Acho que tenho uma boa novidade para quem está acompanhando.
Eu voltei a escrever esta.
Tive alguns pedidos de continuação que me motivaram a voltar com ela, faz algum tempo já. Acontece que eu tinha me esquecido que postava aqui também e felizmente recebi um comentário aqui para me lembrar que preciso atualizar os capítulos.
Boa leitura meus amores.
Capítulo VII: Falta
A semana se passou como um borrão para Laura, a nova escola era desafiadora em um nível diferente, não era apenas as crianças mas todo o corpo docente que parecia muito mais afetado do que deveria. Isso ela creditou à forma como as pessoas pensavam que deveriam agir perante pessoas 'importantes'. Em palavras diretas, ela odiou toda aquela condescendência. Apenas porque os pais dessas crianças eram pessoas ricas, isso não ditava uma regra de conduta, mas ela sabia que o dinheiro sempre girava as rodas com uma facilidade surpreendente. Porém ela nunca teve talento para adulação. Adar era o exemplo perfeito, onde a maioria das pessoas em seu lugar daria a ele atenção e aplausos, Laura apenas queria ser deixada em paz. Mas aparentemente isso não era uma opção.
Sempre que chegava em casa ela via que havia algumas mensagens em sua caixa de voz, as primeiras vezes ela se deixou levar por uma emoção tola, esperando ouvir a voz grave que a deixava arrepiada tão facilmente. E tudo o que encontrou foi Adar sendo o que ele entendia como, perfeito cavalheiro. Na sexta ela apertou o botão de play irritada, uma parte dela estava realmente chateada com Adama depois de tanta expectativa para um grandioso nada.
Verdade que não houve nenhum tipo de promessa, eles dividiram o café da manhã, transaram novamente pouco antes do almoço e ele precisou voltar para os filhos. Nenhuma promessa foi feita por ambas as partes, mas era o mínimo de cortesia que ela esperava. Uma ligação despreocupada. Ela mesma teria feito essa ligação, mas Laura não tinha um número ao qual ligar e seria muito rude tentar descobrir por terceiros. Assim, quando o Adar da gravação parou de falar Laura discou os números que ele havia deixado na mensagem.
- Adar.
A voz dele quase a fez desistir, mas ela respirou fundo e deixou sua voz fluir em um cumprimento levemente formal.
- Boa tarde Senhor Prefeito. - não fosse o tom de ironia, teria soado quase profissional.
- Laura, é maravilhoso ouvir sua voz. Recebeu minha mensagem?
- Qual delas? Sinceramente Richard, a maioria eu simplesmente apaguei sem ouvir. O que é tão importante que o fez encher minha caixa de mensagens?
Sentada em seu sofá ela removeu os saltos, uma mão massageando os dedos enquanto o fone estava bem preso entre o ouvido e o ombro. Laura riu com a resposta dele, tão simples e tola que foi impossível não reagir com o riso.
- E além de desejar ouvir sua voz, gostaria de levá-la para jantar.
- Richard. - o tom de sala de aula surgiu como um aviso.
- Você precisa se alimentar, eu preciso me alimentar, porque não podemos fazer isso juntos? Ou você tem planos com aquele piloto novamente.
Laura respirou fundo. Claro que Adar havia revirado sua vida para descobrir quem era o homem com quem ela havia passado a noite, e como prefeito ele tinha meios. E se ele não tivesse trazido Bill para a conversa teria sido muito mais fácil negar o convite. Laura sentiu uma pontada de desapontamento e a demora em uma resposta deu a Richard munição para acertar onde mais doía.
- Ele é um idiota Laura, estou terminando aqui, em meia hora passo para te pegar.
A confiança no tom de voz dele ao proferir a afirmativa e o fato de ter encerrado a ligação antes de ouvir qualquer protesto mudou completamente o modo de pensar de Laura. Ela não costumava ser do tipo vingativa, principalmente quando nenhum deles prometeu nada, mas ferida ela só queria provar a si mesma que era sim uma companhia para além de uma noite.
O pior era o sentimento de perda que a invadia novamente, porque Bill entrou em sua vida e em uma velocidade vertiginosa ocupou um lugar. Agora a ausência dele a levava para aqueles mesmos lugares sombrios de meses atrás. Ela então se lembrou novamente que nenhum deles havia feito uma promessa, era apenas uma química muito boa que se estendia para além da cama. Laura se levantou para lavar o rosto porque sentia os olhos queimar e ela não se permitia chorar por alguém que não lhe reservada o mesmo cuidado.
Quando a campainha tocou ela já estava pronta, não era nenhuma grande produção, apenas um retoque de maquiagem e sapatos mais confortáveis. Para ela era um jantar de negócios. Para deixar Adar ciente de que ela não tinha o interesse em entrar no jogo com ele. Pegando a bolsa ela seguiu em direção à porta.
- Laura. - a voz dele era um tom baixo, quase erótica.
- Senhor Prefeito.
- Você sabe que ouvir você falar assim é excitante, não sabe?
Revirando os olhos ela puxou a porta, fechando ao passar pela soleira para ouvir o primeiro toque do telefone. Imaginando que poderia ser Christie ela deixou cair na caixa de mensagens, retornaria mais tarde.
- Vamos Richard, antes que eu me arrependa desta decisão.
Troy era um maldito planeta quente e sufucante dentro do sistema solar Helius Beta que estava mais perto do sol do que Bill gostaria. O solo rico em minério o fazia cenário constante de disputas territoriais, principalmente entre Caprica e Picon e algumas delas, como desta vez, fugia o controle sendo necessário reforços de Battlestar sitiadas em outros quadrantes do sistema. Adama odiava ter que sair de seu posto para esta luta, mas seu status e as medalhas em seu peito chamavam atenção do Almirantado que o atribuía missões intituladas 'top secret' e 'classified'.
Era com pesar que ele obedecia.
Isso porque havia aquela constante tensão que precedia as eleições, algumas colônias não se sentiam satisfeitas com o atual modo de gestão, um único Presidente, sitiado no planeta mais abastado ladeado por um quórum que representavam as outras onze colônias. O que deixava planetas menores como Troy, Hibernia e Djerba à margem dessa crescente sociedade.
Nenhum grande canal midiático jamais soube desses conflitos, nenhum jornal expôs o modo como estes estados menores eram negligenciados. Isto porque havia militares obedientes, armas nucleares e muita manipulação para abafar casos assim. Era nisso que o atual Presidente Keaton investia seus esforços. E por isso Bill odiava o cenário político atual.
Uma semana depois de aceitar a missão, Bill Adama estava de volta a seu posto na Battlestar e se sentia péssimo por sequer ter tido tempo de avisar Laura.
Não que ele tivesse um compromisso real de informar a ela o longo período de silêncio, mas havia nele uma questão honrosa que o fazia se sentir mal consigo mesmo. Eles tiveram um momento tão importante, houve uma conexão que ele simplesmente não poderia ignorar. Logo após algumas boas horas de sono ele se colocou de pé na frente do telefone sentindo o coração se comprimir contra o peito e lentamente ele discou os números dela, rezando para que Laura não o odiasse por ter sumido sem uma única palavra.
Por ínfimo segundo a voz dela o fez sorrir, mas assim que percebeu que se tratava de uma gravação ele fechou os olhos respirando fundo para ser capaz de controlar a emoção.
- Laura, imagino que talvez não queria ouvir minha voz, mas me sinto na obrigação de explicar-me.
Foi breve, conciso. Ele não queria encher a máquina com desculpas e então optou por fatos. Esperando que quando Laura por fim ouvisse isso ela pudesse decidir dar a ele a chance de realmente se desculpar.
E enquanto andava de volta ao alojamento ele sentia que deveria ter perdido aqueles cinco minutos para fazer a ligação antes de sair para o outro lado do sistema estelar. Agora ele estava novamente oprimido por um sentimento tão forte e urgente que ele não queria impor a ninguém. Principalmente para alguém como Laura.
O som da água correndo enchia o ambiente enquanto ela olhava seus olhos no espelho do banheiro. Fazia alguns minutos que estava ali se escondendo de Adar que parecia tão presunçoso ao pensar que aquele jantar dizia sobre sentimentos que deveriam ser resgatados, sentimentos que nunca realmente existiram. Laura precisava voltar ou ele logo estaria ali batendo, inquirindo uma resposta para sua ausência não justificada, porque 'usar o toalete' era vago demais e haviam se passado quase cinco minutos. Obrigando seu corpo a sair da inércia ela respirou fundo e deixou o espaço seguro para a incerteza da mesa que dividiam.
Laura sempre soube o que queria, e ela não buscava nenhum drama para sua vida já bastante conturbada. Ela preferia algo certo, tranquilo. Uma relação suave. Richard Adar era o oposto, ele traria para sua vida muita incerteza e turbulência. E ela não estava estável o suficiente para lidar com sentimentos tão densos. Laura queria a cura para suas feridas e dormir com Richard novamente só traria mais dor e sofrimento.
A porta foi aberta e ela entrou novamente na seção reservada do restaurante. Richard lhe sorriu da mesa, uma garrafa de champanhe em sua mão e aquela expressão vitoriosa no rosto. O modo como ele tomava as coisas por certo era enervante. Laura andou até a mesa deles, a única ocupada em toda a elegante sala.
- Richard…
Antes que ela pudesse continuar o 'pop' feito pela rolha a ser aberta a interrompeu e o sorriso brilhante de Richard a deixou um pouco zonza. Era essa a atenção que ela queria, mas não vinda de Richard Adar.
- Doce Laura. - ele envolveu um braço ao redor de sua cintura, o corpo quente lentamente se moldando ao dela e era demais.
- Richard, isso foi um erro. - falou em um tom baixo evitando os ouvidos dos dois seguranças que fingiam não ver a cena bastante íntima.
Não foi rude, mas bastante enérgica a forma como ela apoiou a mão no centro do peito do Prefeito. Pressionando tão firme que ela sentia a pressão que o prendedor de gravata fazia em sua palma. Com a mão firme ela deu um passo para trás e balançou a cabeça em negativa.
- Laura, não seja tola.
- É exatamente o que estou fazendo. Eu não posso entrar nisso. - fechando os olhos ela ergueu ambas as mãos imaginando o cenário onde ela estaria sempre com uma mentira na ponta da língua para abafar a indiscrição deles. Não era o que queria, Não era os olhos de Richard que ela imaginava quando fechava os dela.
Bill
- Ri… Prefeito. Eu agradeço o convite, mas atualmente preciso declinar desta proposta. É uma honra que tenha pensado em mim para ocupar o cargo de secretária, mas se ele vier com algo a mais eu não posso aceitar.
- Major Adama? É isso? O homem que passa mais horas metido em um monte de sucata flutuante do que presente para sua família?
- Eu sabia… - Laura perdeu toda a compostura, os olhos duros, a boca em uma fina linha de desagrado. - Eu sabia que você tinha feito o 'dever de casa'. Claro. E agora joga isso na minha cara só porque não consegue aceitar uma recusa. Eu não vou ser seu novo brinquedo Richard.
- Veremos.
Fechou a mão para evitar que ela se conectasse ao rosto bem barbeado do Prefeito da cidade de Caprica. Ela ajustou a postura e deu um sorriso forçado segundos antes de puxar sua bolsa e dar as costas ao homem mais arrogante que ela já conheceu. Ela não ia lidar com isso, Richard Adar era um fardo pesado demais para ela carregar.
Ela andou por alguns minutos, apenas sentindo a brisa fresca da noite em seu rosto, isso era um bom calmante, era confortável. E enquanto andava a sua mente repetia constantemente um nome. Laura queria tanto poder correr para o conforto daqueles braços. Era agradável se imaginar segura com Bill o mesmo tanto que essa sensação a assustava. Laura Roslin nunca havia experimentado uma paixão tão intensa.
Já era tarde quando voltou para casa, ela abriu a porta e retirou os sapatos os deixando em um canto, andar descalço sentindo o chão frio era reconfortante. Laura caminhou no escuro, jogando a bolsa no sofá e colocando as chaves ao lado no telefone ela apertou o botão de reprodução. Ela estava a meio caminho da cozinha quando a voz imponente de Bill encheu a sala, um arrepio percorrendo todo seu corpo como ele ele estivesse logo atrás de si, a boca colada em seu ouvido.
- "Laura, imagino que talvez não queria ouvir minha voz, mas me sinto na obrigação de explicar-me. Houve um conflito em Troy e eu segui com minha equipe para apoio tático. Foi uma longa semana e eu sinto muito não ter tido tempo de avisar antes. Sinto sua falta. Se quiser me ligar, este é o número mais próximo da minha ala."
Ela sentiu o coração se expandir perigosamente em seu peito. A voz dele continuou enquanto ditava os números. Havia o ruído de vozes ao fundo, mas ela só conseguia se concentrar no tom de Bill e quando o bip encerrou a reprodução ela podia escutar claramente uma pequena frase.
"Sinto sua falta."
Nota da Autora:
Eu gosto muito de saber o que vocês estão achando e o que vocês esperam dos próximos caps, isso me ajuda em pensar em maneiras de continuar.
Então, deixe um comentário, leva apenas alguns minutos e garante uma continuação.
Beijos.
Spaild.
