Capítulo 03 - Garoto Califórnia


Hawkins, Indiana - 1984

Na manhã seguinte Sam se sentia uma figurante de The Return of the Living Dead. Tinha dormido pouco com o tanto de pensamentos que rondavam sua mente, eles iam desde "eu estou tão, mas tão ferrada" a "será que alguém tem um DeLorean?". A vida em Hawkins, que deveria ser pacífica, se tornou uma merda agitada. Agora estava escondida como uma meliante no quarto de uma menina com superpoderes enquanto esperava ela roubar o seu café da manhã.

No canto em que estava escondida ouviu a discussão entre pai e filha. Ela queria sair, ver os amigos e viver como uma criança normal por mais que fosse difícil, mas o pai superprotetor não dava ouvidos. Foram 326 dias, quase um ano inteiro trancada em uma cabana no meio do nada. Quando o som de pratos caindo e a voz irritada da menina gritou "amigos não mentem!" soube que não tinha terminado bem. Eleven entrou batendo a porta do quarto como se o inferno estivesse na sua cola, com os olhos cheios de lágrimas e as mãos tremendo sussurrou para Sam "esqueci seus waffles". Estava tudo bem, fome era o último dos seus problemas naquele momento.

Não demorou muito para o homem sair para o trabalho e elas deixarem o quarto. Sam viu a pequena mesa suja de café e creme, para distrair a mente começou a limpar toda a bagunça antes de comer alguma coisa. Tirando sua jaqueta suja de terra e trocando por uma camisa xadrez de flanela encontrou mais machucados nos braços. Havia hematomas marcando sua pele, um lembrete do que tinha enfrentado.

A manhã passou com as duas conversando um pouco sobre tudo, descobriu que o som de tiro que ouviu na noite anterior era um tipo de armadilha de perímetro que avisava quando intrusos se aproximavam. Depois conversaram sobre a vinda dela para o passado, El levantou a possibilidade de seus poderes terem sido os responsáveis, mas logo foi descartado já que em 1986 a menina estava na Califórnia; não que tivesse contado esse fato. Por último perguntou se a garota não queria desabafar sobre a briga de mais cedo.

Jim Hopper era o "pai". Se lembrava do nome dele como um dos heróis no desastre do shopping Starcourt, algo em seu estômago afundou com aquela compreensão. Era um homem de muitas regras como o esperado em sua profissão, El lhe contou as três principais chamadas "regras sem burrice". Em que mundo ele achava que isso daria certo com uma pré-adolescente poderosa? Não daria certo mesmo que não tivesse poderes envolvidos. Esperando que a conversa tivesse acalmado os ânimos, porque a menina estava realmente irritada por não poder ir ver o amigo Mike, Sam pediu licença e foi até o banheiro jogar água no rosto, precisava começar a arquitetar um plano sobre o que fazer de agora em diante. Quando saiu encontrou a sala estranhamente silenciosa e a porta da frente aberta.

– Ela não… – a ideia da garota andando por aí sozinha com aquelas vinhas pela floresta a assustou. – Droga!

Sem pensar muito passou às pressas pela porta, se lembrando da armadilha de perímetro da noite anterior andou com cuidado até achar o arame remontado, depois disso correu seguindo as pequenas pegadas na terra úmida. Como uma menina poderia andar tão rápido assim? Quando chegou próximo a uma parte aberta com uma casa, uma mulher e uma criança estavam encarando as correntes enroladas de um balanço.

– Oi, com licença. Bom dia – chamou a atenção da mulher.

– Bom dia.

– A senhora viu uma garotinha por aqui? Ela tem mais ou menos essa altura, cabelos curtos cacheados.

– Você a conhece? – a mulher perguntou com uma ruga na testa, algo lhe dizia que El tinha passado por ali.

– Claro, é a… minha irmã mais nova – apenas um idiota acreditaria nisso, elas não se pareciam em nada. Mas foi a melhor resposta que encontrou.

– Ela passou por aqui perguntando onde ficava a escola. Eu falei que ficava a uns dois quilômetros para aquele lado e depois ela sumiu. É perigoso uma garotinha tão jovem andar por aí sozinha, ainda mais depois dos últimos acontecimentos em Hawkins.

Sam sentiu a censura da mulher, era uma irresponsabilidade a irmã mais velha deixar a mais nova sozinha pela cidade. Com um agradecimento correu na direção que foi apontada. Depois de andar por mais 25 minutos, cansada e morrendo de sede, encontrou a fachada da escola. Os corredores estavam vazios já que as aulas tinham acabado, era uma coisa boa não ter tantas pessoas como testemunhas. Agora só precisava encontrar a garota.

Andando pelos corredores ouviu um barulho esquisito, talvez estivesse ficando paranóica, mas a sensação de que algo ruim estava à espreita era incontrolável. Seguindo o som encontrou algo que fez seu queixo cair. Parecia um tipo de girino superdesenvolvido, grande como um filhote de cachorro, correndo para a entrada de um banheiro. Ou aquilo tinha escapado da aula de ciências ou era do Mundo Invertido, tinha a mesma aparência viscosa das vinhas. O som de passos a tirou de seus devaneios, apressada passou por uma porta escrito Robert Salerno.

Espiando pela janela de vidro na porta viu quando um garoto entrou no banheiro, não demorou muito para que ele saísse cambaleante. Alguma coisa não estava certa, parecia perdido e confuso, então fez uma cara de pânico e saiu correndo como se algo o estivesse perseguindo. Foi a mesma reação que teve quando fugiu dos cipós, com um pavor que palavras não poderiam explicar. Nunca tinha sido uma das garotas mais corajosas, sempre que assistia filmes de terror tinha problemas em dormir sozinha e, no final, acabava enfiada no quarto do avô. Mas algo no olhar dele a fez seguir o som de seus passos. Hoje era oficialmente o dia em que Samantha Scott corria atrás de pré-adolescentes. O caminho a levou até o gramado da escola onde o menino estava parado em pé, suas costas tão eretas quanto uma vareta fincada no chão, os olhos fechados se contraindo de forma estranha.

– Will! – outros dois meninos se aproximaram gritando. – O que aconteceu?

– Eu não sei, encontrei ele assim – respondeu incerta, tinha medo de alguém culpá-la pelo que estava acontecendo. Um sentimento de déjà vu a atingiu com força quando se lembrou dos acontecimentos no cemitério com Max.

– Merda. Lucas vai atrás do Dustin – um dos garotos gritou para o outro.

"Lucas Sinclair, o namorado da Max", sua cabeça ligou os pontos. Então aqueles deveriam ser Will e Mike. Era uma pena não ter dado tempo deles terem conversado o suficiente em 86 para saber o que fazer, mas se pudesse apostaria que estava presenciando a parte onde o Devorador de Mentes entrava em Will.

"Primeiro ele foi levado para o Mundo Invertido, um ano depois foi possuído pelo Devorador de Mentes", se lembrava de Dustin ter contado isso.

Logo Lucas voltou com uma mulher – descobriu depois ser a mãe do Will, – Dustin e Max. Enquanto a mulher chamava desesperada pelo filho, pedindo que ele acordasse, os demais se encaravam apreensivos quando, de repente, os olhos dele se abriram. Foi algo tão abrupto que parecia com a sensação de quando você sonha que está caindo e acorda assustado. Não houve muito a ser dito depois disso, apenas um silêncio opressor seguido de passos que os levaram até a entrada da escola. Viram quando a mãe colocou o menino no carro e partiu o mais rápido que pode.

– Tá bom, aquilo me assustou legal. Não assustou vocês? – Max quebrou o silêncio.

– Dois surtos desses em dois dias – Lucas não parecia falar com alguém específico, apenas divagou em voz alta.

– Está ficando pior – Mike respondeu também de forma automática.

– Será que é a visão verdadeira?

– Visão verdadeira? – Max questionou, cansada em não saber do que estavam falando.

Sam jurava que eles eram amigos, de onde veio tinha visto aquelas mesmas crianças lutarem em desespero para salvá-la do Vecna. Porém naquele momento ninguém parecia estar em bons termos. Precisava tomar cuidado.

– Nada. Não é nada – Lucas respondeu depois que os amigos o censuraram com os olhos.

– E quem é você? – Mike a encarou desconfiado, havia um pré-julgamento no olhar dele como se ela fosse uma ameaça. – O que está fazendo aqui?

Quatro pares de olhos se voltaram para onde estava. Sentiu que não era uma boa ideia contar seu segredo ainda, precisaria contar uma mentira.

– Eu? Eu sou a Samantha – estava começando a se cansar de tanta apresentação. – Eu vim… buscar a minha prima.

– Nunca te vi em Hawkins antes, qual o nome da sua prima? – ele insistiu. Que garoto irritante, não dava só para engolir a desculpa como qualquer outra criança?

– Não moro aqui, vim visitar meus tios – precisava ser convincente. Convincente! – Você deve conhecer ela, é a Allison Reynolds.

Sério mesmo que tinha dado o nome de uma personagem de The Breakfast Club para sua prima imaginária? Ainda bem que o filme só seria lançado no ano seguinte.

– Não me lembro de nenhuma Allison Reynolds. Ela faz quais aulas?

– Já chega, Mike! – Max tomou a frente salvando sua bunda mesmo sem saber disso. – Você esconde coisas a todo momento e não quer ser pressionado, mas é o primeiro a interrogar uma estranha?

O garoto deu um passo para trás desistindo de fazer mais perguntas, depois saiu resmungando em direção às bicicletas seguido pelos dois amigos. Conseguia entender a reação dele, estava sendo protetor com aqueles que amava. Não conseguiria ficar chateada por isso.

– Me desculpa por isso, garotos são meio idiotas. Sou Max Mayfield.

Era um pouco chocante aquela garota na sua frente, a que conheceu em 86 era tão triste e quebrada pela perda do irmão. A que estava vendo agora era sorridente, quase brilhava de tanta energia e calor, ainda assim conseguia sentir a familiaridade que dividiam quando estavam juntas.

– Sam Scott. Acredite, eles só pioram enquanto envelhecem.

– Ah, isso eu sei. Tenho um meio-irmão mais velho que é um saco.

Como se as palavras de Max fossem um tipo de feitiço que conjurava pessoas, o som do ronco de um motor chamou a atenção das duas. Estava longe, mas se aproximava rápido. A garota fez uma careta de reconhecimento.

– Ei, por acaso foram vocês que perderam um bichinho? Um… sapo? – jogou a informação tentando encontrar uma explicação para o que tinha visto.

– Dart! Você o viu?

– Sim. Estava procurando minha prima e vi… uma coisa correndo para o banheiro. Depois aquele menino entrou pela mesma porta e saiu correndo, fui atrás porque ele não parecia bem.

Um carro azul parou em frente a escola, o motorista buzinou como se fosse um alarme anunciando um desastre natural. Alto e ininterrupto.

"Que otário", pensou encarando o automóvel.

– Droga – Max resmungou.

A porta foi aberta e por ela saiu um garoto muito irritado. Jeans apertado, mascando chiclete e cabelo mullet. Era o famigerado meio-irmão, Billy Hargrove, não tinha como ser outra pessoa. Com passos pesados ele foi até onde estavam parando em frente a pequena escada que levava para a porta de entrada do colégio.

– Você só pode estar querendo me ferrar, sua pirralha. Casa. Agora.

– Relaxa, já estou indo.

Com as mãos na cintura o rapaz olhou para o céu teatralmente.

– Max. Max. Eu estou relaxado, mas Neil não está, então dá para mexer essa bunda até o carro antes que eu perca a paciência?

– Tão babaca – ela sussurrou ao seu lado, tão baixo que mal conseguiu escutar. – Já estou indo. Tchau, Sam. Espero te ver de novo.

Acenou uma despedida enquanto via a menina pegar o skate e ir em direção ao carro, o meio-irmão não a seguiu. Ele estava parado encarando Sam como se tivesse descoberto o mistério da vida humana.

– A culpa não é dela – achou que seria uma boa ideia tentar aliviar as coisas para o lado da amiga, ou futura amiga. Naquela altura, o que era mais uma mentira na sua conta? – Vim buscar minha prima e a Max estava me ajudando.

– Espero que ela não tenha te chateado demais – Billy se aproximou subindo as escadas, o sorriso ladino dizia que era um golpe ambulante e que se você se distraísse cairia sem nem perceber. Depois olhou em volta procurando alguma coisa. – Sabe, se não conseguir achar sua prima me avise, eu tenho olhos bastante funcionais. Olhos, mãos, boca… Billy Hargrove. E você é…?

Antes mesmo de conseguir processar o que tinha ouvido, teve a mão tomada pela dele. Seus dedos eram compridos e a pele quente, tão diferente da pedra fria em que colocava margaridas brancas sempre que o visitava. Como o esperado de alguém como ele viu quando sua mão foi levada até os lábios de sorriso fácil para um beijo cheio de pretensões. Sam sentiu a resposta do seu sistema nervoso no mesmo momento, eletricidade correu pelo corpo e explodiu como fogos de artifício em seu estômago. Foi a primeira vez que sentiu algo assim e ficou aliviada ao perceber que não foi a única.

– Ei, eu te conheço – Billy a interrompeu quando estava prestes a se apresentar. – É a garota que eu quase atropelei ontem. Está tudo bem com você?

Ao menos a preocupação em seu tom de voz pareceu sincera. Então era ele? Estava tão assustada que não tinha conseguido reparar em nada além de cipós mutantes. Qual era a probabilidade de tantas coincidências?

– Billy você quer parar de paquerar? Ela é esperta demais para cair no seu jogo – Max gritou de onde estava buzinando para o meio-irmão.

– Um minuto – ele pediu se virando para o som, desde que tinha segurado sua mão ainda não tinha soltado. – Se você não parar de apertar a buzina do meu carro vou te amarrar nessa porcaria de skate e te arrastar até em casa como um carro no guincho.

A resposta dela veio com o dedo médio levantado, o que fez Sam sorrir. Aquela era totalmente a Max sarcástica que conhecia. Menos triste, mas definitivamente a mesma.

– Vocês se dão bem – puxou a mão do aperto, se não tivesse certeza de que ele estava tentando entrar nas suas calças diria que era uma pessoa gentil. Depois de sentir sua palma começar a suar sabia que não era seguro ficar perto dele por muito tempo.

– Como disse?

– Vocês se dão bem. Ninguém implica com alguém que não gosta, apenas ignora.

Billy não parecia convencido com sua teoria, apenas sorriu com desdém e mascou seu chiclete. Sam sabia que ele era um babaca, tinha ouvido tantas histórias sobre como ameaçou as crianças, a forma em que era competitivo com Steve e como atormentava a vida da Max. Mas no último minuto também soube que foi ele que impediu o Devorador de Mentes de conseguir pegar Eleven. Uma verdadeira incógnita. Ele não era um monstro, era só a consequência de um. Naquele momento não sabia o quão certa estava em seus pensamentos, pois o Devorador de Mentes não tinha sido o único monstro a machucar Billy Hargrove.

Quando Sam se viu só encarou o carro acelerando pela estrada. Na placa era possível ser lido "Califórnia", seu motivo de orgulho segundo a irmã, e também o porquê dele ser ainda mais babaca após a mudança para Hawkins. Então aquele era o famoso garoto Califórnia.

..


Hi guys!

Hoje tivemos o primeiro encontro real entre Sam e Billy, pequeno e com poucas indiretas, mas que irá aumentar gradativamente. Não existe em mim alguém que veja o Billy simplesmente caindo de quatro por outra pessoa assim como a Sam, na enrascada em que está, não se apaixonaria do dia para a noite. Paciência tenham jovens padawans…

Quero dizer que eu terminei de escrever a primeira parte da estória e agora só preciso postar, provavelmente será semanalmente sempre aos sábados. Já a segunda parte estou roteirizando para depois começar a escrever.