Primeiramente, Feliz 2022 a todes! Peço miiiiil desculpas pela demora em atualizar, mas tirei um recesso merecido e acabei nem ficando perto do notebook. Agora pretendo voltar com todo o gás para essa história maravilhosa! Conto com o review de vocês!
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13. Confronto
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"Me ame com ternura, me ame com doçura
Nunca me deixe ir
Você completou minha vida
E eu te amo tanto"
(Love me tender – Elvis Presley)
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Hermione e Bill não estavam em sintonia. Pela primeira vez desde que passaram a conviver, os dois viviam uma montanha russa. Na semana seguinte à noite em que cuidaram de James e Albus, a cabeça de Hermione maquinou inúmeros pensamentos e só conseguiu chegar a um único resultado, e esse resultado não a agradou.
- Você está bem? – Bill perguntou assim que pisaram os pés no apartamento naquela noite. Estava ansioso e sentia o coração batendo freneticamente contra seu peito. Sabia que a bruxa estava prestes a lhe dizer algo importante quando foram interrompidos por Ginny e Harry. Desejava, com todas as suas forças, que ela confirmasse seus anseios e dissesse que o amava. Poderia, é claro, tomar a iniciativa e dizer a ela que estava mais do que perdidamente apaixonado por ela, mas isso seria impulsivo e corajoso demais da sua parte.
Bill era calculista e, em certos aspectos, um covarde. Destoava, e muito, das características grifinórias. Ele não diria que a amava até ter certeza de que, de fato, a amava. Fora suficientemente magoado por Fleur e sabia o quanto doía ter esperanças falsamente alimentadas por outra pessoa. Então não, não seria impulsivo de declarar um sentimento tão poderoso sem antes ter absoluta certeza do que sentia.
Ainda, mesmo que tivesse a certeza em seu âmago do amor por Hermione, jamais teria a coragem necessária para abrir seu coração dessa forma. Não conseguia ficar tão exposto. Já se sentia vulnerável o suficiente com a bruxa: ela o viu chorar, ela o acalmou durante um rompante violento na lua-cheia, ela conhecia grande parte de seus medos e anseios, ela beijou suas cicatrizes físicas, e inconscientemente suavizou algumas cicatrizes emocionais que ele carregava. A possibilidade, ainda que mínima, de ser rejeitado por ela acabaria consigo, sabia disso. Não suportaria perder o que tinham, não suportaria perdê-la. Então sim, Bill era um covarde.
- Estou cansada – Hermione respondeu, sorrindo fracamente ao ruivo. Inclinou-se para ele, depositou um rápido beijo nos lábios dele e se dirigiu ao quarto.
Ela entrou direto no banheiro e, quando ele se juntou a ela no chuveiro, a castanha já estava de saída. Quando Bill saiu do banho, encontrou-a já adormecida na cama. Seus sentidos lhe diziam que ela não estava sendo completamente honesta, que algo a estava incomodando. Martirizou-se com o pensamento de que a havia pressionado a ter filhos, e que isso havia feito com que ela se afastasse, e se odiou por isso. Deveria ter ficado com a boca fechada.
Deitou-se na cama ao lado dela e a puxou para perto. Ficou aliviado quando ela se aconchegou contra seu peito e sussurrou "boa noite" docemente, então beijou carinhosamente os cabelos castanhos molhados, inspirando o cheiro de coco deles, e pegou no sono com ela firmemente segura por seu abraço.
A manhã de sábado transcorreu preguiçosamente e, a princípio, tudo estava bem. Bill, como de costume, acordou mais cedo do que Hermione, mas resolveu seguir deitado ao lado da bruxa, acariciando-lhe os cabelos e velando o sono tranquilo dela. Quando ela abriu os olhos e o focalizou, sorriu e se aconchegou mais ao corpo dele.
- Bom dia, amor – ele sussurrou, e ela murmurou a resposta contra seu peito de maneira tão sonolenta que ele riu – por que você não fica aqui na cama enquanto eu faço um café para nós?
- Eu acho que essa é a melhor ideia que já ouvi na minha vida – ela respondeu sorrindo e ele gargalhou. O ruivo beijou delicadamente os lábios dela e se levantou da cama, dirigindo-se ao banheiro.
Fez suas necessidades fisiológicas de pé, já que havia adquirido o costume de sempre limpar o vaso sanitário com a varinha a fim de eliminar qualquer gota de urina do assento. Fazia isso desde que ouviu Harry comentando que, quando morava com seus tios e acreditava ser trouxa, costumava fazer sentado para evitar xingamentos por parte da tia. Assim que terminou o que tinha para fazer, secou-se com papel higiênico e o jogou no vaso, puxando a descarga. Isso sempre causaria um estranhamento nele, afinal, uma das entradas do Ministério funcionava assim, e ele nunca mais usou aquela entrada desde que passou a utilizar o banheiro trouxa de Hermione e viu para o que servia a descarga. Lavou as mãos e notou uma pequena cartela de remédio vazia no canto do balcão, próxima ao copinho que abrigava as duas escovas de dentes deles.
Secou as mãos e apanhou a cartela, a fim de levá-la até a cozinha e colocá-la no lixo, já que o banheiro não contava com um. Perguntou-se se Hermione estaria doente e, se sim, o porquê de ela não visitar um medibruxo ao invés de utilizar remédios trouxas, mas acabou dando de ombros e esquecendo do assunto ao preparar os ovos para o café.
Hermione, sentindo o cheiro de ovos mexidos e do chá de hibisco, não aguentou e se levantou da cama, lavou o rosto e se dirigiu até a cozinha, prendendo os cabelos em coque bagunçado. Avistou Bill de costas, balançando-se de um lado ao outro enquanto mexia a frigideira. Ele usava uma camiseta surrada que um dia fora branca, e cuecas pretas. Tinha os pés descalços e os cabelos soltos na altura dos ombros. O rádio, como de costume, estava ligado em uma estação qualquer, e a bruxa sorriu para a cena. Já havia virado um hábito sentir seu coração saltando pela boca toda vez que o via executando qualquer tarefa simples de forma despretensiosa. Ele era lindo, por dentro e por fora.
- Já estou quase terminando – ele anunciou, fazendo-a dar um pulo. Não havia ainda se acostumado com o fato de que ele conseguia sentir quando ela estava perto com seus instintos lupinos.
- O cheiro está muito bom – ela respondeu, arranjando um lugar para si na bancada da cozinha. Ele desligou o fogão e serviu os ovos mexidos em dois pratos, posicionando-os no balcão. Apanhou os talheres e estendeu-os junto à xícara de chá para ela. Para si, havia passado um café preto.
- Espero que o sabor esteja bom também – Bill comentou, sentando-se ao lado da bruxa. Hermione deu somente uma garfada na sua comida antes de largar o garfo sobre o prato. O ruivo a encarou preocupado.
A castanha se virou para ele, levantando-se da banqueta alta e jogando os braços em volta do pescoço dele. Afundou a cabeça contra o pescoço do ruivo e o abraçou forte. Ele não demorou nem dois segundos para corresponder ao abraço.
- O que foi? Você está bem? – ele perguntou preocupado.
- Estou bem, eu só... senti sua falta – ela respondeu, e então começou a rir nervosamente – eu sei que não faz sentido, eu acabei de acordar e você passou a noite ao meu lado, mas eu senti a sua falta.
A verdade é que ela sentia que algo estava prestes a mudar. Não sabia dizer se era pela conversa sobre filhos, que havia tornado tudo aquilo mais real, ou o fato de que haviam confessado os sentimentos que tinham um pelo outro, mas ela sabia que algo estava fora do lugar. Ela estava se sentindo insuficiente, por algum motivo que ainda não entendia. Tinha medo de perdê-lo, de que ele fosse embora assim que arranjasse alguém melhor.
- Eu não vou a lugar algum, meu amor – ele disse, como se conseguisse ler os pensamentos dela, e então se afastou dela somente o suficiente para tomar o rosto dela entre as mãos e acariciar as bochechas dela com seus polegares. Ela sorriu e ele retribuiu, depositando um beijo nos lábios dela – o que me diz de irmos hoje ao Beco Diagonal escolhermos nossas roupas para as Bodas?
- Oh! – ela abriu a boca em surpresa, e fez algumas contas mentais – eu havia me esquecido completamente que já eram na semana que vem! Eu não tenho vestido, ou sapatos!
- Você fica linda usando qualquer coisa – ele respondeu – e principalmente quando não usa nada.
- Você é insaciável, Bill – ela riu.
- A culpa é toda sua, eu sou apenas uma vítima! – ele se defendeu, arrancando uma gargalhada dela – Então? O que me diz?
- Eu acho que é uma ótima ideia, assim você pode me ajudar a escolher o que vestir.
- Não vai ser tão difícil, é só ver qual cor combina mais com o piso do quarto – ele respondeu e ela revirou os olhos. Bill, então, selou os lábios três vezes nos dela e os dois voltaram a tomar o café da manhã conversando sobre amenidades.
Tudo começou a mudar à tarde. O casal se vestiu sem pressa alguma e saiu via Flu em direção ao Beco Diagonal. Como era sábado, o local estava movimentado. Ainda, estavam em outubro, o que queria dizer que as comemorações do Dia das Bruxas estavam próximas e muitos bruxos com filhos estavam comprando abóboras para enfeitar a casa com as crianças.
- Aonde quer ir primeiro? – Hermione perguntou.
- Como você é comprando roupas? – ele questionou.
- Sou bastante objetiva, para ser honesta – ela respondeu.
- Ótimo, então vamos buscar o seu vestido primeiro – ele sorriu.
Os dois adentraram, no total, em apenas duas lojas até encontrarem um vestido que agradou a Hermione. A bruxa não deixou Bill vê-la experimentando a vestimenta, mas ele sabia que se tratava de um bonito vestido com a saia florida. Para os pés, a castanha optou por uma sandália preta, e Bill se viu surpreso por considerar extremamente sexy ver a esposa sentada em um banco, com uma perna cruzada por cima da outra, experimentando o sapato. Ela era linda e sexy sem ao menos fazer esforço. Bill não se ofereceu para pagar o sapato, já que havia se oferecido para pagar o vestido e recebeu um sermão de aproximadamente sete minutos de Hermione sobre como ela tinha condições de pagar suas próprias roupas e que não viviam no século passado para que ele fosse obrigado a arcar com os custos do casal enquanto ela ficava "esquentando a barriga no fogão". Ele pensou em responder que só queria dar um presente a ela, já que não havia conseguido pensar em nada decente na época em que ela fez aniversário, mas desistiu ao receber um olhar fulminante da bruxa. Ele começou a rir, lembrando-se do dia em que os dois pegaram o elevador juntos e ela lhe olhou de um jeito parecido. O dia em que tudo mudou para sempre e Hermione entrou em sua vida de vez.
- Por favor não fique brava comigo – ele pediu, com a boca contra o ouvido dela enquanto caminhavam em direção à loja da Madame Malkin. Ela o encarou e sorriu.
- Eu não conseguiria nem mesmo se tentasse com você me olhando com essa cara – ela respondeu, e ele sorriu e roubou um beijo dela. Quando separou os lábios da boca dela, os olhos azuis dele passaram a focar algo atrás da cabeça da castanha. Hermione, curiosa, virou-se para ver o que havia chamado tanto a atenção de Bill, e sentiu o sorriso morrer em seu rosto.
Fleur caminhava de mãos dadas com Victoire, que parecia uma cópia feita em carbono da loira. A menina estava linda, provavelmente seria igualzinha à mãe quando crescesse, e apontava para tudo com entusiasmo. Parecia feliz de estar visitando um centro comercial bruxo, já que os olhinhos azuis brilhavam em excitação a cada vitrine que passavam. Não demorou muito para que Fleur avistasse os dois e, com um sorriso tímido, aproximou-se do casal.
- Olá, Bill – ela cumprimentou, o sotaque francês ainda mais forte do que Hermione lembrava. A loira moveu os olhos do ruivo para a castanha – Herrmion, você crezzeu tanto! Está uma mulherr belízzima.
A castanha sorriu em agradecimento e a cumprimentou de volta, apesar do nervosismo. Bill não havia respondido ao cumprimento.
- Esta ez mi filha, Victoire – Fleur apresentou aos dois, sem que houvesse a necessidade para tanto. Todos sabiam quem era a criança, e, principalmente, todos sabiam que Bill acreditou, por algum tempo, que a criança era dele. O ruivo pareceu despertar de seu estado de choque e se agachou até ficar da mesma altura da garotinha, que não devia ter mais do que oito anos. Hermione ficou surpresa ao ver que ele havia aberto um sorriso à menina.
- Muito prazer, Victoire, meu nome é Bill – ele cumprimentou, estendendo a mão grande à garota, que correspondeu com sua mão pálida e minúscula.
- J'aime la coleur de tes cheveux – a menina respondeu, sorrindo tímida.
- Eu gostei dos seus também – ele respondeu, sorrindo de volta. Hermione não entendia francês, apesar de já ter passado alguns verões na França com seus pais quando era criança. Fleur percebeu o olhar indagador da castanha.
- Ela dizze que goztou os cabelos ruivoz de Bill – a veela explicou, e a castanha assentiu positivamente.
Hermione se sentiu deslocada, e não somente por não entender o idioma que todos pareciam entender. Sentia-se uma intrusa naquele momento, sentia que deveria deixá-los a sós para conversar e sentia-se, acima de tudo, insegura.
Ela sempre fora a segunda opção, essa era uma verdade incontestável. Ron havia demorado sete anos para deixar de considerá-la "um dos garotos" e, mesmo depois, trocou-a por outras antes de cruzar o caminho com Luna. Não fora muito diferente com os poucos namorados que teve depois do amigo: um a traiu com uma intercambista, outro a chamou para sair para fazer ciúmes à sua ex, e outro a largou para ficar com uma bruxa, assegurando, no entanto, que voltaria a entrar em contato caso o novo relacionamento desse errado.
E havia, é claro, sua insegurança física. Ela não se considerava uma mulher feia, sabia que tinha suas qualidades, mas também sabia que jamais poderia competir com belezas tão únicas quanto Fleur ou mesmo Cho. Hermione era comum, e era por isso que Harry sempre acabava abordando alguma estranha na rua acreditando se tratar da amiga. A bruxa sempre achou engraçado ver Harry envergonhado por abordar estranhas, mas, naquele momento, a constatação de que era tão ordinária, justamente enquanto uma das mulheres mais extraordinárias que já viu estava em pé à sua frente, deixou-lhe miserável.
E, para piorar, Bill havia elogiado os cabelos da menina. Era uma garota de oito anos, mas uma garota de oito anos absurdamente idêntica à mãe, então Hermione entendeu que o elogio era, em verdade, um elogio aos cabelos de Fleur. Instintivamente levou os dedos ao próprio cabelo na nuca, notando que havia grandes nós nos fios presos por aquele coque feito de qualquer jeito. Só percebeu que havia trancado a respiração quando sentiu a falta do oxigênio em seus pulmões.
- Eu vou deixá-los à vontade para conversar – Hermione anunciou sem jeito e ajeitou as sacolas de compras nos ombros, e Bill lhe encarou com as sobrancelhas juntas. O ruivo abriu a boca para dizer que não era necessário e que não queria que ela saísse dali, que a queria junto a si, mas a castanha foi mais rápida – eu tenho que comprar alguns livros de qualquer jeito, então alcanço vocês depois.
Hermione virou as costas e, respirando fundo, caminhou a passos largos para bem longe dali. Inspirava, contava mentalmente até cinco, e expirava contando até três, tentando controlar a ânsia de vomitar. Havia aprendido esse exercício com McGonagall logo após a Guerra, para controlar suas crises de pânico. Na época, havia retornado a Hogwarts para encerrar seus estudos, mas era assolada por crises de pânico ao dia – que normalmente causavam náusea e a faziam vomitar-, e terrores noturnos à noite. A então diretora lhe ajudou a colocar a cabeça e os sentimentos no lugar.
Bill tinha os olhos presos nas costas da esposa, que se afastava deles como se tivesse visto o próprio diabo. Queria correr até ela e tomar a mão dela na sua, para que os dois voltassem para casa juntos e deixassem esse momento completamente constrangedor para trás. Mas, por algum motivo, não conseguiu sair do lugar.
- Ela ezta bem? – Fleur perguntou de forma sincera.
- Não tenho certeza – ele respondeu suspirando. Levou o indicador e o polegar até o centro de suas sobrancelhas e apertou o local com força.
- Fique felizz que tenha encontrédo vozê – a loira comentou – acho que prrezizamos converzar, devo a vozé zatisfazón pelos ultimes oito ans.
Ela o encarava em expectativa, sendo observada pelo olhar curioso da filha. Bill acabou assentindo e indicou um café para que se sentassem. O ruivo pediu uma grande taça de chocolate quente à Victoire, que permaneceu alheia à conversa dos adultos de tão concentrada em sua bebida.
Fleur iniciou o assunto perguntando da vida de Bill, e ficou surpresa quando o ruivo respondeu que estava casado com Hermione. Ela, então, comentou que entendia a razão da castanha ter saído tão abruptamente da companhia deles, que deveria ser estranho encontrar a ex-mulher de seu atual marido na rua, ainda mais nas condições em que o casamento havia terminado. Bill se sentiu o pior dos homens por ter deixado Hermione sair daquele jeito, por não ter ido atrás dela. Perguntou-se internamente o que raios estava fazendo ali sentado naquele café com Fleur e porque raios não conseguia sair do lugar.
- Eu zinto muite, Bill – a loira o tirou de seus devaneios – Eu rrealment sinte. Querria que zoubesse que rrealment amei vozê porr grand parte do tempo em que ficamoz juntoz. Maz acrredito que, no fim daz contaz, nos precipitamoz em noz casarr...
- Você poderia ter dito "não" ao meu pedido de casamento – ele respondeu, cortando-a.
- E vozê pensarr que não querria vozê pelo atac do lobisómem? – ela pontuou, séria – Sua familia non gostava de moi, nunca azeitou a moi, vozê sabe muit ben disso, Bill. O que acha que falarrian se je non quizesse mi cazarr com vozê?
Bill baixou o rosto envergonhado. Era verdade. Sua família nunca a aceitou por ser um quarto veela, e ele estava tão cego de amor que a pressionou a se casar, assim como estava pressionando Hermione.
- Nós érramos jovens, Bill. Agorra que somos adultes vozê deve saberr que, muitas vezess, amorr non et o sufiziente – ela continuou – nunca fomoz companheirroz, confidentez e, no final, non tinhamoz nin sexo. Je errei, e muite, ao deixar que vozê acreditasse que serria pai, deverria, al inicio, terr contado a verrdad. E, porr isse, je peço desculpes. Je errei.
A loira havia lançado um abbafiatto antes de pronunciar a frase na presença da filha. Bill permanecia de cabeça baixa, absorvendo as palavras da ex-mulher. Não estava escutando nada que já não soubesse. Ele já sabia de tudo aquilo, e era covarde demais para assumir sua parcela da culpa e sempre jogava o assunto para o fundo de sua mente. Mas ele era culpado. Ele havia recém a conhecido quando começaram a namorar, logo depois fora atacado por Greyback e a pediu em casamento. Pressionou-a, mesmo que não intencionalmente, a aceitar. Os dois se casaram sendo estranhos um ao outro, e assim seguiram até que o casamento acabasse. Não eram amigos, não eram confidentes, não tinham o que ele tinha com Hermione. E ali estava ele, pressionando Hermione, cometendo o mesmo erro de novo e correndo o risco de perdê-la. E, ainda, deixou que sua família pintasse Fleur como o próprio Voldemort. Bill era um covarde machista, e sentia-se envergonhado por isso.
- Você não é a única a pedir desculpas – ele finalmente encarou a loira – eu assumo a minha parcela de culpa nisso tudo. Eu pressionei você, e eu não estive do seu lado como você queria. Eu sinto muito, Fleur. Eu não quero repetir, não quero errar com ela como errei com você.
Fleur sorriu para Bill de forma sincera e segurou as mãos dele sobre a mesa. Até as mãos dela eram estranhas a ele agora.
- Nós mudams parra melhorr – ela disse – Victoire me mudou parra melhorr, e Herrmion mudou vozê. Vi vozês doiz al longe, nós nunca tivemos o que vozê tem con ela. Vozê non vai errar con ela.
O ruivo sorriu agradecido. Os dois conversaram mais alguns minutos e Bill soube que Fleur também estava casada. Saber que a ex-mulher realmente amava o pai de Victoire tirou outro peso de seus ombros. Não muito tempo depois, o bruxo se despediu das duas francesas, agradecendo à ex-mulher por terem finalmente esclarecido tudo. Caminhou atentamente por todo o Beco Diagonal, procurando por Hermione, e se sentiu desesperado quando não a encontrou em lugar algum. Estava prestes a desistir e ir para casa verificar se ela já estava no apartamento, quando a encontrou conversando junto ao balcão de um boticário com Luna. A loira tinha as mãos protetoramente acariciando a barriga, que já aparecia, e a castanha sorria lindamente à amiga.
Bill ficou parado observando a esposa, absorvendo os movimentos dela, o jeito que ela se apoiava no balcão, o sorriso doce que ela direcionava ao boticário e à amiga, o jeito em que alguns fios de cabelo caíam de seu coque, e o jeito que ela parecia um anjo mesmo vestida com uma camisa branca amassada e um short jeans surrado. Hermione, sentindo que estava sendo observada, virou-se para a porta do boticário e avistou Bill, e abanou timidamente para ele, com um sorriso fraco nos lábios. Ele suspirou e entrou na loja.
- Oh, olá Bill – Luna cumprimentou sorrindo, os olhinhos azuis quase fechados.
- Oi Luna, como está você e o bebê? – Bill perguntou.
- Estamos bem, vim buscar uma poção para minhas dores de cabeça – ela explicou, apontando para os frascos no balcão – Ron está na padaria buscando um bolo de cada sabor.
- Para que tanto bolo? – o ruivo perguntou, interessado.
- Coisas de grávida – a loira deu de ombros – quando Ginny me contou sobre os desejos de grávida eu não acreditei, mas é verdade.
Bill se virou para Hermione, que parecia aérea. Ela estava encarando as prateleiras de frascos coloridos durante toda a interação do ruivo com Luna, e sacudia a perna inconscientemente muito rápido. Ele levou hesitantemente o braço até as costas dela, e acariciou-a com a palma da mão. Ela se assustou e se virou para ele. A sineta da porta da loja tocou e anunciou a entrada de Ron, carregando uma pilha de caixas de bolo. O coitado mal conseguia enxergar o que estava à sua frente de tão alta que era a pilha.
- Graças a Merlin Bill está aqui! – o mais novo exclamou – hey, cara, quer me ajudar a levar essas caixas para casa?
Bill não queria, mas não teve muita escolha. Apanhou metade das caixas, e Hermione enlaçou seu braço no de Luna. Os quatro usaram a rede Flu do boticário até a casa de Ron e Luna. O ruivo mais velho estava impaciente e negou três vezes o convite do irmão para que tomassem um chá juntos. Só queria chegar em casa com Hermione e conversar com ela, saber se estava tudo bem. Sentiu-se aliviado quando, no quarto convite, a castanha enfaticamente agradeceu e puxou o marido para a lareira.
Quando chegaram ao apartamento, ainda estavam dentro da lareira quando Bill pegou o rosto de Hermione entre suas mãos e baixou o rosto até ficar com os olhos na altura dos dela.
- Por favor, nunca me deixe – ele disse. Hermione entendeu que ele estava pedindo que ela nunca mais o deixasse sozinho diante de uma situação como a que vivenciaram à tarde, mas ele queria dizer muito mais do que isso. Ele queria que ela nunca o deixasse, que ficasse para sempre com ele. Ela assentiu e ele roçou o nariz no dela – e obrigado.
- Pelo que? – ela perguntou, olhando dentro dos olhos azuis dele.
- Fleur – ele respondeu, e ela engoliu em seco – foi bom poder ter colocado as coisas no lugar, sinto como se um peso tivesse sido tirado dos meus ombros.
- Fico feliz por você, Bill – Hermione respondeu, tentando ao máximo não transparecer o quanto estava insegura. Ela tinha os braços esticados para baixo, alinhados com a lateral de seu corpo e as sacolas ainda nos ombros, e mexia os dedos nervosamente. Queria afastar as mãos dele de seu rosto e sair dali. Mas, ao mesmo tempo, não queria deixar o toque dele.
Bill não precisava dos sentidos aguçados para perceber que Hermione não estava bem. Ele ouvia os batimentos dela e o sangue correndo pelas veias da castanha, sentia a respiração acelerada dela e, principalmente, já havia aprendido a reconhecer o olhar dela. Quando ela estava feliz, os olhos brilhavam e o lembravam de chocolate quente em uma tarde de Natal. Quando ela estava excitada, as pupilas dilatavam e os olhos castanhos pareciam mais avermelhados e transpareciam um quê de mistério, lembrando-o do início da noite no deserto do Cairo. E quando ela estava triste, Merlin, era como se toda a alegria do mundo tivesse sumido, como se toda a vida, antes colorida pelo marrom quente dos olhos dela, tornasse-se cinza e fria. Ali, no entanto, o olhar dela não denunciava nenhum dos três estados que Bill conhecia, e isso o deixou mais frustrado e preocupado.
- Não compramos a sua roupa – a bruxa disse, levando suas mãos até as de Bill, e gentilmente as tirando de seu rosto. O ruivo permitiu, mesmo com o coração levemente despedaçado, que ela afastasse seu toque.
- Por incrível que pareça, sou o mais tradicional em vestes a rigor de todos os Weasleys – ele comentou com um sorriso, na tentativa de quebrar o clima estranho entre os dois – então é bem fácil encontrar o que vestir, podemos ir de novo amanhã ou, se você não quiser, posso ir sozinho no meu intervalo de almoço segunda-feira.
A castanha sorriu fracamente e assentiu com a cabeça, finalmente saindo da lareira. A bruxa largou as sacolas no balcão que ligava a sala à cozinha, e Bill se aproximou com passos decididos. O ruivo enlaçou a cintura dela com uma mão e, com a outra, puxou-a pela nuca, colando os lábios nos dela.
- Eu sou completamente louco por você – ele sussurrou contra os lábios dela – eu sei o que está fazendo, e eu imploro que não o faça. Não me empurre para fora, não me afaste de você.
A castanha então enterrou o rosto no peito dele, abraçando-o pela cintura muito forte. Ela sussurrou um pedido de desculpas e ele beijou os cabelos dela, assegurando-a de que não havia pelo quê se desculpar. Ele roçava gentilmente os dedos contra as costas dela e tinha o queixo apoiado no topo da cabeça dela, aproveitando a proximidade dos corpos dos dois.
- O que você me diz de pedirmos comida para o rapaz da moto, qual o nome mesmo? – ele perguntou e ela riu, respondendo que se tratava do sistema de delivery – esse mesmo! Delivery. É um nome engraçado. Podemos pedir comida e passar a noite juntos no sofá, não vejo a hora de terminar o último livro que você me recomendou.
- É uma ótima ideia – ela respondeu, limpando discretamente algumas poucas lágrimas que tinha nos olhos com a ponta dos dedos.
Bill levitou o sofá até a varanda e o deixou bastante aconchegante com várias almofadas e uma coberta fina enquanto Hermione pedia a comida pelo telefone da cozinha – o único da casa. Quando a bruxa terminou de fazer o pedido, surpreendeu-se ao ver o ambiente que Bill havia criado para os dois. Já estava começando a anoitecer e o céu estava limpo. Ele já havia ligado magicamente o varal de luzes da varanda e os dois poderiam ficar ali deitados sob as estrelas. O ruivo já estava deitado contra um braço do sofá, segurando um exemplar de "Mulherzinhas". Ela sorriu e se juntou a ele, deitando-se no sentido inverso e apoiando os pés no colo dele.
- Qual seu personagem preferido? – ela perguntou.
- Jo, porque ela me lembra você – ele respondeu, e ela sorriu – inevitavelmente me identifiquei um pouco com Laurie, apesar de ficar um pouco irritado com ele às vezes. Se bem que fico bastante irritado comigo mesmo... Ainda estou longe de terminar, mas torço que eles dois fiquem juntos.
Hermione sorriu. Ela sabia do fim do livro e não queria estragar a experiência de Bill. Ela apanhou a sua escolha de leitura, um livro de contos bruxos, e passou a ler. O ruivo levitava o livro em frente ao rosto, a fim de ter as mãos livres para massagear os pés da esposa. Volta e meia ela o espiava sobre o livro e sorria ao vê-lo concentrado na leitura. Ele percebeu.
- O quê? – Bill perguntou, levantando uma sobrancelha.
- Você está muito longe – ela respondeu.
O ruivo fechou o livro com um feitiço não verbal, largou os pés dela e se inclinou para frente, quase se deitando em cima da bruxa. A ponta no nariz dele quase encostava no dela, e ele sorriu.
- Melhor assim? – ele perguntou.
- Muito melhor – ela respondeu, e o beijou delicadamente. Antes que pudessem avançar, o interfone anunciou que a comida havia chegado. Os dois acabaram tirando par ou ímpar para ver qual deles buscaria a entrega dessa vez, e Bill, como sempre, perdeu. Ele abriu a porta do apartamento prometendo vingança e Hermione gargalhou.
Os dois comeram no sofá os espaguetes que haviam pedido e permaneceram deitados juntos conversando sobre a vida. Bill escutava com atenção a castanha contar sobre seu tempo em Hogwarts e sobre a busca às Horcruxes – pulando, ele não deixou de notar, os acontecimentos da Mansão dos Malfoy. Ele lembrava do estado em que ela havia chegado no Chalé das Conchas, lembrava de ter ficado preocupado e desesperado por não saber como ajudar. Havia feito o que sabia como um quebrador de maldições e usou os parcos conhecimentos de cura que tinha, mas não fora o suficiente. Naquela época, jamais imaginaria que teria seu coração completamente entregue àquela garota. Mas, olhando para trás, conseguia enxergar que, apesar de nunca terem sido próximos, os dois sempre tiveram uma espécie de carinho e preocupação um com o outro.
Bill havia ficado inexplicavelmente superprotetor em relação a Hermione no Chalé das Conchas, chegando, inclusive, a discutir com Ron e Harry sobre permitirem que ela participasse da Guerra naquele estado. Hoje, no entanto, ele sabia que a bruxa o teria azarado caso ele tentasse impedi-la de qualquer coisa. Hermione havia tranquilizado Molly sobre o ataque de Greyback quando Bill estava internado no St. Mungus. Segundo ela, a garota havia apenas repetido o que havia escutado de Remus, mas fora o suficiente para tranquilizar sua mãe. Ele não deixou de perceber, mesmo naquela época, que as únicas três pessoas a agirem com naturalidade à sua nova condição foram ela e os gêmeos. Molly, Ron, Harry e Ginny o olhavam com pena, enquanto Fleur, Remus, Arthur e Percy o olhavam com preocupação. Os gêmeos faziam piadas e levavam a situação de forma leve, enquanto Hermione o tratava como se absolutamente nada tivesse mudado. E ele lembrou de gostar disso.
Talvez eles estivessem destinados, desde o início, a ficarem juntos. Ou pelo menos era o que Bill gostava de acreditar.
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Resposta aos reviews:
Gabi: É sempre uma alegria sem fim ler os teus comentários! E eu te peço mil desculpas pela demora em atualizar, e fico muito muito feliz em saber que minha história te possibilita se comunicar de forma tão aberta comigo e interagir com a fic de forma tão honesta e bonita s2 E pode ficar tranquila, que a fic jamais vai ser abandonada, inclusive o final já está escrito hahahaha, só preciso inserir alguns acontecimentos para arrematar a história.
Lexas: Eu, com certeza, não tenho a capacidade da J.K. de conseguir abordar, de forma tão fechadinha, assuntos tão relevantes, mas estou tentando meu melhor. Considero muito os seus comentários e sugestões! E ainda tem muita água pra rolar! Ainda não estamos perto de um desfecho. Obrigada por sempre deixar tuas observações sobre os capítulos, me ajuda muito MESMO. s2
