Who

No longer able to recognize

For every word's a lie

You are forever changed

And there's nothing more

That I can do

Quando entro em casa, identifico um chiado estático vindo da cozinha, e consigo distinguir minha mãe cantarolando alguma coisa baixinho. Encosto-me na parede próxima, sem forças para continuar a andar. Meu corpo treme violentamente, como se tivesse sido exposto a um frio glacial. Uma voz sussurra em meus ouvidos que é a marca que a morte deixa como lembrança, e eu tenho a impressão de que estou perdendo minha sanidade.

Ainda posso ouvir o rádio, mas agora minha mãe não está mais cantarolando. Identifico, devagar demais, seus passos ecoarem no chão de madeira e, antes que eu tenha tempo de me virar e subir, sorrateiramente, as escadas até meu quarto, minha mãe aparece no corredor.

Ela está com as mãos sujas de farinha, e usa um avental florido. Os cabelos estão presos em um coque alto, evitando que os fios caiam sobre seu rosto. Eu desvio os olhos e abaixo minha cabeça, usando meu cabelo como um disfarce, tentando evitar que ela perceba o terror em meus olhos.

— Filho, o que houve? — Sua voz está preocupada e eu me encolho, incapaz de responder.

Ouço uma madeira solta ranger, e sei que ela está se aproximando.

— Filho...? — Ela segura meu antebraço esquerdo e, num reflexo, acabo me afastando do seu toque.

— Nada, mãe! — Finalmente, consigo responder, desconhecendo a exacerbação em minha própria voz.

— Severus, você está tremendo. Venha aqui! — Ela segura minha mão e, sem forças para novamente repelir seu toque, permito que me puxe até a cozinha.

Ainda de cabeça baixa, espio a desordem que está em cima da mesa: diversos ingredientes estão espalhados.

— Por que a senhora ainda está acordada? — Acabo questionando quando ela me coloca sentado em uma cadeira. Por descuido, levanto o rosto para encará-la.

Assim que nossos olhos se encontram, ela solta um guincho assustado. Suas pupilas dilatam, as mãos sobem para tampar a boca, e eu me lembro de todas as vezes em que a via nesse estado apavorado: quando meu pai perdia a paciência e nos usava como sua válvula de escape pessoal. Não sou mais capaz de olhá-la nos olhos.

Eu me odeio nesse momento. Odeio mais ainda quando ela volta a se aproximar, com a varinha na mão, e começa a cuidar de mim. Odeio o alívio que sinto quando ela passa um pano úmido no meu rosto, limpando o suor.

Quando ela tenta subir a camisa do meu braço esquerdo, sutilmente afasto sua mão. Ela parece entender e, em silêncio, se afasta de mim, indo até a pia lavar suas mãos. Eu a observo atentamente, percebendo que seu tronco estremece vez ou outra — apesar de não fazer nenhum barulho, sei que está chorando.

Levanto-me rapidamente e abro a boca para me despedir, mas não consigo falar nada. Ela continua de costas quando desisto de encontrar as palavras certas, e saio da cozinha. Eu me odeio por fazê-la sofrer — ainda que por meios diferentes — igualmente quando meu pai era vivo. A semelhança indivisível me deixa ainda mais nauseado e eu me odeio.