Crepúsculo não me pertence. Mas essa história sim. Plágio é crime!
Olá! Essa fic faz parte do POSOella, um projeto onde autoras do fandom de Crepúsculo criam fanfics narradas exclusivamente por Bella Swan, em comemoração ao seu aniversário. Esse ano, o desafio foi escrever inspirando-se em 1 dentre 25 citações de alguns dos livros favoritos da Bella.
Confira mais fics na página bit (ponto) ly (barra) POSOffnet – Você também encontra o link diretamente no meu perfil, na aba de Favorite Authors.
Obrigada a Lola e Lou5858 por lerem minha ficzinha e acalmarem minhas nóias. O título foi inspirado na música Ilha do Mel - Jovem Dionísio.
"Tudo o que fez foi ser diferente das outras mulheres, e conseguiu algum sucesso. Como já lhe disse antes, esse é um pecado imperdoável em qualquer sociedade. Seja diferente e seja amaldiçoado!"
(E o Vento Levou, de Margaret Mitchell)
Capítulo 1: A festa
— Menina, foi um escândalo. Você tinha que ver. Um berrando de cá, outro berrando de lá. Disseram que baixou até polícia…
— Jesus Cristo. E aí?
— E aí que foi isso, o garoto dos Black largado pela filha dos Swan.
— Eu achava que era viado, sabia?
Elas cochichavam, rindo da minha desgraça do outro lado da prateleira, no corredor de higiene bucal. Eu não via, mas ouvia. Tudo bem, não tinha passado nem um mês desde que resolvi me revirar de cabeça pra baixo, e Forks é um ovo, eu já sabia que não seria fácil. Eu só não esperava que fosse ser tão difícil. Nem em Port Angeles eu estava tendo sossego.
— …e era um casal tão lindo… — Não ouvi o início. O demônio da Tasmânia que tenho em casa continuava fuçando tudo, me distraí agarrando a coleira.
— Casalzão.
— 1 semana depois só, imagina?
— Deus me livre. Esse povo não tem amor ao dinheiro. Aquele casamentão todo, lua de mel na Itália. Gosta desse de menta?
— Adoro, mas arde. Ah, deve ter sido um trocadinho de bala pros Swan e pros Black. Mas também, rico é assim. Tudo pirado das ideias. Agora, vou ser sincera? Bom pro Jacob. Foi viver a vida, se livrou daquelazinha. Tô do lado dele.
Biruta se meteu embaixo de um carrinho, e eu me apressei antes que o segurança expulsasse nós dois. Saí pelo corredor onde estavam as duas. Empinei meus peitos, o queixo, mesmo querendo sair correndo e sabendo que tudo cairía assim que eu passasse pela porta.
— Boa noite, Jessica. Victoria. O azul é melhor que o de menta. Arde menos — disse sorrindo, porque eu podia ser trouxa, mas otária? Também. Pelo menos, ver a cara delas valeu a pena o pequeno derrame que eu quase tive.
Cheguei ao carro sentindo o peito explodir, meus ombros parecendo pedras.
— E aí, comprou? — minha amiga Alice perguntou, me esperando no seu carro. Assim que ergui a cesta pra mostrar, dei meia volta. Eu podia ser trouxa, otária, mas caloteira? Só quando eu tinha um cachorro e duas cadelas pra cuidar.
Quando retornei do caixa, desabei no carona. Alice ligou o carro me olhando, Biruta no meu colo só ficou calmo com um petisco.
— Que cara de choro é essa? — me perguntou.
— É que eu quero chorar.
— Xii, pegou alguém te olhando torto de novo?
— Pior, ouvi falando mal. Jessica Stanley e Victoria Andrews. Porra, seis semanas já. Esse povo não vai esquecer esse fiasco da minha vida amorosa nunca?
— Bella… — ela expirou, saindo do estacionamento. — É surreal as pessoas te tratarem assim. Mas você precisa aprender a relevar essas coisas. É só o que você pode fazer pra parar de sofrer agora.
— Eu não consigo. Meu sangue ferve. Que ódio, queria dar um socão na cara dessas—
— Vem cá — ela interrompeu meus devaneios. — Você já convidou o pessoal do clube de leitura, né?
— Já. Maria, Lauren, Tanya e a família confirmaram, Mike e Angela talvez. Leah respondeu que adoraria, mas tá viajando. Devem ser umas dez pessoas confirmadas.
— E seus vizinhos?
— Ahm?
— Não vai chamar eles pro seu aniversário? Você é nova por lá, seria uma ótima oportunidade pra conhecer mais gente. Gente nova, novos ares. Hein?
Eu disse não, mas o que Alice tinha de gostosa, ela tinha de teimosa também. Foi assim que às sete da noite me peguei atrapalhando os jantares dos cinco vizinhos que tinha no pequeno prédio na praia de Clallam, bairro de Port Angeles, a 40 minutos de Forks. A cidade que um dia foi minha, mas hoje só me trazia desgosto.
De cima pra baixo, ouvi dois nãos, um talvez. A sra. Cooper, a síndica idosa, disse "não saio mais de casa" e bateu a porta na minha cara. Restou o moço em frente a minha porta.
— Você não bateu ali. — Alice não me desgrudava esses dias, tinha ficado para jantar comigo.
— Ele nunca tá em casa, só vi duas vezes em uma semana morando aqui.
— Ué, e só por isso não vai chamar ele?
— Ah. Sei lá. É um cara meio esquisito.
— Esquisito como?
— Sei lá, Alice. Caladão. Cabeça baixa. Usa óculos. É meio gato, mas sempre usa umas roupas estranhas. Sempre tá cheio de bolsas.
— Peraí, você disse meio gato?
— Caladão e esquisito, foi isso que quis dizer.
— Poxa, então tá…
Biruta tirou aquele momento pra conseguir abrir a porta que eu tinha fechado sem chave, e saiu disparado pela escada. Fui atrás do cachorro que agora era um vulto branco e marrom pelo prédio, rezando pra que ninguém ouvisse e reclamasse.
— Biruta, volta. — Chamei, subindo a escada. — Eu vou te devolver pra lata do lixo, hein. Se a gente for expulso daqui, eu juro por Deus, deixo sem petisco pro resto da vida! — Só consegui segurar o doido no último andar, filho da mãe. Ele me lambeu toda, querendo se soltar do colo, mas segurei firme. Quando voltei, com vontade de deitar de tão ofegante, Alice tinha um sorriso gigante no rosto. — Que foi?
— Nada. É que vocês são engraçadinhos.
No dia seguinte, ela e meus pais estavam batendo na minha porta às oito da manhã.
— Feliz aniversário! — Eles gritaram, me matando de susto e metendo um bolinho de chocolate quase na minha cara.
— Porra, quase que morro agora. — Deixei eles entrarem, Biruta latiu, fazendo farra nas pernas deles.
— Exagerada — meu pai falou.
— É bom que aproveitava a festa, os comes e bebes pro velório.
— Vira essa boca pra lá, garota. — Minha mãe veio me abraçar e cheirar meu cabelo, como sempre, enquanto Alice dizia "Liga não, tia, ela sempre é assim rabugenta quando acorda, na faculdade era igualzinho".
Passei o dia como se espera de uma aniversariante. Com abraços dos meus visitantes, telefonemas da família distante, de alguns amigos da faculdade e do meu antigo trabalho no Hospital de Seattle. Meus pais não poderiam ficar, tinham um congresso importante onde dariam palestra em Portland amanhã cedo, o que fez ambos grudarem em mim o dia todo. Boa virginiana, botei os três pra me ajudar a preparar doces e petiscos, ajeitar a casa que ainda tinha um ar de recém-mudança.
Quando meus pais foram embora, quase suspirei de alívio. Era ótimo tê-los por perto, mas às vezes sufocavam. Ser filha única era isso.
Às sete da noite, eu estava pronta na minha sala, com Alice saindo do banho, tinha ficado pra se arrumar lá. Precisei prender o Biruta na cozinha de porta aberta, para participar da festa, mas nem tanto. Caso contrário, ele comeria o que não devia e depois passaria mal a noite toda.
Meu coração vinha acelerando do nada por algum motivo, mas eu sabia que não era por conta do meu filho choramingando atrás da gradezinha. Meu estômago também não estava tão bom. Havia uma sensação estranha. Talvez fosse saudade.
Seria o primeiro aniversário da minha vida que eu não lembrava de ter Jake por perto, ele só tinha me mandado um parabéns breve por mensagem. Eu esperei sair a primeira lágrima, mas ela nunca veio. Talvez por estar tão focada em deixar tudo perfeito pra primeira festa de aniversário pós-separação. Vida nova. Festa nova. Era essa a mentalidade hoje. Rezei para dar certo.
Sete e meia, eu comecei a comer uns canapés.
Sete e quarenta, tomei um refrigerante, brinquei com Biruta de bolinha.
Oito horas, Alice ligou o som, porque ambas esquecemos e o ambiente tinha ficado pesado demais só com nós duas e o vazio que estava essa casa. Jacob sempre ocupou tanto espaço, mas agora era tudo preenchido pelos meus pensamentos, por uma vida que ficou pelo caminho e tudo o que poderia ter sido de nós.
Quando Alice começou a sacudir as pernas, olhando o celular, eu passei a me preocupar.
— Alguém disse alguma coisa no grupo?
— Hm… Não. — Eu não acreditei. Mas não podia nem checar, tinha saído de todos os grupos de mensagens online assim que viajei para a lua de mel pra relaxar mais, e nunca mais voltei. Talvez a única coisa boa dessa situação toda.
— Deixa eu ver.
— Ah, só Mike e Angela pediram desculpas, disseram que não vão poder. O resto do pessoal deve tá vindo.
— Será que eu falei a hora errada? — perguntei, beliscando o décimo petisco de queijo.
— Não. Relaxa. Daqui a pouco a galera tá aí.
Mas quando deu quinze pras nove da noite, e nós duas terminamos o primeiro vinho sozinhas, foi quando entendi.
Ninguém.
Nenhum deles viria.
Era claro que não.
No primeiro nó na garganta, fui logo pro banheiro, como eu fazia nas aulas de anatomia do primeiro semestre quando não conseguia responder os nomes de todos os músculos do corpo. Alice bateu na porta, com voz de pena.
— Bella. Eles estão vindo, espera. Deve ter acontecido alguma coisa.
— Ninguém vem, eu já sei. Para de mentir. — Eu olhava no espelho, vendo meu rosto molhado com a maquiagem cara e intacta, ao contrário da minha vida social. Patética.
— Amiga… Abre a porta, vamos conversar.
Eu só abri porque precisa de um ombro pra chorar. E a abracei, bem forte.
— Que mico. Eu preparei tudo… O que que tá acontecendo, Ali? Hein?
— Eu não sei também. Mas calma, a gente vai dar um jeito. — Foi só ela terminar de falar, e a campainha tocou. Não era possível, parecia que tinha adivinhado. Seu sorriso voltou, gigante, e meu peito disparou. Quase saí correndo pra abrir a porta, o Biruta latindo sem parar na cozinha, mas me recompus. Limpei o rosto berrando "Já vai!", enquanto Alice ajeitava a alça do meu vestido, dizendo que eu estava linda.
— Deve ser Tanya, as crianças devem ter tido algum problema na hora de sair, é sempre assim. — Ouvi ela falar, as duas cruzando o espaço pequeno do apartamento até a porta.
Olhei no olho-mágico. Quase desabei, minhas pernas moles. Não tinha criança, nem marido. Não era Tanya. Eu olhei para Alice.
— Eu vou te matar — ameacei baixinho.
— Quem é?
— Eu juro por Deus, eu vou matar você, Alice Hale — expirei forte, abrindo a porta. O meu vizinho esquisito e alto ergueu a cabeça, como se não esperasse que eu fosse atender. Tinha um vaso de margaridas nas mãos.
Ficamos os dois nos olhando. Ele com aqueles olhos grandes e verdes, os óculos sujos e marrons no aro. Meu coração agora batia sacudindo tudo que comi no estômago.
— O-oi? Você é a amiga da Alice, né? Me convidaram pra um aniversário aqui… — Eu nunca tinha ouvido a voz, mas era baixa e grave, quase aveludada.
— É. Sou eu… Desculpa chegar só agora, tive um contratempo na rua. — Ele olhou ao redor. — Ainda tá rolando a festa, né?
— Claro, Eddie — Alice se intrometeu, com a voz melodiosa de quem já tinha bebido mais de meia garrafa. — Ah, essa é a Bella, que eu te falei. Ela é nova no prédio. Isabella Swan, a médica aniversariante.
— Eu sei.
Ele balbuciou, e apenas isso. Eu avisei que ele era estranho. Ficamos alguns segundos nos entreolhando, os três, até eu tomar uma atitude.
— Bom, entra. Fica à vontade. Você é o Edgar, certo?
— Edward. Edward Cullen, prazer. Digo… feliz aniversário. — Ele estendeu a mão, e eu aceitei. Fria pra um diabo, meio pegajosa. Ainda bem que ele estava tão nervoso como eu. Quem teria essa cara de pau de vir numa festa convidado por terceiros? Eu já falei que iria matar Alice?
— Você aceita beber alguma coisa? Tem vinho — perguntei, pegando as margaridas e colocando numa mesinha de canto. Ele foi se aproximando com passos lentos do sofá vazio, como se decidisse se sentava ou não, até que sentou.
— Ahm. Pode ser. Não costumo beber, mas pode ser uma taça, obrigado.
— Ó, Edward, — Alice levava uma bandeja ainda cheia. — Tem canapés aqui, petiscos de queijo e de frango.
— Levam leite? É que eu sou alérgico a lactose…
— Ah, ele é alérgico. Claro. Desculpa, a gente nem pensou nisso. Tem leite nisso aqui, Bella?
— Tudo leva queijo, leite ou creme — respondi sem vigor, dando a ele uma taça cheia de vinho tinto.
— O que a gente serve, então?
— Não sei.
— Olha, não precisam ser preocupar, só o vinho já está ótimo. Estou acostumado com essas coisas. — Ele sorriu meio de lado, acanhado e bebericando.
— Imagina, beber de estômago vazio faz mal — disse Alice. — Ah! Edward, quer provar a brusqueta da Bella? Dizem que é ótima.
O moço quase cuspiu o vinho com uma risadinha que disfarçou com tosse.
— Oi? Perdão?
Eu queria que um raio caísse agora na minha cabeça.
— É… — murmurei, limpando a garganta, copiando meu convidado inesperado. — Acho que posso fazer uma brusqueta, é só pão e tomates. Bom, já volto, vou preparar na cozinha. A casa é sua, Edward, mas qualquer coisa pode pedir que Alice te dá.
Eu não tinha chamado, mas a traíra veio atrás de mim arrastando os tamanquinhos. Eu a levei pela mão até a área de serviço, e briguei cochichando:
— Eu não acredito que você convidou esse cara!
— Ah, qual é, ele é inofensivo, só um pouco tímido. Dá pra ver que é bonzinho. Você precisa fazer amigos por aqui, um homem pra te ajudar nas coisas da casa, melhor ainda.
— Olha, eu juro. Se ele for um maluco daqueles que aparecem no jornal, a culpa vai ser toda sua, hein.
— Relaxa. Tá comigo, tá com Deus. — A Umpalumpa tinha confiança demais pra alguém de um metro e meio. Eu rolei meus olhos, dando qualquer coisa pra ela fazer e se ocupar enquanto eu pensava numa forma de me livrar dessa situação ridícula.
— Toma, abre esse vinho. Não sei por que ainda te chamo…
— Por que você me ama. Aliás. Você tinha razão. Ele é gato pra caralho — falou baixo, pelo menos.
— Também não exagera. — Bebi do meu vinho antes de pegar tomates na geladeira, e precisei admitir: — Gatinho, só…
— Pra quem casou com Jacob, seus padrões estão altos demais, tá?
— Nem você acredita nisso. Jake é lindo.
— É lindo, mas cafona, e chato pra um caralho. Esse aí pelo menos é misterioso… Ai, achei ele um tesãozinho.
— Eu não vou dar pro meu vizinho, Alice.
— Ihh, quem falou de dar aqui? Você que tá falando de dar.
— Cala a boca! Só pensa em putaria, credo.
— Quem pensou foi você, olha aí, Freud explica. Mas também, sinceramente? Não sei como você aguentou tanto tempo brincando no mesmo parquinho. Eu ia ficar doida. Dez anos de namoro? Deus me livre.
— Você é piranha com ascendente em vadia, não conta.
— Vadia é sua mãe, garota! — ela riu, mas eu só tinha replicado uma piada que ela mesma já me contou.
Ficamos tão à vontade preparando as fatias de pão com azeitei, alho, tomates e manjericões por cima, e ainda brincando com o Biruta, que esquecemos do Gostoso Esquisito na sala. Quando ele apareceu na porta, quase berrei.
— Ai, desculpa, a gente tá demorando, né? — falei, misturando os tomates picados e condimentos. — Mas já estamos acabando. Quer mais vinho?
— Não, não. É… É que eu vi que você tem uma bela coleção de livros ali na sala, fiquei curioso… Você gosta de ler? — Ele limpou a garganta, as mãos enfiadas nos bolsos da calça bege. — Quer dizer. É óbvio, senão não teria. A não ser que sejam de outra pessoa que mora com você. Desculpa, eu vou parar de falar pra você poder me responder.
Agora eu ri.
— Não, tudo bem. São meus sim. — Ele se referia à estante de três metros de comprimento que cobria toda a parede atrás do sofá. — Eu amo ler. É a minha coisa favorita no mundo. Você gosta?
— Amo. Também é minha coisa favorita. Na verdade, eu… — Ele se coçava toda hora, ficando vermelho, e eu estava começando a me perguntar se tinha urticária ou era só nervosismo.
— Você…?
— Eu estou tentando abrir uma livraria em Forks. Digo, não tentando, eu já consegui. Vou abrir.
Alice me olhou com a cara de "eu disse! Ele é tudo de bom!", e eu só fingi que não tinha uma borboletinha renascendo no meu estômago. O fofoqueiro do Biruta já tinha ido cheirar quem estava falando com a mãe dele.
— Ah, legal. Que coincidência — falei, honesta. — Aliás, muito bom que esteja abrindo uma livraria, Forks tá em falta de uma desde que a do Sr. Caius fechou há uns anos.
— É essa. Na verdade, vou reabrir.
— Jura? A Toca do Gato?
— Sim, essa mesma. — Ele riu, enfim se abaixando pra falar com Biruta. — É da minha família. Caius Cullen é meu avô. Foi a última coisa que ele me pediu antes de partir.
De repente, não sei o que aconteceu.
Se foi a forma carinhosa como ele falou do avô e da livraria de Forks, a única, fechada após 100 anos de existência, ou se foram as risadinhas dele brincando com meu cachorro maluco. Mas senti meu coração amolecer de tal forma, quase larguei as torradas no forno. Alice saiu correndo pra pegar.
— Bella, vai lá conversar com sua visita. Deixa que eu termino aqui. — Ela abanava o pão semi-tostado que fez Biruta pular em suas pernas tentando ver.
Resolvi dar uma chance porque eu devia mesmo estar doida desde a separação.
Sentamos na sala, ele no sofá, e eu na poltrona afastada. Tocava Fleetwood Mac baixinho, mas por uns instantes foi só isso que se ouviu. Eu não era muito boa de puxar assunto, e aparentemente Edward muito menos. Isso ficou comprovado depois que ele me contou mais dos planos de reinauguração da livraria justamente amanhã, no domingo, e me convidou para ir.
Eu contei que podia ir, mas só após três da tarde, pois estaria atendendo clínica geral no posto comunitário de La Push. Ele ficou surpreso por nunca ter me visto lá, contou que frequentava a área, mas quando eu perguntei porquê, desconversou e só disse que tinha amigos queridos na reserva.
Depois disso, o silêncio voltou. Desconfortável, quase como antes, a diferença é que agora eu me sentia boba por estar tão ansiosa pela reinauguração da Toca do Gato, e por pensar que algo que eu disse tinha feito Edward me achar chata e não querer prolongar o papo. Vai ver era minha profissão. Era assim com Jake.
Fui salva por Ali voltando com o aperitivo dele. Edward comeu calado, olhando ao redor. Ele com certeza devia estar estranhando o fato de termos apenas nós três com tanta comida preparada. Além de chata, devia estar me achando patética. Na hora que lembrei disso, porém, meu celular apitou uma nova mensagem.
Abri com trepidação.
[Jake]
Vc vem depois do seu jantar?
Tô com muita saudade
Queria te ver antes de ir
Só falar tchau, só isso
[Bella]
Que? Acho que vc tá confundindo a pessoa…
[Jake]
Ih
Foi mal Bella
Achei que tivessem te chamado
Porra tô bebado liga não
Mas logo em seguida as duas ultimas mensagens foram apagadas. Como se eu não fosse ver. Como se eu não fosse abrir a porra do Instagram pra saber do que ele estava falando, porque nossos amigos não conseguiam viver cinco segundos sem registrar tudo nas redes.
E estava lá, pra todo mundo olhar. A minha desgraça de vida social, o resultado de uma separação que aparentemente fez a cidade inteira voltar-se contra mim e ir para o time dele.
O clube de leitura todo num bota-fora de Jacob, que iria pra Seattle fazer sua especialização em neuro por quatro anos. Era claro. Óbvio. Por isso nenhum deles viria, por isso nem quiseram me dar uma satisfação, mentir não seria suficiente. Eu devia ter ouvido minha mãe quando disse que precisava ter amigos mais meus do que vindos dele, um dia isso poderia se voltar contra mim. Não deu outra.
— Tá tudo bem? — Alice perguntou, e eu neguei.
Fiquei um tempo ali, olhando tudo e sentindo pena de mim mesma. Não era possível que isso estava acontecendo comigo. O que eu fiz pra merecer? A bola de choro vinha com tudo, mas eu nunca deixaria sair na frente de um estranho.
De repente, decidi levantar.
— Vou ver como tá o Biruta, ouvi ele chorando — menti.
O que tinha ido fazer, foi no impulso, e sabia que mais tarde me arrependeria, mas agora era só o que eu conseguia pensar. Passei pelo cão, que comia sua ração especial porque era um fresco, e fui até a área de serviço, onde ficava o quadro de luz do meu apartamento. Com um tec da chavinha virada, acabei com a pior festa da minha vida.
Corri para a sala no breu, tentando despistar, falei:
— Ai, meu Deus, era só o que faltava, gente. — Alice acendia a lanterna do celular. — Esqueci de pagar a conta de luz, que droga.
— Ué, mas será que foi isso mesmo? Você nunca esquece nada, tá sempre em débito automátic—
— É, mas com a mudança, tudo mudou, né? Agora já era…
— O que a gente faz? Tem vela aí?
— Nenhuma. Mas vou ser sincera pra vocês, estou com enxaqueca, minha cabeça tá explodindo. Acho que vou aproveitar a deixa e ir deitar.
— Bella? — Alice me olhou sabendo que algo não estava certo mesmo, se aproximou. — Tá tudo bem, amiga? Pode falar.
— Desculpa, mil desculpas, eu sei que você preparou tudo com muito carinho, mas eu não tô me sentindo bem mesmo, melhor ir deitar, amanhã trabalho cedo, não quero que piore. Você sabe como são minhas crises de enxaqueca.
— Poxa, mas… — Ela se virou para Edward, que levantou no escuro semi-iluminado completamente perdido com um prato na mão e minha brusqueta na boca, e eu quis rir da cena, mas nem isso veio.
— Pode ficar e terminar — por pena, falei. — Pode comer o que quiser. Alice, fica aí com Edward, pode mostrar meus livros, o que quiser mesmo... Agradeço muito por ter vindo, tá? Os dois. Mas minha cabeça tá explodindo.
— Mas amiga? E o bolo? Toma um remédio e volta. O bolo tá tão lindo… A gente canta parabéns com lanterna mesmo.
Eu olhei para o maldito com uma ridícula vela de 30 em cima. Ninguém devia ter tanta humilhação em pleno aniversário de três décadas. Meus pais não me criaram pra isso. Minha avó queimou sutiã nos anos 60, por Deus.
— Tira pedaço pra você e pra Edward, amanhã eu como no café da manhã. Desculpa mesmo, gente. — E saí para a cozinha, indo pegar o Biruta pra entrar no meu quarto. — Boa noite, pessoal. Obrigada por terem vindo.
E me tranquei.
Pelas próximas quatro horas, eu chorei, abracei o Biruta, dormi, comi os chocolates que eu escondia na minha gaveta, e pensei em cinco formas diferentes de recomeçar a vida em outro país, ou se eu tinha dinheiro pra uma nova identidade. Tinha parado de ouvi-los nem meia hora depois que fui embora. E quando levantei, me arrependi amargamente por ter feito algo tão estúpido e mal educado.
Com vergonha no corpo todo, mesmo sozinha, fui ligar de volta minha luz. A casa vazia agora com resquícios de festa parecia ainda mais solitária. Chorei um pouco, e ainda mais vendo o recadinho de Alice ao lado do bolo intacto.
"Não cortamos. Amanhã será um novo dia, guarda na geladeira, cortamos com seus pais e cantamos parabéns pra celebrar seus 30 como você merece. Eu vi os stories da galera, acho que já entendi tudo… Eu te amo muito, muita gente ainda te ama. Fique bem.
PS: Edward é legal demais. Dê uma chance."
Mesmo que não acreditasse muito em nada do que ela disse, eu segurei contra meu peito o pedacinho de carinho, e guardei dentro de um dos meus livros favoritos da vida, O Livro dos Abraços, do Eduardo Galeano. Deixei em cima da mesinha de centro, fui fazer um chá de camomila pra poder voltar a dormir. Eram 2 da manhã, Biruta roncava em cima da minha cama como se fosse dono dela.
Mas os pensamentos não paravam por nada, então resolvi pegar o livro que tinha acabado de ter nas mãos, e abri sentada na varanda com meu chá. Estava precisando de uns abraços. O friozinho da madrugada já era um, assim como a manta vermelha de lã grossa enrolada em mim, e o livro em si. Me perdi nas palavras por alguns minutos. Estava claro da lua cheia linda, que refletia no oceano a uns cem metros.
Foi justamente por isso que escolhi esse novo lugar pra viver. Não tinha nada por perto além de algumas casas e esse prédio baixo. Mas a praia de Sekiu era um absurdo de linda. Me sentia privilegiada.
— Qual é o truque pra conseguir pagar conta de luz às 2 da manhã? — Levei um susto com a voz que invadiu meu mundinho. Era meu vizinho no balcão ao lado. — Perdão, não queria assustar.
Imagina se quisesse.
— Tudo bem… — menti. — Já estava acabando de ler mesmo.
— Não, pode ficar. Eu só vim ver a lua um pouco. Já vou dormir.
Ele deu meia-volta, e totalmente culpada pelo vacilo mais cedo, chamei de volta.
— Edward. Desculpa. Eu tive que expulsar vocês, aconteceu algo muito chato no meu aniversário, eu realmente não estava em condições de receber ninguém naquela hora.
— Não precisa se justificar, tudo bem. Você não me deve nada, mesmo. Eu apareci na sua casa sem nunca nem ter trocado uma palavra contigo. O intruso era eu.
Eu sorri um pouco da sua honestidade.
— Você foi gentil me convidando pra sua inauguração e trazendo as flores.
— Era o mínimo. Mas… — Ele se sentou na sua própria cadeira. Meu peito acelerou um pouco, maldito. — Você vai, não vai?
— Vou fazer de tudo pra ir, de verdade. Ah, só tem uma coisa.
— O quê?
— Você conhece o Clube de Leitura de Forks?
— Sim, mandei e-mails convidando pra inauguração. Pro presidente do Clube… Como é o nome dele? Michael.
— Corno, não me passou nada.
— Oi?
— Nada não. Bom, é esse o meu problema. Quer dizer, um dos. Enfim, é uma longa história, mas essa galera aí é minha amiga e ontem me deram um perdido na festa, e fizeram outra festa pro meu ex-marido.
— Caramba. Sinto muito… — Ele olhava pras mãos, estalando só dedos. — Você é divorciada, então? — Não me escapou a forma como ele perguntou com tanta curiosidade. Talvez fosse só fofoqueiro mesmo.
— Separada. Tô em processo de divórcio. A questão é que eu preferia evitar de ver esse pessoal amanhã, e eu tenho certeza que eles vão aparecer lá pra checar os livros novos… Então se eu puder ir logo antes de você fechar, e eles tiverem ido embora, seria perfeito pra mim. Porque eu quero muito mesmo ir, acho que já falei, né? — Eu ri sem graça, e ele também.
— Já. Tudo bem. Eu te falo. Acho que vai gostar muito, a loja ficou linda, reformada, temos títulos antigos do acervo, a parte de brechó, os lançamentos…
E foi com a benção da noite, com a magia da lua, que esses dois introvertidos conseguiram engatar, finalmente, numa conversa sem pausas até quatro da manhã.
Eu finalmente me senti bem pra contar como tinha decidido me separar só 1 semana depois de casar com meu amor de adolescência, o cara que eu conhecia a vida toda, e que nossos pais sempre fizeram de tudo pra continuarmos juntos. Falei como nossos amigos em comum e até desconhecidos em Forks não tinham lidado bem com a separação.
— Mas eles não tem que lidar bem ou não — Edward me disse, parecendo irritado com o que eu falava sobre a minha guerra civil particular contra Forks. — Aliás, eles não têem que lidar e ponto. Não é assunto deles.
— Eu sei que não. Eu queria que não mesmo, mas infelizmente, cidade pequena é assim. Eles tomam partido de tudo. Sabem de tudo. Eles viram nosso amor crescer, se transformar, a gente foi Rei e Ranha do Baile, viramos meio que o casal perfeito de Forks... Metade da cidade foi convidada pro casamento. E você nem imagina como foi um escândalo quando se espalhou a notícia da separação.
— Hm. É, acho que não sei mesmo como é isso de cidade pequena.
— Ué, você não é daqui de Port Angeles?
— Não, moro aqui há seis anos, só, desde que meu avô morreu. Vim pra cuidar da livraria, mas a vida dá voltas, acabei só conseguindo fazer isso agora.
— E você vem de onde, então?
— Ah, de Seattle mesmo. Meus pais ainda moram lá, minha família quase toda.
— Outra coincidência nossa… Meus pais também moram lá. — Ele sorriu acanhado, desviando o olhar, o que me fez sorrir também.
— Deixa eu adivinhar, são médicos também?
— Como adivinhou?! — Eu ri. Ele deu de ombros.
— Ah, só numa família de médicos mesmo que os pais não apareceriam na festa de aniversário da própria filha… Imagino eles sempre ocupados.
— É, mais ou menos isso. E seus pais?
Edward me contou que era filho do meio de uma família de pessoas de exatas e atléticas. Engenheiros, Físicos, Químicos, os irmãos com bolsas na faculdade por Futebol… O único que ligava para livros e arte, de verdade, era ele. Edward não disse, mas pela voz meio incômoda, imaginei que devia se sentir um pouco deslocado na família.
Mesmo se abrindo um pouco, ele continuou misterioso, falou pouco de si, e por mim tudo bem. Porque embora não fosse de muitas palavras, ele não apenas me escutava, mas ele me ouvia.
Amanheci grogue de sono. Com a garganta fodida.
Ter ficado duas horas no sereno da madrugada conversando com meu vizinho pareceu uma boa ideia na hora, mas agora voltava em forma de arrependimento. Trabalhar por só um turno no domingo em um novo lugar era como eu vinha mantendo a cabeça ocupada há cinco semanas. Mas a manhã toda, senti ansiedade pra poder acabar logo e ir para a parte divertida do dia.
Tínhamos trocado telefones, e ele me mandou uma mensagem às cinco e meia da tarde avisando que fecharia às seis, e que a última pessoa do Clube do Livro tinha ido embora. Me apressei em casa, botei uma roupa bonita. Até me maquiei um pouco, e depois me achei muito ridícula por estar agindo como se isso fosse um encontro.
Não era. Pelo menos, não foi isso que senti. Ele só foi cortês com uma vizinha desesperada por atenção e um ombro amigo, e estava tentando conseguir clientes pra sua loja.
Era isso sim. Com certeza era.
A vitrine da Toca do Gato aberta, colorida, iluminada e charmosa me fez sorrir de coração quentinho. Quando abri a porta, ouvi o sininho característico, o cheiro misturado de livros e incenso suave me atingiu, quase tive vontade de chorar pela nostalgia agora concretizada. Foi como voltar para seis anos atrás, quando minha vida ainda estava nos eixos, e tudo que eu fazia era ler, estudar e namorar um namoro leve.
Dei apenas três passos adentrando a loja aparentemente vazia, até que ela surgiu do nada. Olhos de gatinha verde-água me recepcionaram num rostinho redondo de pele parda e corada.
— Boa tarde, meu nome é Melissa Young. Como posso ajudar? — Ela devia ter menos de 6 anos. Era tão fofinha, eu tive que me impedir de apertar suas bochechas. Me abaixei um pouco.
— Oi, Melissa. Muito prazer. Eu sou a Bella. Tô procurando o Edward, ele tá por aí?
— Ah, você é a Bella… Ei! Você é que vai ser a minha terceira mãe?!
N/A: AMANHÃ CAPÍTULO 2, NÃO BRIGUEM COMIGO! QUEM TIVER TEORIAS, FALA.
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