Capítulo Oito

Edward Cullen

"Durante show Ed Cullen discute com o guitarrista de sua banda."

Conheci Jasper logo depois de me tornar o vencedor do The Star, ele era um cara de Londres de dezenove anos, que tinha sido contratado para ser o guitarrista principal da minha banda de apoio. Jasper também era um compositor, algumas de suas composições entraram logo no meu primeiro álbum.

Mais velho, mais descolado, Jasper Whitlock era meu melhor amigo. Nós estávamos sempre juntos, rodando o mundo entre shows, ou simplesmente, curtindo festas por ai. Até que a amizade começou a se abalar, primeiro por conta de desavenças profissionais, depois quando Jasper se declarou apaixonado por mim e tentou me beijar.

Eu fiz com que ele fosse demitido não muito depois daquilo, Jasper foi à imprensa falar mal de mim em retaliação. Prometi a mim mesmo que nunca mais iria tralhar com aquele babaca, ele nunca mais seria o guitarrista da minha banda e com certeza não mais meu melhor amigo.

xoxoxo

Bella gargalhou no segundo que terminei de dizer que Jasper tinha tentado me beijar, eu devia ter previsto que a Capitã acharia aquilo engraçado, ela era uma pedra sem sentimentos. Foda-se, aquela mulher não sabia ser gentil, não que eu soubesse muito sobre gentileza, mas ela conseguia ser muito pior.

— Tudo isso por que ele quis ficar com você? — ela perguntou entre sua risada de hiena.

— Ele era meu melhor amigo! — enfatizei. — Como você se sentiria se Tanya tentasse te beijar? — Apontei para a loira no banco do motorista, que desviou o olhar para o lado de fora do carro, me impedindo de ver seu rosto.

— Tanya e eu já nos beijamos, Betty — Bella disse, piscando para mim.

Arregalei os olhos, surpreso com aquilo. Me movi no banco, ficando mais perto das duas.

— Vocês se beijaram? Mas foi um beijo de verdade ou só uma merda de lábios se tocando por um segundo? — indaguei, imaginando as duas se beijando pra valer, era uma boa imagem.

— T? — Bella se voltou para Tanya, que olhou para a amiga e sócia, a Denali estava corada.

— Fale de uma vez, Bella — murmurou envergonhada.

— Tanya e eu fizemos muito mais do que simplesmente nos beijarmos, Ed — Bella anunciou, parecendo bem confortável em admitir aquilo.

Puta que pariu, elas tinham fodido juntas!

— Isso é quente! — exclamei entusiasmado, a ideia delas transando era muito melhor do que imaginar apenas um beijo entre as duas. — Vocês ainda fazem isso?

— Não, Tanya me largou — Bella dramatizou, Tanya riu, batendo no braço da outra. Eu gemi baixinho do meu lugar, pensando nas mãos delas percorrendo outros lugares de seus corpos. — Nós ficamos nessa por uns meses, enquanto estávamos viajando. — A morena continuou a contar. — Depois de você sabe o que.

Depois do Escândalo Swan, mas aquilo pouco me importava no momento. A imaginação das duas na cama era tudo em minha mente, eu estava ficando excitado.

— Vocês são bissexuais? — perguntei.

— Sou Tanyassexual, se ela me quisesse de volta eu iria na hora. — Bella sorriu maliciosamente para a amiga, Tanya piscou para ela.

— Bella foi minha única garota e eu a única dela, pelo menos até onde eu sei — Tanya disse para mim.

— Sabe que você sempre será minha única garota, T. — Bella piscou para ela, afagando o rosto da outra. — Pelo menos para sexo — completou. — Beijos não contam.

— Oh Deus! — exclamei. — Você já beijou outras?

— Já, nada demais, Cullen, são apenas bocas. — Bella deu um tapinha em meu rosto, mas naquele momento nem me importei com aquilo.

— Só te contamos isso para você perceber que esta fazendo um caos desnecessário sobre Jasper — Tanya disse, assumindo uma postura séria. — Ele estava apaixonado por você, tentou te beijar e pronto, foi só isso.

— Não, não é assim — resmunguei, voltando a ficar puto por conta da história de Jasper. — Eu sabia que ele curtia garotos como curtia garotas, mas Jasper sabia que eu não gostava de caras de jeito nenhum e tentou me beijar.

— Ele estava apaixonado, dá um desconto Edward. — Tanya bufou.

— Você devia ter o beijado — Bella disse. — Vai que acabava gostando, perdeu uma oportunidade. — Eu a encarei indignado. — O quê? Estou falando sério. Eu também não achava que ia curtir beijar uma menina, muito menos dormir com uma, até Tanya se oferecer pra mim.

— Bella! — a loira corou violentamente.

— Você se ofereceu, T. — Bella deu de ombros.

— Eu pensei que você fosse a santinha das duas! — acusei Tanya, Bella gargalhou.

— Não vem ao caso. — Tanya pigarreou. — O que importa agora é que vai se entender com Jasper, o convencer a trabalhar com você novamente e vai melhorar sua música.

— Não vou fazer isso! — Cruzei os braços na frente do corpo, os olhares das duas eram furiosos, mas depois de imaginá-las fodendo aqueles olhares fatais me deixavam mais excitado do que assustado. — Olha, eu tenho uma ideia, se vocês duas me deixarem participar de uma festinha particular que fazem, eu subo e falo com Jasper.

No mesmo segundo Bella socou meu ombro, com muita força.

— Ai! — gritei.

— Não vamos incluir você em festinha nenhuma, até porque não tem mais. — Eu resmunguei, tocando no meu ombro dolorido por seu soco. — Vai sair desse carro com a gente e ir falar com Jasper, você me entendeu?

— Sim, Capitã. — Bufei.

— Excelente! — Tanya exclamou, pulando para fora do carro.

— Saia por conta própria, ou vou arrastá-lo pela orelha — Bella me ameaçou, antes de deixar o carro também.

Eu deixei o carro por conta própria, não achava que Bella estava blefando em sua ameaça. Para meu alivio, poucas pessoas circulavam pela rua que Jasper morava e todas pareciam distraídas demais para me notarem ali, o que me livrou de gritos histéricos, ou fotos fora de hora.

Nós três entramos no prédio, eu me lembrava de Jasper ter se mudado para aquele lugar não muito antes de seguirmos caminhos bem diferentes em nossas vidas. Eu não procurava informações sobre o londrino, mas vez ou outra elas chegavam até mim, ele estava atuando mais como um compositor nos últimos tempos.

— Olá, querido — Tanya assumiu a dianteira dos negócios, indo cumprimentar o porteiro. O homem gordinho e careca ficou um pouco deslumbrado com a loira diante de si, Tanya era mesmo um mulherão e eu só conseguia imaginar como seria tê-la na cama, o que provavelmente nunca acontecia já que quando nos conhecemos ela tinha enfatizado que era casada.

— O-Oi — o homem gaguejou.

— Ela é muito boa na cama, não é? — sussurrei a pergunta para Bella parada ao meu lado.

— Melhor do que muitos caras — Bella sussurrou de volta.

Eu suspirei, mais imagens das duas se pegando tomando conta da minha cabeça.

— Nós estamos aqui para ver Jasper Whitlock do 322 — Tanya disse para o porteiro, debruçando-se sobre o balcão que os separava. — Mas, gostaríamos de fazer uma surpresa, será que pode não avisar que estamos subindo?

— Desculpe, eu não posso fazer isso — o homem disse, parecendo mesmo mal com a negação.

— Ah, eu sei que pode sim, querido — Tanya adoçou ainda mais seu tom de voz, deslizando uma mão pelo peito do cara. — Prometemos que Jasper não verá problema em nos receber de surpresa. Vai, deixa a gente subir — pediu.

O homem suspirou, olhando para Bella e eu atrás, a Capitã abaixou seu olhar, deixando seus cabelos praticamente taparem seu rosto. Ela estava evitando ser reconhecida, claro, eu deveria ter desviado o olhar também.

— Ok, podem ir, eu não vou avisar ao senhor Whitlock que estão subindo — o porteiro cedeu. — O apartamento dele fica no terceiro andar.

— Você é o melhor, querido. — Tanya sorriu para ele, antes de seguir para o elevador, indicando que Bella e eu deveríamos nos juntar a ela. — Jasper poderia não deixar com que a gente subisse, não poderíamos arriscar — ela explicou, apertando o botão para chamar o elevador.

— Não estrague tudo, Cullen — Bella ordenou, antes de me empurrar para dentro do elevador que tinha acabado de parar diante da gente.

— Oh, desculpe, estou no meio de vocês — falei quando fiquei entre elas no elevador. — Estou separando o casal.

— Você é tão idiota, Ed. — Tanya riu.

— Mas, então, vocês já transaram juntas com um cara, né?

— O que você acha? — Bella arqueou uma sobrancelha para mim.

— Ate dois, se está tão interessado assim — Tanya falou, antes de deixar o elevador que rapidamente chegou ao terceiro andar.

— Puta que pariu, um quarteto? — perguntei impressionado para Isabella, que simplesmente assentiu, me empurrando para fora do elevador.

— Você é facilmente impressionado, é como se fosse um adolescente — ela falou. — Lembre-se de ser bonzinho com Jasper, se ele quiser um beijo ou dois para voltar a trabalhar com você apenas vá lá e beije o homem.

— Ele é bonito — Tanya disse, tocando a campainha do apartamento. — Você está perdendo um belo de um partido, Ed.

— Pode ficar com ele se quiser. — Rolei os olhos. — Ele é bi, provavelmente vai ser Tanyassexual quando te ver, qualquer um é.

— Sou casada — Tanya afirmou.

— Santiago sortudo — Bella falou. — Quer dizer, Tanya também é bem sortuda, vocês são a porra de um casal sortudo.

— Eu sei. — Tanya suspirou, soando apaixonada.

Paixão, aquela merda que só causava problemas. Pensei em Lauren, por ai fodendo com Jacob, enquanto eu tinha de rastejar atrás de Jasper para fazer com que ele voltasse a trabalhar comigo.

A porta do apartamento se abriu, revelando um cara usando apenas uma calça jeans. Seus cabelos castanhos estavam molhados, ele usava um piercing no nariz e tinha algumas tatuagens nos braços.

— Olá, viemos ver Jasper, pode chamar ele para a gente? — Tanya novamente tomou conta da situação.

Enquanto Bella cuidava de tudo nos bastidores, ficou claro que Tanya era quem tomava a exposição para si.

— Ele não estava esperando por ninguém, nem interfonaram — o cara falou, olhando para mim. — Você é mesmo Ed Cullen?

— Em carne e osso, agora vá chamar Jasper — Bella ordenou, com certeza ela era menos simpática do que Tanya.

— Mas...

— Por favor, apenas o chame de uma vez. — Tanya entrou no apartamento, abrindo espaço para a gente, fazendo com que o cara recuasse.

— Tá, tá bom — ele concordou, desaparecendo pelo corredor.

O apartamento não estava muito diferente de quando estive lá da ultima vez, mais de três anos antes. Uma cor diferente na parede, uma TV maior, nada demais, só que o que me atraiu imediatamente foi o mini bar que desde sempre Jasper tinha na sala.

A bebida estava tão perto, alguns passos de distância. Tinha uísque, vodca, vinho, cervejas na parte refrigerada. Eu queria muito beber algo dali, só um pouquinho que fosse.

— Não, você não precisa disso, Edward — Bella falou, segurando meu pulso, seu aperto era firme. Eu a olhei parada junto de mim, seus olhos castanhos estavam sérios. — Você consegue, ok? — Neguei, eu não conseguia, a tentação estava muito perto. — Consegue sim, acredite em mim. — Sorriu com triunfo. — Sou sua Capitã, minha ordem é que fique longe daquele bar.

Engoli em seco, concordando com um aceno de cabeça. Bella me fez sentar no sofá atrás da gente, onde Tanya já estava instalada. A Denali me lançou um sorriso doce, afagando meu ombro.

— Você consegue, Cullen, apenas seja forte — Tanya disse positivamente.

Ser forte era difícil, muito.

Eu coloquei meu rosto entre as mãos, evitando olhar para o bar no canto da sala e também por estar morrendo de dor de cabeça. Além da bebida, tinha todo o resto e para completar eu estava prestes a rever Jasper.

— O que estão fazendo aqui? — Eu ouvi a voz dele, o claro sotaque inglês. Quando me estabeleci em Los Angeles e por tabela Jasper foi junto, com todo o resto da minha antiga equipe, nós brincávamos que éramos os próximos Beatles fazendo um estrondoso sucesso na América. Como a banda dos anos sessenta, também acabamos nossa parceria.

Libertei meu rosto, Jasper estava na entrada da sala de quem vinha do corredor, atrás de si o cara de antes que tinha vestido uma camisa e calçado tênis. Meu ex melhor amigo usava apenas uma tolha ao redor de si, ele tinha quase tantas tatuagens quanto eu, espalhadas por seu tronco, braços e pernas. O cabelo loiro escuro estava cumprido como sempre, os olhos castanhos, que Jasper fazia questão de ressaltar que eram cor de mel, eram furiosos.

— Oi, sou Isabella Swan — Bella foi quem tomou as rédeas da situação daquela vez, esticando uma mão para Jasper, que ele não se importou em apertar. Raiva cruzou a face dela, fazendo com que a mulher parasse de sorrir imediatamente.

— Melhor irem, não tenho nada para conversar com vocês, principalmente com você. — Ele apontou para mim.

— Excelente, vamos cair fora daqui. — Tentei levantar, mas Tanya me prendeu no lugar.

— Não vamos ir embora até você parar para nos ouvir, Jasper — Bella declarou.

— Eu vou chamar a policia — ele ameaçou.

— Não vai não. — Ela sorriu para ele. — Por que não dispensa seu amiguinho, se veste e depois se une a gente para uma conversa agradável?

— Não vai desistir, não é? — ele a indagou.

— Não mesmo.

Jasper xingou, voltando-se para o cara.

— Melhor você ir agora, Peter.

— Certo.

Ele e Jasper caminharam juntos até a porta de saída do apartamento, o inglês disse que eles se falariam outro dia e beijou o outro. Desviei o olhar para meus tênis, sem querer ver aquilo.

— Não mexam em nada! — Jasper ordenou, depois de se livrar do tal Peter e desaparecer para o corredor.

— Você definitivamente devia ter ficado com ele, Ed — Bella falou, sentando do meu outro lado.

— Ele é bem quente! — Tanya fez eco. — Não seria ruim se aquela toalha caísse.

— Você é casada — Bella lembrou a amiga.

— E você tem um namorado, mas com certeza também pensou naquela toalha caindo.

Isabella apenas riu travessamente, mordendo o lábio inferior.

— Da pra pararem? Isso é desconfortável.

— O quê? Você imaginar a gente transando tudo bem, mas nós não podemos pensar como Jasper é por trás daquela toalha? Lide com isso, pirralho, direitos iguais.

— É desconfortável.

— Não estou nem ai pro que você acha. — Bella jogou seus cabelos por cima do ombro, acertando meu rosto no processo. — Será que ele é grande? — perguntou para Tanya.

— Ele com certeza deve ser grande. — A Denali assobiou. — Como você sabe quem também é — falou convencidamente, Bella revirou os olhos. — Eu disse que estava certa.

— De quem estão falando? — questionei.

— Não é da sua conta, Edward! — Bella exclamou, Tanya riu.

Jasper voltou à sala, vestido, o que pareceu decepcionar as duas. Ele sentou numa poltrona, encarando a gente com uma cara nada boa. Nós estávamos ali a toa, ele não ia voltar a trabalhar comigo, aquilo era fato.

— Falem de uma vez — Jasper exigiu.

— Jasper, eu sou a nova empresária de Ed — Bella começou. — E nos estamos aqui para convidar você a voltar a banda de apoio dele.

— Não, isso é tudo — Jasper se colocou de pé, apontando para a porta. — Foi bom receber vocês, agora caiam fora — debochou.

— Jasper, vamos conversar melhor — Tanya pediu. — Sou Tanya Denali, trabalho com Isabella e Ed. Nós todos achamos que seria benéfico para ambas as partes, ter você de volta a banda de Ed. Também ajudando com novas composições, vocês formavam uma boa dupla...

— E acabou — Jasper a interrompeu. — Eu não volto a trabalhar com Edward, nem que fosse o último emprego do mundo.

— Quer saber, Tanya, por que não esperamos lá fora? — Bella se levantou. — Acho que os meninos precisam por o papo em dia sozinhos, nós só atrapalharíamos o reencontro.

— Não, não! — exclamei quando Tanya se levantou também, Bella se voltou para mim, inclinando-se para sussurrar no meu ouvido.

— Você precisa dele, minta se for preciso, mas o traga de volta.

Ela se afastou, Tanya e ela se despediram de Jasper, deixando o apartamento juntas. O Whitlock foi ate o bar, enquanto xingava sozinho.

— Você quer beber algo? — perguntou para mim a contragosto.

Abri a boca para responder que sim, mas lembrei da ordem de Bella quanto a bebidas.

— Não, não posso, reabilitação — murmurei, Jasper me olhou.

— É, eu tinha me esquecido disso. — Ele não se importou em me deixar sedento, se serviu com uma cerveja assim mesmo, voltando a sentar na poltrona de antes.

Senti o cheiro, o que me fez encolher no sofá. Eu precisava, eu queria, mas não podia, não devia.

— Vá embora logo, Edward. Você claramente está aqui obrigado por aquelas duas, não me quer na sua banda, foi o que fez me demitirem três anos atrás.

— Você estava passando por cima de mim, querendo crescer nos shows, meus shows!

Jasper revirou os olhos, tomando um longo gole de sua bebida.

— Se quisesse isso teria eu mesmo gravado minhas músicas, Edward. Não estava tentando diminui-lo coisa alguma, não seja idiota.

— Eu sou o idiota? — gritei. — Você arruinou nossa amizade naquela noite, você fodeu com tudo tentando me beijar!

Aconteceu depois de uma festa no meu apartamento em Londres, todos já tinham ido embora, mas Jasper continuou por lá comigo. Eu estava no piano, mesmo bêbado compondo algo novo ali, quando o até então meu melhor amigo, se sentou ao meu lado.

Trabalhamos em cima da música por um tempo, até que Jasper falou:

— Ed, eu preciso te contar algo.

— A música está ruim?

— Não, não é sobre isso. — Olhei para Jasper, confuso e bêbado. Ele respirou fundo, falando de uma vez. — Estou apaixonado por você. — Eu fiquei paralisado com aquilo, quando voltei a mim Jasper tinha uma mão na parte de trás da minha cabeça, uma na minha coxa e me puxava para ele, o empurrei rapidamente, pulando para fora do banco do piano.

— Você está maluco? — gritei. — Que brincadeira sem graça é essa, Jazz?

Ele suspirou, olhando para o piano.

— Não é uma brincadeira, Ed, eu bem que queria que fosse. — Voltou seu olhar para mim. — Estou mesmo apaixonado por você, tentei ignorar isso, mas não esta dando mais.

— Isso é ridículo! — continuei gritando. — Vai embora, Jasper, agora!

— Ed...

— Vai embora!

Jasper ficou encarando a garrafa de cerveja em suas mãos.

— Eu não quero conversar sobre aquilo, Edward.

— Volte para a banda, certo? Me dê algumas músicas para gravar, toque comigo nos shows e pronto — falei, eu também precisava admitir que Jasper era um bom cara nos shows, pelo menos antes de estragar tudo tentando roubar espaço para si. — Não precisamos ser amigos, eu definitivamente não quero ser seu amigo mais, nossa amizade foi arruinada para sempre depois do que você fez no meu apartamento aquela noite.

— Você é um grande babaca! — Jasper gritou, levantando. — Só cai fora do meu apartamento, da minha vida, tá bem? Não vou ser uma muleta pra você, não estou nem ai pra sua banda, ou que você precisa das minhas composições, muito menos quero voltar a ser seu amigo, Cullen.

Não esperei para ouvir mais nada, me levantei e segui para fora do apartamento de Jasper, batendo a porta com força ao sair. Eu desci pelas escadas, impaciente demais para esperar pelo elevador, logo estava entrando no carro de Tanya.

— Pela sua cara nada foi resolvido — a Denali falou.

— Será que eu tenho de resolver tudo? — Bella se irritou, ela fez menção de sair do carro, mas segurei em seu braço, a impedindo.

— Não, não se mete nisso — implorei, ela me encarou. — Deixa o Jasper pra lá, eu posso me virar sem ele.

— Não duvido disso, mas ter Jasper na equipe seria muito bom, Edward — Bella falou.

— Eu só quero ir pra casa, por favor. Estou com dor de cabeça, estou exausto, me deixa sair disso, Bella.

Ela engoliu em seco, assentindo.

— Nós voltaremos a discutir sobre Jasper depois da sua coletiva de imprensa na sexta — decretou por fim.

— Como você quiser. — Soltei o braço dela, grudando minhas costas no banco de trás do carro, fechando os olhos e controlando minha respiração.

Tentei esquecer Jasper, o álcool e as drogas, mas tudo parecia estar impregnado na minha mente.

xoxoxo

Rose me acordou cedo no dia seguinte, já que nós dois iriamos malhar. Minha irmã não era a maior fã de exercício físico, então sabia que ela só estava fazendo aquilo para me motivar a não abandonar os necessários treinos.

Nós tomamos um café reforçado, depois seguimos para a academia no condomínio, onde meu personal de uns dois anos já esperava pela gente. Chris era um cara mais baixo do que eu, mas que conseguia ser forte o suficiente e rápido para me ganhar em corridas, ou lutas de boxe quando ele me deixava treinar a luta, o que era raro, já que eu não podia machucar meu rosto.

— Você finalmente encontrou o caminho para a academia! — Chris exclamou quando entramos ali, o local estava vazio, Rose tinha cuidado daquilo para mim. Ou seja, ela molhou a mão da administração do condomínio para eu ter a academia livre pela manhã. — Está tão magro, mas é tão alto que parece um adolescente em surto de crescimento.

Bufei, Chris iria se dar muito bem com Bella, os dois gostavam de ficar falando do meu peso.

— Você continua linda, quando vai me dar uma chance? — Chris desviou seus olhos claros para minha irmã, Rose apenas sorriu timidamente para ele.

— Não está sendo pago para passar cantadas na minha irmã — resmunguei.

— Certo, eu vou esperar o fim do expediente para isso.

— Va se foder, Chris! — Ele riu, continuando a levantar os pesos pequenos que estavam em suas mãos.

— Sei que sentiu minha falta, Cullen, pronto para um treino pesado?

— Ele não deveria ir com calma? Passou muito tempo parado — Rose comentou preocupada.

— Relaxa, ele aguenta.

— Ela está certa — choraminguei, só de imaginar o treino pesado de Chris.

— Bom. — Chris se aproximou de mim, colocando os pesos em minhas mãos, até ali era fácil, mas sabia que as coisas só iam se tornar mais complicadas naquele treino. — Eu recebi um e-mail da sua nova empresária ontem. — O quê? — Ela me mandou usar o treino difícil com você, também disse que eu devia seguir as ordens dela, ou ia ser demitido. Não quero ser demitido, sendo assim, você vai ter um treino bem pesado, Cullen.

Bella era mesmo a porra de uma Capitã.

xoxoxo

Eu estava pela última hora deitado no chão de uma das salas da minha casa, tentando voltar a me sentir melhor depois do longo e cansativo treino que Chris fez com que eu passasse. Sabia que em alguns dias me corpo voltaria a se acostumar como ritmo, que aquilo até me ajudaria quando voltasse aos shows, mas naquele instante eu sentia que a cada respiração poderia morrer.

Então, assim que Rose — que teve um treino leve — e eu voltamos para casa, simplesmente me larguei no chão e esperei a morte. Ou pelo menos as dores diminuírem, todos meus músculos estavam se manifestando.

— Não posso brincar agora, Shrek, eu estou quase morrendo — falei para meu cachorro, que até então estava deitado com a cabeça sobre minha barriga, que começou a latir.

— Dá pra perceber. — Me assustei ao ouvir a voz de Bella, rapidamente abrindo os olhos, ela estava parada junto à porta da sala, com uma pasta em mãos. — Pelo menos você começou a malhar, vai para o inferno menos magrelo quando morrer por fim.

— Eu não vou para o inferno.

Ela riu, aproximando-se, parando perto de mim, encarando-me de cima.

— Todos nessa cidade vão para o inferno, Ed.

É, talvez ela estivesse certa mesmo.

— Antes de ir queimar junto ao Diabo, será que da para assinar o contrato da gravadora?

Shrek continuava latindo para Bella, mas não para atacá-la, claramente queria que ela brincasse com ele.

— Tá, assim que eu recuperar o controle do meu corpo.

Bella resmungou, cutucando minhas costelas com a ponta do seu salto.

— Vamos logo, eu tenho uma porção de coisas para fazer hoje.

— Nem o Diabo vai te querer no inferno, você é muito irritante! — esbravejei, segurando em seu tornozelo, vendo ali uma curiosa tatuagem, mas não tinha tempo para aquilo. Usei a Capitã de apoio, conseguindo sentar.

— Excelente, assine tudo. — Ela me passou a pasta, que continha uma pilha de papeis e uma caneta. — Os advogados da Swan Productions revisaram tudo, também revisei, mas se ainda quiser que seu advogado revise...

— Não, eu confio em você — falei, começando a assinar tudo. — Shrek, Bella não tem coração, ela não vai brincar com você — eu disse para meu cachorro, que continuava pedindo por atenção para a Capitã. — Ela nem deve gostar de animais.

— Eu gosto — Bella afirmou. — Também já falei que tenho uma gata, mas aquela lá é uma traíra que nem me deixa chegar muito perto.

— Porque você é cruel, eu tenho pena da gata que tem de morar com você.

Bella riu, então a senti ajoelhar ao meu lado, de frente para Shrek, que latiu mais ainda, bem empolgado com a mulher tão perto dele. O cachorro não pode ser detido, ele começou a tentar lamber o rosto de Bella, mas ela não permitiu, pelo menos afagou a cabeça dele.

— Até que você é bonitinho, animal selvagem — falou para Shrek, sua voz mais branda do que normalmente era.

— Qual o nome da sua gata? — perguntei, terminando de assinar a papelada.

— Norma Jeane — respondeu sorrindo.

— De onde tirou esse nome?

Bella me olhou ultrajada, parando de dar atenção para Shrek.

— Você não sabe quem foi Norma Jeane? — indagou.

— Eu deveria?

— Claro que deveria, Edward!

— Sei lá, quem foi?

— Norma Jeane era o real nome de Marilyn Monroe, Pirralho.

— Ah, ok. Não tenho culpa se você é tão velha que foi amiga de infância da Marilyn. — Bella fez menção de bater em meu ombro, mas detive sua mão.

— Não, por favor, tudo ainda dói.

— Fraco. — Ela soltou sua mão da minha. — Como você podia não saber que Norma Jeane era Marilyn?

— Já disse, você que é velha demais.

— Sou pouco mais velha que você, Betty. — Arrancou a pasta da minha mão, voltando a ficar em pé, arrumando a saia que usava. — Eu te enviei um e-mail, um roteiro de possíveis perguntas que podem te fazer amanhã na coletiva, como respostas preparadas por Tanya. Estude tudo, tente decorar o máximo possível, mas não fique muito desesperado, toda nossa equipe estará lá amanhã para salvar sua bunda da imprensa.

— Eles vão me comer vivo.

— Eles vão, mas vai ser preciso. — Bella afagou mais uma vez a cabeça de Shrek. — Será no Four Seasons, esteja lá às três da tarde, a coletiva começará às quatro e meia, só que será bom algum tempo para você ir se preparando melhor.

— Tudo bem, o que mais? Roupas?

— Vá casual, a equipe te vestirá para a coletiva lá. — Bella checou a papelada da gravadora. — Sua irmã e sua mãe devem ir também, elas não darão entrevistas, mas eu quero que a imprensa saiba que você esta tendo apoio familiar. — Ela ficou bem séria ao dizer aquilo, eu sabia que a mãe de Bella tinha cortado laços com a filha depois do Escândalo Swan, mas não tocaria naquele assunto nunca mais, ela já tinha me batido o suficiente com as rosas no dia anterior. — Falando nisso, por onde anda seu pai?

Foi minha vez de ficar sério.

— El-Ele n-não — gaguejei.

— Eu entendo. — Bella me cortou. — Mas se você puder consertar isso, conserte. Já perdeu muito, não precisamos da imprensa falando do seu pai também. — Apenas acenei positivamente.

Como se fosse fácil, Carlisle não ligava para falar comigo e eu não tinha coragem para ligar para ele. Até Esme que tinha ficado chateada com as prostitutas e não aparecia na minha casa desde aquele dia, ligava toda noite e já tinha dito para mim que estaria ao meu lado na coletiva, antes mesmo de Bella exigir aquilo.

— Eu preciso ir, tenho sua coletiva amanhã e um show de Riley no sábado para resolver, qualquer coisa me ligue. — Ela acariciou mais uma vez Shrek, parecendo totalmente entregue ao meu cachorro. — Devia ter uma cadela, eles parecem mais legais que um gato.

— Já disse, você que é irritante ao ponto de nem os animais te aturarem.

— Há, muito engraçado, Pirralho.

— Pirralho? Você então admite que é bem mais velha do que eu?

— Adeus, Edward! — ela gritou, indo para a saída da sala.

— Adeus, anciã!

xoxoxo

Minha mãe foi dormir na minha casa aquele dia, o que salvou Rose e eu de mais uma noite tendo que pedir por comida, nos dando a chance de comer a boa comida caseira de Esme. Nós três ficamos reunidos na cozinha, enquanto mamãe cozinhava, Rose comentava com ela sobre nossos treinos aquela manhã, Shrek deitado por ali e eu tentava ler o roteiro de perguntas e respostas feito por Tanya.

A mulher era boa naquilo, mas eu já estava entediado com toda aquela merda. Ainda assim, a noite estava agradável, por alguns segundos era como estar de volta a Bath, quando todos nós nos reuníamos na cozinha para o jantar, mas sabia que meu pai não ia chegar do trabalho a qualquer momento.

Eu ainda era a ovelha negra da família para ele.

— Tudo bem? — mamãe me perguntou, quando nossos olhares se cruzaram.

Não apenas a ovelha negra da família, como também o pivô da separação dos meus próprios pais. Eles não tinham se divorciado, mas com mamãe em Los Angeles pela maior parte do tempo nos últimos anos me acompanhando e meu pai em Bath, já que ele não tinha suportado por muito tempo ficar nos Estados Unidos e voltou para a Inglaterra com Rose anos atrás, os dois acabaram se distanciando cada vez mais.

E a cada deslize meu, era uma briga a mais, não só entre papai e eu, mas entre ele e mamãe também. Até que tudo entre eles chegou a um ponto insustentável e acabaram se separando, legalmente ainda estavam casados, mas por mais que mamãe não gostasse de falar sobre aquilo, eu sabia que as chances do casamento voltar eram quase nulas aquela altura.

Eu tinha arruinado minha vida profissional, minha vida pessoal e por tabela o casamento dos meus pais. Era o pior filho do mundo, Carlisle tinha motivos para estar tão puto comigo.

— Tudo ótimo — menti para Esme, deixando o celular sobre a mesa, já cansado de ler o roteiro. — Apenas faminto. — Forcei um sorriso para ela, que sorriu de volta para mim, esticando uma mão para bagunçar meus cabelos sempre bagunçados.

— Você sempre está, filho.

Um dia ela me perdoaria pela ruína do casamento dela?

— Não se preocupe, mais alguns minutos e vou servir o jantar. — Ela foi até o fogão, ficando de costas para mim.

— O que você tem? — Rose, sentada ao meu lado, perguntou aos sussurros.

Obviamente ela sabia que minha cabeça estava mil, nós nos conhecíamos desde sempre afinal.

— Apenas pensando, Rose. — Beijei sua bochecha, ela me lançou um sorriso triste, seus olhos sendo invadidos por lágrimas, minha irmã era tão doce, ela não merecia ter de me aturar. — Não, não chora.

— É sobre eles, né? — questionou, ainda aos sussurros, mamãe que cantava junto com a música tocando no som da cozinha não parecia nos ouvir.

— É — confirmei, sabendo muito bem a quem ela se referia com eles. — Você acha que não tem mais volta? — Os olhos dela apenas ficaram ainda mais cheios de lágrimas, era uma confirmação para meu temor sobre o fim definitivo do casamento dos nossos pais.

Eu deixei o banco que estava, vendo confusão no olhar de Rose.

— Vou sair por um tempo antes do jantar — avisei, em alto e bom som para que Esme também ouvisse.

— O quê? Mas o jantar já está quase pronto, Edward — falou chateada, virando-se para me olhar. — E não devia sair sozinho, é perigoso.

— Não vou demorar — prometi, mesmo no fundo sabendo que as chances daquilo acontecer eram imensas. — Qualquer coisa podem comer antes de eu voltar, só quero dirigir um pouco.

— Eu...

— Desculpe, Rose — a interrompi. — Mas quero mesmo fazer isso só.

— Ok, só não se meta em confusões — pediu apreensiva.

— Não vou, amo vocês! — exclamei, antes de tomar a porta na cozinha que me levava à garagem.

Escolhi um carro e cai fora, eu realmente precisava de um tempo só, desde que tinha deixado a clinica estava sempre com alguém por perto me vigiando. Não sai de casa aquela noite com intenção nenhuma de aprontar nada, principalmente com a coletiva sendo no dia seguinte, Bella arrancaria meu fígado se eu fizesse alguma merda, então era mesmo apenas um momento solitário que queria muito experimentar.

O silêncio, claro, não durou muito. Eu logo liguei o som, mas ignorei o pen drive com música que tinha em todos meus carros, optando por deixar em uma estação qualquer de rádio.

Algumas músicas depois, minha mente já tinha voado até Jasper. No dia anterior, após nossa conversa em seu apartamento, eu fiquei tão estressado que tudo que consegui fazer foi me trancar no quarto e dormir a maior parte do tempo, evitando pensar muito naquilo.

Mas, ali, sozinho, enquanto dirigia pela movimentada noite de quinta-feira de Los Angeles, era impossível não pensar. Eu ainda estava puto com ele, pelos problemas que enfrentamos por conta das divergências profissionais, mas principalmente pelo quase beijo.

Jasper tinha sido meu melhor amigo, aquela merda toda tinha me deixado tão mal que eu fiquei puto e irritado com ele, desconfiado, era estranho demais estar perto dele depois daquele dia. Então, eu o afastei e fiz com que ele fosse demitido.

O tirei por completo da minha vida, perdi meu melhor amigo.

Algumas vezes durante aqueles últimos três anos — desde que Jasper foi demitido — eu acabava fazendo, ou vendo algo, que me fazia pensar nele. Quando esquecia daquilo tudo, eu pensava em ligar para Jasper para conversar, então lembrava que ele não era mais meu amigo, nem mais meu guitarrista, não tínhamos mais nenhuma ligação.

Eu me vi engolindo boa dose do meu orgulho naquela noite, pegando o caminho que me levaria até Jasper. Ele provavelmente não ia querer me ver, ou até aceitaria me receber, mas eu estragaria tudo, mas precisava tentar mais uma vez.

Estacionei meu carro diante seu prédio, puxei o capuz do moletom sobre a cabeça, sem querer ser reconhecido por um grupo de garotas que deixavam o local e fui até lá. O porteiro era outro, não mais aquele que Tanya facilmente conseguiu fazer burlar as regras.

— Oi, vim ver Jasper Whitlock do 322, será que pode avisar ele que Edward Cullen está aqui? — falei com o porteiro, era um senhor, se me reconheceu não fez uma algazarra sobre.

— Sinto muito, o senhor Whitlock saiu.

Saiu, isso era uma desculpa para eu não ser recebido, não? Jasper com certeza já tinha avisado a portaria que não queria me ver, de jeito nenhum.

— Tá ok, obrigado por nada — reclamei, dando meia volta para sair do prédio.

Foda-se, Jasper, eu não procuraria mais por ele. Devia ter um guitarrista muito melhor por ai que toparia participar da minha banda, quanto ao posto de melhor amigo, Shrek podia ocupar ele com maestria.

De volta ao meu carro, eu dirigi para minha casa. Ia jantar e dormir, ainda precisava malhar no dia seguinte, antes de enfrentar a coletiva de imprensa, eu precisava descansar um pouco, ou tudo seria mais insuportável ainda.

Fui recebido por Shrek quando entrei em casa pela porta da garagem, saindo diretamente na cozinha. Minha mãe e Rose estavam sentadas a mesa, o jantar intocado, mas tudo aquilo ficou em segundo plano quando vi a pessoa junto delas.

Jasper.

— Você chegou! — Mamãe respirou aliviada. — Devia ter levado o celular, Ed.

— Nós te esperamos para jantar — Rose disse, olhando de Jasper para mim.

— O que está fazendo aqui? — perguntei para o guitarrista.

— Podemos conversar?

Concordei com um rápido aceno de cabeça, indiquei que ele deveria me seguir e assim foi feito. Eu o levei para o porão, que eu tinha preparado como uma sala de música quando comprei aquela mansão.

Não ia lá desde que tinha sido preso na maldita clinica de reabilitação, o que me fez perceber que sentia falta de estar ali. Da coleção de disco de vinis, dos instrumentos e simplesmente da sensação de paz que aquele lugar transmitia, por ser completamente reservado.

— Eu fui até o seu apartamento, acabei de voltar de lá — confessei para Jasper, que estava olhando para minhas guitarras e violões.

— Sério? — perguntou surpreso.

— Sério.

— Desencontros. — Jasper estalou a língua, pegando um violão. — Você compôs muito na reabilitação? Alguns caras tem surto de inspiração nesses lugares.

— Não, eu não fiz nada de útil naquele lugar. — Sentei em um dos sofás do porão. — Eu sequer acho que a desintoxicação realmente funcionou.

— Isso é um saco, tentei passar uma semana sem álcool em 2015 e foi foda.

— Imagine passar três meses sem tudo que queria — murmurei.

— Você...

— Álcool, cigarros, maconha e cocaína. Eu não cheguei perto de crack, ou heroína — falei envergonhado, mas tentando me sentir menos sujo.

Jasper deixou o violão de lado, sentando no sofá também, mas distante de mim.

— Como acabou nisso? Com a cocaína, quero dizer. Nós fumávamos, maconha inclusive e bebemos aos montes, mas você sempre recusou cocaína.

— Sei lá, Jasper, eu só acabei aceitando um dia e foi um caminho sem volta. — Olhei para ele, que olhava para mim também. — O que veio fazer aqui?

— O que foi fazer no meu apartamento essa noite?

— Pedir que você voltasse para a banda — murmurei, ocultando a parte do melhor amigo.

— Sua empresária me ligou essa manhã, a estrela do vídeo pornô.

— Não, não chama ela assim — exigi, Jasper franziu o cenho. — Sério, eu cometi o erro de ver um minuto daquele vídeo e Isabella ficou muito descontrolada, você não quer ver ela assim, é um saco e ela fica agressiva.

— Mais descontrolada do que ela estava no vídeo? — Jasper riu. — Não assistiu tudo, né? A mulher estava doidona... — Ele se calou. — Foi mal, esqueci que você também tem seus problemas com cocaína agora.

— Por que ela te ligou? — voltei ao que importava.

— Por que você acha? Ela queria que eu fosse até o escritório dela na segunda, falou que iriamos conversar sobre grana para eu integrar outra vez sua banda.

— Ela não vai gostar de saber que veio até aqui recusar a oferta novamente, sem antes ouvir as propostas dela.

— Quem disse que eu vou recusar? — Jasper sorriu. — Mas, eu não estou aceitando ainda, precisava falar com você antes.

— O que falei no seu apartamento continua de pé, você não precisa falar comigo mais do que o estritamente necessário sobre o trabalho.

— Isso não vai funcionar — Jasper negou. — Sinto falta do meu melhor amigo.

Aquilo me pegou de surpresa.

— Sente? Eu te demiti, eu te botei pra fora, Jasper — lembrei.

— Eu mereci, tive minha parcela de culpa em toda essa confusão.

Eu desviei os olhos para meus pés, me lembrando daquela noite em Londres.

— Você não se sente mais daquele jeito, sente?

— Não — Jasper respondeu. — Eu não quis te assustar aquele dia, Edward, mas estava bêbado e cansado de manter aquilo em segredo e acebei perdendo o juízo.

Balancei a cabeça, erguendo o olhar para ele, que me olhava com culpa.

— Você era novo, não tinha nem dezenove ainda, eu fui um idiota jogando aquilo sobre você de forma tão abrupta.

— Acho que o lance da idade não interfere muito, se fosse hoje e você falasse que está apaixonado por mim eu também surtaria.

Jasper riu.

— Eu não estava feliz em estar apaixonado por você, se serve de consolo. Você era meu melhor amigo, como um irmão para mim, então eu comecei a sentir o que definitivamente não devia sentir.

— Não me dê detalhes — implorei.

— Não está nos meus planos — assegurou. — Vamos esquecer aquela merda, Edward, eu prometo não me apaixonar por você de novo.

— Não vai ser um sacrifício muito difícil? — brinquei, Jasper gargalhou.

— Eu vou lutar bravamente contra meus sentimentos — pelo seu tom de voz estava brincando também, mas no fundo ainda tinha receio dele voltar a sentir algo e foder tudo de novo. — É sério, eu não volto pra banda se for só como a porra de um guitarrista qualquer. Nós dois estragamos tudo no passado, mas espero que possamos limpar toda essa bagunça e reconstruir as coisas.

— Os Beatles não tiveram um retorno.

— Não somos os Beatles, Ed.

Eu sorri.

— Eu bem que poderia ser, sou incrível.

Jasper revirou os olhos.

— Seu ego continua o mesmo.

— É parte de eu ser tão incrível. — Estiquei minha mão para Jasper. — Posso contar com você? — Ele devolveu o aperto de mão. — Bem vindo ao time Swan. — Jasper me encarou sem entender. — Não faça perguntas, apenas aceite, é como a Capitã gosta das coisas e você agora vai ter de aturar aquela mulher também.

Jasper desfez o aperto.

— Ela já me dá nos nervos, como você tem aguentado?

— É uma boa pergunta, não sei como tenho a suportado.

— Certo, mas ela é gostosa, tem namorado?

— Tem — confirmei, Jasper suspirou chateado.

— Uma pena, espero que eles terminem logo para eu ter minha chance de ver que ela faz jus ao que vi no vídeo.

— Jasper, é sério, não fale sobre esse vídeo. — Ele arqueou uma sobrancelha.

— Nem sobre as costas dela?

— Ela é capaz de ter colocado escutas da minha casa, eu não arriscaria tirá-la do sério.

— Ok, então nada de falar mal da filha do Caipira Swan. Alias como você foi acabar se associando logo a filha do Charlie?

— Longa história, posso contar no jantar, pode ficar por mais uma hora?

— Esme ainda cozinha muito bem?

— Como sempre.

— É o suficiente para ficar. — Ele se levantou. — Vamos lá comer e fofocar como duas velhas que acabaram de se reencontrar.

— Jazz?

— Sim? — Seus olhos se voltaram para mim.

— Obrigado por ter voltado, a banda, a ser meu amigo, eu também senti sua falta.

Ele sorriu.

— Não seja sentimental agora, não combina com você, Cullen. Mas, se quiser usar todos esses sentimentos eu sugiro que comece a compor, pelo o que Isabella falou logo mais você estará em estúdio de novo.

— Você tem algumas musicas para mim, não tem? — perguntei esperançoso.

— Algumas, acho que você vai gostar.

Nós deixamos o porão juntos, conversando sobre as musicas. Mas, logo Jasper foi requisitado por minha mãe e irmã, alegando que ele precisava comer, já que antes tinha recusado. Enquanto elas o empanturravam de comida, eu peguei meu celular, mandando uma mensagem para Isabella.

Ed Cullen: Jasper está dentro.

Eu recebi uma resposta segundos depois.

Capitã: Bem que você o queria dentro!

Obviamente percebi a dualidade de suas palavras.

Ed Cullen: Vá se foder!

Capitã: Vá você, Betty...Antes que eu me esqueça, você e Jasper formam um belo par, se quiser eu preparo o casamento em Vegas.

Ed Cullen: Morra!

Capitã: Pode deixar, te encontro no inferno.

Eu sentei para jantar, mas recebi outra mensagem dela.

Capitã: Faça a barba para amanhã!

Ed Cullen: Algo mais, Capitã?

Capitã: Tente relaxar.

Eu poderia fazer a barba, mas relaxar seria impossível.

xoxoxo

Nós chegamos com uns quinze minutos de atraso, do horário estipulado por Bella, no hotel. Rose, minha mãe e eu tínhamos ido no carro junto aos meus seguranças, mas demoramos muito pois eu tinha passado boa parte da noite insone, o que me atrasou para malhar aquela manhã e por tabela a sair no horário para a coletiva de imprensa.

A frente do hotel onde aconteceria a coletiva estava lotada, fãs, imprensa, todos já estavam ali esperando por mim. Nós entramos com o carro direto na garagem, o que me deu um pouco de calma, pois assim eu não precisava enfrentar todo aquele tumulto.

Seguranças do hotel já esperavam por mim lá, eles me guiaram pelos corredores de serviço do lugar, o que também me fez escapar de hospedes e outros funcionários. Eu acabei em uma sala grande, mas que estava cheia, reconheci alguns rostos da Swan Productions.

— Por que você demorou tanto? — Bella surgiu na minha frente um milésimo depois de eu ter entrado na sala.

— Só...

— Eu disse três horas, não três e quinze, você não sabe nem entender isso? — Ela bufou. — Ao menos leu o roteiro de perguntas e respostas que te enviei.

— Mais ou menos. — Os olhos dela me fuzilaram, mas fui salvo por seu celular tocando, ela atendeu, afastando-se, já dando broncas na pessoa que ligava.

— Desculpe o ataque dela. — Tanya apareceu, substituindo a amiga. — Esta tudo uma loucura com sua coletiva hoje e o primeiro show de Riley amanhã. — Ela viu minha mãe e Rose ali. — Tanya Denali. — Cumprimentou as duas com simpatia e apertos de mão. — Fiquem a vontade, preciso roubar Ed um pouquinho.

— O que vai fazer comigo? — perguntei para ela, sem conseguir esconder a malicia em minha voz, enquanto adentrávamos mais ainda na sala, que eu percebi ser a anexa ao auditório do hotel.

— Nada do que está pensando.

— Não sabe o que estou pensando.

— Eu tenho uma boa ideia.

Tanya chamou por uma das funcionárias da Swan Productions e pegou das mãos dela as roupas que eu deveria usar, depois disso eu tive um pouco de privacidade e fui me trocar no banheiro da sala. Demorei bastante naquilo, querendo evitar ao máximo a confusão que estava do lado de fora que antecedia a coletiva de imprensa, mas claro que Bella apareceria para honrar seu titulo de irritante.

— Ah não ser que você tenha caído dentro do vaso, é melhor sair dai agora mesmo! — ela exclamou, batendo na porta do banheiro.

Escancarei a porta, dando de cara com ela.

— Você tem problemas.

— E você ainda precisa passar pela maquiagem. — Ela segurou na minha mão, arrastando-me para onde queria como se eu fosse uma criança.

A equipe tinha montado uma base de maquiagem ali, então eu fui jogado em uma cadeira e a maquiadora que tinha me preparado para a sessão de fotos no começo daquela semana voltou a me maquiar. Eu tive alguns minutos de tranquilidade enquanto estava naquilo, mesmo que o falatório da sala estivesse a todo vapor, com músicas minha tocando ao fundo.

Quando a maquiadora acabou seu trabalho, Tanya apareceu com Laurent. A Denali entraria para a coletiva comigo desde o começo, depois que fosse anunciado meu contrato com a Hollywood Records Laurent participaria das entrevistas também, sendo assim ela queria preparar nós dois para o que viria a seguir.

Tanya era imbatível, passamos um longo tempo naquela preparação, mas pelo menos eu pude comer algumas coisas que minha mãe levava para mim. Eu chequei ela e Rose algumas vezes, minha irmã ainda não era tão acostumada com toda aquela agitação, mas pelo menos Esme sim e uma podia contar com a outra naquele momento.

— Edward! — Bella reapareceu não muito depois que Tanya me deixou descansar um pouco, faltavam pouquíssimos minutos para a coletiva começar.

Abri meus olhos, olhando para ela pelo espelho da ilha de maquiagem. Ao seu lado um cara, que tinha uns equipamentos em mão.

— Esse é o Ron, ele vai salvar nossas vidas hoje.

— O quê? — Não precisei de uma resposta, logo Ron instalava um ponto na minha orelha. — Isso e mesmo preciso?

— É sim, eu quero estar na sua cabeça durante toda a entrevista, pra te impedir de falar alguma merda — ela respondeu, eu revirei os olhos, já farto de Bella aquele dia.

— Filho, beba um pouco de água. — Mamãe apareceu com uma garrafinha para mim, eu prontamente bebi a água, não podia beber álcool como queria, então seria aquilo mesmo. — Você está lindo — mamãe disse, mexendo em meus cabelos, dando um beijo na minha bochecha em seguida. — Amo você, querido.

— Amo você também, mãe — falei de volta, deixando com que ela se afastasse.

Vi Bella novamente pelo espelho, ela parecia desconfortável com algo, seu olhar perdido.

— Tudo bem, Capitã?

— Tudo ótimo. — Ela forçou um sorriso para mim. — Menos com seu cabelo. — Passou a mexer neles. — É uma grande bagunça, não?

— Eu preciso de uma daquelas suas massagens — confessei, Bella riu, colocando suas mãos nos meus ombros, passando a massageá-los.

— Estive por um tempo no Vietnã, eles são muito bons com massagens, aprendi muito lá — ela contou, pressionando meus ombros, mas não de forma dolorosa, pelo contrário.

— Isso é bem útil. — Suspirei, aproveitando a calma que a massagem proporcionava. — Nunca fui ao Vietnã.

— Talvez consigamos uma data lá na sua próxima turnê — ela disse, eu já estava de olhos fechados e me sentindo distante, se eu não tivesse uma coletiva logo mais a massagem de Bella me faria dormir ali mesmo, mas a coletiva ainda teria de acontecer.

— Ed, está na hora! — Ouvi Tanya ao fundo.

As mãos de Bella saíram de mim, eu reabri meus olhos e a olhei novamente pelo espelho.

— Chegou sua hora, Cullen!

Eu me coloquei de pé, a agitação na sala tinha ficado ainda pior.

— Bella...

— Você consegue sim. — Ela olhou ao redor. — Ainda quer ser um músico, não quer?

— Claro que quero!

— Então, você precisa suportar as partes ruins que vem com isso.

Respirei fundo, passando a mão pelos meus cabelos repetidamente.

— Eu vou ajudá-lo, não estará só, Ed.

— Eu teimo sua ajuda, Capitã.

Ela riu, empurrando-me em direção a porta que levaria-me ao auditório.

— Vá em frente, Pirralho!

Eu estava esperando Tanya me dar a ordem de entrada, quando Rose apareceu junto de mim. Ela me deu um forte abraço, o mesmo abraço de quando eu estava prestes a entrar para o show que definiria minha vitória no The Star.

Minha irmã se afastou, tocando no meu rosto, seus olhos azuis fixos nos meus. Ela estava nervosa também, mas o sorriso que lançou para mim foi reconfortante.

— Eu estou aqui, ok? Não importa o quão difícil for lá dentro, quando você sair eu continuarei aqui pronta para te ajudar no que for preciso — disse docemente, eu beijei sua testa, agradecendo sem palavras por ela continuar do meu lado apesar de tudo. — Amo você.

— Te amo, Rose.

Ela respirou fundo, deixando com que eu seguisse Tanya para o auditório. O lugar estava cheio pela imprensa, flashes de câmeras logo me cegaram, mas me mantive firme.

— Hey, Ed — Bella falou em minha orelha pelo ponto. — Sorria.

Eu sorri, os flashes aumentaram. Era isso, Ed Cullen estava de volta.