Em pé sobre uma plataforma estava um rapaz alto, com cabelos pretos muito bagunçados e calorosos olhos castanhos da cor mais pura do chocolate.
Era dia 2 de Julho e o garoto estava em profunda reflexão, ao seu redor, alunos corriam com suas malas, alguns com lágrimas nos olhos com a despedida do tão amado castelo e outros muito felizes com a perspectiva de ver a família.
Mas o estranho garoto com vestes ricamente bordadas, óculos redondos na ponta do nariz e lábios rosados estava em seu próprio mundo, encarando sem ver a tinta da grande locomotiva.
James Potter nunca pensou que odiaria seus melhores amigos, ele é incapaz disso, eles são seus melhores amigos, as
pessoas mais próximas a ele, a quem ele confiaria com a sua vida, quem ele daria a vida para proteger. Então para ele, tais sentimentos dirigidos a Sirius, Remus e Peter eram inconcebíveis.
Mas agora, parado nessa plataforma cheia, com fumaça entrando nas narinas e o ar úmido encharcando seu casaco preto e vermelho, James Potter pensa que não sabe de nada da vida.
Ele não é bobo, sabe que tem mais sorte que a maioria. Ele é filho único de pais ricos e de uma família proeminente, dinheiro, status e recursos de qualquer forma nunca foram problemas para ele, um herdeiro Sangue-puro.
Durante toda a infância ele foi mimado pelos pais, pelos elfos e qualquer um que
quisesse um "Favor" dos Potter. Então sim, James sempre teve noção de como a sua realidade era diferente da maioria.
Sirius nasceu em uma família igualmente rica e igualmente poderosa mas foi maltratado pela família, nunca chegando a receber um aperto de mãos do pai ou um carinho da mãe, tudo que ele conheceu foi a dor que receberia se chorasse alto demais.
Lupin tinha uma boa família, eles o amavam e ele os amava na mesma medida, mas então uma coisa inimaginável aconteceu e Remus ficou condenado para a toda vida, nem mesmo o amor de seus pais eram capazes de mudar o preconceito do mundo que ele enfrentaria, não poderiam impedir que ele quebrasse seus ossos toda lua cheia e
nem fazer sumir suas cicatrizes.
Peter era mais do mesmo, um mestiço com o suficiente pra viver, com uma aparência mediana e uma mãe fraca demais para proteger o filho do próprio pai, preferindo deixar o menino levar todo o ódio até que a escória se acalmasse o suficiente para dormir, então ela pegaria o filho, limparia suas feridas com magia e afirmava que ficaria tudo bem.
James não sabe toda a história, exceto que tem uma noite específica que Peter deita na cama, enrola o travesseiro sobre a cabeça e somente chora quando acha que os seus amigos dormiram.
James não dormia e ele sabia que nenhum dos rapazes também.
A questão é que ele sabe que é diferente, e
as vezes, quando ver Remus sofrendo, Peter encolhido na cama e Sirius se afogando na bebida, ele se sente tão culpado que quer arrancar a própria pele.
James encontrou um compartimento no meio da massa, sentou-se com as costas contra a janela, lançou um feitiço contra a porta e deitou a cabeça na parede, fechando seus olhos e suspirando baixinho, seu estômago apertado e dolorido.
Sentir aquele sentimento contra seu melhor amigo, seu irmão, não era natural, era estranho, incômodo e ele gostaria que parasse.
Mas.
A memória do medo de Snape não sai da
sua cabeça, dando voltas e voltas e sempre parando no mesmo lugar, os arregalados, boca aberta, palidez repentino e o pânico de enfrentar a morte de frente.
Snape não ficou daquele jeito nem quando James com os garotos aplicaram as pegadinhas mais cruéis e Merlin, James sabia que podia ser cruel as vezes. Mas ele nunca imaginou aquele medo dirigido a eles.
Eles eram os Grifinórios! Os valentes! Os corajosos! Os bons! Eles não aplicavam medo em ninguém, isso era os Sonserinos com seus planos maléficos e risadas cruéis.
Remus era um Lobisomem. James, Sirius e Peter sabiam disso desde o 2 ano. Eles
não se importavam porque Remus também era inteligente, engraçado, tímido e valente. Ele era Remus antes de ser o Lobisomem. Mas mesmo isso não invalida o perigo dele transformado, ontem foi a coisa mais assustadora que aconteceu na vida de James, e tudo era culpa de Sirius.
Seu estômago queimou novamente, subindo para sua garganta até sua cabeça e Merlin, James queria socar algo, de preferência a cara de Sirius.
E era por isso que ele estava se escondendo dos seus amigos, as pessoas que ele nunca pensou que iria querer distância.
Ele não queria machucá-lo, mas ele não confia em si mesmo no momento para não fazê-lo.
Um clique foi audível e a porta do compartimento foi aberta, entrando na cabine estava uma moça de catorze anos com um corpo bem definido e cachos grossos e ruivos saindo da cabeça.
James se endireitou rapidamente, suas mãos suando e o coração batendo forte no peito, seus olhos se arregalando a um nível quase cômico.
— C-como?
— Eu entrei? — Hermione Evans perguntou em um tom mandão e petulante, seu pequeno nariz de botão arrebitado para cima. — Francamente, Potter, até uma criança de 5 anos aprendendo as nuances da magia conseguiria passar pelo feitiço primitivo que é o seu Não-Me-Note. — E se sentou em frente a James, sua roupa um
pouco grande demais no seu corpo pequeno.
Engolindo um insulto que subiu por sua garganta, James decidiu ignorar Hermione Evans. Ele estava grato por ela ensiná-lo a Poções e estava otimista que foi bom o suficiente para cursar a matéria no próximo ano.
Mas o que ele aprendeu sobre a Evans mais jovem em três aulas com cinco horas de duração cada era que Hermione era mandona, exigente e um tanto tagarela. Mas nunca divagava, era uma linha tênue, ela falava muito para julgar seus erros mas nunca para jogar conversa fora.
Então ele ficou no mínimo surpresa quando foi ela que iniciou a conversa. Ele esperou um sermão.
Não estava errado.
— Você estava se escondendo?
— Fui tão óbvio? — Seu tom pingou sarcasmo, ele sentiu um toque de arrependimento, mas sua mente era caótica demais para pedir desculpas.
Ele compraria um casaco novo com bordado de ouro e ela ficaria feliz em perdoá-lo.
Hermione revirou os olhos verdes que eram idênticos ao de Lily e ao mesmo tempo muito diferente.
— Eu quero saber o porquê! — Ela fez uma cara de "Dã" e cruzou as pernas, uma mão batendo no joelho.
— Não acho que isso seja da sua conta, Evans. — Ele mordeu de volta, encostando a cabeça na janela e fechando os olhos. Ele não estava nem um pouco interessado que Hermione tinha finalmente achado um tópico que carícia de sua digníssima atenção.
Engraçado que era a única coisa que ele não queria conversar.
— Eu acho que é algo relacionado ao incidente depois das provas finais de história. — Hermione continuou, ignorando completamente sua dispensa. Porque James não estava surpreso com isso? — Todo aquela lance com o Snape deve ter atingindo um nervo. Não me surpreende, considerando que vocês tem um histórico.
— Não existe o nós com o Snivellus e Eu.
— Mas foi só mais uma brincadeira entre tantas que você fez antes. Você está tipo acostumado a humilhar ele em público com seu bando de marujos-
— Marotos!
— Isso não deveria ser problema! Uma humilhação a mais, uma a menos, Quem se importa?! Enfim, será que foi por causa de Lily? Isso faria sentido! Toda a sua "brincadeira" pode ter acabado com uma amizade de anos.
— Eu não- — James não conseguia falar, sua mente girando para entender tantas palavras juntas. Ele foi realmente o culpado pelo fim da amizade de Lily? Ela está melhor sem o Snivellus, isso é
inegável. Então ele fez uma coisa boa, certo?
— Mas isso faria você sentir duas possíveis coisas. Primeiro - Culpa. Mas vamos descartar essa, você humilhou alunos por anos e nunca sentiu culpa, desfazer a amizade de Lily não deveria causar isso, considerando que Snape está no meio. Segundo - Raiva. Toda aquela situação de Lily ser chamada daquilo deveria ter te deixado irado, no limite. Mas também estou descartando essa, faz dias desde o acontecimento e você não revidou e nem nada, além disso, não faria você se afastar dos seus amigos, na verdade, só juntaria você e Sirius no seu ódio mútuo pelos Sonserinos. Então, o que poderia fazer você se trancar em um compartimento isolado, com seus amigos feito loucos atrás de você?
James piscou lentamente, sua pálpebra tremendo e sua perna balançando no assento. Ele estava irritado. Ele detestava o sentimento, assim como detestava está com raiva dos amigos, mas Merlin, ele não sabia como pará-lo.
Ela não deveria ser capaz de dissecar a situação daquela forma, ela não o conhecia, não sabia nada sobre ele mas parecia não ter medo de julgar cada ação sua, tomando como certo sua opinião. O James "Normal" não teria se importado, teria rido, acenado e estaria fazendo uma piada sobre Hermione se abrir.
Mas James estava puto, cansado e honestamente não se importando com nada.
— Evans, você pode parar um pouco? Por favor? Eu não quero falar sobre isso e se eu quisesse, francamente, não seria com você.
— E com quem seria então?
O quê?
— Vamos lá. — Hermione riu como se lesse a confusão nos seus olhos. — Você não pode conversar com nenhum dos garotos, já que você está fugindo deles. Você tem o time de futebol, mas eu aposto que é mais uma camaradagem amigável do que amizade de verdade. A maioria das pessoas se aproveitaria para espalhar fofocas sobre você ou extorquir o "Grande Herdeiro Potter". Alguns mais inteligentes lamberiam o seu pé, procurando dinheiro, oportunidades e um favor futuro. E você,
sentindo a divida, obviamente cederia. Você não vai falar com os seus pais, eles te amam demais e seriam muito tendenciosos, assim como seus elfos domésticos. Então me diz, Potter, a quem você poderia desabar seus problemas? Eu prometo que serei honesta!
James se sentou de repente, copiando a posição de Hermione e bagunçado seu cabelo em frustração. Ele tentou retrucar, qualquer coisa que pudesse desfazer essa imagem patética que Evans pintou para ele.
Mas, ele não conseguiu. Cada palavra dela era revertida de verdade e ele não sabia o que pensar sobre isso.
— Mas porque eu confiaria em você? Você mesmo disse que a maioria iria extorquir,
porque você faria diferente? — Ele encarou seus olhos verdes e intensos, as maçãs do rosto saliente e a boca carnuda e apertada e mais uma vez, percebeu como ela era linda, de uma forma quase sobrenatural.
Hermione franziu as sobrancelhas, fez um gesto de desgosto e James quase riu de como aquilo quebrou a imagem de "Veela Sobrenatural".
— Eu te ajudei com as provas, Potter, tirei 5 horas de cada aula pra te ajudar, quando eu poderia está estudando e não te cobrei nada. Um pouco de gratidão?
As bochechas de James coraram roxo e ele teve que resistir a vontade de esconder o rosto. — Me desculpe, não quis ofender você. — Disse baixinho, os olhos piscando para qualquer lugar, menos para o rosto
dela.
— Está tudo bem! Já fui chamada de coisa pior, pelo menos você se desculpou.
James olhou para ela, horrorizado. — Isso era pra fazer eu me sentir melhor?
— Não! — Hermione riu novamente, batendo na própria perna. — Você foi rude, merece um bom beliscão.
— Justo. — James balançou a cabeça, um sorriso escapando entre seus lábios. — Mas eu ainda não sei porque você está fazendo isso.
— Tudo bem, eu te digo. — Hermione levantou as mãos para cima, seus lábios torcendo para o lado e um fio de cobre caindo no seu rosto. — Eu gosto dos seus
olhos.
— Gosta dos meus olhos? — James se perguntou se escutou certo.
— Sim. — Hermione acenou para confirmar. — Eles são tão escuros, diferente, eu gosto deles.
— Muitas pessoas tem olhos escuros. — Ele zombou, não acreditando naquilo. — Você sabe que eu gosto da sua irmã né? Vou casar com ela.
— Baixe a bola, Potter, nem todo mundo gosta do seu cabelo idiota. — Hermione revirou os olhos, estalando a língua com desgosto.
James fez um som afrontado, mexendo nos cabelos novamente e arrepiado ainda
mais os fios. — Isso é uma marca! Um tipo de identidade! Todo mundo gosta do cabelo.
— O que te faz dormir a noite, Potter. — Ela respondeu com um sorrisinho de lado e James soltou um suspiro de derrota. Como alguém não gosta do seu cabelo? Tinha que ser a Evans caçula! — De qualquer forma, você está fugindo do assunto, eu respondi a sua pergunta e agora é a sua vez.
— Oh, isso. — James murchou de repente, sua bochecha perdendo a cor e seu olhar perdendo o brilho. Ele tinha esquecido tudo por um segundo, seu antigo "eu" voltando a tona. Sua boca ficou com um gosto amargo. — Eu estou com raiva de Sirius.
— É isso? Amigos brigam, isso é bem normal.
— Mas não assim! Olha, nós já brigamos antes por bobeira sabe, mas agora é diferente, eu nunca me sentir assim antes. E eu não sei o que fazer para parar de sentir essa coisa. Eu não suporto nem olhar pra ele sem querer apertar sua garganta.
— Você tentou conversar sobre isso? Pode ajudá-lo.
— Claro que não! Olha, se eu ficar com raiva dele por um motivo muito específico, ele pode explodir novamente, ok? Foi um ano bem difícil pra ele, não quero empurrar seus limites.
— Mas o que ele pode ter feito para te chatear tanto? Eu vi vocês dois juntos, são inseparáveis. Nem mesmo irmãos de sangue tem uma ligação tão forte. — Hermione disse de forma fria e distante, seu olhar focado no dele como se tentasse extrair cada gota de informação.
— Ele fez algo que foi longe demais, colocou a vida e alguém em perigo e agora é como se eu não o conhecesse. — James respondeu de forma simples, sem mentir mais também sem contar a verdade. Diferente de Sirius, James jamais trairia a confiança de Remus. Ele nem sabe o porque está despejado tudo aquilo, sua boca simplesmente abriu e as palavras fluiram feito água.
— Mas isso é normal para vocês.
— Como assim normal para nós?!
— Quero dizer, vocês vivem colocando a vida dos outros em perigo com suas pegadinhas.
— O que? Óbvio que não!
— Aquela explosão de caldeira no quarto ano? Uma garota da Sonserina era alérgica a pernas de sapo. Sua garganta inchou tanto que ela quase morreu asfixiada.
— Isso não é verdade! — James gritou meio horrorizado. — Eu nunca ouvi ninguém falando disso.
— É claro que não, os Sonserinos são muito "orgulhosos" para sair por aí espalhando que quase morreram por uma "simples" alergia, além disso, ela sabia que
se denunciá-los, poderia virar um alvo de pegadinhas, como o Livy da Lufa-Lufa.
— M-mas eu não sabia! — Ele insistiu, sua garganta apertada.
— Claro que não! Foi um erro honesto, tudo para garantir uma risada. Mas e o Jackson da Sonserina?
— Tá falando da cara de bolhas? Mas era um feitiço inofensivo.
— E eu concordo, exceto que ele foi lançando perto de uma escada, seus olhos ficaram tão cheio de bolhas de ar que foi insuportável ele se orientar direito, tropeçando e quebrando uma perna. Já imaginou se fosse a escada para a torre de astronomia?
— Eu sou um merda, ok?! Eu já entendi! — James disse com certa dificuldade, o canto dos seus olhos ardendo e sua garganta cada vez mais fechada, dificultando sua respiração. Ele estava enjoado. James fechou os olhos, tentando controlar sua respiração e falhando miseravelmente.
Ele sentiu um toque terno na mão fechada em punho e abriu os olhos, olhando para a cara triste e embaçada de Hermione.
— Eu não acho que você seja um merda, James, e tenho certeza que você teria ajudado esses alunos se tivesse ficado por perto o suficiente para ver as consequências de certas "brincadeiras".
— V-Você acha? — Sua voz saiu por um fio e James odiou pelo qual fraco pareceu. O
leão covarde se escondendo sobre camadas de culpa e aversão.
— Sim. Eu acho. Você sabia lá no fundo que certas pegadinhas foram longe demais, James, mas você se recuou a enxergar isso. E isso que aconteceu com Sirius foi tão extremo que você não pode jogá-lo para de baixo do tapete como normalmente faria. Agora você tem que se perguntar, o Sirius agiu diferente ou foi você que escolheu deliberadamente ocultar as partes feias? Você tem que se perguntar. Está com raiva de Sirius ou de si mesmo?
James não respondeu, não sabia o que dizer, seu cérebro estava tão cheio que sua cabeça doía.
Hermione não parecia querer uma
resposta de qualquer maneira, levantando e caminhando até a porta.
Ela se virou antes de sair, sua expressão triste se intensificando.
— Eu não sei o que você irá decidir sobre si mesmo, sobre Sirius e tudo o que aconteceu. Só, lembra, nenhum de vocês é um monstro. Pessoas com raiva tomam decisões estúpidas, e isso por si só não a torna "mau". Tchau, Potter.
E ela se foi da mesma forma que entrou.
James se largou sobre o banco, de repente muito cansado.
