distante dela, mas a partir do momento que teve Lily ao seu lado, sentiu que sua vida encontrou o caminho. Ele parou de fazer as coisas um pouco soltas e começou a ver tudo em uma imagem maior, como poderiam melhorar, como as coisas encaixavam e sua vida ficava mais leve...sem a bagunça em que se via muitas vezes antes.
Era por isso e muito mais que James aceitou e agradeceu o anel histórico dos Potter que sua mãe lhe enviou alguns dias antes. O anel que estava bem guardado em seu quarto, escondido em sua gaveta, apenas esperando.
E James sabia que a espera não seria longa.
14 DE JUNHO 1978
A coisa tão temida finalmente chegou. Que fazia uma parte da população de Hogwarts temer, tremer, enlouquecer, gritar, jogar tudo para o alto...
N.I. .
Era assim que Lily sentia-se quando acordou às 4 da manhã e não conseguia mais dormir. Encarou o teto, pensou nos textos revisados, tentou lembrar das aulas em que os professores diziam "isso será importante para os seus N.I. , então prestem atenção". Ela tinha mesmo prestado atenção? Tinha anotado corretamente? Estudavam para aquele exame desde o sexto ano, era muita coisa. E se ela tivesse adquirido problema de visão e ter lido errado algo no livro, no quadro?
E se não conseguisse identificar as Runas? Ou esquecer que a poção deveria ser mexida no sentido horário e não no anti-horário? Talvez simplesmente deixar passar batido uma das características importantes de...
- Lily! - A voz sonolenta de James a chamou. - Você está balançando sua perna e a cama está chacoalhando igual terremoto.
- Desculpe.
Se afastou um pouco de James para não incomodá-lo, já que ela não parava de se mexer.
- O que está fazendo? - Ele perguntou no escuro.
- Pensando.
- Não digo isso. Por que está indo para longe?
Ele a agarrou e a trouxe para perto novamente. Os membros se enroscaram e Lily suspirou, fechando os olhos, sentindo uma injeção de relaxamento lhe atingir.
- Desculpe te acordar. - Ela murmurou no peito dele. Adorava o cheiro de James e como ele sempre estava na temperatura certa.
- Não tem problema. - Ele respondeu com o queixo pousando no topo de sua cabeça. - Você quer conversar sobre o que está te tirando o sono?
- Não acho que você queira conversar sobre N.I. de novo.
James riu um pouco e a abraçou mais forte.
- Você se sairá bem, Lils, e eu não digo apenas por ser seu namorado. Você estudou duro para isso, tem um talento nato para a maioria das matérias, é inteligente, revisou mil vezes seus textos, os meus, de Marlene, Alice e Remus. Quando os exames começarem amanhã...
- Em algumas horas. - Ela o corrigiu.
- Em algumas horas...- Lily podia dizer que ele revirou os olhos pelo o seu tom de voz. - ...sentirá que foi uma preocupação exagerada. Acredite, estamos todos preocupados e nervosos, mas não deixe isso te tomar desse jeito. Não há nada que você possa fazer mais, além de controlar sua ansiedade. Tudo o que poderia ser estudado, você estudou.
A voz dele lhe embalava, assim como a respiração lenta que podia sentir em seu peito.
- Hmm.
O carinho em seus cabelos foram quase como um sonífero, pois percebeu os olhos pesados e relaxados, o corpo cedendo ao cansaço.
Mas tudo voltou a 100% quando ouviu o seu alarme tocando. Sentou na cama, assustada, procurando. O sol entrava timidamente entre a cortina e Lily se jogou da cama, correndo pelo quarto.
- Tomar banho e comer. - Pegou um papel em cima da mesa de estudos e o conferiu, mesmo já o conhecendo de cor. - Transfiguração. Hoje é dia de Transfiguração, teórica e prática. Meu deus, McGonagall vai querer me matar.
Enquanto olhava pelo quarto à procura de seus sapatos, percebeu que James estava sentado na cama, com os braços apoiados nos joelhos, a assistindo.
- Estamos longe de um atraso aqui, Lils.
- Mas longe de estarmos adiantados. - Ela pegou sua saia na cadeira e correu para a porta. - Vou tomar banho. Te encontro lá embaixo para o café ou no Salão Principal?
- Bem...
- Ótimo. - Ela respondeu sem esperar sua resposta e saiu do quarto.
Entrou no banheiro de seu quarto abandonado e ligou o chuveiro enquanto tirava o pijama - no caso, a camiseta de James - e entrou embaixo d'água ainda gelada. Deu um pequeno grito de surpresa, mas começou a esfregar o sabonete para se lavar e esquentar ao mesmo tempo.
- Animagia está ok, eu sei mais do que deveria. - Ela falava sozinha. - Criação e Desaparecimento é o pior. Conjurações, desaparecimento, destransfiguração, ilusionismo, desilusionismo e duplicamento. É nisso que você vai focar. Sirius revisou bastante com você, as notas dele são excelentes. Vai dar tudo certo.
Lavou o cabelo com um pouco de força enquanto passava por pontos importantes. Secou-se enquanto pensava que teria que voltar para o mundo trouxa e trabalhar lá. Enquanto arrumava o cabelo, chegou a conclusão que não poderia, pois não tinha um diploma da escola trouxa e que não estudou para nada daquele mundo desde os 11 anos. Tudo o que sabia, era mágico agora.
Ela ia arrasar naqueles exames. Ela tinha que arrasar e daria o seu melhor para, depois, comemorar até cair. Seja com chocolates ou cerveja amanteigada.
Saiu do quarto decidida. Desceu as escadas com o queixo empinado e encontrou James já pronto, os cabelos ainda molhados e uma cara cansada. Se aproximou dele e lhe arrancou um beijo de tirar o fôlego.
- Você fica sexy com os cabelos molhados.
- E você me diz isso só hoje? - Ele levantou do encosto do sofá. - Você está bem diferente da Lily Evans desta manhã.
- A Lily Evans desta manhã não existe mais. Agora, apenas a Lily que vai arrasar em Transfiguração vive.
Parecendo surpreso e impressionado, James ofereceu sua mão e eles saíram dos aposentos, prontos para enfrentar o primeiro dia de exames que duraria uma semana e meia.
Até chegarem ao Salão Principal - que estava bem vazio por conta da hora -, Lily tinha mudado de ideia cinco vezes. Uma hora, tudo ia bem. Depois, não mais. Mas então pensava direito e ficava confiante. Mas então lembrava das pequenas coisas que tinha dificuldade e surtava. E então, forçava a pensar que estudou tudo o que era possível.
- Eu não quero ter que ir trabalhar trancada em um escritório trouxa como Petúnia. Pior: tendo que estudar tudo de novo para um diploma. O mundo mágico não vai me aceitar sem os exames. - Ela finalmente soltou assim que sentou na mesa da Grifinória. James a encarou por alguns segundos, entendendo melhor o surto da namorada desde a madrugada.
- Você está assim, porque acha que precisará voltar para o mundo trouxa?
- Claro!
James segurou a careta, tentando não rir. Seus lábios faziam a força descomunal para não abrirem. Lily o encarava, apenas esperando que ele vacilasse e começasse a rir, mas James tossiu e cobriu a boca, parecendo se permitir sorrir sem que ela visse.
- Realmente, isso é muito grave. - Ele disse. - Se você tirar notas ruins, ninguém iria te contratar.
- Está vendo?! E eu não preciso me preocupar? Você quer que eu fique tranquila com a minha vida em jogo assim?
- Claro que não. - Ela percebeu que enquanto James se servia de ovos mexidos, seus lábios ainda batalhavam para não rir. - Está certa. Imagina como seria?
Ela cruzou os braços por cima da mesa.
- Por que você acha isso engraçado, Potter?
- Eu? Não acho graça nenhuma.
- Para de ser assim. - A ruiva estalou a língua e pegou uma torrada e geléia. - Você só está aí tranquilo, porque é o senhor notas-boas-sem-estudar.
- Primeiro: eu estou tranquilo, pois eu li quase todos os livros de Transfiguração desse castelo. E sim, essa matéria é fácil para mim. Amanhã, Herbologia Avançada não é lá muito a minha praia e eu estou nervoso por isso.
- Você teve notas máximas nesta matéria.
- Ainda sim, não era um N.I. , certo? - Ele se serviu uma boa garfada de ovos e enquanto mastigava, deu de ombros. - Segundo: quem diabos te disse que você não iria se encaixar no mundo bruxo sem os N.I. ?
- O exame é para isso, para as competências profissionais, para te lançar no mercado de trabalho e tudo isso. Sem bons resultados, como eu, uma pobre coitada trouxa ou sangue-ruim para muitos que deveriam me empregar, acharia um trabalho?
James estava bebendo seu suco quando ouviu a palavra. Ele desceu o copo na mesa e fez um barulhão, ecoando pelo Salão.
- Você não disse isso. - James a acusou.
- Era apenas para demonstrar que sem boas notas e na minha situação, pode ser difícil.
- Não há razão para você se chamar disso ou trazer para a conversa. - James fechou os olhos, parecendo recuperar a calma antes que aquilo tudo virasse uma briga. E uma desnecessária. - Lils, me escute. Você é uma bruxa, a melhor que eu conheço. As pessoas farão filas e filas para te contratarem. Inferno, Voldemort tentou te puxar para o lado dele. Voldemort ! - Ele frisou.
- James...- Ela pediu.
- Além do mais, as notas podem te arranjar um emprego do lado do Ministro, sim. Mas ninguém é obrigado passar os N.I. e muito menos para ter um trabalho.
- Eu não almejo estar ao lado do Ministro, mas quero fazer a diferença.
James alcançou sua mão do outro lado da mesa e a afagou.
- Eu sei que irá. E eu estava brincando quando disse que ninguém te contrataria, mas acabamos chegando em um lado sombrio da conversa.
Lily acariciou a mão de James de volta, sentindo toda a força que precisava apenas naquele toque. Era difícil pensar no futuro, às vezes. Não é como antigamente, onde tinha uma casa para voltar, uma família esperando por ela. Agora tinha dezoito anos, a casa vendida, seus pais falecidos, sua irmã querendo manter distância.
Ela tinha James e as garotas. Ousava até dizer que tinha os marotos agora, mas era tudo tão incerto. Sabia que eram muitos pensamentos negativos na maior parte do tempo, mas tinha que ter os pés no chão também. Não podia deixar seu futuro jogado e esperar pelo melhor.
- Acredite quando eu digo que as coisas vão dar certo nesse quesito. - James chamou sua atenção. - Podemos ter poucas certezas na vida, mas essa eu tenho: você vai se sair absurdamente bem em qualquer coisa.
Ela pegou essas palavras como um mantra quando, duas horas depois, ela estava sentada naquele mesmo Salão, todas as quatro mesas foram retiradas e apenas as mesas e cadeiras para os alunos do sétimo ano restavam. Sirius sentava na primeira fileira com Alice sentada uma fileira atrás. Duas fileiras depois, estava Lily. Frank a seguia, Remus estava uma fileira atrás dele, seguido de Marlene, Peter e James, que tinha lugar na última fileira. Os outros alunos das outras Casas ela não se importava, apenas pensava na posição de cada um dos seus amigos enquanto esperava o seu pergaminho voar até a ela.
Respirou fundo, pegou sua pena e atacou. As primeiras questões envolviam Animagia e aquilo fez com que sua pena voasse quase tão rápido quanto um pomo de ouro. Tinha tantos detalhes de transformações, dos passos iniciais para se tornar um, as diferenças com transformofogos...que sentia que falava dela mesma.
Quando percebeu, já estava no verso do pergaminho, quase terminando. Duas horas haviam se passado? Olhou para o relógio e ficou assustada por não ter percebido o tempo passar, apesar de sua mão lhe dizer o quanto estava cansada e sua tinta estar quase acabando.
Largou a pena e fechou os olhos. Aquilo tinha sido mais tranquilo do que imaginava. As questões eram claras e lhe davam uma confiança sobre o que escrever, sem piadas e pegadinhas. Era tudo direto, apenas esperando pelo seu conhecimento cair no pergaminho ao invés de te fazer imaginar sobre o que a professora queria dizer.
Olhou ao redor e viu Sirius lá na frente com as mãos na nuca, parecendo se bronzear no meio do Salão Principal, lançando olhares para McGonagall. Alice ainda escrevia. Não ousou olhar para trás, mas se fizesse, encontraria Remus com a pena em seu queixo enquanto relia suas respostas. Marlene estaria na última linha, Peter teria sua pena correndo pelo pergaminho, um pouco assustado e James apoiado em sua mão, tombado de lado na mesa para ter a visão de todos eles.
Tinha certeza que deu as respostas certas, estava convicta, então não se permitiu cair na tentação de relê-las e acabar mudando algo que não precisava de mudança. Quando o sino anunciou o fim do teste, os pergaminhos levitaram das mesas, trazendo uma onda de reclamação de alguns alunos que ainda terminavam.
- Vocês estão liberados. - McGonagall anunciou.
Lily deixou a pena e o tinteiro, que foi fornecido pela escola, e se levantou.
- Merlin, Merlin...aquela nona pergunta. Foi a pior questão de toda a minha vida acadêmia. - Alice começou a tagarelar assim que se aproximou de Lily. - McGonagall fez isso para me torturar, tenho certeza.
- Claro, ela perde tempo pensando em meios para trazer miséria na sua vida. - Marlene disse ao se juntar a elas.
Enquanto saíam do Salão, teve um déjà vu. Voltou para o quinto ano, durante os N. , quando tinham infinitos dias de exames naquele mesmo lugar. Foi um Junho bem quente, fazendo Lily pensar em aproveitar seus dias no lago após cada prova.
- Que tal irmos ao lago? - Ela perguntou.
- Mesmo lugar? - Alice perguntou de volta com um grande sorriso, sabendo exatamente onde Lily queria ir.
- Sim. - Marlene quase comemorou e entrelaçou os braços das duas amigas, as puxando para fora do castelo.
Na porta que dava para os jardins, elas encontraram os marotos e Frank. Eles conversavam animadamente, assim como elas.
- Adorei o "O" que você tirou nessa prova, Lilykins. - Sirius bagunçou seus cabelos.
- Você tem poderes que não conhecemos? Consegue saber resultados de provas antes de serem corrigidas? - ela perguntou.
- Não, mas não preciso ser especial para saber disso.
Sem Lily perceber, James agradeceu o amigo com um aceno, recebendo uma piscada do maroto de volta.
- Quem quer ir para o lago antes da prova prática? - Marlene perguntou e levantou a mão no alto
Houve uma confirmação geral, levando todos a pegaram o caminho morro abaixo.
- Está mais tranquila? - James abraçou Lily pelos ombros.
- Muito mais. As primeiras questões eram tão fáceis, que eu mal vi o quanto escrevi, com tantos detalhes
- Não foram muitas pessoas naquele Salão que puderam dar respostas tão completas sobre Animagia. - O maroto sorriu.
Enquanto descia em direção ao lago com seus amigos e namorado, enquanto riam e se divertiam, Lily percebeu que não poderia deixar o futuro solto, mas não precisava ser tão dura com ele também. Ela faria o seu caminho, tomaria suas decisões, mas não podia deixar o desespero lhe dominar.
Ao invés, poderia deixar o amor e a leveza a guiar. A sabedoria e a razão também caminharem juntos, mas nunca o medo, o desespero e a ansiedade.
E durante toda a longa semana de exames, ela acordava pensando naquilo, tentando mudar seus pensamentos quando o medo surgia, acalmando suas amigas, ajudando Peter com Poções um dia antes da prova e...Chorando de emoção ao ver apenas um "Excede Expectativas" em Runas quando recebeu seus resultados. Não foi surpresa e nem decepção já que era uma matéria que não tinha muito prazer. Mas todos os "Ótimo" que recebeu depois de tanto estudo e dedicação, veio a sensação de dever comprido.
Ela entrou naquele mundo de repente, se dedicou a aprender sobre ele desde a coisa mais ínfima até algo digno de receber a nota máxima do teste final escolar.
Seus pais estariam orgulhosos dela. Eles a incentivaram desde o início, mesmo sabendo pouco do mundo bruxo, mesmo tendo a filha mais velha não apreciando os poderes e a partida da filha mais jovem. Quando Lily tinha seus receios tarde da noite em Agosto em 1971, eram eles que lhe asseguravam, dizendo que com a força de vontade dela e sua dedicação nata, ela se encaixaria naquele mundo novo e teria uma vida plena e feliz.
Ela acreditou nas palavras deles e nunca esteve tão feliz por isso. Sentia que podia dizer com a boca cheia que era uma bruxa, formada em Hogwarts, com múltiplos "O" em seu N.I. e pronta para embarcar na loucura que era a vida adulta fora daqueles muros.
Ela estava pronta e estaria pronta para qualquer coisa que viesse.
1 DE JULHO 1978
Era difícil explicar a felicidade.
Cada pessoa tem sua própria maneira e Lily dificilmente saberia como dar o seu testemunho. Era um pouco complexo. Poderia, claro, ser bem precisa e dar alguns momentos específicos que lembrava, mas achava que era mais do que isso. Era o fato desses momentos poderem ser tão simples e constantes, que a tiraria do chão caso os colocasse em uma penseira e os assistisse.
Enquanto se aconchegava na cama, ela fechou os olhos naquela manhã para relembrá-los. Todos aqueles momentos compartilhados naquele ano letivo, tudo o que mudou, tudo o que permaneceu o mesmo...todo o amor que chegou em sua vida. Foram tempos difíceis antes, onde ela achava que seria complicado sentir o peito menos pesado, não ter apenas as saudades dos pais comandando seus sentimentos. Mas por mais triste que possa ser, a vida continuava e novas felicidades chegavam, novos amores, a sensação de que o peito vai desinflando das tristezas e se enchendo novamente com boas coisas.
A formatura na noite anterior foi um enorme passo para a sua nova vida. Lily Evans, agora, era uma bruxa formada em Hogwarts. Havia sido uma festa linda e perfeita, como uma nascida trouxa poderia pensar sobre mágica: muito brilho, música, ambientes mudando a cada dez minutos, as danças, as cores...tudo havia sido perfeito.
Um cafuné a fez sorrir ainda mais. James havia acordado finalmente, então. Além dos seus abraços cheios de braços e pernas nas manhãs, os cafunés também sempre marcavam que seu namorado estava prestes a acordar de vez. Os dedos dele ficavam cada vez mais ativos entre seus fios ruivos, às vezes descendo até seu pescoço e depois voltando para seus cabelos. Era a melhor sensação do mundo, um dos momentos do seu dia que a faziam feliz.
Lily abriu os olhos finalmente e viu o vestido de formatura jogado no chão, os sapatos largados de qualquer jeito perto da porta. As vestes de James estavam ao lado de seu vestido...havia sido uma noite e tanto, em muitos sentidos. Foi uma cerimônia tão emocionante, tão perfeita e inesquecível. As várias fotos tiradas dos amigos estavam no andar debaixo, espalhadas pela mesa, depois do casal rir das caras e poses de todos. Daria um álbum de fotos e tanto.
- Eu te amo. - A voz rouca de James encheu o quarto silencioso.
Com o feitiço de menta que ela sempre usava pela manhã na boca, ela se virou para ele. James sorriu, mostrando o quanto ele era absurdamente lindo. Merlin, como era impossível não se apaixonar por esse cara.
- Eu também te amo.
James a puxou para ainda mais perto, fazendo Lily deitar em seu peito. Deitar ali era como chegar em casa, sentindo-se bem, segura e nas nuvens. Não havia lugar que ela preferiria estar, do que nos braços dele. Depois de um dia complicado, era ali que gostaria de estar; exames complicados, os N.I. que quase tiraram sua sanidade, foi ali que procurou refúgio; quando sentia muita saudade dos pais, os braços de James eram sua fortaleza; pensar no futuro, no que encararia lá fora, era o calor daquele abraço que lhe mostrava que tudo ficaria bem.
As mãos dele passeavam por suas costas preguiçosamente, as pontas de seus dedos quase como uma pena, fazendo seu corpo se arrepiar a cada segundo.
O coração de James começou a acelerar logo abaixo de seu ouvido. Lily subiu a própria mão até o peito dele e o acariciou. Não sabia o que estava acontecendo, mas foi repentino, como se ele começasse uma maratona.
- Hey, você está bem? - Ela levantou o rosto para encará-lo. James segurou o rosto dela e o acariciou.
- Ótimo.
- Tem certeza?
Ele se ajeitou na cama, fazendo os dois deitarem de lado, face a face. Com os rostos colados, James acariciou o nariz de Lily com o seu, deslizando por sua bochecha, seus dedos a segurando e continuando as carícias pelos seus cabelos.
- Casa comigo?
Foi o seu coração que disparou agora como uma corrida de carro e não apenas uma maratona. O brilho nos olhos dele só comprovaram que não era uma brincadeira. James falava sério, era um pedido sério.
Merlin!
Merlin!
James acabara de pedi-la em casamento?
Merlin!
- Isso é um pedido de verdade. - Ele continuou ao ver os olhos perdidos de Lily. - Um pedido que tem um anel, se você apenas me permitir... - James soltou um de seus braços e se esticou até a sua mesa de cabeceira e abriu a gaveta, trazendo uma pequena caixa preta. Lily soltou o ar que segurava. - Eu queria ter feito isso de um jeito mais romântico, em outro lugar, mas então pensei: por que não no lugar mais romântico que poderíamos ter? No lugar que eu te amo e te entrego meu coração todos os dias. O lugar mais difícil de sair do mundo...este aqui...- James a segurou como sempre fazia: com tanto amor e devoção, que a fazia querer chorar. -...eu não quero sair dos seus braços, Lily, nem por um instante. Eu quero que você me tenha aqui para sempre, me segurando como você sempre faz, me acolhendo e me amando. Eu espero que você se sinta tão bem nos meus braços quanto eu me sinto nos seus...bem o suficiente para não querer sair daqui também. Bem o suficiente para querer me aceitar como o cara para ficar ao seu lado até o fim. Não por sermos almas gêmeas, mas porque nos amamos como dois loucos que eu sei que somos.
Como ele conseguia descrever tudo aquilo que ela tinha acabado de pensar? Lily não conseguia pensar em outra coisa além de como todo aquele sentimento, aquela sensação que ambos tinham, era real e muito mais forte do que podia imaginar.
- Não existiria outra resposta além de "sim" para você, James Potter.
Beijando Lily com o maior sorriso que poderia colocar no rosto, James disse entre seus lábios:
- Existe "com certeza". - O maroto brincou. - Ou "só se for logo". Há tantas outras respostas.
- Todas elas são para você, então.
Ela o beijou mais seriamente agora, mais apaixonada do que nunca, mais amante de James do que nunca. Mais feliz do que nunca.
E então aquela era a definição de felicidade para Lily. Não por ela se tornar a noiva de James Potter, mas por saber que todos os pequenos momentos felizes e que se tornavam parte da sua constante felicidade estavam apenas começando.
E que uma vida cheia de sorrisos, risos e amor a aguardava.
N/A:
Fic entrando na reta final. Mais capitulos chegando em 2022!
E pra quem nos acompanha aqui: que vocês sejam felizes neste novo ano e em todos os outros...assim como Lily foi. Lembrem-se que tudo passa, tudo melhora =) Vocês me dão força e espero estar aqui para lhes dar caso precisarem.
Beijos ;**
P.S: Desculpem os erros!
