Era um daqueles dias sombrios e monótonos, nos terrenos dos Lestrange, em Hawkhurst. As nuvens cinzas e pesadas carregavam o céu com suas brumas nebulosas, deixando o fim de tarde ainda mais gélido, sob os mais variados aspectos e formas. Talvez, fosse uma representação de sua alma ou de seus pensamentos. Quem sabe, sua magia transfigurava o tempo para que ele lhe servisse de consolo e incorporasse o estado de espírito atual. Era uma dúvida crescente que surgira para inquietá-la e tirar o seu aparente sossego.

Da varanda da mansão, Bellatrix encarava o Salgueiro Lutador, com um olhar perdido e lúgubre, incapaz de reparar nos movimentos preguiçosos e hostis para se libertar das folhas secas que teimavam em permanecer em seus galhos. O agitar constante lhe chamou a atenção, em indistinto momento, lhe obrigando a respirar fundo e retomar a consciência do que ocorria em seu entorno. Era necessário ficar atenta. A guerra se alastrara por todos os cantos e não demoraria para os Aurors irromperem na sua caça.

Torcendo o lábio para o lado, com um bufar baixo e incomodado, passou a mão nos cabelos fartos e negros. Enroscando os dedos nos fios, exercendo uma certa força para puxá-lo como pequenas molas ao se esticarem, decidiu observar a floresta calma e taciturna. Suas ponderações de apresentavam mais violentas e confusas do que o habitual. No seu íntimo, o barulho da própria imaginação a ensurdecia. O caos a dominava, tomando conta de todo o ambiente para contrastar com a quietude profunda do lugar.

A verdade era que a natureza adormecera. Muda e inerte como um corpo morto, recuperava às forças para renascer, ressurgindo de seu sono invernal e interminável. Os raros ecos de folhas pisoteadas e de pequenos galhos se partindo, resultante dos poucos animais morosos circulando à procura de alimento ou se exercitando naquele dia frio, se perdiam no vento.

Era poético e intenso... como se eles soubessem de segredos inconfessáveis, a ponto de desbravarem a eternidade a cada passo que davam. A realidade é que eram os únicos detentores do mistério. Cheios e repletos de uma felicidade oculta que, jamais, seria revelada para a humanidade... nem mesmo os bruxos mais poderosos foram capazes de atravessar essa porta e adquirir a plena liberdade de ser um todo. Quantos feneceram nessa busca contínua e acabaram findando somente em fragmentos? Se perguntasse a si mesma o que era, se enxergaria como uma fração ou uma peça, um objeto de troca criado para exercer controle desde o dia de seu nascimento.

Era o que bastava? A resposta sussurrava sorrateira a mais clara negativa. Secretamente, invejava Andromeda e o instante em que ela atravessou a porta da casa de seus pais, se libertando das correntes e das constelações que a prendiam. Arrancando o véu das ilusões dos olhos e seguindo para a vida que desejava. Queria ter tido aquela mesma coragem e ido atrás do que, de fato, desejava. Entretanto, não teve perseverança suficiente para tanto... preferiu usar a máscara de filha perfeita, que sempre coubera melhor em Narcissa, e se casar com Rodolphus para agradar à família.

Aonde ele fora? Em que lugar se achava escondido agora? Certamente, se envolvera em mais uma missão ou projeto do Lord das Trevas. Ou, de repente, sua perdição se achava entre as coxas de alguma desconhecida. Nunca saberia e, tampouco, se importava em ter essa informação. Reconhecia em seus traços o quanto estava farta daquela situação, daquele casamento, daquela existência e, acima de tudo, daquela falta de perspectiva.

O agradeceria por ser tão apto e talentoso em sumir, em lhe oportunizar horas incontáveis de fortes reflexões e paz à sua perturbação interior. A realidade, por pior e mais dura que fosse, era de que o marido sempre fora incapaz de compreender o básico de uma vida compartilhada. Um egoísmo tão latente e tão absurdo que chegava ao ponto de não notar que a paixão deveria ser conquistada e alimentada aos poucos.

Ambos necessitavam de algum grau de esforço e de comprometimento para que funcionasse... um espelho que refletia de um a dois, de dois a três, exercendo um impulso insano no coração. Ardendo, queimando, enlouquecendo, estimulando ansiosamente para a cegueira e o abandono de toda e qualquer prudência. Porém, era impossível localizar ali qualquer rastro de fogo. Um vestígio, por menor que fosse, de força magnética e poder intenso que a arrebatasse e encorajasse o ensejo de acompanhá-lo a qualquer parte do mundo.

Contudo, o que Rodolphus lhe oferecia? Além da conveniência de ser um sangue puro e vir de uma antiga família pertencente aos Sacred Twenty-Eight, não enxergava nele outras características que lhe interessassem. Talvez, tenha se encantado pelos olhos castanhos, profundos e brilhantes, que ele ainda possuía. Era possível que o sorriso largo e debochado, ou os 5 anos de diferença, também contribuíssem em seu esforço de amá-lo e ser uma boa esposa. Como nada se mostrava exitoso, em uma última tentativa, se esforçou para que fossem amigos.

Quem sabe toda a sua convicção e empenho não passassem de um joguete? Um estranho autoconvencimento para usar, de bom grado, aquela aliança de titanium na mão esquerda? Semelhante a uma algema, aquilo simbolizava e pesava como uma prisão. Era o lembrete diário e contínuo do processo, lento e gradual, de sufocamento da sua determinação e teimosia. Mexendo os dedos, com o olhar fixo no anel, seu coração palpitava forte. Efetivamente, o odiava por isso e esse era o sentimento mais puro que lhe devotava.

Estranho, vigoroso, abrasador e belo, a ânsia que germinava e florescia, dentro de seu peito, principiava as brasas que ardiam em suas entranhas. Frutificando uma ideia insensata, que dilatava as suas pupilas e lhe despertava um certo interesse proibido, algo tentador que gostaria de soterrar nos abismos de seu ser. Por que sempre almejava o que se revelava e, inegavelmente, se exteriorizava como mais difícil?

Dando um meio sorriso atrevido e cheio de más intenções, confiante de suas suposições, Bellatrix retornou para dentro da resid6encia. Com os braços cruzados junto ao peito, abraçando o próprio corpo para se proteger do frio que aumentava, andou alguns passos até a lareira. Ignorando o elfo, que tentava lhe passar um recado qualquer, se sentou no tapete e se dedicou a contemplar as chamas variando de tamanho e intensidade.

As chamas eram o seu sangue, em uma constante luta crepitante, que se intensificava e se esvaia ao sabor do tempo. Uma guerra que divergia do som dos flocos batendo contra a janela. Pequenas estrofes de uma poesia não escrita ou de uma canção abandonada. A veracidade da sonoridade desordenada dos toques, dos compassos ritmados, regia a orquestra dispare do pulsar de seu coração e das considerações fugazes sobre quem era ou quem pretendia ser.

O que a assustava, um pouco e não o suficiente para detê-la, era não lembrar em que momento desistira de modificar o próprio cotidiano e se deixar dominar por tamanho marasmo. Quando foi que, inquestionavelmente, tudo se transmutou em uma completa e absoluta farsa? Em que ocasião, a completude se fez embuste e comédia burlesca, agradando aos olhos da sociedade bruxa?

Embora não se importasse com Rodolphus e fosse inapta às cenas de ciúmes, lhe incomodava a recorrência de determinadas situações. Especialmente, se isso significasse o não cumprimento e ausência dos deveres matrimoniais. Sequer recordava, em que dia ou em que mês, fora a última vez que fizeram sexo.

Tanto de tudo, tanto de nada... se deitando no tapete e colocando as mãos como apoio para a cabeça, ainda presa à imaginação e à dinâmica das labaredas, Bellatrix meditava quanto à vontade de sair daquela casa e o desprezar ante a todos. Desconsiderando o escândalo que tal atitude causaria, o maior problema era a indissolubilidade dos casamentos bruxos... não existia divórcio e, mesmo o abandonando, continuaria presa a ele até à morte. Provavelmente, esse fosse o único sentimento que compartilhavam e os unia em segredo.

Será que a insatisfação e as idealizações que a torturavam, traduziam punições por desrespeitar à pureza de sangue ao transar com o Voldemort? Se pudesse, teria se casado com ele e o agradado de muitas outras maneiras, além de lhe servir como guardiã e general de suas tropas, indo muito mais do que as suas forças e possibilidades permitiam. Mas, isso não tinha sentido, quando a sua consciência se expunha clara e límpida. Era livre de remorsos quando algo se referia à sua busca por prazer e satisfação.

Aquilo era mais um ponto a favor de sua defesa... como detestava e abominava o marido, não encontrava o que almejava dentro da própria mansão, tinha os mesmos direitos que ele usufruía de desfrutar da liberdade com quem lhe ofertasse. Por mais individualista, presunçoso, desonesto e narcisista que fossem tais ponderações, fora Rodolphus quem deu os primeiros passos e abriu às portas para que executasse o mesmo.

A culpa era inteiramente dele. Dos seus falsos elogios e promessas de felicidade descumpridas, que se modificaram para uma arte abstrata de comentários ofensivos e indecorosos. O julgava um porco faminto, cobiçoso pelo seu lugar de honra entre os Death Eaters, e só não o matava pelo impedimento moral e a promessa de não derramar o sangue puro dos bruxos membros dos Sacred Twenty-Eight... igualmente, era mais vantajoso se dedicar aos artifícios da vingança e os modos mais eficazes de o humilhar e o submeter ininterruptamente.