CAPÍTULO 2: Levo um cupido ao parque de diversões

Dois meses e meio depois.

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Segurei a maçaneta da porta e fechei meus olhos, respirando fundo algumas vezes antes de abri-la.

Como esperado, lá estava Edward — sentado no meio da minha sala, com suas asas à mostra, enquanto brincava com o Sr. Darcy. Ele estava balançando a varinha com uma pena na ponta de um lado para o outro, fazendo o felino pular atrás do objeto.

A cena me fez parar, ainda segurando a porta, e tudo o que tinha acontecido comigo durante o dia — todos os gritos de Aro, todo o trabalho que parecia ter se juntado para me estressar e o maldito encontro da vez — pareceu se transformar em um grande borrão sem importância conforme um sorriso enorme surgia em meu rosto.

Edward notou minha presença e olhou para cima, sorrindo para mim. Senti todo meu corpo se aquecer por dentro. Era um sentimento bom, um que já me acompanhava há alguns dias e que eu sabia que deveria ignorar a todo custo, mas era impossível fazer isso. Era impossível ignorar o efeito que ele tinha sobre mim.

Fechei a porta atrás de mim e retirei meus sapatos, me aproximando deles.

— Ei, meninos — Falei.

Sr. Darcy olhou em minha direção e miou, aceitei aquilo como um cumprimento e me abaixei para fazer carinho em sua cabeça. Ele fechou os olhos e miou de novo, esfregando seu focinho na palma da minha mão.

— Oi, Bella — Disse Edward, me olhando. — Eu não recebo cafuné?

Olhei para ele, rindo.

Edward não gostava muito de contato físico, mas desde que, há alguns dias, eu havia feito cafuné em sua cabeça enquanto assistíamos a um filme, ele pareceu adquirir um certo apego por aquele tipo de toque.

— Claro que recebe — Falei, me aproximando um pouco mais dele para enfiar meus dedos entre os fios acobreados de seu cabelo.

Assim como Sr. Darcy, Edward também fechou os olhos e se inclinou em direção ao meu toque. E eu poderia jurar que, por um segundo ali, o ouvi ronronar.

— Isso é tão bom — Murmurou ele.

E lá estava novamente. O sorriso estúpido e a sensação quentinha dentro de mim. Suspirei, me afastando dele.

Isso era absurdo, eu não podia me sentir assim por dele.

Nunca.

— Há algo de errado? — Perguntou, levantando-se.

A asa esquerda dele me acertou, me fazendo tropeçar, mas ele me alcançou antes que eu pudesse cair. Congelei com ambas minhas mãos apoiadas em seu peitoral despido conforme ele me segurava em seus braços.

Edward nunca chegou tão perto de mim, muito menos para me abraçar como ele estava fazendo — com exceção, é claro, de quando eu desmaiei e ele precisou me carregar até o sofá. Eu esperava que ele ficasse desconfortável e me soltasse, mas ele não o fez. Logo percebi que ele estava acariciando minhas costas.

Que diabos?

— Estou bem. Você está bem? Achei que você não gostasse do toque físico — Falei, me afastando dele e caminhando em direção ao meu quarto.

— Eu... Eu não gostava. Mas você gosta, então eu pensei… — Ele disse, me seguindo.

Certo, ele era todo sobre fazer o que eu gostava.

— Você não precisa fazer as coisas só porque eu gosto, Edward.

— Não é isso. Eu lhe disse um milhão de vezes antes, seres celestiais não vivem como humanos. Eu nunca tive toque físico antes, mas agora estou me acostumando... E começando a gostar também.

— E então você decidiu me abraçar?

Entrei no quarto e, como já era de se esperar, Edward fez o mesmo. Fui até meu guarda-roupa pegar algo confortável para vestir após o banho.

— Bem, você iria cair se eu não te segurasse…

— Você não me segurou, Edward. Você me abraçou. Tem uma diferença.

— Eu te deixei desconfortável? — Olhei para ele, o coitado parecia profundamente preocupado com aquela possibilidade.

Senti-me mal com isso. Quer dizer, eu nem ao menos sabia porque eu estava fazendo tanto caso sobre aquele assunto, não havia sido nada de mais.

— Não, não é isso — Falei, me sentindo estranha.

Peguei minhas roupas e fui para o banheiro, trancando a porta.

— É sobre o que, então? — Ele perguntou, do outro lado.

— Nada! — Gritei.

Alguns minutos se passaram e eu já estava debaixo do chuveiro quando o ouvi falar novamente.

— Como foi seu encontro com o James?

Respirei fundo. Aquela era a última coisa sobre a qual eu queria falar.

— Ótimo!

— Mesmo? — Edward demorou alguns segundo para responder, mas pareceu animado quando o fez e isso me irritou um pouco. — Vocês vão ter um segundo encontro, então?

— Não!

— Espera, mas você disse…

— O encontro foi ótimo, como todos os outros que tive desde que você chegou. Mas não é ele, Edward.

— Bella, já conversamos sobre isso. Você tem que dar ao tempo, tempo para fazer sua mágica acontecer. James é altamente compatível com você e ele preenche quase todas as exigências que você me fez. O que pode haver de errado com ele? — Perguntou, não respondi. — Ele… Vocês… Vocês fizeram… Vocês só jantaram?

— Se você quer saber se transamos e eu achei horrível, a resposta é não.

— Vocês não… Fizeram isso ou você não achou horrível?

— Não fizemos, Edward. Nem tivemos tempo para cogitar a ideia, ele teve que ir embora mais cedo por causa da filha.

— Esse é o problema, então? Achei que você gostasse de crianças, Bella.

— E eu gosto! Não há nenhum problema em ele ser pai, não é isso.

— Não consigo te entender. Qual é o problema, então?

Suspirei, terminando de enxaguar meu cabelo. Desliguei o chuveiro e saí do box. Ouvi Edward me chamando algumas vezes, mas o ignorei enquanto colocava minhas roupas. Uma vez vestida, abri a porta.

Edward me olhou com curiosidade enquanto eu conectava o secador de cabelo na tomada.

— Não sei qual é o problema, tá legal? Talvez o problema seja eu, talvez eu não tenha nascido para essa coisa de relacionamento.

— Isso não faz sentido. Se esse fosse o caso, então, por que você teria um cupido?

Eu o encarei, sem ter uma resposta boa o suficiente para aquilo. Fiz uma careta.

— Eu não sei, só sei que cansei. Eu fui a encontros com todos os caras que você botou no meu caminho e não me interessei de verdade por nenhum deles. Edward, isso já faz mais de dois meses! É óbvio que não vai dar certo. Chega, deu pra mim, eu desisto do amor!

— Você não pode desistir do amor, Bella — Disse ele, revirando os olhos. Mania irritante que ele havia pegado de mim. — Não dá para desistir quando você sequer está tentando.

— Eu estou tentando!

— Não, não está. Você nem sequer consegue me dizer o que há de errado com James e já o está dispensando. A meu ver, ele é perfeito para você. Alto, atraente, advogado de sucesso, com uma filha que não vê problemas em ter uma madrasta e que ama gatos e filmes de romance como você…

— Não daria certo — Falei monotonamente.

— Como pode ter tanta certeza disso?

— Porque… — Comecei a falar, irritada. Mas me interrompi.

— "Porque" o quê?

— Porque… — Me virei para ele, Edward estava me olhando em expectativa. As palavras começaram a sair da minha boca sem eu ao menos pensar sobre elas. — Porque ele não me faz sorrir. Ele me fez rir, muito, mas ele não me faz sorrir feito uma idiota por motivo nenhum. Ele não me faz querer passar meus dedos pelos cabelos dele e ficar fazendo cafuné por horas. Ele não me faz sentir quente por dentro. Ele não me faz querer descobrir se os lábios dele são tão macios quanto parecem e eu consigo desviar meu olhar do dele tranquilamente. Não sinto vontade de abraçá-lo e encher seu rosto de beijinhos toda vez que ele fala algo sem sentido e…

Parei de falar abruptamente, me dando conta do que aquelas palavras significavam. Coisas que certamente eu havia pensado muitíssimas vezes ao longo dos últimos dias, mas que apreciam reais demais sendo ditas em voz alta.

— Então, é isso que você quer? — Edward perguntou, seu tom de voz calmo e seu olhar intenso.

— O quê?

— É isso que você quer em um homem, afinal? Alguém que te faça sentir essas coisas? Acho que posso encontrar…

— Não! Eu já disse, chega de encontros. Estou cansada, Edward.

— Bella…

Não ouvi o que ele disse a seguir, pois liguei o secador. Edward continuou tentando falar comigo, mas após ser ignorado por longos minutos, ele desistiu, saindo do banheiro cabisbaixo.

Demorei mais do que o necessário secando meu cabelo. Eu havia até mesmo resolvido fazer uma escova, só para ter mais tempo sozinha, mas tudo tem limite. Quando saí dali, notei uma luz fraca vindo da sala e segui meu caminho até lá.

Encontrei Edward, com suas asas escondidas e usando uma blusa de moletom que eu não fazia ideia de onde ele havia tirado — como todas as suas roupas que apareciam magicamente em minha casa —, sentado sobre um edredom grosso e peludo que estava, anteriormente, guardado em meu guarda-roupa, e sobre ele haviam dois potes abertos de sorvete com colheres dentro. A sala estava escura e a única luz vinha da TV, onde Orgulho & Preconceito estava selecionado na plataforma de streaming, pronto para ser assistido.

Olhei para Edward e ele deu uma batidinha sobre o edredom, me chamando para me sentar ao seu lado. Assim o fiz.

— O que é isso? — Perguntei.

— Claramente você não teve um bom dia e está mal-humorada, eu me recuso a deixá-la ir dormir sem fazer esse dia ter pelo menos um momento bom. Não gosto de vê-la assim — Disse ele, esticando o braço para pegar um dos potes de sorvete. — Menta com pedaços de biscoito de chocolate, seu favorito.

Sorri involuntariamente. No mesmo instante, me repreendi, mas não havia nada que eu pudesse fazer.

Edward pegou seu sorvete também, algo que ele havia descoberto gostar muito apenas alguns dias após invadir meu apartamento. Olhei para o sabor — bolo red velvet — e ri. Ele estava em uma pequena missão de experimentar o máximo de sabores possíveis antes de deixar o mundo humano de vez.

O pensamento, como havia fazendo nos últimos dias, me entristeceu, mas fiz meu melhor para não demonstrar.

— O que há de errado? Achei que você fosse gostar… — Perguntou, inclinando a cabeça para o lado.

Talvez eu não tivesse escondido bem o suficiente.

Ou talvez Edward apenas me conhecesse melhor do que qualquer pessoa.

— Eu gostei — Falei, ele me olhou desconfiado. — É sério, eu adorei. Obrigada por isso, Edward.

Eu o olhei por um momento, contemplando a ideia que surgiu em minha cabeça. Eu nada tinha a perder, então coloquei meu sorvete novamente sobre o edredom e me inclinei para abraçar Edward. Ele ficou paralisando por um segundo, mas logo retribuiu o gesto.

— Por que o abraço? — Perguntou, rindo suavemente contra meu cabelo.

Ignorei o arrepio que percorreu minha pele.

— Você é uma boa pessoa... Ou cupido, tanto faz. Desculpe por dizer que você faz um trabalho péssimo, isso não é verdade. Você é incrível no que faz, e faz de tudo para eu encontrar um amor e ser feliz. Você é a melhor coisa que me aconteceu em… Desde sempre, na verdade. Você se tornou meu amigo e eu realmente, realmente, gosto muito de você, Edward. Eu só queria…

— Bella, você está chorando?

Eu estava.

— O quê? Não! — Disse eu, limpando minhas lágrimas o mais rápido que pude.

Sentei-me no meu lugar novamente e peguei meu sorvete, colocando uma grande colherada em minha boca.

— Você vai colocar o filme ou o quê? — Perguntei, minha voz saindo estranha porque minha boca estava cheia.

Edward riu baixinho e se aproximou de mim, segurando meu queixo entre o polegar e o indicador, me fazendo olhar para ele.

— Eu realmente gosto muito de você também, Bella — Disse ele, olhando diretamente em meus olhos.

— De verdade? — Perguntei, ele assentiu.

— Muito, muito mesmo — Sussurrou.

A atenção de Edward desviou para minha boca apenas meio segundo antes de eu sentir seu polegar deslizar sobre meus lábios. Eu mal podia respirar.

— Sua boca… Estava suja de sorvete — Explicou, eu ri.

É claro.

Mas, após limpar meus lábios, ele continuou encarando-os por incontáveis minutos, e eu não era capaz de identificar quais sentimentos eu estava vendo passar por aqueles olhos absurdamente verdes.

Eu poderia jurar que… Bem, parecia muito que ele queria me beijar. Mas isso não era possível, era? Quer dizer, Edward é um cupido, ele não tem esse tipo de desejo.

Ou tem?

— Por que você está me olhando assim? — Perguntei, minha voz nada mais era do que um sussurro, como se estivéssemos fazendo algo proibido.

Talvez estivéssemos.

Pelo menos, talvez eu estivesse fazendo algo extremamente errado, porque eu queria mais do que qualquer coisa naquele momento, que um ser celestial enfiasse a língua na minha garganta. Isso com certeza era pecado, não era?

— Eu não sei — Ele sussurrou de volta.

Edward piscou algumas vezes, como se estivesse saindo de um transe, e então se virou abruptamente para a televisão. Ele pegou o controle e deu início ao filme.

— Melhor começarmos ou ficará muito tarde, e você vai acabar dormindo na metade do filme.

— Ei!

— Você sabe que é verdade, dorminhoca.

— Não é, não!

Eu não prestei atenção no filme, estava ocupada demais olhando para Edward. Mas, dito e feito, eu nem sequer sabia dizer em que momento peguei no sono, mas certamente o filme ainda não havia terminado.

Acordei na manhã seguinte, ainda sobre o edredom que Edward havia forrado no centro da sala, com os braços dele ao meu redor e Sr. Darcy dormindo aos nossos pés.

"Estou de conchinha com um cupido", era a única coisa que eu conseguia pensar quando me dei conta da situação.

— Bom dia — Disse Edward, com sua voz rouca de quem havia acabado de acordar.

Fiquei aturdida entre o susto, já que eu não sabia que ele estava acordado, e a onda de arrepios que percorreu meu corpo assim que sua voz alcançou meus ouvidos.

— Ah… Bom dia, Edward — Falei.

Virei-me um pouco, apenas o suficiente para conseguir ver o rosto dele. Edward tinha uma expressão serena.

— O que aconteceu? — Perguntei, ele pareceu confuso. — Por que dormimos… Assim?

— Você dormiu me abraçando e eu apenas… Me deitei. Não queria correr o risco de te acordar, você parecia tão relaxada. Achei que seria melhor deixá-la descansar do que me arriscar a acordá-la carregando-a até o quarto — Explicou. Continuei olhando para ele e Edward pareceu ainda mais confuso. — Algum problema?

— Não, não. É só que… Essa é uma posição meio… Íntima? Não sei. É coisa de namorados dormir de conchinha.

— Conchinha?

— Sim. Estávamos com uma concha, sabe? Você a concha maior e eu a menor… — Falei. Edward fez um "hm", demonstrando que estava entendendo.

— Perdoe-me, Bella. Não era minha intenção deixá-la desconfortável.

— Não deixou, não se preocupe. Eu só estranhei…

— É gostosinho — Disse ele, me puxando mais para perto de si. — Dormir abraçado com você é muito bom, mesmo estando no chão.

Não pude evitar sorrir ao ouvir aquilo.

— Podemos fazer isso mais vezes — Sugeri.

— Mas… Você não disse que é coisa de namorados?

— E daí? — Perguntei, ele sorriu para mim e me virou, encaixando seu corpo no meu.

Edward posicionou sua cabeça na curva do meu ombro e me apertou.

— Poderia me acostumar com isso, fácil.

— É… Eu também.

Alguns minutos se passaram e notei que a respiração de Edward estava mais uniforme. Eu não sabia dizer se ele havia adormecido novamente ou se estava apenas relaxado — eu, por outro lado, estava tensa.

Estar deitada ali, nos braços de Edward, era bom. Tipo, bom demais. E parecia tão errado, mas também tão certo. Eu estava claramente perdendo a cabeça.

Eu queria ficar ali para sempre, sentindo sua respiração suave no meu pescoço e seus braços fortes ao meu redor, sendo tomada pelo calor e cheiro de mel e verão que ele emanava. Mas eu não podia. Eu não podia me render a esses sentimentos, ou aos pensamentos e desejos que vinham com eles.

Levantei-me bruscamente, recebendo um olhar confuso do meu queridíssimo cupido — olhar esse que decidi ignorar completamente.

— Estou com fome — Anunciei. — Pode começar a preparar nosso café-da-manhã enquanto vou ao banheiro?

Não esperei pela resposta de Edward antes de deixar a sala.

Aquele dia passou devagar, de forma bastante torturante. Eu estava tentando evitar Edward e sua súbita mania de me tocar em qualquer oportunidade, e ele claramente não estava feliz com isso, mas não disse nada. Parecia que ele sabia que eu precisava de espaço e ele respeitava isso, mesmo eu não tendo pedido para que ele o fizesse.

Ele sabia o que eu precisava, simples assim.

O problema é que eu precisava de um tempo de Edward para limpar minha cabeça, mas eu também precisava de Edward perto de mim. Em nosso tempo juntos, ele se tornou meu melhor amigo, meu confidente, meu porto seguro, alguém com o qual eu sabia que poderia contar sempre. Estávamos sob o mesmo teto e eu sentia sua falta loucamente. Sentia falta do som de sua voz, da suavidade de seu toque, do jeito que ele jogava a cabeça para trás enquanto ria de alguma piada estúpida em um dos meus filmes favoritos.

Assim, por mais que eu soubesse que deveria manter certa distância de Edward, eu era completamente incapaz de seguir meu cérebro quando meu coração e o todo resto do meu corpo e minha alma estavam implorando por ele.

— Ei — Chamei a atenção de Edward enquanto me sentava ao seu lado no sofá. Ele olhou para mim e sorriu, e apenas esse pequeno e puro gesto foi o suficiente para fazer eu me sentir um pouquinho menos perdida. — Desculpa.

— Pelo quê?

— Por estar agindo feito uma doida, eu… Eu estou um pouco confusa com tudo isso — Falei, sacudindo minhas mãos no ar.

— Eu diria que você está se saindo muito bem, Bella. De forma geral.

— É mesmo? — Perguntei, ele assentiu.

— Sei que essa é uma situação… Inusitada, no mínimo. É normal ficar confusa.

— Ah… Sim, claro. Bem, eu não… — Pensei em dizer-lhe que eu não estava me referindo à situação em geral, mas sim a todos os sentimentos que ele estava despertando em mim sem ao menos tentar. Mas uma vozinha em minha cabeça me disse que essa era uma ideia terrível, então deixei-a para lá. — Obrigada, Edward.

Edward estreitou os olhos para mim.

— Por que eu sinto que você está escondendo algo de mim?

Porque eu estou.

— É impressão sua — Falei, rindo para tentar aliviar o clima. — Olha, eu tive uma ideia. O que acha de irmos até o parque de diversões?

— O que é isso?

— Bem, é um parque… De diversões — Expliquei, ele revirou os olhos para mim. Eu ri. — É um lugar cheio de brinquedos e comidas gostosas que as pessoas vão para se divertir. Aposto que você vai adorar.

Não precisei me esforçar para convencê-lo, Edward aceitou minha proposta facilmente.

A viagem de carro até o parque foi mais silenciosa do que eu gostaria, ainda havia um clima esquisito no ar, mas eu estava feliz que ao menos Edward e eu estávamos juntos.

Uma vez que chegamos ao parque, porém, a situação mudou completamente. No momento em colocamos nossos pés no parque, Edward pareceu se transformar em uma criança. Ele queria ir em todos os brinquedos e tendas, e experimentar todas as comidas. Edward estava me arrastando de um lado para o outro, empolgado, e eu esqueci completamente toda e qualquer preocupação que havia em minha mente antes.

Eu estava parada ao lado de Edward enquanto ele mirava a espingarda de brinquedo para os patinhos de borracha passando numa esteira ao fundo da tenda de tiro-ao-alvo. Aprendi duas coisas sobre Edward naquele momento: ele era competitivo e ótimo de mira. Alguns disparos depois e apenas um cartucho desperdiçado, ele havia feito pontos suficientes para escolher entre os maiores prêmios da tenda.

— Aqui — Disse ele, estendendo o urso de pelúcia gigante que havia escolhido para mim. — É seu.

— Edward, foi você quem ganhou! O prêmio deveria ser seu.

— Você não fará a desfeita de negar meu presente, não é? Eu o peguei para você — Edward sorriu para mim enquanto empurrava o urso em minha direção. O peguei, rindo.

— Deus, ele é enorme. O que vou fazer com essa coisa?

— Se quiser, posso carregá-lo para você. Mas ele é seu.

Revirei meus olhos.

— Tudo bem, ele é meu. Mas, por favor, carregue-o para mim. Esse troço é maior que eu, Edward.

— Não é culpa dele que você é tão pequenininha.

— Eu não sou tão pequenininha — Falei, cruzando meus braços e fazendo bico. — Estou dois centímetros acima da média de altura feminina nos EUA.

— Continua baixa.

— Ei!

Dei um empurrão fraco no ombro dele. Edward gargalhou alto.

— Eu gosto — Disse, simplesmente. Se inclinando um pouco para me beijar na bochecha antes de pegar o urso.

Eu sentia como se todo o sangue do meu corpo tivesse ido para as minhas bochechas.

— Uh, uh! O que é aquilo? — Edward perguntou, apontando para algo atrás de mim.

Seus olhos estavam brilhando de empolgação e ele parecia totalmente alheio ao quão corada eu havia ficado após o beijo que ele me deu. Graças a Deus.

Virei-me a fim de ver o que quer que ele estava se referindo e sorri.

— É algodão-doce — Falei. — Absurdamente doce, como o nome sugere, e delicioso. Você quer?

Edward olhou para mim, um sorriso enorme em seu rosto, e assentiu animadamente.

Sempre me considerei uma pessoa de gatos. Eu nunca quis ter um cachorro quando criança, gatos eram minha praia desde aquela época e isso não mudou enquanto eu crescia. Mas, cara, eu estava cada vez mais rendida por aquele grande golden retriever pulando ao meu lado enquanto caminhávamos em direção à máquina de algodão-doce.

— Qual sabor você quer? — Perguntei, pegando minha carteira para pegar o dinheiro necessário para comprar os algodões.

Edward me olhou, parecia confuso.

Como sempre.

— Relaxa, isso tem mais gosto de açúcar do que qualquer outra coisa. Apenas escolha o que você achar a cor mais bonita, sei lá.

— Hum… Pode ser o rosa? — Perguntou, eu assenti.

— Você quer o formato padrão, coração ou flor? Só para constar, como um cupido, acho que seria apropriado você escolher o de coração.

Ele riu.

— De coração será, então.

Coloquei o dinheiro a máquina e selecionei as opções de Edward, não demorou para que seu algodão-doce ficasse pronto e então foi a minha vez. Sabor framboesa, formato padrão.

— Por que o de framboesa é azul? — Edward perguntou. — Deveria ser vermelho ou preto.

— O de morango já é rosa, o que é bem próximo de vermelho, e preto é… Bem, eu totalmente comeria um algodão-doce preto, mas acho que não é muito convidativo para as crianças.

— Isso é feito para crianças? — Perguntou, assenti. — E não tem problema a gente comer?

— Não — Falei, rindo de sua expressão preocupada. — Apenas aproveite seu algodão-doce, Cupidão. Ei, o que acha de comermos na roda-gigante? A fila está bem pequena.

— Tudo bem.

Nem cinco minutos depois, nós estávamos sentados em nossos lugares na roda-gigante. E quando digo "nós", me refiro também ao urso de pelúcia que Edward havia me dado — ele estava posicionado ao meu lado no banco. A essa altura, o algodão-doce de Edward já havia desaparecido completamente, mas o meu estava praticamente inteiro ainda.

— Não, nem pensar — Falei ao notar que ele estava olhando para o doce em minha mão.

— Por favor, Bella? É tão bom!

— Ninguém mandou você enfiar o seu praticamente inteiro goela a baixo, se vira — Respondi. Ele fez um biquinho fofo e me lançou aquele olhar de cachorrinho abandonado. — Não adianta, Edward. Eu não divido doce, você já deveria ter aprendido isso no tempo em que está morando comigo.

— A gula é um pecado, Isabella — Disse ele, sério. Gargalhei.

— Tá de brincadeira com a minha cara, né? Não sou gulosa por estar comendo o meu doce. Se tem alguém guloso aqui, é você que comeu o seu inteiro e ainda está querendo o meu!

Edward estreitou os olhos para mim e eu arqueei uma sobrancelha para ele enquanto tirava um pedaço do meu algodão-doce com os dedos e o colocava na boca.

Ele se aproximou rapidamente de mim, abocanhando o pedaço de algodão-doce que estava para fora da minha boca, nossos lábios perigosamente próximos. Fiquei sem reação, totalmente paralisada enquanto ele olhava para mim com um sorriso sacana que não era nada típico de Edward.

— Delicioso — Ele falou. — Obrigado, Bella.

Notei o tom de provocação em sua voz, mas não tive forças para responder. Edward ainda estava próximo demais para me permitir raciocinar propriamente.

Nossos olhares se encontraram e o sorriso de Edward foi desaparecendo conforme dava lugar às bochechas coradas e respiração superficial. Eu sabia que estava exatamente do mesmo jeito.

Ao invés de se afastar de mim, Edward desceu seu olhar lentamente até parar em meus lábios e engoliu seco. Senti como se o resto do mundo tivesse desaparecido, como se só houvessem nós dois e o tempo tivesse parado. Era como alguns daqueles filmes de romance que eu vivia assistindo. Algo que eu sempre quis que acontecesse comigo, mas nunca pensei que realmente aconteceria.

Eu me senti meio ridícula, totalmente incrível.

A parte "incrível" era porque eu tinha certeza que Edward queria me beijar. O jeito que ele estava olhando fixamente para minha boca e umedecendo seus próprios lábios com a língua... Não importava que ele fosse um cupido, algumas reações são universais, certo? Ele me queria, realmente me queria. Eu não estava delirando quando pensei ter visto desejo em seu olhar na noite passada.

Esse pensamento me fez sentir como a garota mais sortuda do mundo. Tudo porque o cara mais incrível de todos os tempos estava ali, me desejando.

Mas, então, ele se afastou, voltando a sentar-se corretamente em seu lugar e respirando fundo. Edward não se desculpou por invadir meu espaço pessoal nem por demorar tanto para retrair ao seu lugar. Ele não parecia sequer envergonhado.

Após alguns segundos tentando controlar minha respiração e pensando no que faria em seguida, falei:

— Eu não tinha percebido que você queria tanto assim — Ele se virou novamente para mim. Seus olhos arregalados, sorri. — O algodão-doce.

— Oh… É, eu gostei bastante… Do doce…

— Aqui — Falei, estendendo a nuvem açucarada para ele. — Aproveite que eu tô me sentindo caridosa agora.

Edward riu e pegou o doce.

— Obrigado, Bella.

— De nada.

Edward comeu meu algodão-doce em um piscar de olhos e ficamos em silêncio pelo resto do passeio.

Apoiei minha cabeça no ombro dele, apreciando a aproximação quando ele me abraçou. Fechando meus olhos, desejei que aquele momento pudesse durar para sempre, que não tivéssemos que retornar para a cruel realidade em que Edward e eu não pertencíamos no mesmo mundo.

Nós estávamos tão próximos… Mas ainda tão distantes.

Assim que saímos da roda gigante, decidimos ser hora de ir para casa. Eu estava me sentindo exausta — tanto física quanto mentalmente, por pensar demais sobre nosso "quase-beijo".

Até então, eu achava que aqueles sentimentos loucos eram unilaterais. Nunca fez sentido ficarmos juntos porque ele não sentia o mesmo por mim... Mas eu não tinha mais tanta certeza disso. Eu sabia que ele queria me beijar, mas não o fez. Foi porque ele era meu cupido? É muito provável. Eu não sabia como isso funcionava. Ele nunca disse explicitamente que não poderíamos ficar juntos, eu apenas assumi que os cupidos não se sentiam assim por humanos... Claramente, eu estava errada.

Minha cabeça doía com todos esses pensamentos.

Agarrei a mão de Edward enquanto caminhávamos em direção ao estacionamento, fazendo-o parar. Ele me olhou, curioso.

— Algum problema? — Ele perguntou.

Eu tenho que dizer a ele. Se eu nunca contar o que sinto por ele, nunca saberei se o sentimento é mútuo mesmo... Talvez, apenas talvez, pudéssemos fazer isso funcionar, certo?

Olhei para seus olhos verdes brilhantes, os olhos mais lindos que já vi, posicionados perfeitamente no rosto mais perfeito da mais perfeita... Criatura. Ele nem sequer era um homem. Nós não pertencíamos um ao outro, não poderíamos, então o que eu estava fazendo?

Haviam somente duas possibilidades ali. Ou eu contava para Edward como me sentia por ele, ele diria que não sente o mesmo e seriamos obrigados a ficar numa situação extremamente desconfortável. Ou eu diria que gosto dele mais do que apenas como um amigo-cupido, ele por algum milagre corresponderia meus sentimentos e… E o quê?

Talvez ele pudesse se tornar humano e ficar comigo, mas ele havia deixado bem claro que perder sua posição como um ser celestial era, para ele, pior do que a morte. Eu jamais conseguiria colocá-lo em uma situação em que ele teria que escolher entre mim ou ser um cupido, era injusto demais.

Edward ainda estava me olhando, esperando para que eu lhe dissesse o que eu queria. Respirei fundo e engoli todos os meus sentimentos. Pelo bem dele.

— Eu… Eu decidi… Eu decidi tentar mais uma vez. Um encontro, digo. Você pode tentar achar um cara para mim e eu juro que irei me esforçar de verdade para não ser uma chata perfeccionista e autossabotadora dessa vez.

— Sério…? — Perguntou Edward.

Pude jurar por um momento que ele parecia triste com a notícia.

— Você disse que eu deveria tentar de verdade, então… Eu irei. É isso que você quer, não é?

— Eu… — Ele começou a falar, mas parou. Edward pigarreou e, antes que eu pudesse pensar demais sobre sua reação, ele sorriu animadamente para mim. — Sim, é isso que eu quero. Obrigado, Bella. Tentarei achar alguém o mais rápido possível.

— Por quê? Está com tanta pressa assim para se livrar de mim? — Brinquei.

Ele riu e balançou a cabeça, dando um passo à frente. Edward acariciou minha bochecha com o dorso dos dedos.

— É claro que não. Eu apenas quero vê-la feliz.


O que acharam do segundo capítulo? Deixem-me saber pelos comentários.

Nos veremos novamente em breve, com o terceiro capítulo. Até lá.