Capítulo 02 - Um atalho no tempo


Sam se colocou de pé batendo a sujeira da calça. Um pouco mais desperta sentiu um cheiro ruim próximo, como se houvesse algo apodrecido. Com a luz que conseguia atravessar as copas altas das árvores seguiu em direção a um barulho esquisito, parecia o som de algo sendo arrastado pelo chão.

– Olá? Tem alguém aí – ouviu sua voz ecoar na escuridão.

Andou mais alguns passos antes de chegar próximo a uma pequena clareira, aquela parte estava melhor iluminada já que nada impedia a lua de brilhar forte. Seu tênis afundou em uma terra fofa e úmida, ali o cheiro de podridão atingiu níveis grotescos. Era como se alguém tivesse enterrado um corpo há semanas e agora o cadáver fedia pela decomposição. Tudo aconteceu em um piscar de olhos, em um primeiro momento ela estava pensando que parecia aqueles filmes de terror de serial killer – jurando que se ouvisse o som da serra elétrica correria como uma maluca gritando "Leatherface, é o Leatherface" – e no momento seguinte o cenário mudou quase completamente ao seu redor. As árvores eram as mesmas, mas o ambiente parecia mais sombrio, azulado, frio e úmido. Como o prenúncio para um desastre. Esticou a mão pegando uma partícula esbranquiçada que flutuava por todo lugar.

Com curiosidade seus pés a levaram até uma grande árvore com as raízes expostas, o cheiro forte parecia vir dali. Como se uma força tomasse conta dos seus movimentos, esticou a mão em direção a madeira.

"Sam", uma voz sombria chamou seu nome. Sentiu o corpo inteiro se arrepiar, seus pés tropeçaram um passo desajeitado para trás.

– Quem está aí? – perguntou com a voz trêmula, sua respiração acelerou conforme o pânico aumentou.

"Samantha", seu nome foi repetido ao mesmo tempo em que algo se enrolou em sua perna e a puxou para o chão.

Em um grito de desespero viu um cipó pegajoso em seu tornozelo arrastando seu corpo para as raízes expostas. Não era uma simples planta, ela tinha vida e estranhamente parecia respirar. Sam continuou a gritar se virando com a barriga no chão, unhas cravadas na terra molhada tentando impedir de ser levada. Sua cabeça dava voltas, desesperada em encontrar uma forma de se libertar. Se lembrou do canivete no bolso, tinha passado a andar com aquilo depois das duas últimas mortes em Hawkins. Enfiou uma das mãos na calça tirando o objeto, abriu e fincou a ponta afiada no cipó correndo a lâmina de um lado ao outro. Não parecia madeira, era mole como carne e se retorceu como se sentisse dor. A névoa muito parecida com um sonho se dissipou no mesmo instante, o frio macabro e as partículas esbranquiçadas sumiram. Parecia mais com o mundo real agora.

Aproveitou que o aperto afrouxou para se soltar. Graças ao medo e a adrenalina as pernas aguentaram seu peso em pé. Sem olhar exatamente para onde iria, correu pela floresta tão rápido quanto conseguia, os pulmões ardendo pelo esforço. Ainda era possível ouvir o som de algo rastejando em seu encalço, algo vil e pronto para capturá-la novamente. Por onde passava sentia os galhos secos arranharem seu rosto e corpo, o terreno se inclinou levemente para cima e quando percebeu estava prestes a atingir o limite entre as árvores e a estrada.

Estava a salvo.

Se sentia tão aliviada que não percebeu o carro que vinha pela rua, quando se deu conta as luzes dos faróis estavam próximas demais e o para-choque a centímetros de onde estava. O motorista foi rápido o suficiente para frear antes que algo pior acontecesse. Sam espalmou as mãos no capô, curvando o corpo para frente. As pernas começaram a tremer subitamente perdendo as forças.

– Porra! – ouviu uma voz grosseira gritar junto ao som da buzina. – O que diabos você estava pensando sua maluca?

Levantou a cabeça para encarar o motorista. O interior do carro não estava iluminado, precisou usar da luz da lua para enxergar alguns detalhes. Cabelos cor de areia, cigarro nos lábios, uma ruga na testa e olhos claros furiosos. A expressão irritada do garoto se suavizou assim que se encararam. O que será que ele estava vendo para mudar de expressão assim? Uma pessoa suja, machucada e chorando? Devia mesmo estar uma bagunça. Quando achou que estava tudo bem ouviu o som rastejante de onde tinha saído, com a luz do farol viu uma das vinhas se esgueirar pelas árvores e sentiu de volta toda a urgência de se movimentar.

– Droga, droga, droga – resmungou voltando a correr.

Além da estrada ladeada por árvores não tinha outro lugar para ir então apostou em continuar correndo para o lado oposto daquela porcaria de tentáculo-cipó. Sem pensar nas consequências foi em direção ao outro lado da floresta ignorando os gritos do motorista. Se estivesse em seu estado normal teria deixado um aviso, mandado ele cair fora, mas neste exato momento ela deveria estar segura em casa e não fugindo de uma planta assassina. Era difícil ser racional. Como tinha ido parar no meio da floresta depois de dormir em sua cama? Será que tinha algo a ver com o que descobriu sobre monstros e mundos paralelos? Se sentia tão mentalmente drenada que seu cérebro só processava um comando por vez e o principal naquele momento era o de correr.

Ela correu por muito tempo ainda. Seus ouvidos zuniam esquisito enquanto sua corrida se transformou em tropeços. Estava se obrigando a continuar em movimento, mas as pernas tremiam tanto que não aguentaria muito mais. Foi um milagre encontrar aquela cabana no meio da floresta, precisaria de mais alguns passos até chegar lá e ainda assim era melhor do que nada. Estava tão distraída, e o lugar escuro, que não percebeu o fio atravessado no meio do caminho. Suas pernas se enroscaram nele como nos desenhos animados e logo foi em direção ao chão, mas antes disso ouviu o som alto e seco de um tiro estalar na noite. Ótimo, aparentemente ela tinha que morrer mesmo.

..

Quando Sam acordou novamente sentiu estar deitada em algo macio. Uma cama. Tudo não tinha passado de um pesadelo e agora estava segura em casa. Conseguir abrir os olhos ainda era um pouco difícil, o sonho pareceu tão vívido que até a dor nos músculos era real. Sentiu algo cutucar sua bochecha, a lembrança dos cipós vivos lhe atingiu forte fazendo seus olhos enfim se abrirem. Logo em frente ao seu rosto encontrou as feições delicadas e assustadas de uma criança, o dedo dela cutucava sua bochecha em um chamado para acordá-la. Assustada, se sentou em um pulo, o quarto em que estava rodou pelo movimento abrupto.

– Droga – resmungou fechando os olhos e pressionando o lado esquerdo da cabeça.

Com movimentos mais calmos abriu um olho por vez. Não estava mais entre as árvores sendo ameaçada por aquela coisa, precisava apenas descobrir quem era aquela criança e arrumar um jeito de ir para casa. Estava tudo tão confuso.

– Má? – ouviu a delicada voz da menina encher o ambiente silencioso.

– Como?

– Você – apontou para o peito de Sam. – Pessoa má?

– O quê? Não. Eu não sou uma pessoa má. Escuta, você sabe onde eu estou?

Os atentos olhos castanhos a encararam com total atenção. A garotinha parecia enxergar dentro de sua alma e isso estava começando a ficar assustador.

– Hawkins.

Era uma resposta melhor do que nada, ao menos sabia que estava na cidade. Mas ainda não era isso o que queria. Tentou se levantar e sentiu as pernas protestarem com o movimento, olhando as mãos viu arranhões na pele e terra nas unhas. Talvez não tenha sido um sonho, as dores em seu corpo eram bastante reais.

– Onde estão seus pais? – arriscou uma pergunta.

– Atrasado.

Sam encarou a garota com dúvida. Por que ela não respondia em frases completas? Empurrando os pés para fora da cama se preparou para sair dali o quanto antes, porém tão logo pisou no chão suas pernas tremeram e precisou se apoiar para não cair. A menina correu para o seu lado a encarando. Era assim que começavam os filmes de terror e, a não ser que fosse a personagem principal que sobrevivia, não estava afim de ficar parada para descobrir como seria sua morte.

– Olha eu preciso ir para casa, você pode me emprestar o seu telefone? Vou pedir para os meus pais virem me buscar.

– Machucado – a garota apontou para sua bochecha. Correndo os próprios dedos sentiu sangue seco vindo de um corte. – Curativo.

Em um rompante a menina saiu do quarto correndo por uma porta. Sam se endireitou arriscando um passo de cada vez. Saindo pela porta encontrou uma sala simples, pequena e rústica. Será que estava na cabana que viu na floresta? Então ela não tinha tomado um tiro? O que estava acontecendo? Eram tantas perguntas. Depois de um dia esquisito onde sua nova amiga levitou – e dela descobrir que existem coisas além da sua compreensão – parecia que estava prestes a viver aqueles fenômenos na própria pele.

– Machucado – a menina apareceu com uma caixa de primeiros socorros. A mão pequena segurou a sua a levando até o sofá.

– Está tudo bem. Posso fazer isso em casa.

– Sangue. Machucado.

Cansada de tentar dialogar, apenas aceitou calada que ela esfregasse sua bochecha com um algodão embebido em remédio. Ao menos parecia ser uma boa pessoa. Enquanto se deixava ser cuidada, Sam esquadrinhava o ambiente. Quem quer que fossem os pais da menina tinham muita coragem em deixá-la sozinha em um lugar tão esquisito. Não encontrou nenhum telefone, porém na parede oposta estava pendurado um grande calendário que chamou sua atenção. Quando se viu livre dos cuidados andou até ele curiosa, mais esquisito do que a folha estar em outubro com o dia 31 marcado era o ano no cabeçalho ser 1984. Até parecia que as pessoas ali eram tão desatualizadas que viviam no passado.

– Dia das bruxas – a menina falou assim que voltou depois de guardar os primeiros socorros.

– Ah, sim, dia das bruxas. Legal. Olha, você não tem mesmo um telefone por aqui, né? – recebeu um gesto negativo de cabeça em troca.

Estava preparada para fazer perguntas mais diretas sobre onde estava e como sair dali quando o som da TV, que nem tinha percebido estar ligada, chamou sua atenção. Era o telejornal da noite com uma matéria sobre o dia das bruxas, quanta fixação. O único problema é que não parecia uma matéria antiga como imaginava. Correndo para a frente do aparelho viu a sinalização de "ao vivo" enquanto um repórter andava pelas ruas de Salem mostrando pessoas fantasiadas.

– Dia das bruxas – ouviu a voz repetir ao seu lado.

– Que dia é hoje? – perguntou receosa.

– Trinta e um de outubro.

Agora entendia o porquê dela falar tanto em dia das bruxas.

– De que ano?

– Mil novecentos e oitenta e quatro.

Sam se sentiu tonta, se afastou da TV e sentou no sofá. Algo estava muito, muito errado. Desde que adormeceu em seu quarto, acordou em uma floresta e foi atacada por vinhas vivas soube que estava ferrada. Mas isso? Como era possível?

– Quem é você? – perguntou atordoada. Sentia que o ar lhe faltava aos poucos e a audição começava a ficar longe.

– Eleven. Meus amigos me chamam de El.

Eleven? Não existiam muitas pessoas com um nome tão peculiar assim, aquela só poderia ser a amiga da Max. Mais uma vez naquela noite sua visão rodou e escureceu. Talvez fosse estresse ou coisa de pressão baixa, ou talvez fosse a significante informação de que ela tinha acordado no passado.

..

Na terceira vez que acordou encontrou o mesmo teto rústico da cabana, uma voz masculina por trás da porta do quarto chamou sua atenção. Fez menção a se levantar, mas Eleven colocou o dedo indicador nos lábios pedindo que não fizesse barulho.

– Me desculpe. El, por favor, abre a porta? – chamou a voz desconhecida. – Eleven?

Ignorando, Eleven foi até a TV aumentando um pouco mais o volume.

– Seu pai? – Sam cochichou aproveitando as vozes animadas de um comercial.

– Atrasado – a menina concordou com um aceno da cabeça.

– Tá bom. Eu vou ficar aqui fora sozinho comendo esses doces – a voz tentou persuadir.

Atrasado. Fazia sentido a raiva dela. Todas as crianças do país deveriam estar na rua em um dia como este, vestindo fantasias legais e pedindo doces. Mas ela estava em uma cabana no meio do nada.

– Quem é você? – olhos curiosos a encaravam. Eleven era uma boa garota assim como Max havia contado, também era bastante protetora e cuidadosa.

– Sou Samantha. Sam. Você disse que é a Eleven, certo?

Após receber um aceno positivo de cabeça começou a se perguntar o que faria de agora em diante. Se beliscou mais uma vez só para ter certeza de que não estava mesmo sonhando. Não deveria ser possível uma pessoa viajar no tempo e mesmo assim lá estava ela em 1984, sem amigos, ajuda ou ideia de como fazer tudo voltar ao normal. Será que o tal de Vecna tinha esse tipo de poder também? Só percebeu que estava chorando quando dedos pequenos enxugaram suas lágrimas.

– Saudade de casa? – Eleven perguntou.

– Sim. Muita. Mas eles estão longe – longe tipo dois anos no futuro. Ou longe como na Carolina do Norte com o seu outro eu.

– Você guarda segredo? – ela perguntou encarando a porta do quarto trancada.

Se guardava segredo? Bem, ela estava agora mesmo guardando um dos grandes.

– Guardo.

– Eu posso me comunicar com eles.

É claro. Max e seus amigos contaram que ela tinha poderes psíquicos. Mas só valeriam de verdade caso conseguissem mandá-la de volta para casa, no seu tempo.

– Não acho que vai ser possível – começou incerta se a menina acreditaria nela. Se não, daria um jeito. O que era uma pessoa que voltava ao passado perto de outra com super poderes? – Agora é a minha vez de perguntar, você pode guardar um segredo?

Após vê-la concordar começou a contar um pouco da sua história. Sam tinha assistido Back to the Future no ano anterior e levou em consideração muitas coisas que o Dr. Emmett Brown contou para Marty McFly, caso não tomasse cuidado bagunçaria toda a linha do tempo não só dela como daquelas pessoas. Por isso passou por cima de informações como Vecna, Eleven na Califórnia e Max amaldiçoada. Não, ela não citou nenhum dos que conheceu em Hawkins porque não os conhecia atualmente. Apenas contou que tinha deitado em sua cama em 1986 e acordado na floresta, que cipós assustadores tentaram agarrá-la e que foi fugindo deles que chegou até a cabana. Quando mencionou sobre a miragem que teve com um lugar sombrio, frio e úmido, Eleven a cortou dizendo "Mundo Invertido". Não precisou de muito mais informações para que a garota acreditasse em sua história.

– Por isso eu não posso falar com os meus pais. Preciso encontrar um jeito de voltar para casa.

– Eu vou te ajudar.

Naquela noite, dentro das suas limitações de comunicação, Eleven confidenciou sobre tudo o que tinha acontecido em 1983 para mostrar um tipo de elo entre elas. "Ligação via Mundo Invertido, super divertido", ironizou mentalmente. Sabia por alto algumas coisas que tinham acontecido, contadas na pressa depois de ver uma amiga flutuar e ser salva por Kate Bush, mas os detalhes de agora enriqueceram muito a história. A menina também contou sobre seus poderes e Sam viu em primeira mão quando a menina tentou se comunicar com o amigo Mike Wheeler. Ela era tão nova e com tantas responsabilidades para carregar. Viu que o contato deu errado quando os olhos dela se encheram de lágrimas. Agora era sua vez de consolá-la, colocando uma mão nos ombros magros trouxe o pequeno corpo para um abraço. Mesmo estando no tempo errado, algo em poder ser útil a fez se sentir no lugar certo, como se naquele momento realmente devesse estar em 1984.

..


Olá, estou de volta.

Hoje vimos que a Sam é gente como a gente e tem um azar impressionante, não? Hawkins é uma cidade assustadora que inspira as maiores loucuras na vida de seus moradores.

A partir de agora seguiremos os acontecimentos da 2ª temporada por um ponto de vista diferente e descobriremos o que acontece com a linha do tempo quando bagunçamos ela um pouquinho. Prometo que logo, logo o Billy terá maior participação e interação com a Sam nos capítulos. É uma slow burn, então precisamos de um pouquinho de paciência para construir a tensão entre eles.