Fire It Up
Fire it up
'Cause when I fire it up, I feel like serenity is mine
A noite está horrível, assim como meu humor. Busco no bolso um maço de Sampoerna e o isqueiro. Em pensar que eu estava livre do vício há quase dez anos...
Acendo um cigarro e quase gemo em prazer. A fumaça enche minha boca e eu quase posso senti-la percorrendo meus pulmões. O cheiro de cravo inunda meu olfato e, com a ponta da língua, sinto o sabor adocicado que o filtro deixa eu meus lábios.
Antes da segunda tragada, ouço passos na escada. Rápidos demais para ser Dumbledore — não o suficiente para ser um aluno desavisado. Olho para o cigarro nos dedos e um pensamento cínico nasce em minha mente: adoraria que fosse aquela mulherzinha desprezível. Qual seria sua reação?
Em júbilo, espero que a pessoa termine de subir as escadas e, quando distingo a silhueta esguia, meu sorriso maléfico morre.
Voltando minha atenção para o céu, dou mais uma longa tragada e cumprimento-a sem olhá-la:
— Minerva.
— Severus, o que... — Sua pergunta não chega ao fim — Você não tinha parado?
Abro um sorrisinho de canto de lábio, olhando por sobre o ombro. O tom em reprimenda me faz sentir como quando consegui o emprego, há mais de uma década e fui pego, pela mesma bruxa, fumando a mesma marca de cigarro, no mesmo lugar. O saudosismo é poderoso o suficiente para que eu baixe minhas defesas.
Minerva se encosta no parapeito ao meu lado. De esguelha, sobre a cortina que meus cabelos produzem, consigo ver que está em vestes informais; seus cabelos estão desalinhados e a postura altiva não está presente. Ela não fala nada, apenas fica apoiada nas barras de ferro que servem de proteção, seu olhar perdido na noite.
Dou uma última tragada e, enquanto solto uma nuvem grande de fumaça, faço a bituca desaparecer — não há necessidade de deixar rastros. Decido aproveitar mais um cigarro e, enquanto tiro o maço do sobretudo, uma ideia nasce. Retiro um palito e ofereço o maço aberto para Minerva.
Ela me olha com uma sobrancelha arqueada e então olha para a oferta em minha mão. Parece pensar por alguns segundos, quase vejo as engrenagens em seu cérebro acelerarem, enquanto cogita a ideia. Com um suspiro resignado, ela retira um e, lutando contra o sorrisinho vitorioso que ameaça se formar em meus lábios, uso meu isqueiro para acender seu cigarro.
Nós fumamos em silêncio. Ela não traga o cigarro como todo fumante faz, apenas puxa a fumaça e solta. Mas é visível o estado de relaxamento que seu corpo entra, e eu me sinto quase feliz por poder proporcionar alguns minutos de paz à Minerva.
— Deveríamos tentar descansar, Severus. — Ela faz sua bituca sumir e percebo que está voltando a vestir sua armadura — Dolores enlouqueceria se nos pegasse fumando, às escondidas, na Torre de Astronomia.
Seu tom é sério, contudo, quando viro-me para encará-la, há um brilho divertido em seus olhos. Ela acaba caindo em uma gargalhada alta, e eu acabo perdendo a batalha contra o sorriso que nasce em meus lábios.
