A sala de estudos de Poções sempre era fria, escura e úmida, estando próximo às masmorras, não era uma surpresa.

Então a maioria dos alunos sempre vestiam a túnica até o pescoço, enrolando as mangas até o pulso e para aqueles mais avançados, usavam feitiços de aquecimento.

Um grupo passou rindo pelas mesas, sua áurea alegre e brincalhona sentida por todos no recinto. Era impossível não olhar para os Marotos, impossível não se sentir atraído pelo charme de James, a beleza de Sirius, a timidez de Remus e a suavemente de Peter.

Até mesmo os Sonserinos olhavam pelo canto do olho, embora negassem e se fossem visto fazendo, diziam que era por

causa do barulho que os garotos proporcionavam.

Exceto que uma garota na sala nunca olhava. Ela, uma ruiva de cabelos muito espessos e olhos incrivelmente velhos, fitava o livro distraidamente, rabiscando palavras desconexas nas bordas.

Não é que ela não percebeu-se os garotos, ela sempre percebia, esse era o problema.

Não importasse que eles estivessem a passos de distância ou a um castelo, Hermione sempre os teria no radar. Fazendo isso inconsciente ou não, ela os teria a palmo de distância.

Por isso, ela sugou uma respiração quando cheirou a aproximação de Remus Lupin, seu antigo professor e colega de

Poções.

Hermione mordeu os lábios, arranhou a mesa com as unhas e se recusou a olhar naquela direção.

— Boa Tarde, Evans.

— Boa, Lupin. — Ela respondeu, medida, o tom frio e distante como sempre. Aquilo não abalou Remus, ele estava acostumado com seu jeito estranho.

Ele não deveria se acostumar. Se acostumar quer dizer familiaridade e isso é muito ruim no currículo de Hermione GrangerEvans.

Estava até na sua lista de coisas a não fazer quando tiver em Hogwarts, sublinhado em negrito como para não

esquecer.

Número 2. — Não se aproxime de pessoas do seu passado.

Essa lista não inclui Lily PotterEvans por motivos óbvios.

— Você já começou o trabalho? — Remus perguntou com uma leve descrença na voz, encarando o caldeirão borbulhante em cima da mesa.

— Não. É só água fervente. Dá última vez que eu iniciei sem o Horácio na sala, ele se atreveu a tirar pontos da minha nota final. — Hermione respondeu com uma ponta de sarcasmo na voz.

Harry teria ficado orgulhoso.

Hermione se bateu internamente. Ela não pensava em Harry. Pensar em Harry era doloroso, como ácido derramado sobre a ferida aberta.

— Você tem uma veia rebelde. — Remus brincou levemente, sentando-se ao lado dela. Hermione se encolheu minimamente. — Sirius adoraria você.

— Black adora qualquer par de pernas sobre uma roupa justa. — Hermione respondeu com altivez. Remus riu.

— Isso é verdade. — Remus concordou, a risada morrendo lentamente. — Evans, eu sei que não somos próximos mas eu queria te perguntar algo.

— E eu aqui pensando que você me consideraria sua melhor amiga. — Ela

brincou e não conseguindo evitar, olhou na sua direção brevemente. Ela encarou olhos castanhos arregalados, cicatrizes pálidas e vermelhas salpicadas por todo o rosto jovem. Hermione desviou rapidamente, mordendo o canto internado da bochecha pra evitar chorar. Tão jovem. — Brincadeira. O que você queria dizer?

Remus soltou um suspiro suave, seu coração batendo de forma irregular. Ele nunca tinha percebido até aquele momento que nunca encarou os olhos lendários de uma Evans.

De repente, ele pensou por um segundo que a obsessão de James não era tão absurda assim. Ele se bateu até se livrar desses pensamentos perigosos.

— É que..bom, você sabe que os exames

estão chegando.

— Sim?

— E você comece James, certo?

— Eu não acho que exista alguém que não conheça Potter, ele se certificou disso.

— Certo, é verdade. — Remus soltou uma risada nervosa, penteando o cabelo liso e macio que caia sobre a testa. — Mas a questão é que ele sonha em se tornar um Auror, esse lance de querer ser um herói e tudo mais. Mas James é péssimo em Poções e eu pensei que você poderia...

— Ensiná-lo?

— Sim.

Hermione ficou calada por vários segundos, seu coração batendo tão forte no peito que doía.

Ensinar James? O pai de Harry? Sua cópia carbono?

A mão de Hermione começou a tremer levemente e ela escutou ao fundo o professor entrando na sala e cumprimentado os alunos.

Ela sentiu a bile subir pela sua garganta, interrompendo sua respiração, deixando-a a deriva. Ela teria vomitado na mesa se isso não piorasse sua situação já ruim.

De todos, exceto Lily, James Potter sempre a afetou pior. Ela chegou a pedir para ir a Corvinal para não ter que encontrá-lo na Torre da Grifinória (só uma

vez na Estação foi o suficiente) ela foi recusada. Chapéu estúpido dizendo que suas cores sempre seriam vermelhas.

Eu lutei vermelho, sangrei vermelho e morri por essa maldita bandeira. Uma vez não foi o suficiente?

Aparentemente, não.

Ela sabia que sua magia estava em descontrole emocional desde "renasceu" firmemente ligados às suas emoções e qualquer coisa forte demais poderia causar um episódio.

As cicatrizes que adornam a barriga e coxas de Lily são a prova viva disso : Hermione não acha que poderia se odiar mais do que já se odeia.

Remus tocou sua mão em cima da mesa e ela puxou como se tivesse queimado, enrolando a palma no colo, o mais longe possível do contato humano.

— Eu vou ajudá-lo. — Ela disse com a firmeza que não sentia. — Mande-o me encontrar na biblioteca a tarde amanhã. Sozinho.

Ela não poderia lidar com mais de um de uma vez, seu corpo e seu espírito não aguentaria.

Hermione nem sabia o porquê tinha concordo, exceto que ela era o que sempre foi, uma fraca completa para os Potter, não importa quem carregasse esse nome, não importava a época, era como algo escrito nas estrelas.

Exceto que Hermione GrangerEvans era descrente demais para algo assim e o associou a Codependência que ela sempre sentiu por Harry, até que morreu por isso.

Os filósofos estavam certos, afinal, o amor não morre, mesmo após a morte, ele permanece queimando, vivo como brasas de uma fogueira.

— Muito obrigado por isso, você não tem obrigação nenhuma e mesmo assim está disposta a ajudá-lo, mesmo que ele viva importunado sua irmã. — Remus soltou uma piada, mesmo que fosse péssimo nisso, para aliviar o clima que ficou depois de ter cometido o erro de tocá-la.

Remus Lupin não sabia muito sobre Hermione Evans, mas sabia que ela odiava

qualquer contato físico, exceto da sua irmã.

Funcionou, ela soltou uma leve risada, os cachos soltando quando seu corpo tremeu levemente.

— Cá entre nós. Eu acho que eles terminarão juntos.

Remus ergue as sobrancelhas, surpreso com tal comportamento. Era de se pensar que do jeito que Lily proclamava seu ódio por seu amigo, Hermione compartilhará esse sentimento ou pelo menos defenderia a escolha da irmã em manter distância.

Aparentemente, não.

— O quê te faz dizer isso?

— É uma sensação, sabe, como se eu já tivesse visto esse filme antes. — Disse ela misteriosamente, voltando sua atenção para o seu caderno rabiscado até a borda.

Eles seguiram esse ritmo até o fim da aula que consistia em Horácio bajulando os alunos ricos e que estavam em "alta" na sociedade bruxa.

O encontro com James Potter foi como Hermione previra, um desastre.

O amanhecer chegou mais rápido que Hermione se sentiu confortável, o peso da sua promessa queimando através do seu crânio.

Nem mesmo as aulas, a conversa incessante de Lily (Hermione adorava sua irmã com todo o coração, mas ela falava tanto que rivaliza com Ron Weasley) ou os feitiços que ela praticava sozinha na Sala Precisa foram o suficiente para distraí-la da hora que se aproximava como um dementador, sugando toda sua força vital e a deixando doente.

Lily passou o dia perguntado o que tinha de errado, proclamando que ela estava mais "estranha" que o normal. Hermione dispensou como o estresse para os exames que se aproximam. De jeito nenhum ela diria a irmã que estava se encontrado com seu futuro marido, Lily era capaz de marchar até os Marotos e perguntar qual foi o feitiço de compulsão que lançaram nela.

Ela escolheu a mesa mais distante da entrada, distribuindo os livros necessários, suas anotações, penas, tinteiro e afins. Hermione deitou a cabeça na mesa fria, respirando e expirando lentamente do jeito que sua mãe ensinou.

Hermione surtou quando sua carta de Hogwarts chegou, informando que ela também era uma bruxa e que ela estava convidada a ingressar em Hogwarts.

É claro que ela já sabia disso, sabia desde que nasceu; mas não percebeu que estava em negação até aquele momento.

Tudo era muito real, muito fresco. Ela ainda podia sentir a dor de ser perfurada, de ter todo o ar arrancando dos seus pulmões em conjunto com órgãos sendo triturados.

— Hermione, meu amor, você precisa se acalmar. — Wanda se aproximou lentamente da filha que estava abaixada do lado da cama, seu rosto contorcia de dor. Ela não tocou a filha, sabia que aquilo só iria piorar a situação. — Respire comigo. Você pode respirar comigo minha princesa?

Hermione acenou lentamente, incerta.

— Coloque a mão na barriga como a mamãe. — Ela mostrou movimento a filha devagar, inspirando seus movimentos lentos e mecânicos com uma expressão serena. Hermione fez exatamente como a mãe, sua mão tremia. — Agora inspire fundo, sentindo o movimento no seu abdômen. Segure durante 4 segundos e depois, expire.

Hermione seguiu, sentindo o tremor indo embora, juntamente com a sensação de vazio que a invadiu.

Elas repetiram o processo até que Hermione parecia com ela mesma novamente, um sorriso triste adornando seus lábios rosados.

— Eu sou um problemão, não é mesmo? — Ela disse amargamente. — Em vez de comemorar como uma criança normal como a Lily, eu surto igual uma maluca.

— Não. — Wanda disse com tanta força que Hermione se assustou. — Você, Hermione, é minha filha e nenhum dos seus problemas será grande o suficiente para mim. Eu sou uma mãe e mães são osso duro, nada e nem ninguém poderá dizer o contrário. Você poderia surtar e

matar todas os nossos vizinhos e eu ainda te amaria.

— Até a senhora Natasha? Eu sei que a senhora ama conversar com ela e trocar receitas.

— Se você puder poupar Nat e seu marido, eu agradeceria. — As duas começaram a ri, a atmosfera leve e descontraída.

Ela quase se sentiu ela mesma quando uma vez tirou sua concentração.

— Eh, Evans? Eu sou James Potter, o seu aluno da tarde. — Uma figura se elevou sobre ela, o cheiro de pinho fresco e sol invadiu suas narinas, inundando seu sistema.

Hermione quase se jogou no chão e se

encolheu como uma bola chorosa quando ouviu sua voz tão perto.

— Sente-se. Você trouxe suas anotações das aulas? — Disse em um tom profissional. Ela tinha que tentar se manter distante se esperasse passar por isso viva.

— Sim. — Ele puxou um maço de pergaminho e o jogou sobre a mesa. — Minhas anotações do mês.

Hermione se inclinou e começou a alisar os pergaminhos amassados para lê-los.

James reclinou sobre a cadeira, ficando nas "pernas" de trás, balançando lentamente.

Ele admirou essa Evans que até então ele não sabia que existia.

Seus cabelos eram cacheados em vez de lisos, sua cor mais clara que o vermelho sangue da sua futura esposa, sua pele também era mais pálida, como se nunca tivesse visto o sol na vida.

E ela era...silenciosa.

Aonde qualquer pessoa teria um tique de bater os pés, estalar a língua ou estalar os dedos durante uma revisão, Hermione ficava mortalmente quieta.

James quase se inclinou para bater na frente do rosto dela e quebrar sua concentração. Mas então ele lembrou que sua carreira dependia dela e ficou quieto.

Durou 15 segundos.

— Impressionante, ein? — Ele disse com

um sorriso torto. Daqueles que nenhuma mulher resistia, ele era James Potter, afinal.

— Sim. — Ela acenou, esfregando os olhos verdes hipinotizantes. — Estou impressionado como alguém tem uma letra tão ruim assim.

— Espera, o quê?! — Ele já tinha começado a sorrir quando ela concordou com ele. Seu sorriso morreu tão rápido quanto surgiu. — Eu não sou tão ruim assim!

— Pense em um nível de ruim. Você é pior que isso. — Ela sacudiu o pergaminho na frente dele, segurando pela ponta como se tivesse nojo. — Você não tem nenhum sendo de direção, começa a escrever pela direita e finaliza na esquerda. Cadê os espaços nisso? E essa letra é o que

exatamente? Um P abortado?

— É um T. — James disse entre os dentes.

— Um T só se for em Marte! — Hermione zombou. — E porque diabos você escreveu poemas nas bordas?

— Eu estava inspirado! Não podia perder isso, tinha que escrever imediatamente!

Seus cabelos são tão vermelhos quanto o sangue do meu dedo, tão brilhante quanto o pomo que eu desejo. — Hermione leu tudo com uma careta. — Seria melhor ter esquecido.

— Que dia é hoje? Será o dia de "Humilhar James Potter?" Acho que perdi o memorando. — James disse com sarcasmo, seu rosto tão vermelho quanto

sua gravata.

Hermione parou com o pergaminho no ar, uma frase congelada nos lábios. Ela não tinha percebido, ligada demais na discussão, que encarava James Potter o tempo inteiro.

Sua gravata em desalinho, as mangas da camisa arregaça até os cotovelos, mostrando seus músculos duro sobre pele bronzeada. Seu pescoço exposto e esbelto era longo, percorrendo um caminho até seu queixo duro e quadrado, aonde tinha uma pequena sombra de barba por fazer.

Os cabelos negros e rebeldes praticamente soltaram da sua cabeça, caindo sobre a base do pescoço, as orelhas, têmporas e principalmente sobre os olhos escuros vividos que a encara

com fogo sob os óculos redondos.

Hermione abaixou o olhar rapidamente, todo o fogo de antes se extinguindo tão rápido quanto apareceu. Ela puxou um pergaminho em branco para si, seu coração batendo tão rápido que ela sentiu o pulso bater contra sua garganta.

— Desculpe, eu passei uma linha. — Hermione disse baixinho, tentando fazer o controle da respiração sem que ele percebesse.

James piscou, surpreso. A mudança foi tão brusca que ele não teria acredito que eram a mesma pessoa se não tivesse visto com os próprios olhos.

— Tudo bem, Evans, não foi nada.

— Aqui. — Ela lhe entregou um pergaminho com um texto bem elaborado. A caligrafia era tão bonita que parecia falsa. — Vamos começar com os ingredientes secos como Raízes, evas, pó e ingredientes externos de animais. Depois passamos para ingredientes viscosos e molhados e finalmente para o preparo. Eu elaborei um plano amplo para que conseguimos prepará-lo para os exames com louvor.

James segurou o pergaminho, boquiaberto.

— A quanto tempo você fez isso?

— Hum? Fiz ontem. — Respondeu distraidamente. Ela começou a ler o restante dos pergaminhos e ver quão parte ele tinha mais dificuldade. — Pensei que você poderia precisar.

— Uau, quer dizer, obrigado, Evans. — Ele disse, estranhamente tocado.

— De nada. — Ela respondeu. Hermione não levantou os olhos, ela não sorriu nenhuma vez desde que ele chegou.

Ele tinha a impressão que ela não sorria muito, o que era o oposto de Lírio, que sorria quase o tempo todo.

Por algum motivo, ele queria vê-la sorrir.