1.

eu procurava remetentes, notas de dedicatória, suores em roupas limpas, cabelos esquecidos sob a cômoda. desesperada, derrélida, desvairada. investigava a luz que entrava pela janela e calculava o ângulo de incidência sobre os livros que você deixou aberto. abria, fechava, gaveta, porta, sacodia, tirava, colocava, mudava de lugar, colocava no lugar certo, estudava, analisava. mastigava a boca por dentro. fervia a água na chaleira e deixava ela esfriar, pra esquentar de novo. mastigava pedaços de papel que os dedos achavam. mastiguei o canto da foto de nossas férias na argélia e o canto da sua certidão de nascimento e um bilhete assinado BB 1979.

dormi no sofá. desvairada. chamei seu nome antes de dormir.

2.

quando acordei, tinha caído pra fora do espaço-tempo.

devo ter virado errado no sofá.

o tempo suspenso e o pó pairando. o dia inteiro a poeira não assentou.

o sol não girou, os pássaros congelados em voo estático.

a chaleira ficou o dia todo no fogo, mas não ferveu.

as leis da física suspensas.

a luz incidia pela janela, mas refletia totalmente e ia pra algum lugar que os físicos só chamavam de infinito. enrosquei os dedos firme naquela natureza corpuscular-ondulatória e pedi pra deus me levar também.

dormi com a mesma roupa, agora no chão.

3.

acordei em mil-novecentos-e-setenta-e-nove, com vinte-e-oito-anos, deitada nos seus braços. o tempo andava como se tivesse a eternidade como a única certeza. eu descosturava capas de livros e alinhava palavra por palavra numa linha contínua. tirava os pratos do armário, desdobrava as roupas, devolvia a correspondência pra caixa do correio. o quanto eu pudesse esticar, distender, prolongar, delongar, dilatar, demorar, eu esticava, distendia, prolongava, delongava, dilatava, demorava.

foi nossa primeira noite juntos.

eu bebia negroni e usava um vestido de seda laranja. você bebia gim e usava uma jaqueta de couro como se fosse paletó. eu subindo no guarda-corpo de pedra da varanda e você guarda-copo para eu sentar. o vento tinha cheiro de jasmim e rio fundo e saliva. o céu tinha cor de sete horas no verão, mas fim do outono e a lua estava quase cheia. quase, quase, quase cheia. um tim-tim de transbordar.

transbordou.

foi boca com boca, lábio inferior, o freio por baixo da língua, todos os dentes. todos os dentes. meu deus, todos os dentes. meu nariz, o seu nariz, o meu ar, o meu ar, o meu ar. foi cabelo, da raiz às pontas e fundo. tão fundo que eu senti o córtex. entrei na sua gênese, senti quando você era uma única célula e se dividiu rapidamente em duas. meu umbigo puxou o seu e transformou nós dois em gêmeos. o mesmo embrião, o mesmo âmnio. nós deitamos em uma abstração visceral. sangue, saliva, linfa, lágrima, suor, bile, músculo contraído, impulso nervoso, pupilas dilatadas, pau duro. sístole, diástole, sístole — mais rápido — sístole, diástole, sístole, diástole — mais — pula uma sístole e mais uma diástole. o gozo é o ataque ao cume. é o último movimento depois da aclimatação. é o esforço exasperado, arrastado, desesperado, inconformado, indomado, eriçado. o cume é a fleuma. e foi gozo, lágrima, suor, sístole forte e lenta, diástole forte e lenta. sua mão na minha coxa e suas lágrimas caindo nos meus seios. erguemos uma neblina na varanda fria de junho enquanto bebiam e dançavam e riam.

a gente chorava. era choro de chegar em casa, criança cansada, viagem longa. era corpo pesado e alma doída. os nós das mãos, bem unidos e o suspiro de alívio.

eu te amo. eu te amo. eu te amo.

4.

acordei cedo e o tempo andava. o sol subiu e prometeu o meio-dia. eu abri a geladeira e ainda tínhamos morangos frescos. como mofam rápido!

a vida é um morango, né, bb? é tudo doce e macio e deixa suco na boca quando é juventude. mas apodrece rápido, cria mofo e pega em tudo. será que gente mofa no caixão? será que em quatro dias eu já mofei, bb?

sentei na janela pintada de branca, que nós dois pintamos. comi os morangos. deixei um espaço do meu lado, pra você sentar. deixei dois morangos pra você.

viver junto era dividir. eu tinha duas irmãs e você tinha um só. a gente sempre soube dividir. dividíamos um copo de uísque toda noite — bourbon pra mim, scotch pra você — fazíamos palavras cruzadas às sete horas e ouvíamos rádio às oito. eu comprava couve na feira e você dava comida aos gatos da rua. nós levamos gauloises à polônia e bebemos vodka com um turoń.

sabe, sb, eu sempre me senti assim, eu te disse. assim como? ora, assim. feia, distorcida e má. assustando crianças e correndo atrás de mulheres, mas olhe bem, sb, esse bicho é lindo. ele é o coração que sobrou num povo que vive em meridianos, a lembrança dum outro bicho, que morreu faz muito tempo.

viver junto era dividir. você pegava uma mexerica no pomar e me dava metade. você abria a mão pra eu cuspir a semente e pra fazer carinho no meu cabelo. se um dia eu fui deturpada e horrível, eu não lembrava. porque nas parede que nós nunca pintamos, eu fui bela.

5.

eu sentava na penteadeira de mogno que sua mãe nos deu, passava batom e rouge, puxava o cabelo para cima e soltava ele todo, porque você estava no fundo dele a me olhar. que graça!

quando eu penso em você, penso nos seus cabelos longos, encostado à soleira de porta, com um copo de uísque na mão. eu me lembro de cada detalhe da sua mão e como eu fingia ser quiromancista pra pegar nela e passear pelas voltas que sua pele dava. essa é sua linha do coração, sb, e eu passava a unha lânguida pela linha que ia do seu pulso ao dedo médio. você vai ter um grande amor, sb, olha aqui. você vai amar ela com todo o seu coração. coração não, com todo seu corpo. você vai abrir sua barriga e dar a ela o seu fígado inteiro. ela vai fazer um banquete com você, sb. sim, sim, tá escrito na sua mão. ela vai comer você e você vai viver pra sempre nela.

não foi por falta de antropofagia que você morreu, meu amor. viver com você era barriga cheia, lamber os dedos e não ter louça para lavar. como eu posso viver em jejum?

fui à cozinha. os morangos na janela já mofaram.

6.

levantei cedo, fui à feira e não falei com ninguém. comprei couve, brócolis, maçã, cenoura, alho-poró, jerimum e beterraba. comprei umas cabeças de peixe no caminho de volta e alimentei os gatos. guardei as verduras na geladeira, lavei as mãos na pia de alumínio e varri o chão da sala. aguei as plantas, fechei as gavetas e guardei os livros. bati os tapetes, fervi a água e esperei. esperei sentada na banqueta da cozinha que cantava em seu desalinho de três apoios. a água ferveu e eu passei um café. servi uma xícara, sentei na janela e senti uma lufada de ar quente. era primavera. o céu cinza parecia uma barriga no céu, cheia de estrias, como uma mãe que quer parir. eu queria ter parido. queria agora derramar minha água e parir no chão da cozinha. queria parir meu coração turvo, minha boca amortecida. queria tirar de dentro de mim um pouco de cor, um gerânio, um cravo, um cogumelo branco. eu estava há cinco dias sem comer, porque eu tinha comido papel no domingo. de repente, uma fome voraz tomou conta de mim. comi cebolas murchas, couves empoeiradas, maçãs frescas e cenouras duras.

à noite, servi um uísque. bebi scotch.