Capítulo 04 - Dizem que ela é esperta demais


Já estava escuro quando decidiu parar de andar sem rumo. Depois de não encontrar Eleven em canto nenhum da escola soube que deveria se virar sozinha. Não fazia ideia de como voltar para a cabana na floresta, Hawkins tinha uma extensa área com árvores dificultando sua locação. Além disso, tinha o problema com as vinhas, uma das coisas que se lembrava de ter ouvido em 86 é que as criaturas do Mundo Invertido eram noturnas. Estava sentindo a sola dos pés formigarem, desolada chutou uma pedrinha na estrada. Só queria estar em casa onde era seguro, comendo uma refeição quente e ouvindo seus pais contarem como tinha sido o dia deles. Não sabia naquela época como coisas banais faziam falta.

Estava literalmente perdida. Não sabia como voltar para a cabana, não sabia como voltar para casa, não sabia como sobreviveria… Em meio a sua frustração e palavras ininteligíveis um farol alto brilhou ao longe na estrada. O carro se aproximou parando ao seu lado, na lateral podia ser lido "Departamento de Polícia de Hawkins". Era tudo o que precisava, ser presa depois de voltar ao passado. Até onde seu azar chegaria? O vidro foi abaixado e um homem a encarou, Sam se sentiu intimidada porque sabia que daquela não poderia escapar. Estava sem documentos, ou pessoas que pagassem sua fiança caso necessário, e sabia que ninguém acreditaria na sua história de voltar no tempo. Se não parasse na prisão certamente iria para o manicômio.

– Samantha? – o homem perguntou, sua voz sendo estranhamente familiar. Sem saber se era seguro responder apenas o encarou com dúvida. – Vamos, garota, você e a Eleven têm muito o que me explicar.

A porta do passageiro foi aberta. Aquele era o pai da El, por isso sentia que conhecia sua voz. Normalmente não era uma garota aventureira assim, na verdade teve uma vida bastante simples enquanto morava na Carolina do Norte, mas o quão mais ferrada poderia ficar? Dando de ombros foi até o carro fechando a porta assim que entrou, colocou as mãos nos joelhos e encarou os tênis sujos.

– A El está bem? – quebrou o silêncio. Se ele estava ali era porque já tinha descoberto tudo.

– Melhor do que eu, mas de castigo. Conversamos sobre isso quando chegarmos em casa.

Aos poucos Sam encarou pela janela o caminho mudando de estrada asfaltada para uma trilha, não muito tempo depois estavam em frente a cabana. Jim Hopper era um cara legal, antes de começar a interrogá-la colocou um prato de comida na sua frente e deixou que tomasse um banho, seu cabelo estava um nojo. Notou que a porta do quarto de Eleven estava trancada, a garota não a abriu mesmo depois que ela – não o pai – tentou dialogar. Olhando os cacos de vidro no chão desconfiou que o temperamento da pré-adolescente tinha levado a melhor.

– El me contou sua história, a forma como você chegou aqui – ele introduziu o assunto depois que ela terminou de comer.

– E você acredita?

– Se fosse há dois anos eu te colocaria para fazer um exame toxicológico depois de ligar para os seus pais, mas acredite eu já vi coisas o suficiente para não duvidar de mais nada pelo resto da vida.

No restante da noite contou tudo o que se sentia à vontade em falar, sobre como tinha se mudado recentemente para Hawkins e de quem era parente. Muitos dos assuntos tinham sido abordados por Hopper, o que a encorajou de certa forma. Ele conhecia seu avô, não eram íntimos, mas em cidades pequenas todo mundo se conhecia. Mais uma vez pulou acontecimentos críticos e relações que tinha firmado no futuro, o policial foi sensível o suficiente em não pressioná-la a contar mais do que estava disposta a dar. Também contou onde estava e o que fazia antes de vir parar em 84. No único momento em que ele realmente quis saber de algo foi quando perguntou sobre os cipós, era uma pena não saber explicar exatamente onde tinha acontecido.

Hopper ofereceu uma muda de roupas limpas, enormes para ela, e deixou que dormisse em seu quarto ficando no sofá da sala. Ele também tinha garantido que investigaria com alguns conhecidos sobre a possibilidade de viagens no tempo. Quando conseguiu dormir teve um sonho perturbador. Estava na floresta novamente, o ar frio e as partículas brancas flutuavam por toda parte. Ouviu o som de algo próximo, não se parecia com as vinhas se arrastando, estava mais para um animal cercando sua presa. Não conseguia falar ou pedir por ajuda, sua voz simplesmente não saía, apenas começou a correr como na noite em que chegou ao passado. No entanto, parecia existir uma força nas suas costas que a impedia de ser rápida, como um imã gigante atraindo o metal na sua direção. Ela tropeçou em uma raiz de árvore alta indo de encontro ao chão, sentindo a fisgada no tornozelo se virou a tempo de ver uma criatura sair da escuridão. O tamanho era o de um urso jovem, porém a aparência da pele era lisa e brilhante, como se o corpo estivesse coberto de algum tipo de muco.

A criatura parecia com o sapo que viu na escola, era maior e mais assustador, porém a mancha amarela perto da cauda mostrava se tratar do mesmo. Um som animalesco encheu a floresta vazia enquanto o monstro se abaixava nas patas dianteiras como um felino prestes a dar o bote. Esperou por algo que a salvasse, um milagre divino ou quem sabe voltar para o seu tempo, e quando nada veio sentiu o peso sufocante esmagando seu corpo no chão e dentes afiados rasgarem seu peito. Acordou em um pulo, a respiração acelerada demonstrando o quão assustada estava. Passou a mão na testa suada e tentou correr pelos cabelos bagunçados, no primeiro nó que os dedos encontraram resmungou irritada. Não deveria ter dormido com o cabelo molhado. Por instinto levou as mãos ao peito, o sonho parecia tão real que ainda sentia a dor fantasma de dentes afiados em sua carne.

A luz clara que entrava pela pequena janela a obrigou a se levantar. Colocou a regata que usava quando chegou no passado, a camisa de flanela emprestada e a calça jeans suja de terra. Precisava lavar suas roupas o mais rápido possível. Assim que saiu encontrou El encarando TV, o olhar triste da menina mostrava o quão cansada estava de toda aquela situação. Sam a tinha ouvido em uma das discussões contando quantos dias estava sem ver os amigos, quase um ano inteiro sem nenhum tipo de contato com o mundo lá fora. Se estivesse no lugar dela teria enlouquecido.

– Desculpa – a garota pediu assim que a viu.

Desviando de alguns cacos no chão foi até o sofá se sentar ao lado dela.

– Pelo que?

– Fomos vistas ontem. Contei o seu segredo.

Então era isso. Provavelmente a mulher com a criança tinha acionado a polícia depois de vê-las naquela tarde, não tinha mesmo como continuar sustentando a mentira. No final era uma sorte e tanto Hopper ser o delegado da cidade.

– Tudo bem, acho que foi melhor assim. Hopper disse que conversaria com algumas pessoas sobre a possibilidade de viagens no tempo e se encontrar algo eu posso voltar para casa – viu o exato momento em que a menina mudou a expressão de triste para irritada. Falar sobre o delegado era um tema delicado depois dos últimos acontecimentos. – Você quer conversar sobre ele?

Às vezes os adultos esqueciam como era ser jovem. Ficavam tão ocupados com decisões importantes e as responsabilidades de seus atos que ignoravam o quão inconsequentes os mais novos poderiam ser quando contrariados. Com um aceno de cabeça El sinalizou que não, mas seus olhos se encheram de lágrimas. Suspirando estendeu o braço a puxando para um abraço.

– Que tal limparmos essa sala?

– Não. Quero fazer sozinha – sua oferta foi respondida com uma negativa. Parecia algo que ela quisesse fazer por seus próprios esforços.

Conforme a manhã se arrastava Sam não conseguia tirar o sonho da cabeça, saber que aquela criatura estava à solta a deixava inquieta. Não apenas Max e os outros garotos corriam perigo, a escola inteira estava ameaçada caso – como era mesmo o nome? Dart? – estivesse lá crescendo aos poucos enquanto se escondia na escuridão. Sentia que precisava fazer alguma coisa, ficar parada em uma cabana no meio do nada não fazia o seu estilo. De qualquer forma, nunca foi verbalmente proibida de sair dali, certo?

– Você sabe se tem outro carro por aqui? Ou alguma forma de se locomover sem ser andando por quilômetros? – perguntou para a garota enquanto terminava de lavar os pratos de café da manhã. Estava disposta a sair por aí com um patins nos pés mesmo sem saber como andar.

– Acho que não.

Olhando desolada pela janela começou a calcular se valeria ou não o esforço de andar todo o caminho novamente. Agora ao menos se sentia mais confiante em como voltar, tinha lido algumas placas e pontos de referência na noite anterior sobre como chegar a trilha da cabana. Entre um pensamento e outro avistou uma construção de madeira menor do lado de fora.

– Ei, o que é aquilo ali? – perguntou curiosa.

– Guarda bagunça – a resposta veio logo em seguida. – Foi o que o Hopper falou.

Guarda bagunça? Será que encontraria algo útil lá? Secando as mãos foi em direção a construção de madeira com a menina em seu encalço. Dentro encontrou um amontoados de caixas e ferramentas espalhadas, algo atrás de algumas madeiras a fez sorrir. Uma bicicleta. Depois de algum esforço conseguiu tirá-la para fora, estava um pouco enferrujada pelo desuso. Foi preciso encher os pneus e colocar óleo na corrente, mas seria útil.

– Onde você vai? – El perguntou curiosa depois que entraram novamente.

Sam tinha trocado a calça suja por uma que a menina emprestou, segundo ela "essa calça fica grande em mim, mas deve servir em você". Era uma forma fofa dela dizer para não andar com roupas sujas por aí. Para uma pré-adolescente o jeans podia até ficar grande, mas para seu corpo significava que a barra estava um tanto curta demais. De qualquer forma não estava em posição de rejeitar roupa, se fosse preciso lançaria a moda das calças curtas por pura necessidade.

– Preciso resolver uma coisa, volto antes do Hopper. Prometo – esperou poder cumprir a promessa, a garota não parecia o tipo de pessoa que lidava muito bem com acordos quebrados. – Tem certeza de que não quer ajuda?

Como resposta a menina levantou uma estante com os seus poderes, talvez um pouco de silêncio e arrumação ajudasse a acalmar sua mente. Sam pedalava em direção ao colégio, o caminho ficou inegavelmente mais rápido do que na tarde anterior. Agora precisava encontrar uma forma segura de dizer que as crianças tinham que tomar cuidado sem parecer uma maluca, a pior parte em ser discreta era não saber como fazer isso. Chegou exatamente na hora do lanche quando os alunos estavam do lado de fora. Na escadaria viu os meninos deixando Max para trás, era tão difícil tentar entender o que estava acontecendo. A maioria das relações ainda não tinham se firmado, transformando toda área ao seu redor em campo minado. Um passo em falso mandaria tudo pelos ares.

Encostando a bicicleta em um canto andou até ela.

– Garotos são meio idiotas – repetiu o que tinha ouvido dela na tarde anterior assim que se aproximou. Ver Max cabisbaixa a lembrava de um futuro onde um maldito psicopata a tinha amaldiçoado. Ninguém poderia culpá-la por querer ver a amiga feliz.

– Ei, você está aqui de novo – a garota sorriu em resposta, muito de sua tristeza sumindo instantaneamente.

– Ah sim, eu… A minha prima… – não tinha pensado em uma boa desculpa para aparecer ali, estava focada demais no sonho.

– Sei, Allison. Eu a vi mais cedo. Garota legal.

O sorriso conspiratório que recebeu mostrou que sua mentira tinha sido descoberta, porém não questionada. Dando de ombros também se sentou no degrau, se não fosse questionada diretamente então também não tentaria remediar a situação.

– Conseguiram encontrar o Dart? – perguntou aquilo que a vinha incomodando.

– Não. Nenhum sinal. Você acha que ele é perigoso?

Encarou a menina, havia curiosidade no tom da sua pergunta, daquelas onde a pessoa fica tão desconfiada a ponto de se incomodar.

– Bom, inofensivo é que não deve ser. Vocês sabem o que exatamente é aquilo?

– Não. Ao menos eu não sei. Os meninos devem fazer alguma ideia, mas estão em uma política onde só eles e uma amiga maga podem fazer parte do clube, zoomers aparentemente não são aceitos. Idiotas.

Em um curto espaço de tempo chamado segundos, Sam se perguntou quem realmente estava vivendo um drama. Ela que foi atirada sem piedade no passado ou aqueles pré-adolescentes? Mais uma vez empurrou seus problemas para um canto vazio de sua mente e se dispôs a ouvir sobre clubes, magos e o que quer que fosse zoomers.

– É por isso que está aqui sozinha?

– Eles tinham algo super importante para discutir sobre o Dart, mas o Mike não me deixou participar. Ele não me quer no clube e, tudo bem, eu é que sou a garota nova na cidade. Eles se conhecem há anos.

Se sentir solitário era ruim, não sabia quando e nem como as coisas se resolveriam, porém no futuro viu aqueles mesmos garotos lutarem como loucas para salvá-la.

– Vai ficar tudo bem. Um dia eles vão se dar conta de que precisam de uma zoomer na equipe – sua fala chamou a atenção de Max que sorriu em resposta. – É só confiar que as coisas vão se encaixar. Ser novo em um lugar é confuso mesmo.

Sabia por experiência própria como era isso. Aquela ao seu lado era a única amiga que tinha feito desde que pisou em Hawkins.

– Eu gosto de você. Não sei explicar, é como se te conhecesse a minha vida inteira.

– Talvez fomos amigas em outra vida – ou em outros tempos, sua mente completou. Animada, a garota pareceu gostar da ideia quando mudou sua atenção do skate para ela.

– Ou irmãs. Eu preferiria que você fosse a minha irmã ao invés do Billy – aquele era mais um campo minado para conversarem, Max odiava o irmão por ser um babaca completo, por isso agradeceu internamente quando ela mudou de assunto. – Você quer procurar o Dart comigo depois da aula? Se os bobocas não vão me contar nada vou descobrir só.

– Hoje?

– Sim. Somos mais espertas. Tenho certeza que vamos achar antes deles.

A ideia dela – sozinha – procurando uma criatura potencialmente perigosa não a agradou. Precisava pensar rápido em uma resposta como em quase todo momento desde que não acordou em sua cama em 1986, mas estava tão esgotada de ser soterrada por mentiras que deixou o cérebro agir no automático. O que não podia era deixá-la ir sozinha atrás de um provável sapo vindo do Mundo Invertido.

– Claro. Podemos procurar.

– Ótimo. Aquela bicicleta é sua, né? Eu tenho um skate, vai ser mais rápido se usarmos eles – Max se animou com a ideia de vencer os meninos em algo, não existia nada que aumentasse mais a competitividade do que ser deixada de fora de algum assunto. O som da campainha anunciando o fim do lanche soou alto encerrando a conversa delas. – Me espera aqui mais tarde, vou sair atrasada para despistar meu irmão. Até mais Sam.

Sem esperar por uma resposta a menina pegou seu skate subindo a escada com pressa. Esperava conseguir manter a promessa que fez a El e voltar antes que o Hopper chegasse, caso contrário estaria mais encrencada ainda.

..

Pelo resto da tarde, Sam esperou pacientemente pelo horário combinado. Enquanto isso criou alguns planos mirabolantes e irreais para seguir. Se o Dart crescesse como em seu sonho precisaria de algo para se defender, porém o quão rápido seria o crescimento daquilo? A arma precisava no mínimo ser proporcional. Andando de um lado para o outro chegou próximo ao estacionamento do colegial que ficava ao lado. Será que um galho de árvore seria o suficiente? Qualquer coisa era só dar uma tacada igual no baseball e torcer para ser um home run. Ou não, já que precisavam capturar o bicho. Estava tão, tão acelerada com os pensamentos que não viu por onde andava trombando com alguém, a próxima coisa que sentiu foi sua bunda acertando o chão em cheio. Ótimo tinha acabado de conseguir uma calça limpa e já sujava.

– Cuidado. Você 'tá bem? – uma mão apareceu em auxílio, quando olhou para cima encontrou a inconfundível cabeleira de Steve. – Ei, você se machucou?

– Não. Está tudo bem – aceitou a ajuda se levantando mais rápido do que imaginava, quem diria que Steve tinha braços fortes? – Me desculpa, eu estava distraída.

Assim como os outros, Steve ao mesmo tempo em que parecia o mesmo que conheceu também lembrava outra pessoa. Havia leveza nele, juventude, era como se a segurança do mundo ainda não estivesse sobre seus ombros e ele fosse só um adolescente normal.

– Espera, nós já nos vimos antes? – ele perguntou quando o encarou demais.

– Não! – respondeu desviando o olhar rápido demais. – Quer dizer. Eu sou nova na cidade e não conheço ninguém ainda.

Meias verdade eram melhores que mentiras completas, certo?

– Você vai estudar aqui?

Seu reflexo rápido quase a fez dizer que já estava formada, mas o quão estranho seria uma menina que já terminou o colégio ficar rondando os arredores?

– Mais ou menos isso – começou a responder quando foi interrompida por uma voz alta, vinda de suas costas, carregada de zombaria.

– O que foi que eu te disse, Harrington? Está cheio de mulher por aí – dois garotos se aproximaram do lugar em que estavam. Quando virou o rosto encontrou o infame irmão da Max. Ao menos ele pareceu tão surpreso quanto ela se sentia. Que estranho

– É, Steve, você é bonitão – o garoto ao lado, não fazia ideia de quem era, também caçoou.

– E essa não é uma delas – Billy foi rápido em completar sua fala enquanto dava um passo à frente com a expressão menos divertida agora que tinha visto quem estava com Steve.

O que era aquilo? Dois machos alfas disputando um pedaço suculento de carne? Não seria pega em um drama colegial, ao menos não novamente. Quando deixou a Carolina do Norte decidiu só tomar decisões inteligentes – dentro do que conseguia ser normal, então efeitos posteriores à viagem no tempo não contavam – e cair no papinho de alguém como Billy Hargrove era assinar um atestado de estupidez.

– Bom te ver, Sam.

Se aproximando ele colocou um braço em seu ombro ignorando que só tinham se conhecido no dia anterior, como se realmente fossem íntimos. Steve soltou um sorriso sem humor, chacoalhou a cabeça em um aceno negativo e partiu em direção a um dos carros estacionados, todos ali sabiam que Billy estava tentando marcar o território. Rolando os olhos retirou a mão pesada de seu corpo.

– Como sabe o meu nome? Não me lembro de ter dito.

Com um aceno de mão displicente ele dispensou o amigo ainda parado ao seu lado. O sorriso sujo que viu surgir no rosto do outro garoto quase a fez girar os olhos novamente, sairia dali estrábica se não tomasse cuidado.

– Do mesmo jeito que também sei que você é nova na cidade. Eu tenho os meus métodos.

Sam percebeu que o maior problema nele não era o seu descaramento e sim a sua habilidade de fala. Ele sabia conduzir uma conversa com maestria, ludibriava o seu interlocutor a entrar em um debate e quando menos era esperado o enredava com palavras instigantes. Com uma aparência daquelas era quase um crime ser tão versado daquela forma.

– Seus métodos são a sua irmã pré-adolescente?

– Meio-irmã – ele foi rápido em corrigi-la, depois colocou as mãos em suas costas indicando que deveriam andar. – Só que tem uma coisa que você não me respondeu ontem além do seu nome.

– Que seria?

– Se você está bem. No dia das bruxas eu quase te atropelei naquela estrada, você parecia fugir de alguém – eles tinham parado em frente ao carro azul de Billy que se escorou no capô com os braços cruzados.

Talvez não fosse tão ruim se um raio caísse na sua cabeça naquele exato momento. Aquele era o tipo de pessoa para quem não podia contar o que realmente aconteceu. Uma coisa era Eleven, Hopper e até mesmo os outros garotos, esses conheciam o Mundo Invertido e acreditariam na sua história. Outros só a achariam uma maluca esquisita.

– Se eu contar vou ter que te matar – deu de ombros fingindo descontração, mas o olhar firme que recebeu a fez suspirar resignada. – Eu estou bem, só me perdi e fiquei assustada. Não foi nada demais.

Billy não pareceu engolir sua desculpa. Max dizia que ele era egoísta, que só pensava no próprio umbigo, a arrogância dele era verdade e já tinha visto isso de perto, porém encontrou preocupação em sua feição.

– Se você está dizendo – definitivamente não o tinha convencido. Com uma expressão ilegível ele tirou o maço de cigarro do bolso junto com o isqueiro, colocou na boca e acendeu, fumaça foi empurrada de seus lábios. Sam jurou que todo o movimento foi calculadamente lento apenas para chamar sua atenção em pontos específicos; dedos e lábios. – Se estiver com algum problema pode contar comigo. Você já tem um amigo na cidade.

É claro que tinha. Um amigo que se não fosse esperta o suficiente acabaria nua gemendo seu nome como um mantra no banco traseiro do seu carro legal. Quantas garotas já não tinham caído naquilo? Preferiu apenas sorrir em agradecimento. Ao redor viu algumas crianças saindo e se lembrou de Max, não poderia encontrá-la com o irmão na sua cola.

– Quer? – o cigarro aceso foi esticado na sua direção.

Agora com as pernas cruzadas entendia o que ouviu sobre as calças apertadas dele, parecia que nenhum de seus movimentos eram sem finalidade. As coxas bem desenhadas enchiam o jeans de uma forma agradável, o babaca era mesmo bonito e o pior de tudo é que sabia disso.

– Não. Eu não fumo, não gosto de cigarros.

– Que pena, eu adoro. Se você quiser tenho aqui comigo algo com um gosto melhor – levando as mãos até o bolso da frente retirou uma embalagem de chiclete que logo foi aceita, mascar alguma coisa era ótimo quando estava nervosa. – Está esperando sua prima?

Estava preparada para contar uma nova mentira quando a voz de Max chamou a atenção dos dois. Andando a passos duros a garota era seguida de perto por Lucas que gesticulava para todos os lados; meninos deviam saber melhor antes de dispensarem alguém sem uma boa explicação. Billy se empertigou ao seu lado, olhos atentos em todo o movimento. Após mais uma troca de palavras, a menina continuou andando sem se importar em deixar o amigo falando sozinho.

– Com quem estava conversando? – a pergunta dele foi certeira quando ela se aproximou.

– Ninguém – respondeu ao irmão como alguém que não queria continuar o assunto, só era uma pena que ele não fosse uma pessoa que é facilmente persuadida.

– E o que ele queria?

– Eu não sei, uma tarefa da escola eu acho. Não importa – passando direto parou ao lado da jovem que assistia o embate em silêncio. – Sam você está aqui. Vamos precisar marcar para outro dia.

– Espera, você está aqui por causa da Max? – enfim Billy tinha se desencostado do carro, a curiosidade borbulhando na íris clara. – E onde uma pentelha como você iria com uma garota como ela?

Sam se sentiu subitamente nervosa. O que deveria dizer? A verdade estava fora de cogitação e se não pensasse em algo seria pior ainda.

– No arcade, é claro. Eu te disse que ela era minha amiga – Max interveio levando a conversa de volta para um lugar seguro.

A risada que saiu da garganta do rapaz foi inesperada. Com um movimento displicente ele atirou a bituca do cigarro no chão pisando em cima para apagar.

– No arcade? Não me diga que você gosta de joguinhos de criança? – a atenção dele voltou para Sam.

Ah, é claro, o bom e velho egocentrismo de quem cresce um pouco e desdenha de algo que um dia gostou.

– Ué, vai me dizer que você nunca jogou Pac-Man? – o desafiou àquela resposta. Era realmente instigante entrar em um debate com ele.

– É claro que sim. Inclusive sou muito bom no come-come.

– Eca – Max resmungou fazendo uma careta de nojo com a piadinha dúbia.

Sam tentou se manter séria, tentou de verdade. Mas era impossível diante da naturalidade com que ele dava seus flertes e foi impossível não gargalhar até os olhos encherem de lágrimas.

– Você nunca se cansa de ser sacana? – questionou depois de respirar fundo algumas vezes.

– Não posso. Se eu parar nunca mais ouço essa sua risada bonitinha.

Ele simplesmente não parava.

– Admito que sua técnica é boa, pessoas desavisadas nem percebem o que as atingiu. Isso até pode funcionar com outras garotas, mas comigo já te deixo avisado que é perda de tempo.

– Eu gosto de desafios.

O sorriso nos lábios dela morreu aos poucos enquanto o garoto a encarava com determinação. A última coisa que precisava era se encher com mais problemas.

– Eu te avisei, ela é esperta demais para você – Max a apoiou.

Billy não respondeu a meia-irmã, seus olhos ainda estavam na garota mais velha. Por um momento Sam se lembrou do que a falta dele no futuro causaria e se sentiu triste com isso. Era como a amiga tinha dito uma vez, o cara era um babaca convencido, mas não merecia a morte que teve.

– Aceita uma carona? – ele ofereceu apontando para o carro. – Posso te deixar em casa.

"Nem ferrando", pensou no mesmo instante. Ninguém poderia saber sobre a cabana na floresta, ou sobre El, foi uma das coisas que Hopper pediu para tomar cuidado.

– Agradeço, mas não precisa.

– Você é quem sabe – dando a volta no carro ele foi até o lado do motorista.

– Podemos marcar no arcade amanhã à tarde? – Max sussurrou.

– Claro.

Com uma rápida despedida viu a menina ir em direção ao banco do carona. Billy ligou o carro, o motor fazendo um barulho mais alto do que o necessário. Quando passou ao seu lado pôde ouvir Scorpions tocando ao fundo, com tantas bandas de hard rock tinha que ser justo aquela?

– Se você não tiver nenhum plano amanhã que tal a gente sair? – ele tentou mais uma vez. Ao menos merecia reconhecimento pelo esforço.

– Claro. Quando você conseguir parar de fumar a gente sai.

– Meio difícil disso acontecer, linda.

– Exato.

Com o costumeiro sorriso de escárnio nos lábios ele aumentou o som da música, Bad Boys Running Wild combinava totalmente com a imagem de rebeldia que tentava passar. Antes de sair acenou uma despedida com a mão, Sam suspirou encarando a estrada. O melhor a ser feito era buscar a bicicleta e voltar o quanto antes para a cabana na floresta.

..


Hey guys, todos bem?

Sam está totalmente perdida sem nenhuma ideia de como voltar para casa. Já que não consegue lidar com os próprios problemas, ao menos está tentando ajudar os mais novos. Ela e Max continuam com sua ligação de sempre, algumas coisas não mudam.

Agora se tem uma coisa que eu sinto falta é de jogar no fliperama com meus primos mais velhos. Vocês já foram em algum?