Noturnas sensações sem sentido, sonhos sem futuro, se renovando e se projetando como imagens insólitas e insolentes. Raios fulgurantes da imaginação alimentavam seus pensamentos inseguros, encenavam um teatro de sombras e incertezas, memórias escondidas em algum recanto do espírito. Bellatrix suspirou profundamente e fixou os seus olhos em algum lugar indefinido. Lá, exatamente, naquele esconderijo em que todas as ilusões nasceram e morreram... nas profundezas do coração e nas memórias. No ponto em que tudo se perdeu e a realidade foi a única alternativa encontrada para sobreviver.

Sem avisos ou uma chegada mais adequada, flutuando leve e certeira, Fall se aproximava como um raio. Suas asas eram como uma brisa morna de verão, bafejando no rosto e trazendo raios ocultos de esperança. Mensageira das boas e más notícias, a coruja era a sua mais fiel e constante amiga, jamais permitindo que o verdadeiro mal a atingisse. Pelo menos, era o que gostaria de acreditar, por mais difícil que fosse.

Com os dedos deslizando, o pergaminho se abriu, se perdendo em algumas palavras ansiosas. Traços ainda um pouco úmidos, borrados nas margens em que as mãos estranhas tocaram, expondo uma urgência. Qual seria a emergência daquelas letras ágeis? Que objetivos teriam o teor do recado? Alguém, até então sem nome ou feição definida, se importava ou fingia fazê-lo por motivações secretas.

Como saber o que analisar quando tudo, em quase sua totalidade imponente, significava somente a roda de encantos ou a simples libertação? Seu coração palpitava furioso, afoito, sentimental de uma forma estranha, um desvelar de paixões a cada frase insana e corajosa. Sílabas suficientes para que se iluminasse. Um sorriso de satisfação ante uma pequena vitória, um respirar revelador, um anseio vazio que sequer levara a sério, um código que cogitara decifrar.

Será que era a hora de se questionar sobre o quanto fora capaz de gostar ou de odiá-lo efetivamente? Ele, aquele que havia nascido para ser a luz de toda a família, o guerreiro que os abandonou por egoísmo ou presunção... o único a sempre se orgulhar de se tornar uma completa decepção àqueles que lhe amavam tanto. Encarar a sua face e examinar o seu semblante seria retornar à velha casa e a quem um dia foi. Nunca contaria ou se orgulharia da própria fraqueza.

Baixando novamente os olhos, antes de queimar o pequeno bilhete, mordeu o lábio com tanta força que o fez sangrar. A dor a ajudaria a organizar as suas ideias e chegar em conclusões objetivas. O passado ainda insistia em bater à porta e invadir sem convite.

Cara Bellatrix, como está?

Não sei como iniciar uma carta destinada àquela com quem tão poucas vezes conversei. De qualquer maneira, eu espero que esteja bem, dada às notícias que chegam de que você queima, corta e vibra para aquele genocida.

Nesses tempos difíceis, é complicado decodificar o que é verdade ou não, quando as notícias nos chegam de todos os cantos e sem informações claras. A única verdade que eu sinto vibrar é que Regulus morreu... deve estar se perguntando "como?" e eu não tenho como responder. Não agora em que as percepções são tão obscuras e indistinguíveis. Apenas digo que eu sei. Você também deve experimentar essa mesma sensação de perda, não é mesmo?

Agora eu compreendo o que a minha mãe dizia sobre nascermos sendo partes de um todo... pequenos fragmentos e poeiras que vagam, se perdem e se unificam, no tempo e no espaço.

Quanto a você, tem momentos em que eu não duvido de nada, ao recordar das suas estranhas inclinações. Os arranhões, os machucados, o sangue que manchava os cacos de espelho ainda estão vivos na minha mente. Mas, o que sempre despertou a minha curiosidade é entender se você está ou é feliz com isso. A saída da curva foi uma fuga momentânea ou tanta escuridão, maldade e sadismo, são partes reveladas que forjam à sua natureza indômita?

Aceitaria, Bella, uma emoção interessante? Se quiser, eu posso lhe oferecer um jeito mais saudável de canalizar tanta energia e tanto caos. Caso a resposta seja positiva, me encontre daqui duas semanas, na Knockturn Alley. Se quiser saber o horário, reflita à respeito de seu hábito de pentear os cabelos à noite, creio que esse ritual não deva ter se modificado.

Cordialmente,

S. B.

Passada uma semana do contato, Bellatrix aparentava uma calma casual e furtiva. Brilho intenso e impreciso alvorecendo do abismo. Não estava muito convicta quanto a admitir, ou não, qualquer inclinação sobre a proposta que lhe fora feita. Havia algo de errado. Um não dito silencioso e sinuoso, como curvas nas estradas escuras, que lhe atiçava os instintos. Algo quase primitivo, animalesco, que arrepiava os seus pelos e propiciava um sentimento excitantemente corrosivo.

Sem condições, sem ameaças, sem propostas claras... só indagações justificáveis nas frases, agora nebulosas, que vagavam em seus pensamentos impuros. Existia uma razão nas partes de um todo. Choques entre estrelas eram perigosos. Os deuses temiam os ímpios que não se rasgavam ante ao arrependimento. Muito mais do que os mortais imaginariam, ou gostariam que fossem, essa era a verdade e o maior segredo.

Uma inquietação, um riso espelhando uma ideia sórdida, um fechar de olhos e uma possibilidade. Não existiriam impedimentos ou regras morais. Qual o problema em encontrá-lo? Sirius não a mataria. Assassinatos não constavam em sua lista de qualidades. Ainda havia alguma dignidade ou princípio que o impedia de um ato tão extremo.

Depois de tantos anos, era uma nova oportunidade de implicar com a sua arrogância. Agora, não precisaria mais ter medo, inexistia pretextos para que seguisse apenas olhando. Quem sabe era a chance de sumir por algumas horas? De exercer domínio sob si e sair daquela prisão? A noção da ausência de normas e barreiras a encorajavam. Sem amarras, sem moderações, sem proximidade, sem arrebatamentos e sem afetos... despretensioso sanar do desejo e ir ao encontro de turbações quentes e arquejantes. Era isso o que necessitava naquele instante.

Pequeno sinal, luz de farol na tempestade, um fundamento que se fez essencial nos dias seguintes. Entre as horas escolhendo o que vestir, Bellatrix recomeçou o laboratório para encenar o papel de esposa perfeita, nada poderia fugir de seu controle. O tempo voou, impondo as suas vontades e obrigando a todos a se curvarem diante da sua presença. Veloz, as folhas gravitavam e sumiam, uma após a outra. O calendário materializava a data e, num piscar de olhos, também lhe entregou Rodolphus.

O que dizer a ele? Aquele era o seu marido que não pusera os pés em casa ou dado algum sinal de que estava vivo. Por que se preocupar em lhe dar explicação de onde ou com quem iria? O mesmo fedia a perfume barato, daquelas mulheres que Snape relatava sempre se dispostas a satisfazer um pênis que as levasse até Voldemort, o que representava para Bellatrix um alívio absoluto. Não a procuraria para curar suas privações, nem supostas carências.

Respirando profundamente e dando um sorriso irônico para o reflexo, analisou a própria imagem e passou uma nova camada do seu batom vermelho. Poderia ser uma vampira de olhos violetas, manchando os lábios de sangue ferroso e cheio de vida que se esvaia... entretanto, não era. Sua cópia a encarava simulando seus gestos. Alma roubada, espírito preso, máscara teatral, espelho mágico. Jamais consentiu que a conhecessem de fato.

Mirando novamente, o viu indiferente, parado junto à porta. Trajando um terno preto, aparentava que pretendia sair novamente e se divertir. Bellatrix se virou, em sua direção, com um semblante insensível. Por mais banal que fosse a sua atitude, ter de ser forçada a conviver e suportar um ser igual àquele, estava se transformando em um martírio inenarrável.

- Aonde vai? Eu espero, sinceramente, que você não me faça passar vergonha. Às vezes, creio que se esquece do que deve fazer e como se portar – exigiu com uma expressão dura, cruzando os braços junto ao peito, para destacar sua postura autoritária.

Erguendo uma sobrancelha, o encarando, deu um sorriso torto e nada respondeu. Suas pretensões, seus ensejos e suas intenções se achavam quilômetros além daqueles muros. Não tinha o que falar. Rodolphus poderia conceber o que quisesse a seu respeito... não a afetava em absoluto.

- Bella, você está ficando surda ou algum feitiço atingiu a sua cabeça nesses dias? Eu exijo que me diga aonde vai! Você é o meu troféu e a minha melhor conquista, comece a agir de acordo com isso. Quem você anda pensando que é? Sua única importância é ser uma sangue puro, um acessório de luxo com o qual eu fui presenteado, um pequeno adereço ao meu sucesso. Eu só deixo que você faça coisas que me proporcionem algum ganho, então, conte logo! – concluiu com a voz vibrando tensa e um sorriso quase doente no rosto.

Observando a expressão de claro desgosto manchando o rosto de Bellatrix, seu peito arrogante se inflou, o deixando seguro de que fizera o correto. A pusera no lugar que lhe era devido, ao qual deveria respeitar e cumprir cegamente, como era a sua obrigação.

- Querido, é claro que não esquecerei do quanto você e o Lucius compartilham pensamentos e, talvez, outras coisas. Sou a sua boneca para expor aos olhares dos outros. Um fantoche com quem, vez ou outra, você trepa e dorme – falou sem muita emoção antes de prosseguir como se estivesse refletindo à respeito do que escutara.

- Pensando bem, eu não tenho qualquer relevância mesmo... inegavelmente, o Lord das Trevas me dá atenção e um posto de comando, muito acima do seu, por pena. Não é, meu amor? – perguntou com um fingido constrangimento, sentindo o seu coração bater apressadamente, latejando as suas costelas pela raiva.

- Você nunca deixou e nem vai conseguir parar de agir ou se portar como uma puta nigeriana, com esses peitos sempre próximos de saltar do vestido, sua cadela! Para a sua informação, o Lord das Trevas, concede que você se exponha e faça coisas que o divirtam... assim como eu, generosamente, faço desde o dia em que nos casamos – argumentou a puxando pelo cotovelo para que o olhasse nos olhos.

- Eu duvido muito do que está me afirmando, amor, pois o Lord das Trevas sempre foi mais homem do que você – declarou o encarando.

Ignorando a dor que começava a formigar no seu braço, se manteve firme como uma rocha, o enfrentando silenciosamente. Rodolphus não ousaria a agredir, tampouco, seria uma ideia idiota ter uma briga antes de conseguir a diversão a qual pretendia ir. Algo que, igualmente, a esperava. Porém, se enganara... o melhor era ignorar e refletir sobre o quanto ficaria feliz ao se distanciar, mesmo que transitoriamente, daquele relacionamento tóxico e abusivo.