Gabriela, não ouse parar de comentar! hahaha. Eu amo as suas reviews e como você me dá o feedback de cada capítulo. Inclusive é o que tem me motivado a escrever mais.
Lexus, eu adorei os seus reviews e as críticas muito pertinentes, por favor se sinta sempre à vontade para comentar o que está achando da história. Vou também fazer uma busca sobre a série de quadrinhos que você mencionou!
Algumas informações eu posso dar a você, mas outras estão previstas no esboço/roteiro da fic, então por enquanto não posso comentar. Mas esclarecendo algumas coisas: eu considerei apenas os 7 livros de HP para elaboração da fic, e tentei manter ao máximo os fatos canônicos e os traços de personalidade de cada personagem, mas, pelo bem do roteiro, modifiquei algumas poucas coisas, como o fato do Bill não trabalhar no Gringotes, e sim no Ministério. Por ter considerado só os 7 livros de HP, não considerei o fato de já terem existido outras Ministras, e segui minha intuição fazendo com que a Hermione trabalhasse no Departamento de Execução das Leis e, depois, como Ministra, porque é o que eu imaginei para o futuro dela desde que ela fundou a F.A.L.E. A história é essencialmente de romance, então eu não pretendo, de fato, elaborar muitos acontecimentos fora do eixo Hermione/Bill, que é a proposta da fic.
O Remus está morto ): eu lamento muito, ele é um dos personagens por quem tenho mais carinho, mas ele está morto. E reconheço que a confusão se deu por minha culpa. Eu não tenho beta (e nem pretensão de ter, já que não consigo escrever com periodicidade) e acabo ficando com a leitura "viciada" de tanto ler os capítulos, o que acarreta alguns erros meus e outros de digitação.
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7. O CONTO DO LOBO E DA PEQUENA BRUXA
No sábado, Bill acordou se sentindo de ressaca por ter chorado tanto em seu momento catártico na noite anterior, então resolveu tomar um banho gelado antes que Hermione chegasse para lhe ajudar. Mal havia colocado a água do café para esquentar, ainda enrolado na toalha, quando a campainha tocou. Gritou que já abriria a porta, correndo até uma das caixas e buscando uma cueca e uma calça, que vestiu com pressa. Quando destrancou a porta, foi pego de surpresa pelos olhos azuis que o encaravam.
- Oi, Bill – Ron cumprimentou, parecendo sem graça.
O irmão mais novo estava, de fato, sem nenhuma escoriação ou roxo que denunciasse a violência com que o mais velho lhe agredira no último domingo. No entanto, isso não afastava a culpa que Bill ainda carregava sobre os ombros. Acenou para que Ron entrasse, e assim o ruivo mais jovem o fez.
- Vejo que já está fazendo a mudança – Ron comentou, olhando para todas as caixas espalhadas pelo chão.
- Sim, Hermione vai passar aqui daqui a pouco – Bill respondeu, tentando nervosamente colocar as mãos dentro dos bolsos, mas percebendo que aquela calça não tinha bolsos – Ron, desculpe-me por domingo. Eu não deveria...
- Eu não deveria ter dito o que disse – Ron o interrompeu e lhe direcionou um sorriso tímido – eu fui um completo idiota, Bill. E era lua-cheia, eu provoquei você no pior momento possível.
- Mesmo assim... Eu me sinto realmente muito mal por ter reagido como reagi.
- Eu acho que teria reagido do mesmo jeito – Ron o tranquilizou.
Bill assentiu e ouviu a chaleira começar a apitar, então correu até o fogão e desligou o fogo, pegando a chaleira com cuidado e despejando a água no filtro de café. Ron observava tudo em silêncio e se colocou a vontade sentado em uma das banquetas do balcão. Bill ofereceu a ele uma xícara quando o café ficou pronto, e se sentou à frente do irmão. Após longos minutos de silêncio, o mais velho resolveu quebrar o silêncio e matar a curiosidade sobre um assunto que vinha consumindo seus pensamentos desde o domingo.
- Incomoda tanto você o fato de eu ter casado com ela? – Bill perguntou, e Ron suspirou.
- Sim e não – ele respondeu, suspirando – eu acho que... Eu acho que a notícia me pegou de surpresa. Fez com que eu me sentisse... não sei... irrelevante, talvez.
- O que quer dizer? – Bill perguntou, interessado.
- Por onde eu começo? – Ron respondeu, soltando uma risada triste – eu nunca fui muito importante, entende? Em casa eu era só mais um menino que mamãe teve antes de conseguir ter Ginny, na escola eu era só o amigo meio burro do Harry.
- Isso não é verdade.
- É verdade, Bill – Ron continuou – mas depois da guerra, ela me enxergou, entende? Hermione, a bruxa mais inteligente que já conheci, enxergou Ron Weasley, o burro. E eu me senti bem comigo mesmo. Afinal, eu tinha conquistado Hermione, certo?
Bill não respondeu, apenas observou o irmão e absorveu as palavras dele com atenção.
- Não deu certo – Ron disse – acho que, no fim das contas, éramos diferentes demais. Por favor não me entenda mal, eu amo Luna e sou feliz com ela como nunca imaginei ser com alguém. E eu amo Hermione, ela é minha melhor amiga, e eu quero que ela seja feliz assim como eu sou feliz com Luna agora. E, para ser honesto, você é perfeito para ela. Mas... quando eu soube... eu me senti jogado de lado novamente. Senti como se eu fosse... só mais um Weasley de novo... um Weasley mediano trocado pelo Weasley que mais vale a pena.
- Eu não acho que você seja só um Weasley – Bill comentou, segurando a xícara entre as mãos – bem... quanto à Ginny você é. Assim como todos os outros. Mamãe queria uma menina desde que estava grávida de mim, e eu fui o primeiro!
Os dois riram, e levaram as xícaras aos lábios ao mesmo tempo.
- Mas você não é irrelevante – Bill continuou – se quer saber, acho que Hermione só me pediu para casar com ela porque ela confia na nossa família. E isso é um mérito inteiramente seu, Ron. Ela confia em você e, por consequência, passou a confiar em mim. Você é o melhor amigo dela, e não é burro. Você foi fundamental para destruir Voldemort, por Merlin!
- Obrigada, Bill – Ron disse, sorrindo agradecido – e sinto muito por tudo o que eu disse.
- E eu sinto muito pelo que fiz – o mais velho respondeu.
Os dois se viraram num susto para a porta quando ouviram três batidas. Bill se levantou calmamente da mesa e abriu a porta, revelando uma Hermione sorridente. A castanha percebeu a presença de Ron e olhou do ex-namorado ao marido, que lhe sorriu e assentiu com a cabeça, garantido que tudo estava resolvido. Ela, então adentrou o apartamento feliz e cumprimentou os dois.
- Vim ajudar o seu marido – Ron comentou, mas não com o tom jocoso de domingo, mas sim brincalhão, com um sorriso no rosto.
- Já vi que adiantaram bastante o trabalho – ela comentou, apontando para as caixas no chão.
- Só falta selar algumas caixas – Bill comentou, e se dirigiu até algumas caixas que ainda estavam abertas, fechando-as com um aceno de varinha.
Ron caminhou entre o caos que estava a sala parecendo procurar algo, até que pegou uma caixa vazia e a largou aos pés de Hermione.
- Você podia fazer um feitiço extensor, assim só precisaremos carregar uma caixa – ele comentou, dando de ombros.
- Isso é brilhante, Ron – ela respondeu de forma sincera, arregaçou as mangas e encantou a caixa com o feitiço que já lhe era muito familiar e inclusive havia ajudado muito na busca pelas horcruxes.
Os três encheram a caixa encantada com todas as outras, fazendo uma pausa para o café. Os três estavam se divertindo com todo aquele trabalho, e Hermione estava sinceramente muito feliz de ver que os dois haviam se acertado. O sorriso que tomava o rosto de Bill era acalentador, e ela pôde voltar a ver o homem brincalhão que havia conhecido.
Quando tudo já estava devidamente no lugar, a bruxa perguntou se ele havia esvaziado o andar de cima do apartamento ou se precisava de ajuda. Bill ficou visivelmente sem graça e Ron se adiantou dizendo que tudo já estava resolvido e que não havia nada no andar superior. Bill lhe direcionou um olhar agradecido e Ron lhe deu dois tapinhas no ombro. O mais velho se agachou e pegou a única caixa nos braços. Quando os três atingiram a calçada, Ron se despediu e Hermione aparatou os dois para o seu apartamento.
Assim que adentraram o apartamento da castanha, os dois decidiram começar arrumando o quarto. Hermione ia conjurando os pertences de dentro da caixa e Bill ia organizando-os no lugar. Após arrumarem todas as roupas, calçados, objetos de decoração do quarto e pertences de higiene de Bill, os dois tiraram uma pausa para almoçar. Enquanto estavam sentados na mesa, dividindo o almoço, o ruivo percebeu que a estante de livros de Hermione parecia maior do que se lembrava e, no entanto, estava com várias prateleiras vazias.
- É impressão minha ou sua estante está maior do que da última vez que estive aqui? – ele perguntou.
- Eu percebi que você tem muitos livros, então aumentei a estante para que ela comportasse os seus exemplares também – ela respondeu dando de ombros e ele sorriu.
- Tenho muitos livros que vão interessar a você – ele comentou – são livros bruxos de leitura não tradicional.
- O que faz você pensar que eu já não os li? – ela perguntou brincando.
- Deixe-me ver – ele respondeu, coçando o queixo de forma brincalhona – o fato de você só ter devorado livros acadêmicos no seu tempo em Hogwarts? Ou o seu insano volume de trabalho no Ministério?
- É, você me pegou – ela disse, cruzando os talheres em cima do prato em sinal de que já estava satisfeita.
Bill recolheu os pratos e talheres dos dois os largou na pia, lavando-os com magia. Hermione sorriu ao perceber que ele seria prestativo dentro de casa. Não que ela duvidasse disso, já que havia visto o apartamento dele muito bem limpo e organizado, mas sabia que, às vezes, a convivência era diferente e mais difícil do que poucos momentos juntos.
Assim que ele terminou, os dois se dirigiram à sala e seguiram o mesmo método do quarto: Hermione ia conjurando os livros da caixa e Bill ia organizando os exemplares na estante. A bruxa sempre olhava a capa e lia o título antes de entregá-los ao ruivo, e perguntava a ele sobre o que se tratava. Ele, então, ia dando uma breve sinopse dos livros. Ela anotava mentalmente quais leria primeiro, animada.
- E esse? – ela perguntou, segurando um livro de capa verde de couro, sem título ou qualquer indício do que se tratava.
- Esse é um livro de contos sobre uma pequena bruxa... – ele respondeu, sorrindo de canto e aproximando-se dela para pegar o livro – que se casou com um lobo por causa de uma Lei.
- Estou falando sério – ela disse, revirando os olhos.
- Pode muito bem ser sobre isso – ele respondeu, parando em frente a ela e tirando o livro de suas mãos. Ele estava muito perto e Hermione tinha que olhar para cima para encarar os olhos dele, já que ele era uns bons centímetros mais alto do que ela – já que isso é um diário.
- Você tem um diário? – ela perguntou interessada.
- Eu gosto de escrever – ele respondeu, dando de ombros – me ajuda a colocar os pensamentos no lugar.
- Então você vai escrever sobre nós? – ela o questionou, sorrindo de canto.
- Provavelmente – ele respondeu, baixando o rosto até que ele ficasse na altura do dela – você é, com certeza, uma personagem muito interessante, pequena bruxa.
- Eu não sou tão pequena - ela retrucou, e ele se aproximou dela. O nariz dela quase encostava no peito dele.
- Você parece bem pequena para mim - ela respondeu, sorrindo jocoso. O ruivo se afastou dela e voltou à tarefa de organizar os livros.
Ela soltou o ar pelo nariz em uma risada baixa. Após alguns minutos de silêncio, ela apontou para o rádio com sua varinha e o ligou em uma estação trouxa aleatória, e Bill a encarou com a sobrancelha levantada.
- Fica mais divertido com música – ela comentou.
- Eu gostei da música – ele respondeu, pedindo o próximo livro, e Hermione alcançou mais um exemplar a ele.
Em poucos minutos Bill começou a dançar de um jeito engraçado enquanto organizava os livros na estante, arrancando risadas de Hermione. Ele pareceu não se importar e seguiu sacudindo as pernas e os braços ao mesmo tempo em que executava aquela atividade. O ruivo parecia estar se divertindo muito ouvindo músicas trouxas aleatórias que tocavam no rádio, e a bruxa acabou se deixando levar e começou a dançar também.
Algum tempo depois, o rádio passou a tocar Elton John, particularmente uma música que Hermione gostava, pois seus pais costumavam ouvi-la enquanto cozinhavam juntos quando ela era pequena. Bill pareceu ter gostado da melodia, pois tomou a mão de Hermione e a puxou para dançar com ele. Ele sacudia as pernas de um jeito engraçado e a girou no próprio eixo, puxando-a para mais perto quando a música saiu do refrão. Ele a balançava de um lado para o outro e Hermione ria. Ela estava feliz. Bill era divertido, inteligente, prestativo, sensível, muito bonito e um ótimo amigo. Ela ruborizou ao pensar que ele era, na verdade, tudo o que ela sempre quisera em um companheiro, mas foi tirada de seus pensamentos quando ele a girou de novo.
- Você é uma exímia dançarina, Srta. Granger – Bill comentou – digo, Sra. Weasley?
- É uma pena que não posso dizer o mesmo de você, Bill – ela riu, e ele fingiu estar ofendido.
- Isso é porque você não me viu dançando valsa – ele rebateu.
Os dois passaram o dia inteiro organizando as coisas de Bill, conversando sobre amenidades. Hermione acomodou alguns itens de decoração dele, como almofadas, uma manta de sofá e alguns quadros. No fim da tarde, o apartamento já não parecia mais o mesmo. Ele tinha um pouco da identidade dos dois, e isso causou estranhamento, mas também conforto em Hermione. Ela, por fim, posicionou o cinzeiro dele na mesinha da varanda.
- Você se importa de só fumar aqui? – ela perguntou tímida.
- Aqui é perfeito – ele respondeu, aproximando-se da mesinha – pode ficar tranquila que eu não vou fumar dentro do apartamento.
Hermione ficou agradecida, pois não gostava do cheiro do cigarro. No entanto, logo nos primeiros dias percebeu que estava disposta a aguentar a fumaça só para ter a companhia dele. À noite, ela se juntava a ele na varanda e os dois dividiam uma garrafa de vinho enquanto ele fumava. Ele sempre ligava o rádio e ela percebeu que ele inclusive já havia aprendido a cantar algumas músicas trouxas. Hermione, sempre tão diurna, viu-se tendo a noite como horário preferido, já que podia dividir esses momentos com ele.
Era bom chegar em casa acompanhada e ter com quem conversar sobre o dia, alguém com quem dividir um vinho, alguém com quem se sentar junto à mesinha que herdara de sua avó sob a luz amarelada do varal de lâmpadas que havia instalado com a ajuda de Bill. O ruivo também havia se surpreendido positivamente com o quanto estava apreciando a nova rotina. Com poucos dias, havia percebido que Hermione não era só muito inteligente, mas também muito engraçada e um pouco desastrada, principalmente na cozinha. Os dois dividiam boas gargalhadas e ele assumia quase que todas as noites o preparo da janta.
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Não eram poucas as vezes em que Hermione tinha que ficar até mais tarde no Ministério, e chegava em casa para encontrar um Bill na varanda lendo algum livro trouxa dela e fumando um cigarro. Naquela noite de sexta-feira não foi diferente. Ele a percebeu se aproximando, e, sem tirar os olhos do livro, puxou uma cadeira para que ela se sentasse ao seu lado.
- Vocês, trouxas, não são tão progressistas quanto eu achei que seriam – ele comentou.
- O que quer dizer com isso? – ela perguntou.
-Você nunca me disse que vocês, mulheres trouxas, são criadas para o casamento – ele explicou.
Ela se inclinou para ver o título do livro que ele estava lendo e soltou uma risada. Era Orgulho e Preconceito.
- Esse livro foi escrito há dois séculos, Bill – ela explicou – as coisas felizmente não funcionam mais assim. Hoje, pessoas se casam, em tese, por amor. Casamentos não são mais uma transação financeira.
- Transação financeira? – ele fechou o livro e a encarou com curiosidade.
- Na época em que esse livro foi escrito, mulheres eram criadas para o casamento e o noivo pagava a família da noiva com dinheiro ou posses. Era chamado de "dote".
- Isso é horrível! – ele exclamou, e ela riu.
- Sim, era horrível. Mas, como eu disse, isso mudou.
- E como é a questão do divórcio trouxa? – ele perguntou tentando parecer despretensioso, apagando o cigarro que havia acabado de fumar e puxando outro do maço que estava em cima da mesinha de bistrô.
Hermione tirou os sapatos e o casaco e se colocou mais confortável na cadeira, sendo observada pelo olha perscrutador de Bill.
- É algo bem comum – ela comentou – quando duas pessoas não querem mais ficar juntas, elas se divorciam. É algo natural. Tão natural quanto não se casar nunca.
- O mundo bruxo tem muito o que aprender com os trouxas – Bill comentou tragando o cigarro – mas confesso que estou particularmente gostando do meu novo casamento. Ademais, você fica bem com o sobrenome Weasley.
Hermione sentiu as bochechas quentes e Bill sorriu, tirando os olhos dela e encarando o céu enquanto fumava seu cigarro.
- Eu também – ela se limitou a responder. Ele, no entanto, ficou se perguntando inúmeras coisas: ela também gostava do casamento? Ela também concordava que ficava bem com o sobrenome Weasley? Ou ela também estava gostando do marido? Preferiu jogar esses pensamentos para longe.
Ela nunca deu qualquer sinal de que ele pudesse avançar nesse sentido e, sendo bem sincero, ele não sabia se queria e também não havia dado qualquer sinal desde o fatídico dia em que ela lhe fez a proposta. Na época, ele gostou de provocá-la. Agora, conhecendo-a melhor, ele não queria provocá-la ou deixá-la desconfortável. Havia encontrado nela uma companhia, uma amiga, uma família para chamar de sua, mesmo que não fossem, de fato, uma família como sua mãe e seu pai eram um para o outro.
- É bom saber que escrevi o novo capítulo de forma acurada – ele comentou.
- Capítulo?
- Do conto do lobo e da pequena bruxa. Os dois formam um bom par. São amigos, companheiros, e a bruxa pediu duas pizzas para que os dois jantassem na varanda.
- Eu nunca pedi pizza para nós! – ela respondeu.
- Você tem aproximadamente quarenta minutos para fazê-lo então e eu não ter que reescrever todo o capítulo! – ele disse sorrindo, e ela riu.
- Você é impossível – ela comentou, levantando-se da cadeira e buscando o telefone sem fio em cima da bancada da cozinha.
Hermione ligou para a única pizzaria que conhecia na região e pediu duas pizzas, após um longo tempo no telefone citando os sabores para Bill, que escolhia e depois mudava de ideia num piscar de olhos. Por fim, ela acabou escolhendo todos e ele se deu por vencido. Assim que ela desligou o telefone, o ruivo se dirigiu à estante de livros e retirou dali algo que ela não reconheceu imediatamente.
- Eu queria perguntar a você há dias, mas acabava esquecendo – Bill se aproximou dela com o objeto em mãos – como se lê esse livro? Tem vários como esse na estante e não consegui ler nenhum.
- Isso não é um livro – ela riu – é um filme.
- O que é um filme? – ele perguntou, girando a caixinha de DVD entre os dedos e olhando interessado da capa para a contracapa, como se tentasse desvendar como funcionava.
- Um filme é como um livro, mas em imagens – ela tentou explicar – é quando se conta uma história através da imagem e do som. Como uma peça de teatro, mas que você pode assistir quantas vezes quiser dentro da sua própria casa.
- Eu conheço teatro – ele comentou, ainda encarando a caixinha.
- Eu te mostro – ela disse, e puxou-o pelo pulso até o seu quarto.
O ruivo a seguiu sem entender, sentindo um súbito nervosismo ao ver que ela o conduzia para o quarto. Era a primeira vez que ele enxergava o quarto da esposa, e passou a absorver todos os detalhes do cômodo. O seu próprio quarto era extremamente confortável, não havia dúvidas, mas o dela era mais. Ela pegou o DVD das mãos dele e se dirigiu a um aparelho grande e preto fixado na parede em frente a cama, muito parecido com um quadro, mas sem imagem alguma e com uma moldura sem graça. Apertou alguns botões que Bill sabia que teria de anotar a ordem se quisesse utilizá-lo novamente e inseriu o conteúdo da caixinha numa pequena bandeja que saiu de um aparelho retangular engraçado logo abaixo da televisão.
Ele deu um pulo de susto quando uma imagem apareceu no aparelho e uma música instrumental muito alta passou a tocar. Hermione correu até a mesinha ao lado da cama e apanhou outro aparelho menor, pressionando outro botão e, de repente, o som ficou mais baixo.
- Desculpe – ela pediu, sem graça – eu não assisto a televisão há tempos, não sabia que o volume estava no máximo.
- Eu não entendi metade do que você disse, mas acredito que você não precise se desculpar – ele respondeu sorrindo.
- Você escolheu um filme bom – ela comentou – é um dos meus favoritos.
- O título parecia interessante – ele deu de ombros.
Ela pareceu pensar por algum tempo, sabia, pelo som, que os créditos iniciais já haviam começado, e resolveu convidá-lo para assistir ao filme. Ela estava um pouco nervosa. Afinal, assistir a Dirty Dancing com Bill, na cama dela, era algo que ela não esperava. Hermione deu a volta na cama e se sentou com as costas contra a cabeceira, acenando para que Bill se sentasse ao seu lado. Ele parecia, também, um pouco nervoso, mas se ajeitou contra os travesseiros ao lado dela. Ele observava com atenção ao filme e constantemente a castanha tinha que situá-lo de algumas coisas, como o funcionamento de uma colônia de férias e o fato de que os trouxas também tinham preconceitos de classe. Aproximadamente vinte minutos depois do início do filme, o interfone anunciou a chegada da pizza e Bill e se prontificou a buscá-la, mas não sem antes exclamar um "incrível" ao ver Hermione pausando a imagem.
O ruivo voltou com as duas caixas de pizzas em mãos e os dois comeram sentados na cama enquanto assistiam à história de amor de Baby e Johnny. Bill havia comido grande parte da pizza e, no fim, sobraram apenas duas fatias. Ele esclareceu que, em períodos fora da lua-cheia ele sentia vontade de comer outras comidas que não carne mal passada, mas que acabava não inovando tanto o cardápio por puro costume. Mas a verdade é que havia ficado nervoso e arrependido de ter escolhido justamente um filme com cenas tão sensuais para assistir justamente com Hermione, e justamente na cama dela.
Quando o filme acabou, Bill levou as caixas de pizza à cozinha e voltou com outro DVD em mãos, pedindo para que eles assistissem a mais um filme. Ele havia escolhido um com a capa bem colorida e elementos engraçados, torcendo que aquele novo filme tirasse de sua cabeça as imagens de Baby se esfregando em Johnny ao som de uma música de letra sugestiva. Exceto que, em sua mente, Baby era Hermione, e Johnny era ele mesmo. Vou ter que checar o calendário, só pode estar perto da lua-cheia, ele pensou.
Os olhos de cachorro sem dono que ele dirigiu à castanha fizeram com que ela, apesar de muito cansada, concordasse. E, assim, os dois iniciaram o primeiro capítulo da saga Star Wars. Hermione explicou, entre uma bocejada e outra, que se tratava de uma história em um universo fictício e que nenhum dos objetos e seres – além dos humanos – de fato existiam no mundo trouxa.
Bill ficou tão absorto no filme que nem percebeu quando Hermione jogou a cabeça para o lado e começou a dormir. Sem dúvidas essa nova história espantou qualquer imagem mental que envolvesse ele e a castanha. Somente após um tempo ele estranhou o silêncio dela e viu que ela estava toda torta escorada contra a cabeceira e com a boca levemente aberta, respirando pesado. Ele não conseguiu refrear uma risada. Achou-a... fofa? Não era bem essa palavra, mas ela estava algo entre o gracioso e o engraçado. Ele se levantou da cama com cuidado e parou em frente à televisão, confuso sem saber em qual botão apertar. Decidiu por apertar o maior deles e suspirou aliviado quando a tela simplesmente apagou e seu rosto apareceu no reflexo envidraçado da tela.
- Isso deve servir – ele comentou para si mesmo.
O ruivo se voltou para a cama e resolveu ajeitar Hermione para que ela não acordasse com dor nas costas. Com cuidado, enfiou o braço esquerdo por baixo dos joelhos dela, enquanto o direito sustentava as costas dela. Levantou-a somente o suficiente para que conseguisse colocá-la deitada. Ajeitou os travesseiros e a encarou. Decidiu retirar um travesseiro para que a cabeça dela não ficasse muito alta. Tirou alguns fios de cabelo que caíam sobre a testa dela e a cobriu com a coberta.
Observou-a por alguns segundos, incapaz, por algum motivo, de sair dali. Após algum conflito interno, decidiu, por fim, depositar um beijo de boa noite na testa dela e acariciar os cachos castanhos antes de sair do quarto, fechando a porta.
