Capítulo Dois
Edward Cullen
"Ed Cullen é o grande vencedor do The Star UK, com apenas 15 anos."
A música sempre esteve presente em minha vida, desde que eu era um bebê. Minha mãe sempre dizia que cantava In My Life dos Beatles como canção de ninar para Rosalie e eu, ela também dizia que às vezes eu parecia tão concentrado na letra e na melodia, que era como se já fosse capaz de entender tudo.
Conforme fui crescendo a música tornou-se uma parte ainda mais fundamental da minha existência, eu a tinha cada vez mais envolvida no meu dia a dia. Minha mãe era uma amante de música, ela poderia ter sido uma grande cantora se tivesse seguido por esse caminho, o caso é que por influência direta de Esme, eu acabei apaixonado pela música também.
Desde cedo ela me ensinou a tocar piano, depois eu estava estendendo meu conhecimento musical para aulas de violão, como também participando do coral da igreja, aprendendo mais um pouco de outros instrumentos como bateria. Eu odiava a escola, mas amava quando tinha aulas de música no antigo conservatório da cidade, amava quando minha mãe me deixava ficar acordado até tarde tocando piano, ou quando me deixava ouvir os discos dela do David Bowie e Michael Jackson.
Música, que já era muito para mim, tornou-se tudo quando meu pai uma vez surpreendeu todos chegando a nossa casa com quatro ingressos para um show do David Bowie. Carlisle nunca tinha sido um apreciador de música, ele as escutava obviamente, mas com certeza preferia gastar seu tempo mergulhado em seus livros de medicina. Então, a iniciativa dele de gastar grana com ingressos caros para um show que aconteceria em Londres, foi algo que com certeza nos pegou de surpresa.
Eu tinha dez anos na época do show, quando vi um dos artistas que mais admirava no mundo ao vivo. Mesmo depois de tudo, eu ainda poderia dizer que aquele show foi o melhor de toda minha vida, pois a grande certeza que tinha quando sai dele era: eu queria ser um cantor, queria ser reconhecido por minha música.
Cinco anos depois aconteceu:
— E o vencedor do The Star Uk é Ed Cullen!
Com aquela frase o mundo mudou para mim, a música ainda estava ali, mas carregando junto de si várias outras coisas, entre elas boas e más.
xoxoxo
O que eu mais odiava naquele lugar era o fato de não ter meu cachorro comigo, pode parecer patético ouvir isso de um cara de vinte e um anos que tinha uma fortuna, fama e tudo mais que quisesse fora daquelas paredes, mas eu sentia muito a falta de Shrek. Ele tinha feito três anos durante meu tempo preso naquela maldita clinica, devia estar sentindo minha falta pra caralho também, já que com certeza eu era seu humano favorito. Três longos meses longe do meu melhor amigo canino, era uma merda.
Ainda assim, eu sentia um pavor imenso de deixar aquele lugar, mesmo o odiando. Meu tempo ali foi uma merda, passando pela desintoxicação, por irritantes sessões de terapia, encontros do grupo de apoio, com a falta do sexo e com tudo mais, só que, eu estava apavorado com a ideia de como seria voltar à realidade.
Uma batida na porta me sobressaltou, fazendo com que eu tirasse meus olhos do buquê de rosas vermelhas que Rosalie tinha enfiado na mesinha ao lado da cama do 'meu quarto' no começo daquela semana.
— Vai dar um pouco de vida ao lugar — ela falou, colocando o vaso de plástico sobre o móvel. Plástico, pois por ser um paciente agressivo, só por ter quebrado merecidamente o nariz de um abutre filho da puta, eu não podia ter nenhum objeto que pudesse servir de arma branca em meu alcance.
Sim, porque eu estava por ai querendo socar a cara de todo mundo!
Aquele pessoal não sabia de nada, eles não entendiam nada.
— Oi, filho! — Mamãe surgiu pela porta, carregando um sorriso imenso nos lábios. — Pronto para ir?
Eu franzi o cenho.
— Pensei que só sairia mais tarde — falei, minha voz estava rouca, pigarrei, sentindo a garganta arranhada.
Doía pra caralho, não mais do que minha cabeça, mas doía.
— Consegui que te liberassem mais cedo. — Esme fechou a porta atrás de si, caminhando até mim.
Por que ela tinha permitido que eu fosse jogado naquele lugar? Por que ela não me deixou entrar com um recurso junto com os advogados? Eu passei três meses preso naquele inferno e não sabia mais como seria voltar para o paraíso.
— Nós vamos superar tudo isso, Edward, eu prometo — falou, sentando ao meu lado, tocando em meu braço. Seu toque fez com que eu retraísse, estava irritado com ela por ter me mandado para lá, sua palavra sendo muito mais válida que a do maldito juiz que me condenou.
— Não temos nada para superar — murmurei, voltando a encarar as rosas de Rosalie.
Ela disse que eram para dar mais vida ao quarto, mas estavam murchando, perdendo o tom de vermelho. Morrendo, as rosas estavam morrendo, como eu estive durante os três meses que passei trancado naquele lugar.
— Edward...
— Ele não vem, né?
Eu não precisei citar nomes, ela sabia muito bem a quem eu me referia.
— Seu pai está ocupado com o trabalho, Edward. — Voltou a tocar meu braço, em um afago. — Ele virá te ver logo.
Era o que eu estava ouvindo desde que entrei naquela clinica.
— Carlisle virá logo — mamãe dizia.
— O papai vai vir em breve — Rose completava.
Mentiras, eu sabia. Carlisle tinha desistido de mim, a ovelha negra da família.
— Bom, se é pra ir embora, vamos de uma vez. — Levantei, pegando o moletom escuro da cama, o enfiando por minha cabeça por cima da camiseta que usava, puxando o capuz para esconder o máximo possível do meu rosto.
— Edward, filho. — Esme se levantou também, segurando em meus braços, olhando-me nos olhos. Éramos tão parecidos fisicamente, mas ela era a gentil e doce mulher, eu era o babaca cretino garoto que sempre arruinava tudo. — Sei que não tem sido nada fácil, mas prometo que você vai se reerguer, prometo que isso tudo vai ficar no passado.
Sério que ela acreditava mesmo naquilo? Eu deveria admirar a positividade dela. Nada ficaria bem, eu estava fodido, totalmente quebrado.
A pré-produção do meu quinto álbum tinha sido adiada, shows cancelados, eu tinha socado a cara de um paparazzi, ficado preso em uma clinica de reabilitação e minha ex noiva, que eu pensei que realmente me amava, estava por Los Angeles saindo com outro cara. Sim, eu definitivamente não podia estar pior.
— Vamos embora — falei para Esme, tirando suas mãos de mim.
— Edward...
— Vamos embora! — eu praticamente gritei, vendo-a assustada com aquilo, dando alguns passos para trás. — Sério? Acha que eu encostaria a mão em você, mãe? — indaguei, sentindo-me ainda pior. — Sabe muito bem que eu nunca te machucaria.
Pelo menos não fisicamente, sabia que todas as minhas merdas estavam deixando-a emocionalmente mal. Aquilo por tabela só me deixava pior, pois tudo estava se transformando em uma grande bola de neve de problemas e não fazia ideia de como escaparia de ser levado de uma vez pela avalanche.
— Eu sei, filho, claro que sei — falou hesitante. — Você nunca me machucaria intencionalmente.
Intencionalmente. Isso não queria dizer que eu nunca bateria nela, queria dizer que se eu chegasse muito próximo à borda dos meus limites, bateria. Racionalmente seria um bom sinônimo, eu estava sendo tratado como um louco, nada de vidro, como também nada de chegar muito perto.
Cuidado: Edward Cullen, animal selvagem, na estrada!
Não o provoque, ou você levará um soco. Depois não diga que não avisamos.
— Eu nunca te bateria, nem mesmo se estivesse louco, mãe — consegui falar, sentindo minha garganta fechar, odiando o fato de nem mesmo mais Esme confiar plenamente em mim.
O que restava para Ed Cullen no mundo? Já que nem a própria mãe dele tinha coragem de estar por perto sem temer levar um tapa.
Odiava minha vida, odiava todos ao meu redor.
Queria apenas desaparecer, foda-se o que falariam sobre meu tratamento e carreira, eu pegaria o primeiro avião para o Caribe e ia relaxar nas praias de lá, Sol, sexo e bebidas, muitas bebidas. Não estava mais nem ai para os outros, ia torrar todo o dinheiro que tinha em festas, eu merecia aquilo depois daqueles três meses naquela merda de lugar tendo de ouvir todo tipo de frases toscas presentes em livros de autoajuda.
— Edward? — mamãe chamou por mim, voltando a se aproximar, eu aparentemente tinha desligado por um tempo, enquanto fantasiava em passar o resto da vida no Caribe.
Não aconteceria, minha realidade era ali em Los Angeles, tentando reparar a bagunça que criei em minha vida. Mas, como? Não sabia nem por onde começar a consertar meus erros, meus muitos erros.
— Vamos, Edward! — Mamãe entregou-me óculos de Sol, que rapidamente coloquei em meu rosto. — Deixe-me levá-lo de volta para sua casa, filho, você encontrará as respostas para suas duvidas lá, eu prometo.
É, nas minhas garrafas de bebida? Ah, não, eu estava proibido de beber, claro.
Odiava aquela porra, eu podia beber, isso não me levaria de volta à...Ao resto, a todo o resto. Seria só álcool, só um pouquinho, eu precisava.
— O grande dia chegou! — o médico apareceu na porta do quarto, com uma papelada em mãos. — Tudo certo, Edward?
— Sim, eu me sinto muito bem — menti, tentando fazer a melhor atuação da minha vida, eu estava sem ter ideia de como encarar o mundo lá fora, mas precisava sair daquela clinica que parecia uma clinica de repouso para velhos.
Caribe voltou a minha mente.
Sexo.
Bebidas.
Sol.
Eu precisava de uma boa festa caribenha, com tudo que tinha sido privado durante minha prisão na Clínica Mendes.
— É a melhor de Los Angeles, você será muito bem assistido lá — era o que todos diziam enquanto eu me via obrigado pela justiça e por minha mãe e irmã a ir para aquele inferno. — Marcus Mendes é um grande médico, ele irá ajudá-lo a por tudo em ordem.
Novidade quente do dia: nada estava em ordem!
— Assine aqui. — O doutor Marcus me estendeu a papelada e uma caneta.
Eu quase autografei, minha mão e minha mente já treinadas para aquilo. Porém, rapidamente me obriguei a assinar meu nome todo, não só o nome artístico.
— Obrigado, Marcus, você foi de grande ajuda — falei para o médico, despejando todo o deboche em minha fala.
— Sabe que pode me procurar a qualquer momento, Edward — falou sério, sem se importar com meu deboche.
Filho da puta, ele e todos naquela clinica que passaram três meses sendo meus carcereiros.
— Vocês podem ir agora, a entrada da clinica já está...Bem, devem imaginar como está.
— Obrigada por tudo, Marcus — mamãe a agradeceu a ele, sendo verdadeira em sua fala. — Eu farei Edward procurá-lo se for necessário — garantiu.
— Sabem onde me encontrar — ele falou, apontando para a porta do quarto. — Vá respirar um pouco de ar livre, Edward.
Suspirei, pegando minha mala aos pés da cama, a arrastando para fora do quarto. Os funcionários circulando pelos corredores e até mesmo os outros pacientes, viraram suas cabeças para mim, mas todos ficaram calados quando meu segurança, Felix Welch aproximou-se.
— Olá, chefe!
Felix era um cara enorme, com dois metros de altura. Nunca sorria e quase nunca falava também. Na primeira semana que foi trabalhar comigo como meu segurança pessoal, no ano anterior, eu pensava até mesmo que ele era mudo.
— Oi — resmunguei em resposta, passando minha pesada mala para ele carregar, podendo andar entre os curiosos com mais rapidez.
— Vejo você lá fora, Cullen! — Ouvi um grito, olhei para trás, vendo Eric Yorkie em outra extremidade do corredor.
Eric, um descente de orientais, era um gênio da informática ou qualquer merda dessas. Eu só sabia que ele tinha criado um aplicativo e faturava muito com aquilo, muito mesmo. Ele vivia entrando e saindo da reabilitação, tinha sido um amigo durante meu tempo ali desde que chegou a clinica no começo do meu último mês.
Acenei para Eric, ouvindo uma das enfermeiras soltar um gritinho de animação. Outra lhe deu uma cotovelada, mas ela não perdeu oportunidade de sorrir para mim.
Não sorri de volta, eu estava saindo daquela merda atrás de garotas melhores. Ia pegar o catalogo da Victoria Secrets e escolher a mais gostosa entre todas elas, uma ligação e sabia que teria meu pedido atendido no mesmo dia. Minha volta à ativa teria de ser em grande estilo, não com uma enfermeira qualquer.
— Guarde um pouco de bebida para mim, cara! — Eric gritou.
— Eric, não! — Marcus chamou a atenção dele.
Desliguei minha atenção dos dois, seguindo ao lado de Esme e atrás de Felix. Um dos meus carros, o Ranger Rover, esperava parado na frente da clínica. O caminho até ele foi curto, ainda assim pude ouvir o som do helicóptero sobrevoando a área da clinica que ficava quase na saída de Los Angeles, como os gritos bem ao longe dos abutres que queriam fotos minhas.
Eles não deveriam estar com medo? Já que eu tinha ido parar ali justamente por socar um deles, Mike Newton aquele filho da puta desgraçado.
— Oi, Ed! — O outro segurança, que estava ao volante do carro, Embry me cumprimentou.
Resmunguei qualquer coisa de volta, mas sabia que mais cedo ou mais tarde precisaria de Embry. Ele era um bom meio de arranjar as coisas, ilegais ou legais, já sabia que eu cederia, então seria útil tê-lo por perto.
Grande ajuda ter passado três meses na clinica, lá estava eu planejando meus próximos atos errados. Por que mesmo eu continuava insistindo em tentar ser um bom garoto?
— Está um dia lindo — mamãe falou, olhando pela janela, fazendo com que eu a olhasse. Ela tinha os olhos fixos no céu, vendo o Sol brilhar sobre Los Angeles, mamãe sorria, parecendo feliz e aliviada.
Por ela. Respondi minha pergunta anterior. Por ela, por Rosalie e mesmo que meu pai não estivesse por perto, por ele também. Eu estava tentando melhorar por eles, minha família, só não achava que aquilo teria o resultado esperado.
Não sabia como voltar ao topo, eu sequer tinha percebido quando cheguei lá na primeira vez, foi tão rápido, tão insano. Em um dia eu era o concorrente de um reality show inglês, no outro estava fazendo shows em estádios lotados ao redor do mundo.
— Não tão lindo assim — resmunguei, quando vislumbrei a multidão diante os portões da clinica. Jornalistas de grandes emissoras, paparazzis, fãs e curiosos, todos amontoados ali querendo um pouco de Ed Cullen.
Abaixei-me no banco de trás da Range Rover, escondendo-me como pude daquelas pessoas. Alguns bateram nas janelas do carro, gritos estridentes puderam ser ouvidos e o som do helicóptero nos seguindo ainda podia ser ouvido.
Não tinha como ficar pior, mas claro que ficou. O rádio do carro estava ligado, antes tocando uma música antiga da Madonna, até que começou a tocar uma canção de Charlie Swan.
— Que se foda você, seu caipira! — Reclamei, inclinando-me até o rádio para calar o Swan.
— Edward, é uma boa música — mamãe falou, enquanto o carro ganhava velocidade para longe de todos às portas da clinica de reabilitação, lancei um olhar ultrajado para a mulher que disse aquela barbaridade.
— Você já teve um gosto melhor, mãe! — Me livrei dos óculos de Sol.
— Edward, você precisa...
— Beatles, Bowie, Queen, agora quer dizer que um caipira é um bom cantor? Eu sequer já te vi ouvir a merda de uma música country em sua vida.
— Duas palavras, Edward, Johnny Cash — ela me confrontou, eu me calei, buscando uma forma de voltar a ganhar a discussão.
— Ele não conta, era uma lenda, diferente do Caipira Swan — foi tudo que consegui dizer, Esme riu, afagando minha mão.
— You are my Sunshine (você é meu raio de Sol) — ela cantarolou a música no ritmo da gravação de Johnny Cash.
— Oh, my only Sunshine (meu único raio de Sol) — completei, no ritmo da gravação de Ray Charles, que era muito melhor do que a de Cash.
Olhei pela janela, tendo de admitir que Esme estava certa, era mesmo um dia lindo.
— Filho — mamãe me chamou, fazendo com que voltasse a olhá-la. — Você continua sendo meu cantor preferido.
Era bom ouvir aquilo, mas talvez não fosse o suficiente para fazer com que eu voltasse ao topo, para que recolocasse minha carreira no lugar.
xoxoxo
A entrada do condomínio — o Hidden Hills — onde minha mansão ficava, também estava cercada por todo tipo de gente querendo algo de mim. Porém, foi muito mais fácil entrar ali do que sair da clinica, logo Embry entrava nos limites da minha casa.
Eu estranhei a presença de um carro desconhecido ali na frente, não era o de mamãe, mas talvez ela tivesse o trocado enquanto estive preso na reabilitação, mesmo que o modelo não fizesse muito seu estilo. Só que, isso não chamou minha atenção por muito tempo, eu logo estava entrando na mansão com Esme, louco para ver minha irmã, meu cachorro e principalmente poder reencontrar meu próprio quarto e dormir por umas boas horas na minha própria cama. E tinha o acréscimo, deixar o helicóptero da imprensa me seguindo para trás.
Rosalie, ou Shrek, não estava por lugar algum. Eu segui até a sala de estar mais informal da mansão, julgando que os dois estavam ali, mas não os encontrei, no lugar da minha irmã e do meu cachorro, vi a última pessoa que esperava sentada no sofá, com o rosto voltado para a minha foto na parede.
Isabella Swan, a filha mais velha de Charlie Swan, o caipira.
— O que está fazendo aqui? — indaguei irritadiço, ela se voltou para mim, olhando-me de cima a baixo por trás de seus óculos de Sol.
— Olá, Edward.
A mulher retirou seus óculos, colocou-se de pé e caminhou até mim com confiança a cada passo. Estendeu uma mão para mim, falando:
— Sou Isabella Swan, sua nova empresária.
O quê?
Minha cabeça que já doía ficou ainda mais dolorida ao escutar tais palavras insanas, o que diabos aquela mulher estava falando? Ela tinha fumado o que?
— Eu sei muito bem quem você é, Isabella Swan — cuspi as palavras, ela não pareceu se importar com meu tom de voz. — E que loucura é essa de minha nova empresária, você ficou maluca?
— Edward, eu falei com Isabella. — Encarei Esme, chocado com suas palavras.
— Você o quê? — eu tentei ao máximo não gritar, mas foi impossível.
— Ah Deus, finalmente você chegou! — Rosalie gritou, entrando como um furacão na sala, atirando-se em meus braços.
Por um segundo eu me esqueci da Swan parada diante de mim, apenas devolvi o abraço de Rosalie, sentindo-me completo. Nós não morávamos mais juntos há anos, entretanto estar com minha gêmea sempre me faria sentir como se estivesse em casa, independente da localidade em questão.
Era estranho, aquele lance de irmãos gêmeos. Nós tínhamos uma ligação tão forte, nós sempre acabávamos no colocando no lugar do outro. Isso me fazia sentir pior, por ter arrastado Rose para o lugar escuro comigo, ela não merecia sentir aquela merda toda.
Rosalie era brilhante, ela tinha a alma e o coração mais puros do mundo. Ela sempre foi a metade boa de nós dois, a irmã com a cabeça no lugar, a menina do sorriso mais acolhedor.
Eu a apertei contra mim, contendo-me de desabar nos braços dela somente por Isabella Swan estar ali. Mas, precisava do colo de Rosalie, sempre precisaria, mesmo depois de todas as nossas discussões, de todas as vezes que eu a mandei calar a boca, de quando a mandei ir cuidar da própria vida.
Porra, eu tinha sido tão idiota com minha irmã e lá estava ela, esperando por mim como sempre. Oferecendo-me um sorriso e um abraço, deixando-me saber por seu conforto que ela continuava ao meu lado.
— Bem vindo de volta, Zan.
Ri baixinho do apelido, há muito não o ouvia. Rosalie e eu, por sermos gêmeos, crescemos tendo como nosso desenho favorito, o do Supergêmeos. Era nossa brincadeira preferida de infância imitar os personagens, eu sabia que mamãe tinha fotos constrangedoras de nós dois fantasiados como os alienígenas gêmeos.
— Obrigado, Jayna — agradeci, a chamando pelo nome da irmã do desenho, ainda rindo.
— Okay, que bom que se reencontraram nessa cena bem comovente digna de cinema, mas vamos nos concentrar em trabalho agora. — Ouvi a reclamação da filha do Caipira Swan, soltei Rosalie, que não pareceu gostar nada do tom de voz de Isabella.
— Eu não sei o que deu em você para pensar que eu queria Isabella como minha empresária, Esme, mas isso com certeza não está acontecendo! — exclamei, mamãe suspirou.
— Edward, ela é uma boa empresária — mamãe falou baixinho, como se a caipira filha não pudesse nos escutar bem onde estava.
— Foda-se, eu não a quero.
— Quem você quer, então? — Isabella me questionou, fazendo com que eu a olhasse, seus olhos castanhos fixos em mim. — Caius Martin? — Arqueou uma sobrancelha. — Ele chutou sua bunda no momento que você se fodeu, Edward.
— Eu arranjo outro empresário, não vou ser agenciado por você, Swan — cuspi as palavras, gesticulando para ela.
— Edward, pensa bem — Rose pediu.
— Olha, sei que você e meu pai tem...
— Não, nem fala naquele Caipira Swan dentro da minha casa — exigi a interrompendo.
Vi o rosto de Isabella assumir um tom de vermelho forte, ela deu dois passos em minha direção, fazendo até mesmo com que Rosalie recusasse.
— Cuidado com o que fala do meu pai, Cullen, ou eu acabo com o que restou da sua carreira — ameaçou.
— Estou morrendo de medo — debochei. — Não quero você trabalhando para mim!
— Com você — ela corrigiu. — Não sou sua subordinada, Cullen.
— Exatamente, não é, eu não teria trabalhando para mim, comigo, ou qualquer outra expressão que queira usar, a filha do cara que chamou a minha música de dispensável.
— Depois que você chamou a dele de ultrapassada — rebateu.
— Eu só disse a verdade.
Isabella andou mais até mim, fazendo com que fosse minha vez de recuar, por pouco não tropecei em meus próprios pés e cai no chão.
— Mandei você tomar cuidado com o que fala sobre meu pai, Edward Anthony Cullen!
Quem ela pensava que era para usar meu nome todo?
— Vá embora! — gritei para ela.
A Swan não se encolheu, ou recuou, não pareceu ter medo de mim gritando com ela. Continuou encarando-me de queixo erguido, suas mãos presas em sua cintura em uma pose de valentona.
— Eu vou — ela falou com confiança. — Mas, por ver que você precisa de algumas horas para se recompor da clinica. Estarei de volta à noite e se ai você recusar meu trabalho de novo, Cullen, não adianta nem mesmo construir uma arranha céu em minha homenagem, porque eu não vou aceitar ser sua empresária.
— Não se dê ao trabalho de...
— Ai, cala a boca, Cullen, você me irrita. — Ela me interrompeu, passando por mim em direção à saída, sem falar com mais ninguém e nós pudemos ouvir o som da porta da frente batendo em um som alto.
Como diabos ela tinha força para fazer uma porta de quase quatro metros bater daquela forma eu não sabia, mas ela conseguiu.
— Você não devia ter feito isso, mãe!
— Edward, eu sei que você não suporta Charlie, mas admita que Isabella é uma boa empresária. — Esme tentou me convencer daquilo, sem sucesso.
— Estou pouco me fodendo, não vou ter um deles por perto.
— Ela parece bem chata — Rosalie opinou. — Mas. — Suspirou. — Faz mesmo um bom trabalho Edward, além do pai agencia mais dois cantores e os dois estão indo muito bem.
— Foda-se Charlie Swan, Riley Biers e Kate Allen, foda-se! — gritei, saindo da sala. — E foda-se Isabella Swan também!
— E o que pretende fazer? — Ela e mamãe me seguiram, as duas parando no fim da escada, enquanto eu subia os degraus. — Caius não vai voltar, Edward, ele não vai atrelar o nome dele a você de novo, não agora. — Tinha um tom de decepção na voz de Rose, um que não pude deixar de notar.
— A mamãe pode voltar a ser minha empresária — falei, vendo o pavor no rosto de Esme.
— Nem pensar, já foi um sacrifício no começo, eu não vou entrar nessa loucura de agora, Edward — ela disse com firmeza. — A minha parte já fiz, fui até a Swan e a convenci te dar uma chance. Não perca isso, está ouvindo? Eu não vou sair batendo na porta de todos os empresários de Los Angeles pedindo que eles cuidem de você.
— Não estou pedindo por isso, vou encontrar outro, caso não encontre eu mesmo viro meu empresário.
Rosalie fez uma careta.
— Isso não parece um bom plano, Edward.
Não tive tempo de falar mais nada, não quando escutei o latido de Shrek e o vi surgir ali. Rapidamente eu desci a escada, indo para o chão com meu cão.
— Ei, carinha, você sentiu minha falta? — perguntei, recebendo lambidas de Shrek no rosto. — Eu sei, eu sei, foram longos meses fora, mas estou de volta.
Shrek tinha sido um presente de mim para mim mesmo, eu sempre quis ter um cachorro quando criança, mas Carlisle não gostava de cachorros e nos proibia de ter um. Então, quando me dei conta que tinha uma mansão ao meu dispor, sobre minhas próprias regras, eu fui até o pet shop mais perto e comprei o cão mais lindo de todos, Shrek, um Golden Retriever. O nome tinha sido uma escolha baseada no personagem do meu filme de animação favorito, não podia perder a oportunidade de usar o nome dele em algo.
— Vou preparar algo para você comer, filho — mamãe falou, afastando-se até o corredor.
— Ei, você deveria pensar bem sobre Isabella, Edward. — Rosalie se ajoelhou no chão junto de mim e Shrek.
— Não há o que pensar, não vou contratá-la para ser minha empresária — decretei, voltando-me para Shrek. — Até o Shrek seria um empresário melhor, não é, carinha?
Ele latiu, parecendo concordar comigo.
xoxoxo
Rosalie e mamãe tinham me feito comer bastante, ambas ressaltando o quão magro eu estava, então recebi permissão para ir dormir e foi isso que fiz pelo resto do dia. Minha cama era a melhor, minhas costas agradeciam finalmente ter me livrado do colchão ruim da cama da clinica de reabilitação.
Foi um sono pesado, quando acordei já era de noite pelo o que o relógio digital ao lado da cama informava. Shrek, sendo muito mais fiel do que Lauren, estava deitado junto comigo, dormindo tranquilamente.
Lauren, pensar nela causou em mim o impulso de ligar, ou ir atrás dela. Mas, por que eu faria isso? Ela tinha sido só uma vaca golpista, não?
Tudo que disse para mim foram mentiras, tudo.
No momento que cai, ela afastou-se para não ser atingida. Sequer tinha terminado comigo cara a cara, sequer tinha terminado de qualquer jeito, ela apenas foi vista beijando Jacob Black e não tomou cuidado para a imprensa não ver, queriam mesmo que vissem.
Então, quando eu fui informado na clinica daquilo, por Esme e por Marcus, eu soube que todas as declarações de Lauren eram falsas. E pensar que eu tinha a pedido em noivado, que estava disposto a torná-la minha esposa, já planejava nosso casamento para no máximo 2019, eu a queria, muito, mas ela só estava me usando de escada.
Antes que perdesse o controle, de qual forma fosse, por ficar pensando em Lauren, eu me vesti para a piscina e dei o fora do meu quarto, deixando Shrek dormindo lá. Precisava de um mergulho, refrescar minha mente seria bem útil.
Encontrei com Rosalie cozinhando, enquanto ouvia Bowie, me deixando orgulhoso. Aquilo sim era música, não a do Caipira Swan que era ultrapassada, country era uma bela porcaria.
— Cadê a mamãe? — perguntei.
— Ela foi para o apartamento dela — Rose contou, entretida demais em sua receita para me olhar. — Vai ter de ir pra ONG amanhã, então queria estar lá por perto de uma vez — complementou.
Esme tinha se formado em direito, mas nunca chegou a advogar de fato, uma vez que logo depois de se formar teve Rosalie e eu e preferiu se dedicar a nossa criação e casa, deixando o trabalho para papai. Bem no comecinho da minha carreira, ela foi minha primeira empresária, contando com a ajuda do pessoal do reality show que venci, com que eu tinha contrato por um ano. Ai, Caius Martin, um empresário inglês, entrou no jogo a substituindo, até ele também dar o fora.
Ainda assim, sempre se preocupando comigo, Esme me seguia o máximo que pode. Passando a maior parte do seu tempo em Los Angeles, no meio disso, ela conheceu uma ONG voltada para o ensino de música para crianças e trabalhava lá como professora de piano.
— Como você está? — Rose olhou para mim.
— Bem, maravilhoso — menti, mas ela sabia a verdade, ela sempre saberia. — Eu vou ficar bem, prometo. — Também tinha um pouco de mentira na minha promessa, uma vez que não estava de fato confiando que conseguiria me manter limpo por muito mais tempo. — Vou nadar, venha para a piscina quando acabar com isso.
— Já nadei tanto nos últimos três meses, não aguento mais o cloro da piscina — falou, voltando ao preparo de sabe-se lá o que estava cozinhando aquela noite.
Quis falar algo, agradecer o fato dela ter trancado a faculdade por três meses no ano de formatura para voar até Los Angeles e dar todo o apoio para mim. Ela ficou com mamãe, ia sempre me visitar na clinica e estava dando tudo de si para que eu ficasse o mais confortável possível naquele lugar. Então, sim, eu quis agradecer por ela estar deixando a vida dela de lado para cuidar da minha bagunça, mas fiquei com vergonha.
Eu sempre pedia desculpas, mas sempre voltava aos erros em seguida. Não poderia falar:
— Obrigado, Rose, por vir até aqui e cuidar de tudo que estraguei.
Não poderia, pois seria uma questão de tempo até eu estragar tudo outra vez.
Sai em silêncio da cozinha, atravessando o quintal da mansão até a piscina que ficava próxima a casa de hospedes. Rose estava ocupando o quarto dela de sempre, um dos nove da mansão, então eu sabia que a casa ali atrás estava vazia.
Sem rodeios, pulei na piscina. Não era imensa, mas era excelente para relaxar, muito mais útil do que três meses em uma clinica de reabilitação.
Tomei uma grande lufada de ar, mergulhando até o fundo da piscina, segurando minha respiração o máximo que pude. Eu não sabia o que fazer, não sabia nem mesmo se o mundo da música ainda tinha lugar para mim, foram três meses preso, sem contato com o exterior com exceção do que Esme e Rose se permitiam contar.
E se eu nunca mais fosse tocado em uma rádio? Se nunca mais cantasse para um estádio cheio? E se eu nunca mais lançasse um álbum?
Era aterrorizante, eu amava ser um cantor, mas todas minhas merdas estavam me colocando à beira de perder a paixão da minha vida: a música.
Não seria mais nada sem a música, ela era tudo para mim, desde o começo. Se eu a perdesse, me perderia também, um caminho totalmente sem volta daquela vez, como a tatuagem em meu peito dizia.
Voltei à superfície com urgência, buscando o ar. Talvez a falta de ar não fosse o pior naquilo, sim o pânico de ter tudo arruinado em definitivo.
Eu me voltei para a borda da piscina, para sair de lá, quando a avistei em uma espreguiçadeira. Estava deitada, de olhos fechados como se dormisse, uma perna por cima da outra. Usava um curto short jeans, all star vermelho, com uma camiseta estampada, que a distância não pude ver a ilustração.
Ela era a porra de uma assombração, disso eu tinha certeza. Puto da vida com aquela mulher, eu sai da piscina disposto a mandá-la cair fora da minha casa, pela segunda vez no dia.
— Vá embora daqui e nunca mais volte, Isabella! — ordenei, vendo a estampa em sua roupa.
Uma foto da capa do álbum do pai dela, aquele que ganhou o Grammys de álbum do ano que eu merecia por meu segundo disco, só podia ser uma afronta, ela não tinha decência alguma.
— É sua última palavra, Cullen? — perguntou, levando a mão esquerda aos seus cabelos, ali prestei atenção da tatuagem que ela tinha no antebraço.
Era um dente de leão, com suas pétalas voando até seu pulso, com alguns tons de tinta em aquarela por baixo e uma frase escrita ali em meio às cores e as pétalas: Sometimes when you fall you fly (as vezes quando você cai você voa).
Isabella abriu os olhos castanhos para mim, eles pararam em meu rosto enquanto ela dizia:
— Eu posso reerguer a sua carreira, Edward.
Ela podia mesmo?
— Eu consegui voltar ao topo, Cullen. — Sentou com as costas eretas na espreguiçadeira. — Passei por muito também, você sabe. — Todos em Los Angeles sabiam, eu não estava lá na época, mas o Escândalo Swan seria relembrado eternamente. — O que você mais quer agora?
— Voltar a cantar — respondi prontamente. — Quero retomar a produção do meu quinto álbum e ganhar um Grammys por ele.
Não importava o quanto eu mentisse a imprensa, era claro que eu queria um daqueles prêmios em minha casa. Era o sonho de todos envolvidos com música, era o topo dos topos.
Isabella deu um sorrisinho de lado, levantando-se, parando bem diante de mim.
— Aceite-me como sua empresária, Ed Cullen, eu o farei voltar ao topo. — Piscou para mim. — Ou, mande-me embora outra vez e veja sua oportunidade de ouro ir comigo.
Fechei os olhos, respirando fundo. Sem saber se deveria aceitá-la como minha empresária, mesmo depois de suas promessas de topo.
— Nós vamos acabar nos matando, Isabella. — Reabri os olhos, ela continuava com um sorrisinho nos lábios.
— E isso seria uma ótima publicidade para seu álbum póstumo.
Não pude deixar de rir, respirei fundo outra vez, deixando as palavras saírem por meus lábios.
— Você está contratada, bem vinda ao time Cullen.
Isabella gargalhou, ficando até vermelha de tanto que riu. O que me deixou confuso e bravo.
— Pobrezinho. — Ela deu uma batidinha em meu ombro, sobre a tatuagem que eu tinha ali. — Você é quem está no time Swan, eu estou no comando agora.
