The Vengeful One
In the blackest moment of a dying world
What have you become?
(Look inside and see what you're becoming)
É no parquinho próximo de casa que eu caio no chão, em uma das aparatações mais descuidadas que já realizei.
Meu corpo inteiro está tremendo. Só tenho tempo de virar o rosto, antes que eu comece a vomitar. Em fortes ondas, esvazio todo meu estômago e, depois de alguns minutos, consigo me levantar com dificuldade.
Sento-me, desengonçadamente, no mesmo balanço em que eu costumava empurrar Lily, quando éramos apenas crianças.
A madrugada está gelada, e eu recebo as rajadas de vento com gratidão. O cheiro desagradável do vômito parece diminuir, mas o vento também traz uma lucidez que me desmonta.
Merlin, aquela criança não deveria ter nem dez anos.
O tremor se intensifica em minhas mãos, e eu tenho vontade de gritar. Minha mandíbula dói, tamanha a força que uso para travar os gritos de pavor que estão fazendo, da minha mente, uma ala para histéricos em St. Mungus.
Como eu poderia adivinhar que o veneno que preparei, seria administrado em uma criança? Uma nova onda de náusea força meu estômago a se contrair, mas não há mais nada a ser expelido. Só percebo que estou chorando quando minha visão se embaça e eu não consigo mais enxergar.
Desesperado, ergo a barra da camisa bruscamente, arrancando os botões no processo. A tatuagem de caveira ainda está cicatrizando, imóvel em meu braço, até o próximo chamado do Lord das Trevas.
A visão da cobra me faz sentir uma repulsa primordial, muito diferente da noite em que recebi a Marca Negra. Irracionalmente, começo a coçar o braço, cravando minhas unhas até rasgar a pele — ao invés de apagá-la, apenas consigo novos machucados e, frustrado, volto a cobrir o braço com a camisa.
Levanto-me em um rompante, chacoalhando a cabeça numa tentativa de dispersar a visão daquela mesa de jantar. Inútil. Começo a andar e vejo, novamente, a cena da família reunida, interrompida no meio da refeição: o pai, um trouxa qualquer e a mãe, uma funcionária do Ministério — as pessoas que achei que seriam vítimas do meu veneno.
Entretanto, ao lado da mãe, uma menininha jazia com a cabeça apoiada na mesa, sobre um prato cheio de comida. Sua mãozinha segurava um bichinho de pelúcia.
Inconscientemente, levo a mão ao bolso da calça e seguro, com força, o coelhinho branco que ela parecia proteger. Entre um piscar e outro de olhos, vejo o Lord das Trevas sentado no extremo oposto da mesa, aguardando por mim com um sorriso sinistro nos lábios.
"Ótimo trabalho, Severus. Surpreendente a qualidade do veneno. Seus serviços serão de muita utilidade para a nossa causa. Conjure nossa Marca antes de partir."
Na lembrança, vejo-o levantar-se e aparatar. E, antes que eu vire a esquina para chegar em casa, vejo a mim mesmo conjurando o feitiço que serve como um aviso de que o mal esteve ali. Ao invés de sentir júbilo, como sempre achei que sentiria ao carregar a Marca Negra, o sabor em meus lábios apenas me faz sentir nojo e remorso.
No que eu me transformei?
