N.a: no último terço desse capítulo, há o relato do tempo "Agora". Essa parte se inicia logo após o "prólogo" dessa Oneshot. Então, se não se recorda, sugiro a releitura da primeira parte do capítulo inicial.


deleite

"Nenhum de nós vai sair desta ilha."

(E não sobrou nenhum – Agatha Christie)

Capítulo 3: Desatino

Há cinquenta e oito minutos.

Edward finalmente entra para tomar banho e fico inquieta na sala. Alice dorme no sofá, enquanto Emmett e Rosalie permanecem na banheira de hidromassagem. Jasper está mexendo uma panela gigantesca, e quando me aproximo percebo que é vermelho e denso.

— Mais cachorro-quente?

— Suco de tomate. Tô colocando na panela só porque não tem garrafa grande o suficiente.

— Mas precisa disso tudo? — Exclamo e ele me lança um sorriso desavergonhado.

— Edward falou que estava com sede.

— Jasper aí deve ter mais de 5 litros de suco, homem. Isso é o efeito da cocaína?

— Infelizmente já passou. — Ele me fita sorrindo. Suas pupilas tão dilatadas que o feixe minúsculo do azul me faz ter certeza que o efeito do pó definitivamente não tinha passado.

— A briza foi legal?

— Foi foda, mas consegui entender o que o Edward falou.

— Sobre o que?

— Sobre não voltar a usar porque é bom demais. Aliás, que bom que ele não trouxe mais, porque eu provavelmente ia pedir.

— Eita...

— É. Porra é uma sensação bem foda, Bellinha. Parece que você é imparável, sei lá, não sei explicar. Mas a ressaca também não tá sendo fácil.

— É?

— É. Já até fiz amizade com os azulejos do banheiro de tanto tempo que fico encarando aquele rejunte. — Solto uma risada e o aperto no ombro cheia de empatia.

— Sua pupila ainda tá dilatadona. Tem certeza que já passou?

— Ah, não tô 100%, mas comparativamente já tô melhor, sim.

— Que bom. — Sorrio e pego duas garrafas de cerveja. Ofereço uma delas para o Jasper. — Eu tô suave.

— LSD não foi?

— Uhum, o normal e Jesus. Mas o Edward insistiu pra me dar 1/8 de cada um, então foi leve e rapidinho. Tô pensando em pedir o tal do microponto agora. — Ele levanta uma sobrancelha e me encara. — Sem julgamentos, seu cheirador de pó. Eu confio que o Edward vai me fazer curtir. — A expressão imediatamente muda para ironia.

— Ele vai, não vai? Edward parece viver pra te fazer feliz.

— Vá se fuder, Jasper — reclamo e saio na direção do deque da piscina, deixando uma gargalhada expansiva por trás de mim.

A chuva parece ter dado uma amenizada, e com as gotículas espaçadas, consigo ver melhor o local onde o raio caiu. Fito por algum tempo aquela mata escura, até que começo a perceber a fumaça começar a ser tomada por uma coloração vermelha. Foi rápido, e antes que eu pudesse pensar em chamar alguém, ela recobre seu tom cinza. Decido permanecer ali, encarando por mais alguns segundos, e arfo em surpresa quando é novamente tomada por um tom avermelhado.

Vou até lá antes que meu lado racional decida chamar alguém para me acompanhar.

Pode até parecer inteligente sair de uma casa entocada no meio de uma ilha deserta enquanto cai um pé d'água para checar se eu não estou realmente maluca. A minha decisão de ir, era racionalmente óbvia. A segurança de cinco das minhas pessoas favoritas basicamente dependia da certeza de que estava tudo bem, e que não havia corvos queimados com olhos cor de sangue no meio da floresta. Mesmo que eu tivesse visto, ouvido e interagido com um deles.

Com uma coragem que não me é natural, me embrenho na mata, certa de que encontrarei respostas para questionamentos que sequer conheço. Ando, procuro e bufo uma risada impaciente quando me percebo chamando pelo corvo em questão. Eventualmente decido seguir o cheiro de queimado e encontro a árvore carbonizada. Caminho até lá, e me assusto quando ouço uma voz masculina gritar meu nome. Me viro com cautela e respiro aliviada quando vejo Emmett com Edward na sua sombra.

— Tá maluca Bella? — Edward exclama e vem na minha direção com passos largos.

— Finalmente você tirou sua bermuda de coqueirinho — implico observando a bermuda de moletom, e sorrio quando Emmett gargalha. Edward rola os olhos e pega na minha mão, já me puxando para a direção de onde veio.

— O que é?

— Você comeu a gente no esporro porque estávamos no mar no meio da tempestade e você vem pra mata, justamente onde tem uma porção de árvores que serve de para-raios? — Edward diz sem nem me olhar. Olho assustada para Emmett que apenas levanta os ombros.

— Ah...

— Ah! Exatamente. — Edward me interrompe e continua a me puxar.

Olho por trás dos ombros, tentando achar o que vim buscar e resfólego quando vejo duas orbes vermelhas rubis piscarem do fundo da mata. Tento me desvencilhar do Edward, mas seu aperto é firme na minha mão.

— Vamos, Bella. Tá perigoso aqui... — Emmett pede quando vê que Edward e eu travamos uma batalha com nossos olhos. — Você tá procurando algo?

— Ela cismou que viu uns corvos possuídos e acha que aqui deve ser a reunião da seita. Ah, desamarra esse bico, tô te zoando. — O deboche do Edward me machuca mais do que estou disposta a admitir.

Reteso quando leva o mesmo braço que segurava a minha mão para cima do meu ombro. Ele deposita um beijo no topo da minha cabeça e murmura mais alguma implicância que não consigo me importar, porque minha espinha inteira arrepia com a sensação de que estou sendo observada. Noto Edward olhar para onde instantes observei, e então ele suspira e aperta a minha mão.

— Não tem nada lá, gatinha. Eu te prometo. Vamos pra casa pra comer, tomar um banho e fazer esse ácido sair do seu corpo.

— Ih, mas e essa história que o lsd fica na sua corrente sanguínea por décadas — Emmett pergunta. Edward me olha e rola os olhos.

— Isso aí é papo de viciado da década de 70 que usou tanta droga que derreteu o cérebro — comento rindo, sentindo-me cada vez mais relaxada. — Não é? — pergunto quando percebo que Edward apenas solta umas risadinhas.

— Acho que a gente vai descobrir daqui há uns anos se do nada a gente der uma viajada né?

— Emmett!?

— Ué, Bella... — Ele dá de ombros e corre escadas acima quando nota que Rosalie tinha saído da hidromassagem.

Entramos no bangalô e Edward prepara um prato com alguns biscoitos, nozes e alguns pedaços de brownie. Separa uma cerveja e uma garrafa de água e os coloca na minha frente.

— Come aí, vou preparar um banho pra você — murmura contra o meu cabelo como se fosse a coisa mais natural a se dizer. Sinto meu coração acelerar assim que deixa de me tocar e segue em direção aos quartos. Vasculho minhas memórias, tentando entender se aconteceu algo que justifique tanto carinho, ou se eu cedi as vontades de ficar com ele nas últimas horas, mas minha memória não consegue capturar nenhuma lembrança de ter feito algo nesse sentido.

Termino de comer, vou na direção do seu quarto e o vejo deitado em sua própria cama. Bato na porta de levinho quando percebo que tem os olhos fechados, e sorrio cheia de nervosismo quando ele me fita.

— Eu peguei aquele óleo de lavanda da Alice que você gosta, tá? Corre lá que a água ainda está quentinha. Se você sentir qualquer coisa, me chama e por favor, não tranca a porta do banheiro, ok?

Estreito os olhos em sua direção, tentando interpretar tudo o que aconteceu desde que ele me trouxe de volta da mata.

— O quê?

— Você tá esquisito.

— É? — pergunta, rindo. — E por quê?

— Me alimentando, preparando um banho do jeito que gosto... Daqui a pouco você vai me oferecer sei lá, uma chupada. — Ele arregala os olhos e meneia a cabeça com um sorriso. Em seguida levanta as sobrancelhas provocativamente e eu fecho a cara.

— Vai tomar seu banho, Bella — diz com um sorriso pequenininho no rosto e volta a fechar os olhos.

— Se você tá fazendo isso porque acha que eu vou dar pra você pod—

— A água vai esfriar — interrompe. — Banho. Vai.

— Eu não vou transar com v—

— Bella, eu sugiro que você vá agora tomar seu banho.

— Ou o quê?

— Ou nada — bufa irritado e deita de lado na cama. Apoia a cabeça na mão e me encara. — Só vai.

— E se eu não quiser?

— Então você vai ser obrigada a sentar a bunda aqui e ter uma DR comigo ao invés de ficar fugindo como tá fazendo há horas.

— Eu não tô fugindo, só acho que não tem relacionamento nenhum pra discutir — contraponho porque, de fato, não queria arrastar o assunto sobre sua namorada. Eu já reconhecia o erro que cometi e fiz as pazes com o fato de que não colocaria mais lenha nessa fogueira.

— Poucas coisas me fazem rir tão fácil quanto ver você errada, sabia Maria-Sabe-Tudo? — implica e eu rolo os olhos.

— Você é ridículo.

— Eu também gosto de te ver irritadinha porque sabe que eu tô certo.

— Você é insuportável.

— Ou quando você começa a me xingar porque sabe que tá errada, e não tem argumentos pra segurar uma conversa adulta, cheia de maturidade, sabe? — Estreito os olhos em intimidação e ele sorri. — Mas meu favorito é quando você tá irritada porque sabe que perdeu o argumento, aí pra não se enrolar faz uma careta muito fofinha pra tentar me assustar.

A minha resposta sai com o som da porta batendo atrás de mim. Piso forte no chão de taco na direção da banheira enquanto escuto sua gargalhada abafada me irritando ainda mais. Desfaço a tal careta que ele mapeou.

Há vinte e quatro minutos.

Acordo em um sobressalto pelo barulho alto de portas batendo e arfo quando percebo a água se agitando ao meu redor na banheira, onde peguei no sono. Respiro mais descansada quando consigo entender onde estou e relaxo o pescoço no apoio novamente. A água, agora quase gelada, relaxa meus músculos enquanto acalmo a respiração.

Encaro o teto branco do banheiro e deixo o cheiro de lavanda me relaxar ao ponto de sorrir. Só então levanto e me enrolo no roupão caramelo que Edward deixou repousado no mármore da pia. Acaricio o tecido felpudo e me permito aproveitar um pouquinho a sua gentileza, fantasiando ser costumeiro. Edward não apenas separou uma vestimenta confortável, como preparou um banho de banheira na temperatura que adoro e com a minha essência favorita.

Racionalmente tento não pensar nele nem no que representa pra mim, mas me permito esse único gostinho do proibido enquanto desato os nós dos meus cabelos.

Um erro. Um terrível engano deixar minha cabeça buscar por memórias que eu não deveria acessar. Não enquanto ele está comprometido, ainda que sua irmã jure que não vivem um relacionamento sério, e tampouco quando Edward diz que sua namorada não é um problema entre nós.

Eu sei que eles vivem um relacionamento monogâmico porque a própria Kate já falou sobre isso em um dia em que Alice, Rosalie, ela e eu fomos à inauguração de um sex shop na cidade. A conversa surgiu depois que Alice mencionou sobre ela e Jasper estarem conversando sobre abrir o relacionamento — o que aconteceu. A expressão de alarme de Kate quando ouviu a irmã de seu namorado mencionar que ela deveria fazer o mesmo foi memorável. Ela estava segurando uma cintaralha em uma mão, e uma piroca de silicone super veiúda e com ventanas na outra. A piroca em questão tão grande que eu poderia jurar ser um braço.

Foi neste dia também que ela descobriu sobre o meu histórico pseudo-romântico-mas-não-tanto-assim-porque-não-estávamos-mais-juntos com Edward. Aconteceu quando ela jurou que ele era tão grande quanto o consolo que ela segurava, e eu apenas gargalhei, porque ainda que Edward não deixasse a desejar no quesito "forma", ele definitivamente não era equivalente a piroca de um cavalo. O problema é que uma gargalhada como a minha, no contexto que aconteceu, abre margem pra muito assunto. E bom, por alguma razão que era explícita demais, mas que eu não estava disposta a interpretar, estive mais do que disposta a contar minha história com seu namorado. Detalhadamente.

Edward ficou puto, óbvio. Segundo as várias mensagens de texto que me mandou, eu não deveria me meter no relacionamento dele com Kate. A nossa história deveria ter sido compartilhada por ele. Concordei, claro. Odiaria que ele tivesse feito o mesmo com Manolo. Pedi desculpas enviando o consolo que ela nunca comprou de presente para o dormitório dele. Precisei pedir desculpas novamente no dia seguinte porque seu colega de quarto abriu a embalagem endereçada ao Cullen e, vendo do que se tratava, acordou Edward com uma "surra de piroca"? Precisei, mas dessa vez foi com uma caixa de cerveja.

Edward e eu temos uma dinâmica esquisita há anos. Não é exatamente uma relação de ex-namorados que são amigos, porque não somos nem ex-namorados, nem amigos. Mas tampouco posso dizer que é uma relação de coleguismo, ou de "contatinho", porque somos mais que isso. Acho que desde que entramos na universidade transitamos entre os limites disso tudo, sem nos aventurar verdadeiramente em nenhum deles. Penso que isso acontece porque toda vez que deixamos algo acontecer entre nós, tomamos cuidado para que nada mais aconteça. Se estamos em uma fase de amizade, é só isso que acontece, e se estamos transando, cuidamos para que os termos permaneçam assim. As linhas não bagunçam.

Traumas da época que tivemos um suposto relacionamento na escola, que por infantilidade nossa, acabou virando uma situação traumática. Assim, com a passagem do tempo passou, e a solidificação do orgulho, passamos a optar pelo "seguro", ficando, assim nesse jogo de morde assopra. No presente, porque seguimos nessa corda-bamba que hora pende para o lado da amizade, hora para sexo.

Termino de pentear o cabelo e começo a procurar pelo secador. Acho dentro de um armário abaixo da pia, e assim que o coloco na tomada, o ligo e deixo o vento quente queimar as várias outras memórias que eu não quero me permitir reviver.

Nem um minuto com o secador ligado e a luz começa a piscar freneticamente dentro do banheiro. Corro para desligar o aparelho da tomada para evitar um curto-circuito, mas me assusto quando a luz pisca uma última vez e me enfia em um breu. Pisco para ajustar a visão e tateio a porta para sair do banheiro. O corredor, igualmente escuro e estranhamente silencioso, me causa arrepios.

Percebo meu corpo ainda leve, provavelmente uma mistura do resquício de lsd e do banho relaxante, e me incomodo com a letargia que me encontro. Chamo por Edward e por Alice, e quando sou respondida apenas com o sibilo do vento, chamo mais alto por Rosalie, Jasper e Emmett. Novamente nada. Apuro os ouvidos e me arrepio por inteiro quando tudo o que escuto é o crocitar de corvos.

Caminho, pé-ante-pé, até chegar na sala, que é um pouco mais clara em decorrência da luminosidade externa, e sinto meu coração disparar quando sinto o vento forte atingir meu corpo. Todas as portas escancaradas, e ninguém à vista. Olho para o mar, para a piscina, para a área do deck e sou obrigada a encarar a mesma circunstância: ninguém por perto. Chamo mais uma, duas, três vezes, sem que me respondam. Pauso, respiro, caminho no ambiente da sala tentando ter alguma ideia e respiro o mesmo padrão. Chamo, e sou ignorada. Mantenho essa estratégia esperando que uma hora me escutem, até que um grito feminino corta meu chamado obsessivo.

— Rosalie?! — grito em resposta, já correndo para o lado de fora da casa. — Rosalie, é você? — exclamo tentando achar a minha amiga e quando o silêncio mais uma vez me ensurdece, sou incapaz de impedir que meu corpo despenque no chão. A letargia me paralisa e só faço chorar, especialmente quando o grito da minha amiga ecoa mais uma vez e eu não consigo reagir.

Há dezoito minutos.

Nem sei quanto tempo passo chorando antes de conseguir retomar o controle do meu próprio corpo, e quando o faço, saio em disparada na direção das árvores, de onde seu grito surgiu. No caminho continuo berrando pelos meus amigos, recebendo apenas o silêncio em resposta.

Correr na areia queima minhas coxas e no meio do caminho largo meus chinelos para tentar correr mais rápido. Eventualmente chego na entrada do pseudo-bosque e mesmo sem que Rosie se manifeste, adentro na mata. O cheiro de árvore queimada me toma quase que de imediato, e só deixo o corvo estampar meus pensamentos por uma fração de segundos. Foda-se a alucinação da droga. Foda-se o pavor que sinto de aves. Foda-se toda essa merda que experienciei nas últimas horas. Eu só precisava saber que ela estava bem.

Sei que não adentro muito na mata, porque ainda há luminosidade clareando meus caminhos. Na pressa, não me lembrei de buscar o telefone para servir de lanterna. Sigo chamando pela minha amiga enquanto a busco com olhos inquietos. Eventualmente vejo o seu chinelo jogado de qualquer maneira no pé de uma das árvores e corro até o local. Logo na frente há umas manchas e quando me aproximo noto que parece sangue. Manchas vermelhas nos troncos de duas árvores, praticamente fazendo-as sangrar.

Choro, completamente incapaz de reagir diferente, e aperto o calçado dela contra meu peito enquanto corro de volta para a casa. Subo as escadas com as coxas ainda queimando e tropeçando em todos os degraus.

Entro e percebo a mesma situação que deixei. Volto a gritar por Rosalie, enquanto busco meu celular. Minhas mãos tremendo tanto, que eu juro que estou à beira de uma síncope nervosa. Acho o aparelho vários minutos depois, debaixo da mesa que ainda estava organizada com os copos do jogo de beerpong. Antes de conseguir ligar o aparelho, escuto um barulho da direção dos quartos. Uma espécie de baque, como se algo pesado tivesse caído. Seguro o ar, tensa e indecisa, seguro uma peixeira e sigo na direção do som. Dessa vez com uma sensação horrível de que não estávamos sozinhos nessa casa.

Cuidando para ser a menos barulhenta possível, olho em todos os quartos, mas encontro o que eu não queria ver apenas no banheiro onde recentemente me banhei. Já na porta consigo ver que o chão está coberto por uma água esquisita. Aponto a lanterna do celular na direção e vejo que é vermelho. Sigo com os olhos até o local de onde escapou e grito quando vejo Jasper ali dentro. Grito e com o tremor, deixo o celular cair no chão. Há sangue por todos os lados. Na pia, na parede, no chão, na banheira… No Jasper. Tanto sangue que eu duvido que ele sequer esteja vivo.

Me afogando nas próprias lágrimas, busco o celular para discar para a polícia, mas me assusto com as batidas na janela que ficava no corredor. Saio correndo e olho buscando respostas. Quando me aproximo da janela, só consigo ter tempo de ver a mão de Emmett, reconhecida pelas tatuagens, também ensanguentada deslizar pelo vidro. Me afasto correndo, mas foi só chegar na sala que consigo ver Rosalie na altura da praia, se arrastando na areia.

— Rosalie! — grito, mas antes que eu consiga sequer sair da casa ela grita de volta me ordenando a me esconder. Uma força tão grande em sua voz que eu posso jurar que potencialmente foi a última coisa que fez em vida.

Decido ignorar, mas antes de conseguir partir em sua direção, Edward surge na minha frente e me segura pelos ombros. O olhar esquisito em um misto de atordoamento com felicidade. O abraço, incapaz de reagir diferente. Ele retorna o carinho e sorri, e por mais esquisito que seja, não questiono. Imagino que seja o pânico.

— A gente tá sendo atacado — sussurro contra o pescoço dele e o aperto ainda mais. — Meu deus, Edward, o Jasper tá morto e a Rosie… — Aponto na direção que o corpo de minha amiga estava, mas não vejo ninguém. — Pelo amor de deus, onde está a Rosalie? — exclamo desesperada e continuo frenética com o dedo em riste.

— Bella — diz e envolve meu rosto com suas mãos. — Bella, olha pra mim. Foca aqui. — Aproxima nossos rostos, me obrigando a encará-lo. Vejo seus olhos verdes com dificuldade por conta do fluxo intenso das lágrimas que me escapam. — Você confia em mim? Então pronto, faz o que tô falando. Vai pro porão e me espera lá. Se eu não conseguir voltar em uns 20 minutos, aí tenta salvar a sua vid—

— Não! — O puxo mais para perto, escondendo meu rosto no seu pescoço. — Não me deixa sozinha.

— Shiu, ei… Você nunca vai ficar sozinha. Mas entra lá, me espera lá — diz com uma calmaria desconfortante.

— Eu não quero deixar você — digo em um fio de voz e sinto ele sorrir contra a minha testa, onde deposita um beijo.

— Eu estou aqui.

— Edward eu não quero que você morra. Meu deus, cadê a Alice? — Choro, encarando-o.

— Ela tá bem. Confia em mim.

— Edward eu… — murmuro chorosa e encosto nossas bochechas. — Eu te... Eu gosto muito muito de você. Você sabe, não sabe? — Ele me aperta contra si e acena a cabeça. — Se eu pudesse teria feito tanta coisa diferente. Se eu pudesse voltar no passa—

— Ei, vamos pensar no futuro, tá? Nada de despedida aqui. — Tem firmeza na voz e uma assertividade bizarra no olhar. — Me espera voltar, tá? — pede e eu sorrio pela primeira vez. — O quê?

— Eu sempre estou te esperando né? Não vai ser diferente agora — digo e encosto os nossos lábios em um roçar tão suave que nem parece estar lá. Sinto quando ele arrepia e não demora muito para me beijar de volta.

Eu até considero nos afastar, mas se essa seria a última coisa que eu faria em vida, faria com tudo o que há em mim. Não nos separamos quando nosso beijo acaba. Ao contrário, ele passa um tempo significativo espalhando beijinhos por todo o meu rosto, e só para quando sussurro o nome de Rosalie.

— Volta pra mim, tá? Eu não quero ficar nesse mundo maluco se você não estiver. O que vai ser de mim sem você pra espezinhar? — Ele sorri, ainda com os lábios colados na minha testa, e acena uma concordância. — Espera! Eu preciso ir contigo. Vou me odiar se ficar — digo, sentindo meu corpo inteiro ficar dormente e uma náusea absurda me invadir. Ele meneia a cabeça com firmeza e segura me segura nos ombros.

— Isso aqui não é um pedido, Bella.

Afasta nossos corpos com uma expressão esquisita. Seu rosto contorcido como se ele estivesse sentindo dor e a pele cada vez mais pálida. Beija a minha mão, insiste para que eu o espere no porão, me pede desculpas e sai.

Estou sozinha na sala quando escuto um trovão alto. Sobressaltada, corro e me escondo como a perfeita covarde que sou.

Agora.

Ainda com as mãos trêmulas, fecho a porta do porão delicadamente atrás de mim. Seguro a respiração para tentar apurar minha audição, mas novamente apenas o silêncio me acompanha. Ando até a sala, rezando para tantas divindades que poderia jurar estar inventando pelo menos metade delas. Quando chego no fim do corredor, ligo o interruptor e arfo quando a luz clareia toda a casa. Desligo imediatamente, com receio de chamar atenção, mas consigo ter tempo para observar que no chão há pegadas de sangue, e sem muito formato, entre o banheiro que Jasper estava e a porta de casa.

Choro, mais uma vez lembrando-me da cena que presenciei, mas sigo. Pego meu celular, que tinha guardado no bolso do roupão, e toco na tela para desbloquear o aparelho, me xingando por ter tipo a crise de pânico, me impedindo de ligar para a polícia até agora. Se o tivesse feito quando vi Jasper, certamente a guarda costeira já teria chegado aqui e talvez teria sido suficiente para impedir que Rosalie também morresse.

Mordo o lábio forte, evitando que o choro se vocalize, mas sou incapaz de retê-lo quando percebo que a tela não liga. Quando sigo pressionando o botão, noto o aviso de bateria fraca e me irrito por ainda ter essa merda de iPhone de quatro anos atrás que é incapaz de se manter funcional por mais de 6 horas por dia. Escaneio a sala buscando alguma dica de que esteja segura, e quando não encontro nada, decido que minha segurança depende apenas de mim.

Devagar, engatinho para cruzar a sala, fazendo o máximo para evitar ser vista pela janela. Olho na área da piscina, mas não há ninguém além de mim na parte externa. Sigo com cautela na direção das pegadas e sou levada até as escadas que terminam na areia. Com a tempestade, todo o resquício de sangue é lavado, e a sensação que tenho ao pisar na praia, sem as evidências da violência, era a de que estava imaginando tudo aquilo.

Olho em volta e finalmente percebo uma fogueira na altura do gazebo onde encontrei os corvos. O fogo quente e vibrante duelando com a frieza implacável da tempestade. Os raios e relâmpagos iluminando meu caminho. Tento me embrenhar nos arbustos enquanto sigo naquela direção para evitar ser vista e os minutos que me distanciam das respostas que buscaria no fogo, são uma tortura em seu sentido mais bruto da palavra.

Quando chego lá, percebo que há uma flor de hibisco rosa repousada no banco feito de tronco de árvore. Olho em volta, tentando encontrar respostas, mas só vejo um corvo. Especificamente aquele corvo. Nos fitamos por vários segundos, até que estica o pescoço, crocita e voa de volta na direção da casa. Não sei se é a minha imaginação, se é alucinação da droga, mas juro ter ouvido a gargalhada dos meus amigos, então sem me refrear, corro de volta ao lugar de onde saí.

Dentro da casa, sigo direto para o quarto de Edward, e vejo no topo de sua cama uma foto polaroid minha. Acima dela uma flor de hibisco idêntica à que vi na fogueira. Noto que na imagem estou sentada na beira da piscina, e uso um chapéu enorme. Tenho um sorriso largo no rosto enquanto ria da história que Rosalie contava sobre o dia que sua mãe foi presa por atentado ao pudor em Virgínia.

Lembro de quando Edward tirou essa foto, e de como me senti quando percebi que sua câmera apontava apenas na minha direção. Pego a fotografia e guardo-a no bolso do roupão. Se eu morreria aqui, essa lembrança iria comigo para o túmulo. Aproveito que estou no seu quarto e procuro por um carregador de celular. Não encontro, e decido ir ao meu para buscar nas minhas coisas.

Piso em algo de textura diferente do chão e, já com o coração disparado, olho. Era uma outra flor de hibisco. Me abaixo, pego-a e encaro. Escuto um barulho de porta bater na direção da saída da casa e, decidida que estou farta disso, sigo o som. Para minha surpresa a sala estava iluminada por algumas velas — daquelas que usamos quando acaba a luz mesmo — e sentado no sofá está Edward. Vestido apenas a bermuda de moletom e um sorriso travesso. Ele segura um punhado de flores de hibisco, iguais as que eu encontrei nos últimos minutos.

Olho em volta, tentando entender o que estava acontecendo, num misto de pavor e alívio e arfo quando vejo nossos amigos na área coberta da piscina. Jasper vivíssimo dançando com Alice, e Rosalie recebendo uma massagem de seu namorado.

— Que porra é essa? — Volto meus olhos a Edward a tempo de perceber o sorriso dar lugar a uma expressão desconfortável.

— Surpresa? — diz e levanta os ombros. Franzo a testa em questionamento e ele se levanta. Quando chega na minha frente, oferece as flores. Olho delas para o corredor ensanguentado, e sigo o escaneamento até meus amigos.

— Que porra é essa? — repito com um pouco mais de firmeza na voz, apontando para seu peito sujo.

— Suco de tomate... Era pra parecer sangue... — Pelo menos a voz falha.

— Não! Quer dizer, puta que pariu, hein Edward?! Mas que merda é isso aqui tudo?

— Um pedido de namoro...?

— Que? — O encaro com a sobrancelha no topo da cabeça.

— Ou um pedido de ficada séria, sei lá topo qualquer coisa que você quiser.

— Edward eu vou perguntar mais uma vez e você vai me explicar direito. Que. Porra. É. Essa? — Ele ri e coça a nuca, visivelmente encabulado.

— Eu precisava chamar a sua atenção. Aí o Emmett falou uma coisa que fez o Jasper ter uma ideia.

— Que coisa? Que ideia? — murmuro e dou um passo para trás quando ele faz menção de se aproximar.

— A Alice falou que essa nossa relação é muito confortável, e que só ia mudar quando você entendesse que não quer passar pela vida sem mim... — Felizmente ele estava desconfortável de estar falando essas coisas. — Aí o Emmett falou que o terapeuta dele sempre fazia esses exercícios de fazê-lo imaginar as circunstancias que tinha que enfrentar. E eu estava pronto a tentar fazer isso contigo, mas aí o Jasper, aquele nerd filho da puta viciado em RPG, sugeriu que a gente fingisse a minha morte.

— Eu não te vi morto.

— Não achei que ia preci—

— Ainda, Edward. Eu ainda não te vi morto.

— Peraí, Bella, não é pra tanto — ri, mas percebo o movimento de seu pomo de adão.

— Não é pra tanto? — exclamo jogando as mãos para cima. — Eu vi o Jasper morto na banheira que tinha acabado de tomar banho, vi a Rosalie toda ensanguentada na praia, vi a mão do Emmett cheia de sangue na janela do banheiro e tive que lidar com uma possibilidade muito real de ter perdido a minha melhor amiga e você. E aí você — com o dedo em riste aponto no centro do seu peito — vem me dizer que não é pra tanto? Você tá maluco? Vocês estão loucos? — grito, chamando a atenção dos meus amigos que estavam do lado de fora.

Escuto Jasper soltar uma sequência de palavrões enquanto o Emmett ironiza o que estava acontecendo.

— A gente tá drogado e bêbado, e eu tô apaixonado. — Viro o meu rosto rápido em sua direção, e por uma fração de segundos amoleço.

— Edward... — Levanto as mãos na frente do meu corpo, mais uma vez freando sua iniciativa de se aproximar. — Eu não sei nem começar a razoar o quão fodido foi isso aqui.

— Ah, Bella, também não é pra tanto — Alice diz enquanto se aproxima. Jasper, Rosalie e Emmett seguem na área da piscina. Covardes.

— Não é pra tanto?

— Não é pra tanto, Bella. Ou você esqueceu de ter espalhado o boato que o Edward estava com gonorreia quando ele começou a se engraçar com a Tanya no primeiro período da faculdade? O garoto ficou quase um ano carregando um laudo negativo na carteira pra conseguir beijar na boca. Você acha que a gente não sabe que você fez isso por ciúme? — Eu rio, óbvio, e faço menção de interromper, mas ela logo retoma a fala. — Ou ainda quando você passou semanas fingindo que estávamos com o chuveiro do nosso dormitório quebrado só pra poder tomar banho no quarto do Edward só pra colocar água oxigenada no xampu dele. O garoto teve que raspar o cabelo depois que ficou verde com o contato do cloro da piscina!

— Eu não coloquei ninguém em risco — admito cheia de assertividade, e noto de canto de olho o Edward estufar o peito com um sorriso insuportável e arrogante.

— E quando você sumiu com a chave da casa da árvore só pra poder ficar trancada lá com o Edward? Nossos pais não estavam em casa e vocês ficaram horas lá sozinhos sem água e nem comida. Você podia sim ter feito mal pra ele.

Nessa hora Edward gargalha e eu o encaro.

— Eu não acredito que você trancou a gente só porque queria me dar uns beijos.

— Vocês ficaram nesse dia? — Alice pergunta rindo e eu evito responder com palavras, já que meu rosto todo corado já falava o suficiente. — Eu achei que vocês tinham ficado anos depois.

— O Edward foi meu primeiro beijo — admito, finalmente olhando para minha amiga. — Eu era maluca por ele.

— Você nunca me contou! Que fofura — Alice me abraça e a risada que eu prendia me escapa.

— Alice você se incomoda de... Sei lá... ir embora? — Edward pede com o tom de voz meio irritadiço.

— Ah?

— Eu tenho uma mulher aqui pra conquistar — diz com um sorriso enquanto aponta com o dedão por trás de seu ombro. Ela ri, me dá um beijo no rosto, mas antes de sair pede que eu o escute.

— Foi mal. Passei do ponto mesmo — admite quando estamos sozinhos e eu levanto uma sobrancelha aguardando que me ofereça mais. — Minha única desculpa é estar bêbado e te amar demais. — Ri quando rolo os olhos e volta a se aproximar. Desta vez eu deixo. — Escuta, eu vou falar aqui tudo o que eu tenho pra falar porque tô com o discurso ensaiado e não quero perder a coragem, tá?

— É bom que seja um excelente discurso então — provoco, mas não escondo o sorriso.

— Porra agora tô nervoso — diz sorrindo, mas não aparentava nervosismo. — Sempre foi você, Bella. Depois daquelas férias que a gente se afastou, eu passei os últimos anos me arrependendo de ter sido um bosta de um nerdola, achando que tinha perdido a única mulher que amei na vida. E aí a gente vai pra faculdade e você simplesmente me aceita de volta, nos seus termos, eu sei, e mantendo a sua distância de sempre, mas porra... você finalmente tinha voltado a me beijar, eu podia te tocar. Ali eu já tava fodido, de quatro por você. Como se toda aquela paixão de adolescente tivesse voltado à galope... Mas a sensação que eu tinha é que você não queria nada sério. Eu até falei com a Alice e ela fez questão de me colocar no meu lugar. Você não queria nada sério mesmo, não era?

— Eu nunca alimentei essas ideias, porque nunca achei que era uma possibilidade.

— Putz... Alice parecia tão certa.

— Ela não estava errada. Eu realmente dizia pra ela que nós dois não tínhamos nada sério, e me recusava a projetar um futuro em que fôssemos mais do que somos.

— Só que nessa eu ficava contigo sempre que você me permitia, e quando queria se afastar, eu buscava conforto em outros relacionamentos. Foi errado pra caralho com elas, e eu só percebi mesmo há poucas semanas quando terminei com a Kate.

— Você fez o que?

— Pois é — diz com uma expressão sarcástica. — Tô tentando te falar isso há dias, mas você foge de conversar sério comigo como o diabo foge da cruz.

— A Alice podia ter falado.

— Não era história dela pra contar. Ela só fez o que eu pedi. Eu terminei com a Kate quando percebi que não queria ela aqui nessa viagem comigo, porque tudo o que eu planejava incluía você. Tudo, Bella. As coisas que quero fazer, os passeios, as comidas que quero experimentar. Caipirinha, feijoada. Tudo é com você. E sempre foi assim. Desde que eu sou moleque, você quem é parte dos meus planos de futuro. Eu só sou um cuzão covarde por não admitir. E hoje quando os moleques sugeriram fazer você imaginar uma vida sem mim, eu fiz. E não gostei. — Ele oferece a mão e eu seguro. Beija o dorso e a usa para acariciar seu próprio rosto. Quando não ofereço resistência, se aproxima mais. Com carinho, segura meu queixo e levanta meu rosto para que o encare. — Eu sei que tô uns vinte anos atrasado nesse pedido aqui, mas realmente não quero experimentar mais da vida sem você.

Não falo nada em resposta, e me esforço muito para não amolecer em seus braços. Ele me olha cheio de expectativa e conforme o tempo passa, seu rosto é tomado por uma expressão preocupada.

— Bella?

— Você não perguntou nada — explico e viro o rosto quando me escapa o sorriso e sigo na direção de seu quarto. Ele corre para me alcançar. Me abraça assim que fecha a porta.

— Dá uma chance pra nós dois? — pergunta com os lábios no topo da minha cabeça. — Não tinha chance de deixar você sair dessa ilha sem saber que eu quero muito viver algo de verdade contigo.

— E precisava dessa palhaçada? — Gesticulo em volta, mantendo a fachada de irritação, porque por mais que eu estivesse completamente derretida, quase me mata do coração. — Eu não vou limpar essa merda — bufo, olhando a imundice de suco de tomate no corredor.

— Eu jamais te pediria isso. Vou mandar Emmett e Jasper porque a ideia merda foi deles — diz e puxa meu rosto para encará-lo. — Me lembra de nunca mais escutar um bando de gente drogada me sugerindo qualquer coisa. — Roça nossos lábios, e depois de um selinho esconde o nariz no meu pescoço.

— Você não podia simplesmente me contar o que sentia?

— Poderia, mas você ia ouvir? — Ele cutuca a ruguinha entre minhas sobrancelhas e roça nossos narizes em um carinho que me desmonta. Suas mãos puxam a corda que amarra o roupão e abre o tecido. Sua mão agora me acariciando nas costas diretamente na pele.

— Ia. O quê? Nem faz essa cara porque você sabe que eu ia — falo indignada e ele balança a cabeça com um sorrisinho. — A pergunta certa nem é se eu te ouviria ou não, mas sim se eu acreditaria — complemento e o rasgo no rosto se alarga até seus olhos ficarem estreitos.

— Entende o porquê eu tinha que fazer o que fiz?

— Sim, claro. Se eu estou paralisada pelo pânico de ver meus amigos mortos e sabendo que estou prestes a ser assassinada, não tem como fugir de conversar, não é? — digo com a voz empáfia e ele gargalha.

— Ridícula — diz e acaricia meu rosto. Tento não relaxar a minha cabeça com o carinho, mas é simplesmente impossível. A adrenalina me esgotou. — Te juro que na hora pareceu razoável chamar a sua atenção assim pra eu poder dizer que tô apaixonado.

— Da próxima vez tenta flores... — Solto uma risada quando ele balança o buquê improvisado de flor de hibisco que ainda segura. — Ou chocolates, um tiktok se declarando, sei lá, qualquer coisa menos me fazer acreditar que a gente ia morrer. — Levanto os ombros, fingindo não me importar e ele ri. Envolve minha cintura e me traz em um abraço ainda mais apertado.

— Não vai ter uma próxima vez, Bella. Não tem pra que planejar uma outra declaração de amor quando não tem ninguém além de você. — Prendo o sorrisinho que queria escapar e remonto a carranca. Nem fodendo que ele me veria toda derretida tão rápido assim. — E você sabe que só assim mesmo pra sua cabeça dura aceitar que me ama e que quer ficar comigo. O que? Que cara é essa? — Me encara em um misto de curiosidade e humor.

— Eu nunca falei isso. Você tá aí falando sem parar, todo cheio de certezas, e em nenhum momento eu disse que queria ficar contigo. — Desafio com o queixo para cima e ele me abraça. Esconde o rosto no meu pescoço e ri por um tempo irritantemente longo.

— Claro, meu amor. — Diz enquanto me beija o pescoço. — Claro que não disse.

Depois de ser derrotada na tentativa de esconder outro sorriso, vou até o banheiro da suíte e ao chegar na porta, termino de tirar o roupão. Sua gargalhada some instantaneamente. Quando não diz nada, o olho e vejo que Edward está na mesma posição, me observando com um sorriso travesso. Levanto a sobrancelha em um meio sorriso, e como para bom entendedor, meia palavra basta, no mesmo segundo abaixa o seu short de moletom e corre até mim.

— O quê? — pergunto enquanto esperamos a água esquentar, porque me olha com um sorriso tão sacana que me esquenta o corpo inteiro.

— Pensando aqui... De que outra forma você admitiria que me ama? — Rolo os olhos e ele gargalha. Entra no chuveiro em seguida e me puxa com uma pegada firme. Seus lábios tomam os meus em um beijo incandescente enquanto a água lava o suco de tomate impregnado na sua pele. — Hm? — insiste depois de afastar nossos lábios, e eu apenas bufo uma risada.

— Meu deus, como é chato!

— Chato, mas o amor da sua vida, não é? Pode falar.

— Você não vai cavar uma declaração de mim assim, Edward — murmuro contra o queixo e dou uma mordidinha ali. Ele aperta minha bunda e me beija. Seu beijo mexendo comigo do jeitinho que mais ninguém consegue. Gemo quando ele agarra a minha nuca e me espreme contra a parede gelada.

— E agora? — pergunta contra meus lábios enquanto afunda os dedos na minha boceta, ridiculamente molhada e, como o resto de mim, completamente rendida.

— Nem sob o meu cadáver — respondo e gargalho quando ele rosna e morde meu pescoço. — Cedo demais pra brincar com morte? — pergunto e solto um gritinho quando ele me dá um tapa na bunda. Seu rosto coberto pelo sorriso mais lindo que já me lançou, me obriga a fazer o mesmo. Dou uma gargalhada alta quando ele acena a cabeça, concordando, e me deixo finalmente relaxar no conforto que sinto sempre que estou com ele.

Sorrio ao acariciar seu rosto, fitando seus olhos vibrantes em uma expressão feliz, quase tanto quanto a minha. Era só ele quem me fazia sentir tão rendida assim.

— Apaixonada, né? — vocaliza meu pensamento. O beijo com carinho e imito o seu sorriso em uma admissão.

— Apaixonada.


Nota final:

E fim!

Amaram? Odiaram? Fariam algo diferente?

É família... o que será que o futuro revela pra esses dois, hein?

Queria aproveitar esse espaço pra vestir a fantasia de Edward Cullen Escobar e fazer um apelo: se usarem drogas, façam com consciência, em um espaço adequado e com pessoas com quem você se sente segure. Beba muita água, e gaste energia!

No mais, se vocês soubessem o quanto eu adoraria ouvir sua opinião sobre esses dois (oi seis), me deixariam comentários por pena, mas se ainda assim a empatia por uma autora carente não for suficiente, tem um extrinha aí que vou mandar pra quem comentar :)

E se nada disto for suficiente, eu escrevi a POSOella no meio de uma crise de cálculo renal, então me dê biscoitos pfvr :P

Beijos, e até a próxima (vou atualizar Temporada de Casamento, hein? Fiquem de olho!)