Obrigada pela recepção, pessoal! Lembrem de comentar e divulgar a fic, isso me ajuda muito a escrever mais e mais pra vcs :) Obrigada a Lou5858_ por betar. Capítulo dedicado à ela e à Lola Royal (leiam as fics delas no POSOella também!).
ALERTA DE GATILHO: pode ser sensível a pessoas com hematofobia, cena de atendimento em pronto-socorro, mas não detalhada.
Capítulo 2: A Toca do Gato
Fiquei três segundos tentando entender quem era essa criança e porque estava falando de eu ser sua mãe, mas tudo estava confuso demais, então voltei a falar.
— Eu? Ahm… Não. Onde está o Edward, meu amor?
— Meu pai tá no banheiro fazendo cocô, disse pra eu cuidar da loja. — O cagão apareceu naquela hora.
— Melissa! — Foi só falar seu nome num tom firme, a menina correu de olhos alargados com suas pernas gordinhas. — Eu disse que era só pra dizer pro cliente me esperar, não precisava falar o que eu estava fazendo no banheiro.
— Desculpa. É que mentira é feio.
— Tá certa, é feio. Mas isso não é mentira, a gente só não precisa falar tudo da nossa vida pra desconhecidos, entendeu? — A menina sacudiu a cabeça afirmando. — Agora, vai lá, continua seu joguinho.
Ele deu o celular na mão dela, e veio caminhando até a mim com um sorriso nervoso.
— Eu não conheço essa menina, ela só entrou aqui. E aí, Bella, tudo bem? — perguntou sem jeito, expirando de alívio, as orelhas vermelhas. Eu olhei sua mão estendida, vacilei por um segundo, e ele nem me olhou quando avisou: — Eu lavei as mãos.
Enfim, aceitei seu aperto. E ri, por que, sinceramente? Que situação.
— Tudo bem por aqui também. A livraria tá linda, parabéns.
— Ficou boazinha, né? Obrigado…
Ele não disse mais. Observamos as estantes abarrotadas, mudos, um climão insuportável. Edward coçava o cabelo, a cara enrubescida. Até que decidi chutar o elefante na sala. Suspirei.
— Então… Papai?
— Ah. É… É minha filha. Mel. Melissa.
— Você não me disse nada dela ontem.
Ele franziu os olhos com muito esforço, só podia estar fingindo se lembrar da nossa conversa.
— Acho que devo ter esquecido. — Eu o olhei com as sobrancelhas erguidas. — Mas você não perguntou, também.
— E eu deveria? Você não tem muita cara de pai, eu nunca ia imaginar.
— Pois é.
— Sabe, um dia uma grande pensadora contemporânea falou que mentira é feio.
Seus ombros e cabeça caíram. Ele ajeitou os óculos, piscando algumas vezes para seu suéter marrom de vô.
— Ok, a verdade é que… Eu percebi ontem que você precisava desabafar, não queria começar a falar de mim. Não era o momento.
— Entendi — falei, mesmo não acreditando. — Só por curiosidade, você é casado?
— Não — respondeu rápido, foi curto. O fato de Edward quase nunca elaborar suas respostas sobre a vida pessoal me matava. Havia uma fofoqueira dentro de mim que precisava de alimento dia e noite, pelo amor de Deus. Parecendo ter ouvido minha aflição, enfim completou. — É uma longa história.
— Paiêêê! — Melissa resolveu interromper naquela hora. — Ganhei 10 mil diamantes, olha!
Ela veio correndo mostrar a tela hiper-colorida do celular com o joguinho. Edward acaricicou sua bochecha.
— Tá ficando craque, amoreco. Quero só ver se vai ganhar mais.
— Vou sim, e sabe que mais que eu fiz? Aprendi um manecete.
— É macete que fala.
— Isso aí, ó é só apertar aqui 100 moedinhas, ó, pronto, ganhei mais 10 mil!
— Moedinhas? Esse jogo não é de doces? — Ele pegou o aparelho, rosto franzido. Eu vi Edward ir de branquelo para vermelho quase roxo em 3 segundos enquanto checava o jogo. — Melissa, você acabou de gastar 50 dólares comprando porcaria de diamantes!
— Só isso, ué? — Ela meteu a mão no bolso do vestidinho lilás com estampa de Moana, e deu uma moeda pro pai. — Toma.
— Isso aqui são 50 centavos. Você sabe o que dá pra comprar com 50 dólares? — Ela sacudiu a cabeça. — Coisa pra cacete. Deus, só me faltava essa agora… — Ele bufou para não perder a paciência mais, vendo a cara da garota formar um bico de choro. — Tá bom, vai lá arrumar outra coisa pra brincar, eu botei um monte de brinquedo e canetinhas na sua mochila. Chega de celular até amanhã.
— Mas paaai!
— Até amanhã. Acabou por hoje.
— Pufavôzinho! — Edward não precisou repetir de novo, apenas apontou o balcão de onde ela veio, e Melissa saiu arrastando os tênis brancos encardidos. Ele virou-se para mim tirando os óculos para limpar na barra da camisa branca por baixo do suéter.
— Bella, se eu puder te dar um conselho. Use camisinha.
Eu gargalhei, finalmente relaxando um pouco da tensão desde que entrei. Pedi então que me mostrasse a loja. Os dez gatos de enfeite continuavam escondidos entre estantes e abajures, e agora havia uma área de leitura com um sofá e duas poltronas terracota bem aconchegantes. Os tapetes persas no chão ainda eram da época do avô. Dava vontade de morar aqui.
Ele me recomendou algumas autoras mulheres, como pedi, e minha cesta foi aumentando. Também me serviu um chocolate quente delicioso no novo pequeno espaço de café atrás da loja, onde uma jovem chamada Lola atendia. Uma babá perfeita, ela passou o tempo todo papeando doideiras com Melissa sem pressa de ir embora, mesmo depois do expediente.
Edward conhecia muito mais de livros do que eu, obviamente. Quando questionei sua formação, contou que tinha feito faculdade de Literatura, trabalhou em editoras, mas preferia mesmo ter contato direto com os leitores dessa forma. Tinha passado alguns verões em Forks na infância, e os dias na Toca do Gato eram suas melhores memórias. Eu sorri o tempo todo que ele contou, até perceber isso e tirar o sorriso do rosto porque não queria que ele interpretasse como outra coisa. Ele obviamente era compromissado, já tinha entendido.
Não que fosse da minha conta. Também nem queria me envolver com alguém agora. Isso estava fora de cogitação.
— Você escreve? — perguntei num impulso, pra pensar em outra coisa.
— Só lista de mercado hoje em dia, mas já me arrisquei, como todo estudante.
— Não pensa em publicar?
— Nah, deixo pros bons de verdade. Eu só brinco de escrever.
— Hm. Raridade, então.
— O quê?
— É muito raro um homem que tem consciência da própria capacidade e não se acha o melhor do universo em alguma coisa. Na minha área vejo tanto…
— Eu me acho péssimo em tudo, praticamente. — Ele riu curto, era sua risadinha nervosa.
— Você parece ser um bom pai.
— É mais uma obrigação do que uma habilidade, eu acho. Mel veio pra mim sem planejar, eu só me esforcei pra ser ok…
A modéstia dele me confortava. Era diferente do que eu estava acostumada em homens bonitos assim, especialmente Jake. Mas achei melhor Edward nunca saber disso. Enquanto debatia se seria indiscreto perguntar o que ele quis dizer com "Mel veio pra mim", a própria chegou trazendo nosso brownie de frutas vermelhas em suas mãozinhas. Com todo cuidado, olhando o chão para não tropeçar, até deixar em nossa mesa. Voltou com talheres e guardanapos, e mais um prato de brownie só pra ela.
— Adorei a nova garçonete da Toca — brinquei.
— Obrigada, vai custar 50 doláres — Mel disse de mão estendida, e nós rimos tanto, que cheguei a lacrimejar. Quer dizer, apenas seu pai e eu. A criança não entendeu a graça.
— Tá tudo bem, filha, a Bella já vai me dar mais do que 50 doláres comprando nossos livros.
— Obaaa! — E tão naturalmente, fui abraçada com um carinho espontâneo que há muito tempo não sentia. Quase chorei. Mentira. (Verdade). Notei que seus longos cabelos cacheados eram extra-macios, marrons quase vermelhos e cheiravam a uva. Viciada em roxo, eu já tinha entendido tudo.
— Sabia que eu faço os melhores brownies da cidade? — comentei em tom de brincadeira, depois de elogiar o que estava na minha boca. Edward ergueu as sobrancelhas, curioso.
— Então depois me passa a receita e os segredos. Ou podemos vender aqui mesmo, você faz, que tal?
— Não tenho tempo de fazer pra vender. Mas passo a receita sim. Eu só faço em outubro, pra Feira Beneficiente do Clube do Livro de Forks. A cidade toda participa, aliás.
— Essa feira? — Edward apontou para o quadro de avisos atrás de mim, que eu sequer tinha prestado atenção. Algumas pessoas já tinham deixado os eventos e serviços da cidade, e um dos postêres era o chamado para as barracas da Feira.
Meu estômago prendeu forte o brownie, parei de mastigar. Eles não tinham me avisado nada sobre as datas. Até Alice esqueceu.
— É… Essa mesmo.
— Já se inscreveu? Eles deixaram aqui uma lista pra quem quisesse, no fim da semana o Michael vem coletar.
— Ah ainda não. Eu nem sabia que já tinham marcado… — O que era bem estranho. Todo ano eu era consultada antes por ser um membro tão ativo do Clube e das Feiras, e por ter uma agenda um pouco mais complicada que as dos outros, com as escalas de plantões de trabalho.
— Putz. — Ele parou de comer. — Desculpa, não devia ter falado disso. Esqueci do seu problema com eles. Desculpa mesmo.
Seus dedos direitos catucavam as pelinhas do dedão, vi que estremecia um pouco. Ele ficava nervoso perto de mim com frequência, isso até me deixava meio nervosa também. Me ajeitei na cadeira.
— Não, tudo bem. Mais cedo ou mais tarde isso ia acontecer mesmo… Eu só queria entender o motivo desse gelo que estão me dando.
— Você nem faz ideia? Não perguntou?
— Não vou perguntar. Eu não fiz nada de errado, eu sei disso.
— Bom…
— O quê?
— Eu ouvi algumas coisas enquanto alguns clubistas estavam aqui.
— E? Vai fala.
— É verdade que a polícia apareceu no dia?
Imediatamente, lembrei das dondocas no mercado, minha pressão até subiu.
— É mentira! Que saco, é a segunda vez que ouço isso. Não sei quem inventou. A polícia de Forks passou na rua na hora que eu estava saindo de casa, mas foi pra entregar o cachorro da nossa vizinha.
— Ah. Talvez seja melhor você esclarecer isso, porque o pessoal todo comentou, até outras pessoas de fora do Clube.
— Era só o que me faltava, ter que lidar com toda a chatice burocrática de um divórcio e ainda isso… Não dá vontade nem de me inscrever na Feira também. Arranjem outra otária pra fazer brownies perfeitos de chocolate e flor de sal que desmancham na boca. Malditos.
— Não faz isso. Eu quero muito provar seus brownies perfeitos que desmancham na boca. Calma aí. — Ele se levantou, foi para dentro e voltou rapidamente com um papel e uma caneta. — Põe seu nome. A cidade pode não merecer seu esforço, mas as crianças carentes da Reserva precisam da sua arrecadação.
— Tia, você vai fazer brownie e levar pros meus priminhos? — Melissa perguntou na hora, lembrando da nossa existência quando parou de lamber seu prato de doce. Seus olhos até brilhavam. — Pufavô, pufavozinho.
— Não, a Feira é pra ajudar quem precisa em La Push. Seus primos não precisam de dinheiro. — Seu pai falou. — Vai, Bella, se inscreve.
Ter um coração mole ainda me levaria à ruína. Pior ainda quando tinham dois pares de olhos verdes pidões implorando pra mim. Suspirando, e com uma sensação péssima de não ser bem-vinda, eu coloquei meu nome e o tema da minha barraca na bendita lista, esperando que meus companheiros de sempre da barraca dos brownies, Alice, Leah, Ben e Angela, também se inscrevessem.
— É bom vocês comprarem bastante, viu? — suspirei, escrevendo.
Eu adorava o silêncio da minha casa em Port Angeles, mas o tempo passava mais rápido quando o papo era bom. Saímos da livraria quase nove da noite.
Edward me levou até meu carro, mesmo eu insistindo que não precisava. "Tá tarde e escuro", ele dizia, como se Forks fosse Seattle. Ele levava uma Melissa desmaiada de sono no colo, a mochilinha lilás em suas costas de homem grande, todo atrapalhado com os óculos, mas aguentando firme. Vamos fingir que não achei a coisa mais fofa que vi nos útlimos tempos.
Enquanto eu me distraía com um outdoor gigante com a cara da minha ex-sogra, fui surpreendida por um papel branco preso no parabrisa da minha caminhonete. Só entendi que era um envelope quando peguei na mão.
— Que isso? — meu vizinho perguntou, e eu abri para descobrir um bilhete anônimo, escrito em letras caixa alta impressas, para eu não reconhecer a caligrafia. Meu coração acelerou por essa merda. Eles estavam achando que minha vida era o quê? Um filme?
"JÁ SABÍAMOS QUE VC TRAIU JAKE
AGORA SABEMOS COM QUEM
NINGUÉM MECHE COM NOSSO AMIGO
SE LIGA HEIN"
— Ninguém meche?! Porra, nem pra fazer correção ortográfica. — Eu tive que rir, mesmo querendo chorar. Então falei alto, virando a cabeça para os lados. — Olha aqui, quem mandou isso? Hein? Covarde! Aparece! Vem aqui, que eu vou mostrar pra vocês a traidora aqui, oh!
— Bella… — Edward me lembrou que Melissa ainda dormia. Eu respirei fundo, me acalmando no meio da rua principal deserta.
— Desculpa. Me exaltei. Mas se eu descubro quem mandou essa palhaçada, eu mato. Eu juro. Não tenho sangue de barata.
— É melhor não falar isso, o povo já tá achando que você tem passagem na polícia.
— Que ódio.
Eu fui para o carro bufando, joguei minhas compras de livros novos a contragosto, querendo ficar pra lutar. Edward colocou a criança no bebê conforto do seu Volvo preto, e voltou para minha porta enquanto eu botava o cinto.
— É… Bella?
— Oi.
— Você tava brincando quando disse que ia matar, né? — Eu rolei os olhos, tentando relaxar.
— Estava, Edward. Calma. Figura de linguagem.
— Ah ok. Só pra conferir.
Ele dirigiu na frente o tempo todo, a estrada só nossa. Chegamos ao nosso prédio quarenta minutos depois, Melissa andou resmungando, quase sonâmbula subindo pelas escadas para o seu apartamento no meu andar. Antes de entrar e lidar com a festa do Biruta, chamei Edward uma última vez.
— Ei. Valeu pela noite, viu? Apesar de tudo, adorei ir a Forks pra ver A Toca funcionando de novo.
Ele sorriu.
— Por nada. Foi bom ter você lá também. Sempre bom encontrar gente jovem tão interessante em livros pela região… Espera, eu falei interessante? Quis dizer interessada. Ah, você entendeu, né?
Eu nem liguei para o seu erro e atropelos nas palavras como de costume, apenas troquei com ele um olhar de cumplicidade, porque Edward parecia saber exatamente como eu me sentia em relação a algumas coisas bem específicas, eu já tinha reparado isso. Era muito interessante.
Depois dali, dissemos o nosso boa noite, e enfim cheguei para tomar um banho, lavar o dia de mim, e ir direto para a cama com um dos meus livros novos da Isabel Allende. Cheirei ele igual uma viciada mesmo, e daí? Biruta dormiu nos meus pés antes de mim, preguiça em forma de cachorro.
Estava lendo a décima página quando me distraí, e logo me peguei com o celular nas mãos, o chat privado de Edward aberto.
[Bella]
Eu não traí ninguém, tá?
Enviei, mas na mesma hora tive vontade de apagar. Pra que fui falar isso? Ele ia achar que eu era doida ou coisa pior. Mas se apagasse, Edward ia entender que eu me arrependi de algo que disse a ele, e talvez fosse me perguntar o que era, aí sim seria péssimo. Enquanto eu debatia internamente, meu vizinho conseguiu ler e ainda responder à mensagem.
Inferno.
[Edward Vizinho]
Tudo bem. Não é da minha conta mesmo rs
Nossa. Eu podia ter dormido sem essa. Escrevi isso mesmo, mas logo apaguei. Resolvi ir por um caminho mais fácil.
[Bella]
Ah, eu sei disso hahaha Mas queria deixar claro. Esses boatos são falsos. Eu nem sei como isso começou. Perguntei pro meu ex-marido, ele jurou que não falou nada. Enfim, desculpa por ter te metido nisso sem querer com aquele bilhete lá.
[Edward Vizinho]
Sem problemas, foi até meio divertido. Tipo uma pista de uma história policial. Podemos ir atrás pra tentar descobrir.
[Bella]
Bom saber que meu sofrimento te diverte…
[Edward Vizinho]
Merda.
Não foi a intenção.
Desculpa!
[Bella]
Brincadeira, Edward. Vc leva algumas coisas mto a sério hahahah
Eu ri de nervoso. Na vida real, estava com o coração na boca, grande demais para dar uma risada sequer. Simplesmente por trocar mensagens bobas com ele. Eu já tinha visto esse filme antes, e não estava gostando nadinha de onde esse enredo estava me levando.
[Edward Vizinho]
Desculpa de novo :(
Ao que tudo indicava, ele conseguia ser monossilábico e reticente até por mensagem. Não houve mais papo depois disso, e eu resolvi dormir ao invés de ficar pensando o que tudo aquilo tinha significado. Com uma mensagem a Alice perguntando o motivo de ter omitido sobre a votação de datas da Feira, eu desliguei o celular e peguei no sono.
Algum tempo depois, acordei com um grito. Horripilante, de gelar as veias.
Depois veio um choro, e meu corpo todo travou de adrenalina, em alerta pensando que algo terrível estaria acontecendo.
Ainda estava escuro, meu relógio marcava três horas. O choro meio gritado continuou por alguns minutos. Pior ainda, parecia de criança. Meu corpo exausto demorou a lembrar que agora havia uma por perto no prédio, que não existia nesses quatorze dias desde que me mudei. Só quando registrei a informação, me levantei rapidamente, como nos intermináveis plantões que fiz durante a faculdade.
Vesti meu roupão e mal calcei os chinelos, já estava na porta deles.
— Edward! — eu batia, aflita. — Edward! Ela precisa de ajuda?
A voz dele veio meio longe, mas ainda nítida.
— Tá tudo bem, Bella. Pode ir. — Mas os gritos e o choro não paravam.
— Deixa eu ajudar. Ela tá bem? Eu sou médica, lembra?
— Tá sim. Vai. Por favor.
Milhões de pensamentos terríveis passaram pela minha cabeça, inclusive o pior de todos, que o próprio pai pudesse estar maltratando a filha. Mas nada do que vi durante as quatro horas que passei com os dois fundamentava essa teoria.
Tremendo tanto, eu vasculhei a memória de todas as ocasiões que presenciei cenas assim nas alas infantis. Mas nada vinha. Eu estava tão cansada. Esperei por alguns minutos, até que enfim, o barulho de partir o coração parou. Bati na porta de novo, dessa vez bem mais baixo.
Ele não respondeu, porém ouvir seus mumúrios e o da menina até a vozinha dela cessar, e só restar Edward falando. Continuei ali por uns instantes mais, sem entender se ele falava sozinho, com quem ele falava, o que falava, até perceber que eram 4 da manhã, e eu estava com o ouvido colado na porta do meu vizinho esquisito que mal conhecia tentando bisbilhotar sua vida íntima.
Biruta apareceu na minha frente, como quem dizia "Vem, para de ser doida", e eu voltei com ele para a cama, enfim.
Dormi pesado aquela manhã inteira, sem ouvir o despertador. A sorte é que meu cachorro também gostava de uma soneca. Fiz meu dia render limpando a casa com o pouco tempo que tinha antes do meu plantão da noite em Port Angeles, ouvindo música alta até a sra. Cooper interfonar cortando meu barato. Eu não queria chamá-la de velha chata, mas talvez eu tenha pensado sim, não vou negar.
Quando voltei uma e meia da manhã, o prédio silencioso tinha só um resquício de choro enquanto eu subia as escadas. Meu peito já bateu mais forte pensando no pior, até que me veio um estalo entre um degrau e outro: terror noturno infantil.
— Só pode ser isso. Ai, por que não lembrei antes, merda?
E saí correndo pra bater na porta dele e avisar o que fazer. A criança ficou quieta assim que encostei minha orelha intrusa na sua porta, e eu parei no ar antes de incomodar ainda mais. Ainda alfita, decidi sentar no tapete de piaçava, encostada na porta. Peguei meu celular tentando recuperar a noção social de bons costumes, e em vez de perturbar, mandei apenas um apoio a Edward.
[Bella]
Estou aqui se precisar. Acho que ela tem terror norturno. Só segura ela, não deixa que se machuque, nem tente acordá-la. Ela vai ficar bem.
Boa noite pra vcs.
Esperei sua resposta, mas ela nunca chegou, claro, o homem devia estar morto de cansaço lidando com uma criança berrando há dois dias seguidos. Mesmo com o capacho xexelento espetando minha bunda, acabei despertando só quando senti o mundo revirar e meu crânio acertar o chão.
— Ai!
— Bella?! — Eu só ouvi a voz dele, olhei pra cima.
— Ahm? Ai, droga. — Edward e Melissa estavam de cabeça pra baixo, eu tentei ajustar os olhos à claridade repentina, o sol batia direto na sala dele. Me levantei, sem saber se reclamava de dor ou me jogava dessa escada de tanta vergonha.
— Você dormiu na minha porta?
— Eu? Não, claro que não. — Eu ri forçada. — Só estava ajeitando seu capacho, me desequilibrei aqui.
Os dois me olhavam como se eu fosse doida, afinal, sério, eu devia ter algum problema mesmo. Ele viu minhas roupas de trabalho e perguntou se eu estava saindo, se queria uma carona, estava indo levar Mel pra escolinha.
— Não, na verdade acabei de voltar. Mas obrigada. Você tá bem, Mel? — perguntei, me abaixando só um pouco para examiná-la de longe, e não achei nada, além da garota em seu uniforme e rabo de cavalo alto olhando pra mim completamente amendrontada.
— Tô sim — respondeu com a voz um pouco rouca, o pai então lembrou de me dar bom dia, e ela: — Bom dia, tia Bella.
Essa foi a última vez que vi tanto Mel quanto Edward nos próximos dois dias.
O silêncio também reinou, e embora me deixasse aliviada, ainda assim enviei mensagem perguntando como estava indo tudo. Sempre monossilábico, Edward disse que Mel estava bem, e o pediatra tinha descartado terror noturno, eram só alguns problemas pessoais passageiros. Eu não fazia ideia que tipo de problemas uma criança aparentemente tão alegre e saudável podia ter, mas nessa vida tudo era possível.
Também tive vontade de contestar o diagnóstico, mas sabia como seria anti-ético e fiquei na minha. Eu estava envolvida demais na família de alguém que mal conhecia, tinha que parar com isso.
— Podemos conversar agora ou ainda tem mais um braço pra costurar? — Alice apareceu no meu plantão daquela noite, comia uma maçã sentada irritantemente sentada em cima da minha mesa. Era ótimo ter companhia, o problema é que ela fazia isso sempre nos últimos tempos. Eu sabia que era só por pena.
— Tira essa bunda daí. — Eu a expulsei da mesa, ela foi com um bico para a minha cadeira enquanto eu limpava a maca. — Vem cá, você não tem nenhum encontro hoje não? Sexta-feira.
— Tenho, com você.
— Eu não vou realizar sua fantasia de brincar de médico, garota, se liga.
— O que é uma pena, pois seria a melhor foda da sua vida. Mas eu vim ver você só, obrigada. Não posso querer passar tempo com a minha melhor amiga?
— Sei…
— Tá, tem um carinha aí que eu tô dando mole e tal. Um enfermeiro aqui que é um grande gostoso, mas eu juro que vim pra te falar umas coisas.
Dessa vez, eu a expulsei da minha cadeira, e ela sentou do outro lado da mesa a contragosto com sua minissaia, meia-calça preta e suéter, totalmente desapropriada para o clima.
— Deixa eu adivinhar, é o Jasper?
— Não me diz que você já pegou ele também?
— Quando eu pegaria? Se só transei com um homem na vida?
— Ué, sei lá. Vai que rolou uma escapadinha no meio…
— Não, Alice, eu nunca fiquei com Jasper. Faça bom proveito. E sim, ele é ótimo rapaz, muito bonzinho, pode ir tranquila. — Eu sorri.
— Ufa. Bom, agora falando sério, lembra que eu falei que o pessoal do Clube nem me chamou também pra reunião das datas da Feira? — Eu assenti que sim. — Então, eu descobri que era porque Jake iria estar lá antes de partir pra Seatte.
— Ahm? Só isso?
— É, eu não entendi também porque banir você, e eu por osmose. Mas então eu pensei numa coisa…
— Que foi? Fala logo.
Ela se aproximou.
— E se ele já estiver pegando alguém do Clube e não quer que você saiba? Sim, porque pensa bem, foi você quem terminou, e todo mundo sabe que Jacob ainda é louco por você, com certeza vai querer tentar te reconquistar em breve. Mas se você souber que ele não está disponível, logo logo você entra numa relação nova, e aí bye bye reconciliação.
Eu só a olhei boquiaberta tentando compreender a enxurrada de informações. Quando consegui, até suspirei.
— Cara, você tem muito tempo livre. Deixa eu te passar o contato dos voluntários do orfanato.
— É sério! Essa é minha teoria. É o safado do Jake que tá fazendo tudo isso de bilhete anônimo, fofocas e tal pra te provocar, acabar com a sua reputação, e ainda por cima fazer com que outros homens tenham medo de chegar perto.
— Não nego que seja sério, eu não boto minha mão no fogo por homem nenhum. Mas eu não acho que Jake seja capaz disso. Ele tá em outra já, a gente terminou bem. Ele me entendeu.
— Quem disse que não foi apenas um "bem" pra te acalmar e depois ele voltar dando o bote? Hein?
— Não é. Pra dizer a verdade, eu acho que a gente já tinha esfriado bem antes do casamento. A lua de mel cheia de briguinhas foi só a gota d'água. Nós dois já não estávamos mais presos aos compromissos. Foi o que te falei, a gente cresceu e amadureceu de formas diferentes, eu e ele chegamos a essa conclusão.
— Eu não aguento o tanto que você é calma com esse assunto. Parece até que não perdeu o amor de uma vida inteira.
— Tõ cansada, isso sim. Eu prefiro não saber dele, não quero nem ouvir notícias por enquanto, quero seguir e me achar na vida. A única coisa que eu queria de verdade eram meus amigos e colegas de volta do meu lado. Espero que quando Jacob for embora, tudo isso passe logo.
— Falta só uma semana pra ele ir, parece que teve um contratempo ontem, falaram no grupo…
— Então até lá minha vida vai ser esse inferno. Tudo bem, então. Eu contra Forks. Contagem regressiva.
Alice acabou jantando comigo, fofocando um pouco mais dos nossos em comuns, sobre a candidatura da tia Sarah, e no fim escovou os dentes para ir ver o enfermeiro Jasper. Safada.
A noite num pronto-socorro de cidade pequena costumava ser mais parada que cama de freira. A madrugada, então, nem se fala. Peguei no sono na minha mesa duas vezes, e uma fui acordada pela faxineira para varrer o chão. Na terceira vez que começava a sonhar com tartarugas de óculos, fui avisada pela recepcionista que havia chegado uma criança machucada, e um certo rapaz com óculos de aro tartaruga apareceu na minha porta.
Suas mãos e suéter estavam vermelhos, Melissa chorava alto em seus braços com o rosto sujo de sangue. Meu corpo todo virou pedra e fagulhas.
— Edward?! — Levantei correndo. Ele ofegava, claramente também correu até aqui.
— Chama a minha mãe! — Mel gritava no choro.
— Ela já tá vindo, amoreco. A tia Bella vai cuidar de você, tá? Você lembra dela, né?
— Mamãeee!
— Foi acidente de carro?
— Não, ela estava sonâmbula, saiu correndo sem eu ver e bateu a cabeça em algum lugar, acho que na quina da mesa.
Eu tive que me segurar o tempo todo para não entrar em pânico, uma coisa que nunca tinha acontecido antes comigo. Mas também, eu nunca tinha atendido uma pessoa que eu já conhecia e já tinha criado um tipo de carinho. Felizmente, nada demais aconteceu. O exame de imagem comprovou apenas uma leve concussão, e cinco pontos no supercílio que deixariam a Mel mais charmosa ainda quando crescesse.
Edward ficou colado nela o tempo todo, pálido, com as mãos muito frias quando eu encostava nele sem querer. Quase não me notou presente, sempre focado na filha e no bem-estar dela, atento a qualquer gemido de dor. Uma hora depois, eu terminava os pontos na criança sentada na maca, e Melissa já estava bem mais calma, apenas querendo ir embora logo.
— Foi assim mesmo, tia Bella, eu juro jurado. Eu tava na minha cama mimindo, depois num lembro mais. Aí eu bati com a cabeça sozinha na sala, meu pai acordou com meu grito de novo, mas dessa vez foi o dodói. — Ela me explicava, as pernas balançando sem parar e me chutando no processo. Era protocolo se certificar que havia acontecido apenas um acidente mesmo com as crianças nesses casos.
Alguém bateu na porta, e eu só vi quem era quando Edward pronunciou seu nome.
— Emily. — Ele a abraçou com alívio, beijando sua cabeça, e ela retribuiu o gesto. Da maca, a criança só faltou pular em meio a um berro empolgadíssimo.
— Mamãe!
N/A: Finalmente uma mãe da criança chegou! Algum palpite se ela é ou não compromissada com Edward? No próximo vamos descobrir. Comenta aí pra chegar mais rápido!
Beijosss
