Mais uma vez te dedico um capítulo, Gabriela! Espero que esteja gostando da história, mesmo ela se desenvolvendo bem aos pouquinhos.
Eu tenho uma imagem muito específica do Bill na minha cabeça, assim como do Sirius. Já li algumas fanfics com o Bill, e confesso que não consigo enxergar ele como um garanhão ou um homem extremamente sarcástico e sedutor (que é como muitas fics retratam ele). Para mim, o Bill é essa pessoa doce e carinhosa, mas que teve o azar de passar a conviver com as consequências do ataque do Greyback. E justamente por ele ser essa pessoa doce, mas complexa, não vejo outra forma de retratar ele do que bem aos pouquinhos.
Eu não tenho uma periodicidade certa pra postar os capítulos dessa e das outras fics porque eu estou atolada de prazos do trabalho, e aproveito o tempo livre para escrever aqui.
Aguardo, como sempre, reviews (:
6. VOCÊ É COMO REMUS
Assim que aparataram no apartamento de Hermione, a bruxa conduziu o ruivo até o sofá, e ele se sentou com os cotovelos apoiados nos joelhos, a cabeça baixa entre as mãos. Ela se ajoelhou na frente dele e tomou as mãos deles nas suas.
- Vamos limpar você – ela murmurou e, sacando a varinha de sua bolsinha, apontou-a para as mãos de Bill e retirou todo o sangue que havia ali.
Ele havia machucado os nós dos dedos, que estavam esfolados, e ela resolveu que ajeitaria uma coisa de cada vez. Conduziu, hesitantemente, suas mãos até a barra da camisa dele e ele lhe ajudou a tirar a peça ensanguentada. Bill já não chorava, apenas estava quieto acompanhando os movimentos dela com atenção. Observou ela levantar e buscar uma pequena caixinha, da qual tirou um frasco que ele sabia ser Ditamno, voltando à posição que estava antes e pingando algumas gotas nos nós dos dedos dele, curando instantaneamente as feridas. Acompanhou o olhar atento dela enquanto os dedos finos corriam pelos braços dele a procura de algum outro ferimento. Bill segurou as mãos dela e encostou sua testa na dela, de olhos fechados.
- Obrigada – ele sussurrou, e abriu os olhos, encontrando os dela. As duas bolitas cor de chocolate não o olhavam com medo, ou nojo, ou mesmo desejo como Fleur o olhava quando ele perdia o controle. Hermione lhe direcionava um olhar de solidariedade e companheirismo. Ela dizia, sem a necessidade de palavras, que o compreendia.
- Estamos juntos nisso, Bill – ela respondeu, e ele sorriu fracamente.
- Sinto-me tão culpado – ele confessou, e ela conseguia ver a culpa através dos olhos azuis dele – eu perdi o controle, eu... eu não deveria...
- Eu sei – ela o confortou – Ron não deveria ter dito o que disse.
- Não justifica o que eu fiz. Eu sou um monstro.
- Você não é um monstro, Bill – ela se apressou a responder e segurou o rosto dele entre as mãos – você é um bom homem, e um ótimo amigo. E um irmão excepcional. Todos sabem disso. Eu sei disso. E Ron sabe disso. Eu tenho certeza de que em uma semana vocês dois já vão ter acertado as coisas.
- Como você pode ter certeza?
- Porque Ron já disse coisas ruins para mim e para Harry antes. E, acredite, você não foi o único a querer bater nele.
Bill riu e Hermione deu um sorriso aliviada por ter conseguido fazê-lo se sentir melhor.
- Vai ficar tudo bem, você vai ver – ela disse, colocando os fios de cabelo ruivo para trás da orelha dele. Ele tomou a mão dela na sua e depositou ali um singelo beijo.
- Eu acho que eu deveria voltar para casa e deixar você descansar- ele anunciou.
- Você pode ficar – ela respondeu, e imediatamente ficou com as bochechas quentes – eu já arrumei o seu quarto. Você não precisa ir embora, se não quiser.
Ele estava tão cansado que acabou aceitando. Hermione separou para ele uma toalha e uma camiseta larga dela, desculpando-se por ser a única grande o suficiente para caber nele. Ele riu ao ver a estampa de gatinhos na peça de roupa azul bebê. Antes que Bill entrasse no banheiro, Hermione se despediu dele com um abraço e um beijo na bochecha, e desapareceu dentro do seu próprio quarto.
Bill tomou um banho demorado e vestiu a mesma cueca que estava usando, apenas lavando-a com um aceno de varinha. Vestiu a camiseta e se deitou na cama, demorando a pegar no sono. Afinal, não era a sua cama, não estava acostumado com aquele colchão. Pensou que deveria tratar de se acostumar, já que aquela seria sua cama a partir do momento em que assinassem o contrato. Após se revirar algumas vezes entre os lençóis, pegou no sono e dormiu.
No dia seguinte, Bill acordou e se dirigiu à sala, encontrando uma Hermione de cabelos molhados sentada no sofá com uma xícara de café em uma mão, que estava apoiada no braço do sofá, e um livro em outra. Ela usava um suéter verde escuro visivelmente gasto e uma calça justa de moletom cinza. Os pés, descalços, estavam sobre o sofá também verde. O ruivo sorriu com a cena. Pela primeira vez analisava o apartamento da bruxa, já que na noite anterior estava muito abalado para notar qualquer coisa do tipo. Conseguiu visualizar que Hermione era tão organizada quanto ele, mas que o espaço dela era mais aconchegante do que o seu loft. Mais claro, mais caloroso, mais feliz. Era um lar.
Ele percebeu que vestia somente a camiseta e a cueca, então tratou de transfigurar a cueca em uma calça, a fim de evitar qualquer constrangimento. Anunciou sua aproximação com um pigarro, e ela desviou os olhos do livro com um arrepio e o encarou.
- Bom dia, Bill – ela sorriu, largando o livro na mesinha de centro e esfregando o braço do sofá com os dedos, tentando secar as gotas de café que acabou derramando com o susto.
- Bom dia – ele respondeu, e ela tirou os pés do sofá para que ele se sentasse. Com um aceno de varinha, ela trouxe uma xícara cheia para ele, que aceitou agradecido.
- Como você dormiu? – ela perguntou.
- Demorei um pouco para pegar no sono, acho que estranhei não estar na minha própria cama. Mas dormi muito bem, apesar de acordar ainda me sentindo um lixo.
- Ron está bem – Hermione o tranquilizou, olhando-o com olhos carinhosos – George enviou uma coruja hoje cedo.
- O quão mal eu o deixei? – ele perguntou, desviando os olhos para sua xícara.
- Um nariz quebrado e um supercílio cortado. Duas áreas que realmente sangram muito, mas que são fáceis de se reparar – ela disse – ainda mais com magia. Ron já está novo.
- Isso é bom – ele comentou baixo, sacudindo a xícara de café em movimentos circulares enquanto encarava a bebida quente.
- Bill – Hermione chamou, e ele a encarou – ninguém culpa você. Está realmente tudo bem.
- Eu estava pensando... – ele começou – eu sei que você quer voltar logo ao trabalho, então, se estiver tudo bem com as nossas testemunhas, podemos assinar o contrato hoje. Mas eu não vou me mudar.
- Como assim você não vai se mudar? – ela perguntou preocupada. Inúmeros pensamentos passaram pela cabeça dela. Se ele não ia se mudar, qual o objetivo de se casarem? O Ministério não quer apenas um documento assinado, ele quer crianças bruxas.
E Hermione tinha pouco tempo para providenciar uma criança. E ela precisaria de Bill para isso. Precisaria de Bill, junto dela, na cama. O pensamento esquentou seu rosto inteiro. Se eles morassem juntos, tudo poderia ocorrer de forma mais... natural? Poderiam aproveitar um momento em que o ruivo estivesse sob o efeito da lua e precisasse de alguém para se aliviar, e que Hermione estivesse sob o efeito de três cálices de vinho para tomar coragem. Por Merlin, por que eu estou pensando nisso agora? Por que imagens disso estão brotando na minha cabeça? Como já esperado, Bill percebeu. Ele não lia pensamentos, mas ele conseguia ler todas as reações do corpo dela e, com isso, podia imaginar o que se passava na cabeça dela.
- Eu vou me mudar – ele a tranquilizou – mas prefiro que seja após o fim da lua desse mês. Eu não quero correr o risco de perder o controle e te machucar.
Ela abriu a boca para responder, mas ele a interrompeu.
- Eu sei o que você vai dizer, Mione. A lua acontece todos os meses, e cedo ou tarde você vai ter que conviver com isso – ele disse, encarando-a com aqueles olhos muito azuis – mas eu gostaria de poupar você um pouco mais de cenas como a de ontem. Eu só preciso de um tempo.
- Okay – ela respondeu baixo, e dirigiu a ele um sorriso solidário – você pode vir quando se sentir pronto.
- Obrigada – ele agradeceu de forma sincera, e terminou o conteúdo da xícara. Olhou para os lados com curiosidade, procurando algo – você não tinha um gato?
- Bichento morreu há alguns anos – ela deu de ombros.
- Eu não sabia – ele comentou.
- Ele já era bastante idoso, viveu o tempo que deveria viver – ela sorriu tímida para o ruivo.
Os dois ficaram em silêncio alguns minutos, até Bill anunciar que iria embora para trocar de roupa antes do trabalho. Ela assentiu e viu ele desaparecer dentro do quarto de visitas e voltar já calçado, pronto para sair. Hermione o levou até a porta e, antes que ele cruzasse o batente, puxou-a junto a si e a abraçou, afundando a cabeça nos cabelos dela. Passada a surpresa, ela correspondeu e enlaçou a cintura dele com seus braços, pousando a cabeça no peito dele. Ele beijou seus cabelos.
- Obrigada, Mione – ele sussurrou – por tudo. Sinto-me sortudo pela perspectiva de dividir a minha vida com você, apesar de lamentar que você tenha que dividir a sua comigo.
- Pare de arruinar um abraço tão bom – ela reclamou, e ele riu.
Bill deu um último beijo no topo da cabeça dela e adentrou o corredor do prédio.
- Encontro você no fim da tarde na Seção de Contratos? Ginny pediu para que adiássemos para esse horário – ela perguntou, e ele confirmou. Assim que fechou a porta, Hermione voltou ao seu livro.
Quando Bill chegou ao Ministério, entrou em sua sala e, como de costume, respondeu aos passarinhos de papel que sobrevoavam sua mesa. No intervalo para o almoço, ainda estava completamente sem ânimo e sem fome, além de temer encontrar alguém de sua família pelos corredores, então permaneceu em sua sala olhando para o teto. Ficou quase que feliz quando foi convocado para uma reunião que se estenderia pela maior parte da tarde, pois isso significava que ele poderia se distrair com algo além de seus próprios pensamentos intrusivos.
A reunião acabou perto das quatro e meia da tarde, e ele só teria que encontrar Hermione, Harry e Ginny às cinco. Foi surpreendido, no entanto, por Harry, que bateu três vezes na porta de sua sala anunciando sua entrada. O cunhado o cumprimentou e se sentou à sua frente.
- Eu passei aqui para saber como você está – o moreno disse, respondendo ao olhar indagador do ruivo.
- Para ser honesto, não estou bem – Bill confessou, massageando a têmpora com o indicador – estou com raiva, envergonhado, preocupado, culpado. Estou muitas coisas para decidir uma só como resposta.
Harry o analisou por algum tempo, pareceu buscar as palavras dentro de sua cabeça.
- Depois que Sirius morreu Tonks perdeu a cor dos cabelos – Harry começou a falar, atraindo a atenção do ruivo – e eu lembro que tanto eu, quanto Hermione e seus irmãos achávamos que era porque ela estava muito abalada pela morte dele. Achávamos que, talvez, ela tivesse sentimentos por ele. É bastante comum dentro das famílias puro-sangue, pelo que eu soube.
Bill não respondeu, não estava entendendo aonde Harry queria chegar.
- Foi somente muito tempo depois que eu soube que os cabelos dela haviam perdido a cor por causa de Remus – Harry continuou falando – ela havia se apaixonado por ele, e ele por ela. Isso não é novidade nenhuma para você, todos sabem, e Teddy é a prova viva disso. Mas o que poucos sabem, talvez eu seja a única pessoa a saber, é que ele a rejeitou inúmeras vezes. Mesmo após o nascimento de Teddy, Remus se arriscava em missões suicidas só para ficar o mais longe possível dela e do filho. Você sabe por quê?
- Não – Bill respondeu, encarando Harry com atenção.
- Ele tinha medo – Harry falava, e seus olhos verdes penetravam nos azuis de Bill – ele passou a vida com medo. Medo de machucar alguém, medo de passar a maldição para um filho, medo de condenar uma pessoa a viver a vida com ele, medo de acabar perdendo o controle com alguém tão importante para ele. Remus não se achava digno do amor e de uma família e, no entanto, ele teve os dois. Você me lembra ele.
- Por que está me dizendo isso? – Bill perguntou, sentindo um nó na garganta. Ele mesmo se identificava muito com Remus, o amigo que tanto lhe ajudou após o ataque do lobisomem.
- Porque eu acho que você tem uma ideia errada de você e do que os outros pensam de você – Harry explicou – Assim como Remus, que era um lobisomem de fato, você nunca machucou propositalmente ninguém. E, assim como Remus nunca machucou Tonks, eu sei que você nunca vai machucar Hermione. Ninguém culpa você por ontem, Bill.
Bill sentiu os olhos marejados e passou a encarar as próprias mãos, que estavam cruzadas em cima de sua mesa. A possibilidade de acabar machucando Hermione, que estava sendo tão boa para ele, contaminou seus pensamentos o dia inteiro. E Harry parecia saber disso. Não sabia o que dizer. Não esperava ouvir essas palavras do cunhado. Não esperava ouvir de mais alguém além de Hermione que ele não era um monstro.
- Ron foi estúpido, e ele está bem e livre de qualquer risco – Harry disse – então acho que é um bom momento para dizer que você apenas fez o que todos nós, em algum momento, já pensamos em fazer. Bem... talvez não com tanta intensidade, mas você entendeu.
Bill soltou uma risada e Harry o acompanhou.
- Hermione me disse a mesma coisa ontem – Bill comentou.
- Bom, ela é a pessoa que mais teve motivos em todos esses anos, mas isso você já deve saber.
Ele não sabia. Ele não sabia a razão do término do irmão com Hermione, e sabia muito menos de tudo o que os dois passaram juntos desde que eram crianças em Hogwarts. A verdade é que Ron nunca foi o irmão mais próximo de si, e Bill sempre soubera muito pouco da vida dele.
- Obrigada, Harry – o ruivo agradeceu de forma sincera. Sentia-se grato pelas palavras do cunhado.
- Não precisa agradecer – Harry respondeu, levantando-se da cadeira – já é quase cinco horas. Vamos?
Bill se levantou da cadeira e deu duas batidas na lateral das calças, uma mania que ele adquiriu do tempo em que morou no Cairo e tinha que constantemente bater nas roupas para tirar a areia que se acumulava no tecido. Os dois andaram juntos até o elevador, e Bill percebeu que todos cumprimentavam Harry. E não era para menos, o rapaz havia derrotado Voldemort, sacrificado a si mesmo para salvar o mundo bruxo.
O elevador estava lotado quando entraram, então Bill e Harry tiveram que ficar espremidos no canto até finalmente chegarem no Setor de Contratos. O ruivo nem sabia qual fora a última vez que teve que ir ali, talvez só tenha ido no dia em que assinou seu contrato de trabalho como quebrador de maldição. E isso havia sido quando? Quinze anos atrás? Dezessete? Dezoito? Nem lembrava mais.
Assim que chegaram, Bill viu Hermione e Ginny escoradas no balcão conversando com uma funcionária do Ministério. Quando as duas perceberam a presença dele e de Harry, Ginny lhe direcionou um sorriso solidário, enquanto Hermione estava nervosa. E ele sabia. Podia ouvir o sangue correndo apressado pelas artérias e veias dela, podia ouvir o coração batendo acelerado e podia sentir o cheiro das gotas de suor que se formavam nas têmporas dela. Talvez Bill só quisesse tranquilizá-la, ou talvez a lua lhe compelisse a ficar mais perto dela, mas o fato é que o ruivo passou seu braço pela cintura dela e acariciou a lombar dela com a palma da mão em sinal de conforto.
Os papéis já estavam em cima do balcão, e a funcionária – que estava identificada como Berta em seu crachá – chamava um por um para que assinassem na linha designada. Primeiro foi Ginny, depois Harry, e depois Bill. Quando a vez de Hermione chegou, ela pegou a caneta desajeitadamente e assinou o próprio nome na linha.
- Parabéns aos dois – Berta abriu um sorriso, recolhendo os papéis e batendo a ponta das folhas no balcão a fim de alinhá-los – vocês podem trocar as alianças agora, se quiserem. Muitos casais preferem fazer isso na cerimônia, mas já vi alguns mais pragmáticos fazendo aqui durante a assinatura.
Hermione ficou vermelha e entregou a caneta apressadamente à mulher, murmurando que já estavam atrasados, mas que agradecia o tempo dela. A castanha ficou tão nervosa que sequer percebeu que Berta estendia a ela a Certidão de Casamento, então Bill se adiantou para pegar o papel e o guardou em seu bolso. Quando os quatro chegaram em frente ao elevador, um silêncio constrangedor tomava o corredor.
- Bom, está feito – Bill comentou, querendo quebrar o silêncio.
- O mundo perdeu uma Weasley quando me casei com Harry, mas acaba de ganhar uma agora – Ginny brincou, tentando dar uma força ao irmão.
Harry encarava Hermione, que estava alheia ao assunto e já havia apertado o botão do elevador três vezes. Bill também percebeu, e colocou uma mão sobre o ombro dela.
- Você está bem? – o ruivo perguntou.
- Estou – ela respondeu – é só... esquece.
O elevador chegou e, novamente, estava lotado. Hermione se enfiou rapidamente entre as pessoas ali e os amigos tomaram seu exemplo. Alguns bruxos comentavam assuntos de trabalho, e aos poucos o elevador ia esvaziando, para depois encher novamente. Quando chegaram ao Departamento de Aurores, Harry e Ginny se despediram antes de deixar o cubículo. Bill observava Hermione com atenção. Ela estava tensa, mas sua respiração estava controlada. Se o ruivo conseguisse ler mentes, encontraria a castanha contando mentalmente num exercício de respiração para aliviar a ansiedade. O elevador parou novamente, e dois bruxos desceram. Agora só restava Hermione, Bill, e um bruxo que mexia nervosamente em alguns relatórios.
- Está voltando para casa? – Bill perguntou, aproximando o corpo do dela para dar passagem ao bruxo que saía do fundo do elevador e ficava em frente a porta, esperando seu andar chegar.
- Sim, Shackelbolt já foi embora – ela respondeu – então eu só poderei entregar a certidão amanhã. Merlin, eu esqueci a certidão!
- Está comigo – o ruivo a tranquilizou – está no meu bolso... Posso te acompanhar até em casa?
- Claro – ela respondeu – mas você não precisa voltar para o trabalho?
- Eu já terminei o que precisava.
Os dois saíram do elevador e caminharam em silêncio até a saída do Ministério. Quando chegaram na rua, o céu estava alaranjado anunciando que em breve o dia acabaria. Bill caminhava com as mãos no bolso, e Hermione segurava com força a bolsa que carregava pendurada no ombro.
- O que você ia dizer? – ele perguntou.
- Como assim?
- Lá no Ministério, quando eu perguntei se você estava bem. Você parece tensa.
- Não é nada demais – ela suspirou – é só... É estranho. Estamos casados, meu nome mudou, mas tudo parece igual. É um pouco estranho.
- Casamentos mudam pouca coisa, e ao mesmo tempo mudam tudo – Bill comentou, olhando para os pés enquanto caminhava. Hermione parou, e ele a encarou curioso.
- Você está bem com tudo isso? – ela perguntou – se você quiser, podemos voltar e anular. Eu sei que é muito...
- Eu não quero anular – ele respondeu, aproximando-se dela – está tudo bem, de verdade. Não estou arrependido, você está?
- Não – ela respondeu baixo, ajeitou a bolsa no ombro e o olhou nos olhos – obrigada, Bill.
Ele sorriu e tirou as mãos do bolso, posicionando um braço em volta dos ombros de Hermione e a puxando para perto, para que caminhassem lado a lado. Ela correspondeu enlaçando a cintura dele com seu braço livre.
- O que você acha de eu fazer minha mudança no sábado? – ele perguntou, parecendo relaxado. E de fato estava relaxado graças às palavras de Harry.
- Acho que é uma ótima ideia. Precisa de ajuda?
- Ajuda sempre é bem-vinda – ele respondeu, sorrindo.
Os dois caminharam lado a lado até chegarem ao prédio de Hermione, e Bill esperou que ela subisse dois degraus para que ficassem da mesma altura antes de puxá-la pela cintura e se despedir com um beijo no rosto. A bruxa não deixou de notar que isso já havia virado um hábito, e que ela particularmente gostava dele. O ruivo tirou o documento do bolso e o entregou a Hermione, e depois aparatou para casa.
No dia seguinte, a castanha acordou cedo e animadamente se dirigiu ao Ministério. Seu primeiro destino foi a sala de Shackelbolt, e foi com gosto que simplesmente largou a Certidão de Casamento na mesa dele antes de sair do gabinete com um sorriso vitorioso nos lábios, deixando um Ministro com a sobrancelha arqueada para trás. O retorno ao trabalho foi relativamente tranquilo, mas nos dias que se seguiram a notícia de que ela havia se casado corriam pelos corredores, e ela passou a notar muitos olhares sobre si toda vez que deixava sua sala por algum motivo.
Ela almoçou todos os dias com Bill e constantemente os dois eram interrompidos por alguém os felicitando pelo casamento. Ela sempre ficava vermelha, e ele sempre tomava o controle da situação e agradecia educadamente. Naquela semana, o ruivo usou todas as noites para encaixotar seus pertences, e negou, todos os dias, a ajuda de Hermione. Era semana de lua cheia e ele não queria protagonizar qualquer cena que pudesse deixá-la assustada. Enquanto a lua estivesse redonda e brilhante no céu, ele manteria uma distância segura dela. Na quinta-feira Bill já estava com quase todas as suas coisas encaixotadas, o que significava que no dia seguinte ele teria que encarar o cômodo que tanto ignorou nos últimos anos. Teria que, finalmente, desfazer-se de seu passado.
No entanto, a sexta-feira chegou e Bill não conseguiu. A lua, as fotos com Fleur, o berço montado pela metade, as paredes coloridas, o terno que usara em seu casamento, a aliança dentro da caixinha de veludo, tudo naquele cômodo tornou a tarefa impossível para ele. E ele sentiu. Ele sentiu toda a raiva, toda a mágoa, toda a traição, toda a tristeza e todo o medo, e quebrou tudo. Não usou mágica, usou os punhos. Ele quebrou o berço, a cômoda, o pequeno roupeiro, rasgou as pequenas roupinhas que havia comprado, as fotos, e, então, finalmente caiu ajoelhado no chão. E chorou.
