A viagem da família Maple rumo ao aeroporto de New Bark Town foi marcada por nervosismo. Conforme avançavam pela estrada envolta de floresta pelas laterais, o clima de incerteza e medo pairava sobre todos, mas este não era o único receio.
Um garoto que conseguia acompanhar correndo um carro a 80 km/h, que aparecia e desaparecia da vista de todos em períodos esporádicos de tempo era motivo mais do que suficiente para aumentar ainda mais o stress.
Caroline pensava no que tinha ocorrido no centro Pokémon alguns minutos atrás. O pobre garoto nunca teve oportunidade de ter uma infância, e por algum motivo acabou sendo transformado em uma espécie de soldado em uma idade onde sua filha ainda brincava com suas bonecas pelo amor de Arceus! Que tipo de monstro faria algo assim, e pior, que tipo de lugar Naruto viveu que tinha necessidade de ter crianças aprendendo a matar tão cedo?
Ela sentia pena do jovem, mas também medo. Ela, assim como seu filho mais novo e Norman, ficaram assustados quando Naruto ameaçou seu marido com uma lâmina em sua garganta, e a velocidade com que ele se moveu, era algo assustador. Ninguém poderia fazer nada se ele decidisse acabar com Norman naquele momento, e isso a enervou.
Era um sentimento misto de pena, medo e gratidão que a deixava sem saber como proceder. Pena pelo que aconteceu com o menino, medo pelo o que ele poderia fazer se provocado, e gratidão por ter salvado sua filha.
Caroline saiu do seu devaneio quando avistou o fim da floresta e o aeroporto se mostrando ao longe. Era um aeroporto de pequeno porte, visto que não era uma cidade grande, mas iria servir.
Naruto apareceu ao lado do carro e pediu para Norman parar, o que ele fez. Logo em seguida, Naruto entrou no carro e sentou no banco traseiro ao lado de May, pedindo para Norman continuar pois seria suspeito ele aparecer correndo ao lado de um carro.
Assim eles prosseguiram viagem rumo ao aeroporto.
Norman estacionou o carro alugado no aeroporto e esperou o resto de sua família se ajeitar para prosseguir viagem, o que não demorou muito, pois ninguém tinha trago muitas coisas, e sua filha não tinha praticamente nada além de sua roupa com ela.
E ele não tirava os olhos do jovem ruivo por nenhum momento.
Ele conhecia um pouco do que era aquele garoto. Norman cresceu nas ruas de Petalburg sem conhecer seu pai e sua mãe, e fez coisas das quais não se orgulha para se manter vivo até encontrar sua vocação como treinador Pokémon, o que o levou a ser líder de ginásio e garantir uma boa vida para si e para sua amada família.
O garoto assim como ele passou pelo inferno, mas a diferença era que onde Norman conseguiu uma volta por cima, o pobre garoto não teve esta oportunidade, virando uma ferramenta para pessoas que não tinham um pingo de moralidade, visto o que fizeram Naruto passar.
Norman estava com medo do garoto, não ia mentir. Pela sua família e por ele próprio. Mas ao mesmo tempo ele sabia que o menino precisava ter uma oportunidade de mudar de vida, assim como ele teve no passado. Mas não seria hipócrita de não admitir que estava fazendo isso somente por que ele salvou sua filha. Por mais que Norman queira ajudar, ele não iria mover seus esforços por alguém que não conhece sem motivo. Lei das ruas, se você estende algo para quem você não conhece, vai se arrepender amargamente no futuro.
Mas o fato imutável era que agora, de uma maneira nada comum, Naruto era responsabilidade dele como "funcionário", então iria fazer o possível para evitar problemas, e por consequência, manter a sua cabeça sobre seus ombros.
Todos prosseguiram para dentro do aeroporto, com Norman e Caroline na frente junto a Max e May, enquanto Naruto seguia logo atrás olhando para todos os lados tentando entender o que era esse tal de aeroporto que tanto falavam.
Chegando no guiché para compra das passagens, encontraram um problema logo de cara.
Como iriam comprar passagem para Naruto se ele era menor de idade e não tinha documento algum consigo?
Todos estavam inseguros do que fazer, até que viram Naruto se aproximando de May.
"Fale para seus pais que não precisam se preocupar comigo. Não entendo o que está acontecendo, mas percebi que vocês não continuaram por minha causa. Vá para casa, esqueçam o que conversamos no centro Pokémon"
May ficou abalada quando ouviu as palavras de Naruto, pensando que iria perder ele, e agarrou seu braço como se sua vida dependesse disso.
Norman e Caroline ouviram o que o garoto falou e olharam um para o outro. Nenhuma palavra foi dita naquele momento, mas para o casal estava claro qual seria a decisão a ser tomada, mesmo que o garoto não goste, era a única forma de ele conseguir evitar problemas até atingir a maioridade.
"O garoto com minha filha é nosso filho que adotamos hoje. Foi tudo muito recente, e o garoto não possui nenhum documento consigo. Estaremos regularizando tudo assim que adentrarmos em Hoenn, o nome do menino é Naruto, agora Naruto Maple". Norman sabia que estava fazendo um jogo perigoso, mas era isso ou largar o garoto, e ele não iria fazer isso.
Naruto arregalou os olhos sem acreditar no que estava ouvindo, tantas emoções surgiram ao mesmo tempo que ele não sabia o que fazer. Sentia raiva, indignação, tristeza, mas também algumas sensações boas que ele não sabia como explicar para si mesmo. Ele se sentia como aquele garoto vivendo nas ruas novamente e isso o deixava com medo. Sem saber o que fazê-lo se aproximou, com May ainda agarrada nele e falou com a atendente.
Naruto suspirou internamente sem acreditar no que ia fazer, mas ele tinha uma missão para cumprir e não ia ter seu histórico manchado por motivos pífios. "É verdade o que o senhor disse, foi tudo muito rápido, mas faço parte da família agora, vou poder ir com eles? Não tenho nenhum documento comigo". O garoto continuava com sua cara de poker enquanto inclinava a cabeça para o lado olhando para a atendente, que pensou seriamente em barrar o garoto, mas sua consciência pesou e liberou a compra da última passagem.
Logo em seguida todos prosseguiram para o embarque em um monomotor de 6 lugares, todos escolheram seus lugares, com Naruto indo no acento mais ao fundo ao lado da janela, ele não queria falar com ninguém no momento. Os últimos dias tinham sido confusos para ele, e ainda não sabia como iria prosseguir depois de que o pai da sua paciente disse que o adotou. Obviamente ele não iria começar a chamar o cara de "papai" com um sorriso bobo, era tudo uma faixada para evitar problemas, o que ele não criticou, seria hipócrita um shinobi criticar alguém por enganar para conseguir o que almejava.
O que o incomodava era as implicações dessa decisão, pois no momento que ele fosse registrado como membro dessa família, ficaria atrelado a eles pelo menos por alguns anos sem ter muita escolha do que fazer sem chamar atenção indesejada. Mas isso era preocupação para outra hora, e se toda a merda bater no ventilador, ele era um shinobi pelo amor de Kami, desaparecer estava no currículo.
Norman e Caroline estavam no acento mais próximo do piloto, enquanto Max estava logo atrás junto a May. Quando o piloto anunciou que iria dar partida, May olhou para os lados procurando Naruto até que olhou para trás e o viu ao fundo.
"Max, eu vou ficar com ele até a viagem terminar". Disse ela olhando para seu irmão mais novo.
"Ficou maluca? Viu o que aquele cara fez com o pai? Não importa o que ele fez para te ajudar, ele é um psicopata maluco. Eu vou fazer questão de trancar meu quarto a noite e recomendo você fazer o mesmo". Max tinha uma expressão de indignação com o que sua irmã sugeriu. Ela não viu o que aquele garoto fez? Era muito perigoso e ele não entendia por que seu pai insistiu em trazer ele com sua família, e também não entendeu como sua mãe não disse nada sobre isso. Não importa o que ele supostamente passou na infância, era perigoso e precisava estar longe de seu pai, sua mãe e sua irmã.
May sentiu raiva naquele momento, vontade de apertar o pescoço do seu irmão até virar poupa, como ele podia dizer isso daquele que a salvou, ninguém foi para ela e o único que fez algo estava sendo insultado na sua frente. Ela sabia que seu irmão tinha direito de se sentir assim, mas não mudava o fato de que ela não aceitava isso, e ninguém ia tirar Naruto dela tão cedo, não seu pai, não sua mãe e com certeza, não seu irmão tolo. E se ela precisasse, bem, pelo menos iria ter mais vermelho para ela ver.
Ela se assustou consigo mesma no final de seu pensamento. Ela sabia que tinha ficado perturbada mentalmente pelo o que ocorreu, mas pensar isso de sua própria família não era um bom sinal. Sem dizer nada ela saiu e se sentou ao lado de Naruto, que a olhou com uma sobrancelha levantada.
Ela não disse nada, sorriu para ele e segurou seu braço novamente enquanto o avião dava partida e ia em direção a Petalburg.
Naruto suspirou em desânimo enquanto olhava para May ainda agarrando seu braço, sabendo que seria só o começo de muita dor de cabeça.
"Devo ter quebrado algum espelho na minha vida passada para passar por tudo isso" Foi a última coisa que ele pensou enquanto olhava para a janela vendo o oceano surgindo.
A viagem para Petalburg ocorreu sem qualquer problema, e assim que desembarcaram no aeroporto, Norman rapidamente entrou em seu carro que estava estacionado na entrada e partiu rumo ao ginásio de Petalburg, sua casa.
Era muito arriscado seguir a pé, pois fora o assédio que sua família já sofria por ele ser líder de ginásio, ainda tinha o fato de que sua filha iria aparecer viva e isso geraria uma atenção da mídia desnecessária. Ele sabia que seria inevitável, mas pelo menos queria chegar em casa antes de entrar em contato com a unidade policial de sua cidade informando o ocorrido em New Bark Town.
Chegando no ginásio, todos saíram do carro e seguiram para a entrada. Naruto reparou no tamanho do complexo e se surpreendeu, aparentemente era uma família de posses e não que isso importasse para ele, mas pelo menos garantia que a falta de dinheiro para lhe pagar não seria um problema a curto prazo.
Quando todos entraram, Max correu para frente de todos e não deixou ninguém prosseguir.
"Pai, você não pode deixar esse Naruto aqui em casa, ele é perigoso. Olha o que ele quase fez com você, não tem medo do que ele pode fazer? Eu tenho. Ele é maluco e não quero ver ele machucando ninguém".
Norman olhou para seu filho surpreso, mas não podia ficar bravo com o seu filho mais novo. Era totalmente justificado o medo, mas ele tinha que continuar com o que começou. Olhou para Max com uma cara séria e falou. "O que eu faço ou deixo de fazer é problema meu, não seu. Guarde suas opiniões sobre Naruto para si, e espero que isso não se repita".
Max olhou para seu pai sem acreditar no que ele tinha dito, apertou suas mãos com raiva e correu para as escadas indo para seu quarto, mas não antes de parar e olhar novamente para todos. "Vocês vão se arrepender quando ele fizer algo, e quem vai se machucar serão nós, não ele!". Assim ele correu para seu quarto e se trancou lá dentro.
Todos estavam tensos com o comentário de seu filho, temendo a reação de Naruto, esse que estava levemente divertido com o que o jovem tinha dito. "Vocês deviam escutar o garoto, ele é o mais novo e parece o mais sábio entre todos vocês".
Caroline ignorou o comentário e olhou para o garoto. "Amanhã eu e o Norman vamos regularizar a documentação necessária. Temos pessoas devendo um ou dois favores e não seria nada de outro mundo conseguir uma identidade para você. O único problema agora é onde você vai ficar, não temos quarto de hospedes desde que Max nasceu".
"Sou um shinobi, eu posso dormir em qualquer lugar ao ar livre sem problemas e ainda estaria pronto a qualquer momento que vocês precisassem de meus serviços". Disse Naruto olhando para Caroline.
May que estava quieta desde que chegaram estava pensando em tudo que foi dito. Ela estava indignada com Max e queria transformar ele em um Mudkip na base dos chutes, mas também estava olhando de ressaio para Naruto enquanto pensava no que sua mãe e ele disseram. Ela sabia que Naruto falava a verdade, ele podia se virar muito bem sozinho, mas também não queria deixá-lo acampando enquanto podia estar dentro de casa. "Ele podia dormir no meu quarto. Tem espaço e Naruto tem cama de acampamento, ele pode ficar no chão até encontrarmos algo mais permanente."
O que aconteceu em seguida a surpreendeu, seu pai e Naruto arregalaram os olhos e falaram ao mesmo tempo. "Não!" Ambos olharam um para outro, Naruto levantou sua sobrancelha em dúvida, Norman entendeu a dica e continuou. "Nenhum garoto vai dormir no mesmo quarto de minha filha, ele pode ficar na sala até arrumar algo, mas não no mesmo quarto!".
Caroline olhou para seu marido como se ele tivesse crescido uma segunda cabeça. Ele estava até agora todo nesse ritmo de 'Naruto isso e Naruto aquilo', e do nada surta quando sua filha dá a única sugestão viável. "Norman, olha para Naruto. Ele não tem cara de quem pensa nesse tipo de coisa que você está imaginando, ele nem deve saber nada sobre de onde vem os bebês ou algo do tipo" Naruto controlou sua vontade de jogar uma kunai enquanto Norman olhava para sua esposa sem acreditar no que ouviu, enquanto May estava corando de vergonha e raiva de sua mãe.
Depois de uma discussão da qual Naruto não queria participar, foi decidido que ele ficaria no quarto de May, dormindo em seu saco de dormir no chão até que eles disponibilizassem uma cama adequada.
O resto da noite foi normal na medida do possível. Max desceu para o jantar quando a noite caiu e só foi comer quando Naruto não estava na mesma sala em que ele. O dito garoto ruivo neste momento estava na sala sem fazer nada, enquanto a família comia. Eles ofereceram comida a ele, mas Naruto negou dizendo que não comeria algo que ele não cozinhou, poderia estar envenenado.
Pela primeira vez, Caroline se magoou de verdade com o comentário, mas depois guardou sua tristeza ao relembrar sobre o passado do menino. Era compreensível pensar assim pelo o que ele passou, mas ainda a entristecia escutar isso de uma criança.
Norman não disse nada sobre o comentário, seguindo o raciocínio de sua esposa e também levando em conta situações que aconteceram com ele em sua juventude.
Max olhou para Naruto com raiva, mas não disse nada, enquanto May brincava com sua comida usando o garfo. Isso preocupou a todos, pois era conhecido o apetite monstruoso da menina.
"O que esta errado filha?" Perguntou Norman enquanto olhava para sua garotinha.
May olhou para ele, e depois para o resto de sua família. "Naruto não fez nada de mal comigo, me ajudou a voltar para casa, e mesmo assim é ele que é tratado como perigoso enquanto quem me machucou ainda está Arceus sabe onde. E agora o Max a todo momento que tem oportunidade, fica antagonizando Naruto. Quando isso vai acabar? Ele não merece isso." Terminou ela enquanto começava a soluçar querendo chorar.
Max largou seu prato e subiu para seu quarto sem comentar nada, e assim o clima ficou pesado no primeiro jantar em família depois de que sua filha retornou.
As horas passaram e logo todos foram para seus quartos dormir, pois o próximo dia seria movimentado. Logo chegou a vez de Naruto e May se aprontarem para dormir.
Naruto foi rápido em soltar o selo que guardava seu saco de dormir no meio do quarto de May e foi dormir. Ele fechou o zíper até que somente seu cabelo estivesse exposto, e quando May viu aquilo saindo do banheiro, não pode deixar de segurar o riso, parecia uma lagarta saindo do casulo.
Ela se deitou e começou a pensar em tudo o que aconteceu, e no que seria de seu futuro.
Ela ainda queria treinar Pokémon, mas todos os que ela possuía foram roubados, sobrando somente sua Beautyfly e Bubasaur que estavam na estufa de seu pai no ginásio.
Por outro lado, ela também tinha muito medo de sair sozinha novamente, visto que ela não queria passar por nada parecido com o que aconteceu com ela naquele lugar horrível. Mas com quem ela iria? Naruto não sabia nada sobre Pokémon, e francamente ela não queria estar perto do Max agora, não depois do que ele disse sobre o Naruto. Como ele podia fazer aquilo? Naruto era alguém que a salvou sem pedir nada em troca, a ajudou a se curar e cuidou dela, inferno, ele até a trouxe para casa junto a seus pais, algo que ela não teria feito sozinha sem sobra de dúvidas.
Por um momento ela pensou nos anos em que viajou com Ash por Hoen em Kanto, e pensou se poderia fazer isso novamente. A ideia não parecia ruim em sua cabeça, mas muitas coisas ainda precisavam ser definidas. A primeira coisa é que ela não iria em lugar algum sem Naruto, ele era a única pessoa que ela confiava. Outro motivo seria seus pais. Ela sinceramente não sabia se eles deixariam ela sair novamente.
Isso era algo para se pensar no futuro, no momento ela estava em casa, com sua família e com quem a salvou, e isso era motivo suficiente para ela conseguir dormir em paz, todo o resto se resolveria com o tempo.
May se deitou e antes de dormir, olhou novamente para Naruto que agora estava com sua face exposta, o zíper deve ter aberto enquanto ele dormia. Ele parecia em paz quando dormia, ela nunca tinha visto ele assim, estava sempre alerta o tempo todo, mas agora ele parecia um adolescente de sua idade, tranquilo sem se preocupar com o futuro. Ela gostou do que estava vendo, só desejava que ele fosse assim enquanto acordado também, mas talvez fosse pedir demais. Já era bom o suficiente Naruto estar com ela no momento, não seria inteligente abusar da sorte.
"Boa noite". Disse enquanto se virava para dormir. Naruto mesmo dormindo acabou respondendo de forma inconsciente. "Boa noite". Disse ele ainda dormindo.
May, que não estava vendo-o no momento, corou surpreendida com a resposta, e com um sorriso foi dormir.
Bem, até que Naruto começou a roncar alto, o que fez May colocar o travesseiro em cima de sua face enquanto gemia de frustração, abafada pelo travesseiro.
Seria uma longa noite.
