Eu sempre soube, lá no fundo, como isso terminaria.
Não tinha outro jeito, o destino estava traçado desde a primeira vez que eu conheci ele, Harry Potter, meu melhor amigo, minha família, a criança quebrada e fraturada que se tornaria a pessoa mais importante do mundo para mim.
Estávamos correndo pela floresta do Dean, cansados e desgastados por termos lutado com seis Comensais da Morte logo depois do ataque da Nagini em Godric Hollow.
Harry tropeçou em seus pés novamente e eu lutei com tudo para puxá-lo para cima, meu próprio corpo lutando com cada fibra do meu ser para continuar, para lutar, para Harry.
Salve Harry.
Proteja Harry.
Lute!
Resista!
Harry.
Estávamos a um quilômetro da área anti-aparatação que os Comensais lançaram. Só mais um pouco e conseguiríamos.
Por que agora? Porque justo quando a varinha do Harry quebrou e ele estava fraco do veneno?
Porquê!
— Mas um pouco, Harry, só mais um pouco. — Minha voz era fraca enquanto eu arrastava Harry pelo torso, minha varinha segurada com tanta força que doía.
— H-hermione eu n-não...
Eu já conseguia ver a parede translúcida do feitiço, meus pulmões queimando mais forte enquanto corríamos mais rápido.
Eu conseguia ouvir a gargalhada de fenrir greyback, o lobisomem em sua transformação parcial uivando de alegria com a possibilidade de novas vítimas.
Meus ossos gelados com a chuva pareciam ter virado pedra com o meu medo.
Ele é o pior, disseram.
Machucar, rasgar, transforma por diversão, chegando a transformar seu próprio filho, uma criança de dois anos, que não resistiu a primeira lua cheia.
Mais um passo e estamos livres.
Exceto que, exceto que por algum motivo Dolohov, Grayback e Lucius Malfoy conseguiram nos alcançar, os três restantes dos seis.
Varinhas em punhos, expressões ameaçadoras e azarações na ponta da língua.
Harry finalmente caiu de joelhos, seu corpo sucumbido ao cansaço de tudo aquilo, a um passo da liberdade.
Me coloquei de forma protetora na frente
de Harry, mesmo que cada músculo queimasse, mesmo que meus ossos estalando a cada movimento, eu lutaria até o fim, morreria com uma Maldição na minha boca, protegendo a pessoa mais importante da minha vida.
Harry, proteja Harry.
Harry vai atrás da Pedra, vá com ele, proteja-o.
Harry fala a língua das cobras, ele esta em perigo, descubra o que é esse monstro, destrua-os.
Um assassino está a solta e atrás do Harry, use o vira-tempo para descobrir aonde ele se esconde. Mantenha o seguro, mesmo que isso signifique trair sua confiança.
O nome de Harry saiu do Cálice de Fogo, as provas vão matá-lo! Não! Treine, estude, lute um pouco mais, seja sua amiga, seu apoio, seguro.
Tudo está desmoronando, Dolores, Ministério, visões do Harry, a cobra, tudo está conectado! Mas porque? Como? Não importa, proteja Harry, ele precisa mais do que nunca. Sinto muito, Sirius.
Harry esta obcecado por Draco, se ele não fosse namorado de Ginny, eu teria feito uma piada. Egoísta! Eu fui tão Egoísta esse ano mais do que todos os outros. Como pude perder de vista meu único objetivo? E tudo por um garoto que nem sequer olhou para mim, mais interessado em Lila.
Não mais! Eles achariam as Horcrux, deteriam Voldemort e Harry finalmente estaria seguro, estaria feliz como ele nunca teve a chance de ser.
— Para uma sangue-ruim você até que corre rápido. — Dolohov disse com desdém, sua varinha acenando como uma arma.
— Eu quero transforma-la, fazer dela uma das minhas esposas. — Grayback arranhou os dentes, cheirando o ar como se pudesse prová-la.
— Silêncio! Vocês sabem que o Lorde quer Harry Potter ileso. — Lucius disse com a voz controlada, sua expressão dura e fria como mármore.
— Eu sei. Mas ele nunca disse nada sobre
a sangue-ruim. — Dolohov rebateu.
— suponho que não. Tirem ela de perto do garoto e podem fazer o que quiser com ela.
Eu me preparei, separando minhas pernas em posição de batalha, varinha em punho e queixo erguido.
Eu nunca seria escrava deles, nunca implorava, um leão não se curva a ovelhas, mesmo que essas sejam parecidas com a Percy Jackson.
E então, fora da barreira, várias pessoas apareceram de uma vez.
A Ordem!
— Droga! — Dolohov gritou quando
começou a duelar com Remus.
Os gêmeos Jorge e Fred começaram a atacar Lucius assim como Bill e Fleur atacaram Grayback em uma vingança pessoal e merecida.
— Oh meus queridos! Vamos sair daqui agora mesmo. — Molly Weasley correu até eles, abraçando os dois com força e os levando fora da barreira. Nesse momento eu estava em lágrimas.
Harry estava seguro, conseguiríamos.
— Para meu mestre!
Eu reagi antes que pudesse pensar, enrolando o corpo de Harry com o meu como um cobertor.
Foi um momento de distração dos gêmeos quando Lucius conseguiu gritar o feitiço, um momento pelo qual eles nunca se perdoariam. Um momento que ficaria gravado na memória de todos, mas principalmente na de Harry Potter.
— Sectusempra.
O feitiço penetrou rápido na pele como uma lâmina serrilhada, cortando cada parte do corpo.
Alguém gritou.
Não foi eu, o sangue engasgado na garganta não permitiu isso.
Mãos seguraram meu corpo como se tivesse tentando manter tudo junto, era inútil, cada corte era grande demais, largo
demais e sangrava muito.
Olhos verdes entraram em foco, desespero, choque, tanta dor.
Pare.
Eu queria dizer.
Eu estou em paz.
Mas eu não conseguiria dizer nada, estava engasgando com meu próprio sangue, meu corpo gritando de dor de ser separada como gado.
Só encarei seus olhos verdes, tão intensos, tão tristes, quebrados.
Eu queria salva-lo e o condenei a uma vida de pesadelos em segurar sua melhor
amiga que agora era um retalho de carne triturada.
Eu sinto muito.
Me perdoei.
Se perdoe.
Seja feliz.
Eu só queria que você fosse feliz.
Eu te amo tanto.
Harry gritou no fim, seu som de angústia me seguindo até a escuridão, meus olhos agora sem ver, encarando o nada.
Quando acordei, eu gritei, alto e claro pela noite adentro.
Meu corpo ainda lembrando da dor de ser partida em pedaços, minha mente presa naquela angústia eterna.
— Oh meu bebê. Não chore, mamãe chegou. — Uma mulher estranha chegou perto, tão perto que eu virei para o outro lado...do berço? Aquilo era um berço?
Gritei ainda mais alto quando a mulher me pegou no colo, era como jogar sal na ferida.
— Calma agora Hermione, você tá com fome é isso?
Estou morrendo!
Eu gritei de volta mas tudo que saiu era
um lamurio mais alto que antes.
— Minha princesa chorosa. — A mulher estranha me deitou no colo, me olhando diretamente nos olhos.
Verdes.
Tão verdes e tão familiares.
Harry.
Melhor amigo.
Família.
Família?
— Viu? Agora tudo está melhor. — A dor se foi, esquecida com o vento. Meus olhos de repente ficaram muito cansados e eu deitei a cabeça no corpo dessa mulher estranha que era ao mesmo tempo
familiar.
Harry.
Família.
Seguro.
