Silêncio e pensamentos conflitantes, com o coração afoito e cheio de dúvidas, Helen McCrory recordava da postura de Alan Rickman. Desde que se conheceram, os seus incentivos, seus elogios, suas palavras tão significativas para sempre ir mais além na carreira e nas ambições, eram pequenos choques que a impulsionavam. Pequenas gotas de orvalho, doces e elogiosas, que lambiam o seu ego lentamente e a guiavam por novos rumos.

Sem que necessitasse, que pedisse ou que esboçasse, de qualquer sinal ou apontamento de interesse, aqueles gestos a conquistaram. A seduziram em um estranho e prazeroso jogo em que ele movia céus e terras para, finalmente, lhe ofertassem o reconhecimento por anos almejado. Era algo bonito e intraduzível, tais toques de carinho, envolto ao zelo silencioso e constante.

Alan a comparava com Jane Austen, enfatizava o magnetismo e o frisson de seu olhar, afirmava que ela era muito mais rápida e inteligente do que ele... frases que impuseram um valor absoluto, dentro da BBC, a transformando de um rosto irreconhecível que servia como segunda opção para a protagonista. A imagem que brilharia em todos os pôsteres e vídeos de divulgação.

Tudo aconteceu muito rápido, em meio a um pouco de caos, energizado por ondas caóticas que representariam o próprio ser. Que escreveriam, talvez, uma fábula sobre um peixe apaixonado por uma leoa. Quem saberia caracterizar o que não compreenderia? Em um toque, em uma perturbação, em um agito, em um ponto de impacto... Leaving, Flying Blind, Peaky Blinders, Penny Dreadful e Dr. Who. O que mais viria no horizonte?

Provas concretas, firmes e absolutas, de que o afeto devotado já ultrapassava demandas meramente carnais. Mesmo que o abrir de seus lábios expressassem liberdade, Alan a respeitava, a admirava e amava, com atitudes e com a criação de eternos novos elogios. Sinais que conotavam o quanto a enxergava como única. Ela não era só mais uma amiga que entrara em sua vida. Sabia que refletia mais.

Aquilo era uma memória dos dois que gostaria de ter gravada em sua mente. Como uma tatuagem de fogo na alma, por paixão e por tantos outros sentimentos inconfessáveis, lágrimas queimaram os seus olhos. A saudade era um sentimento ácido, nocivo e doloroso, quando a realidade era uma clara despedida. Um até breve, um adeus, uma realidade que não passou da inconstância dos sonhos.

Encarando o céu, com os seus olhos castanhos em brasa, Helen secou o rosto com as costas das mãos. Era tempo de agir, de queimar com o fogo incessante do próprio coração e seguir em frente. Sempre fora corajosa. Uma adaga fiada, um vulcão, um desejo oculto, o vento forte que se transmuta em brisa... era mulher e lutaria em defesa da própria vontade.

No entanto, a vibração do celular interrompeu seus passos e seus planos. Uma mensagem tão nova e tão importante. As frases indicativas, sugestivas e reveladoras que tanto aguardava. Detalhes suficientes para que Helen abrisse um sorriso no rosto. Incontestavelmente, Alan não poderia amar mais ninguém.