2. UM PEDIDO INESPERADO
Por muito tempo Bill pensou que não fora feito para o amor. Foi criado em uma família extremamente amorosa, e disso não tinha do que reclamar. Via seus pais, mesmo após anos de casados, tratarem-se com carinho, companheirismo e cumplicidade, e não conseguia se ver no futuro do mesmo jeito. Em Hogwarts nenhuma pessoa havia feito seu coração disparar, pelo menos não que ele lembrasse. Após acabar a escola, destacou-se como um exímio quebrador de maldição e viajou pelo mundo inteiro lutando contra as forças das trevas. Ficou muitos anos no Egito, estava acostumado a viver sozinho, e graças ao calor e ao clima seco do Cairo – tão diferente do clima úmido e cinza da Inglaterra – cogitou viver ali o resto de seus dias. No entanto, seu senso de justiça não permitiu que vivesse uma vida nômade e solitária, e ele acabara voltando a Londres para integrar a Ordem da Fênix.
A negação do Ministério em aceitar que Voldemort havia retornado e a escassez de missões como quebrador de maldições fez com que Bill aceitasse dar aulas de inglês a uma intercambista francesa que, segundo seus irmãos, havia participado do Torneio Tribruxo no ano anterior. Por muito tempo Bill pensou que não fora feito para o amor, mas isso foi antes de conhecer Fleur Delacour.
Era irônico que, agora, a lembrança da ex-mulher lhe arrancasse somente sorrisos de escárnio entre um copo de Firewhisky e outro. Havia percebido, também, que quanto mais remoía o passado com Fleur, mais fumava de modo automático. Acendia um cigarro e logo já estava acendendo o segundo, e depois o terceiro, e depois o quarto, e assim um quarto de seu salário servia somente para pagar as carteiras de cigarro que consumia desenfreadamente.
Não entendia como a mulher que havia declarado um amor tão sincero por ele quando fora atacado por Greyback, que havia lutado ao seu lado na guerra, que lhe fazia companhia enquanto ele comia pedaços de carne crua e que ficara ao seu lado nos momentos bons e ruins, agora não era nada mais do que uma vaga memória de uma pessoa que ele começava a duvidar ter, de fato, conhecido.
Bill não reclamava da paz que consumia o mundo mágico desde a queda de Voldemort, mas, por vezes, ficava entediado com o seu trabalho. Era difícil exercer a função de quebrador de maldição quando quase todos os bruxos aliados às trevas estavam, agora, presos. Sobrava muito pouco para fazer. Aquele dia, no entanto, havia sido muito interessante. Juntamente com alguns colegas aurores, Bill havia rastreado um pequeno grupo de simpatizantes de Voldemort tratando de assuntos obscuros em um bar clandestino na Travessa do Tranco. Ao perceberem a presença de agentes ministeriais, os três ex-comensais lançaram um feitiço que lavou todo o local em chamas. Não haviam lançado um incendio, era muito maior, e nenhum auror conseguiu apagar o fogaréu que lambia violentamente as paredes descascadas do bar.
E foi aí que Bill entrou: como um quebrador de maldição, conseguiu apagar o incêndio e voltou, encharcado e com um sorriso no rosto, ao Ministério enquanto os aurores conduziam os três homens para interrogatório. Quando pegou o elevador, permaneceu alheio aos olhares desaprovadores dos outros funcionários, que provavelmente estavam incomodados com a poça de água que Bill havia deixado no pequeno cubículo. Percebeu que um ou outro haviam descido em Departamentos que não eram os seus, somente para sair dali.
O ruivo ria internamente. Quando ficou sozinho no diminuto cubículo, escutou uma voz conhecida pedir para que segurasse o elevador, e assim o fez. Hermione Granger, ex-namorada de seu irmão mais novo, entrou furiosa e sequer lhe dirigiu a palavra.
Bill não costumava falar muito com ela, era verdade. Para ser sincero, ele não falava com quase ninguém. Desde que Fleur pedira o divórcio e voltara para a França, todos no Ministério o tratavam com cuidado demasiado, e isso o incomodava. Pensou que duraria algumas semanas, mas aquilo se estendeu por anos, e ele acabou se fechando mais e mais, até que não restasse ninguém para trocar um singelo "bom dia". No entanto, aquele dia estava sendo diferente, ele estava animado, então resolveu puxar assunto com a castanha.
- Fico feliz que esteja num ótimo dia, Srta. Granger – ele comentou, não conseguindo refrear o tom de deboche.
Ela lhe encarou furiosa, aqueles olhos castanhos estreitos correndo seu corpo de cima a baixo, e se detendo por alguns segundos a mais na poça d'água em seus pés.
- Olha quem fala – ela respondeu.
Ouch. Ela estava realmente de mau humor, e Bill resolveu segurar o riso e ficar encarando a parede. Somente quando ela lhe pediu desculpas que ele cogitou a possibilidade de ter respondido em voz alta. Quando chegou ao seu andar, saiu do elevador se despedindo com um simples "tchau". Não havia lhe passado despercebido o fato de que Hermione se tornara uma mulher muito interessante.
Corriam pelos corredores boatos de que ela seria a primeira mulher Ministra da Magia, e Bill sabia que seria uma escolha acertada. Ela era extremamente competente e dedicada, qualidades que ele já havia tido a oportunidade de notar antes mesmo de ela ingressar no Ministério. Lembrava dela sempre comentando de forma pertinente quando tomaram a casa de Sirius como sede da Ordem, lembrava de quando ele e Fleur hospedaram a castanha, Harry e seu irmão durante a guerra, e lembrava dela duelando com maestria na Batalha de Hogwarts.
Curiosamente, Hermione fora quem tranquilizara sua mãe quando ele foi ferido por Greyback. Ele não tinha certeza se ela tinha conhecimento de que ele sabia, mas ele sabia. Sua mãe, antes histérica com a possibilidade de ter um filho lobisomem, passou a tratar a situação com muita tranquilidade, e comentou, na época, que Hermione havia feito algumas pesquisas e lhe explicado que Bill não viraria um lupino por inteiro. Também lembrava do quanto sua mãe chorou em seu ombro quando soube que Ron e Hermione haviam terminado, lamentando que a família perderia a castanha. Se deu conta de que nunca soube o motivo do término dos dois, mas imaginava que fosse pelo fato de Hermione ter se tornado uma mulher, enquanto Ron permaneceu – por muito tempo – um garoto.
Felizmente, Hermione não se afastou da família. Afinal, era a melhor amiga de Harry e madrinha de um dos filhos de Ginny com o moreno. Ela estava sempre presente nos almoços e jantares de família, assim como Bill, e somente naquele momento ele percebeu, com certa curiosidade, que os dois nunca se falavam durante esses encontros. Verdade seja dita, eles se conheciam há anos, mas não se conheciam de fato. Ele a conhecia somente pelo que ouvia dos outros, enquanto ela provavelmente só sabia que ele era um Weasley e havia sido marcado por um lobisomem.
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Como de costume, havia sido o último a chegar n'A Toca para o aniversário de seu sobrinho. Assim que aparatou em frente à casa, percebeu que Charlie também recém havia chegado e já estava na soleira da porta. O irmão virou para trás e abriu um sorriso quando lhe enxergou.
- Atrasado como sempre – o mais novo brincou. E Bill sacou um último cigarro de sua carteira, acendendo-o com a varinha, fazendo com que Charlie levantasse uma sobrancelha – e você sabe que mamãe odeia quando fuma.
- Ela nem vai perceber, a casa está lotada – Bill respondeu com o cigarro na boca. Checou no bolso se havia trazido uma segunda carteira, e com certo alívio percebeu que sim.
Quando entraram, sua mãe obviamente correu para lhe xingar e só lhe deixou entrar na casa após ter a certeza de que ele não possuía mais cigarros. A casa estava cheia, como de costume, mas infinitamente mais barulhenta. As crianças estavam naquela idade em que correr e gritar parecia questão de necessidade, enquanto os adultos estavam dispersados em grupos, cada qual com seu assunto.
Alguns assuntos durante a janta foram os mesmos de sempre: Charlie e seu pai criavam teorias da conspiração sobre bruxos das trevas no leste europeu – assunto que Bill particularmente adorava alimentar só para ver até onde a paranoia dos dois chegava -, sua mãe reclamava do tamanho de seus cabelos e de seu brinco, Harry e Ron conversavam animadamente com George sobre algum assunto que não conseguiu identificar e Gina falava com sua mãe e Angelina algo sobre James e quadribol. Havia só uma coisa diferente nessa janta, em particular: Hermione. Bill já havia percebido que estava sendo observado, e foi com tranquilidade que a olhou de volta. Algo rugiu em seu peito quando as bochechas dela ficaram vermelhas feito pimenta, e ele sustentou o olhar dela. Queria ver quanto tempo ela conseguia manter a troca de olhares sem desviar.
Era a primeira vez em anos que a olhava tão diretamente, e chegou à conclusão de que, de fato, Hermione havia se tornado uma mulher muito interessante. Já havia perdido as feições de menina, seu rosto era mais magro e anguloso, seus olhos castanhos eram penetrantes e sua boca rosada era definitivamente bastante chamativa. Sorriu pelo nariz quando ela desistiu daquela batalha de olhares e cedeu, mirando o próprio prato.
Bill tinha noção de que era um homem bonito, não alimentava qualquer insegurança nesse quesito, apesar da cicatriz que carregava no rosto e sua barba felizmente conseguia parcialmente esconder. No entanto, não pôde deixar de se sentir intrigado com Hermione, já que ela era uma das poucas mulheres que sempre esteve tão alheia a ele quanto ele a ela. E assim como prestou atenção nela naquele dia, não conseguia mais desviar seu interesse para qualquer outra coisa. Ficou curioso e acompanhava todos os movimentos dela, o jeito que ela conversava com os outros, os fios de cabelo que escapavam de seu coque – muito parecido com o coque que ela usou no Ministério naquela semana -, as linhas marcadas de sua clavícula e algumas pintinhas que ela tinha nos braços, que estavam expostos pelo vestido azul escuro que ela trajava. Ela havia virado uma mulher muito, mas muito interessante.
O ruivo percebeu que poderia facilmente ficar obcecado pelo enigma que Hermione era para ele quando se pegou encarando a mulher mais uma vez enquanto ela abraçava seu irmão, que acabara de anunciar que seria pai. Assim que ela levantou os braços para envolver Ron em um abraço caloroso, Bill percebeu que o vestido azul subira um pouco, revelando a dobra atrás dos joelhos dela, e esse pedaço de pele tão ordinário lhe chamou a atenção. Ficava tentando desvendar se ela ainda tinha sentimentos pelo Weasley mais novo ou se realmente estava feliz pela notícia. Tal pensamento causou um rebuliço dentro de Bill que ele não soube identificar com clareza. Hermione percebeu o olhar do ruivo sobre ela e, mais uma vez, desviou a atenção. O Weasley mais velho sacudiu a cabeça e resolveu sair para fumar e desanuviar a cabeça um pouco. No entanto, não demorou muito para sentir o cheiro dela e saber que ela o havia seguido.
- Achei que tivesse colocado os cigarros fora – ela comentou, e ele sentiu que ela se aproximava porque o cheiro doce que provinha do pescoço dela estava mais forte. Quando ela ficou a seu lado, ele se virou para ela.
- Aquela carteira estava vazia – Bill respondeu piscando um olho e sorrindo de forma zombeteira – a cheia estava no meu bolso o tempo inteiro.
Ela riu, e ele gostou do som da risada dela. Não lembrava de já ter visto ela rir alguma vez. Ficou surpreso quando ela lhe pediu um cigarro, e aproveitou a deixa para se aproximar mais dela. O assunto foi ameno, e ele propositalmente se mantinha próximo do corpo dela, pois a cada vez que o fazia, ela enrubescia, e aquilo fazia com que algo dentro dele se sentisse vitorioso.
- Por que nunca tentou se relacionar com alguém depois de tudo? – ela lhe perguntou, e ele a fitou tentando desvendar o que se passava em sua cabeça. No fundo, havia gostado de ela seguir o assunto Fleur. Ninguém o fazia desde o seu divórcio. Respondeu que nunca havia encontrado ninguém interessante e, quando ela novamente ficou vermelha e desviou o olhar dele, ele ficou mais intrigado.
- Por quê? Quer que eu case com você? – Bill perguntou. O monstrinho dentro dele estava se deliciando com as provocações que ele fazia a ela. Ele mentiu que sabia que ela o pediria para se casar com ela, havia perguntado da boca para fora, apenas para vê-la ficar envergonhada. Estava gostando de provocar Hermione.
Percebeu que ela cruzava os braços na frente do próprio corpo com força, e viu que os pelinhos do braço dela estavam arrepiados. Ofereceu, então, seu casaco para ela, e não pôde evitar encarar, por uma fração de segundo, a cicatriz no antebraço dela quando ela o estendeu para pegar a jaqueta. Os dois tinham suas cicatrizes, e isso deixou Bill mais intrigado ainda com ela.
- Então... estou enganado?
- Seria tão absurdo? – ela perguntou, desviando novamente o olhar. Bill, dessa vez, agradeceu isso, pois assim conseguiu disfarçar que havia, na verdade, ficado surpreso com o fato de que ela definitivamente pensava em se casar com ele. Ele havia falado na brincadeira, para provocá-la, vê-la envergonhada. Não via um único motivo sequer para que ela realmente quisesse formar uma aliança com ele, justamente com ele.
- Por que eu? – Bill perguntou, curioso.
- Porque você é a única pessoa que eu conheço e ainda está disponível – ela respondeu. E era mentira, ele sabia que era mentira. Nada passava desapercebido para Bill desde o ataque de Greyback.
O nervosismo esquentava a pele de Hermione, fazendo com que, consequentemente, o perfume adocicado que ela tinha no pescoço corresse mais forte até as narinas de Bill. Ele sentia a musculatura dela enrijecendo e os dedos dela apertando nervosamente os próprios braços sob sua jaqueta. Ela mentia, e ele sabia. E isso o intrigava.
Provocou-a, retribuindo a mentira dela com uma verdade íntima sua. Sentiu-se triunfante quando ela ficou nervosa com a ideia de Bill suprir suas necessidades da lua-cheia com ela. Desde o ataque de Greyback, Bill tinha fortes instintos de predação durante a lua-cheia. Além de comer carne crua, ele ficava possessivo, dominante e, por vezes, violento. Nesses dias, Bill não bebia álcool e evitava situações que pudessem alimentar seus instintos mais selvagens. No início, era comum que ele brigasse em bares e aliviasse sua tensão transando com Fleur. Sua ex-mulher gostava da lua-cheia. Gostava quando Bill a tomava pelos cantos da casa e gostava quando ele comprava briga por ela na rua. Ela nunca tentara tranquilizá-lo, pelo contrário, ela parecia gostar de alimentar esse lado selvagem dele. Por muito tempo Bill não entendeu o motivo, até que o divórcio também lhe clareou as ideias a respeito: Fleur gostava que Bill brigasse por ela, que a reclamasse dele. Fleur não queria um amor tranquilo, ela queria alguém que lutasse violentamente por ela a todo o tempo, ela queria alguém que alimentasse o seu ego. E, quando Bill não conseguia mais suprir essa necessidade narcisista da esposa, ela o abandonou por outro.
Bill vivera o inferno mais vezes do que gostaria e, de certa forma, ficou aliviado com a separação. Não queria uma existência possessiva e violenta, pelo menos não enquanto pudesse ser ele mesmo, distante da influência da lua-cheia. No entanto, ali com Hermione, algo dentro do peito dele se movimentava como um animal enjaulado. Imagens dela contra uma parede, com aquela saia do vestido levantada até a cintura e as pernas em volta do tronco dele invadiram sua mente sem pedir permissão. E isso o deixou mais intrigado do que já estava. Naquela noite, que sequer era noite de lua-cheia, Bill voltou para casa com as calças apertadas demais e tomou um banho frio.
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Foi somente na manhã do quarto dia após a janta n'A Toca que Bill recebeu uma coruja de Hermione. Ele acordou com as bicadas do animal em sua janela e tirou a perna que envolvia sua cintura de cima de si, levantando-se da cama completamente nu e seguindo até a janela. Aproveitou que já estava de pé e acendeu um cigarro, tragando a fumaça e abrindo o pergaminho com calma. Um sorriso zombeteiro escapou de seus lábios quando leu que Hermione havia pensado sobre a possibilidade do que haviam conversado, e gostaria de jantar naquele dia para que tratassem de algumas coisas.
- Recebeu boas notícias? – uma voz manhosa, recém acordada, chegou aos ouvidos de Bill e ele encarou Samantha, que estava na cama ainda enroscada nos lençóis.
- Notícias interessantes, sem dúvidas – ele respondeu, apagando o cigarro e caminhando em direção a cama, e deitando-se sobre a morena.
- Você fica muito sexy fumando – ela comentou, ajeitando-se embaixo dele.
- E você fica muito sexy completamente nua na minha cama – ele respondeu, tomando a boca dela com voracidade e arrancando o lençol que estava entre os dois.
Bill aproveitava a vida de solteiro, havia se envolvido com uma série de mulheres desde o divórcio. Todas sem compromisso algum. Charlie dizia que Bill havia virado um mulherengo e constantemente fazia a piada de que Bill era um quebrador de maldições e, nas horas vagas, um quebrador de corações. Mas Bill discordava. Ele sempre fora completamente honesto com todas as mulheres com as quais se envolveu. Ele sabia como era ter um coração partido, e não tinha pretensão nenhuma de causar a mesma dor em qualquer outra pessoa.
Ele se divertia, e elas se divertiam. Samantha era sua amante mais recorrente. Ela era americana e havia sido transferida do Ministério nos Estados Unidos para o Ministério na Inglaterra, e os dois tinham uma relação muito boa: ela era o mais próximo de um amigo para Bill, e os dois recorrentemente dividiam a cama. Essa relação já se estendia por quatro anos, sofrendo alguns hiatos sempre que ela se envolvia de forma mais séria com outra pessoa. Nesses períodos, Bill ficava com outras, normalmente funcionárias estrangeiras temporárias. Não sabia se tinha um fraco por estrangeiras ou se o fato de elas ficarem por pouco tempo na Inglaterra calhava a Bill, que não queria mais um relacionamento sério.
Assim que Samantha saiu de seu apartamento, dizendo que passaria em casa antes do trabalho, Bill tomou um banho para lavar o cheiro de sexo e cigarro de seu corpo antes de se dirigir a mais um dia completamente tedioso no Ministério. Somente em seu horário de almoço que lembrou que não havia respondido Hermione, então se dirigiu ao corujal do local e escreveu uma carta à castanha, dizendo que aceitava o convite para a janta. Recomendou que fossem até um restaurante que ele havia descoberto alguns anos antes, pouco tempo antes da guerra estourar. A comida era boa, o ambiente aconchegante e dificilmente lotava. Combinou de encontrá-la diretamente na frente do local, por volta das sete horas da noite.
Resolveu aproveitar o intervalo para dar uma caminhada e fumar um cigarro, e colocou-se a pensar na razão de Hermione lhe cogitar para um casamento. Ele não queria se casar novamente, havia brincado sobre o assunto com ela somente para alimentar o próprio ego. Algo dentro dele queria que Hermione também o considerasse atraente, queria provocá-la. Foi pego completamente de surpresa quando ela, de fato, confirmou que estava cogitando pedi-lo em casamento. E ela havia mentido. Ele não era o único solteiro disponível.
Decidido a esclarecer as coisas durante o jantar, escorou-se na vitrine de uma loja, olhando o movimento da rua. Hermione era uma pessoa razoável, ele lembrava bem do quanto todos diziam que ela era inteligente e extremamente pragmática, então considerava que seria bem fácil dizer que estava, na verdade, brincando, e que não se casaria com ela. Não se casaria com ela, mas poderia ajudá-la a encontrar um marido.
Encarando o movimento da rua, surpreendeu-se a ver George atravessando a rua em sua direção.
- Bill! – o irmão mais novo exclamou – que bom te encontrar aqui!
- O que faz por aqui? – Bill respondeu simpático, jogando a bituca de cigarro no chão e apagando-a com o pé. Com um aceno de varinha, colocou a bituca apagada no lixo.
- Tive de resolver algumas coisas no Gringotes, Angelina está cuidando da loja – George explicou – está com tempo? Estou morrendo de fome!
- Claro, acabei de sair para o almoço – o mais velho respondeu.
- Cigarro não alimenta, Billizinho. Você está a dois quilos de perder o posto de Weasley mais bonito para mim, e Angelina não vai gostar nada disso.
Os dois riram e Bill apontou para uma cafeteria na quadra seguinte, e os dois seguiram caminhando lado a lado.
- Como está o trabalho? – George perguntou.
- Tedioso, passo mais tempo respondendo memorandos do que atuando em campo – Bill reclamou.
- É, acredito que seja o ônus de ter Shacklebolt como Ministro – George respondeu – sem bruxos das trevas, comensais e corruptos, acredito que não sobre muita coisa mesmo.
- É, não sobra.
- Mas como tudo tem um lado positivo – George continuou – talvez o próximo Ministro seja um completo incompetente e as coisas voltem a esquentar.
- Achei que a próxima Ministra seria Hermione – Bill comentou, abrindo a porta da cafeteria para que George entrasse. Os dois se dirigiram a uma mesa vazia e tiraram os casacos, apoiando-os nas cadeiras de madeira torneada.
- Pouco provável, meu grande irmãozinho – George respondeu, acenando para que um bloco de notas e uma pena flutuantes fosse até a mesa anotar os pedidos deles.
- Como assim? – Bill perguntou, interessado, e pediu um bife mal passado e uma cerveja de forma automática para a pena.
- Quero um prato do dia, por favor – George respondeu à pena e voltou a atenção para Bill – Hermione tem menos de três anos para casar e ter um filho, e isso simplesmente não vai acontecer. E você sabe o que acontece com quem descumpre a lei.
- E se acontecer? – Bill perguntou, sentindo-se incomodado.
- Não vai acontecer. Hermione pode se fazer de durona, mas eu a conheço – o mais novo bebericava sua bebida e falava como se estivesse falando do tempo, e isso estava, por algum motivo, irritando Bill – ela não vai casar se não for por amor.
- Casamentos por amor duram tanto quando os sem amor – Bill respondeu amargurado – você parece a ter em pouca conta.
- Ok, digamos que ela se case e não seja expulsa do mundo mágico – George largou o copo na mesa – em três meses ela assassinaria o marido e iria para Azkaban. De um jeito ou de outro, ela se ferra.
- Ela não é capaz de assassinar alguém – Bill respondeu no reflexo e George deu uma risada.
- Case com ela então – o mais novo respondeu, em tom de provocação – e vamos ver quanto tempo você dura.
Bill rolou os olhos e agradeceu à garçonete, que trouxe os pratos dos dois. Deu uma garfada em seu bife e o colocou na boca.
- Eu estava brincando – George se justificou – Hermione é uma das melhores pessoas que conheço, e seria a Ministra ideal. Mas falei sério quanto ao casamento. Ela não para um segundo. Primeiro a escola, depois a busca pelas horcruxes, depois a guerra, e depois o trabalho. Todos nós achamos que ela ficaria com Ron, mas isso não aconteceu. E como julgar? Ron nunca foi o suficiente para ela. Hermione nasceu para ficar sozinha, mas infelizmente o Ministério não aceita que bruxos fiquem sozinhos.
As palavras de George deixaram Bill pensativo. O fato de Hermione ter se dedicado tanto e renunciado a tantas coisas em prol do que acreditava, fez com que Bill passasse a cogitar aceitar a proposta da castanha. Ela havia passado os últimos dez anos ocupada salvando a comunidade bruxa das mais variadas formas, então era claro que, em apenas um par de anos, ela não teria tempo para se casar por amor. Não, Hermione nunca se casaria por amor.
Bill sabia, por experiência própria, que casamentos por amor não duram para sempre e causam tanto sofrimento quanto aqueles sem afeto. E, por isso, não se permitia sentir pena de Hermione sem que sentisse pena de si mesmo no caminho. George disse que Hermione havia nascido para ficar sozinha, e Bill bem sabia que ele também havia nascido para ficar sozinho. Talvez, pensava Bill, os dois pudessem se ajudar. Se os dois se casassem, Hermione seguiria na comunidade bruxa e conquistaria seu cargo de Ministra, enquanto Bill seguiria sua vida normalmente, mas com o acalento de que a amiga de sua família estaria segura, e não casada com alguém que pudesse lhe maltratar ou tornar sua vida um inferno. Os dois, de certa forma, poderiam sair ganhando.
