PRETO NO BRANCO


CAPÍTULO 2 – IRREVOGÁVEL

Tô cansada de ser outro alguém

De fingir que eu tô bem se eu não tô

Então me deixa te dar o que eu sou

Me deixa ser eu pra você

Uzumaki Naruto retornou para Konoha dois dias depois de Hinata e Sasuke terem recebido a notícia, surtado só um pouquinho de forma bastante contida e seguido com a vida como se eles não tivessem que juntar as escovas de dentes de forma bastante tradicional e pública em cerca de um mês.

Hinata tinha uma missão mais tarde que envolvia muita pesquisa e pouca ação, então se retirou para a biblioteca da vila, Sasuke saiu antes dela e foi recepcionar o loiro.

- TEME!

Eles tinham sentido o chakra um do outro a quilômetros de distância, que foi quase a mesma distância que a voz de Naruto percorreu com o chamado que ele deu ao avistar o moreno esperando por ele ao lado dos grandes portões da entrada da vila. Ino até pensou em ralhar com o loiro, mas sabia que seria uma tentativa vã tratando-se daqueles dois, então apenas limitou-se a balançar a cabeça. Shino não moveu um músculo, exceto os que já estava usando para caminhar.

O Uzumaki correu até o amigo e só não o envolveu num abraço porque da última vez tinha acabado com duas costelas quebradas e Sakura lhe quebrara mais duas antes de consertar todas as quatro, porque ela ficava muito irritada quando eles apareciam no hospital com feridas auto-impostas.

- Dobe. – Sasuke devolveu em tom de cumprimento e desencostou-se da parede ao lado dos portões.

- Quando você chegou aqui?

- Há dois dias.

- Você devia ter me avisado, teme! Kakashi-sensei me mandou nessa missão totalmente de última hora, mas era algo que Ino e Shino poderiam ter lidado sem mim... Se bem que teve uma hora em que eu precisei invocar vários sapos para ajudar com um enxame imenso de vespas e Shino ficou reclamando porque não queria que eu matasse os insetos, mas como faz quando tem vespas assassinas gigantes voando atrás de você?

- Naruto. – Sasuke interrompeu. Era, de fato, um pouco impressionante aquela habilidade do loiro de segurar o fôlego enquanto disparava palavras como Tenten disparava kunai.

- O quê? – A barriga de Naruto roncou tão alto que até o guarda do portão olhou para o grupo, divertido. Ino e Shino tinham acabado de se juntar aos dois, tendo andado até a entrada a um passo muito mais razoável do que o companheiro laranja. – Pode ser que eu esteja com fome, talvez.

- Ótimo.

Naruto levantou as sobrancelhas, seus olhos como dois grandes pires azuis. Ótimo? Sasuke nunca achava ótimo que ele estivesse com fome, porque isso significava que Naruto iria insistir para irem ao Ichiraku e Sasuke sempre negava pelo menos umas cinco vezes antes de aceitar e isso fazia com que Naruto ficasse ainda mais faminto no processo e o loiro acabava comendo pelo menos umas três tigelas a mais do que tinha planejado inicialmente, o que fazia Sasuke ficar ainda mais irritado de ter que pagar pelas tigelas extras, a menos, é claro, que aquela fosse a vez de Naruto de lidar com a conta, mas tinha quase certeza que da última vez tinha sido a sua vez de pagar, então...

- Eh?!

- Você vai querer ir ao Ichiraku ou não?

- Claro, mas...

- Shino, Ino. – Sasuke voltou-se de repente para os outros ninjas, sério, mas sem parecer agressivo. – Naruto e eu temos assuntos a tratar.

Basicamente, vocês não estão convidados, em sasukês.

Ino abriu e fechou a boca umas duas vezes antes de perceber sua semelhança a um peixe tentando voltar para a água e fechar a mandíbula com um estalo audível. Shino apenas consentiu com a cabeça enquanto Sasuke dava as costas ao grupo e se punha a andar.

Naruto continuava ali.

- Oi, Naruto! – Ino passou uma mão na frente do rosto do loiro que parecia hipnotizado no lugar. – Acho melhor você se apressar.

- Ahn? Ah, droga! – E colocou-se a correr, voltando-se por um momento para acenar para os dois e gritar um último agradecimento pela missão.

Antes que Shino pudesse escapar, Ino agarrou-lhe a manga do casaco.

- Ne, Shino, o que você acha que aconteceu?

- Eu sei tanto quanto você.

- Pode ser qualquer coisa quando envolve aqueles dois.

- Melhor não especular, Ino.

- Shino, como você pode ser tão frio? Se envolve Naruto e Sasuke, pode ser que o mundo esteja acabado, então como assim melhor não especular?

- O mundo não está acabando.

- Como você pode saber se você acha que é melhor não especular?

Como aquilo tinha se tornado uma discussão em que ele parecia estar perdendo sem ter dito praticamente nada?, Shino se perguntou.


A terceira tigela vazia de lámen foi se juntar a segunda e Naruto arrotou, cheio, mas ainda não satisfeito.

- Jii-san, mais um!

- Mais um miso lámen de porco saindo! – Foi a resposta de Teuchi enquanto colocava mais macarrão para cozinhar.

Sasuke ainda estava na metade da primeira tigela. Naruto realmente tinha uns talentos peculiares. Mas a verdade era que o Uchiha estava achando difícil colocar o macarrão para dentro, mastiga-lo e fazê-lo passar por sua garganta entupida com o que precisava falar.

Por um momento pensou que gostaria que Hinata estivesse ali, não que ela fosse melhor em lidar com o loiro, mas apenas para não ter que ser ele a falar qualquer coisa.

- Você já foi visitar a Sakura-chan, teme?

Não, Sasuke sequer dera importância se Sakura estava na cidade ou em missão. Sabia porque Naruto estava perguntando aquilo, ele sempre perguntava, como se talvez a insistência em algum momento fosse fazer o Uchiha perceber que estava sendo cego.

Seus olhos eram fantásticos. Viram através das juras de amor da rosada desde a infância. Não desdenhava dos sentimentos dela como uma vez o fizera, e eles tinham deixado de irritá-lo havia algum tempo, mas jamais fora indulgente apenas para não machucá-la. Era grato a ela por não ter desistido dele ao lado de Naruto por todos os anos que passaram tentando resgatá-lo, afinal, de si mesmo, mas sabia que a teria de fato matado se Kakashi não tivesse intervindo naquele dia. Esse era o tamanho de sua determinação à época e sua certeza de que o que sentia pela Haruno não era o amor que ela queria reciprocado. A amava, mas não estava apaixonado por ela. Sakura criara e alimentava fantasias e esperanças sem a ajuda dele.

- Não. – Respondeu honestamente, embora algo dentro dele detestasse decepcionar Naruto. Era o mesmo algo que detestava ver Hinata chorando, mesmo que apenas porque ela batera com o dedinho na quina do corredor. Então emendou: - Não tive tempo.

- Kakashi-sensei te manteve ocupado?

Aí estava sua abertura.

- Eu vou me casar. – Utilizara sua abertura para atacar como faria com um inimigo, direto ao ponto vulnerável e para matar: - Com Hyuuga Hinata.

- Ai, ai, ai! – O velho do Ichiraku também ouvira a notícia e conseguira derrubar todo o caldo escaldante do lámen sobre si mesmo. – Desculpe, Naruto-kun, vou repor isso aqui pra você.

Ele foi sábio em sumir pela porta dos fundos.

Naruto ainda não tinha respondido e Sasuke não ousara olhar para o loiro, incomumente estático e emudecido em sua hiperatividade. O Uchiha sentia movimento vindo apenas do chakra do melhor amigo, esquentando, rodopiando, querendo explodir.

- Sasuke... – A voz dele estava baixa, rouca. – Do que você está falando?

Sasuke contou ao Uzumaki sobre o contrato travado entre Uchiha Fugaku e Hyuuga Hiashi mais de duas décadas atrás, sobre como ele acabara naquela situação porque não havia mais Uchihas além dele, sobre como havia um jutsu que lhes provocaria dor se não cumprissem o que fora acordado, sobre Hiashi e Kakashi e Shikamaru e possivelmente toda a inteligência de Konoha, e talvez das outras vilas ninjas também, terem tentado romper o compromisso, mas falhado no processo, sobre como ele e Hinata tinham sido informados há dois dias que em menos de um mês precisariam ser marido e esposa um do outro.

Sasuke não contou que tinha um relacionamento com Hinata havia alguns anos, que planejara voltar para a vila a fim de pedi-la em casamento, que desenhara ele mesmo o padrão e encomendara o mais tradicional pedido de casamento dos clãs de Konoha a um artesão para que ela e os Hyuuga não tivessem dúvidas de suas intenções, que aquele contrato não era um malefício, que queria reconstruir- não, queria construir um clã, uma família, com ela, que a amava.

Sentia tudo aquilo, intensamente, mas não proferiu as palavras.

- Você tentou desfazer o jutsu você mesmo? – Naruto ainda estava incomumente sério, Teuchi não retornara mais com qualquer pedido e o moreno notou que tinham restado apenas os dois na barraca.

O loiro se virou para ele, a mão esquerda em seu ombro, apertando-lhe a camisa, os olhos azuis brilhando intensamente.

Sasuke considerou mentir. E se Naruto conseguisse romper o contrato e Hinata não se visse mais obrigada a se casar com ele? E se a intenção daquela pergunta não fosse unicamente o bem-estar de Sasuke?

- Não adiantaria. – Sasuke encolheu os ombros sob a mão do melhor amigo ainda apertando-o e sentiu o outro, gradualmente, fazer o mesmo, os dedos relaxando, mas não se afastando. – Esses jutsu de contratos matrimoniais são criados para não serem desfeitos. – O moreno alcançou a chá sobre o balcão, já estava frio, mas levou aos lábios e tomou um gole mesmo assim, apenas para tentar fazer com que sua mente desviasse do péssimo caminho em que se embrenhara. – Ele previne até mesmo que os noivos tentem suicídio.

A mão de Naruto finalmente se afastou.

- Você quer se casar?

- Eu o faria mais cedo ou mais tarde. – O Uchiha deu de ombros e isso pareceu tranquilizar ainda mais o Uzumaki. Naruto já perdera Sasuke uma vez porque o moreno se sentira preso e sem saída na Folha. Estava disposto a lutar contra quem quer que fosse para que seu melhor amigo pudesse continuar a desfrutar da liberdade tão duramente conquistada.

- E Hinata?

"Hinata disse sim sem que eu sequer precisasse dizer as palavras", pensou Sasuke e foi um esforço físico não sorrir.

- Ela também está disposta a honrar o contrato e não apresentou objeções.

- Não. – A negativa seca e sem rodeios surpreendeu Sasuke. – É claro que ela está "disposta a honrar o contrato", Hinata é assim!

Uchiha Sasuke sentiu-se mais incomodado e possessivo do que tinha direito quando Naruto, em sua ignorância do relacionamento que Hinata e Sasuke verdadeiramente compartilhavam, por negligência do próprio Uchiha, julgara conhece-la mais intimamente do que ele.

- Hinata também quer se casar? – O "com você" não foi dito, mas pesou entre eles como se seu significado tivesse tornado a gravidade ali mais pesada por alguns segundos.

- Acho que você terá que perguntar isso a ela, dobe.

- He! – Naruto finalmente mudou de expressão, sou sorriso voltando ao lugar de direito. Pequenas manifestações de chakra rodopiando aos pés deles, em roxo e laranja, foram sumindo. - Nunca imaginei que você fosse se casar, teme!

Sasuke chegou a pensar que aquilo era mentira, dada a insistência com o assunto Haruno Sakura, mas talvez o próprio Naruto não acreditasse em suas vãs, mas constantes, tentativas.

- E com Hinata, talvez a única pessoa da vila que não se apaixonou por você!

- Hn. – Sasuke resmungou sem querer responder.

- Quem mais já sabe? Kakashi-sensei, Shikamaru, o clã Hyuuga? – O moreno olhou de canto para o loiro, mas Naruto parecia estar monologando para si mesmo. – Sakura-chan? Ah, não, você disse que ainda não falou com ela... Hinata já contou ao time dela? Kiba vai pirar!

- Hinata vai falar com Inuzuka e Aburame ainda hoje.

Naruto fez um som de concordância antes de emendar:

- Então nós temos que falar com Sakura-chan amanhã. – O uso do pronome plural fez Sasuke se virar para encarar o loiro. Naruto sorria, mas seus olhos estavam sérios e determinados. – Você precisa contar a ela, teme, antes que ela saiba por outras pessoas.

Sasuke concordou com um aceno rígido de cabeça. A imensa habilidade empática do Uzumaki jamais deixava de surpreende-lo.

- Naruto.

- Uhn?

- Eu preciso te pedir um favor. – Isso chamou a atenção do loiro. Quando Sasuke precisava de alguma coisa ele simplesmente pedia o que queria, sem informar que se tratava de um favor. Aquilo era novo. – Os Hyuuga querem celebrar o contrato com os ritos tradicionais.

Argh, Naruto detestava aquelas cerimônias, e podia afirmar com confiança que Sasuke também não era um grande entusiasta das práticas.

- O jantar de noivado com a liderança do clã Hyuuga será em três dias. – Sasuke ainda estava virado para o melhor amigo, seu único olho visível preso aos cerúleos. – Você iria comigo como representante da minha família?

Diversas emoções passaram pelo rosto de Naruto. A expressão anterior, tão séria quanto a do moreno ao fazer o pedido, deu lugar a um sorriso cheio de dentes que se fechou em um sorriso menor, os olhos abertos e marejados, quando a mão direita do loiro foi pousar no ombro esquerdo de Sasuke e a mão direita do moreno encontrou o ombro esquerdo de Naruto em seu estranho abraço quadrado de ninjas superpoderosos.

- Com certeza!

Com um sorriso minúsculo e o peito definitivamente aliviado, ambos se soltaram, a tensão no ambiente se dissipando completamente, assim Teuchi finalmente foi capaz de trazer a quarta tigela de lámen de Naruto e Sasuke conseguiu pedir uma nova, subitamente faminto.

- Também vou planejar sua despedida de solteiro.

- Não.


Hinata julgava ser uma boa intérprete da natureza humana. Sabia distinguir quando uma pessoa queria conversar, desabafar, sentar-se e desfrutar de uma companhia silenciosa, socar uns postes, gritar contra o travesseiro, tomar um longo banho nas termas, tomar um porre ou simplesmente comer um bolo inteiro.

E conhecia Shino e Kiba há mais de uma década, de forma que estava bastante segura sobre quais seriam as reações deles quando contasse que estava contratualmente obrigada a se casar com Uchiha Sasuke em algumas semanas.

Shino iria tentar racionalizar todo o processo. Perguntaria sobre o jutsu utilizado, sobre a justificativa dos Hyuuga e Uchiha para uma união como essa, sobre a legislação – ou falta dela – atual em relação a esses assuntos, sobre o que poderia ser feito para reverter a situação e, por fim, sobre os pensamentos e sentimentos de Hinata no assunto.

Essa parte transcorreu conforme visualizado.

Kiba iria ficar possesso logo de cara. Ficaria indignado que uma coisa como aquela ainda pudesse existir e fosse válida, berraria o ultraje da situação de passar por cima da liberdade individual de Hinata daquela maneira que até Akamaru se encolheria no chão com as patas sobre o ouvidos. Vociferaria contra todos os envolvidos: os Uchiha, os Hyuuga, os Kages que não conseguiam fazer nada nem para impedir o acontecimento nem para romper o contrato, Shikamaru, que devia ser o cara mais inteligente do continente, Sasuke, que simplesmente tinha que ter sobrevivido todas as situações adversas contra ele. Mas por fim ele se acalmaria quando percebesse que a maior interessada no assunto, Hinata, não parecia estar arrancando os cabelos ou à beira da desidratação de tanto chorar.

Essa parte também transcorreu conforme visualizado.

Foi o depois disso que Hinata honestamente não estava esperando:

- Você parece muito calma sobre isso, Hinata.

- B-bem... – A moça estava sentada no banco de pedra do parque logo em frente a biblioteca, Shino em pé ao seu lado enquanto Kiba andava de um lado para o outro na frente dos dois. Mas agora o Inuzuka estagnara, as mãos fechadas em punhos, a mandíbula tensa. Hinata tentou sorrir enquanto respondia: - Não há exatamente muito que eu possa fazer, Kiba-kun.

- Então você vai simplesmente se oferecer a ele.

- Kiba. – Shino chamou como aviso. O rosto de Hinata caiu, seus olhos no chão.

Ela não antecipara aquele rancor de Kiba.

- Você ao menos tentou fazer alguma coisa para não ter que se casar com ele? Dormir com ele?

- Kiba, já chega! – Shino moveu-se para se colocar na frente dela, mas Hinata levantou uma das mãos e segurou-o pelo casaco.

- Está tudo bem, Shino-kun. – A voz dela saiu um fiapo, mas não quebrou em nenhum momento.

- Tch. – Kiba estalou a língua, o desprezo e a dor óbvios em sua expressão. Hinata ainda não tinha olhado para ele. – Desde que você e Naruto terminaram que você não é mais a mesma. Depois de um tempo que aquilo aconteceu você renunciou à posição de herdeira dos Hyuuga sem necessidade, aí começou a passar dias e dias trancada em casa sem querer ver ninguém, começou a treinar sozinha e a ir a missões cada vez mais perigosas...

Kiba continuou falando. Ele tinha todos os fatos, mas estava relacionando-os com as razões erradas.

Hinata deixara a posição de herdeira depois de conseguir fazer a única coisa que a levara a assumir: destruir a separação entre a família primária e secundária dentro de seu clã e banir o selo do pássaro engaiolado, tornando-o uma técnica proibida e queimando todos os pergaminhos que falavam sobre ele. Depois disso deixou que a vontade de seu pai fosse realizada como deveria, renunciando para que Hanabi assumisse por direito e competência, e assim pudesse finalmente ver-se livre do peso que eram as expectativas de seu pai.

Os dias que passava em casa eram os dias que Sasuke estava na vila, tinha certeza. Controlou-se para não corar com os motivos que a faziam realmente não querer ver mais ninguém quando ele voltava.

Passara a treinar com Sasuke nos momentos em que ele estava presente e que precisavam de um tempo tomando ar puro. Ele se oferecera e ela aceitara. Treinar com Sasuke era difícil e tão bom quanto treinar com Neji-nii-san, porque ele a fazia precisar ser mais rápida, mais forte, mais focada. Sasuke era uma força da natureza em seu poder e Hinata sabia que não conseguiria dobrá-lo, mas aprendera a trabalhar com aquela força, moldando-a, usando-a a seu favor, e isso a tornava uma kunoichi melhor e mais capaz, fazendo-a ter confiança em si mesma para aceitar missões que não aceitaria antes.

Não teve tempo de dizer isso a Kiba.

– Você está fazendo isso por causa do Naruto?

Aquilo moveu Hinata. Ela levantou não só o rosto para o Inuzuka, mas seu corpo todo saiu do banco. E então Kiba estava voando. Cinco, sete, nove metros sobre a grama do parque, enquanto a dor de ter todas as suas vias de chakra interrompidas ia se espalhando por seu corpo a partir do seu plexo solar atingido por um dos punhos gentis de Hinata brilhando com poder. Os olhos brancos carregavam uma das gekkei genkai mais poderosas do mundo e também a dor mais profunda provocada pelas palavras de um de seus amigos mais queridos.

Sem nenhuma pressa e ainda com sua linhagem ativada, Hinata andou até onde Kiba respirava com dificuldade estirado no chão, sem fazer quaisquer tentativas para se levantar. A explosão de ar para fora de seus pulmões o fizera expelir saliva e líquido pela boca e pelas narinas. Todos os seus membros tremiam. Não era uma visão bonita.

- Eu jamais... – Hinata engasgou. Sentia as lágrimas se formando diante da situação toda. Não queria chorar, mas estava tão brava. Estava furiosa como não se sentia em muito tempo.

Kiba tinha seus olhos arregalados e tentava recuperar a respiração, puxando ar pela boca ruidosamente. Como os golpes de Hinata tinham ficado poderosos daquela maneira sem que percebesse?

Quando ela se aproximou o suficiente para que ele focasse nos olhos pálidos, o rapaz pareceu se lembrar que ela era a herdeira, embora não atuante, de um dos clãs mais antigos, poderosos e longevos da Vila Oculta na Folha, a princesa do Byakugan, a responsável por extinguir a segregação em sua família entre primária e secundária e que abrira mão de seu título – e que não fora deserdada após terminar seu romance com o futuro hokage, como muitos achavam – para poder, finalmente, viver a vida do jeito que queria.

- ...jamais ousaria magoar Naruto-kun dessa maneira. – Ela completou, as veias deixando seu rosto enquanto as lágrimas começavam a cair.

Kiba queria abraça-la agora, sua companheira, sua melhor amiga, sua irmãzinha, mas com que direito?

E então lembrou-se de Uchiha Sasuke desposando-a, tocando-a, agindo como seu noivo, seu marido, seu dono e a fúria voltou, embora apenas dentro de si.

- Eu sinto muito, Kiba-kun, que você não consiga entender...

Hinata queria ter contado a eles toda a verdade. Viera preparada para dizer que, afinal, também fora uma das tolas que se deixaram seduzir por Uchiha Sasuke.

Que ele era arrogante porque seu talento o permitia, mas se esforçava todos os dias para ser melhor; que ele era dolorosamente sincero, o que o fazia parecer rude, mas era só o modo direto dele se expressar;

que ele não tinha paciência para pessoas, mas só por causa da sua personalidade introvertida;

que ele era mais duro do que Neji-nii-san nos treinos que faziam juntos, mas isso a ajudara a melhorar;

que ele sempre acrescentava um solzinho sob seu nome quando o escreve com ketchup no omurice;

que não importava o quão desinteressado ele parecia, especialmente ao lado de Naruto, ele estava escutando e analisando tudo o que estava sendo dito;

que ele passava meses e meses e meses sem voltar para a vila porque estava buscando informações e inimigos de Konoha, para ajudar a protege-la;

que ele colocava muito amaciante de propósito quando lavava roupa porque gostava do cheiro;

que ele detesta ter que usar uma forma para moldar os omusubi porque fazê-los usando uma mão só os deixavam horrivelmente disformes;

que não importava quanto espaço tinha na sala quando Hinata estava sentada no chão corrigindo provas na mesinha de centro, ele se sentava no sofá bem atrás dela, uma perna de cada lado;

que podia passar horas com a cabeça dele em seu colo, cofiando os dedos pelos cabelos negros, até que ele de repente dizia alguma coisa lá do fundo, tão fundo que saia num sussurro, e eles conversavam sobre isso ou voltavam a ficar em silêncio, e esses eram os momentos mais preciosos que passava com ele.

- ... mas eu vou- - Ela se interrompeu, aquele não era o verbo correto. – Eu quero me casar com Sasuke-kun.

Ela deu-lhe as costas sem mais palavras nem para um adeus, voltando até o calçamento, dando um brevíssimo adeus a Shino e caminhando rapidamente para longe. Kiba, que até então estava tentando se apoiar nos antebraços para se reerguer, desistiu e caiu de volta na grama completamente amolecido e exausto. Seu plexo solar latejava e sentia-se um pouco nauseado sem saber distinguir se do golpe ou de tudo que estava passando por sua cabeça.

- Eu acho que você merecia apanhar mais.

- Ca- cale a boca, Shi... no.


Havia anoitecido quando finalmente voltou para casa. Não sabia se Sasuke já tinha retornado, tendo saído antes dela naquela manhã para recepcionar e conversar com Naruto. Pelo menos conseguira parar de chorar quando alcançou seu prédio.

Subiu os degraus sem ânimo, as costas curvadas, e aproximou-se de sua porta sem conseguir saber se já tinha alguém lá dentro. Francamente, não sabia dizer se o que mais queria no momento era ver Sasuke ou ficar sozinha.

Abriu a porta silenciosamente e o cheiro gostoso de arroz recém preparado a assaltou. De onde estava, parada no genkan, podia ver Sasuke debruçado sobre a bancada que separava o pequeno espaço da cozinha do resto do apartamento, concentrado em ler um pergaminho com os cabelos puxados para trás por sua tiara de orelhas de gatinho de pelúcia que ficava no banheiro para Hinata não molhar a franja ao lavar o rosto pela manhã. Podia ouvir o som do óleo quente e algo sendo frito na cozinha. Ao lado de Sasuke havia duas tigelas de salada apenas esperando para serem temperadas.

A porta finalmente se fechou com um clique suave a suas costas e Sasuke levantou a cabeça.

- Bem vinda.

Hinata tinha a cabeça baixa enquanto tirava as sandálias e as colocava arrumadas na lateral do espaço. Quando finalmente olhou para cima tinha de novo lágrimas nos olhos e sua voz saiu fraca ao responder:

- Cheguei.

Sasuke estava a sua frente em um movimento. Hinata jogou seus braços em volta dele enquanto o Uchiha a apertava com toda a força de seu braço direito contra seu peito.

Era a terceira vez que a via chorar desde que aquele contrato viera à tona e dessa vez não era de felicidade.

- O que aconteceu? – Sasuke perguntou, direto ao ponto. – Inuzuka?

Hinata assentiu com o rosto ainda enfiado em sua camiseta já úmida das lágrimas e as mãozinhas se apertaram ao seu redor. Ela não queria que ele fizesse alguma coisa e ele não faria nada que ela não quisesse, mesmo que seu sangue estivesse fervendo nas veias e tudo o que queria era virar aquele idiota do avesso.

Os segundos se arrastaram medidos pelo som do óleo quente esquecido na cozinha. Hinata soltou um longo suspiro antes de finalmente levantar o rosto para encarar Sasuke, os olhos vermelhos pelas lágrimas, inchados, mas ela conseguiu sorrir quando viu o rosto sério do moreno e colocou seu dedo indicador entre as sobrancelhas dele para desfazer a ruga de preocupação e raiva que se formara ali. Sasuke fechou os olhos com o toque dela.

- K-kiba-kun me acusou de aceitar o contrato para ferir Naruto-kun.

Os olhos de Sasuke reabriram, um deles vermelho com uma flor preta no centro, o outro roxo circundado por seis tomoe. A ruga também voltou entre as sobrancelhas. Hinata não o esperou reagir, continuou com a mão no rosto dele, acariciando as sobrancelhas finas, a ponte do nariz, a pele delicada sob os olhos poderosos, até segurar-lhe a curva da mandíbula, rígida pelas palavras que acabara de ouvir, pela fúria que estava tentando controlar.

- Ele não sabe que eu amo você, Sasuke.

O sorriso que ela lhe deu não era nem um pouco triste e contrastava dramaticamente com a situação de seus olhos depois de chorar. Com algum esforço, o Uchiha controlou seu chakra. As mãos dela continuaram seu caminho pelos traços de seu rosto enquanto ele fechava os olhos e fazia o carmim e os tomoe desaparecerem.

- Kiba não precisa saber. – Sasuke abriu os olhos, negro e roxo circular. Sua voz estava séria como sempre, suas palavras sinceras como sempre. Uchiha Sasuke não era conhecido por gastar saliva em vão, então Hyuuga Hinata bebeu de cada sílaba, acreditando nele de todo o coração. – Eu sei.

Inclinou-se para beijá-la, nos lábios, na bochecha, na curva atrás da orelha quando ela jogou os braços em volta de seu pescoço, cutucando sua clavícula direita com o nariz e respirando fundo o cheiro familiar de lar e Sasuke e sabonete e... Fritura? Óleo queimado?

- Sasuke, tem alguma coisa queimando?

- Merda, o camarão empanado!


Era o meio da manhã de um dia útil em Konoha e o único hospital da vila estava agitado como se esperaria do único hospital da vila. A entrada principal que ficava no centro do edifício não era uma das entradas de emergência, localizadas uma na lateral esquerda e outra no teto, para acesso rápido dos shinobi e suas invocações, por vezes muito maiores do que uma porta comum.

Sasuke estava do outro lado da avenida em frente ao hospital, sob uma fileira comprida de árvores que margeava todo o comprimento com bancos entre elas, um pequeno refúgio para quem quisesse deixar a beleza estéril e luminosa do único lugar na Vila Oculta na Folha que nunca parava.

- Nervoso, teme?

Naruto era uma presença tão familiar que o sentia como uma extensão de seu próprio chakra.

Colocou-se em movimento sem responder sentindo o loiro cair em compasso ao seu lado, as mãos levantadas atrás da cabeça. Quanto menos falasse, mais teria paciência para lidar com Sakura e o que quer que fosse que ela resolvesse fazer quando lhe contasse. Fora muito sensato da parte de Naruto sugerir que eles a visitassem no hospital, onde havia menos chance de que a rosada saísse quebrando paredes. Ou pior, seus ossos.

Embora movimentado, havia poucas pessoas na recepção do hospital, mas isso se devia principalmente ao fato de que a enfermeira-chefe atrás do balcão passava metade da sua vida ordenando os transeuntes para dizerem logo o que queriam, direcionando-os ou expulsando-os a depender da resposta, sem dar tempo para que ficassem empacando o local.

As pessoas que estavam ali, contudo, viraram-se para observar quem entrava. Um silêncio incomum abafou o barulho de sussurros que mesmo as placas de silêncio não conseguiam impedir. Os presentes tinham expressões que variavam e mudavam de surpresas para contentes para apreensivas para aterrorizadas para entediadas. A única que manteve a mesma expressão de sobrancelhas franzidas e linhas de expressão tão fundas quanto ruas de arado em volta da boca foi a enfermeira-chefe, que levantou os olhos brevemente para o futuro Hokage e o último Uchiha, e suspirou.

- Naruto-kun, Sasuke-kun. – Chamou-os, os sufixos soando tão condescendentes e hierárquicos quanto deveriam. Naruto abriu um grande sorriso e até acenou para ela e algumas outras pessoas que pareciam bastante contentes em vê-lo. Sasuke manteve a mão no bolso, sua postura característica. Nem o gesto de simpatia do Uzumaki nem a postura contida do Uchiha serviram para amenizar o humor dela.

– Sakura-chan terminou seu último turno há algum tempo, deve estar na sala dela. – Ela baixou a prancheta que analisava e olhou-os novamente, avisando ao vê-los se dirigindo aos elevadores: - Devo alertá-los novamente para serem o menos disruptivos possíveis aos outros pacientes.

Antes que Naruto pudesse começar uma argumentação bem humorada sobre momentos em que eles foram, de fato, bastante disruptivos ao hospital, Sasuke ficou agradecido de ela saber porque eles estavam ali, já que nenhum dos dois havia sido trazido coberto de sangue ou inconsciente, e andou a passos rápidos para os elevadores. O Uzumaki decidiu que, naquele momento, era melhor seguir o moreno.

A sala de Sakura ficava no lado oeste do terceiro andar, porque era o lado mais perto das salas de cirurgia e de tratamento intensivo, locais onde a rosada era essencial. Em tempos de paz, contudo, os tipos de pacientes que exigiam a atenção e cuidados da médica-chefe eram outros.

Havia um sofá de dois lugares, de tecido verde escuro, no canto do escritório de Sakura, também seu consultório, se precisasse, ao lado de uma escrivaninha encostada à janela, de forma que a médica trabalhava de costas para a porta, sem obstruções caso precisava sair às pressas, o que acontecia algumas vezes por turno.

Naruto não se deu ao trabalho de bater na porta, nunca o fizera e não iria começar naquele dia. Abriu-a com um clique suave da maçaneta e anunciou-se com um sonoro:

- Sakura-chan!

A Haruno acabara de colocar-se sentada no sofá depois de um cochilo. Passara as últimas doze horas assistindo um trabalho de parto de uma menina definitivamente hesitante em agraciar este mundo com sua presença. A mãe fora uma verdadeira heroína durante o processo, mas Sakura quase precisou sedar o pai para manter tanto a sanidade dele quanto a sua própria. Aprendera do jeito difícil que não era digno de uma médica nocautear os pacientes e acompanhantes agitados.

Ao voltar para sua sala, jogou-se no sofá e pensou em apenas fechar os olhos por um segundo antes de voltar para a casa e dormir até seu próximo turno em 24 horas, mas o sono a pegou em sua armadilha antes que percebesse. Sentou-se, assustada, cerca de uma hora depois, achando que tinha perdido o horário, mas seu relógio de pulso indicava que não tinha dormido nem perto do que gostaria.

Esfregou os olhos e espreguiçou-se quando uma cabeça loira e uma voz conhecida apareceram pela porta, entrando sem bater, como sempre, e sorrindo.

- Naruto... – A voz dela era um sussurro cansado, mas com o gosto residual de um sorriso.

Sakura estava feliz em vê-lo. Naruto ali significava que a vila não precisava dele em campo e, por isso, ele não estava correndo perigo em alguma missão e assim Konoha ficava exponencialmente mais segura. Também significava que podia pedir a ele para leva-la para casa em suas costas e evitar andar.

O loiro terminou de entrar em seu escritório e Sakura estava pronta para se deixar cair desajeitada e desgrenhadamente sobre o sofá de novo quando a figura de seu outro companheiro de time veio depois, parecendo uma sombra contra a radiância do primeiro.

- Sasuke-kun! – Exclamou e pôs-se a tentar fazer com que não parecesse que estava dormindo e babando de cansaço contra o braço do sofá há dois minutos, passando as mãos pelo cabelo que voltara a deixar crescer nos últimos meses e já passava da linha dos ombros. Desistiu depois de algumas tentativas, porque só estava piorando a situação dos nós deixados pelas toucas cirúrgicas e torceu para que Sasuke não tivesse oportunidade de vê-la de costas antes que pudesse tomar um banho. – Quando você voltou?

- Acabei de chegar. – Mentiu o moreno e Naruto não disse nada.

Sasuke terminou de entrar na sala e deixou a porta se fechar atrás de si. Sakura estava animada agora, o sono, cansaço e necessidade de banho esquecidos em prol de dar atenção a seus companheiros de time, um deles em especial.

- Eu fico tão feliz por nós três estarmos na vila ao mesmo tempo, tem sido tão difícil isso acontecer! – A rosada foi até sua mesa e remexeu brevemente em sua bolsa, mas não tinha mesmo trazido uma troca de roupas para que pudesse tomar banho nas duchas do porão e sair imediatamente com eles para almoçar ou qualquer coisa. – Querem almoçar? Ainda é muito cedo? Eu acho que preciso dormir por algumas horas... Vamos nos encontrar hoje a noite para comer yakiniku e conversar? Sasuke-kun, eu quero saber tudo sobre suas viagens!

Naruto e Sasuke se olharam no momento em que os olhos esmeraldinos estavam concentrados em procurar algo na bolsa dela. Naruto fez um gesto de encorajamento com a cabeça, mas seu semblante tinha a mesma seriedade preventiva do dia anterior.

- Sakura-chan, antes de fazermos planos, o teme quer falar com você.

Sasuke deu um passo a frente, preferia acabar com aquilo mais cedo do que mais tarde:

- Sakura.

A rosada cessou sua busca, seus ouvidos treinados para a voz grave de Sasuke. Sentia um prazer secreto quando ele dizia seu nome. Fez um murmúrio fático de que o estava escutando, mas o Uchiha não prosseguiu até que ela olhasse para ele. O olho do Rinnegan estava escondido pelo cabelo comprido, o olho ônix a encarava com a intensidade das chamas negras que ele podia conjurar. Sentiu-se autoconsciente de novo sobre seu estado pós-36 horas de turnos corridos, quatro partos e menos de cinco horas dormidas entre eles.

- Uchiha Fugaku e Hyuuga Hiashi travaram um contrato antes da destruição do meu clã. – O tom de Sasuke era monótono, como se já tivesse contado essa história mais vezes do que gostaria. – Esse contrato garantiria a união dos dois clãs pela criação de novos laços sanguíneos e foi selado com jutsu que obriga que seja executado.

A cor sumira do rosto de Sakura. Seus olhos estavam arregalados, apesar das olheiras que os impeliam a fechar, e sua boca era um linha fina apertada entre os dentes. Sua mente, treinada em unir sintomas à diagnósticos, pulou rápido para a análise das palavras, para hipóteses e, então, terrivelmente, para conclusões.

Tsuande ficaria orgulhosa.

Ela tinha uma boa ideia de para onde aquele pequeno discurso seguiria após ouvir as palavras Uchiha, Hyuuga e novos laços sanguíneos e não queria acreditar, não queria ouvir, não queria estar ali, não queria que ele estivesse lhe contando daquele jeito calmo e resignado, como se já tivesse aceitado o que quer que fosse que aquele contrato o obrigaria a fazer e agora só estava seguindo o roteiro.

- É um contrato de casamento entre o primogênito do Clã Uchiha e a primogênita dos Hyuuga. – Os olhos de Sakura recuperaram o brilho por um momento e ela chegou a entreabrir os lábios para fazer a mesma observação sobre Sasuke não ser o primogênito quando o rapaz continuou, inabalável. – Na falta de Itachi, eu assumo o lugar dele.

- Mas... – Tentou ela, sem saber o que dizer, sem saber se conseguiria fazer as palavras saírem, atravancadas como estavam pelo seu peito apertado.

- Eu e Hyuuga Hinata vamos nos casar no dia do Solstício de Verão.

Finalmente o cansaço que Sakura sentia fez com que suas pernas cedessem sob si. E Sasuke, que estava na frente, foi o responsável por ampará-la, passando o braço ao redor de sua cintura. A rosada enfiou o rosto em seu peito, as mãos tremendo ao segurar em punhos fechados a camiseta preta simples que ele usava.

Tensos momentos de espera se passaram em que o último Uchiha temia que sua companheira de time irrompesse em gritos, impropérios, talvez um ou dois ossos quebrados, definitivamente um olho roxo, mas sentiu apenas a umidade em seu peito, seguida dos soluços baixos e do tremer dos ombros.

Haruno Sakura estava chorando por tantos motivos que nem ela mesma saberia explicar, mesmo que conseguisse fazer sua mente parar de rodar. Chorava porque estava cansada e chorava porque tinha apenas 24 horas para descansar antes de seu próximo turno; chorava porque Sasuke estava segurando-a tão gentilmente depois de dar a pior notícia de sua vida com o mesmo tato de uma parede de concreto; chorava porque queria muito um banho e tinha certeza que ele podia sentir o cheiro horrível de seu cabelo; chorava porque seu amor de infância, que alimentara até agora, esperando, esperando, implorando, para que a amasse de volta, nunca o fizera; chorava porque Naruto estava ali; chorava porque queria destruir alguma coisa, mas não tinha forças nem para ficar em pé sozinha; chorava porque "por que Hinata?"; chorava porque era bom senti-lo próximo, apoiando-a; chorava porque ele lhe dera a notícia do mesmo jeito que teria feito um âncora do jornal das 21h anunciando que ocorrera um desastre natural, terrível, mas impossível de reverter.

E chorava porque a cada vez que lágrimas caiam, soluçava mais alto, puxando arfadas de ar dolorosas, com a certeza de que deixaria a camiseta dele esgarçada nos pontos em que seus punhos apertavam, sentia a dor envolve-la como um cobertor de dormência.

Com um esforço consciente de que se afastar dele era tão difícil quanto estar perto, Sakura tirou o rosto do peito de Sasuke, mantendo os olhos baixos, as lágrimas ainda escorriam, os soluços ainda vinham para atrapalhar sua respiração.

- Sakura-chan... – Naruto chamou, com cuidado.

- Naruto... – Ela devolveu, mas sua voz quebrou e ela teve que pigarrear para conseguir terminar de falar. – P-pode me levar pra casa?

- Claro.

Desvencilhou-se finalmente daquele abraço nascido da necessidade e deu as costas ao moreno para pegar sua bolsa de cima da mesa, mas Naruto foi mais rápido. O loiro colocou a bolsa dela no ombro e abriu a janela. Sakura detestava que ele usasse aquele método para entrar e sair de seu escritório, mas naquele momento não conseguia se importar. Naruto a pegou no colo, passando uma mão sob suas costas e outra sob seus joelhos, e Sakura envolveu o pescoço dele com um aperto frouxo. Em dias normais, o Uzumaki a levaria em sua costas, sempre fazendo uma parada para comprar besteiras em alguma loja de conveniência para longas horas relaxando no sofá, e Sakura seguraria seus ombros com força, às vezes massageando os pontos de tensão apenas porque já estava ali, e respiraria o cheiro de suor e amaciante da gola da camiseta dele até adormecer.

Aquele não era um dia normal, mas o cheiro que a fazia dormir estava ali, tão confortável quanto um pijama de flanela velho, quanto tirar o sutiã e os saltos depois de um evento formal, de ter seu coração despedaçado pela verdade de que Uchiha Sasuke nunca lhe prometera nada além de seu companheirismo e sua amizade nascida da gratidão.

O olho ônix os observava, mas se Sasuke tinha qualquer opinião sobre a familiaridade daquela interação, não vocalizou.

- Sakura. – Falou, por fim, e Naruto parou. Os olhos verdes subiram para seu rosto, ela ainda chorava, chorava, chorava. – Não era minha intenção te machucar.

Parecia impossível que Sakura chorasse mais, mas as palavras de Sasuke abriram novas comportas de sua represa emocional. Ele viu mais lágrimas inundarem os olhos esmeraldinos, manchas vermelhas se intensificarem nas bochechas e no nariz, e ela ter que trincar os dentes para conter os soluços. Empenhando-se, a rosada conseguiu murmurar um fraco:

- Uhn, eu sei.

Baixou o rosto de novo e deixou os fios cor-de-rosa caírem nos olhos.

Naruto fez um aceno de cabeça para Sasuke, que retribuiu da mesma maneira, e o loiro partiu pela janela aberta.


Familiar, capítulo 2 - 15/05

Tilim ; )