3. O CONTRATO
Hermione havia tomado um bom banho e se arrumou com calma, afinal, tempo era o que não lhe faltava desde que havia tirado a licença obrigatória do trabalho. Trocou algumas vezes de vestido e de sapato, em dúvida sobre qual vestimenta era a mais adequada para se tratar de um casamento por negócios. O pensamento de um casamento por negócios lhe arrancou um riso baixo de incredulidade e escárnio.
- Quem diria que Hermione Granger se submeteria a isso – a castanha reclamava para si mesma, em voz baixa, enquanto alisava o vestido simples e preto por puro costume, já que suas roupas pretas ficaram livres de pelos desde o falecimento de Bichento, há quase dois anos.
Retocou, pela última vez, o batom e ajeitou as mechas onduladas que caíam de seu coque. Ela tinha tempo, mas já faziam bons anos desde que ela havia perdido a vontade de fazer qualquer coisa diferente com o cabelo. Não tinha paciência de ajeitar as ondas castanhas, e tinha preguiça de alisar os fios. A solução era sempre o bom e velho coque bagunçado que, naquele dia, conferia um ar despojado a ela, que estava totalmente arrumada. Satisfeita com o que enxergava no espelho, colocou um casaco de lã batida preto sobre os ombros e saiu do apartamento, escutando o barulho dos próprios saltos ecoando pelos corredores do edifício.
Hermione morava em um bairro trouxa relativamente próximo do Ministério da Magia. Ela poderia, claramente, optar por um distrito bruxo, mas isso acabaria por dificultar as visitas de seus pais. Não que seus pais lhe visitassem com frequência, já que haviam se mudado para o interior da Inglaterra logo após recuperarem a memória depois da guerra, mas a bruxa preferia manter as possibilidades em aberto. E ela gostava muito de onde morava. Seu prédio não era muito moderno, em verdade era bastante antigo, mas muito bem cuidado. Tinha um ar de biblioteca antiga que simplesmente havia encantado a castanha, e os lances de escada eram poucos até o seu apartamento, que ficava no terceiro e último andar.
O apartamento era amplo, com dois dormitórios, uma estante de livros que tomava um canto inteiro da sala, e inclusive tinha uma escada em trilho para que ela conseguisse alcançar os exemplares que ficavam no alto. A varanda era ampla e contava com uma mesa redonda de bistrô que Hermione herdara de sua avó, quatro cadeiras e muitas plantas. A luz baixa e amarela deixava aquele ambiente externo muito confortável e aconchegante durante o verão para receber os amigos, o que também raramente acontecia. Com Harry e Ginny morando em Godrics Hollow e todas as reuniões acontecendo n'A Toca, raramente Hermione recebia visitas ali. Ela jamais admitiria, mas isso a deixava um pouco chateada. Ela gostava de receber pessoas, e gostava de dividir seu próprio espaço com as pessoas que amava, mas isso simplesmente nunca acontecia. Hermione amava seu pequeno lar, mas com o passar do tempo e a morte de Bichento percebeu que ele era, na verdade, muito grande para apenas ela.
Hermione caminhou a passos largos até a esquina, olhou para os lados para se certificar de que não havia ninguém olhando e aparatou para o endereço indicado por Bill. Chegando ao local, cogitou ter errado o endereço. Era uma rua fracamente iluminada e com pouco movimento, e com certeza não havia nenhum restaurante ali por perto. Suspirou nervosa e caçou dentro do bolso do casaco o papel contendo o endereço novamente, a fim de certificar de que não estava perdida. Confirmou, frustrada, que o endereço no papel era o mesmo endereço indicado na placa da rua, e passou a caminhar de um lado para o outro, atenta a qualquer movimento.
- Como consegue andar tão rápido de um lado para o outro nesses saltos? – a voz divertida de Bill chegou aos seus ouvidos e ela se virou para ele, aliviada. Assim que o fez, Bill deu um assovio baixo – Você está ótima.
- Se eu soubesse que me traria até o beco onde provavelmente vai me matar e esconder meu corpo, não teria vindo de salto – ela perguntou e sorriu de volta, aproximando-se dele. Bill soltou uma risada.
- De fato não é lugar mais convencional para um encontro – ele respondeu e estendeu o braço para que ela enlaçasse o seu próprio – vamos?
- Um encontro?
- Bom... – ele coçou a cabeça com a mão livre, o que fez com que algumas mexas de seu cabelo se soltassem de seu rabo de cavalo – viemos falar de casamento, então não vejo problema em chamar isso de encontro.
- Você tem um ponto – ela respondeu, pensativa, enquanto sentia Bill a conduzir até uma portinhola escura no fim da rua sem saída.
Bill deu três batidas na portinhola e disse alguma palavra que ela não conseguiu identificar. Não era um feitiço, mas com certeza era latim. E, assim que ele o fez, a portinhola abriu e ele a conduziu para dentro do ambiente, revelando um restaurante extremamente aconchegante. O ambiente era íntimo, as mesas eram redondas e cobertas parcialmente por toalhas vermelhas. Acima de cada mesa, uma grande arandela suspensa iluminada os pratos e taças, e Hermione percebeu que poderia descrever o lugar como "romântico".
O ruivo puxou uma cadeira para que ela se sentasse e, logo após, puxou uma cadeira para si mesmo, de forma que ficasse de frente para ela, mas próximo o suficiente para que seus joelhos se tocassem. Hermione olhou em volta e percebeu que o público do local era um tanto quanto diverso. Em algumas mesas havia duendes, em outras homens corpulentos que lembravam muito Hagrid e em outras, para a surpresa da castanha, alguns elfos domésticos trajando roupas muito chamativas. Um sorriso sincero escapou dos lábios de Hermione, e Bill percebeu.
- Como descobriu esse lugar? – ela perguntou, encantada, mirando-o nos olhos.
- Quando eu fui atacado por Graybeck, não eram todos os lugares que me recebiam bem – ele deu de ombros – então nós costumávamos jantar aqui.
- "Nós"? Você e Fleur? – Hermione perguntou, sentindo-se estranhamente incomodada com o fato de estar num restaurante com Bill onde ele costumava jantar com a ex-esposa.
- É claro que não – ele respondeu rápido, bufando como se Hermione tivesse perguntado algo absurdo – eu e Remus. Ele que me apresentou a esse lugar. Fleur jamais pisaria em um restaurante com esse público.
- Eu gostei daqui – Hermione respondeu, os olhos ocupados na mesa dos elfos domésticos bebendo Firewhisky e um sorriso brincando em seu rosto – e eu sinto falta de Remus.
- Eu também – ele respondeu, cúmplice, brincando com o guardanapo em cima da mesa e esbarrando suas mãos, vez que outra, nas de Hermione. Ela ficou atenta aos movimentos dele e sentiu os pelos de sua nuca arrepiarem com o toque descuidado e repentino dele – ele era um ótimo amigo e me ajudou muito quando precisei.
A castanha não teve tempo de responder, pois logo um bruxo com inúmeras cicatrizes no rosto e nos braços apareceu para tomar os pedidos deles. Bill pediu, como de costume, um bife mal passado e um copo de cerveja, e se surpreendeu quando Hermione pediu o mesmo, mas solicitando que o bife viesse ao ponto. Os pedidos chegaram relativamente rápido e, após dar o primeiro gole na cerveja, Hermione quebrou o silêncio.
- Você estava falando sério? – ela perguntou.
- A respeito do quê?
- Casar comigo – ela explicou, nervosamente colando as palmas de suas mãos uma na outra, como se estivesse fazendo uma oração – eu sei dos meus motivos para me casar, mas você aceitou tão rápido. Por quê?
- Para ser honesto, eu havia aceitado de brincadeira – ele respondeu de forma displicente, se jogando para trás na cadeira, e Hermione arregalou os olhos. Com as bochechas muito vermelhas, completamente envergonhada, a castanha se levantou da mesa e estava prestes a ir embora, quando Bill foi mais rápido e segurou sua mão em cima da mesa – mas então eu pensei a respeito e cheguei à conclusão de que na verdade é uma ótima ideia.
Hermione não estava convencida, mas se sentou novamente na cadeira. Bill ainda segurava sua mão com firmeza. Ele a encarava de forma intensa e algo se remexeu dentro do estômago da bruxa. Bill era, com certeza, um dos homens mais bonitos que ela já convivera. Os cabelos ruivos, que chegavam na altura de seu queixo, estavam presos de qualquer jeito em um rabo de cavalo bagunçado. A barba estava maior do que da última vez que o vira, e tudo contrastava com os olhos azuis muito claros dele. Bill era magnético.
- Por que eu? Eu sei que não sou o único solteiro disponível – ele perguntou, e Hermione sabia que não conseguiria mentir para ele. Ela suspirou e relaxou na cadeira, e Bill afrouxou o aperto em sua mão, mas não a soltou.
- Porque eu confio em você – ela respondeu – eu passei grande parte da minha vida com a sua família e lutando ao lado de Harry e Ron. Você é um deles, por mais que você seja mais distante do que os outros, você é família, minha família. Eu sei que não vou me casar por amor, eu sei que não tenho mais tempo para encontrar o amor, e sei que o Ministério não vai permitir que eu seja feliz sozinha. Então você é a única possibilidade que eu enxergo de não ser infeliz. Você é minha única possibilidade de me sentir segura.
Bill arrastou a sua cadeira para mais perto dela e gentilmente secou uma única lágrima que escorreu dos olhos dela com o guardanapo. Hermione conseguia sentir o perfume dele misturado com o cheiro do cigarro que ele provavelmente havia fumado antes de encontrá-la. O ruivo aproveitou que já estava com sua mão junto ao rosto de Hermione e acariciou a bochecha dela.
- Eu me casei por amor, até que o amor acabou – ele dizia, com a voz muito suave, enquanto roçava o seu dedo polegar na bochecha da castanha – e eu poderia viver sozinho, o Ministério não se importaria, mas eu não quero. Não quero viver sozinho, pelo menos não sabendo que eu poderia ter impedido a sua infelicidade. Não quero viver sozinho e te encontrar nas jantas n'A Toca com um marido que te priva de viver. Eu não posso te garantir que eu serei feliz e que você será feliz, mas eu posso te proteger e sei que posso fazer possível para que você viva a sua vida do jeito que quer vivê-la. É por isso que eu acho que essa sua ideia é, na verdade, uma ótima ideia.
Hermione soltou um riso baixo e ele riu com ela. Ele colou sua testa na dela e fechou os olhos.
- Temos um trato? – ele perguntou, levantando seu dedo mínimo, convidando-a a fazer uma promessa de dedinho. Ela sorriu e cruzou seu mindinho com o dele.
- Sim, nós temos.
- É estranho que esse esteja sendo o encontro mais tranquilo que eu já tive em toda a minha vida? – ele perguntou divertido e ela sorriu, limpando o resto das lágrimas de seu rosto.
- Então você teve péssimos encontros – ela respondeu e ele riu. Percebendo a proximidade entre eles, Hermione se afastou um pouco, arrastando sua cadeira para trás. Bill repetiu o gesto e se colocou a comer sua comida.
Hermione passou a comer seu bife e percebeu que Bill comia muito rápido. Ela ainda estava na metade do prato, enquanto ele já tinha os talheres cruzados sobre o prato e bebericava sua cerveja. Viu ele acenar para o garçom, pedindo outra cerveja, o homem cheio de cicatrizes e aproximou, levando o copo e o prato vazios e deixando um novo copo transbordando do líquido dourado na frente de Bill.
- Ele é um lobisomem também? – Hermione perguntou interessada.
- Como assim "também"? – Bill perguntou, divertido – eu não sou um lobisomem, pelo menos não completamente.
- Você entendeu o que eu quis dizer, William – ela respondeu.
- Ouch – ele respondeu – sim, ele é um lobisomem. Não é só o público que é bem diversificado aqui, o pessoal que trabalha também. Nessa região pessoas como Remus e ele têm oportunidades de emprego digno. Provavelmente eu trabalharia aqui também se tivesse sido infectado por completo.
- É simplesmente injusto – Hermione pontuou, parecendo irritada e largando os talheres cruzados em cima do prato agora vazio – o Ministério nunca deu oportunidades para bruxos como Remus, e mesmo assim tiveram a cara de pau de fingir surpresa quando grande parte deles se aliou a Você-Sabe-Quem. O mundo bruxo perpetua as ideias racistas de Grindewald e Você-Sabe-Quem de forma consciente!
Bill soltou uma sonora gargalhada, e Hermione o encarou com os olhos cerrados.
- Eu não vejo a hora de você ser nossa Ministra, Hermione – ele respondeu, puxando um cigarro do bolso – e lembrei agora de quando Ron e os Gêmeos me contaram que você fundou a F.A.L.E., aliás, como anda isso?
- Não anda – ela bufou – muitas ideias minhas são barradas quando chegam no Conselho. Eu sinceramente duvido que de fato vire Ministra no futuro.
- Eu tenho certeza de que você vai – ele respondeu – tudo o que você quer, você consegue. Especialmente quando é para proteger as pessoas que você ama. Admiro isso em você.
Hermione corou e bebeu o resto de sua cerveja, e Bill acenou para que o garçom trouxesse um segundo copo para a bruxa, e um terceiro para si mesmo.
- Bom... – ela começou a falar, sem graça – já que realmente vamos fazer isso, temos que resolver as coisas mais práticas.
O garçom chegou com os dois copos de cerveja e largou na mesa, e Bill se inclinou para Hermione.
- Estou ouvindo.
- Você vai se mudar para o meu apartamento ou eu para o seu? Eu realmente gostaria de ficar no meu apartamento – Hermione vomitava as palavras, assim como fazia em Hogwarts – o quarto de hóspedes nunca teve hóspedes, então ele está praticamente pronto para você, se você o quiser. Posso me desfazer de algumas coisas para acomodar as suas também, então não seria um probl...
- Calma, Hermione – Bill a interrompeu, rindo – acredito que primeiro devemos assinar o contrato, não?
- Sim, você tem absoluta razão – ela respondeu olhando para baixo, como se estivesse perguntando a si mesma como não havia pensado no óbvio antes.
- Como você é uma das Supervisoras do Departamento de Execução de Leis de Magia, eu deixo você cuidar do contrato – Bill pontuou – quanto ao apartamento, eu também gosto bastante do meu.
O ruivo viu quando Hermione abriu a boca para responder, mas desistiu e baixou o rosto, suspirando.
- Mas eu acredito que o seu seja maior, então eu posso me mudar – ele respondeu, por fim, arrancando um sorriso agradecido da castanha – e acho que seria prudente conversarmos sobre a minha... situação.
- O que quer dizer? – ela perguntou.
- Minha situação lupina.
- Ah – ela exclamou, entendendo do que se tratava – você tem alguma necessidade especial que eu deva saber ou que devamos nos preparar?
- Não foi você a sabe-tudo que tranquilizou minha mãe dizendo que eu não me tornaria um lobisomem? – ele perguntou, fingindo incredulidade e soltando uma risada sonora.
- Eu só repeti o que Remus havia dito – ela se explicou, com o rosto muito vermelho e dando de ombros – eu andei procurando nos livros sobre infecções por lobisomem, mas não achei nada parecido com você.
- Bem... Além da alimentação crua eu tenho impulsos sexuais muito fortes durante a lua-cheia – ele explicou calmamente, mas Hermione sabia que ele estava se deliciando com o fato de deixá-la completamente constrangida – às vezes fico um pouco violento, possessivo.
- Tranco minha porta, então? – ela perguntou, engolindo em seco, e ele riu.
- Não vai adiantar – ele respondeu, e encarou-a com olhos ferinos – mesmo agora, que estamos a duas semanas da lua cheia, eu sinto o seu perfume há quarteirões de distância. Com você dentro do mesmo apartamento, não é uma porta que vai me impedir.
Hermione sentia as bochechas pegando fogo, mas passou de constrangida a raivosa quando viu um sorriso zombeteiro passear pelos lábios de Bill, mostrando que ele estava se divertindo muito com a situação. Ela, então, inclinou-se para frente e disse, muito séria:
- Então você pode arranjar um hotel nesses dias, o que acha?
Bill abriu um sorriso de vez. Ele se divertia provocando-a e havia claramente adorado que ela tivesse entrado de cabeça na provocação. Afinal, brincar sozinho não tinha graça alguma. Hermione não aguentou e desatou a rir. Os dois riram por longos segundos, até que a castanha olhou no relógio e viu que já estava tarde. Ela pretendia já no dia seguinte ir até o Ministério e buscar a documentação necessária para oficializar sua união com Bill, e, para isso, precisava dormir.
O ruivo não deixou que ela pagasse a conta e os dois saíram do restaurante para a rua escura.
- Posso te acompanhar até em casa? – ele perguntou, com as mãos no bolso – estranhamente, sinto como se essa fosse a última noite antes de uma nova vida começar, e não queria que ela acabasse agora.
Hermione sorriu e assentiu positivamente, e os dois passaram a caminhar lado a lado na rua. A castanha lhe perguntava sobre seus anos em Hogwarts, sobre suas viagens e sua vida, pois ao mesmo tempo em que parecia conhecer Bill sua vida inteira, muito pouco sabia dele. E o sentimento era mútuo. Bill só sabia dela o que os outros lhe contavam, jamais tinha engatado um assunto longo com ela. Os dois conversaram muito sobre Remus. Hermione sentia muitas saudades do ex-professor, que havia se tornado um grande amigo. Ela não sabia, mas constantemente Remus falava dela para Bill, e fora por intermédio dele que o ruivo soube da maioria das coisas que sabia sobre a castanha.
O assunto fluiu de forma natural, vez que outra os dois riam e os braços se tocavam, e quando deram por conta, já estavam em frente ao prédio de Hermione. A castanha subiu o pequeno lance de escadas da entrada do prédio e se virou para ele.
- Eu realmente gostei muito de hoje – ela disse – e obrigada.
- Não precisa me agradecer – Bill respondeu, lançando uma piscadela para ela – e pode me fazer um favor?
- Claro, o quê?
- Nunca mais me chame de William – ele respondeu e ela soltou uma risada.
- Mas é o seu nome, você me chama de Hermione!
- Então vou ter que inventar um apelido para você – ele respondeu e subiu um degrau do lance de escadas. Estavam a dois degraus de distância e ficavam da mesma altura.
- Você quer sua jaqueta de volta? – ela perguntou.
- Não precisa, em breve todas as minhas coisas estarão aqui também. Todas as minhas coisas e eu – ele respondeu sorrindo, e ela sorriu de volta.
- Boa noite, Bill – ela disse, inclinando-se para frente e depositando um beijo na bochecha dele.
Ela se virou para o prédio e, antes que fechasse a porta, ouviu ele responder um "boa noite, Mione".
