deleite

"Nenhum de nós vai sair desta ilha."

(E não sobrou nenhum – Agatha Christie)

Capítulo 2: Sentidos

Há três horas e quatorze minutos atrás...

Noto Jasper e Edward voltarem do quarto, o namorado da minha amiga funga e coça o nariz.

— Eles foram cheirar? — pergunto descrente, enquanto misturo o chocolate no resto da massa que Alice prepara. Depois que ela voltou para a casa, tentou me puxar para conversar várias vezes, mas ignorei o suficiente para ela entender e abandonar seu plano mirabolante, seja lá qual for.

— Acho que só o Jazz. Dada não usa pó.

— E desde quando o Jasper usa?

— Ele não usa. Não usava — se corrige, rindo. Pega a massa e joga na forma de alumínio. — Ele quis experimentar e essa viagem pareceu a oportunidade ideal. E o Dada tá com ele pra se certificar de doses e essas coisas. — Vejo ela colocar o brownie no forno, mas antes dela fechar a porta dou uma dedada na massa.

— Foi mal é a larica! — Ela ri e eu fecho a porta do forno. — Eu acho incrível como ele é um misto perfeito de Walter White com Pablo Escobar — comento e ela ri. — Não te incomoda?

— O que?

— Ah... que o seu irmão seja traficante.

— Ele não é, Bella, pelo amor de deus — gargalha e eu a encaro.

— Amiga ele conseguiu drogas em outro país. Seu irmão tem contato de traficantes em águas internacionais. Você tem noção do que é isso?

— Sim. Que ele é bem relacionado. Ah, fala sério, Bella. Desamarra esse bico aí que só hoje você consumiu três tipos de drogas. Trazidas por ele, não vamos esquecer.

— Duas! — contradigo rindo.

— Três, né? Num dos baseados tinha Haxixe. — Jogo os braços pra cima e bufo. Ela solta uma gargalhada e eu uso o pano de prato para acertá-la na bunda.

Começo a preparar um macarrão para comer com o resto da salsicha que sobrou e noto Jasper mais agitado. Nada alarmante, mas um pouco fora do normal.

Meu olhar cruza com o de Edward e ele faz um aceno breve com a cabeça. Tento não ler demais no fato que ele não voltou a me procurar para tentar conversar nessas últimas horas e foco em Alice, que, por sua vez, se encaminhava para os braços de Jasper.

Passo um tempo jogando videogame com o Emmett e dou risada em todas as vezes que ele xinga a televisão, e depois a mim, quando perde. Sinto o efeito do das drogas que consumi cada vez mais suave, como se meu corpo estivesse reconhecendo-se depois delas. Relaxada, finalmente deixo meu olhar correr pela casa lindíssima.

É em estilo bangalô por fora, mas totalmente automatizada por dentro. Fica em uma ilha isolada na costa do Rio de Janeiro, no Brasil. Quando comparada a outras, a Ilha Esme é até pequena, mas absurdamente aconchegante. A areia branquinha e aquele mar azul piscina são de tirar o fôlego durante o dia. De noite, pareciam igualmente impressionantes.

Essa era a nossa primeira noite aqui de um total de três. Depois partiríamos para o município do Rio de Janeiro para conhecer a cidade maravilhosa, onde ficaríamos por mais quatro. Jasper fez Edward jurar que iríamos em um baile funk, e eu preferia não imaginar como o irmão de minha melhor amiga conseguiria nos colocar em um. Esta extravagância de viagem foi nosso presente de formatura dado pelos pais de Alice e Edward, e eu daria o meu melhor para aproveitar cada pedacinho.

A casa era minimalista e tecnológica. Uma porção de coisas embutidas que não saberia existir caso os gêmeos não tivessem conosco. Tinha quatro quartos, um salão aberto com sala de entretenimento, cozinha e sala de jantar interligados. As "paredes" da lateral da cozinha — e sala de jantar — eram todas de vidro, e retráteis. Quando abertas nos davam passagem para a área externa, que tinha uma piscina, uma banheira de hidromassagem e uma churrasqueira. Quando chegamos, Emmett se assegurou de pendurar uma rede entre duas árvores, mas ninguém se atreveu a testar sua segurança.

Ouço um agrupado de risadas vindo do lado de fora da casa, e sigo o som com o olhar. Meus amigos estão sentados, rodeando Jasper, enquanto ele narra algo, possivelmente uma passagem histórica. Jasper tem uma oratória espetacular, e não é raro encontrá-lo entretendo um grupo de pessoas com fatos que provavelmente é uma distorção da história.

Noto que Edward tem com um sorriso imenso enquanto observa a sua irmã gargalhar do namorado. Replico o gesto, porque fico rendida todas as vezes que consigo ver as interações deles. Ele chora, ela amua. Ela gargalha, ele se regozija. A sintonia e cumplicidade entre eles é de dar inveja. Ser a filha do meio de uma família com cinco irmãos nem sempre me permitia ter esse tipo de laço fraternal que eles têm.

Antes de chegar neles, sinto meu estômago reclamar e refazendo a minha rota, vou à cozinha pegar alguma comida. Vejo o brownie fora do forno e os corto em quadrados.

Ouço Emmett gargalhar, enquanto Rosalie nega efusivamente com a cabeça. O rosto escondido entre as mãos enquanto meneia a cabeça.

— Nem vem, Emmett — ela reclama, mas noto o sorriso escondido em sua face.

— Vamos, ursinha... — Aquele homenzarrão choraminga e eu rio, sem fazer ideia do que estava acontecendo.

Coloco os brownies já cortadinhos em cubos em um prato e os levo até meus amigos.

— Alguém tá com fome? — pergunto, mas nem dá tempo de passar a bandeja, porque Jasper a toma de mim e começa a distribuir.

— Docinho? — Edward mordisca o bolinho e sorri. Tento não fixar meus olhos nele.

— Sim, mas esse é de comer — digo, e sinto ele puxar meu dedo. Quando o olho vejo que me oferece o seu pedaço. Aceito, mesmo sabendo que a bandeja com uma dúzia deles ainda está ao meu lado.

— Você tá legal? — questiona depois de um tempo que me sentei ao seu lado. Até tentei buscar outro local, mas o único assento disponível era uma poltrona bem mais afastada, ou o chão. O sofá pareceu bom o suficiente.

— Tô sim, obrigada. Só uma fome que não passa por nada.

— Mas e o efeito do doce? — pergunta no momento que Jasper faz uma contagem regressiva e todos saem em disparada para fora da sala. Me levanto em um sobressalto, mas Edward me segura pelo pulso. — Eles estão fazendo uma gincana, fica aqui — pede e eu o encaro realmente preocupada por não ter percebido 4 pessoas planejarem uma gincana. — Mas hein? E o doce? — volta a questionar e tento não surtar pelo tempo que permaneceu segurando meu punho antes de soltá-lo.

— Quase nada. Só tô me sentindo mais levinha mesmo, mas nada demais. Estou até surpresa — comento, e emendo depois que ele levanta uma sobrancelha. — Achei que ia me deixar muito mais sem controle das coisas — digo e ele acena a cabeça. Noto que começa a tamborilar nas pernas algum ritmo que só ele consegue ouvir.

— Então naquela hora você estava no controle das suas ações — pergunta sério, mas eu rolo os olhos sem nenhuma disposição de falar sobre aquilo. Não volto a olhá-lo.

— Você também cheirou? — mudo de assunto, e se ele se incomoda, não percebo.

— Não. Não me arrisco com pó. Arrumei só porque o Jasper pediu.

— Por quê? Por que não se arrisca? — complemento quando noto a expressão de dúvida.

— Porque já usei uma vez e foi de longe a melhor droga que já experimentei. — O olho em dúvida e ele dá de ombros. — Não quero arriscar, porque acho que tenho potencial de me viciar — ri, e eu franzo a sobrancelha tentando entender a graça que ele vê na sua afirmativa.

— E todas as outras? Não te dão medo?

— Bella você sabe que eu não sou um Zé Droguinha, não sabe? Meu deus, não faz essa cara — gargalha e eu levanto os braços, sorrindo. — Eu não uso drogas direto. Só em festas, ou quando tô com uma galera mais próxima, e mesmo assim nem são todas às vezes.

— No último ano eu te vi usando em praticamente todas as festas. — Tento não atribuir julgamento à minha voz, mas não sei se consigo.

— A gente não saiu tanto assim ano passado, né? — afirma e franzo o cenho. — Manolo não era lá muito de ir em festa, e você ficava muito mais com ele do que a gente... — Rolo os olhos e viro meu tronco no sofá para observá-lo de frente. — Eu acho que gosto de usar quando preciso amplificar diversão. E bom... — Me aproximo porque sua voz baixa significativamente. — Você não estava andando muito conosco, não é? Vocês... — Se corrige e eu bato nossos ombros.

— Sentiu minha falta, Edward? — pergunto com humor e quando ele me olha sério, perco a graça. Pigarreio antes de voltar o assunto para um espaço confortável. — Ele não curtia mesmo. Mas acho que o que falta de animação pra festa nele, sobra na Kate né? — Ele solta uma risada e concorda com a cabeça. Ficamos em silêncio, e começo a me sentir sufocada com o som das ondas batendo na orla.

— Mas sério, eu conheço muito de drogas porque antes de experimentar qualquer uma delas, pesquiso muito. Gosto de estar no controle do meu corpo, e racionalizar os efeitos quando eles começam a surgir, ajuda a não ficar paranoico.

— Uhum, acho que faz sentido — digo e caímos no silêncio novamente. Vasculho na minha cabeça algum assunto para quebrar o desconforto. Sem sucesso, sinto um toque suave no dorso da minha mão. Observo ele acariciar a veia proeminente e solitária com a pontinha do seu dedo. Sinto como se meu sangue ali estivesse bombeando mais forte, até mais quente. Olho intrigada o movimento que fervilhava minha pele, e quando faço menção de falar sobre isso, ele me interrompe.

— Queria tanto conversar contigo — murmura, e noto que seus olhos estavam acompanhando o movimento do seu dedo. — Mas conversa séria, dessa vez.

— Alice já foi fazer fofoca, né? — implico e ele levanta o cantinho da boca em um sorriso. — Tá tudo bem, Edward. Já esqueci o que rolou. Eu sei que foi a droga que comandou aquilo lá. Eu também sei que você jamais faria algo pra me chatear. — Vejo quando vira o rosto na minha direção. — Além disso, não foi a primeira vez que a gente se pegou de maneira irresponsável, mas tenho certeza de que vai ser a última. — Busco a validação e noto que ele finalmente me fita os olhos. Não consigo traduzir o que passa em sua mente, mas espero que ele entenda que apesar de gostar muito de nós dois juntos, não estou mais disposta a ficar com ele enquanto estiver emocionalmente indisponível. — Não é? — pergunto quando percebo que ele não se manifesta. Ele estreita os olhos, mas nada fala por algum tempo. Noto que para de me acariciar e fito seus olhos verdes.

— Eu tô com a sensação de que a gente não tá falando da mesma coisa. — Ele tem uma suavidade estranha em sua voz.

— Por quê?

— Porque eu tô achando que você não sabe que a Kate—

— Edward! — A voz de Jasper nos interrompe. Edward fecha os olhos e bufa, e tudo o que vejo na sua expressão facial é frustração. Quando olho para Jasper, percebo que ele está esbaforido, mas tinha um sorriso enorme no rosto. — Bora fazer um circuito? Quem ganhar, ganha? Melhor de três.

— Circuito do quê? — Edward concede porque está para nascer alguém mais competitivo do que ele.

— Sei lá, um circuito tipo funcional. A gente monta aqui uma arena na sala, e quem ganhar faz o outro cumprir uma pena, sei lá.

Edward pondera, mas eventualmente cede. No meu ouvido, ele alega que é importante ajudar Jasper a gastar energia porque isso faz com que a droga seja metabolizada mais rápida. Me afasto até a cozinha para buscar água para eles, e aproveito para subir umas cervejas para o congelador.

Logo o resto dos meus amigos se juntam a nós três e a disputa se inicia. Termina mais rápido do que imaginei, com Edward ganhando todas as três rodadas, sem qualquer dificuldade.

— Ô amor, por que você achou que seria inteligente disputar com um atleta? — Alice ri, e eu a imito.

— Manda a prenda aí... — Jasper pede após beber uma garrafa de água mineral em uma só golada. — Sabe o que eu ia mandar você fazer se eu tivesse ganhado? — questiona e vejo Edward rolar os olhos, mas está sorrindo. Me levanto para levar o lixo que acumulou na sala até a cozinha, mas no caminho ainda escuto a conversa.

— Você nunca teria ganhado de mim, cowboy.

— Tá, mas sabe o que seria?

— Manda.

— Eu ia falar para você dar uns pegas na Bella. Aquela dança lá, puta merda, irmão, vocês tão querendo muito dar uma transada. — O ouço gargalhar quando Alice grita seu nome. — É sério, porra! Rosalie e Emmett foram trepar por causa daquilo sabia? — Ele complementa e meu corpo paralisa em um misto de congelado e fervilhante. De costas para a sala, sinto olhares me marcarem. Apresso os passos para fora do cômodo, jogo o lixo correndo na bancada da cozinha e vou em direção à piscina.

— Não depende só de mim né? — Ouço e me irrito com a acústica da casa que não me protegeu de ouvir a pergunta.

— Não, pô, mas eu duvido que ela fosse recusar. E, porra, irmão, você quer, não quer? — Saio da casa, em direção a piscina e não ouço uma resposta. Finalmente.

Os corvos crocitam perto demais e atraem a minha audição. Levanto a vista e busco pelos animais no meio daquele céu enegrecido. Noto algumas nuvens carregadas começarem a se formar na direção do oceano e um arrepio involuntário me percorre o corpo.

Escuto um estrondo dentro de casa e corro para ver o que é. Me surpreendo quando avisto Edward caído de costas no chão, com Jasper acima dele, um pé de cada lado do seu corpo, fazendo uma espécie de dança da vitória. Olho para meus amigos buscando resposta, e finalmente a encontro em Jasper.

— A gente jogou mais uma, e dessa vez, quem ganhasse, ganharia mesmo. O playboy aqui não aguenta um desafio — gargalhou e olhei para Edward, que tinha um sorrisinho preso entre seus lábios apertados.

— Tá tudo bem? — pergunto quando vejo que Edward esfrega o tornozelo. Ele dá de ombros, e noto que o sorriso escapa.

— E agora quem vai pagar a prenda é ele — explica Jasper e eu me aqueço por inteiro, antecipando o que o Jasper iria sugerir.

Meu cérebro grita pra que eu saia do cômodo, mas meus pés se fincam no chão como raízes.

— Eu vou precisar do aval de uma terceira pessoa pra fazer isso aqui, então queria saber se todo mundo concorda.

— Bora, porra! — Emmett brada, socando o ar. Rosalie rola os olhos, mas concorda. Alice apenas sorri.

— Bella?

— Eu não sei. É aval pra quê?

— Eu não vou mandá-lo fazer nada que alguém vá se arrepender.

— Também nada imoral?

— Deixa de ser chata, Isabella. — Alice intervém. — Tu tava usando LSD não tem nem três horas. — Sinto meu rosto enrubescer e olho para o chão. Balanço a cabeça e ouço Jasper estalar a língua.

— Tranquilo, eu não precisava de você mesmo.

— Não? — Edward ecoa meus pensamentos.

— Não. Porque em condição de vencedor do circuito contra o atleta — ri esganiçado. — Quero que você beije o Emmett.

Me forço a não olhar, mas consigo resistir por frações de segundos. Edward me observa de maneira intensa quando exclamo uma pergunta:

— O Emmett? — Sei que a decepção em minha voz fica evidente para quem quiser ouvir.

— Bora ursão! — Rosalie encoraja em meio a risadas e, estática, noto os olhos de Edward desprenderem de mim para observar o amigo, que ainda gargalha.

Eu gostaria de fingir que adoro o espetáculo que eles nos oferecem. Um beijão digno de telonas de cinema, mas não seria verdade. Não permaneço muito tempo depois, só saio reclamando estar sóbria demais para aquilo. Faço menção de ir à geladeira pegar cerveja, mas mudo a rota e quando dou por mim, me percebo no quarto de Edward.

Começo a vasculhar a mesa em busca de mais drogas e o ouço entrar no aposento. O clique da fechadura precedendo o som de seus passos.

— Procurando algo?

— Uhum, quero um Jesus agora — explico sem olhá-lo.

— Tem certeza? — Escuto a sua voz ainda mais perto.

— Tenho, ué. — Não tem nada na expressão dele que me tranquiliza, então foco na mesa, onde busco o papelzinho com um Jesus doidão.

Ouço ele se afastar, e finalmente me viro. Noto quando mexe na mochila e retira de lá aquele mesmo saquinho que tinha visto mais cedo. Senta-se na cama e do saco tira um papelzinho do tamanho de metade da minha palma. Novamente o vejo picotar em pedaços ainda menores.

— Um oitavinho, né? — Ele me olha esquisito, e eu desconfio ser apreensão.

— Me dá mais. Da outra vez não senti quase nada — digo e ele exala uma risada. Levanto uma sobrancelha, desafiando-o a contestar.

— Vamos começar devagar, tá bem? Esta é diferente, alucinógena. Daqui a uma horinha, se você tiver bem, te dou o outro oitavo. Vem cá — pede, estendendo a mão na minha direção quando, enfim, concordo.

Como um ímã, me aproximo dele e paro entre suas pernas. A mão estendida agora na sua coxa, vazia sem o meu toque. Ele me olha, novamente de baixo, e percebo quando fecha a sua mão em punho. Exalo, tentando ficar menos afetada pela bagunça que sempre acabamos nos enfiando e o encaro. Nem sei quanto tempo se passa enquanto me perco no seu olhar carinhoso, e só reajo quando ele solta um suspiro longo.

Sem qualquer capacidade de resistir, levo minha mão à sua cabeça, onde faço um cafuné de um jeito que sei que adora. Ele fecha os olhos quando passo com minhas unhas pela nuca, por trás da orelha, indo até o topo da cabeça e refazendo o movimento.

Sua respiração quente contra a minha barriga me faz perceber o quão próximos estamos. Noto que volta a abrir os olhos e que seu peito sobe e desce em uma respiração quase tão acelerada quanto a minha, instantes antes de acariciar por trás do meu joelho. Ele encosta a testa na minha barriga e murmura algo que não entendo. Quando o questiono, responde com um meneio de cabeça. Em seguida, se afasta, fazendo minha mão cair de seus cabelos e repousar no ombro. Volta a me olhar e noto quando levanta a pontinha do dedo que segurava o LSD na direção da minha boca.

— Espera aí — murmura baixando o dedo e colocando o papelzinho novamente no papel alumínio. — O quê? Calma viciada, já vou te dar — ri e eu rolo os olhos. — Queria conversar contigo, Bella — diz com tanta insegurança na voz que até me sento na cama ao seu lado.

— Edward, eu já falei que tá tudo bem, não vamos deixar isso ainda mais estranho, por favor. — Ele enlaça nossas mãos e após dar um beijo longo no dorso da minha mão, volta a me fitar. — Sério, será que a gente não consegue ficar de boa?

— Ficar de boa?

— É, vamos só curtir. O que passou, passou. Não vamos mais surtar por isso. Cadê? — solto uma risada da expressão confusa que tomou todo seu rosto. — Me faz ver Jesus. — Pisco o olho e ele gargalha. Ainda sorrindo, rola seus olhos, passa o braço pelo meu ombro e me puxa pra si. Dá um beijo demorado no topo da minha cabeça e murmura algo. — Quê?

— Eu disse que é irritante o quanto que eu gosto de você — explica com o queixo apoiado no topo da minha cabeça. Me moldo um pouquinho mais em seus braços e estampo um sorriso ridículo quando digo que eu também. Num sussurro desconhecido porque eu genuinamente não me lembrava de já ter dito isso em voz alta.

— Aqui — murmura algum tempo depois e chega com seu dedo próximo do meu lábio, e de lá tomo a sua droga. Ele retira o dedo mais rápido do que da última vez e me observa até eu engolir. — Dessa vez você vai se sentir enérgica. Os sentidos ainda mais à flor da pele, e você provavelmente vai ter alucinações. Você pode ter alucinações com todos os sentidos, tá? Tato, paladar, olfato, visão e audição. Comigo eu costumo ver as coisas acontecendo mais demoradas, e muito mais coloridas, mas isso é de pessoa pra pessoa. Se você sentir qualquer desconforto, me avisa?

— Uhum — murmuro e percebo que minha mão ainda repousa em seus ombros. Aperto ali e o ofereço um sorriso, enquanto ele me olha com um biquinho. — E tesão? — pergunto em um sussurro. Ele respira fundo e me encara.

— O que tem?

— Vai ser como da outra vez ou vou ficar normal?

— Outra vez?

— Uhum, lá na sala... Você sabe. — Percebo que firma o maxilar e engole em seco. Seu pomo de adão desce e sobe.

— Eu não vou fazer nada contigo, fica tranquila — explica e eu imediatamente balanço a cabeça.

— Você sabe que não te culpei, não sabe? Eu que tava subindo pelas paredes... — Dou uma risada, mas logo a encerro quando sinto sua mão na minha cintura. Ele me aperta ali e meneia a cabeça, um sorrisinho brigando para não escapar. Uso meu dedão para acariciar seu rosto, bem pertinho do sorriso escondido, porque eu adoro vê-lo sorrir. — Foi mal! Prometo que eu não vou fazer nada contigo — baforo uma risada cheia de culpa, e sem encarar o julgamento que provavelmente estamparia seus olhos, saio do quarto.

Há uma hora e dezesseis minutos.

Abro os olhos quando sinto uma gota gorda pingar na minha bochecha e avisto a palha escurecida. Lembro que estou dentro dessa espécie de gazebo praiano que tem entre a casa e a praia e noto a palha acima, usada para a cobertura do teto, se mexerem quase em sincronia com as ondas do mar. Sigo encarando e quanto mais o faço, maior a sensação de que elas se transformam em seu próprio mar, em uma ondulação que deveria ser impossível para algo sólido. Sinto meu coração acelerar com uma antecipação que sequer sei justificar, e demoro algum tempo para concluir que isso, talvez, seja o efeito do lsd. Quando o faço, solto uma risada nervosa e levo meus olhos na direção do barulho dos meus amigos na água, buscando o conforto da imagem de Edward.

Com a escuridão, tenho dificuldade para avistá-los, e só consigo quando vejo Alice ser lançada para cima, seguido da gargalhada expansiva de Emmett. Noto que seu corpo parece deixar um tipo de rastro de espuma por trás de si no céu, antes de cair de qualquer jeito novamente no oceano e rapidamente acalmo meu coração, lembrando-me que a droga possivelmente tenha afetado a minha visão.

Irritada com o efeito, especialmente porque parece que já me sinto assim há horas, alongo meu corpo e quando me giro, percebo vários corvos sentados no parapeito da construção. Meu corpo inteiro retesa e arrepia com aqueles vários pares de olhos pretos me encarando. Suas penugens brilhantes e aparente calmaria das aves, de nada faz para aplacar o meu nervoso.

Eu odeio aves. Tenho pavor de todas, e vendo várias delas habitando meu espaço me deixa em um nível de estresse que poucas vezes me encontrei. Torcendo para ser efeito do LSD, começo a perceber as extremidades da cabana encolherem, me enclausurando ainda mais entre aquelas aves que certamente me bicariam até não sobrar nada de mim. Dou um passo minúsculo para fora evitando agitá-las e solto um suspiro aliviado quando nenhum dos corvos se manifesta. Encaro o maior deles e me arrepio inteira quando percebo um brilho vermelho passar por seus olhos. Sinto outra gota correr pelo meu rosto, mas dessa vez produzida pelos meus próprios olhos.

— Por favor, eu só quero sair. Não vou fazer nada com vocês — murmuro, apavorada de atrair a atenção deles a mim, mas igualmente desesperada para eles entenderem que eu só quero ir embora. Nenhum deles se manifesta em resposta, mas o maior deles gira a cabeça para trás em uma encenação espetacular daquela cena de exorcista e eu solto um lamurio desesperado. Quando a cabecinha preta volta a me encarar, os olhos estão totalmente tomados de vermelho sangue, e a minha reação imediata é de correr para longe dali.

Só percebo que grito quando as aves voam por mim em direção ao oceano, onde meus amigos estão. Berro ainda mais forte, desesperada que saiam dali. Sacudo meus braços e só volto a respirar cadenciada quando Edward corre em minha direção, com o resto deles há alguns metros de si. Ele segura meu rosto entre suas mãos e a preocupação nos olhos verdes fica tão evidente que preciso fechar os meus.

— Shh ei... Vem cá — murmura e me envelopa em seus braços gelados. Arrepio sentindo seu corpo me molhar e o aperto contra mim.

— Que foi? — Alice pergunta esbaforida parando ao lado de seu irmão. Sua mão repousa nas minhas costas e choro ainda mais forte. — Ei vem cá — diz, me puxando dos braços do seu irmão, que resiste brevemente, e me abraça. — O que foi, Dada? — pergunta para ele, me forçando a respirar e acalmar. Escondo o rosto no seu pescoço e me deixo ser aninhada pela minha melhor amiga enquanto não consigo encontrar as palavras certas para o que aconteceu.

— Pesadelo, desculpa — minto quando volto a olhar na direção dos corvos e só vejo as nuvens carregadas da tempestade. Ouço uma reclamação de Emmett e Jasper, e uma risada de Rose. Procuro pela reação de Edward, mas só o vejo ainda ao lado de sua irmã com uma expressão preocupada.

— Lili, posso falar com a Bella rapidinho? — murmura inseguro. Alice me olha, mas só me solta quando balanço a cabeça concordando.

— Qualquer coisa tô na piscina com o Jazz.

— Vai pra área coberta, por favor — peço, e quando ela levanta uma sobrancelha em questionamento, aponto para o céu carregado de nuvens. — Não é bom ficar em céu aberto se tem risco de raios, você sabe disso — cutuco sua cintura e sorrio quando ela se contorce.

— Beleza, vou pedir pro pessoal entrar. Vamos na hidro? O quê? Que cara é essa?

— Como você acha que vai conseguir enfiar seis pessoas naquela hidro, Alice?

Ela encolhe os ombros, balbucia algo incompreensível — possivelmente porque meus olhos fixam no movimento das árvores atrás dela — e sai.

Meu corpo alonga com a sensação de Edward atrás de mim e eu pigarreio, tentando manter uma neutralidade na voz.

— Eu odeio LSD, Edward — reclamo e dou um passo para frente, tentando nos afastar. Ele repete meu movimento e eu bufo. Sinto sua risada respirada contra a minha nuca. — O que é? Tá rindo por quê? — Quando ele não me responde, olho por trás do ombro e dou de cara com seu sorriso babaca. — O que é?

— Nada — diz quando consegue controlar sua fisionomia. Acompanho o movimento do seu rosto com o queixo elevado e os olhos semicerrados, odiando ter que encará-lo porque ele era ridículo de bonito.

O fito quando coça a sua barbicha curta, reflexo de uma displicência nas férias, e tensiono meu próprio rosto quando noto o cantinho dos seus lábios se levantar no sorriso que sempre me desmonta. Desvio fitando o mar por trás dele e imediatamente me lembro do que gerou essa bagunça toda.

— Eu odeio LSD — murmuro esperando que magicamente a droga saia do meu sistema. — Sério, como você consegue? — O encaro e noto que dá de ombros.

— Não é a minha favorita, e eu costumo usar só quando vou em show, ou quando quero um sexo diferente — diz com uma naturalidade que certamente contrasta com a forma que meu corpo recebeu aquilo. Me esforço para tentar lembrar se ele também tomou, enquanto meu coração entra num frenesi dentro de mim. Meu rosto queima e eu sei que estou evidenciando tudo o que sinto.

— Você usou? — pergunto tentando responder à súbita curiosidade que me toma, mas logo me arrependo porque não faz sentido eu ficar querendo bisbilhotar se ele pensou em transar. Ele meneia a cabeça. — Por quê? — insisto, a despeito de tudo dentro de mim implorar para que eu deixe esse assunto de lado.

— Porque eu não preciso lidar com mais tesão. Agora vai, me fala a verdade. O que aconteceu?

— Já disse, pesadelo.

— A verdade, Bella. Você tomou LSD e quer que eu acredite que você conseguiu dormir? — dou de ombros e viro em direção à casa porque agora, na segurança de uma praia sem corvos à vista, tudo parecia ridículo. Antes que eu saia, ele segura meu pulso e me puxa para si. — O que houve? — Decido responder quando reparo uma preocupação genuína na sua expressão.

— Tinha uma porção de corvo aqui no parapeito do gazebo e eu tinha certeza que eles estavam planejando meu assassinato. — Ele me puxa para um abraço e eu me afasto. — É sério!

— Por que você diz isso?

— Porque o chefe deles tinha sangue nos olhos. Literalmente — resmungo, mas solto uma risada da expressão divertida dele. Fito o oceano quando percebo que ele começa a brilhar. Como se o reflexo muxoxo das estrelas que passavam pelas nuvens fosse suficiente para transformar aquilo ali em um emaranhado de diamantes. — Tão brilhante — suspiro e ele segue o meu olhar.

— O que você tá vendo? — diz, e mesmo sem que o olhe, sei que está sorrindo.

— O mar. Tá tão brilhante. Quando o Emmett jogou a Alice vi um rastro de várias Alices por trás dela. Foi incrível.

— Ah afetou a sua visão. Eu adoro. É o meu segundo efeito favorito.

— Qual o primeiro?

— Tato — murmura e roça de levinho o dedo pelo meu braço. Sorri e quando sigo seu olhar, vejo que meu braço inteiro está arrepiado. — Ahá — comemora. — Vem cá, você precisa sentir isso.

Me puxa pela mão em direção ao mar e me deixo sentir a sensação da areia gelada em meus pés.

Ele para na minha frente, tira a minha saída de praia, e antes que eu possa me manifestar, me joga por cima de seu ombro e começa a correr em direção ao mar. Curiosamente, diferente do que imaginei, a água não está tão gelada e fecho os olhos, relaxada, quando Edward me repousa na água, segurando meu tronco para que eu boie enquanto a marola nos ondula.

Abro os olhos depois de vários minutos e busco pelos esverdeados. Já o fito com um sorriso que é logo espelhado.

— Entendi. O porquê você insistiu — explico, ainda boiando, e toco no espacinho entre as sobrancelhas para ele relaxar.

— É? Como tá batendo pra você? — sua voz é suave e com o ondular do mar sinto sua mão no meu cóccix ainda mais firme.

— Eu não sei nem explicar... — Deixo escapar uma risada pela minha meia verdade.

Eu sabia explicar, mas sabia também que seria inapropriado.

Inapropriado porque eu sentia como se o mar inteiro estivesse acariciando meu corpo de uma maneira sexual. Os micros diamantes que eu tinha visto à distância ainda ondulavam junto de mim em sincronia com as marolas. Eu sentia eletricidade por todo meu corpo, até no meu cabelo espalhado acima da minha cabeça e boiando junto ao resto do meu corpo. Eu sentia a onda bater em lugares que já estavam sensíveis demais, e toda vez que baixava meu rosto para dentro da água e permitia o silêncio do oceano me tomar, precisava apertar minhas coxas porque Edward imediatamente me segurava pela nuca e puxava para cima.

— Tenta — murmura e quando o olho percebo a intensidade em sua expressão. Os olhos semicerrados, o peito acelerado com uma arfada forte e a boca úmida. Sinto ele tocar com a ponta dos dedos a minha panturrilha, e por mais que soubesse que o fez porque minha perna começava a afundar, me questiono o quão necessário é ele roçar a ponta dos dedos até o topo da minha coxa, e repetir o movimento na direção contrária. — Tenta — repete, com a voz mais grave, e preciso abrir a boca para dar vazão à minha respiração acelerada, porque a forma como ele atinge meu corpo com seu olhar me tira do eixo. Desavergonhada, roço minhas pernas novamente e mordo o lábio quando percebo que encara meus mamilos duros, mas cobertos pelo biquíni.

— Você lembra quando me ensinou a nadar? — pergunto, me apegando à possibilidade de mudar de assunto. Prendo a risada quando noto sua expressão confusa, e aproveito o lapso para me desvencilhar dele, efetivamente mergulhando.

Quando retorno à superfície, me asseguro de deixar nossos corpos a um braço de distância.

— Eu te ensinei a nadar?

— Sim, mas você só descobriu agora. — Sorrio, amarrando meu cabelo longo em um coque acima da cabeça. A franja, agora molhada, pinicando por estar próxima demais dos meus olhos.

— Eu gostei disso aqui — disse, e acaricia a minha testa, empurrando a franja em questão para longe dos meus olhos. Afasto discretamente meu rosto para impedir que o seu toque permaneça.

— Foi um surto de formatura. — Lanço um sorriso e espalmo a mão na água, acariciando as ondas pequenas ao nosso redor. Ele sorri e murmura que eu tinha ficado linda assim. — Mas hein, você lembra?

— De te ensinar a nadar?

— Uhum. Você tinha acabado de passar pro time de polo aquático da escola... — Ele franze a testa e eu solto uma risada. — Você precisa parar de fumar maconha se quiser chegar aos 30 com algum resquício de memória. — Ele me acompanha na risada, e dá um tapa na água, fazendo subir um jato de água direto no meu rosto. Rolo os olhos e sinto o coração palpitar quando ele afunda metade do rosto, ficando apenas com seus olhos verdes vibrantes demais para fora.

Fica algum tempo me olhando assim, e, com a ausência de uma conversa, começo a ficar hiper ciente dos demais sentidos. Escuto som das vozes de meus amigos dentro de casa, bem como as folhas da mata que balançam ao vento. Olho pra cima e percebo novamente as nuvens carregadas se formando. Arrepio quando um corvo voa baixo, próximo demais da piscina onde o pessoal deveria estar. Cutuco Edward com o pé por debaixo da água, mas antes que possa verbalizar minha angústia, percebo que segura meu tornozelo e me puxa mais para perto. Perco a fala.

— Eu lembro de quando você tinha machucado o tornozelo jogando vôlei, e tinha pedido minha ajuda para nadar, porque a treinadora tinha falado que ajudaria na sua recuperação.

— E você acreditou? — Murmuro, sentindo um tremor incomum na voz. Ele me encara com os olhos no topo da testa e eu sorrio. Desta vez o jato de água partindo de mim em sua direção.

— Por que você mentiu?

— Porque é meio ridículo eu não saber nadar com 12 anos, não acha? — digo e sinto que ele enlaça a minha perna em torno de sua cintura. O encaro séria. Ele sustenta a seriedade da expressão, mas dura pouco tempo. Logo larga meu pé e coloca as mãos para cima em rendição. Me afasto novamente, mas dessa vez sem segurar o sorriso.

— Claro que não. — Ele responde, mesmo que minha pergunta tenha sido retórica. — Fui aprender a andar de cavalo só com 16 quando a gente foi pra fazenda dos seus tios.

— Mas é diferente, né? Você foi nascido e criado na costa da Califórnia. Nunca teve contato com cavalo.

— E você no meio oeste, Bella. Não dá pra dizer que teve contato com praia.

— Mas a tecnologia inventou uma coisa incrível chamada "piscina". — Ele gargalha e, em seguida, empurra minha cabeça para dentro da água. Emerjo gargalhando e ele sorri.

Noto Edward franzir o cenho e olhar para cima. Toca sua testa e me olha novamente.

— Tá chovendo. Vamos sair daqui? — Aceno a cabeça concordando, mas antes de alcançarmos a areia, sinto a tempestade apertar, e a sensação das múltiplas gotículas geladas contra a minha pele hipersensível me deixa em elação.

Corro em círculos entorno dele e cada vez que me olha em dúvida, rio ainda mais alto. Logo ele me puxa para si e segura meu queixo com seus dedos.

— Tá tudo bem? — murmura cheio de humor, mas a expressão um pouco intrigada. Estico meu corpo até conseguir dar um beijinho no maxilar e o abraço apertado.

— Melhor impossível — digo quando ele afrouxa o aperto em mim. Me desfaço de seu aperto e volto a correr, tentando captar o máximo de chuva possível.

Logo ele está atrás de mim, novamente me puxando para seus braços. Dessa vez me lança por cima dos ombros e gargalha alto quando dou dois tapas estalados em sua bunda — ainda coberta pela bermuda de coqueiro.

— Vamos entrar Zé Droguinha. Não quero arriscar que um raio caia na sua cabeça bonitinha — diz e belisca a minha bunda. Pega a minha roupa jogada na areia e não consigo me desvencilhar antes dele começar a correr em direção à casa.

Quando finalmente relaxo nos braços dele — a despeito de o sangue parecer estar todo na minha cabeça — estico o pescoço para enxergar por trás de suas costas e imediatamente me arrependo, porque vejo um raio atingir certeiro um coqueiro no meio da mata. Distante o suficiente para que eu não me preocupe com nossos amigos, mas perto demais para me deixar paranoica.

— Cacete, você viu isso? — pergunta, apontando para a direção onde caiu o raio, mas olhando para baixo, especificamente minha cabeça repousada na sua cintura.

— Deixa eu descer — peço, e acho que percebe a fragilidade da minha voz. Me repousa com gentileza na areia e me segura pelos ombros até eu abrir os olhos.

Quando o faço, me arrependo de imediato, porque o que vejo é um corvo em chamas voando na direção do céu, saindo de onde o raio acabara de cair. Trêmula, aponto para o local e Edward gira o tronco para tentar ver o que mostro. Meus olhos mudam de direção, agora acompanhando o corvo em chamas voar por cima de nós e mergulhar novamente no oceano ainda abarrotado dos diamantes. Olho assustada para Edward, mas ele seguia fitando a floresta com uma expressão confusa no olhar.

— Você não viu o corvo? — sussurro, insegura de falar alto demais e atrair outras aves.

— Que corvo?

— O que foi queimado pelo raio e voou para lá — digo enquanto aponto para o mar. Ele segue meu dedo, mas seu olhar eventualmente para em mim.

— Não tem corvo nenhum, meu amor.

— Claro que tem, você quem não viu.

— Você acha que um corvo sobreviveria aquele raio?

— Sim — digo com certeza, imaginando que teria sido o mesmo corvo dos olhos vermelhos.

— Bella...

— Não é porque você não viu que não é real! — reclamo e ando na direção da casa sem esperar por ele.

— Meu bem, isso é o LSD. Não esquece que seus sentidos estão zoados e você tá propensa a alucinar. — Giro meu corpo e o encaro. Estou absurdamente incomodada com seu comentário e nem sei bem o porquê.

— E você realmente acha que não sei dizer quando estou alucinando?

— Você sabe dizer o quão lenta tá a sua fala, ou os seus movimentos?

— Eu não estou lenta! — Ele sorri cheio de carinho e fico ainda mais irritada.

— Vem cá, vamos te dar água.

— Eu não estou drogada — digo, petulante. Ele gargalha quando me vê batendo o pé no chão.

— Claro que não. — Se aproxima e repousa seu braço direito nos meus ombros, me puxando para si. — Está apenas com sede e uma fome danada, não é? — murmura contra meus cabelos enquanto subimos as escadas para voltar para a casa. Bufo extremamente incomodada, mas decido segui-lo, porque a alternativa de ficar na praia e arriscar a ver mais corvos em chamas me apavora.