N/A: Alerta de gatilho: menções (sem descrição/detalhes) à violência (física/sexual) e sangue.
Crepúsculo não me pertence.
Olá! Essa fic faz parte do POSOella, um projeto onde autoras do fandom de Crepúsculo criam fanfics narradas exclusivamente por Bella Swan, em comemoração ao seu aniversário. Esse ano, o desafio foi escrever inspirando-se em 1 dentre 25 citações de alguns dos livros favoritos da Bella.
Confira mais fics na página bit (ponto) ly (barra) POSOffnet – Você também encontra o link diretamente no meu perfil, na aba de Favorite Authors.
Survivors
"Você é como o ouriço da castanha, espinhoso por fora, mas macio feito seda por dentro e com uma semente doce, embora difícil de alcançar. O amor fará você mostrar seu coração, algum dia, e então o ouriço duro vai cair." (Mulherzinhas, de Louisa May Alcott).
Capítulo 1
Nova Iorque, 15 de junho de 2013, 23:55h
Encontramos o seu DNA nas cordas usadas para amarrar todas as vítimas, é bom você me dar alguma coisa! Esbravejei enquanto empurrava o mau caráter contra a parede sul da sala de interrogações, ignorando os protestos de Emmett, meu parceiro.
Aquele certamente não era o meu método preferido, mas já estávamos há horas, sem sucesso, tentando arrancar respostas de Jacob.
Com certeza o meu DNA está lá, afinal, vendo cordas numa loja de camping o idiota disse em tom de desdém e ainda me sorriu com malícia.
Aumentei a pressão contra suas clavículas, mantendo-o firme naquela posição pouco cômoda, mas obtive o efeito contrário, como o esperado num psicopata como ele: Jacob apenas sorriu ainda mais largo.
Isabella, venha cá! A porta da sala foi aberta abruptamente e a voz de meu pai soou por sua abertura.
Sabia que, pelo seu tom, eu poderia estar encrencada, mas não descansaria enquanto Jacob não confessasse – e pagasse por – seus crimes.
Katherine já te reconheceu. É só questão de tempo até você passar o resto dos seus dias em seu verdadeiro lar. Isso aqui são meras formalidades. Não consegui evitar o sarcasmo; faria o impossível para que ele apodrecesse na prisão, o lugar aonde realmente pertencia.
Será que a doce Kate reconheceu a pessoa certa? A forma com que Jacob disse aquilo em conjunto com o brilho perverso em seus olhos fez um arrepio percorrer minha coluna. O que aquele desgraçado ainda escondia? Ah, a terceira Loura de Manhattan podia estar meio confusa, não?
Agora, Isabella. Disse meu pai.
Eu estava quase conseguindo uma confissão! reclamei, fechando a porta atrás de mim com uma força maior do que a necessária. Papai me encarava com uma expressão de poucos amigos, mas estava tão irritada com sua interrupção que mal me importei.
Ou uma falsa confissão, já parou para pensar nisso? Ou ainda um processo por má conduta policial, quer voltar ao trabalho administrativo? Papai me ergueu uma sobrancelha e bufei ao observar, através do vidro espelhado, Emmett ajudar o maldito "suspeito" a se sentar na cadeira. Deveria tê-la quebrado antes, assim não haveria a menor possibilidade de deixá-lo confortável.
"Já está lá há quase oito horas, seja razoável!" continuou ele, olhando-me com a mesma preocupação de sempre – exceto que, nos últimos tempos estava meio exacerbada "Assim como seu comportamento! Daqui a pouco terei que mandá-la para terapia de controle de raiva, é onde quer parar?".
Surpreendi-me com a fala de meu pai, como se ele tivesse lido os meus pensamentos e então fiquei mais irritada com suas insinuações.
Estou muito bem, obrigada. Controlei o impulso de revirar os olhos; Charlie Swan poderia até ser meu pai, mas, naquela delegacia, era meu chefe e se tinha uma coisa que eu fazia muito bem era respeitá-lo.
Que bom, então pode tirar o resto da noite de folga disse ele, como se não estivéssemos no meio de uma investigação.
O Senhor ouviu o que eu disse? O que Jacob ainda não disse? Praticamente cuspi o nome dele Daqui a pouco o filho da puta pede um advogado e ficaremos...
Para casa, já papai falou com firmeza Pode ir agora, ou voltar ao trabalho administrativo. Mando-a de volta para lá antes que a Corregedoria cogite fazê-lo.
Cerrei meus lábios para que não retrucasse e forcei um sorriso quando o detetive Newton surgiu para assumir o meu lugar no interrogatório. Sentia meu sangue praticamente borbulhar, porque estava tão, mas tão perto de conseguir o que queria e, talvez, não estivesse lá para ver o resultado de meu próprio esforço.
Vocês tem mais dezesseis horas com ele falei para meu pai Meu turno termina em quatro horas, o que significa que ainda terei oito horas com ele, quando voltar.
Sabia que não poderia voltar com menos de 8 horas de diferença entre os turnos, mas, pelo menos, ainda teria algum tempo para tentar fazer Jacob falar. Isso se ele se mantivesse calado até eu voltar. Era ir para casa, ou sentar e fazer incontáveis relatórios, quando poderia estar pondo a mão na massa.
Havia tido a terrível experiência de trabalhar, por quase três semanas inteiras, naquela posição, quando um incidente com um suspeito – que posteriormente foi confirmado como autor do crime – acabou por deixá-lo com um pequeno corte em seu supercílio direito.
Veremos.
Respirei fundo algumas vezes e saí da sala de meu pai – que abrigava a sala de interrogatório. Antes de ir embora, passei em minha mesa e peguei Gandalf, o cacto que estava sempre comigo, em casa, ou no trabalho. Minha plantinha favorita, havia pertencido à minha mãe e era o meu maior elo dela deixado para mim. De uma espécie rara e importada, nem era mais comercializada, devido ao risco de extinção, e fazia eu me sentir mais próxima dela.
16 de junho, 00:45h.
Sentei-me sobre minha cama, recostada à cabeceira, e peguei o livro "Para Sempre Alice" para continuar minha leitura. Sorri, saudosa, para a foto que usava como marcador de páginas: mostrava um casal sorridente e uma garotinha de poucos meses.
Era a minha família e, parte dela, uma muito importante, havia sido roubada de mim por um homem como Jacob. Eu tinha completado 1 ano de vida quando minha mãe foi sequestrada, violentada e assassinada por Caius Volturi, assassino e estuprador em série. Aquela mancha no meu dia de aniversário jamais seria apagada.
Eu já tinha, porém, de certa forma, superado e transformado toda a raiva, que outrora senti dele, em toda a minha força de vontade para ajudar vítimas de crimes semelhantes e evitar maus caracteres, como Caius, a continuarem livres e fazendo novas vítimas. Claro, eu gostaria que não houvessem mais delitos como aqueles, mas enquanto existissem, estaria ali para tentar fazer alguma justiça.
À época do crime que levou minha mãe, papai trabalhava na Unidade de Homicídios de Manhattan, mas a trocou pela de Vítimas Especiais, onde continuou pelos últimos quase 26 anos e, há cerca de 5, tinha se tornado o Capitão da delegacia. Desde que eu entrara na Unidade, após algum tempo como policial das ruas de Nova Iorque, sempre trabalhara ao lado do detetive Emmett McCarthy; ele tinha quase 5 anos a mais de vida e de experiência e era do tipo bonzinho, enquanto eu costumava levar a fama de má, embora não me importasse com aquele status.
As vítimas, fazer justiça ao acontecido, era o que importava de verdade. Qualquer que fosse minha reputação, não poderia me afetar menos.
Além de Emmett, os outros detetives mais próximos eram Demetri Hale e Mike Newton; às vezes, revezávamos as duplas quando um de nós estava de folga, ou impossibilitado de trabalhar – geralmente ao sofrermos algum tipo de ferimento, ou lesão, algo nem um pouco incomum na nossa área. Eu até gostava deles, mas Mike – na Unidade há apenas alguns meses –, em mais de uma ocasião me deu nos nervos. Ele era um grude e achava que tinha liberdades comigo, que eu nunca havia dado.
O maluco chegou a me chamar para sair e, de vez em quando, me lançava uns olhares para lá de desconcertantes. Poderia até me sentir lisonjeada se não fosse a sensação de perigo eminente só de pensar em me aproximar, ou me envolver, com um homem. Claro, eu tinha provas de que nem todos eles eram maus, mas não achava que valessem o risco de me machucar física, ou emocionalmente.
Estava bem daquela forma: vivendo para mim mesma e para as vítimas de crimes tão horrendos. Saber que minhas ações as ajudavam a sobreviverem e a não perderem suas esperanças era o suficiente para mim. Suspirei ao olhar para a tela de meu celular e notar que já havia se passado muito tempo; era melhor deixar minha leitura para outro momento e tentar tirar uma soneca antes de voltar para o lugar aonde mais me sentia útil.
25 de junho, 11:50h.
Detetives McCarthy e Swan, por favor, na minha sala disse papai, indicando com a cabeça para o obedecermos imediatamente.
Estava intrigada com sua ordem. Não havia qualquer chamado, intercorrência, ou erro que atestasse tal necessidade. Geralmente eram aqueles os motivos para conversas exclusivas com papai na sala dele. Estávamos razoavelmente em panos quentes desde que ele me mandara para casa no meio de um interrogatório, cerca de uma semana antes. Isso porque, após minha volta à delegacia na manhã seguinte, Jacob finalmente me confessou seu modus operandi e, mesmo faltando preencher algumas lacunas, teríamos tempo de fazê-lo até a data de seu julgamento, dali a alguns meses.
Talvez, papai tivesse alguma novidade sobre o caso e, como eu e Emmett éramos os detetives responsáveis pela maior parte, ele quisesse nos contar primeiro. Por isso, surpreendi-me ao cruzar a porta da sala de papai e me deparar com dois rapazes, claramente mais jovens e vestidos como oficiais. Um novo caso, então, me pareceu a mais provável possibilidade.
Um dos rapazes tinha traços nativos, com a pele morena e olhos pequenos e escuros; seus cabelos estavam presos num rabo de cavalo. Ele era um pouco mais alto do que eu e tinha um ar de inocência e tranquilidade meio assustadores; mesmo os policiais das ruas se deparavam com coisas horrendas o tempo todo.
Já o outro, mais alto e pálido, tinha cabelos despenteados cor de bronze e olhos verdes penetrantes no tom mais lindo que eu já havia visto. Eles me encaravam com tanta intensidade que não demorei a sentir minhas bochechas pegando fogo, algo nada comum de se acontecer comigo. Não era como se ele estivesse me despindo com o olhar – e eu ficaria muito puta se fosse o caso –, mas ele parecia ser capaz de enxergar através de meu exterior, tendo acesso à toda a minha vulnerabilidade. E deixou-me arrepiada de um jeito completamente desconfortável – a ponto de não conseguir sustentar seus olhos por muito mais tempo.
Ambos usavam seus distintivos sobre a plaquinha com seus nomes, do lado esquerdo da camisa do uniforme. O primeiro de sobrenome "Clearwater" e, o segundo, "Cullen".
Seth, Edward, esses são os detetives Emmett McCarthy e Isabella Swan disse meu pai, apresentando-nos aos rapazes Emmett, Bella, esses são os mais novos integrantes de nossa Unidade, os detetives juniores Seth Clearwater e Edward Cullen.
Torci para ter compreendido aquela pequena comoção de maneira errada. Só podia haver um único motivo para papai ter chamado a mim e a Emmett à sua sala naquela circunstância; havia sido assim quando Mike entrara para a UVE e eu ficara encarregada de lhe ensinar os ossos do ofício, antes de passar o bastão para Demetri e retornar para meu posto ao lado de Emmett.
Mais dois novatos significava que, dado o fato de estarmos na sala de meu pai, nossa dupla seria novamente desfeita. E não demorou para as minhas suspeitas se confirmarem assim que papai me encarou com seus olhos castanhos, idênticos aos meus. Eles estavam sérios e silenciosamente me avisavam para não contrariá-lo.
Pelas próximas semanas, quero que trabalhem juntos, Emmett e Seth, e Isabella e Edward disse ele, do mesmo jeito sério com que me fitava Seth e Edward começam amanhã no turno da noite, então mudei a escala de vocês, sei que detestam serem avisados de última hora, mas fiquei sabendo hoje sobre as novas... Adições à equipe.
Suspirei pesado, mas não retrucaria com papai na frente dos novatos. Não achava justo ter que me desfazer de meu parceiro, mas era isso, ou, com certeza papai me colocaria para trabalhar com Mike novamente – pois precisávamos de dois de nós para ensinar aos novatos como nossa Unidade trabalhava. Só que eu não estaria disponível, não na noite seguinte.
Não posso trocar meu turno amanhã, Capitão murmurei. Evitava chamá-lo de "pai" na frente dos demais detetives (embora todos obviamente soubessem de nossa familiaridade). Já não bastava ter que lidar com toda a pressão de ser uma das únicas mulheres daquela delegacia, não precisava dos outros achando que só estava ali porque meu pai era o chefe.
Não pode? Papai arqueou uma sobrancelha e suspirei mais uma vez.
Amanhã a Olívia completa 7 meses e tenho um compromisso à noite. O Senhor pode tentar desmarcá-lo se quiser, é só falar com a Alice falei-lhe, sabendo que ele jamais contrariaria a minha melhor amiga (e mãe da minha afilhada). Apesar da baixa estatura, Alice conseguia ser mais intimidadora do que muitos detetives, incluindo o meu próprio pai.
Não, não precisa desmarcar papai disse apressado, como se a Alice em pessoa estivesse presente ali e não contive uma risada.
Posso dobrar se quiser, e se Edward não se importar de começar hoje à noite falei. Por mais que não estivesse satisfeita com aquela situação, ainda era melhor do que voltar a trabalhar diretamente com o Mike. Eu só esperava, sinceramente, que o novo detetive não fosse igualmente irritante.
Tudo bem por você, Edward? papai lhe perguntou, após me lançar um olhar aprovador.
Sim, Capitão o rapaz respondeu com sua voz incrivelmente aveludada.
Esteja aqui às oito, então disse meu pai Circulando. Gesticulou para nós quatro.
Saí de sua sala rapidamente. Um turno de 24 horas não era nada fácil de se cumprir e eu teria de manter minhas energias se quisesse lidar, da melhor maneira possível, com aquilo – somado ao fato de me tornar babá do novato. Seria um dia longo e quente.
Aproximei-me de minha mesa, tirei meu blazer azul e coloquei-o sobre as costas de minha cadeira. Pensava no que almoçaria quando uma movimentação atrás de mim me sobressaltou. Ao me virar, deparei-me com o novato – o meu novato.
Oi, só queria dizer que foi muito bom conhecê-la, Senhorita disse ele estendendo a mão direita na minha direção enquanto me fitava com aqueles olhos que mais pareciam de outro mundo.
Quis retrucar e lhe dizer que não era uma senhorita, e sim uma detetive. Superior, em status, a ele, portanto, merecia – e ele me devia! – seu respeito.
Detetive. Segurei minha língua e o corrigi da maneira mais educada que pude. Ele apenas concordou com a cabeça e esboçou um pequeno sorriso.
Desculpe, detetive murmurou, desviando o olhar por alguns instantes como se estivesse constrangido Foi um prazer conhecê-la. Ele poderia estar sendo educado, ou apenas puxando o meu saco, algo simplesmente insuportável, na minha opinião.
Talvez devesse esperar até o final do seu primeiro turno para fazer uma declaração dessas. Quase ri com as feições assustadas do novato Espero que mantenha sua opinião amanhã de manhã finalizei apertando sua mão.
O rapaz pareceu tão embasbacado que apenas engoliu em seco; nossos olhos estavam estranhamente conectados e o toque da sua pele na minha me fez estremecer.
Já está torturando o coitado? Dê um pouco de paz ao rapaz, Bella Emmett brincou e lançou uma piscadela na minha direção. Franzi o cenho ao notá-lo empilhando alguns relatórios e tirando outros de dentro das gavetas de sua mesa, de frente para a minha.
Tá fazendo o que? perguntei-lhe ao mesmo tempo em que afastava minha mão da de Edward e cruzava os braços numa tentativa de disfarçar a sensação de estranheza que emanava de nós dois.
Seu paizinho me pediu para trocar de mesa, assim ficamos mais próximos aos nossos novos parceiros respondeu-me e meneou com a cabeça na direção das duas mesas vazias ao lado da minha. Bufei, cada vez mais desgostosa com aquela situação toda Não se preocupe, nem é tão longe assim.
Balancei a cabeça negativamente; não estava muito afim de brincadeiras. Só queria trabalhar e garantir que homens feito Jacob Black jamais vissem outras paredes senão as da prisão.
Bem, acho que te vejo à noite, então murmurei para o novato, que assentiu positivamente com a cabeça.
Tchau, detetive disse ele com um leve tom de sarcasmo que me fez querer respondê-lo na mesma altura, mas papai acabava de sair de sua sala e suas ameaças de me colocar de volta no trabalho administrativo ainda ecoavam em minha mente, então, apenas lhe dei o meu melhor sorriso falso.
Observei, aliviada, o novato deixar a delegacia, suspirei fundo. Contei até cem para manter minha paciência e sentei-me em minha amada cadeirinha; tentaria ficar ali pelo maior tempo que conseguisse, já que ainda teria quase mais 20 horas de turno.
Quanta tensão, hein Emmett brincou enquanto pousava suas mãos enormes em meus ombros. Conseguia ver sua expressão divertida pela tela de meu notebook ainda desligado.
Revirei os olhos e ele desatou a rir; embora fosse engraçadinho, era igualmente carinhoso comigo, como o irmão mais velho que eu nunca tivera – nem quisera ter!
Tem que relaxar de vez em quando, Bella. O novato gostou de você disse ele, sorrindo e continuou a falar antes que eu o interrompesse por sua sandice Os dois gostaram, mas o detetive Cullen ficou realmente encantado.
Emmett, você está, cada dia mais, se superando em suas piadas falei em tom sério, indicando que ele parasse logo com as brincadeiras de mau gosto. Para completar, movi minha cadeira e o encarei, mas o engraçadinho apenas riu da minha cara.
Vai ser boa essa mudança. Desde que os casos de Jacob começaram você andou muito tensa. Precisa de renovação e carne nova é sempre um bom jeito.
Revirei os olhos e neguei com a cabeça. Gostava das coisas como elas estavam e gostaria que elas não mudassem. Como não tinha outra escolha, porém, era melhor me acostumar a ter um novo parceiro... Temporário!
19:55h
Então é isso, seja bem-vindo à UVE, detetive Cullen falei-lhe assim que retornamos ao ambiente principal da delegacia após um pequeno tour pelo local.
Edward parecia impressionado, mas não era surpresa; nosso Esquadrão era bem grande se comparado à maioria dos outros no bairro. Ele havia chegado mais cedo para organizar alguns de seus pertences em sua nova mesa, e eu aproveitei o incomum sossego da delegacia para mostrá-lo nosso local de trabalho.
Obrigado por me mostrar a delegacia disse ele. Durante aqueles dez ou quinze minutos de tour, Edward tinha sido bem agradável, fazendo perguntas, ou comentários, mais pertinentes do que eu esperava.
Não há de quê respondi e me sentei à minha mesa Se eu fosse você, relaxaria enquanto pudesse brinquei quando vi que ele continuava parado, de pé, ao lado da minha mesa.
Ele me lançou um sorriso pequeno e então se sentou de frente para mim, na própria mesa.
Vou preencher alguns relatórios, se precisar de algo é só me chamar.
Vi quando Edward assentiu com a cabeça e então abri meu notebook. Relatórios eram entediantes, mas necessários para que os abutres da Corregedoria/Assuntos Internos da Polícia não nos enchessem o saco.
Ei, pai, daqui a pouco ganho uma multa de trânsito por ficar te esperando! uma voz jovial exclamou alto, me sobressaltando.
Desviei os olhos de meu notebook momentaneamente e quase os revirei ao perceber que Riley, filho de Demetri, estava adentrando a delegacia. Ele sorriu ao me localizar e caminhou tranquilamente até minha mesa. Reprimi a vontade de mandá-lo se afastar; ele podia ter apenas 18 anos, mas era bem abusadinho. Visitava regularmente o nosso ambiente de trabalho e achava que me conquistaria facilmente com suas cantadas baratas.
Oi, Bella, está ainda mais linda do que na semana passada. Ele tentou ser galante e sedutor, mas, para mim, não passava de um menino desocupado: mente vazia...
Riley, dando nos nervos da Bella, de novo? Demetri lhe disse em tom repreensivo, interrompendo minha linha de pensamentos, e o filho pareceu se encolher um pouco.
Gostava mais de você quando estava na sétima série, pelo menos você me respeitava mais aos 13 anos comentei, como quem não queria nada, e ri quando as bochechas do adolescente que se achava adulto ficaram vermelhas.
Já sou um homem, Bella. Não tenho mais treze anos.
Revirei os olhos. Do jeito que agia, parecia mais preso no tempo.
Tenho idade para ser sua irmã mais velha, Riley, não o seu encontro. Sabe a sua segunda opção? É melhor fazê-la a sua primeira. A minha paciência estava acabando. Se ele era mesmo o adulto que dizia ser, então deveria aceitar o meu "não" e parar com suas insistências descabidas.
Vamos logo, Riley disse Demetri após revirar os olhos; ele agarrou o filho pelos ombros, se despediu e finalmente levou o pirralho dali.
Esse Riley não toma jeito. Vai ficar insistindo até você descer o cacete nele, ou aceitar sair com ele, o que vier primeiro. Emmett gargalhou e espalmei a mão direita em minha testa, farta de suas piadas; ele já tinha me enchido, durante o dia todo, com suas gracinhas.
Seu turno não acabou? perguntei entredentes e ele deu de ombros.
Vou te ajudar com o novato.
Não preciso de ajuda com o novato! exclamei, inconformada É um para mim e o outro para você, no que está pensando? perguntei irritada. Ele questionava minha capacidade? De todos naquele lugar, Emmett era um dos poucos que jamais imaginei pensar algo parecido Lidei com o frouxo do Mike por quase dois meses sozinha e olha aonde ele já está! Acha que não consigo lidar com o detetive Cullen?
Ei, eu não sou... Edward resmungou, mas se calou quando nossos olhos se encontraram. Ele suspirou e se encolheu na cadeira, voltando sua atenção para o que quer que estivesse fazendo antes.
Não foi isso o que quis dizer, Bella. Emmett revirou os olhos.
Então vá para casa! exclamei e voltei minha atenção ao relatório em meu notebook, controlando os meus ímpetos de lhe lançar olhares furiosos.
Eu sou o detetive sênior aqui, não pode me dar ordens. Ele até tinha um ponto, mas não anulava o fato de ter me ofendido E achei que estivesse irritada com a insistência de Riley, não comigo.
Os dois me irritaram. Não tira seu corpo fora dessa não! ralhei e finalmente olhei para ele de novo Sabe que dei duro pra chegar até aqui, não aja como se eu não pudesse ensinar um novato, quando eu mesma já fiz isso antes!
Está bem! Emmett resmungou Não foi minha intenção insinuar que é incompetente, só queria deixar claro que estou aqui se precisar!
Não vou precisar, mas que coisa! retruquei.
Parem com isso, parecem duas crianças! A voz de papai soou atrás de nós. E eu que achava que ele já tinha ido para casa! Vamos, Emmett, não pode dobrar hoje, deve estar aqui amanhã à noite para acompanhar Seth, já está esquecido?
Emmett suspirou fundo e me olhou com uma expressão fechada quando lhe lancei um sorriso largo. Ele tinha me irritado e eu não desperdiçaria a chance de ser tão irritante quanto. Papai meneou com a cabeça para ele, que se levantou visivelmente à contragosto, e os dois saíram da delegacia.
Só para constar, eu não sou frouxo Edward disse em tom sério, como se tentasse me provar o seu ponto.
Isso só o tempo vai dizer.
Não está confundindo "ser frouxo" com "ser sensível", está? Ele moveu o rosto para a esquerda, de modo que meu notebook não mais me impedia de vê-lo, e arqueou uma sobrancelha.
Não é tudo a mesma coisa? Dei de ombros e voltei meus olhos à tela do meu notebook.
Está tão acostumada à masculinidade tóxica dos predadores que não pode lidar com um pouco de sensibilidade?
Edward. Vamos pontuar algumas coisas aqui, sim? Olhei-o de soslaio Primeiro, estou aqui há cinco anos e já vi de tudo um pouco. Homens são toxicamente masculinos naturalmente. Aqueles poucos que carregam uma quantidade ainda menor de sensibilidade geralmente são, também, vítimas.
"Depois, não acha que Riley e Emmett foram irritantes o suficiente com seus comentários?".
Tudo bem. Acho que está errada, mas não vou te contrariar hoje disse ele com um pequeno sorriso estampado na cara.
Balancei a cabeça negativamente e tive um pouco de paz até a próxima hora, quando duas jovens, uma de cabelos castanhos claro e olhos azuis, e outra de cabelos e olhos mais escuros, adentraram na delegacia parecendo bastante nervosas. Levantei-me e indiquei com a cabeça para Edward me acompanhar.
Olá, posso ajudá-las? perguntei assim que estava próxima o suficiente delas.
"Sou a detetive Swan e esse é o detetive Cullen" apresentei-nos assim que percebi que o nervosismo de ambas poderia dificultá-las de falar "Por que não nos acompanham?".
Guiei-as até a sala de meu pai, onde elas poderiam ficar mais à vontade, e gesticulei para que se sentassem nos sofás perto da porta. Assim que se acomodaram, sentei-me ao lado da garota de cabelos mais escuros, enquanto Edward ocupou o lugar ao lado da de cabelos mais claros.
Por que não começam dizendo os seus nomes? sugeri de maneira delicada. Elas poderiam ser as vítimas, ou testemunhas de algum crime e visto que haviam comparecido à delegacia de espontânea vontade, era preciso deixá-las o mais confortável possível.
Sou Jéssica disse a jovem ao lado de Edward E essa aqui é a Angela, minha melhor amiga completou, meneando com a cabeça na direção da garota ao meu lado, que estava meio trêmula e com os olhos baixo, fitando as próprias mãos Diga a eles o que aconteceu, Angie. Ela a cutucou no ombro.
Eu não sei... Angela murmurou baixinho.
Sabe sim, Angie, é por isso que estamos aqui. Jéssica segurou as mãos da amiga, que finalmente ergueu um pouco os olhos Eu estava dizendo à ela que mesmo namorados não podem nos forçar a fazer sexo com eles, não é? Que o fato de ser seu namorado não dá a ele qualquer direito sobre o corpo da garota.
Está certa, Jéssica afirmei e minha mente começou a cogitar alguns possíveis motivos que pudessem ter levado as duas garotas à delegacia Não é porque é seu namorado que ele pode te forçar a fazer algo que não quer.
Vi os olhos de Angela " murcharem" e marejarem. Ela deu uma pequena fungada e foi abraçada por Jéssica.
Isso aconteceu com você, Angela? A confirmação dela poderia iniciar seu depoimento e posterior processo contra o seu agressor. Angela assentiu positivamente com a cabeça e suspirei pesado.
Eram aqueles os momentos em que mais odiava trabalhar na UVE: recepcionar mais uma vítima.
Jéssica, você estava presente durante... O momento? perguntei e a garota negou com a cabeça. Era importante, sim, nomear o ocorrido, não usar meias palavras, mas tudo ao seu tempo. Se Angela ainda estava no processo de entender o que lhe tinha acontecido, não cabia à mim acelerá-lo, sob risco de lhe causar danos ainda mais profundos.
Angie só me ligou horas depois.
Tudo bem. Angie, por que não vem comigo? Podemos conversar com mais calma, enquanto Jéssica e Edward nos esperam Levantei-me do sofá e meu olhar foi capaz de calar Edward, que tinha começado a abrir a boca.
Indiquei o mais discretamente possível, com o olhar, que ele deveria pegar o depoimento de Jéssica, uma vez que ela também sabia da história, enquanto eu "conversaria" (pegaria o depoimento de Angela, numa linguagem mais informal) na sala de entrevistas que costumávamos usar para falar com vítimas e testemunhas, cuja entrada também tinha acesso à sala de meu pai (assim como a de interrogatórios).
Desliguei a caixinha de som correspondente à sala, para manter a privacidade de Angela o máximo possível, ainda que Edward não parecesse totalmente satisfeito. Mas ali, com vítima e a única testemunha – ainda que indireta – precisávamos recolher seus depoimentos de maneira separada para evitar problemas com a promotoria.
Abri e segurei a porta da sala para que Angela pudesse entrar. Ela estava visivelmente abalada – não era para menos! –, então peguei-lhe um copo de água (e aproveitei para também pegar minha caderneta de anotações e caneta) antes de também entrar na sala.
Sei que isso pode ser duro, Angie, então leve o tempo que precisar. Quanto mais detalhes me contar, maior é a chance de que quem fez isso com você receba as devidas consequências falei-lhe da maneira mais suave que consegui.
Aquele momento já era delicado o suficiente e sabia, por experiências anteriores, que fazer as vítimas reviverem suas agressões podia ser muito doloroso, tanto para elas, quanto para quem as ouvia.
...
Você chegou a tomar banho depois? perguntei à adolescente à minha frente. Angie ainda era uma garota, tinha apenas 17 anos, e havia sido violentada por seu namorado de longa data.
Sim, eu... Estava... Toda suja... Ela arregalou os olhos, que me perguntavam silenciosamente se fizera errado.
Não era errado, mas era melhor que não o tivesse feito. Banhos podiam levar consigo evidências muito importantes.
Tudo bem, não se preocupe falei, tentando acalmar seus nervos que já estavam voltando à tona Precisarei levá-la ao hospital para um exame de corpo de delito.
Carmen, a médica legista, ainda poderia encontrar lesões e, com um pouco de sorte, até mesmo traços de DNA remanescentes do agressor.
Agora?
Suspirei. Angela estava claramente exausta, física e emocionalmente, mas quanto antes se dispusesse a fazer o exame, maiores eram a chances de encontrarmos evidências.
Tudo bem ela disse baixinho, sem que eu precisasse respondê-la. Esbocei o meu melhor sorriso solidário e saímos juntas da sala.
Ao reencontrar Edward e Jéssica, surpreendi-me ao ver a garota chorando copiosamente. Angela correu até ela e a abraçou enquanto eu erguia uma sobrancelha para o novato, que rapidamente me puxou pela mão de volta à sala de entrevistas.
Temos uma situação complicada murmurou ele em tom preocupado, ainda segurando a minha mão.
Afastei-me e escondi minhas mãos atrás das costas, um pouco incomodada com a forma como seu toque me deixava desconcertada.
Hum... Jéssica disse que também foi atacada pelo namorado de Angela há alguns meses.
Enquanto...
Sim, enquanto ele e Angela já namoravam disse Edward, já prevendo o que eu perguntaria Disse que começou a se interessar por ele também e quando viu ambos estavam envolvidos. Ela só não esperava que ele a atacaria.
"Ela não contou a ninguém por medo da Angela descobrir e se magoar; e ela esperava menos ainda que ele fosse fazer o mesmo com a melhor amiga. Está se sentindo culpada, tanto pelo que fez, como por não ter dito a ela antes, acha que poderia ter evitado a agressão de Angela".
A culpa era um sentimento bastante comum entre as vítimas; na maioria das vezes era difícil convencê-las de que, não importava como tivessem sido colocadas cara a cara com o seu agressor, elas jamais seriam responsáveis pelos atos deles.
Ela quer denunciá-lo?
Ela disse que quer contar à Angela primeiro.
Vou ver com nossa promotora qual é o melhor jeito de lidarmos com a situação da Jéssica, independentemente de haver ou não uma denúncia falei-lhe, já pensando que Rosalie, a promotora que geralmente processava nossas denúncias não ficaria muito satisfeita se interferíssemos demais Mande dois oficiais à casa do, eu espero, futuro ex-namorado de Angela. Diga-lhes para serem discretos e apenas lhe falarem que há algumas questões para ele esclarecer na delegacia.
"Encontre-me na minha viatura, vamos levar Angela para fazer o corpo de delito".
Fiquei satisfeita quando Edward apenas concordou com a cabeça e me obedeceu. Ao sairmos da sala, Jéssica nos disse que precisava voltar para casa, então a despachamos com os policiais que iriam atrás do, eu realmente esperava, futuro ex-namorado de Angela.
Depois, eu, Edward e Angela seguimos até o Hospital Mercy; a doutora Carmen atendeu à jovem e encaminhou tudo o que pôde encontrar de evidências à perícia. Quando terminou, eu e Edward levamos Angela até sua casa, onde eu esperava que ela permanecesse segura.
Aqui, Angie, pegue o cartão da Unidade, aliás... Eu impedi que ela o pegasse e anotei o número do meu celular na parte de trás Eric está sob custódia na delegacia e assim que a promotora chegar, pediremos uma medida protetiva, ele não poderá chegar perto de você, mas qualquer coisa me ligue.
Angela assentiu com a cabeça, mas antes que pudesse lhe entregar o cartãozinho, Edward o interceptou e o encarei indignada.
Vou deixar o meu número também! disse ele, como se fosse óbvio.
Não precisa! Revirei os olhos e tentei puxar o cartão de volta, sem sucesso Nós somos parceiros, esqueceu? Se Angela me ligar, você vai ficar sabendo!
E se você estiver sem o seu celular, ou se acabar sua bateria? Como a Angela se comunicaria com você?
É para isso que também tem o número da delegacia no cartão, você sabia? perguntei irritada e fiquei ainda mais quando ele me ignorou completamente e escreveu o seu número ao lado do meu.
Aqui, Angie. Pode ligar pra qualquer um de nós. Edward se virou para a adolescente com um sorriso e finalmente lhe entregou o cartão.
Obrigada aos dois disse ela, esboçando um pequeno sorriso Vocês são um casal meio estranho, mas funcionam bem trabalhando juntos, parece ter muita compreensão telepática entre vocês, eu vi lá na delegacia e depois no hospital.
Engasguei com minha própria saliva, enquanto Edward deixava uma risadinha presunçosa escapar.
Compreensão telepática? perguntou ele, ao invés de negar que éramos um casal.
Vocês se entendem através do olhar, não precisam dizer uma única palavra, isso é muito legal.
Acho que deve ser bem legal mesmo, mas nós não somos um casal falei rapidamente e sorri quando Edward murchou o risinho besta no rosto.
Ah, foi mal, então ela murmurou meio cabisbaixa.
Ei, não ligue para isso, eu o conheço a menos de doze horas.
Então é ainda mais impressionante comentou com um leve brilho no olhar, que se dissipou ao balançar a cabeça negativamente Bem, acho melhor eu entrar.
Precisa de ajuda? Quer que te ajudemos a falar com os seus pais?
Angela deu um longo suspiro; aquela poderia ser mais uma decisão difícil. Não era incomum ver garotas que se recusavam a contar sobre o que lhes acontecera aos seus pais, mas eles podiam ser parte importante, até crucial, de sua rede de apoio.
...
Está tudo bem? perguntei a Edward, assim que retornamos ao carro. Havia sido uma conversa difícil com os pais de Angela.
Eu podia ver a culpa no olhar deles, por não tê-la "protegido", e também a sede por justiça; naquele meio tempo, tinha enviado à Rosalie uma mensagem a respeito da medida protetiva e ela me retornara dizendo que seria a primeira coisa a fazer na manhã seguinte, trazendo um pouco de alívio àquela família já fragilizada.
Acho que foi a coisa mais difícil que fiz. Só conseguia enxergar os meus pais no rosto deles e a mim mesmo, assistindo de fora...
Você já foi... Vítima? perguntei surpresa. Embora parecesse se encaixar com sua defesa sobre homens e sensibilidade.
Não, não eu. Ele deu um suspiro longo antes de encarar meus olhos; havia dor e desamparo refletido nos dele Minha irmã mais nova foi. Ela acabou de completar 19 anos, e um ex-professor desgraçado abusou dela quando era criança murmurou. Tirando o celular do bolso da calça, Edward o desbloqueou e me mostrou sua tela de fundo: uma foto que mostrava ele e uma jovem praticamente sua gêmea (ou sua versão feminina), com os mesmos cabelos cor de bronze e olhos verdes.
"Desde seu ataque, Edythe nunca mais foi a mesma e me corrói saber que não estava lá para defendê-la. Foi por isso que me tornei policial e quis vir para a UVE. Se eu não posso estar lá para defender todas as mulheres, que pelo menos eu tente lhes trazer um pouco de justiça".
Sinto muito por sua irmã murmurei, um sentimento de compaixão tomando conta de mim E por você também. Ele me encarou com o cenho franzido e os olhos ligeiramente marejados Você se sente culpado por algo que não pôde controlar, não deveria carregar isso, é demais, até para um policial que vê coisas horríveis o tempo todo.
Edward me esboçou um sorriso e balançou a cabeça negativamente, como se para espantar os próprios pensamentos, mas eu estava sendo sincera, não havia lhe dito aquilo para fazê-lo se sentir melhor. Se sua irmã era apenas uma criança, na época de seu ataque, ele também era uma!
Obrigado. Ele suspirou e recostou-se melhor ao banco E você? Por que se juntou à UVE?
Fiquei um pouco confusa; a não ser que Edward não fosse da cidade – ainda mais por ser da polícia –, dificilmente não deduziria os motivos que haviam me levado até aquela Unidade em específico.
Você não é daqui, é? perguntei curiosa.
Ele novamente negou com a cabeça:
Eu e minha família nos mudamos para Nova Iorque só depois do ataque à minha irmã.
Hum... Fazia sentido.
Por quê? Você se envolveu num caso famoso, ou algo assim? Que teve grande repercussão?
Ele estava sendo cuidadoso ao não se referir à mim tão diretamente como uma possível vítima e não pude deixar de sorrir. Edward era mesmo mais sensível do que a maioria dos homens, mas eu estava metade certa quanto aos motivos: ele podia até não ter sofrido um abuso, mas era irmão de uma sobrevivente.
Não exatamente. Suspirei, pensando em como era difícil falar sobre alguém tão importante, mas tão invisível em minha vida.
Edward esperou pacientemente enquanto eu encarava a rua vazia de Angela, ainda sem ter dado a partida no motor da viatura.
Minha mãe respondi-lhe.
Quase 26 anos depois e a minha voz ainda ficava embargada quando a mencionava. Era como uma cicatriz que eu sabia que jamais se curaria por completo.
No meu aniversário de um ano de idade, ela foi sequestrada, violentada e assassinada por um assassino e estuprador em série, aqui mesmo em Manhattan despejei de uma vez só; era menos doloroso do que fazer muitas pausas Quando realmente entendi o que lhe tinha acontecido, jurei para mim mesma fazer homens como Caius e Jacob pagarem pelo mal que espalham pelo mundo. Caius é o assassino de minha mãe e Jacob é praticamente um imitador dele falei, antes de Edward me perguntar.
Sobre Jacob, eu estava sabendo. Andei assistindo aos jornais, o caso das Louras de Manhattan, vocês tiveram um trabalho e tanto para capturá-lo ele comentou e concordei com a cabeça E eu sinto muito sobre sua mãe.
Edward me entendia muito mais do que a maioria das pessoas, embora sua irmã ainda estivesse viva. Ao dizer que sentia muito, não estava sendo leviano; ia muito além de solidariedade, ou empatia, estávamos simples e literalmente no mesmo barco em relação àquele assunto.
Obrigada falei com sinceridade e ele me deu um pequeno sorriso Para a Unidade?
Que tal algumas rosquinhas primeiro? Eu achei que era brincadeira dele, então ri de sua proposição tão clichê, mas Edward permaneceu com um semblante falsamente sério e depois me acompanhou.
Ele ficava irritantemente ainda mais belo ao rir descontraidamente, mesmo com toda a tensão que havíamos passado naquela noite (e mais as revelações sobre nossas vidas).
Conheço uma padaria muito boa de quando eu pernoitava como oficial, não é muito longe daqui e nós precisamos jantar disse ele, gesticulando com as mãos, como se quisesse me dizer o caminho Ainda deve estar aberta.
Rosquinhas de janta? Nem quando eu trabalhava nas ruas comia tanta porcaria assim!
Ué, o que você costuma jantar quando está de plantão?
Comida normal, oras! Como acha que mantenho minha saúde e disposição pra correr atrás de criminosos? perguntei, arqueando uma sobrancelha e logo me arrependi quando seus olhos percorreram meu corpo de cima à quase baixo (já que a iluminação da rua não era lá aquelas coisas para ele conseguir me enxergar tão bem, considerando que estávamos dentro do carro).
Haja disposição, né? Seu tom malicioso fez minha espinha se arrepiar em desconforto, e Edward desviou o olhar para a rua quando fechei minha expressão para ele.
Quanta audácia!
Onde é essa padaria? perguntei; meu tom de voz saiu um pouco mais ríspido do que tinha planejado, mas era bom que Edward se colocasse em seu devido lugar. Já não bastavam as cantadas de Riley?
26 de junho, 20:10h, Casa de Alice, Jasper e Olívia Hale.
Oi, meu amor, eu estava com tantas saudades! Segurei Olívia junto ao meu peito e sorri quando ela me olhou e começou a balbuciar para mim.
Havia apenas alguns dias desde a última vez que tinha visitado minha afilhada, mas ela parecia ter crescido uns bons centímetros desde então. Seus cabelinhos estavam crescendo novamente, após aquela queda usual de recém-nascidos, e assumiam um tom escuro, parecidos com os de Alice, sua mamãe. Já seus olhos eram num tom castanho meio esverdeado como os de seu papai, Jasper.
Quando vai fazer os seus pra eu paparicar também, hein? minha melhor amiga me perguntou. Ela riu quando usei uma das mãos que apoiava as costinhas de Olívia para lhe mostrar o dedo do meio.
Toda vez que nos víamos era a mesma fodida história.
Alice sabia que o mais próximo que eu já tinha ficado de ter um bebê havia sido em nossas classes de educação sexual quando nossa professora maluca fez um experimento com bonecas que choravam e cagavam depois de serem alimentadas e permaneceria assim por muito mais tempo, talvez pelo resto de minha vida.
Sabe que se não usar, ela atrofia, né? Alice me provocou e sorriu maliciosa.
Apenas revirei os olhos, cansada de lhe repetir os motivos porque não me envolvia com alguém, e apenas sentei-me no sofá com minha bonequinha de verdade no colo. Ela era suficiente para sanar qualquer vontade – que, para ser sincera, nem mesmo tinha sido despertada em mim de ser mãe.
Sua mamãe está chata hoje, né, Olívia? Justo no dia que completa 7 meses, vamos fingir que ela não existe? falei com uma voz suave e arranquei gargalhadas super gostosas de Olívia, que também mexeu os bracinhos, animada.
Alice arfou e me encarou com uma expressão indignada.
O que Alice está fazendo dessa vez? Ouvi a voz de Jasper perguntar ao longe, da cozinha. Ele estava terminando a nossa janta.
O mesmo lero-lero de sempre lhe respondi, aumentando um pouco minha voz para ele conseguir me ouvir.
Deixe a Bella, meu amor. Sabe que algum dia o coração dela vai se derreter por alguém.
Meu sorriso murchou enquanto o de Alice reaparecia em seu rosto. E quis revirar os olhos quando a campainha tocou e ela foi abrir a porta. Só podia ser o padrinho de Olívia, Demetri, que era irmão mais velho de Jasper – junto de seu filho insuportável. Rosalie, que também era irmã de meu compadre/melhor amigo, chegou junto dos dois.
Oi, Bella, oi Olívia! Graças a Deus, o rosto endeusado de Rosalie foi o primeiro que apareceu e ela rapidamente se sentou ao meu lado após cumprimentar ao irmão e à cunhada.
Oi, Rose, diz "oi" pra titia, Liv! Acenei para ela, enquanto estimulava Olívia à lhe balbuciar também Nem consegui encontrar contigo hoje, mas obrigada pela medida protetiva.
Ah, não foi nada, Bella! Rose sorriu para mim e para Olívia O juiz tinha alguns mandados pra assinar antes, por isso as coisas demoraram. Quando cheguei à delegacia você já não estava, mas falei com o seu pai. Ele disse que está com um novato, como foi?
É, Bella, estou doido pras fofocas Demetri brincou, sentando-se (ainda bem!) do meu outro lado. Riley parecia meio constrangido e apenas acenou antes de ir para a cozinha. Esperava que ele ficasse longe pelo resto da noite.
Novato? É outro, ou Mike retrocedeu o posto? Alice entrou no papo e se sentou ao lado do cunhado.
É o crush da Bella, segundo o Emmett Demetri respondeu e o encarei boquiaberta. O que Emmett havia lhe contado?
Alice me encarou com uma sobrancelha erguida e revirei os olhos.
Não é nada disso! retruquei, cuidando para que meu tom áspero não assustasse Olívia e peguei um de seus brinquedinhos sobre a mesinha de centro para distraí-la.
"Papai apenas separou eu e Emmett de novo, porque dois novatos entraram pra Unidade. É isso. Fim da história" resmunguei.
Se ele é só mais um novato, por que é que não me falou dele antes? Alice perguntou em tom malicioso.
Talvez, porque ele tenha surgido ontem em minha vida respondi irônica.
E por que não o chamou pra vir pra cá? Adoraria conhecer seu novo amigo.
Suspirei fundo e contei até dez, irritada com tantas insinuações.
Trazer um completo estranho aqui, nossa, que ideia maravilhosa! Encarei Alice como se fosse maluca, porque, talvez, ela estivesse mesmo enlouquecendo.
Vocês já passaram um turno de 12 horas juntos, Bella, isso já conta bastante, vocês já não são completamente estranhos, não um para o outro, pelo menos Demetri interferiu, para meu desgosto.
Vou fingir que só a Olívia está aqui hoje, ela é a única que me entende, não é, meu amor? Virei a bebê em meu colo e a levantei. Ela apoiou os pezinhos em minhas coxas e manteve as costas eretas com minha ajuda Quem é a Princesa da Dinda?
Olívia balbuciou, sorriu e mexeu as mãozinhas, uma delas com o seu brinquedinho; era tudo que eu precisava, e não ficar ouvindo bobagens a respeito do novato. Pensar nele me deixava meio estranha, como se eu não soubesse ao certo como me sentir em relação a ele. Nós havíamos tido um "jantar" razoavelmente agradável e voltamos rapidamente à delegacia para interrogarmos Eric.
Edward se saiu melhor do que eu esperava; ele se entrosou com o suspeito, e mentiu, dizendo que tínhamos todas as evidências para mandá-lo direto à prisão. Eric era bobo, réu primário, e confessou tudo sem nem mesmo pedir um advogado. Ele passou a noite na delegacia e seria demovido na manhã seguinte, mas eu já não estava lá para assistir.
Olívia soltou gritinhos que considerei como de felicidade e babou um pouco, o que era normal, pois apostava como, em breve, seus dentinhos estariam despontando.
Não preciso do novato, nem de vocês retruquei e lhes mostrei a língua Olívia já é o suficiente, não é minha vidinha?
E eu segui divertindo minha afilhada e não dando atenção aos adultos bobocas presentes, até que Jasper nos chamou para comer.
23:00h
Terminava de secar os talheres na cozinha, quando Alice se aproximou de mim, já sonolenta.
Obrigada por ficar e nos ajudar a arrumar tudo murmurou, enquanto me abraçava de lado e apoiava a sua cabeça em meu ombro.
É por essas e outras que prefiro ser apenas madrinha, imagina só: parir, amamentar, cuidar, e ainda ter que dar festas! brinquei e ri baixinho de sua carranca para não acordar Olívia, que estava deitada confortavelmente em seu carrinho perto de nós.
Sei... O que acontece é que ainda não achou um pai para os seus futuros filhos retrucou ela Jasper estava certo, logo, logo, o seu coraçãozinho de gelo derrete.
Revirei os olhos e xinguei o meu amigo que estava do outro lado do cômodo, guardando os pratos. Ele apenas me lançou um sorriso largo e deu de ombros.
Entendo que tenha medos, Bella. E é óbvio que o fato de não se cuidar, com a profissão que tem, só vai postergar um possível envolvimento emocional com outra pessoa.
Será que você pode, por uma vez em que venho aqui, não tentar me convencer à fazer terapia? resmunguei.
Jasper e sua irritante insistência de que a Psicologia era a chave para a resolução de todos os problemas do mundo! Isso ia muito além de ele acreditar na própria profissão, beirava o excesso – que, como ele mesmo defendia, era tão prejudicial quanto a falta.
E não diga outra pessoa, como se eu fosse lésbica, ou qualquer uma das outras letras da sigla LGBT. Já não basta o Esquadrão todo questionando minha sexualidade só porque nunca me viram ficar com um homem?
Não que aquilo fosse ofensivo... Na verdade era sim. Ninguém tinha nada a ver com aquele aspecto de minha vida, então, ao invés de propagarem seus achismos, deveriam apenas ficar quietos!
Porque você nunca ficou mesmo Alice falou, como se precisasse constatar o óbvio.
Mas isso aí não é da conta de ninguém! resmunguei, torcendo para que bastasse para encerrar aquela conversa absurda.
Só queremos que seja feliz e saudável, Bella Jasper pontuou, encarando-me seriamente É nossa melhor amiga e a madrinha de nossa filha.
Isso mesmo, precisa ser um bom exemplo pra Olívia Alice provocou e ergueu o queixo, como se tivesse realmente razão.
E por que cargas d'água ser um bom exemplo envolveria sair dando por aí? provoquei-a de volta e ri quando ambos me encararam de olhos arregalados e arfaram praticamente ao mesmo tempo No dos outros é refresco, né? Por que vocês não dizem tudo isso aí pro meu pai?
Quer seus amigos direto no xilindró, né, Bella, que maldade! Alice resmungou, mas finalmente os dois me deram um pouco de sossego.
Olívia ainda acordou antes de eu voltar para casa; era hora de sua amamentação, e não resisti, acabei ficando um pouco mais para curti-la. Sempre me esforçava para ser presente na vida dela, mas os turnos da delegacia eram tão puxados que, às vezes, nem nas minhas folgas eu conseguia um pouco de energia para vê-la, e gostava de aproveitar oportunidades como aquela.
Quando ela estava quase adormecendo, Alice a colocou em meus braços e, juntas, nós a levamos até seu quartinho. Olívia era um pequeno dengo e se aconchegou perfeitamente deitada em meu colo. Quase não quis deixá-la, mas eu estava virada de um turno de 24 horas, e poucas horas de sono, então, não tive escolha senão acomodá-la em seu bercinho e velar seu sono por somente alguns instantes. Ela era incrível, o serzinho que eu mais amava no mundo e me tranquilizava saber que eu era sua madrinha; estaria sempre por perto para protegê-la, porque eu podia, de fato, protegê-la, não era um mero desejo, ou fantasia.
Vai me dizer que não tem vontade mesmo? Alice sussurrou.
Encarei-a chateada. Ela sabia: eu queria. Era a minha melhor amiga desde que me entendia por gente e parecia me conhecer melhor até do que eu mesma. Mas não tinha cabimento algum ficar insistindo naquele assunto. Eu queria, mas não conseguia.
Homens não eram pacientes para tentar o suficiente. Aquilo acontecera mais vezes do que pude contar, a última sendo com Mike; eu não estava interessada nele de verdade e, talvez, minhas recusas fossem mesmo um problema a ponto de afastá-lo – e não somente a ele, mas todos os que haviam tentado antes dele –, mas, ainda assim, nenhum deles pareceu confiável o suficiente para eu lhes deixar... Entrar em minha vida daquela maneira.
A maioria parecia mais preocupada com o que o meu exterior tinha a lhes oferecer e, para mim, aquilo só me servia como alerta de que era melhor me proteger.
Talvez... Se você se desarmar um pouco? Só um pouquinho. Alice gesticulou com o polegar e o indicador, deixando um pequeno espaço entre eles Eu entendo que tenha medo, mas nem todos os homens são maus! Veja Jazz... O seu pai! Até mesmo seus colegas de trabalho ela disse em tom carinhoso e me puxou delicadamente pelo punho até a sala, encostando a porta do quarto de Olívia no processo.
Não é melhor você ir dormir? Aproveitar que a Liv...
Não é melhor você parar de tentar desconversar? Alice arqueou uma sobrancelha para mim e revirei os olhos.
Sabendo que não escaparia das garras de minha melhor amiga tão cedo, joguei-me no sofá e esperei que ela fizesse o mesmo.
Não me responsabilizo pelo que eu dizer nessa conversa. Estou praticamente virada desde às seis da manhã de ontem. Só consegui dormir umas cinco horinhas desde então falei-lhe e recostei minha cabeça no braço do sofá, encolhendo minhas pernas quando ela se sentou na outra ponta.
Isso é melhor do que eu imaginei! minha melhor amiga disse num tom estranhamente animado para quem havia acabado de ouvir minhas palavras.
Do que está falando? resmunguei sonolenta e fechei meus olhos.
Assim será mais fácil conversar com o seu subconsciente! Podia imaginá-la esfregando suas mãozinhas e sorrindo maliciosamente, como um vilão de desenhos animados (mais precisamente, o Senhor Burns de " Os Simpsons").
Achei que tínhamos combinado de não falar sobre esse assunto hoje. E você nem é psicóloga, pelo amor de Deus!
Você combinou com o Jazz sobre não falar disso ontem ela disse num tom de criança mimada Já passou da meia-noite, pro seu governo.
Então eu deveria estar indo pra casa, porque amanhã tenho que estar às oito na delegacia falei após um longo bocejo.
Sentia-me cada vez mais longe, como se o cansaço tomasse conta de mim por completo. Não sei se Alice falou, ou me forçou a dizer algo, mas não conseguia me lembrar; apenas caí em meu próprio inconsciente, que me apresentou sonhos delicados e cheios de carinho com a minha afilhada e, então, junto dela, um bebezinho recém-nascido de pele branquinha e olhos acinzentados deitado num berço parecido com o dela. Ele era tão pequenino que mal tinha cabelo, mas uma penugem num estranho tom de loiro recobria suavemente sua cabeça.
Talvez, ele fosse o futuro irmãozinho de Olívia, embora eu achasse meio sem sentido sonhar com um bebê – que ainda não tinha nascido – de outra pessoa. Talvez, antes de eu ter caído totalmente na inconsciência, Alice tivesse me revelado que estava grávida novamente – eu tinha a certeza de que ela não demoraria muito para trazer um novo membro àquela família.
27 de junho, 06:30h.
Sobressaltei-me ao ouvir um chorinho ao longe e quase tive um ataque cardíaco ao notar que não estava em meu quarto. A impressão logo passou, porém, quando reconheci as paredes rosadas e o bercinho de Olívia. Estava deitada num colchão e vestida com um pijama que só poderia ser de Alice.
Levantei-me e me espreguicei antes de me aproximar do bercinho da minha afilhada e pegá-la no colo:
Bom dia, Liv! Quem é a menina mais fofa desse mundo? sussurrei com uma voz meiga, e ela sorriu e se aconchegou em meu peito.
Não demorou muito para ela colocar uma mãozinha na boca e começar a "mordiscá-la", deixando-a completamente babada; então, entendi o que ela queria. Segurei-a firme e levei-a até o quarto de seus pais, ainda adormecidos. Um lençol fininho cobria-lhes as partes íntimas e tapei os olhinhos de Olívia, mesmo que ela fosse nova demais para entender o que havia acontecido ali.
Bom dia, meus queridos! falei em tom zombeteiro e ri quando os dois abriram os olhos, alarmados Olívia quer a única coisa que eu não posso dar a ela. Meneei com a cabeça na direção dos peitos de Alice que me sorriu sem graça.
Só vou me lavar disse ela, levantando-se em um pulo e praticamente correndo para o banheiro de sua suíte.
Cobre isso aí direito, homem! Zoei com Jasper, cujo lençol, devido à movimentação de Alice, estava quase expondo aquilo que eu jamais quis ver.
Ri mais uma vez ao vê-lo se cobrir até a cabeça e voltei para o quarto da Olívia, que já dava sinais de impaciência com pequenos resmungos.
Já vai, meu amor, sua mamãe já vem murmurei e comecei a balançá-la suavemente em meu colo.
Alguns minutos depois, Alice apareceu e sentou-se na cadeira de amamentação para que eu pudesse aconchegar Liv em seu colo. Logo, ela abocanhava o seio de minha amiga e o sugava com veemência.
Alice, você está grávida de novo? perguntei, lembrando-me repentinamente de meu sonho.
Alice me encarou como se eu fosse maluca e a surpresa verdadeira em seus olhos me fez perceber que foi sincera ao negar, em sua resposta.
De onde tirou isso?
Ah, eu achei que pudesse ter me contado antes de eu dormir.
Uau, que imaginação fértil a sua! Alice exclamou em tom surpreso Tão fértil quanto você ter me contado sobre o gostosão do seu novato, né?
O que? Que história era aquela? Senti minhas bochechas pegando fogo ao mesmo tempo em que questionava a sanidade de minha melhor amiga.
Você me falou sobre o Edward disse ela, enfatizando o nome do novato num tom estranho, como se estivesse apaixonada por ele Foi assim mesmo que me disse o nome dele continuou e me sorriu maliciosa Nunca vi você falando sobre um cara daquele jeito.
"Parecia convincentemente apaixonada, disse que ele era bom e sensível".
Apaixonada, Alice? Por alguém com quem convivi por 12 horas, pelo amor da sua filha, não diga tanta asneira! repreendi-a por suas bobagens, mas ela apenas deu de ombros.
Foi bem realista pra mim.
Chega, vai. Esse assunto morreu falei em tom firme quando percebi que ela já estava abrindo a boca para propagar mais besteira A gente se vê qualquer hora.
Inclinei-me para beijar a testinha de Olívia, ainda bastante empenhada em conseguir seu café da manhã, e dei um abraço em Alice. Estava para sair do quarto, quando ela começou a gargalhar e a olhei por sobre meu ombro, confusa.
Vai sair de pijama? Alice arqueou uma sobrancelha e suspirei.
Aonde estão minhas roupas? perguntei-lhe.
Precisava me trocar rápido, ir para o meu apartamento para uma nova troca de roupas (mais apropriadas para o trabalho) e ainda ir para a delegacia, tudo em menos de 1 hora.
Estão ali, perto do trocador da Liv.
Localizei minhas roupas e não me importei de me trocar ali mesmo, sob os olhos de Alice, não seria a primeira vez – e, afinal de contas, ela mesma tinha mudado meus trajes durante a madrugada, sem nem me acordar, deduzi.
Agora é sério, preciso ir, ou vou chegar atrasada no trabalho falei, acenando para ela e deixando seu pijama no mesmo lugar que minhas roupas, anteriormente.
Bom trabalho! Alice me acenou de volta E não se esqueça de pegar o novato!
Já estava no meio de sua sala e não me dei ao trabalho de respondê-la. Ela sabia que aquilo não aconteceria, tanto quanto eu. Apenas saí, apressada, rumo à minha casa e torci para chegar à tempo na delegacia; o trânsito em Manhattan não costumava ser muito colaborativo.
25 de julho, 12:00h, Lanchonete do Centro
Edward e eu saímos da viatura e entramos na lanchonete perto do prédio do Laboratório da Perícia, de onde tínhamos acabado de pegar os resultados preliminares de mais um caso.
Você realmente está me influenciando para o mal. Olha só quem vai comer porcarias de almoço? brinquei com ele assim que peguei dois cardápios, um para cada.
Tem certeza de que vai conseguir comer? Ele parecia meio enojado quando nos sentamos um de frente para o outro numa das mesas.
Você se acostuma falei. Nós realmente não havíamos tido uma conversa muito agradável com Carmen, mas precisávamos repor as energias para o resto do dia Até nossos pratos chegarem seu estômago já vai ter desembrulhado, confie em mim.
Está bem murmurou ele, antes de voltar seus olhos para o cardápio Você costuma comer aqui?
Já vim algumas vezes, mas nunca no horário de almoço.
Eu realmente tentava manter minhas refeições equilibradas, afinal, fazia parte do meu trabalho, às vezes literalmente, correr atrás de criminosos.
Hum... E o que você me recomenda?
Era uma lanchonete que não variava suas refeições conforme o horário, então não foi difícil revelar o meu prato preferido: x-salada triplo com muito cheddar, e molho apimentado.
Uau, quem diria que uma mulher do seu tamanho conseguiria comer tanto! Edward exclamou, parecendo impressionado, assim que uma das garçonetes deixou nossos pedidos (o meu preferido) sobre a mesa.
Uma mulher precisa se alimentar direito. E eu não como isso sempre. Mostrei-lhe a língua e ele riu.
Bom apetite! Piscou para mim e a reação totalmente involuntária de minhas bochechas foi corar, o que pareceu intrigá-lo.
Ele me encarou atentamente e desviei o olhar para minha refeição antes que minhas atitudes deixassem transparecer toda a estranheza sentida quando estava perto dele.
Edward fazia eu me sentir diferente; por mais irritante e nova que a situação fosse, eu não conseguia me distanciar, pelo contrário, queria ficar cada vez mais perto dele. Um mês trabalhando juntos e compartilhávamos cada vez mais nossas vidas e experiências pessoais, para além do lado profissional – e, às vezes, até mesmo fora do horário de nosso expediente.
Não tinha me conectado com alguém daquela maneira antes – muito menos um parceiro de trabalho –, e era completamente assustador, me deixava desconcertada sobre todas as minhas convicções, e até mesmo sobre o tipo de pessoa que eu era, ou quem eu gostaria de ser.
Vou pedir nossa sobremesa, é por minha conta falei, espantando aqueles pensamentos malucos (que, com certeza, me levariam à nada) e me diverti ao ver os olhos de Edward se arregalando, como se me perguntasse se ainda caberia algo dentro de meu estômago Não se preocupe, se você não aguentar eu como a sua parte.
Levantei-me, ainda me entretendo com sua reação e fui até o balcão de doces. Aquele homem amava uma rosquinha e fiquei satisfeita ao ver algumas opções. Voltei com dois pratos: um com um amontoado de rosquinhas de sabores variados, e o outro com uma fatia do meu bolo preferido, todo chocolatudo: massa de chocolate, com mousse de chocolate e raspas de chocolate.
Feliz um mês de UVE! falei ao me sentar, daquela vez, ao lado de Edward e colocar os pratos sobre a mesa Era a última fatia, a gente pode dividir, ou eu posso comer sozinha. É o melhor bolo daqui, então, eu não desperdiçaria a oportunidade, se fosse você.
Sinto muito por te influenciar a comer tanta besteira disse ele, em falso tom de arrependimento, e um pouco surpreso. Parecia que Edward ainda não acreditava que eu podia comer daquela maneira.
Você não me influenciou a comer besteiras, só a fazê-lo fora de hora corrigi-o E só te trouxe aqui hoje porque, como disse, está completando um mês na nossa Unidade. Nem todos conseguem. Pisquei de brincadeira, mas ele me sorriu malicioso.
Obrigado, detetive. Adorei passar esse um mês aprendendo com você.
Edward estava sendo sincero e não pude deixar de sorrir. E, pela meia hora seguinte, dividimos as rosquinhas e a fatia de bolo. Parecia que, a partir daquele gesto, dizíamos a nós mesmos que também estávamos dispostos a compartilhar, ainda mais, as nossas vidas.
...
Esse bolo é muito bom mesmo! disse Edward, após dar mais uma garfada generosa na fatia.
Eu disse que era, não disse? Arqueei uma sobrancelha e ele simplesmente lambeu os lábios. Gostaria de ordenar meu cérebro a parar de achá-lo atraente, mas era impossível.
Disse e me provou que estava certa, o que é ainda melhor Ele sorriu e levou a mão esquerda ao meu rosto repentinamente.
Meu coração disparou e meus olhos se arregalaram, mas o meu corpo ficou sem qualquer reação, completamente congelado, algo imprudente, se eu estivesse prestes a entrar em perigo.
Respire, Bella, só estou limpando aqui! Edward me deu um sorrisinho besta e passou o dedão pelo canto de meus lábios; em seguida, levou-o para a própria boca e o sugou, deixando-me embasbacada.
Ele fazia aquilo de maneira propositadamente sedutora, embora parecesse natural. E, o melhor para mim, era não mais me deixar afetar, antes que fosse tarde demais.
Você podia ter só me falado disse em tom falsamente acusatório, para que Edward não percebesse o quanto já havia me zonzeado com seu gesto Pra isso existe guardanapo, ó! Peguei o dito cujo e esfreguei-o em minha boca para demonstrar o que tinha falado Fora que não é nada higiênico! Não que eu estivesse me importando.
Assim vai arrancar os seus beiços, tem que ser delicada! repreendeu-me, roubando, então, o guardanapo de minha mão e o pressionando suavemente contra meus lábios, enquanto apoiava o braço esquerdo no encosto de minha cadeira E só seria anti-higiênico se você tivesse esfregado a boca no chão, talvez, nem assim.
Senti-me ambiguamente acuada e instigada; era como se Edward estivesse me encantando (ou enfeitiçando) a ponto de eu não querer mais sair daquela cadeira, embora só precisasse me levantar para fazê-lo. Seus olhos hipnotizantes me convidavam a permanecer ali e de repente quis me jogar em seus braços, e lhe pedir que tivesse paciência para me entender, que não se distanciasse de mim ao descobrir todos os meus medos e fraquezas.
Edward era um homem bom, acima da média, e além do esperado, mas ainda achava que seria demais para ele descobrir certas coisas, então forcei meus lábios a se calarem.
Seus olhos são muito bonitos. Estava aliviada de que não tinha sido eu a dizer aquilo, mas surpresa, por outro, por não esperar que Edward me elogiasse.
Talvez, nem mesmo ele o tivesse feito intencionalmente, porque logo nós dois nos encarávamos com as bochechas coradas, feito dois adolescentes ingênuos e movidos pelo desconhecido. No entanto, Edward inclinou o rosto na direção do meu, repetiu a frase em tom bem baixinho, e fechou os olhos.
Seu cheiro levemente amadeirado, tão próximo, preencheu minhas narinas e quase fez eu me render, mas fui salva pela minha própria consciência quando entrei em pânico e comecei a pensar nos tipos de liberdade que vinha dando a ele no último mês. Questionei-me se havia feito algo que desse a entender estar disponível daquela forma e, sem quaisquer esforços, cheguei a uma conclusão negativa.
Seus lábios estavam chegando perigosamente perto dos meus e virei meu rosto para a esquerda, de modo que ele acabou beijando minha bochecha.
Nunca mais faça isso! disse rispidamente e fuzilei Edward com o olhar assim que ele desgrudou seus lábios (satisfatoriamente macios) da minha pele.
Ele arregalou os olhos e levantei-me rapidamente, querendo manter distância dele. Fui, meio desconcertada, até o balcão para pagar a conta e esbarrei num cara corpulento que quase me levou ao chão, mas fui segurada a tempo de não quebrar o rosto.
Opa, cuidado aí, detetive! O tom zombeteiro e familiar me fez olhar para o rosto do homem, e suspirei ao me deparar com Emmett.
Desculpe, Emm. Estou indo pagar a conta. Gesticulei para o balcão e Emmett me ergueu uma sobrancelha, encarando-me do mesmo jeito que ele fazia com os suspeitos.
Ou está fugindo do novato?
Oh, droga, o quanto ele havia visto?
Emmett me deu um sorriso brincalhão e infantil e, ao encarar seus olhos, entendi que ele tinha estado na lanchonete por tempo suficiente.
Não aconteceu nada resmunguei.
Só porque você não quer, né? Porque se dependesse de nosso querido colega... Ele me provocou.
Não se meta nisso interrompi-o usando o meu melhor tom de ameaça.
Me meter? Me meter no que, se não "tem nada acontecendo"? Emmett piscou para mim, fez aspas com os dedos e alargou o seu sorriso quando percebi sua pegadinha.
Oi, detetive, não esperava vê-lo aqui disse Edward, de trás de mim. Aproveitei a deixa para sair de fininho e finalmente cumprir o meu objetivo de pagar a conta.
N/A: Oie! Voltei com mais uma história!
Espero que gostem! Deixe-me saber sua opinião através dos comentários, vou ficar muito feliz em recebê-lo!
Essa será uma short com no máximo 5 capítulos e devo postá-los semanalmente!
Beijos e até semana que vem!
