Eu estou bem.

— Lily, você sabe que aquilo não era verdade. — Mary disse, seu rosto redondo e corado por ter corrido.

Eu não prestei atenção, muita ligada em manter um pé na frente do outro.

Eu estou bem.

— Sim! Ranhoso é um canalha de merda, eu te avis- — Marlenne é interrompida por Mary que lhe deu um tapa na barriga.

Eu tropeço nos meus pés, minha garganta queimando um pouco. Eu não sei porque, eu não sei.

Meu peito dói.

— Ele só estava com raiva. — Mary tentou novamente, seus olhos azuis arregalados e assustados. — Eu tenho certeza que ele vai voltar rastejando.

Eu espero que ele tenha um pouco de autopreservação e fique no ninho de cobras nojento aonde é o lugar dele ou eu juro que posso matá-lo. — Marlenne disse com ódio na voz, como se ele realmente pudesse cumprir a ameaça.

Um sentimento de defendê-lo subiu pela minha garganta, arranhando a superfície como hábito. Engoli com força.

Não é mais minha obrigação, estou começando a achar que nunca foi.

Minhas pernas lutando para subir as escadas com presa, a bolsa pesada

batendo no meu lado e machucando minhas costelas.

Um suspiro escapa dos meus lábios e minha barriga aperta dolorosamente.

Jogo minha bolsa na cama, encostando a testa no pau que mantém a cortina para privacidade e tento controlar minha respiração.

Consigo sentir a preocupação palpável de Mary nas minhas costas e a ira de Marlenne.

Eu estou bem.

A respiração sai um pouco mais rápida, mais difícil.

— Lily? Você está-

— Estou bem! — Interrompi Mary antes que ela pudesse completar a pergunta. — Eu finalmente vi a verdade que recusei durante anos não é? Eu estou magnífica!

Um soluço escapou pela minha boca e eu fui rápida em tampar com as costas da mão.

Corri em direção ao baú no pé da cama, ignorando a preocupação delas e a dor que insistia em irradiar pelo meu estômago até meu peito.

Abrir o fecho com facilidade e puxei do fundo um maço de cartas e fotografias.

Eu ri quando vi a letra caprichada de Severus no pergaminho velho, limpando com força a umidade incomoda no meu rosto.

— Eu fui tão estúpida! — Disse para ninguém em particular, espalhando todas as cartas e fotos ao meu redor. — Eu nunca vi ele pelo o que realmente era. Como pude ser tão cega?!

Sangue-ruim.

Eu Balancei a cabeça, tentando esquecer a raiva no seu rosto que nunca foi dirigida a mim antes e as suas palavras detestáveis.

Comecei a rasgar cada cartas, ignorado a conversa de Mary e Marlenne ao fundo.

"Lily, você não vai acreditar no que aconteceu aqui em casa essa noit-"

O papel foi dilacerado e jogado no chão. Peguei outra.

"Eu finalmente encontrei! Mamãe acha que conseguiu esconder mas eu-"

Os restos se juntou com a outra e mais outra se seguiu.

Todas palavras faladas por um mentiroso. Tudo era mentirosa, não importava, eu não me importo mais.

Eu estou bem.

Braços finos rodearam meus ombros e eu me debatia, gritando como um animal enjaulado.

— Está tudo bem, Lírio. — Era a voz de Hermione. Minha irmãzinha.

Eu não respondi, eu não conseguia, tudo que eu conseguia era me rebelar contra o seu conforto. Eu não precisava disso, eu

estava bem.

Hermione lutou comigo, me abraçando mais forte e deitando comigo no chão frio, sobre as cartas rasgadas e lembranças destruídas.

Uma lembrança soltou para a minha mente, o momento que eu guardava com tanto carinho e lembrava quando as coisas ficassem difíceis, eu tirava força dela quando outro puro-sangue fazia questão dizer como eu era "inferior".

— Faz diferença ser nascida trouxa?— Eu perguntei de repente.

Snape hesitou. Seus olhos negros, ansiosos à sombra esverdeada.

Meu coração batia forte no meu peito, esperando e ao mesmo tempo, temerosa

de sua resposta.

— Não — garantiu ele. — Não faz a menor diferença.

— Que bom — Eu respondi com um sorriso. Severus sabe tudo sobre o mundo mágico, ele foi criado sabendo sobre isso, ele jamais mentiria para mim. Estava tudo bem.

Eu parei de lutar, apertando o braço de Hermione com força e finalmente, aliviando a pressão no meu peito que se tornou insuportável.

Não está tudo bem.

Se-seu mentiroso! Agh, e-ele mentiu. — Eu gritei entre soluços, meu peito aberto e

sagrando vermelho. Aquilo era insuportável, cada segundo sendo pior que o outro. — porque? P-porque? Eu p-poderia tê-lo ajudado?

Cada lembrança com o meu primeiro amigo, meu melhor amigo passava pela minha mente.

Severus me falando de Hogwarts e como a gente seria os melhores alunos juntos.

Ele me guiando pelo Beco Diagonal.

Tomando sorvete pela primeira vez, sorrindo quando conseguimos nossas varinhas.

Explorando o castelo.

Sorrindo um para o outro durante a aula, feliz quando o outro se saiu bem.

Eu senti como se uma parte fosse arrancada de mim a força, como se

separarem a pele dos ossos com um bisturi.

Gritei mais alto, ficando sem ar a cada rodada de soluço.

E apesar de tudo, eu não conseguia deixar de amá-lo e isso só tornava tudo mais doloroso.

Eu fervia enquanto descia as escadas, pisando fundo a cada passo.

A coragem do bastardo!

— Marlenne, para! você não pode amaldiçoar Snape. — Mary puxou meu braço com força e eu quase mordi sua mão.

— Eu posso e eu vou! Você viu o estado que ele deixou a Lils! Ela chorou até dormir nos braços da Hermione e ainda continua soluçando durante o sono. Isso é perverso demais! — Eu quase gritei no rosto de Mary. Ela precisava entender! Eu ignorei essa situação por tempo demais.

Eu sempre desconfiei desse Ranhoso mas nunca forcei a barra por respeito a minha melhor amiga. Eu sabia que ele arrancaria o coração dela do peito e ainda pisaria nele.

— Você imaginaria como a Lily se sentiria sobre o Severus na Enfermaria?

— Muito feliz? — Eu disse incerta, não acreditando nas minhas próprias palavras.

Mary levantou uma sobrancelha, os lábios franzido em repreensão. — Você não acredita mesmo nisso né?

— Não, eu não. — Suspiro em derrota. Lily é boa demais para ficar feliz com o Ranhoso machucado. Isso, provavelmente, só serviria para aproximá-los.

Mas isso não pode ficar assim. Esses Sonserinos malditos acham que podem machucar qualquer um em qualquer lugar e saírem impunes.

Mas, como eu poderia machucá-lo sem machucar a Lily? Como eu poderia fazê-lo sentir pior do que um inseto morto e inútil?

— Deixa que eu tento mandar ele embora. Eu sei que consigo ser mais gentil que você nessa. — Ela disse com um

semblante infeliz mas logo transforma a cara para algo mais dócil e gentil. Aquele sorriso, combinado com os olhos cristalinos, faria qualquer um derreter na hora e ser manipulado por Mary.

Espera.

Não, isso é insano, maluquice.

Ou talvez, só talvez, genial, o plano perfeito.

— Deixa que eu vou. — Paro a Mary antes que ela caminhe até o quadro da Mulher Gorda.

Ela suspira novamente, abrindo a boca para o que acho que seja outro discurso.

— Eu juro que não vou amaldiçoar o Raro-

Snape. — Me apresso em acalmá-la. Mary não acredita, cruzando os braços sobre o peito. — Eu prometo, ok? Mas você tem que me deixar fazer isso.

Ela pensou por um minuto, antes de suspirar e voltar para a escada. — Só..pensa na Lily antes de fazer qualquer coisa, ok?

— É nela que estou pensando. — Respondo sem olhá-la, indo até o quadro e passando por ele.

Ele se levantou de supetão quando escutou o barulho do quadro, seus cabelos longos pareciam macarrão escorrido ao redor do rosto pálido e doentio e seus olhos negros pareciam duas poças de piche fervente.

Ele educou sua expressão tão rápido que eu não percebi sua cara antes, fazendo aquela posse arrogante e fria de um típico Sonserino de merda.

Nem parece que veio rastejando atrás do perdão de uma Nascida-Trouxa. Hipócrita do caralho.

— Cadê a Evans? Eu estava procurando por ela. — Ele disse com firmeza, apertando o livro que ele tinha na mão. Talvez sua desculpa se for pego nos corredores a essa hora.

— Dormindo. — Respondi simplesmente, tentando colocar a minha voz mais mansa e despreocupada. — Ela ficou muito cansada depois de rasgar todas as suas cartas.

Lá! Um brilho de dor brilhou nos seus olhos, um músculo se contraindo na sua mandíbula antes de desaparecer sobre o manto de prepotência.

Ele limpou a garganta. — Você poderia acordá-la? É um assunto urgente.

— Tenho certeza que é. Quer chamá-la de Sangue-ruim de novo? Só pra ter certeza de ela ouviu o insulto naquela hora?

Ele arranhou um pouco os dentes, os dedos se afundando na capa do livro. Sorrir internamente.

— Não vejo como meus assuntos com Evans seja da sua conta. — Ele disse, perdendo um pouco a compostura. — Agora se você puder tentar acordá-la. Eu agradeceria. — Ele não parecia nada

agradecido.

Isso estava ficando melhor a cada minuto.

— Eu tentei. — Coloquei a minha cara mais humilde. O rosto choroso que eu aprendi quando criança para meus pais acreditarem que eu não roubei a varinha deles. — Mas ela parecia devastada! Acordou por um minuto e proclamou que não queria te ver. Eu acho honestamente que ela está exagerando! — Quase vomitei na minha boca quando disse aquilo. Mas me mantive firme, segurando seu olhar e apreciando a surpresa que apareceu sob as rachaduras da sua faixada.

— Você acha? Não, isso não importa. Eu não deveria ter vindo aqui de qualquer maneira. — Ele fez um barulho de nojo e se virou para sair.

Eu tive que pensar rápido antes de perder a minha chance.

— Eu entendo, você sabe. Eu também sou uma sangue-puro, sei bem quando temos que mentir para sermos aceitos. Não deve ser fácil para você escolher entre sua casa e sua melhor amiga. — Ele parou de andar, suas costas tensas para mim. — Eu poderia ajudá-lo nisso.

Em qualquer outro dia, Snape teria visto sob a minha mentira, em qualquer outro dia, ele teria gargalhado na minha cara ou faria aquela cara de nojo que ele faz para qualquer um que não seja os Sonserinos ou Lily.

Mas esse dia era especial. Esse dia foi o dia que Snape finalmente escorregou e

afastou a única pessoa que ainda podia amá-lo. O dia que ele soube que essa mesma pessoa foi dormir chorando depois de rasgar as lembranças dos dois.

Ele era fraco, vulnerável, seus escudos foram destruídos pela primeira vez em anos. Ele estava exposto e eu me aproveitaria disso.

Eu entraria nesses escudos, desvendaria seus segredos, seus medos e desejos, me infiltraria na sua mente, no seu coração.

Snape dormiria pensando em mim, acordaria com meu nome nos lábios e então, só então. Ele pagaria.

Ele nem estaria preparado para o tanto que eu vou destruí-lo de dentro para fora.

— Como? — Ele disse uma única palavra

com desconfiança, seu corpo tenso, querendo correr o mais distante possível.

Deveria escutar, Ranhoso.

— Eu sou a melhor amiga dela. Eu a conheço como ninguém, (exceto Hermione) tenho certeza que poderia ajudá-lo a reconquistar a confiança dela.

— Mas porquê você faria algo assim? — Os olhos dele brilhavam sobre a penumbra, sua forma esguia se misturando com facilidade na escuridão do castelo.

— Tudo tem um preço, Snape, como Sonserino, tenho certeza que você está familiarizado com isso. A questão é, você está disposto a pagá-lo?