Crepúsculo não me pertence.
Olá! Essa fic faz parte do POSOella, um projeto onde autoras do fandom de Crepúsculo criam fanfics narradas exclusivamente por Bella Swan, em comemoração ao seu aniversário. Esse ano, o desafio foi escrever inspirando-se em 1 dentre 25 citações de alguns dos livros favoritos da Bella.
Confira mais fics na página bit (ponto) ly (barra) POSOffnet – Você também encontra o link diretamente no meu perfil, na aba de Favorite Authors.
Queria agradecer a Nati, Mandi e Pat (os nomes rimando hehehe) que são as maiores defensoras dessa história, aguentaram os meus VÁRIOS surtos durante todo o processo e não me deixaram desistir. Essa one não existiria sem vocês
Coffee & Ink
"Bastou mencionar a sua diversão predileta para levá-la a falar. Ela não conseguia permanecer calada quando esses assuntos eram mencionados, e não era nem tímida nem reservada quando se tratava de discuti-los." Razão e Sensibilidade – Jane Austen
* TwilightInk enviou uma mensagem*
TwilightInk: Olá Bella, tudo bem? Aqui é a Alice da Twilight Ink, você fez um orçamento com a gente um tempo atrás e surgiu um horário na agenda do Edward essa semana, você ainda está interessada?
swansong: Oie Alice, tudo e com você?
swansong: Claro! Estou super interessada! Sigo vocês no instagram há um tempão e adoro o trabalho do tatuador.
TwilightInk: Que incrível saber disso! Sexta-feira às 19h00, pode ser?
swansong: Sim!
TwilightInk: kkkkkk combinado então, te mando as informações perto do dia marcado e se tiver alguma alteração nos desenhos de referência você pode falar com o Edward
swansong: Combinado. Até sexta!
TwilightInk: Até :)
Guardei o celular no avental do meu uniforme quando meu horário de descanso acabou e tive que me controlar para não fazer uma dancinha de felicidade até o meu posto de trabalho. O Twilight Ink é um estúdio de tatuagem e piercing que fica em frente à cafeteria em que trabalho, e é quase impossível conseguir um horário na agenda do tatuador, Edward Cullen. Eu mesma mandei os desenhos de referência há mais de um mês e só agora consegui uma brecha.
Ao que parece, Cullen é um grande nome nesse universo e se tornou referência em todo o país; uma olhada no Instagram do estúdio e dá para entender o porquê: os desenhos originais dele são de longe a melhor coisa que eu já vi e nem acredito que terei um trabalho na minha pele!
– Que sorrisinho é esse que não sai da sua cara hein, Bella? Recebeu algum nude na hora da pausa? – Leah me perguntou depois que eu servi um cappuccino para a Sra. Jenkins.
– Não sabia que estava liberada para fazer esse tipo de coisa no meu horário de trabalho. – Respondi.
– Desde que não faça na frente dos clientes, você pode fazer o que quiser. – Ela deu de ombros.
Leah era dona do Lune Café, um pequeno estabelecimento que ficava bem no centro de Forks, cercado por outras pequenas lojas, restaurantes e, é claro, o estúdio de tatuagem.
Depois que me formei em artes plásticas e voltei para a minha cidade natal – sem dinheiro, nem emprego, e só com um lugar no sofá do meu irmão mais velho, já que nossos pais decidiram viajar o mundo depois que meu pai se aposentou da polícia apenas um ano antes – Leah topou me dar um emprego mesmo que eu não tivesse nenhuma experiência.
Eu disse a mim mesma que esse emprego seria apenas algo temporário, mas com o passar do tempo me apaixonei pela bebida e pelos fiéis clientes que havíamos conquistado. Não me via mais trabalhando em algo na área em que estudei, o café se tornou minha paixão (e vício).
Depois de meses trabalhando pesado, já não durmo mais no sofá do Emmett, consegui juntar dinheiro o suficiente para comprar um carro – uma lata velha, como todo mundo gosta de ressaltar – e sobra até uma graninha para uma extravagância como arte na minha pele. Mas ultimamente venho pensando em dar um passo adiante e oferecer uma sociedade para a minha amada chefe.
– Não fazer o que na frente dos clientes? – Devo ter ficado muito perdida nos meus próprios pensamentos, pois nem percebi quando Rosalie parou bem na minha frente do outro lado do balcão.
– Bella está trocando nudes na hora da pausa. – Minha chefe disse casualmente enquanto entregava um café gelado para uma adolescente.
– LEAH! Não é nada disso, Rose! – Protestei enquanto preparava um caramelo macchiato para a minha cunhada.
– Está tudo bem, cunhadinha, isso é super saudável, troco nudes com o Emmett o tempo todo.
– Ah que nojo, Rosalie, ele é meu irmão, não quero saber das suas intimidades.
– Bom, se não era nudes, por que você voltou só sorrisos? – Essa mulher não iria deixar esse assunto morrer mesmo, hein?
– Não é nada demais, garota, eu estava falando com a Alice do Twilight Ink. Abriu uma brecha na agenda do tatuador essa sexta-feira. Finalmente vou fazer os desenhos que eu tanto queria!
– Outra tatuagem, Bella? Você acabou de fazer uma – Rosalie fez um biquinho e eu sabia que estava mordendo a língua para não fazer nenhum tipo de comentário.
– Faz um ano desde que eu fiz a última, Rose, se quiser dizer alguma coisa diz logo! – Levantei as sobrancelhas em desafio.
– Ah para com isso, Bella você sabe que não tenho problema nenhum com tatuagens, eu faço questão de ensinar autonomia do próprio corpo para os meus alunos. E não é só um discurso da boca pra fora! – Rose, ressaltou muito orgulhosa de si mesma. – Mas sei que esse tipo de coisa é cara, e não quero que você se enrole com dinheiro. – Ela se inclinou no balcão para sussurrar. – Principalmente porque sei do seu plano de propor uma sociedade com a Leah.
– Eu te amo, Rosie, mas não precisa se preocupar. Minhas finanças estão sob controle, esse gasto não vai afetar o meu plano.
– Bom, se você tem certeza, eu confio em você, Bells. – Ela pegou sua bebida. – É bom saber que você não tem problemas com dinheiro, assim vai poder dar um presente caro de casamento para mim e o seu irmão.
– Vai sonhando. – Joguei um guardanapo em sua direção.
– Sabe, eu acho muito engraçado que a Bella goste tanto de fazer tatuagens ao mesmo tempo que ela anda por aí usando suéteres de lã e saias estampadas tal qual uma senhora de 87 anos. – Leah se aproximou de mim e da minha cunhada, aproveitando que o movimento havia diminuído.
– Nossa, mas vocês tiraram o dia pra me encher o saco mesmo, né? Não tem nada de errado com as minhas roupas! – Me afastei daquelas duas insuportáveis, indo em direção ao estoque, mas ainda pude ouvir as risadas. Precisava de um tempo longe delas.
XXXXX
A semana passou como um borrão e quando me dei conta já era sexta-feira. Leah precisou sair mais cedo para resolver algumas coisas e eu fiquei responsável por fechar a cafeteria, o que era perfeito já que eu tinha meu horário na Twilight Ink.
Depois que fechei as portas e comecei a limpar as máquinas de café, me dei conta de que não fazia ideia de quem era Edward Cullen. Ele não tinha redes sociais próprias e todos os seus trabalhos eram postados no perfil do estúdio. Mesmo trabalhando do outro lado da rua eu nunca o havia visto por aqui, só algumas vezes quando uma figura parava sua Harley Davidson na frente do estúdio e entrava, ainda usando o capacete.
Terminei de arrumar tudo faltando poucos minutos para as 19h00 e, depois de passar por algumas teorias, cheguei à conclusão de que ele provavelmente tinha o rosto coberto de cicatrizes, o que explicava todo esse mistério. Sinceramente? Por mim tudo bem, contando que ele não faça um desenho bizarro na minha pele, ele poderia ser o cara mais estranho do mundo.
Tranquei a cafeteria e segui em direção ao estúdio enquanto admirava a paisagem ao meu redor. Forks ficava tão diferente no outono. Ao contrário do restante do ano, onde ela era fria e chuvosa e com raros dias de sol, entre setembro e dezembro a cidade parecia ser coberta por uma camada de tinta laranja e marrom. Apesar das temperaturas baixas, as nuvens davam um tempo e proporcionavam um pôr do sol mais incrível do que o outro e as folhas secas caindo das árvores dão um tom novo ao asfalto. Por fim, com o Halloween se aproximando, todos os comércios estavam enfeitados com inúmeras variações de abóboras e decorações de terror – o que me fez lembrar que nós precisávamos pensar em uma bebida especial de Halloween para essa celebração na cafeteria.
Abri a porta do Twilight Ink e fui recebida por uma música alta demais para ser considerada ambiente. As paredes do lugar eram brancas, cobertas com desenhos e amostras de tatuagens e piercings.
Sentada no balcão da recepção estava uma mulher baixinha de cabelo preto cortado em um formato long bob. Ela usava uma regata preta que deixava a mostra seus braços cobertos com tatuagens coloridas, seu rosto delicado ostentava alguns piercings: um no nariz, um no septo, um na sobrancelha, e quando ela sorriu, vi mais uma jóia brilhando no freio.
– Olá, eu sou a Bella, tenho um horário com Edward Cullen. – Me apresentei.
– Claro! Oie, Bella, eu sou Alice, falei com você pelo Instagram. É um prazer te conhecer.
– O prazer é meu, Alice. Nem acredito que finalmente consegui esse horário. – Eu parecia uma criança que estava prestes a ganhar um presente na manhã de natal.
– A agenda dos meninos está uma loucura esses dias. – Ela retirou uma folha da impressora atrás de si e me entregou junto com a caneta.
– Não consigo imaginar os moradores de Forks desesperados para fazer tatuagens e piercings.
Alice riu e mesmo com todos os acessórios ela parecia mais uma bailarina fofa do que uma recepcionista tatuada fodona.
– Só posso dizer que você ficaria surpresa. Mas também recebemos pessoas de quase todo o estado de Washington. – Ela deu uma piscadela enquanto pegava o formulário que eu havia acabado de preencher.
– Agora faz mais sentido. – Sorri.
– Bom, Bella, está tudo certinho por aqui. Vi que você já transferiu o sinal para as duas tatuagens, mas vai fazer só uma hoje por causa do horário. A referência do desenho já está com o Edward, então vocês já podem fazer o decalque assim que ele terminar de… – Ela parou de falar e olhou por cima do meu ombro. – Aí está ele! Acho que já está tudo pronto para vocês começarem.
Me virei apenas para dar de cara com um verdadeiro deus grego. Esquece as cicatrizes ou qualquer outra teoria que eu tenha criado, não havia absolutamente nada de errado com o rosto daquele homem. Ele era perfeito, com o maxilar marcado, a sombra de uma barba por fazer, um nariz que com certeza foi esculpido por algum artista renascentista – o diploma pendurado na minha parede me dá total propriedade para dizer isso. Seus olhos verdes, apesar de sérios, brilhavam mesmo à distância e seus cabelos acobreados apontavam em todas as direções como se ele passasse as mãos pelos fios o tempo todo. Me perguntei qual seria a sensação de passar as minhas mãos por eles.
Tenha dó, Isabella! o cara é um profissional sério, você precisa se controlar! Não importa que ele seja um grande gostoso, alto, usando uma camiseta preta apertada e tenha o sorriso mais sacana que você já viu… vai ser uma longa sessão.
– Olá, eu sou Edward. – Ele estendeu a mão e eu rezei para que a minha não estivesse suada.
– Bella Swan, na verdade é Isabella, mas todos me chamam de Bella.
– Bella? – Meu Deus, o jeito que meu nome soava em sua boca? Era quase indecente. – Prazer em conhecê-la, vamos lá?
Eu o segui pela porta à esquerda da recepção até chegarmos em sua sala. O cômodo não era nada diferente de qualquer outra sala de tatuagem: uma cadeira reclinável, um móvel com os materiais e uma mesa e cadeira com rodinhas. Pelo canto do olho pude ver uma jaqueta de couro e um capacete pendurados em uma das paredes, além de inúmeros desenhos emoldurados. Mesmo assim, eu conseguia sentir meu coração acelerado pela constatação de que ficaria sozinha com Edward naquele cômodo por algum tempo.
– Bom, o decalque já está pronto, onde você pensa em fazer o desenho? – Ele perguntou, segurando o pedaço de papel.
Comecei a desabotoar o meu casaco sem olhar para ele, por algum motivo aquele simples movimento pareceu íntimo demais e não sei o que aconteceria comigo se ele estivesse olhando enquanto eu fazia isso.
– Pensei que poderia ser aqui. – Apontei para a parte de trás do meu ombro direito o máximo que consegui com a minha mão esquerda, virando de costas para Edward.
– Aqui? – Seus dedos tocaram o local que apontei e senti minha pele arrepiar.
– Isso mesmo. – Engoli seco, e Edward ficou em silêncio por um alguns segundos, ainda tocando minha pele antes de colar o papel.
Eu conferi o local e o desenho – uma pequena xícara de café com ramos de lavanda saindo dela. Quando disse que estava tudo certo, me sentei na cadeira com o cabelo preso e o rosto virado para o encosto. Estamos prontos.
– Vou começar, tudo bem? – Senti sua respiração contra minha nuca mesmo de máscara, e comecei a repensar todas as escolhas da minha vida que me levaram até aquele momento.
– Aham. – Respondi em um sussurro.
Pude ouvir a maquininha ligar e logo em seguida senti a pressão da agulha contra minha pele. Por um momento a tensão se foi, aquele era um território conhecido pra mim, o barulhinho incessante da maquininha, a dor ao mesmo tempo incômoda e prazerosa da agulha, as pausas que ele fazia para limpar o excesso. Tudo estava acontecendo como deveria.
Mas é claro que minha felicidade não poderia durar tanto tempo. Conforme Edward evoluía no trabalho ele se inclinava cada vez mais em direção ao meu corpo e estava impossível de ignorar a tensão que eu sentia. O fato dele não ter dito uma palavra sequer desde que começou só contribuiu para o meu nervosismo.
– Está tudo bem aí? Podemos dar uma pausa se você quiser. – Edward deve ter confundido minha tensão com incômodo.
– Não precisa, eu estou bem, na verdade eu gosto de sentir dor. – Virei em direção ao tatuador que me encarava com as sobrancelhas arqueadas. – NÃO NESSE SENTIDO! EU QUIS DIZER DOR DA TATUAGEM!
– Claro. – Ele limpou a garganta e desviou o olhar. – Vamos voltar, então.
– Por favor. – Caralho, a sessão de tatuagem virou um enterro.
O passar do tempo não ajudou nem um pouco a melhorar a situação. Eu ficava repassando a situação constrangedora em que minha boca enorme me colocou e só queria me fundir ao couro da poltrona.
A proximidade de Edward só piorou tudo, ele havia ajustado a cadeira e agora estava tão perto de mim que seu perfume invadia minhas narinas. Meu espaço pessoal não era nada além dele, e de repente eu estava muito consciente de todos os seus movimentos. Conseguia ouvir cada pequeno barulho – não que eu tivesse qualquer outra coisa para ouvir, já que o tatuador seguia em total silêncio.
Eu sabia que ele estava concentrado em seu trabalho, mas ainda assim era estranho. Outros profissionais que eu conheci pelo menos puxavam um papo durante a sessão. Bom, pelo visto eu teria que passar por essa tortura sem nenhuma distração.
Mais algum tempo se passou e ouvi Edward se afastar, empurrando a cadeira de rodinhas. Assim que me virei, vi que ele estava de costas arrumando algo na sua estação de trabalho e percebi algo pela primeira vez. Eu estava tão ocupada reparando em seu rosto perfeito que não me dei conta de que não havia nenhuma tatuagem à mostra em seu corpo, nenhum resquício de tinta nos braços ou pescoço.
Isso até ele se virar, porque saindo da gola de sua camiseta em direção à nuca havia a ponta de um desenho; não dava para saber o que era ou qual o tamanho da tatuagem que provavelmente começa em suas costas, mas naquele momento eu só conseguia pensar em arrancar sua camiseta e lamber qualquer coisa que estivesse tatuado ali.
Isso foi o bastante para me fazer cair na realidade. Puta que pariu, onde eu tava com a cabeça? Pensando em lamber um cara que eu nem conheço?
– Sabe... – Comecei a falar acima do barulho da maquininha quando ele voltou ao seu lugar. – Eu trabalho no café ali do outro lado da rua, por isso o desenho da xícara. Parece meio ridículo tatuar o símbolo do seu emprego, mas eu amo mesmo café, e é melhor a xícara do que a logo da Starbucks, não é?
– Eu já tatuei coisas muito mais bizarras, vai por mim. – Edward respondeu enquanto dava alguns retoques no desenho. – Mas é meu trabalho, contanto que a pessoa pague, o desenho não importa.
– Claro! É a mesma coisa quando vejo alguém colocar açúcar no café puro. É um crime, mas depois que você pagou por ele, pode fazer o que quiser. – Esperei por uma resposta, uma risada, um som sem sentido, um arzinho pelo nariz, qualquer tipo de reação, mas nada.
Alguns minutos depois ele limpou minha pele. Senti a sensação gelada da pomada cicatrizante e logo em seguida um plástico havia sido colado por cima do desenho.
– Terminamos. Você pode ir até o espelho dar uma olhada, Bella. – Ele abriu o caminho enquanto eu conferia o seu trabalho.
– Puta merda, ficou linda! Eu amei muito!
– Que bom que gostou.
– Gostar é pouco, eu to apaixonada! Mal posso esperar para ver o que você vai fazer na próxima sessão.
– Próxima sessão? – Edward olhou pra mim com as sobrancelhas unidas.
– Sim, eu fechei o orçamento para duas tatuagens, mas como seu horário hoje era curto só fizemos essa. A outra vamos começar na próxima sessão. – Expliquei.
– Ah sim, é claro, vai ser ótimo. Te vejo na próxima sessão, então. – Ele se virou enquanto limpava suas coisas. – Pode acertar tudo com a Alice lá fora. – Dessa vez nem se deu o trabalho de olhar em minha direção.
Era quase como se ele tivesse ficado nervoso ao saber que teria que me ver novamente. Ah, ótimo! Era só o que me faltava mesmo, meu tatuador bonitão me odeia.
XXXXX
– Eu tenho certeza de que ele não te odeia, Bella. – Na manhã seguinte à sessão desastrosa, minha chefe percebeu minha falta de ânimo, e quando ela perguntou o que estava acontecendo, eu contei em detalhes tudo o que aconteceu na noite anterior e o porquê eu tinha certeza de que o meu tatuador me odiava. Mas Leah não estava nem um pouco convencida.
– Eu tô te falando, Leah, o cara não foi com a minha cara, se você estivesse lá iria entender. – Respondi, tentando, sem sucesso, provar meu ponto.
– Sério, amiga, ele só estava fazendo o trabalho dele. Você tá paranóica porque falou mais do que deveria. – Revirei os olhos para a minha chefe, que ria sem pudor da minha desgraça.
– Bom dia, senhoritas. – Uma voz grave preencheu todo o lugar, interrompendo nossa conversa.
– Jake! Quanto tempo não te vejo por aqui. – Cumprimentei meu velho amigo.
– Hey, Bells! Você também nunca mais apareceu na oficina. Finalmente se livrou daquela lata velha? – Jacob me encarou através do display que exibia muffins recém assados.
– Olha lá como você fala do meu bebê. – Respondi enquanto me virava de costas para esquentar o sanduíche que eu sabia ser o seu favorito.
– Black... – Leah cumprimentou Jake sem muito entusiasmo.
– Clearwater... – Eu podia ouvir o sorriso na voz do meu amigo.
– Hey, Bella, talvez o Jacob possa te ajudar na sua pequena dúvida. – É claro que a Leah faria qualquer coisa para tentar provar que está certa.
– Você quer mesmo envolver o Jake nisso? – Perguntei.
– Eu nunca quero envolver ele em nada.
– Nem você acredita nisso… – Sussurrei.
– Do que vocês estão falando, posso saber? – Jacob perguntou.
– Black, você conhece o Edward Cullen? Do estúdio de tatuagem do outro lado da rua? – Minha amiga perguntou, jogando o pano que ela usava para limpar o balcão sobre o ombro.
– Claro que sim! Ele já levou a Harley algumas vezes na oficina. Aquela moto é uma das motos mais fodas que eu já vi. – A voz do meu amigo ficou sonhadora.
Eu conheço Jake desde que somos crianças e duas coisas nunca mudaram: seu amor por motos e a paixonite que ele nutre pela Leah desde o primeiro ano do ensino médio.
– Tá bom, já entendi. Mas como ele é?
– É um cara bacana. Meio calado, na dele, mas sempre foi muito agradável, até tomamos uma cerveja no bar do Garreth uma vez.
– Está vendo só? Eu disse! – Joguei um guardanapo em direção a Leah, que desviou no último segundo.
– Vendo o que, garota? – Ela se abaixou pegando o item e guardando em seu avental.
– O problema é comigo, Leah. Jake acabou de dizer que o Edward o tratou bem!
– Ele também disse que o Edward é mais calado e na dele. Sério, Bella, eu amo o jeito como você trata os clientes aqui da cafeteria, metade nem apareceria aqui se não fosse por você, mas já parou pra pensar que nem todo mundo é assim? Algumas pessoas simplesmente não gostam tanto de interagir, principalmente quando estão trabalhando.
– Bom. – Suspirei me dando por vencida. – Talvez você tenha razão.
– É claro que eu tenho!
– Eu concordo com a Leah, você está se estressando por nada, Bells. – Jacob disse entre uma mordida e outra em seu sanduíche.
– Tentando ganhar pontos comigo, é? – Leah se inclinou no balcão na direção de Jake.
– Eu estou sempre tentando ganhar pontos com você, mas parece que nunca é o suficiente. – Jacob apoiou os braços no balcão deixando o seu rosto a poucos centímetros de Leah. – Sua sorte é que eu não desisto fácil.
Nunca imaginei que viveria para ver Leah ficar sem palavras. Jake realmente estava indo atrás do que queria.
– Parem de flertar em cima dos muffins – Eu disse quando o silêncio começou a ficar longo demais.
– Ninguém está flertando aqui, vai trabalhar, Swan. – Leah se virou, indo em direção a cozinha sem nem olhar para trás.
– Exagerei? – Meu amigo parecia um cachorro caído da mudança.
– Não! Você sabe como ela ficou depois que a Tanya terminou com ela. Dá um tempo para as coisas se acalmarem, a Leah vai perceber o cara incrível que você é.
– Vou acreditar em você.
– Lógico que vai acreditar em mim, quando foi que eu menti para você, garoto?
– Nunca. É por isso que eu te amo
– Eu também te amo, Jake. Agora caí fora, eu preciso trabalhar.
O movimento na cafeteria foi uma loucura. Entre estudantes desesperados por cafeína e senhorinhas atacando a fornada de rolinhos de canela e biscoitos, eu nem sequer tive tempo para respirar.
Ouvi o sino da porta soar anunciando que alguém havia chegado. Olhei para o relógio na parede e pelo horário só poderia ser o Sr. Johnson para tomar seu habitual chá da tarde.
– Me desculpe, Peter, o dia foi corrido hoje, mas já vou preparar o seu chá. – Disse ainda de costas para o balcão.
– Como? – Quando me virei, no entanto, não era o Sr. Johson que esperava por mim. Parado do outro lado do caixa estava Edward Cullen.
Fazia somente um dia que eu o havia visto pela primeira vez, mas era como se semanas tivessem se passado. Ele era ainda mais bonito do que eu me lembrava. Seus cabelos acobreados brilhavam sob a luz quente da cafeteria, e a combinação de calça preta e camiseta branca que ele usava era simplesmente de tirar o fôlego.
– Me desculpa, achei que fosse um cliente daqui, ele sempre aparecei nesse horário. – Pude sentir meu rosto queimar e sabia que estava ficando vermelha. Eu nunca vou parar de passar vergonha na frente desse homem?
– Tudo bem. – Edward disse em uma tentativa de sorriso. Que diabos ele estava fazendo aqui? Ele nunca apareceu no Lune antes, eu nem sabia qual era a cara dele antes da nossa primeira sessão!
– Então, o que posso fazer por você? – Edward me encarou por um segundo longo demais e me perguntei se havia falado algum absurdo novamente.
Ele finalmente pareceu se dar conta do olhar estranho que me deu e limpou a garganta antes de falar:
– Um espresso, por favor.
– É pra já! Não quer algo para comer? – Por que eu estou sendo tão educada com ele quando ele foi um babaca comigo? Também não sei dizer. Talvez eu realmente tenha compreendido os conselhos da Leah e percebi que ele só estava sendo profissional, ou eu sou uma grande otária. Nunca saberemos a resposta.
– Hoje não, preciso correr de volta para o estúdio. – Ele disse quase se desculpando e me senti mais ridícula ainda.
– É claro, só um instante.
Comecei separando e moendo os grãos de café. Agora que tinha a quantidade necessária de pó, levei o café até o pequeno suporte e prensei formando uma camada lisa e perfeita, em seguida liguei a máquina deixando que ela fizesse seu trabalho. Tomei muito cuidado para não me virar na direção de Edward em nenhum momento do processo, mas conseguia sentir seus olhos em mim o tempo todo, queimando minha pele.
Pouco mais de um minuto depois havia um copo de espresso na minha mão extremamente suada.
Encarei meu reflexo na máquina de expresso. Não podia acreditar que realmente estava nervosa por servir um café! Isso já está passando dos limites!
– Aqui está. – Me virei em direção a Edward antes que perdesse a coragem.
Edward esticou o braço para pegar o café e pude ver que, quando não estava usando as luvas descartáveis, seus longos dedos eram cobertos por anéis de diferentes tamanhos. Esse homem não cansa de ser um sacana?
Quando o tatuador pegou a bebida das minhas mãos, nossos dedos se tocaram por um instante e eu senti o calor se espalhar por todo o meu corpo; era como se eu estivesse em chamas.
– Obrigado. – Ele me encarou com seus olhos verdes presos nos meus em uma mistura de choque e curiosidade, e aposto que a expressão no meu rosto não era diferente.
Continuamos nos encarando pelo o que pareceu uma eternidade, mas provavelmente foram somente alguns segundos, até que o sino da porta me tirou do transe. O Sr. Johnson finalmente havia chegado.
Edward praticamente pulou do banco e agora estava determinado a olhar para qualquer lugar menos para mim.
– Hmm, obrigado, eu preciso ir. – Ele murmurou deixando o dinheiro no balcão.
– Até mais, então. – Respondi enquanto ele se dirigia até a porta. Edward parou com a mão na maçaneta e abriu a boca para dizer algo, mas simplesmente se virou sem dizer mais nenhuma palavra.
– Quem era aquele homem, querida? – Sr. Johnson perguntou.
– O nome dele é Edward, ele é tatuador no estúdio do outro lado da rua. – Respondi ainda encarando a porta pela qual ele havia saído.
– Entendi. – O senhor estava agora sentado em seu habitual banco.
– Entendeu coisa nenhuma! Cuida da sua vida, senão eu cuspo no seu chá. – A única resposta que recebi foi uma alta gargalhada do nosso fiel cliente.
XXXXX
Gostaria de poder dizer que nem sequer pensei em Edward nas duas semanas seguintes, mas isso seria uma grande mentira. A proximidade da nossa sessão fazia com que ele estivesse na minha mente o tempo todo, e o fato dele ter aparecido na cafeteria outras duas vezes nesse período só piorou as coisas.
Todas as vezes a mesma cena se repetia: ele vinha até a cafeteria, pedia um espresso, eu preparava sua bebida, o entregava, ele me encarava como se quisesse dizer algo, mas parecia mudar de ideia e saia do lugar em seguida.
Eu queria simplesmente esquecer a existência desse cara até a nossa próxima sessão, mas isso parecia impossível.
É por isso que nesse momento eu estava dentro da minha caminhonete reunindo forças para entrar no Twilight Ink.
– Isabella Marie Swan, você é uma covarde. – Digo em voz alta para mim mesma. – Deixa de ser ridícula, você vai acabar se atrasando por besteira, ele é só um cara. Tenha santa paciência!
Finalmente me obriguei a sair do meu carro e seguir até o estúdio. É só uma sessão de tatuagem, vai dar tudo certo.
Alice estava em sua habitual cadeira de recepção conversando com um homem alto, de cabelo loiro preso em um pequeno coque.
A recepcionista também passou a frequentar mais o café, mas diferente de Edward – que eu descobri ser seu irmão mais velho –, ela sempre ficava para conversar e comer algo.
Nessas conversas a recepcionista me disse que namora o body piercer do Twilight Ink, e pelas jóias ostentadas no lábio, nariz, sobrancelha e alargadores na orelha, imaginei que fosse o loiro sentado no balcão.
– Hey, Bella, bom te ver – Alice me lançou o seu caloroso sorriso.
– Bom te ver também, Alice. Você precisa passar na cafeteria mais vezes e aproveitar a temporada de pumpkin spice.
– Sabe, eu acho muito errado que a melhor bebida da história seja vendida somente durante uma estação do ano. – Ela cruzou os braços em sinal de frustração.
O homem loiro deu uma gargalhada chamando nossa atenção pela primeira vez.
– Ah, Bella, esse é o Jasper, meu namorado e body piercer aqui no estúdio.
Jasper estendeu a mão e pude perceber que seu braço esquerdo era fechado de tatuagens em blackwork. O completo oposto dos desenhos coloridos na pele de sua namorada.
– Prazer em conhecê-la. – Ele tinha um forte sotaque do sul.
– O prazer é meu. – Respondi.
– Bella veio para uma segunda sessão com o Edward, Jazz. – Alice explicou
– Ah! O Edward me mostrou o seu desenho mais cedo, Bella, ficou animal! Já sabe onde vai ser a tatuagem? – Jasper perguntou e gelei no mesmo instante.
Merda. Merda. Merda.
Claro que eu pensei em um local para tatuar o novo desenho. Mas isso tinha sido antes de conhecer o Edward, antes de sentir toda aquela tensão com um simples toque dele e daquele momento que tivemos na cafeteria. Eu não posso manter o desenho no mesmo lugar! Posso?
– Deixa de ser curioso, Jasper! – Alice deu um leve tapa no braço do seu namorado. – Você pode ver quando estiver finalizada.
– Tá bem, tá bem. – Ele levantou as mãos em rendição.
– O Edward já está te esperando, pode ir direto para a sala dele. – A recepcionista me disse, e eu só tive forças para balançar a cabeça.
De alguma forma consegui colocar uma perna na frente da outra e me movimentar, mas não tive tempo de pensar em um plano B já que a porta estava aberta e Edward me viu assim que me aproximei.
– Oi, Bella, pode entrar. Seu decalque já está pronto. – Ele me mostrou o resultado da arte quando me aproximei. É claro que tinha ficado incrível.
O desenho em questão era uma serpente sombreada com curvas que iriam se enrolar em volta do meu corpo.
– Eu adorei! – Respondi, rezando para que o chão abrisse e me engolisse naquele momento. Vai, Bella, pensa rápido, onde mais você pode tatuar isso?
– Perfeito! Já pensou no lugar? – Ele pegou o decalque.
– Hmm, quem sabe em volta na minha perna? Ela pode rodear a minha canela e a panturrilha. – Edward juntou as sobrancelhas enquanto encarava o desenho e depois a minha perna esquerda.
– Ok, mas você precisa tirar a meia calça, então. – Na correria da manhã, acabei não me dando conta de que iria precisar de algo mais prático do que a mini saia preta, meia calça e coturnos que estava usando.
– É óbvio, que cabeça a minha. Onde tem um banheiro? – Edward me encarou. Era impressão minha ou ele ainda estava olhando para as minhas pernas?
– Final do corredor à esquerda. – Praticamente corri até o local que ele havia indicado.
Quando voltei para a sala, tudo estava arrumado e uma música ambiente tocava. Torci para que ela fosse capaz de abafar as batidas aceleradas do meu coração.
Apoiei minha perna em um banco enquanto Edward passava o decalque em volta da parte inferior da minha perna. Quando ele finalizou, fui até o grande espelho para ter uma visão melhor, apenas para descobrir que estava horrível.
Não o desenho, a arte de Edward era sempre impecável, mas o local que escolhi não combinava com o formato da serpente.
Edward se aproximou e ficou parado ao meu lado no espelho.
– Bom… – Ele começou a dizer. – Até que ficou legal…
– Você tá de brincadeira? Isso aqui tá horrível! – Apontei para a minha perna.
– Talvez o local que você escolheu não seja o melhor para esse desenho. – Ele coçou a nuca.
– Você tem razão. – Suspirei. – Minha ideia inicial era muito melhor. – Acrescentei baixinho.
– Qual era a sua ideia inicial? – Me encolhi quando me dei conta de que ele estava perto o suficiente para ouvir tudo o que eu havia dito.
– B-bom, e-eu p-pensei. – Comecei a gaguejar. – Queriaquefosseemvoltadaminhacoxaesquerda.
– Desculpa, o que? – Ele se virou para mim.
Esse seria um ótimo momento para aquele buraco aparecer no chão.
– A minha primeira ideia era que o desenho fosse em volta da minha coxa esquerda, indo do joelho até em cima. – Tentei soar o mais casual possível, mas duvido que tenha conseguido.
Edward me encarou tentando assimilar o que eu havia acabado de dizer. Eu juro que podia ver as engrenagens se moverem dentro da sua cabeça.
– Oh…acho que…é… talvez…quer dizer… – Ele balançou levemente a cabeça. – Podemos testar. Espera um minuto, vou preparar um novo decalque. – Edward saiu da sala antes mesmo que eu pudesse responder.
Alguns minutos depois, eu ainda estava parada no mesmo lugar contemplando a ideia de sair correndo daquele estúdio, entrar na minha caminhonete e dirigir até o outro lado do país, quando Edward voltou com um novo decalque.
– Bom, vamos lá. – Ele se ajoelhou na minha frente. – Com licença, Bella.
Primeiro ele começou a aplicar o papel perto do meu joelho, onde ficaria a cabeça da serpente, depois passou a estampar o desenho pela parte externa da minha coxa e então por trás. Quando ele chegou à parte interna, tive que afastar um pouco as minhas pernas, fazendo com que a minha saia subisse alguns poucos centímetros.
Ele continuou, agora passando o desenho na parte da frente da minha coxa e logo em seguida fazendo outra volta. Por que esse desenho tinha que ser tão grande? Eu não podia tatuar um símbolo do infinito como uma pessoa normal? Eu não sei por quanto tempo vou aguentar essa situação e a sessão nem sequer tinha começado.
Ele terminou a segunda volta e a ponta final da serpente ficou exatamente na parte da frente da minha coxa. Depois de pressionar o desenho contra minha pele algumas vezes, Edward tirou o papel e se afastou, me dando espaço para analisar o resultado.
Eu queria dizer que havia ficado horrível, que fazer aquela segunda tatuagem era um erro e era melhor cancelarmos tudo, mas quando olhei no espelho o desenho havia ficado simplesmente perfeito. Que inferno.
– O desenho pertence a essa parte do seu corpo, Bella. – Edward me encarou pelo espelho com uma intensidade que nunca vi antes.
– Acho que você tem razão. – Suspirei. – Melhor começarmos, então.
Deitei no mesmo local em que havia estado algumas semanas atrás, mas dessa vez eu encarava o teto do estúdio.
Antes que eu estivesse realmente preparada, Edward começou seu trabalho, aplicando a agulha no começo da tatuagem próximo ao meu joelho.
O tatuador avançou, rodeando a cadeira para alcançar o máximo de pele que podia, mas chegou um momento em que isso não era mais possível, então tive que deitar de lado para que Edward pudesse alcançar a parte de trás da minha coxa. A posição era mais estranha do que qualquer outra coisa, mas eu ainda podia sentir o calor de seu rosto irradiando até a minha pele.
Quando chegou na parte interna da minha coxa, Edward mudou de lugar, saindo da lateral para a parte inferior da cadeira, e eu precisei afastar as minhas pernas. A visão dele entre as minhas coxas me deixou zonza.
O fato de estar usando uma boa calcinha hoje me deixava aliviada e triste ao mesmo tempo. Aliviada por não passar mais essa vergonha e triste porque ela provavelmente estaria arruinada até o final dessa sessão.
Em um determinado momento, enquanto ainda estava tatuando a primeira curva na parte interna da minha coxa, o tatuador precisou de mais espaço para se movimentar e levemente afastou minha perna direita com o cotovelo e eu tive que morder os lábios com muita força para não soltar nenhum barulho constrangedor. Olhei para baixo e encontrei Edward ainda bastante concentrado.
A sessão seguiu no habitual silêncio constrangedor, mas dessa vez eu não fiz nenhum esforço para mudar a situação. Para ser sincera, não acho que seria capaz de formular nenhuma frase coesa, já que estava ocupada demais nomeando as espécies de grãos de café na minha cabeça para conter a onda de pensamentos eróticos que invadiam minha cabeça enquanto Edward começava a tatuar a segunda volta em um ponto mais acima da da parte interna da minha coxa.
Eu nem sequer me incomodava com a dor da agulha, só conseguia sentir o toque de Edward. Suas impressões digitais marcavam minha pele mais do que qualquer outra tinta.
– Tudo bem por aí? – Edward perguntou, quebrando o silêncio pela primeira vez.
– Tudo ótimo! – Falaria qualquer coisa para que Edward pudesse seguir com seu trabalho e acabar logo com meu tormento.
– Tem certeza? Não quer parar um pouco para descansar?
– Não! – Respondi sem tirar os olhos do teto.
Sem nenhum aviso prévio, Edward voltou a tatuar, mas dessa vez ele segurou um pouco mais forte, fazendo com que eu soltasse um pequeno grito estrangulado.
– É isso, vamos fazer uma pausa. – Antes que eu pudesse protestar, o tatuador descartou suas luvas e máscara indo até um pequeno frigobar e pegando duas garrafas d'água, me entregando uma.
– Obrigada. – Se ele me ouviu agradecer, não demonstrou.
Ele se dirigiu até o sofá próximo a janela e observou o movimento da cidade lá fora, enquanto eu bebia minha água com a perna meio tatuada e o rosto vermelho e quente. Se algumas semanas atrás alguém me dissesse que eu ficaria nessa situação por causa de uma tatuagem, eu acharia que a pessoa enlouqueceu. Mas parece que essa é a minha vida agora.
Depois de alguns minutos ele descartou sua garrafa e voltou a se sentar perto de mim.
– Não vou conseguir finalizar o desenho hoje. Posso fazer todo o contorno, mas vou precisar de mais uma sessão para sombrear.
– Oh. – Aparentemente o meu cérebro derreteu durante esse processo, já que essa foi a única resposta que consegui dar.
– Está tudo bem por você? – Ele estava apreensivo.
– Sim, claro que está. Talvez a gente só devesse evitar marcar a próxima sessão em um sábado de manhã. – Sorri na tentativa de esconder meu nervosismo.
– Vou falar com a Alice sobre isso.
– Ok, então.
– Ok, então. Vamos acabar logo com isso. – Sua tentativa de sorriso encorajador foi pior do que qualquer toque naquela manhã. Eu estou muito fodida.
Uma hora depois, Edward estava seguindo com o seu ritual de finalização e me passando as instruções.
– É isso, Bella, hã… te vejo na próxima sessão.
– Sim, sim. Até a próxima, Edward. – Dei um leve aceno para o tatuador e juntei meus pertences, saindo daquela sala o mais rápido que eu consegui.
Não diminuí o ritmo quando passei pela recepção, agradecendo por Alice e Jasper não estarem à vista. Atravessei a rua, mas ao invés de entrar pela porta principal da cafeteria, dei a volta na esquina seguindo para a entrada dos fundos.
Leah estava na cozinha colocando uma fornada de biscoitos no forno.
– Oie, Bella! Chegou bem a tempo de ajudar a atender os primeiros clientes. – Quando ela se virou em minha direção, sua expressão ficou preocupada. – Está tudo bem, amiga?
– Sim! Só preciso guardar minhas coisas e me arrumar, já venho te ajudar, amiga. – Fui em direção ao banheiro sem dar a oportunidade dela me contestar.
Só queria esquecer os acontecimentos daquela manhã. Mas, no fundo, sabia que isso não era possível. Não quando minha mente havia gravado e armazenado cada interação que tive com Edward desde que o conheci.
O resto do dia foi tão estranho quanto a manhã no estúdio. Era como se eu estivesse no fundo de uma piscina, observando o dia acontecer, mas sem realmente poder ouvir ou interagir com as outras pessoas.
Em algum momento da tarde, Rosalie foi até o café com a desculpa de que precisava corrigir algumas provas, apenas para fofocar. Infelizmente para a minha cunhada, eu não tinha cabeça para jogar conversa fora e ela teve que realmente focar em seu trabalho.
Estávamos fechando a cafeteria quando Leah me convidou para beber junto com alguns dos nossos amigos, mas eu dispensei. Não estava no clima para confraternizar.
– Tem certeza de que não quer ir, Bella? – Leah me perguntou enquanto colocava a última cadeira em cima da mesa.
– Não, Leah, tô bem cansada e não tô a fim de ficar de vela pra você e o Jake. – Provoquei minha chefe.
– Deixa de palhaçada, garota. Todo mundo vai estar lá.
– Eu sei, só queria te irritar, chefa. – Admito. – Mesmo assim, eu vou pra casa. Preciso descansar e colocar meus pensamentos em ordem.
– Tudo bem, então. Mas se mudar de ideia, aparece por lá que eu te pago uma cerveja. – Ela piscou para mim antes de sair do café.
– Juízo hein, mocinha, e use proteção! – Gritei enquanto Leah passava pela janela da cafeteria me dando o dedo do meio.
Depois de verificar se havia fechado tudo, sai pela porta principal, trancando-a atrás de mim. Mas ao invés de ir direto até minha caminhonete, fiquei parada na entrada olhando para o Twilight Ink.
Uma luz fraca iluminava os fundos do estúdio e me perguntei se era Edward quem ainda estava lá, se ele estava com algum cliente ou se estava sozinho, e o mais importante: se ele foi capaz de seguir seu dia tranquilamente ou se foi assombrado pela nossa sessão tanto quanto eu.
Decidir seguir meu caminho antes que eu entrasse em um espiral de surtos. Tava na hora de acabar com o dia de hoje.
Entrei na minha caminhonete e fui abraçada pelo calor da cabine. O outono estava avançando rápido e as temperaturas caindo cada dia mais com a aproximação do inverno.
Depois de uma pequena batalha para encontrar minhas chaves na bagunça da minha bolsa, dei partida do carro e…nada. Tentei mais uma vez… silêncio total.
A caminhonete não estava ligando. PUTA MERDA, A CAMINHONETE NÃO ESTAVA LIGANDO!
– Ah bebê, eu sei que você não gosta de frio, mas não faz isso comigo. – Começo a acariciar o volante. – Liga, coisa linda, por favor. Prometo te dar folga durante todo o inverno. – Girei a chave na ignição, apenas para continuar em silêncio com o carro desligado.
– SUA LATA VELHA! LIGA LOGO! – Soquei o volante, frustrada, mas me arrependi logo em seguida. – Querida, me perdoa! Hoje não foi o melhor dia para você quebrar.
Depois de me desculpar com a minha bebê, peguei meu celular para pedir ajuda. Sabia que esse horário o guincho do pai de Jacob não estava mais funcionando, mas se ligasse direto para o meu amigo ele poderia vir dar uma olhada rapidinho.
Porém Jacob não atendeu nenhuma das minhas chamadas. Tentei contato com a Leah, mas o bar deveria estar barulhento demais, pois ela também não me atendeu. Liguei para Rosalie e Emmett algumas vezes, mas aparentemente ninguém estava disposto a atender o telefone naquela noite.
– Por favor, Emmett, atende o telefone. – Liguei para o meu irmão pela quarta vez, apenas para cair na caixa postal de novo. – QUE ÓDIO!
Pressionei minha testa na buzina deixando que o longo barulho servisse como trilha sonora do desastre que minha vida havia se tornado.
Uma batida na janela me assustou, me fazendo pular no banco. Edward estava parado do lado de fora da minha caminhonete com um olhar curioso.
– Bella? Aconteceu alguma coisa? – Ele perguntou quando eu baixei a janela.
– Não. – Menti descaradamente. – Só descansando um pouco antes de seguir para casa. – Pela expressão em seu rosto, ficou claro que ele não acreditou em nenhuma palavra que eu disse.
– Ok. – Me dei por vencida. – Meu carro não está funcionando, não sei o que está acontecendo. Você entende de carro? Será que não poderia dar uma olhada? – Eu estava muito desesperada mesmo.
– Desculpe, não entendo nada de carros. – Ele encolheu os ombros.
– Ah, tudo bem então, acho que vou andando para casa. Obrigada mesmo assim, Edward.
– O que? Você tá maluca? – Ele segurou minha porta.
– O que? Por que? – Perguntei.
– Sair andando sozinha à noite? É perigoso!
– Perigoso? Qual é, estamos em Forks!
– E por acaso Forks é alguma distopia completamente livre de perigo? – Como filha do ex-chefe de polícia da cidade, eu sei que ele estava certo. – Nada de ir sozinha. Vamos, eu te dou uma carona.
– Carona? – Olhei em direção a sua brilhante Harley, parada a poucos metros do meu carro. Ah, não.
– Não acho que seja uma boa ideia, não tenho capacete e estou com uma bolsa grande. – Tentei encontrar uma desculpa para sair daquela situação.
– Eu tenho um capacete extra que fica guardado embaixo do banco onde você pode colocar sua bolsa. – Ele não iria ceder, e por mais que quisesse bater o meu pé e discutir, eu realmente não tinha outra opção.
Reuni minhas coisas e sai do carro seguindo Edward até sua moto, que como ele havia dito, tinha um capacete extra e um espaço para guardar minha bolsa.
Dei as instruções de como chegar na minha casa e coloquei o equipamento de proteção. Agora só precisava subir na moto e me agarrar à Edward…
— Não se preocupe, você não vai cair. — Oh, não era isso que estava me preocupando.
Não há como voltar atrás agora. Passei uma perna por cima do banco de couro e Edward ligou a moto, fazendo com que vibrasse embaixo de mim.
Apoiei meus pés nos pedais e agora só precisava segurar na cintura daquele homem que havia ficado ainda mais incrível sentado em cima da moto e usando uma jaqueta de couro. Deus, me ajuda.
Reuni o pouco de coragem que ainda me restava e cheguei mais perto passando os braços em volta de sua cintura e entrelaçando os dedos sobre seu estômago. Mesmo por baixo das camadas de roupa, eu podia sentir os músculos definidos do seu abdômen, e se eu movesse meus dedos, seria capaz de contar cada um dos gomos definidos – será que ele tinha tatuagens cobrindo a sua pele nessa região assim como o desenho nas suas costas do qual eu havia visto um pedaço no outro dia?
Fui tirada dos meus devaneios quando Edward arrancou. A velocidade que alcançamos em tão pouco tempo me assustou e eu apertei sua cintura com mais força juntando ainda mais nossos corpos. Senti ele ficar tenso com o meu toque e torci para que não estivesse atrapalhando. A última coisa que eu queria era que nós dois acabássemos no asfalto.
A parte boa de se morar em uma cidade pequena é que a viagem não durou muito e logo estávamos parados em frente a minha pequena casa. A parte ruim é que eu estranhamente havia aproveitado o momento e não estava pronta para que acabasse.
– Obrigada, Edward, de verdade. – Entreguei o seu capacete e coloquei minha bolsa no ombro.
– Não precisa agradecer, Bella, de verdade – Ele não fez menção de ir embora e eu também não me movi.
– Hey, eu realmente quero fazer algo para te agradecer pela carona. Você não quer entrar para beber alguma coisa? Como forma de gratidão? – Não estou acreditando que realmente sugeri isso.
– Eu não quero incomodar.
– Não é incômodo, sério. Por favor, aceita. – Caramba, Isabella, que desespero é esse, garota?
– Ok, então. – Ele se afastou da moto e fomos em direção à minha casa. É, aquilo realmente estava acontecendo…
Abri a porta da frente e ele me lançou um sorriso tímido antes de entrar pedindo licença.
Seguimos no pequeno corredor, mas Edward parou no meio do caminho, olhando os quadros pendurados na parede.
– Artes plásticas pela universidade de Washington? – Ele perguntou sem tirar os olhos do meu diploma emoldurado.
– É isso aí, todos esses desenhos na parede são meus. – Edward desviou os olhos para a figura abstrata que apontei.
– É sério? Caralho, Bella, você é muito boa. – Ele me olhou espantando. – Eu não quero parecer grosseiro, mas como você acabou se tornando barista?
– Longa história.
– Ainda bem que eu estou com a noite livre. – Decidi ignorar o sorriso de lado que ele me deu para o meu próprio bem.
Finalmente chegamos à cozinha. Fui até a geladeira, listando as opções que tínhamos: suco, refrigerante, café gelado ou cerveja. Ambos decidimos que cerveja seria a melhor opção.
– Então. – Edward deu um gole em sua cerveja. – Você tem uma longa história para me contar.
Contei para o tatuador sobre a minha escolha de graduação, os meus anos na universidade de Washington e minha tentativa de me estabilizar quando me formei e voltei para Forks. Contei da minha amizade de anos com a Leah e como trabalhar no Lune despertou uma nova paixão em mim.
– Você sabia que o café é a segunda bebida mais consumida no mundo, perdendo só para a água? – Edward balançou a cabeça em negativa – Pois é! Todo mundo ama essa bebida de alguma forma e os clientes da cafeteria refletem isso. Eu conheci as mais diferentes pessoas desde que comecei a trabalhar lá.
"É claro que não é tudo perfeito. Trabalhar com público é uma merda na maioria das vezes, mas eu encontro um pouco de conforto sabendo que acordo de manhã todos os dias para fazer algo que realmente gosto. Agora a minha arte virou para relaxar depois de um longo dia."
Antes que eu pudesse me conter, estava derramando inúmeros fatos aleatórios sobre café e contando histórias absurdas dos frequentadores do Lune Café. Eu não sou incapaz de me conter quando a conversa se volta para algo que eu goste, poderia falar por horas.
– E então ela entrou na cafeteria e deu de cara com o marido tomando um cafezinho com a amante! Foi uma confusão, uma gritaria e quando eu percebi ela já havia arrancado o bule de café super quente da minha mão e simplesmente jogou no colo do cara. – Edward jogou a cabeça para trás, rindo como uma criança quando terminei de contar mais uma história maluca que testemunhei, e eu não pude deixar de apreciar aquele momento.
Era uma risada descontraída, alta, e o som dela preencheu a cozinha. Eu seria capaz ouvi-lo rir por horas a fio. Nunca poderia imaginar que alguém tão quieto e sério pudesse ter uma risada como essa.
– Edward Cullen está rindo? É isso mesmo? Não sabia que você era fisicamente capaz de tal feito. – Mudei de assunto apenas para me distrair dos meus próprios pensamentos.
– Para a sua informação, eu tenho um ótimo senso de humor – Edward cruzou os braços e foi a minha vez de dar uma gargalhada.
– Desculpa, só acho muito difícil de imaginar você, senhor tatuador de cara fechada e poucas palavras, todo cheio de graça.
– HA HA HA! Como você é engraçadinha, Isabella – A forma como o meu nome dançou em seus lábios não passou despercebida. – Eu sou um cara bacana, as circunstâncias não permitiram que a gente se conhecesse melhor, só isso.
– Primeiro: eu nunca disse que você não era um cara legal, eu tenho certeza de que você é. Segundo: você tem razão sobre as circunstâncias, mas espero que isso mude, não seria a pior coisa te ver sorrindo de novo. – As palavras escaparam da minha boca antes mesmo que eu pudesse pensar a respeito, mas Edward sustentou o olhar e senti meu rosto corar.
Abri a boca para me desculpar quando ouvi a porta da frente ser aberta, seguida pela estrondosa voz do meu irmão mais velho.
– Hey, Bells! – Emmett gritou. – Eu vi a luz acesa, mas sua lata velha não está na entrada. Espero que você esteja em ca… – Ele parou de falar assim que chegou na cozinha, dando de cara comigo e Edward.
– Desculpa, não queria atrapalhar. – Ele pediu desculpas, mas o sorriso estampado em seu rosto mostrava que ele não estava nem um pouco arrependido.
– Hmm, Emmett, esse é o Edward, Edward esse é meu irmão, Emmett. – Apresentei. – Edward me deu uma carona.
– Oh, ele é o dono daquela moto parada lá na frente? – Meu irmão levantou uma sobrancelha. O babaca estava se divertindo.
– Isso mesmo. – Edward respondeu nervoso.
– Pois é, Edward teve que me dar uma carona porque minha caminhonete parou de funcionar e ALGUÉM não atendia as minhas ligações. – Fuzilei Emmett com o olhar.
– Poxa, maninha, eu sinto muito, minha bateria acabou. É por isso que estou aqui, para carregar meu celular antes de encontrar a Rose. – Eu sabia que sua justificativa fazia sentido, mas ainda estava chateada e não queria dar o braço a torcer, então apenas revirei os olhos. – Mas, hey, ainda bem que Edward estava lá para te resgatar, não é?
A Rose estava cada vez mais perto de ser viúva antes mesmo de se casar, porque eu vou matar o meu próprio irmão aqui nessa cozinha.
– Bom, já está ficando tarde, acho melhor ir pra casa. – Edward praticamente pulou da cadeira. – Obrigado pela cerveja, Bella.
– Ah, não foi nada, eu é quem preciso agradecer pela carona mais uma vez.
– Já disse que não foi problema algum.
– Vamos, te acompanho até a porta. – Edward e Emmett se despediram com planos para beber algumas cervejas e deixamos meu irmão inconveniente para trás.
– Me desculpa pelo meu irmão. Eu tenho certeza que meus pais derrubaram ele várias vezes quando era um bebê. – Edward deu um sorriso tímido.
– Não precisa se desculpar. Na verdade, Emmett parece um cara legal.
– Agora você só está tentando ser legal.
– Boa noite, Bella.
– Tchau, Edward.
Ele atravessou a porta da frente e seguiu em direção à sua moto e em poucos segundos já estava fora de vista.
Quando voltei para a cozinha, Emmett estava sentado à mesa de braços cruzados tentando, sem sucesso, conter o sorriso.
– Nunca imaginei você saindo com um motoqueiro, Bells. O maior medo do nosso pai acabou de se tornar realidade.
– Eu não estou saindo com ninguém, Emmett Swan. – Tentei chutar sua canela, mas ele desviou a tempo. – Foi só uma carona. E, para ser sincera, essa situação não teria acontecido se você carregasse a porcaria desse celular!
– Engraçado, pra mim uma carona parava na porta da sua casa. Não sabia que ele precisava te deixar aqui dentro e ainda beber uma cerveja.
– Vem cá, você não tinha que encontrar a Rosalie, não?
– Só daqui meia hora.
– Ótimo! Vou aproveitar esse tempinho para te afogar na pia.
– Relaxa, Bella!
– Quer saber? É isso mesmo que vou fazer. Vou tomar um banho e fingir que os últimos minutos não existiram. – Segui até as escadas que levam ao banheiro e quarto.
– Avise ao Edward que ele precisa deixar as suas intenções claras para mim antes de qualquer coisa! – Emmett gritou quando eu estava no meio das escadas.
– VAI À MERDA! – Foi a melhor resposta que consegui pensar.
XXXXX
O dia da minha última sessão com Edward chegou e me peguei pensando sobre o quanto as coisas haviam mudado desde que entrei nesse estúdio pela primeira vez.
Antes da minha primeira sessão, eu estava ansiosa e animada, mas quando ela terminou eu tive certeza de que meu tatuador me odiava. Depois daquele dia, Edward Cullen acabou se tornando uma constante em minha rotina e foi como se, depois que eu o conheci, minha vida só poderia ter ele – mesmo que isso significasse que nós dois iríamos protagonizar a sessão de tatuagem mais constrangedora da história.
Também comecei a encontrá-lo fora de seu estúdio.
A noite em que o tatuador me deu uma carona foi um marco para a mudança na nossa convivência. Suas visitas ao Lune se tornaram quase uma rotina e, diferente dos momentos estranhos e constrangedores das primeiras vezes, agora ele se sentava no balcão e enquanto eu servia os clientes e nó usávamos esses momentos para conversar e trocar piadas internas que eu não tinha a menor pretensão de dividir com mais ninguém.
Então aqui estamos nós, na última sessão de tatuagem na minha perna, e um novo tipo de ansiedade revirava meu estômago. Apesar de ainda encontrar Edward por toda a cidade, me dei conta de que perderíamos esse ritual já que as sessões não iriam mais acontecer, e aquilo me deixou triste. Só esperava que nossa última sessão não fosse uma despedida.
O clima estava diferente, talvez porque não fomos pegos desprevenidos e o constrangimento foi menor, ou talvez não houvesse mais espaço para vergonha entre nós.
A sessão seguiu tranquila, com exceção do fato de que foi a vez do Edward tentar puxar conversa enquanto eu estava imersa na minha própria cabeça. O jogo virou mesmo.
Fui jogada para a realidade quando Edward falou:
– É isso, terminamos. – O que? Como assim? Faziam só alguns minutos que estava sentada aqui. Mas quando olhei para baixo, vi o tatuador passando o papel na obra finalizada.
Edward me ajudou a descer da cadeira e eu conferi o resultado através da fenda na saia midi estampada que eu estava usando. Para a surpresa de ninguém, a tatuagem ficou perfeita.
– Não preciso nem dizer, ficou maravilhosa! Obrigada, Edward.
– Não foi nada. É fácil fazer um bom trabalho com uma ideia foda.
Nós nos encaramos parados no meio da sala, sem nos mover ou dizer qualquer coisa. Não acho que qualquer palavra poderia fazer sentido naquele momento, de qualquer forma.
Eu podia sentir o tempo passar de forma acelerada ao nosso redor, mas nós dois seguimos parados, congelados ali como se nada mais existisse. Mas existia, e o relógio na parede da sala deixava isso bem claro.
– Eu preciso ir, tenho que ajudar a Leah a arrumar o estoque.
– É claro, não quero te segurar mais do que o necessário. – Edward colocou as mãos nos bolsos de sua calça jeans.
– Bom, tchau, Edward.
– Tchau, Bella.
Peguei minha bolsa, e quando estava prestes a atravessar a porta, Edward gritou.
– Bella!
– Sim?
– Eu só queria dizer que, se você quiser fazer outras tatuagens, sabe onde me encontrar. – Dei uma risada nervosa.
– Vou manter isso em mente. Te vejo na cafeteria?
– Te vejo na cafeteria.
Sai do Twilight Ink com nada além uma despedida estranha e um gosto amargo de algo que ficou na ponta da língua e não foi dito. Não é como se fosse uma despedida de verdade, ele estava a poucos metros de distância do meu trabalho e Edward disse que me veria na cafeteria, isso deveria valer para alguma coisa, não é? Eu odeio ser o tipo de mulher que fica vivendo pela esperança, mas acho que não há nada que eu possa fazer agora.
O dia seguinte foi a minha folga da cafeteria. Seth, o irmão caçula de Leah, estava visitando a cidade durante o final de semana e ela aproveitou o pobre coitado para ficar no meu lugar.
Claro que a folga para uma adulta que mora sozinha significa tudo menos descanso. Aproveitei o dia para limpar toda a casa e lavar a roupa suja enquanto uma chuva forte caía durante todo o dia. Ainda bem que não lavei a caminhonete.
Mesmo com a exaustão pós faxina, meu cérebro não descansava. Flashbacks da minha última sessão com Edward invadiam minha mente.
Eu estava enrolada na coberta, assistindo um documentário de True Crime quando uma batida na porta quase me causou um ataque cardíaco. Já estava escuro lá fora e eu não estava esperando por ninguém, mas antes de decidir chamar a polícia ou pegar um taco de baseball, olhei através do olho mágico e a visão que tive foi mais chocante do que se eu tivesse dado de cara com um serial killer.
Parado na minha varanda, completamente encharcado pela chuva, estava Edward.
– Edward, o que você está fazendo aqui? – Fiz a pergunta mais óbvia possível.
A chuva deixou seu cabelo colado na testa e as gotas de água se acumulavam em seus longos cílios, mas nada disso parecia incomodá-lo.
– Eu sei que é tarde e eu apareci sem avisar, mas eu preciso falar com você.
– Ok, mas você não quer entr…
– Sabe, Bella, eu sempre fui um homem focado nos meus objetivos de vida. Eu queria ser tatuador e me tornei um dos melhores do país, queria ser dono do meu próprio estúdio e vim parar nesse lugar minúsculo a horas da minha cidade natal para isso. Eu sempre soube o que queria e nunca me deixei distrair por nada. – Ele fez uma pausa. – Isso até você aparecer. Você, com toda essa sua beleza, esse sorriso capaz de iluminar toda a porra do estado e seu aroma de morango que fica depois de horas que você vai embora. Foi depois de ouvir o quanto você fica empolgada quando começa a falar sobre as coisas que ama, e como trata bem todos os clientes da cafeteria, mesmo quando são uns filhos da puta mal educados.
"Você virou a minha vida de ponta cabeça, Bella. Desde que você pisou naquele estúdio, tudo na minha vida foi sobre você. Você está sob a minha pele e eu não consigo te tirar, eu não quero te tirar. Sei que sou um babaca covarde que não disse nada antes, mas eu tô aqui agora. Eu tô aqui agora"
Meu corpo entrou em algum tipo de choque com as palavras deEdward, eu sentia que meu cérebro havia derretido, eu não conseguia pensar direito.
– Eu..eu.. – Fala alguma coisa, Isabella, QUALQUER COISA! Mas nenhum som coerente saía da minha boca.
– Eu entendo – O rosto de Edward se contorceu em uma careta. – Eu não deveria ter dito nada, desculpe por te incomodar.
Antes que eu pudesse responder, Edward virou as costas e foi em direção a sua moto. Tudo parecia acontecer em câmera lenta e quando me dei conta já estava correndo na tempestade atrás dele.
– Edward! Espera!
Ele se virou em minha direção e levei minha mão até a sua nuca, juntando nossos lábios.
Ele retribuiu o beijo de forma intensa, suas mãos foram para a minha cintura colando meu corpo no seu, sua língua abriu caminho na minha boca e eu cedi de bom grado. Me deixei levar pela sensação daquele beijo, a textura, a sensação de sua barba por fazer contra minha pele, o calor dos nossos corpos, a proximidade.
O arrepio que percorria minha espinha não tinha nada a ver com a chuva e o frio, tudo à minha volta era ele, somente ele.
Cedo demais, os lábios de Edward deixaram os meus e ele encostou sua testa na minha.
– É melhor você sair dessa chuva. – Sua voz era um sussurro.
– Só eu? – Ele sorriu de canto e eu quase me derreti ali mesmo. – Vem, Edward, tem café lá dentro.
Quando entramos na minha casa, porém, café era a última coisa que se passava na minha cabeça. Enquanto um Edward encharcado tirava sua jaqueta, uma ideia começou a se formar na minha mente.
– Nossa, realmente está caindo o mundo lá fora. – Diminui a distância entre nós com o olhar fixo naquele par de olhos verdes. – É melhor a gente se livrar dessas roupas ou vamos acabar ficando doentes.
Levei meus dedos até a sua camisa, brincando com a barra. Seu corpo estava tenso sob o meu toque, mas quando eu pedi uma permissão silenciosa, ele engoliu em seco e assentiu com a cabeça.
Depois que a peça já estava jogada em algum lugar da minha sala, foi a minha vez de tirar o moletom que estava usando, revelando o top preto por baixo dele.
– Bella…– Os olhos de Edward varreram meu corpo antes de para no meu rosto, cheios de perguntas.
– Eu quero isso. – Entrelacei meus braços ao redor do seu pescoço e aproximei meus lábios do seu ouvido. – Eu realmente quero isso.
Antes que eu pudesse processar o que estava acontecendo, Edward capturou meus lábios com os seus, me pressionando contra a parede. Levei minhas mãos aos seus cabelos e a sensação era ainda melhor do que eu havia fantasiado quando o vi pela primeira vez.
Quebrei o nosso beijo, trilhando um caminho até sua mandíbula e descendo até seu pescoço. Edward pressionou sua ereção contra o meu estômago e um gemido escapou do fundo da minha garganta.
– Quarto. Agora. – Sua voz era rouca e urgente.
– Subindo as escadas. Primeira porta à esquerda. – Respondi.
Ele me levantou e eu entrelacei minhas pernas nas suas costas, e quando dei por mim Edward estava me levando escada a cima como se eu não pesasse nada.
Minhas costas atingiram o colchão, mas Edward não veio por cima de mim imediatamente, ele estava em pé na ponta da cama me encarando, faminto, como se quisesse memorizar aquela cena.
De repente eu estava muito consciente de mim mesma, mas não de um jeito ruim. A forma como ele me olhava não me fazia sentir envergonhada, pelo contrário, eu me sentia sexy e desejada para caralho.
Quando Edward se inclinou para tirar o sapato, algo que estava esquecido no fundo da minha mente veio à tona. A tatuagem em suas costas agora estava totalmente exposta.
Fiquei de joelhos em cima da cama e empurrei seu braço, fazendo com que ele se virasse.
Cobrindo completamente suas costas, havia uma tatuagem de dois dragões chineses entrelaçados, um feito com tinta escura e o outro com tinta vermelha. Acompanhei o traçado dos desenhos com meus dedos e senti Edward estremecer.
– É seu desenho, não é? – Perguntei.
– Sim. – Ele virou a cabeça me olhando.
– É lindo. – Eu não conseguia tirar os olhos da tatuagem.
– Como você sabia que o desenho é meu? – Dei de ombros.
– Eu já acompanhava seu trabalho bem antes da nossa sessão. É bem difícil conseguir um horário com você, sabia? – Dei um sorriso. – Mas a verdade é que eu acho que te conheço melhor do que imaginava.
Edward se virou de repente, passando o braço em volta da minha cintura e me beijando. Mas dessa vez foi diferente dos outros, seu beijo era urgente, faminto, desesperado.
Quebramos o beijo apenas para Edward se livrar do meu top, seguido da minha calça de moletom e da minha calcinha juntos.
Ele ficou por cima de mim, primeiro beijando meu pescoço, minha clavícula e depois descendo mais até os meus seios. Quando ele abocanhou um deles, o ar do quarto sumiu. Eu não sentia mais nada além do seu toque, a única sensação que conseguia registrar era da língua no meu mamilo e ainda não era o suficiente. Arqueei minhas costas implorando por mais contato enquanto Edward lambia, mordia e assoprava meu mamilo. Eu iria entrar em combustão a qualquer momento.
A deliciosa tortura seguiu para o outro seio, e quando Edward se deu por satisfeito começou a descer seus beijos até meu abdômen e meu corpo inteiro vibrava em antecipação.
Mas quando ele chegou perto de onde eu mais o queria, ele desviou, beijando a minha coxa esquerda onde estava a minha mais recente tatuagem.
– Você tem ideia do quanto eu sonhei com isso? – Ele perguntou contra minha pele.
Eu não tinha a menor condição de responder algo, então apenas gemi em resposta.
– Bella – Seu tom era autoritário. – Eu te fiz uma pergunta.
– Eu...eu…não, não faço ideia.
– Então acho que vou ter que te mostrar.
Edward então baixou a cabeça, passando a língua devagar toda por a minha extensão até alcançar o meu clitóris, um grito de prazer escapou da minha garganta e isso estimulou Edward. Ele seguiu por incontáveis minutos beijando, chupando e lambendo para então repetir os movimentos, levando todo o tempo do mundo para me saborear. Mas eu queria mais, aquilo ainda não era o suficiente.
Como se ele pudesse ler minha mente, Edward levantou levemente a cabeça apenas para escorregar um dedo para dentro de mim.
– Porra, Edward! – Agarrei os lençóis da cama e o tatuador olhou para cima, sorrindo.
– Você gosta disso, linda? – Sim, ah sim!
– S-Sim! – Minha resposta não foi mais que um sussurro, mas seus movimentos me encorajaram a continuar. – M-Mais!
– Mais? Assim? – Ele deslizou outro dedo para dentro de mim e eu arquei as minhas costas, quase sentando totalmente na cama.
– Isso! – Edward espalmou a mão no meu abdômen me fazendo deitar novamente e baixou a cabeça pressionando e depois lambendo o meu clitóris.
A combinação dos movimentos da sua língua com os dos seus dedos levemente curvados estava me levando ao limite. Comecei a me movimentar, rebolando contra a boca e sua mão, ele grunhiu sem parar os seus movimentos. Senti minhas paredes começarem a se contrair e eu sabia que estava muito perto.
– Isso, linda. Goza pra mim. – A voz de Edward foi o meu fim. O orgamo me invadiu como uma onda. Minha mente esvaziou, meu corpo inteiro convulsionou e minha respiração ficou ofegante.
Edward parecia não querer parar o que estava fazendo, mas já era demais pra mim. Agarrei os seus cabelos, fazendo ele levantar e ele ergueu-se acima de mim, com um dos joelhos entre as minhas pernas.
– Você é gostosa pra caralho. – Ele disse contra os meus lábios e então me beijou.
Brinquei com o cós do seu jeans e o beijo se intensificou. Quando deslizei minha mão para dentro de sua calça, senti o seu pau duro, pronto para mim e Edward gemeu com o meu toque.
– Bella, eu não tenho camisinha. – O tatuador segurou meu pulso.
– Última gaveta da mesa de cabeceira. – Libertei a minha mão e voltei à minha tarefa de abrir a sua calça. Mas quando olhei para cima, Edward me encarava com um olhar divertido. – O que?
– Nada. – O seu sorriso dobrou de tamanho. Ele estava se divertindo com o meu desespero?
– Vai logo, Edward – Consegui abrir o zíper. – Última gaveta da mesa de cabeceira. Anda!
Ele se levantou indo em direção ao móvel e abriu a gaveta pegando um preservativo. Edward sentou na ponta da cama, finalmente tirando sua calça junto com a cueca e então colocando a camisinha.
Edward se posicionou entre as minhas pernas apoiando o seu peso em um antebraço ao lado da minha cabeça e com a mão livre usou para fechar em punho ao redor do seu pênis, guiando-se para dentro de mim. Ele me penetrou devagar, cada centímetro me preenchendo até ele estar completamente dentro de mim.
Logo ele começou a se movimentar de forma mais lenta e exploratória, quase saindo completamente de dentro de mim, apenas para penetrar novamente.
Mas então Edward segurou a parte de trás do meu joelho levantando minha perna e suas estocadas ficaram mais fortes e duras enquanto ele me penetrava mais fundo. Essa nova posição proporcionou mais atrito e passei a levantar meu quadril indo de encontro ao de Edward.
– Porra! – Ele gemeu contra o meu pescoço mordendo a minha pele.
Nossos movimentos saíram de sincronia, mas o som dos nossos corpos colidindo e dos nossos gemidos estavam me deixando maluca e eu sabia que o Edward também, já que suas estocadas ficaram mais rápidas.
Edward levou a mão até o ponto onde nossos corpos se encontravam, estimulando meu clitóris enquanto murmurava palavras desconexas. Continuamos nesse ritmo, e eu pude sentir um novo orgasmo se aproximando e os movimentos de Edward cada vez mais acelerados.
– Goza comigo – Gemi, e então me desfiz em torno do seu pau ao mesmo tempo em que ele também chegava ao clímax.
Edward desabou em cima de mim, mas eu não poderia me importar menos, eu sentia como se estivesse flutuando. Por alguns instantes ficamos apenas deitados tentando controlar nossas respirações e acariciando os traços das nossas tatuagens. Eu, os dragões em suas costas, ele, a serpente na minha coxa esquerda.
Pouco tempo depois Edward levantou, indo até o banheiro descartar a camisinha enquanto eu tentava assimilar tudo o que havia acontecido naquela noite. As coisas que Edward havia dito na porta da minha casa, os beijos, o sexo, tudo isso era real, eles eram reais.
Quando o tatuador voltou, já vestindo a sua boxer, ele parecia hesitante ao se aproximar e senti meu coração afundar no meu peito.
Ele teria se arrependido? Eu não conseguiria aguentar ouvir ele dizer que essa noite foi um erro enquanto ainda estava nua na cama.
Edward se deitou ao meu lado, tão perto que tinha certeza que ele podia ouvir meu coração acelerado.
– Bella, essa foi a noite mais incrível que eu já tive em muito tempo. – Ele colocou uma mecha do meu cabelo atrás da minha orelha. – Mas eu não quero que você pense que foi por isso que eu vim até aqui.
– Eu que te convidei para entrar, tá lembrado?
– Ainda assim, você precisa saber que não era isso o que estava na minha mente, eu só precisava te falar como eu me sinto. Precisava que você soubesse.
– Eu sei. – Me sentei, aproximando meu rosto do seu. – Eu me sinto da mesma forma. Você disse que eu estou sob a sua pele, mas você está marcado na minha, e isso não tem nada a ver com as tatuagens.
– Eu sei que começamos de um jeito torto, mas você quer ir em um encontro comigo?
– Um encontro? Acha que é realmente necessário, Edward?
– Acho. – Ele não iria ceder.
– Tudo bem, onde você quer ir?
– Tem um café em frente ao meu trabalho que parece legal. O que acha?
Passei os braços ao redor de seu pescoço rindo da piada.
– Parece bom pra mim. Mas a gente pode decidir isso amanhã, agora eu tenho coisas mais importantes em mente. – Beijei Edward e comecei a trazê-lo para mais perto de mim.
– Sim, senhora. – Senti seu sorriso contra minha pele enquanto ele se posicionava entre as minhas pernas.
Parece que, no final das contas, eu teria um encontro com o meu tatuador bonitão.
Nasceu! Vocês não tem noção o quanto eu estou feliz por ter dado a luz a esse "filho" KKKKKKKKKKKKKKK.
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PS: Coffee & Ink tem um mini epílogo que, por enquanto, só está na minha cabeça. Alguém aí gostaria de ler?
