PRETO NO BRANCO


CAPÍTULO 3 – FAMÍLIA E AMIGOS

Esquece essa história inventada de achar

Que dá pra controlar seu coração

Me deixa parar de tentar enganar o meu

Que só quer ser teu

Embora Sasuke estivesse alguns minutos adiantado para o jantar tradicional de noivado que aconteceria aquela noite no Clã Hyuuga, não esperava encontrar Naruto, vestes formais dos pés à cabeça, esperando-o em frente aos grandes portões de madeira da entrada do complexo.

O loiro escolhera um terno preto como traje, novo e perfeitamente ajustado em sua figura. A camisa, contudo, ainda indicava sua preferência, sendo de um laranja vivo sob a gravata também preta. Naruto definitivamente tentara fazer alguma coisa sobre seu cabelo, como se o tivesse penteado com gel, à maneira que Gaara o estava usando atualmente, mas se arrependera no meio do caminho e bagunçara tudo de novo com os dedos. Não ficara horrendo, mas se tirassem a gravata e colocassem nele um óculos de sol e uma dupla de capangas parrudos, Naruto estaria muito mais próximo de parecer o jovem mestre de uma família mafiosa do que o futuro Hokage de Konoha.

Sasuke escolhera o traje formal tradicional dos clãs mais antigos da Folha. Comparara às pressas um hakama cinza e um montsuki kimono na mais escura e macia seda preta que encontrara. Claro que ele não tinha um daqueles já bordado com o símbolo de seu clã nos cinco lugares que a formalidade exigia do traje – um no centro logo abaixo do colarinho, um no centro de cada manga na parte de trás do braço e um em cada lado da lapela, na parte da frente, sobre o peito – então, também tivera que pagar muito mais do que a peça merecia apenas para ter tudo bordado em tão curto tempo. Como era verão e mesmo as noites ficavam bastante úmidas, escolhera vestir apenas o montsuki por dentro do hakama. Um haori por cima seria o ideal, mas a roupa como estava já era bastante pesada e quente, mais uma peça sobre tudo seria demais.

Hinata o ajudara a provar o conjunto na noite anterior, quando o trouxera da loja, e ficara adoravelmente corada quando o viu, mesmo que tivesse ido até ele para ajustar a abertura da frente do montsuki, avisando-o que não poderia usá-lo durante o jantar da mesma forma que o fizera quando adolescente, mas talvez depois...

O Uchiha também tentara fazer alguma coisa para melhorar a aparência do seu cabelo. Hinata o ajudara a cortá-lo, então estava mais curto na parte de trás, arrepiando-se e desafiando a gravidade como era de sua natureza, e Sasuke decidira tirá-lo do rosto, jogando-o para o lado e prendendo-o lá com pomada e paciência. Escondera o Rinnegan sob um tapa-olho por cortesia.

Sasuke flexionou os dedos sobre o tecido do embrulho que trazia sentindo falta de Kusanagi em sua cintura. Naruto aproximou-se também e o cumprimentou com um curto "yo".

- Como está Sakura?

Por um instante Naruto pareceu surpreso que ele quisesse saber, que se importasse, mas a surpresa sumiu para dar lugar a um sorriso pequeno, embora triste, e o loiro deu de ombros enquanto se colocava ao lado do moreno para entrarem no complexo Hyuuga.

- Triste e com o coração partido. – Naruto se aproximou e colocou a mão esquerda no ombro direito de Sasuke pelas costas enquanto andavam. – Você fez a coisa certa, teme, mesmo que a tenha machucado.

Sasuke olhou de canto para Naruto. O crescimento e amadurecimento do loiro não era apenas na estatura e nos traços que perderam completamente as feições de menino, seu caráter e experiência eram um manto muito mais importante que o de Hokage em suas costas. O Uchiha estava feliz em poder andar ao lado dele.

Eles passaram pelo portão principal e pelos guardas que os aguardavam. Sasuke esperava que tivesse alguém esperando para guia-los ao local em que se daria o jantar, mas não havia, e Naruto não parou de andar. O moreno teve que remoer silenciosamente o fato de que o Uzumaki sabia para onde ir porque ele tivera um relacionamento com Hinata sobre o qual todos sabiam e que provavelmente o levara a frequentar o Clã Hyuuga com regularidade.

Cerrou os dentes enquanto encarava as costas de seu melhor amigo tentando controlar o monstro medonho do ciúme em seu âmago enquanto serpenteavam pelo caminho de pedras lisas ladeado de árvores, luminárias de pedra com chamas bruxuleantes iluminavam seus passos ao rodearem um apinhado de árvores a direita e darem com o que devia ser a entrada da mansão principal. A enorme construção ficava quase nos limites internos do clã, separada de um lado por um bosque no sopé da mesma montanha que, alguns quilômetros a direita, servia de tela para os imensos rostos dos Hokages, e por muros do outro.

No alto dos grandes portões abertos, como as palavras sagradas escritas em um tori, a chama vermelha brilhava no centro de pedra do batente, o símbolo dos Hyuuga em viva representação. Sob o pórtico estava um homem jovem, os cabelos curtos e castanhos não traziam a Sasuke nenhuma familiaridade e só sabia que se tratava de um Hyuuga devido os olhos perolados e a marca amaldiçoada em verde em sua testa, símbolo de que ele era um dos membros antigos da recém-aniquilada família secundária.

- Boa noite, Koh.

- Ah, Uzumaki-san! Não sabia que você acompanharia Uchiha-san à cerimônia. Seja bem vindo! – Koh segurava uma lanterna de papel na ponta de uma vara comprida e fez uma leve mesura quanto os viu se aproximar. O monstrinho dentro de Sasuke rosnou pelo fato de o Hyuuga parecer mais feliz do que deveria com a presença de Naruto.

- Sasuke me pediu para vir com ele! – Naruto respondeu, simpático e não lendo muito intensamente a fria indiferença de Sasuke como incômodo pela situação.

Koh assentiu e seu olhar endureceu ao encarar o moreno dois passos atrás do loiro. Os olhos perolados se fixaram no olho ônix por mais tempo do que Sasuke diria ser educado antes de fazer uma curta reverência e oferecer seus cumprimentos:

- Estávamos esperando por você, Uchiha-san, seja bem vindo.

Então Naruto era uma agradável surpresa e Sasuke era uma cruel obrigação.

- Acompanhem-me. – Koh levantou-se da mesura com um movimento que o fez dar as costas aos dois ninjas e adentrar pelo ampla área de treinamento do interior da mansão.

- Koh era o imediato de Neji na proteção de Hinata. – Naruto sussurrou a título de explicação. Se não tivesse percebido a tratativa fria do Hyuuga para com o moreno, certamente percebera as intenções nada amigáveis do melhor amigo. – Talvez ele não esteja muito contente com o fato de Hinata estar sendo obrigada a se casar com você, teme.

- Uhn. – Sasuke grunhiu.

Não era Koh quem precisava estar contente.

Mas se a atitude do rapaz era algum indicativo do que poderia esperar naquele jantar, pularia de felicidade se conseguisse passar por ele sem assassinar ninguém, colocar Hinata sobre o ombro e fugir em direção ao horizonte.


- Natsu-san. – Hinata interrompeu antes que Natsu, que a estava ajudando a se aprontar para o jantar, pudesse colocar o enfeite em seu cabelo. Estava bonito, todo preso para cima em cachos e camadas, com apenas a franja e mechas laterais, também cacheadas, soltas para emoldurar o rosto. – Por favor, não coloque nada em meu cabelo.

- Mas Hinata-sama...

- Por favor. – Pediu com um pouco mais de intento.

Antes que Natsu pudesse insistir, a porta de correr foi aberta e a figura de Hanabi entrou no cômodo pisando duro. Hinata levantou-se com alguma dificuldade devido ao pesado quimono e colocou-se no caminho da irmã mais nova antes que ela se aproximasse muito do espelho e o trincasse apenas com o olhar.

- Nee-sama. – A menor parou a sua frente, analítica. Se estranhara o fato de que todos os enfeites de cabelo ainda estavam sobre a penteadeira, não disse nada. Tinhas as sobrancelhas franzidas e a boca em uma linha dura. Suas feições se suavizaram quando pousaram no olhar levemente divertido da maior. Hanabi franziu os lábios em um bico. Com aquela postura dominante era fácil para todos esquecerem que Hanabi tinha apenas 18 anos. – Não é justo...

- O que não é, Hanabi?

- Você estar tão linda para celebrar um contrato em que otou-sama praticamente a vendeu.

- Hanabi...

Hinata sabia que a irmã estava sendo difícil de propósito. Ela devia ter sido um pesadelo para seu pai nos últimos dias, reclamando sobre o contrato aos quatro ventos, sobre a injustiça da situação, sobre como o Uchiha tinha um péssima personalidade, sobre a burrice das antigas tradições. Sabia porque podia ver o cansaço no rosto de seu pai. Sabia porque Koh lhe contara em meio a seus próprios protestos e brados de que devia haver alguma coisa que podiam fazer. Sabia porque Natsu, enquanto a ajudava, não parava de lhe lançar olhares de pena por sobre o ombro, como também o fazia agora observando a interação das irmãs de sua posição ajoelhada próxima a porta, aguardando o momento para abri-la.

Mordeu o interior da bochecha para impedir-se de contar tudo a ela. Queria que as pessoas vissem Sasuke do jeito que ela o via, do jeito que o Hokage, Naruto e Sakura o viam. Não como um traidor da vila, um pária, um monstro perigoso, mas como um homem que cometera erros quando em posse das más informações e piores influências, um homem que tentava todos os dias redimir-se, mesmo que nas sombras.

- Uchiha chegou, está na sala com os anciãos e otou-sama. – Então Hanabi viera escoltá-la pessoalmente. – Ele trouxe Uzumaki como seu acompanhante.

Hinata já sabia que Sasuke o faria. Eles tinham conversado sobre isso antes que ele contasse a Naruto sobre o contrato. A princípio, Sasuke também queria trazer Kakashi, mas talvez fosse uma jogada deveras política incluir o atual Hokage na celebração do contrato entre os clãs. Os Uchiha não tinham um bom histórico de decisões políticas, os Hyuuga muito menos – uma vez que não solicitavam aprovação oficial do governo de Konoha para absolutamente nada relativo ao clã. Sakura também teria sido convidada, mas devido sua reação, Sasuke não estendeu o pedido.

A matriarca do Clã Hyuuga parecia esperar uma reação mais emocional da irmã mais velha, mas Hinata apenas fechou os olhos por um momento, a bonita maquiagem esfumada ressaltava seus olhos mesmo fechados, e soltou o ar com calma pelos lábios pintados de vermelho. Abriu-os e sorriu levemente.

- Está tudo bem, Hanabi.

A menor assentiu e Natsu finalmente abriu a porta para que passassem para o corredor. Com passos pequenos, devido os quimonos que vestiam, as duas andaram lado a lado pelos largos e conhecidos corredores de seu clã natal, pela casa onde cresceram, lutaram, riram, choraram, brigaram, reconciliaram-se.

Natsu se adiantara pelo corredor e agora se ajoelhava para abrir a porta de correr do grande salão para as duas irmãs. Era costume que antes de entrar em uma sala, quando as portas fossem abertas, as pessoas que deviam entrar estivessem ajoelhadas aguardando, mas Hinata e Hanabi ficaram em pé. Elas eram as herdeiras do Clã Hyuuga, em seu território, recebendo convidados. Não se ajoelhariam para ninguém.

O ratear da porta se abrindo silenciou as conversas sussurradas. A direita Hiashi estava sentado atrás de uma mesa baixa, mas longa o suficiente para acomodar também Hanabi, no centro como líder, e um dos membros da extinta família secundária. Havia outros membros da família na sala, inclusive Koh, sentados em almofadas dispostas em linha reta vários metros a frente da mesa principal. Entre eles, ajoelhados como guerreiros, voltados para as portas do corredor, as portas atrás deles abertas para a visão dos jardins internos tão bonitos ao luar, estavam Naruto e Sasuke lado a lado.

A respiração de Hinata ficou presa por um segundo admirando a cena que ficaria perfeita eternizada em uma pintura.

Os olhos perolados encontraram imediatamente o único ônix visível. Hinata quase arrependeu-se disso quando a visão de Sasuke mandou correntes elétricas por seus membros e duas fisgadas certeiras, uma para seu coração e outra para seu baixo ventre. Sentiu seus membros todos amolecerem. Refreou a vontade de lamber os lábios para não borrar o batom e esfregou as mãos que haviam começado a suar no interior das mangas do quimono lentamente para que não percebessem seu nervosismo.

Com uma mesura comedida, as irmãs entraram na sala. Hanabi andou até se colocar entre o pai e o outro ancião. Hinata posicionou-se na frente da mesa, encarando Sasuke. Ele estava usando o cabelo do jeito que ela sempre lhe dizia que gostava, porque era como ficava quando estava suado durante o sexo, esparramado sobre o travesseiro, com ela sobre si. Era a imagem que invocava quando estava sozinha em casa e sentindo-se carente, aqueles olhos intensos, a pele escorregadia no calor do quarto, os músculos definidos e a expressão incontida, os lábios abertos, o gemido sofrido de prazer e alívio, a respiração calmamente voltando ao normal contra seu pescoço, o corpo esfriando nos lugares em que não tocava o seu, os sussurros, os comentários banais ou pervertidos ou insossos. Cada momento deles. Sentiu vontade de esganá-lo ao mesmo tempo em que suas coxas flexionavam um pouco para apertarem-lhe o íntimo buscando um prazer que não teria ainda.

- Boa noite, Sasuke-kun. – Ela abaixou levemente a cabeça em cumprimento, as mãos estendidas a sua frente até as pontas dos dedos tocarem levemente o chão. – Naruto-kun. Sejam bem vindos ao Clã Hyuuga.

- Hinata-chan! – Naruto foi o primeiro a falar com um grande sorriso no rosto. – Você está linda!

O elogio a enterneceu e Hinata fez novamente um movimento com a cabeça para agradecê-lo. Em outros tempos certamente teria corado através da leve maquiagem que usava e desviado os olhos sem saber o que fazer. Aqueles eram novos tempos e seus olhos voltaram para o rosto sério de Sasuke. Queria sorrir da diferença entre a formalidade daquela celebração e a comoção no chão da cozinha dias antes, mas se controlou.

- Uchiha Sasuke e Hyuuga Hinata. – A voz de Hanabi chamou a atenção de todos na sala e os anunciados voltaram os rostos para a matriarca. – Estamos aqui para celebrar o contrato de casamento firmado para vocês pelos antigos líderes de seus clãs, Uchiha Fugaku e Hyuuga Hiashi.

Enquanto falava, Hanabi desatou o nó Pan Chang vermelho do pergaminho sobre a mesa e o desenrolou com cuidado e cerimônia. Havia caracteres que pareciam não acabar mais atestando todos os pontos de importância do contrato certamente permeados com jutsu em todos os níveis: no papel, na tinta, no pincel, nos símbolos dos clãs, nas assinaturas, nos carimbos, nas marcas de polegares sangrentos perto dos nomes dos antigos líderes.

Hanabi precisou se demorar lendo todos os termos. Tanto Hinata quando Sasuke haviam recebido folhas com cópias do texto para que estivessem cientes de tudo, mas no final das contas, que escolha tinham?

Que outro desejo tinham?

O pergaminho continuou sendo desenrolado até surgirem os dois círculos de caracteres onde eles colocariam suas palmas sangrentas no dia do Solstício de Verão e estariam casados.

- Nesta cerimônia de noivado, com representantes de suas famílias... – Hanabi havia respeitosamente ratificado o discurso tradicional e substituído a palavra clã daquela frase, uma vez que Naruto não era um Uchiha. - ...vocês, Uchiha Sasuke e Hyuuga Hinata, irão assinar seus nomes no contrato atestando que serão vocês mesmos, sem truques ou evasões, sem substituições, que irão selar o contrato no dia do Solstício de Verão, a menos que um destino mais cruel recaia sobre vocês.

Havia um pincel e uma pedra de tintura ao lado da jovem matriarca, assim como os totens dos carimbos de Hinata e Sasuke, entreguem aos Hyuuga previamente. Hiashi se adiantou para molhar a pedra, começar a esfregar o bastão de pigmento sobre ela para liberar a cor e fazer a tinta, mas Sasuke o interrompeu:

- Espere.

Hiashi estancou. Hanabi levantou seus olhos do texto do pergaminho que acabara de ler e voltou-se para o Uchiha, as sobrancelhas franzidas. Hinata, Naruto e todos os outros presentes também esperaram que o shinobi elaborasse.

O Uchiha levantou-se e deu alguns passos para se colocar ajoelhado de novo bem em frente a Hinata que o acompanhava com os olhos leitosos brilhando, seu coração acelerando quando o espaço entre eles foi preenchido pelo embrulho que Sasuke trouxera, o tecido bordado com o símbolo dos Uchiha, o formato retangular denunciando o conteúdo.

- O contrato não estabelece troca de presentes, Uchiha. – Hiashi parecia desconfiado, mas não agressivo.

Sasuke não respondeu, o que apenas serviu para azedar a expressão do ex-patriarca a suas costas, enquanto o rapaz se concentrava em desfazer o nó. As mãos de Hinata foram se juntar a dele após um momento e o moreno pausou, levantando o rosto para o pequeno sorriso nos lábios carmins. Sem protestos, Sasuke deixou que Hinata desatasse o nó, desembrulhasse a caixa de laca brilhante e revelasse os dois kanzashi ao levantar a tampa.

Quando os outros Hyuuga colocaram seus olhos sobre o conteúdo da caixa, um burburinho de sussurros se espalhou pela sala. Naruto foi o único que ficou em silêncio com a cabeça virando de uma pessoa surpresa para a outra, sem entender.

- Pensei que as relíquias dos Uchiha tivessem sido perdidas ou saqueadas. – Hanabi comentou.

- Algumas foram resgatas antes da destruição do Clã Uchiha, Hanabi. – Foi Hinata quem respondeu, surpreendendo ainda mais a todos na sala. O burburinho continuou.

- Estes kanzashi não são relíquias. – Sasuke encarava Hinata. – Eu os encomendei recentemente.

Com cuidado, quase reverência, o último Uchiha pegou o kanzashi de prata com o padrão de pássaros.

Naruto ainda estava tentando entender o que era aquilo e o que estava acontecendo, a expressão confusa, os olhos semicerrados sobre os dois no centro do cômodo.

Sem que precisasse de instruções, Hinata se moveu, com cuidado por causa do pesado quimono, até colocar-se de costas para Sasuke. O único olho negro fazia sua nuca queimar ou talvez fosse o seu sangue que ele conseguia fazer ferver apenas por estar perto dela. Baixou levemente a cabeça aguardando que ele colocasse o enfeite em seu cabelo, aceitando o simbolismo que ele representava.

- Esses kanzashi serão artefatos de um novo clã.

O burburinho cessara com as palavras do Uchiha.

Ele se elevou sobre os joelhos para se aproximar dela. A nuca de Hinata era uma curva suave, a última vértebra um pouco saliente, e a penugem escura que não conseguira ser retida pelo penteado contrastava com a pele ainda mais pálida envolvida no bonito quimono dourado. Queria colocar sua boca ali, a língua contra a pele salgada de suor depois de um treino ou de sexo, e assoprar para senti-la se arrepiar contra si.

Sentia seus lábios secos, mas sequer ousou umedecê-los com a língua quando se aproximou o suficiente enfiar as pontas gêmeas do enfeite no cabelo, tomando cuidado para não arranhá-la, e vê-las saindo do outro lado do coque. Afastou-se e voltou à posição anterior. Hinata levou a mão ao enfeite e tocou-o por um momento antes de se virar novamente para o futuro marido, o pequeno sorriso ainda em seus lábios.

Talvez não devesse estar sorrindo, talvez devesse tentar esconder melhor o que realmente sentia com tudo aquilo, mas já estava escondendo tantas verdades de tantas pessoas que não queria ocultar sua felicidade genuína também de Sasuke, mesmo que conseguisse revelar-lhe apenas vislumbres discretos.

- Os kanzashi mostram para todos que vocês irão se casar, mas mesmo assim ainda precisam assinar isto aqui. – Hanabi colocou um fim no momento que Sasuke e Hinata compartilhavam.

Hinata pegou a caixa e o lenço, colocando-os ao seu lado enquanto ela e Sasuke se aproximavam do centro da mesa e a sala era preenchida com o som da tinta sendo raspada contra a pedra molhada do receptáculo e o sussurro nada discreto de Naruto para Koh perguntando o que acabara de acontecer.


Eles estavam sozinhos. Se aproveitando do único momento de leniência das cerimônias tradicionais de noivado em que era permitido aos noivos um passeio para se familiarizarem, já que essas cerimônias, quando se tratavam de casamentos arranjados, eram uma das únicas oportunidades dos prometidos se conhecerem.

Os dois saíram da mansão principal e se embrenharam pelos caminhos arborizados nos fundos do Clã Hyuuga. Hinata parecia tranquila caminhando sob as tochas, em casa, mas Sasuke se sentia inquieto, perpetuamente observado, como se até os pássaros noturnos e os mosquitos que ameaçaram picá-los na noite quente tivessem olhos com Byakugan.

Hinata virou a direita no caminho, cada vez mais para dentro do bosque, Sasuke a seguindo sem nenhuma palavra enquanto o som de água corrente se tornava mais forte. Havia uma pequena queda d'água saindo da pedra da montanha se espalhando por um lado pedregoso, mas de bordas bem cuidadas com arbustos verdejantes, alguns floridos, e um caminho de pedras que cruzava o lago e passava por sob os longos braços de um salgueiro chorão. Com o frescor do local, havia ainda uma cerejeira do outro lado do caminho com um banco de pedra entre as raízes e algumas poucas flores que estavam resistindo à mudança da estação. O lugar parecia ter recebido atenção especial em comparação com o restante do bosque.

- Era o lugar favorito da minha mãe. – A voz de Hinata estava mais baixa que o normal, talvez por ter ficado tanto tempo sem usá-la enquanto caminhavam, talvez pelas memórias que fluíam com a água da cascata. – Otou-sama tem cuidado dele depois que fui embora.

Hinata pisou sobre a primeira pedra do caminho do lago, segurava o quimono para que não molhasse a barra nem tropeçasse. Sasuke esperou que ela estivesse já na terceira pedra para segui-la e quase caiu imediatamente para dentro do lado. Soltou um grunhido nada elegante enquanto forçava chakra para a base de seus pés, rápido o suficiente para não cair no lago. Tentou fazer sentido da situação enquanto se equilibrava – as pedras estavam presas por correntes que evitavam que desfizessem o caminho, mas não estavam totalmente fixas.

Ela o tentara enganar de propósito.

- Hinata... – A palavra saiu lenta e entredentes enquanto Sasuke se recompunha, levantando o único olho ameaçadoramente para sua noiva.

A morena ria tentando correr sem soltar o aperto que tinha no tecido do quimono e desaparecia sob os longos ramos do salgueiro curvado sobre a água.

Sasuke foi atrás dela, a sobrancelha visível franzida, uma ruguinha de diversão no canto de sua boca. Alcançou Hinata quando já estava quase na margem oposta, pegando-a pela cintura com um só braço antes que ela conseguisse pisar em terra firme. Ela soltou um gritinho de surpresa, rindo mais quando Sasuke rodou sobre o próprio eixo para coloca-la na pedra imediatamente atrás dele e impedir que ela fugisse por ali.

Antes que pudesse se afastar ou brigar com ela, a sério ou apenas para manterem a brincadeira, Sasuke se aproximou o suficiente para a ponta de seu nariz encostar na curva atrás da orelha de Hinata.

- Quero te beijar.

Hinata soltou o quimono dourado que caiu com um farfalhar ao seu redor e para dentro da água quando seus dedos perderam toda a força com o tom sôfrego com que ele sussurrou-lhe aquelas palavras.

- Você é injusto, Sasuke. – Ela apertou o braço que circundava sua cintura com ambas as mãos. O rapaz se manteve onde estava, seus lábios tão perto e tão longe da curva do pescoço.

- Hn?

- Eu passei toda a cerimônia pensando como eu sou egoísta. – Hinata queria se virar, mas não tinha certeza se conseguiria revelar aquele seu lado horrível se olhasse para ele. – Pensando que mesmo que você não me amasse, ainda haveria esse contrato que o prende a mim.

Hinata largou o braço dele para que Sasuke pudesse se afastar, se quisesse, de seus sentimentos maculados por aquele pensamento hediondo.

Sasuke riu. Não uma de suas risadas soltando o ar pelo nariz, divertido, ou uma risada debochada. Uma risada de verdade, baixa, rápida, mas real, que Hinata ouvira poucas vezes antes e por isso era tão maravilhosa quando a sentia naquele momento contra sua pele enregelada pelo medo da rejeição pelo que ousara revelar.

Quando parou de rir, os dedos de Sasuke engancharam o lado esquerdo de seu obi e a puxaram, obrigando-a a se virar completamente para ele. O riso sumira dos lábios e dos olhos do Uchiha, restando apenas a expressão do mesmo sentimento egoísta que a kunoichi viera remoendo, mas no rosto dele não se percebia a mesma culpa com a qual a Hyuuga perecia estar recoberta.

- Tarde demais. – A mão dele largou seu obi e subiu para o rosto. – Com contrato ou sem contrato, você é minha, Hinata.

Sasuke queria tanto beijá-la que teve que fazer um esforço consciente para controlar seu corpo e evitar se aproximar mais. Eles pareciam estar sozinhos, mas quem poderia realmente garantir aquilo em um clã de olhos que tudo veem?

- Então seja egoísta o quanto quiser.

Passando a mão em volta da cintura dela mais uma vez antes que a Hyuuga conseguisse se recuperar e protestar, Sasuke a rodou de novo e deu alguns passos em direção a margem do lago para coloca-la em terra.

Antes que pudesse sair do lago ele mesmo, a moça segurou-o onde estava colocando as duas mãos em seus ombros e se inclinando para colocar os lábios carmins em sua bochecha leve e rápido como uma borboleta, sem marcas de batom.

- Não vá se arrepender.

Deviam ter se ausentado por pouco mais de uma hora, mas podiam ver a figura iluminada de Koh no pórtico da mansão quando fizeram a curva que os levaria de volta pelo caminho pavimentado até a entrada depois de saírem do outro lado do bosque.

O quimono dourado de Hinata, todo bordado com fio de ouro e pintado com temas luminosos, nas cores e símbolos dos Hyuuga, e molhado do lago, se arrastava ainda mais pesado atrás dela, juntando lama, galhos e folhas pela bainha. Natsu certamente lhe daria um sermão assim que entrasse em casa e ela visse as condições da peça. Isso fez Hinata se lembrar que depois de tudo aquilo, não voltaria para seu apartamento até o dia seguinte.

E Sasuke tivera a audácia de arrumar o cabelo para a cerimônia.

- Seu cabelo fica horrível desse jeito. – Ela sussurrou antes de se aproximarem demais de Koh que batia o pé no chão e tinha uma expressão nada amigável.

- Mentirosa.


Sasuke suava tanto vestindo shorts e camiseta quanto vestindo o hakama na noite anterior. A variável da vez era se se sentiria mais desconfortável e irritado naquela reunião com os outros ninjas do seu estendido grupo de "amigos" do que na cerimônia com os Hyuuga. A cerimônia, pelo menos, já tinha passado.

E Hinata não tinha voltado para casa naquele dia, o que não fazia muito para melhorar seu humor.

- Teme! – Naruto gritou direto na orelha do moreno enquanto enganchava um braço em volta de seu pescoço e quase levava os dois ao chão no meio da rua movimentada. Algumas pessoas pararam para olhar.

- Você fala muito alto, dobe.

Naruto não respondeu, limitando-se a sorrir enquanto caía em compasso com o Uchiha a caminho do restaurante. Fora uma recomendação de Chouji, então certamente seria um lugar bom.

O loiro parecia contente. Sasuke suspeitava que o bom humor era uma mistura de encontrar os amigos, boa comida e por essa ser a sua segunda noite de folga seguida desde que voltara para a vila de sua última missão. Em tempos de paz, não era raro shinobi como eles trabalharem apenas o montante normal dos outros ninjas.

Na noite passada, quando ele e Hinata voltaram do passeio, Naruto lhe lançou um olhar longo, muito mais reflexivo do que o normal, mas não fizera quaisquer comentários quando saíram do Clã Hyuuga e parecia que não iria fazer quaisquer comentários naquele momento também, mesmo com o ar carregado, elétrico entre os dois. Sasuke estava medianamente curioso em saber o que o melhor amigo estava pensando.

Eles chegaram ao restaurante e o atendente na porta não precisou sequer perguntar o nome deles, dirigindo-se a Naruto como Uzumaki-san e guiando-os para o fundo do local, para uma escada estreita de madeira e para um segundo andar a céu aberto com uma única mesa longa. Em uma das pontas da mesa havia uma chapa grande e Chouji estava sentado em frente a ela, pedaços de carne, batatas e cogumelos já assando. Havia plantas em vasos nos cantos do terraço e uma linha de lanternas vermelhas de papel permeadas de luzinhas de neon compunham a luz ambiente. Além do Akimichi, os outros membros do seu antigo Time 10 também estavam lá, Shikamaru e Ino acompanhados dos respectivos cônjuges.

- Shikamaru, libera lugar ao lado da chapa! – Naruto exclamou quando terminou de cumprimentar a todos com gestos e sorrisos.

- Yo, Naruto, chegou bem na hora! – Chouji usou os hashi para colocar ainda mais carne na chapa.

O ninja preguiçoso sequer levantou o queixo de sobre a mão apoiada na mesa quando o loiro o acotovelou para entrar ao seu lado na parte da mesa que os deixava de costas para a sacada e de frente para a escada de onde tinham vindo. Temari estava sentada ao lado de Ino do lado da mesa que dava as costas para a escada, o que deixava o lugar ao lado de Shikamaru vago. Naruto pegou aquele e Sasuke discretamente o acompanhou para sentar do outro lado do loiro onde ainda estava vago.

Aquela talvez não tivesse sido a melhor escolha, porque deixou Sasuke em frente às duas mulheres loiras mais problemáticas de Konoha – agora que Tsunade já não morava mais lá. Ino e Temari sorriram para ele, uma simpática, a outra perscrutadora, Sasuke não sabia dizer qual era qual, mas ambas tinham um brilho malicioso e diabólico nos olhos.

O Uchiha achou que seria mais prudente ignorá-las.

Achou errado.

- Oi, Uchiha. – Temari chamou a atenção do rapaz que tentava olhar para todos os cantos do ambiente, menos para elas. – O que aconteceu com mandar convites de casamento? Tivemos que descobrir que você ia se casar através da rede de fofocas da vila.

Sasuke levantou o único olho visível para ela.

- Uh, é assim que você chama o Shikamaru agora?

Ino e Naruto começaram a gargalhar tão alto com a resposta inesperada de Sasuke que impediram a outra loira de dizer qualquer outra coisa enquanto a cor subia-lhe às bochechas. Até Shikamaru sorriu, mas tratou de escondê-lo rapidamente com a mão que ainda usava para apoiar o queixo na mesa.

- Não há convites. – O moreno completou. – Precisamos assinar o contrato no dia do Solstício de Verão. Se vocês quiserem estar lá, eu não me importo.

- E Hinata? – Temari se recompôs, séria, quase venenosa. – Já começou a se perguntar com o que ela se importa?

Se o olhar anterior do último Uchiha era sério, agora ele se tornara definitivamente assassino, mas a ex-kunoichi da Areia sustentou o olhar dele com intento.

Eles não sabiam de nada, Sasuke teve que lembrar a si mesmo. Não adiantava se irritar pelos julgamentos que eles faziam na ignorância do seu real relacionamento com Hinata. Eles ainda achavam que ele não era bom o suficiente para ela, que ele não iria fazê-la feliz, que aquilo era errado.

- Sasuke-kun~ - Ino cantarolou colocando os dois cotovelos sobre a mesa para apoiar o queixo delicadamente sobre as costas das mãos, espalhafatosa e desinteressada o suficiente para quebrar a tensão que se instalara na mesa, mesmo com o maravilhoso cheiro de carne assada assolando-os. – Se vocês forem querer flores para a cerimônia, comprem com a gente, tá? E não demorem muito para fazer o pedido, não é como se pudéssemos fazer flores desabrocharem da noite para o dia!

Antes que pudesse responder que aquilo era mais uma coisa com a qual absolutamente não se importava, que tudo o que ele queria era se casar com Hinata para poder estar com ela e só com ela sempre que quisesse e que ela quisesse estar com ele também, a figura muito animada e muito verde de Rock Lee apareceu na escada, seguido de Tenten se abanando com um leque de papel olhando para o companheiro de time ainda sem acreditar como ele podia ter tanta energia e se mover daquele jeito no calor da noite.

Enquanto Chouji e Naruto gritavam de volta para o mestre de taijutsu, Tenten se esgueirou pelo outro lado e foi se sentar ao lado de Sasuke esperando que a natureza fria do Uchiha cuidasse de abrandar a temperatura. Fez um movimento de cabeça para cumprimenta-lo e foi retribuída do mesmo modo. Desde que abrira sua loja de armas o rapaz se tornara um cliente regular. Ele dissera que ela tinha as armas mais decentes de Konoha e Tenten tomou aquilo como o maior elogio. Os dois mantinham um relacionamento cordialmente neutro desde então, de modo que Sasuke relaxou brevemente ao ter a mestra de armas ali ao invés de seu companheiro deveras mais extrovertido.

As conversas caíram no campo do rotineiro depois que Lee sentou-se do outro lado de Tenten e a moça fez sinal para que o atendente se aproximasse. Sem nem olhar o cardápio, a morena pediu canecos de cerveja para todos, algumas garrafas de saquê, petiscos que não podiam fazer na chapa, ainda mais carnes e chá para Lee, é claro.

A primeira rodada de cerveja chegou e estava sendo distribuída quando todo o antigo Time 8 surgiu. Shino apareceu primeiro, sem casaco, mas com um colete que lhe cobria a boca tanto quanto. Kiba veio depois, sorrindo para a pessoa atrás dele, parecendo não ter mais nem um grama de peso em sua consciência pelas coisas que dissera a Hinata, enquanto a mesma o seguia, sorrindo de volta.

Kiba fora até o Clã Hyuuga naquele início de noite, pouco antes do horário marcado do encontro na churrascaria. Hinata o recebeu e serviu o chá, mas não tinha sorrisos ou palavras gentis para o companheiro de time. Mesmo se tivesse, Kiba os teria recusado, porque sabia que não os merecia. Antes que o chá fervesse, o Inuzuka tinha a testa prensada contra o chão e estava implorando o perdão da morena.

Ele dissera que estava errado, que deixara que as emoções mais feias saíssem por sua boca quando pensou que perderia a amizade dela, que a perderia, para alguém não merecedor, para alguém que não a conhecia e que não a amaria como... Ele não citou nomes e desconversou como se não tivesse tido a intenção de deixar aquela parte escapar. Inuzuka Kiba, um de seus amigos mais antigos, um de seus amigos mais queridos, chorou de remorso enquanto lhe pedia perdão.

E Hinata o perdoou, simples assim. Ela tomou as mãos do rapaz entre as suas e lhe sorriu também com lágrimas correndo-lhe pela face, porque fora difícil ouvir as coisas que Kiba lhe dissera, fora difícil senti-las, mas tinha certeza que seria pior um futuro em que não pudesse contar com a amizade dele.

Os olhos perolados levemente inchados que Hinata tentara esconder com a maquiagem foram a primeira coisa que notou nela, além do sorriso que lançava para o Inuzuka, o que queria dizer que não deviam ter sido mais lágrimas de mágoa.

A segunda coisa foi o cabelo que ela juntara todo em desalinho e prendera com o kanzashi de prata de seu noivado. O brilho da prata polida combinara perfeitamente com o vestido cinzento de verão que Sasuke não se lembrava de jamais tê-la visto usando, embora soubesse que ela tinha alguns vários vestidos estocados no armário que dividiam. Esse tinha alças, uma fileira de botões na frente e bolsos. Ah.

- Hinata-chan! – Ino gritou com um sorriso que não condizia com seus gestos de tentar tirar Temari do lugar em que estava para acomodar Hinata entre elas. – Venha se sentar aqui!

E essa foi a deixa para que todas as pessoas começassem a falar – ou gritar, no caso dos extrovertidos do grupo – de uma vez, uns por cima dos outros, com o pobre garçom ainda tentando entregar as bebidas.

- Yo, seu cachorro, por que demoraram tanto?

- Vocês perderam a primeira rodada de carne assada.

- Eh~, como assim? Não demoramos tanto para vocês já terem comido tudo isso!

- Quem ainda não pegou cerveja?

- Aqui, passe o prato de cogumelos até chegar ao Shino.

- Reservei o campo de treinamento pelos próximos dias.

- Chouji, tire a parte da gordura da carne pra mim!

- Argh, aqui é muito longe da chapa!

- Quem mandou chegar atrasado, idiota?

- É raro estarmos todos na vila juntos.

- Temos que aproveitar enquanto ainda queima o fogo da juventude!

- Rodada de shots de saquê, quem vamos?

- Já pediram frango frito?

- Polvo com wasabi.

- Aqui, gengibre.

- Lee, senta que eu pego pra você!

- Aquela missão, não gosto nem de lembrar...

- Tira esse pimentão de perto de mim!

- Barulhentos.

- Temos uma viagem para Suna daqui uns meses.

- Mais carne, por favor!

Quando Temari finalmente pulou de lugar mais para a direita e Kiba e Shino ocuparam os últimos lugares, Shino ao lado da Nara e Kiba na ponta da mesa oposta a Chouji, os olhos de Hinata finalmente conseguiram chegar até Sasuke.

Discretamente ela colocou as mãos dentro dos bolsos do vestido que usava e balançou o corpo apenas o suficiente para que ele, que a observava, notasse o movimento, como se dissesse: "veja, Sasuke, meu vestido tem bolsos!". Bolsos em vestidos faziam Hinata extremamente feliz e o Uchiha escondeu seu sorriso com um gole do grande caneco de cerveja.

- Uchiha, passa o molho de pimenta. – Tenten cutucou Sasuke fazendo-o desviar a atenção de sua noiva enquanto ela se sentava bem na sua frente, entre Temari e Ino, para ser acometida por conversas e oferendas de todos os tipos de bebidas e comidas presentes na mesa.

A Hyuuga puxou um caneco de cerveja para perto de si sob uma expressão surpresa da loira a sua direita e uma expressão extasiada da loira a sua esquerda.

- Hinata-chan~ Aqui~ Saquê! Beba saquê!

- S-só a cerveja está bom, Ino-chan.

A kunoichi de olhos perolados conseguiu resistir as investidas de Ino para que tomasse saquê com ela por todo o tempo em que os pedidos iam chegando na mesa, então a Yamanaka fez o favor de tomar os shots por ela até que Sai começou a afastar discretamente as garrafas de saquê do alcance da esposa com aquele sorriso dissimulado.

Os olhos de Hinata estavam ainda mais brilhantes devido a leve embriaguez que se assentava, aquele estado que fazia com que as coisas parecessem ter bordas esfumadas; Sasuke considerava que era melhor com bebida do que ela, ao menos quando bebiam sozinhos, mas já tinha bebido mais doses e a vermelhidão começara a se fazer presente em suas maçãs do rosto do rapaz.

Nenhuma outra pessoa da mesa comentou o estado inebriado dos dois, porém, porque estavam tão altos quanto eles e entretidos em suas próprias narrativas.

Uma porção generosa de karaage foi colocada entre Hinata e Sasuke, sentados um de frente para o outro sem trocarem uma única palavra até então, mas um olhar para aquele imenso prato de frango frito e depois de um para o outro foi o bastante.

Fora em uma das primeiras vezes que se encontraram pela vila, sem querer, mas de propósito, e decidiram por entrar num bar-restaurante desconhecido, cujo cardápio simples servia apenas bebidas variadas, karaage, polvo com wasabi, tofu, edamame e gomae, as comidinhas de bar mais comuns. Eles pediram tudo regado a cerveja e, Sasuke tinha que admitir, fora o melhor momento que tiveram fora de casa. Os dois enfiados no canto de um restaurante meia-boca bebendo, os dedos e os lábios sujos de gordura, o vento de outono fragrante lá fora, ninguém para interrompê-los lá dentro.

Naquela noite, Hinata pegou o copo de cerveja e sinalizou para Sasuke, no gesto universal de "vamos fazer um brinde!", mas o rapaz já tinha um pedaço de frango a meio caminho da boca e apenas uma mão. Antes que ele fizesse a vontade dela e colocasse o frango de volta para trocar pelo copo, Hinata pegou um pedaço de frango ela mesma, tocou o dele por um momento e riu enquanto brindava seu karaage com um sorridente "saúde".

Foi o próprio Uchiha que nunca mais deixou que comessem frango frito sem antes brindar com ele. Foi Sasuke que, enquanto todos os seus amigos comiam, bebiam, riam, conversavam, gritavam, brigavam, se divertiam, pegou o pedaço de frango e o estendeu silenciosamente para Hinata, aguardando.

A moça depositou na mesa a cerveja que segurava com as duas mãos, porque o caneco era enorme e pesado demais para segurar apenas pela alça, e pescou um dos maiores pedaços de karaage da porção.

Dessa vez, como em muitas outras, eles disseram em uníssono ao brindarem com os pedaços de frango:

- Saúde.

A moça desviou os olhos dele para morder o frango e beber um gole de cerveja em seguida, mas o olho negro de Sasuke se demorou observando-a. O corte do vestido deixava o colo e ombros da Hyuuga a mostra. Havia alguns fios se desprendendo do penteado improvisado e a luz das lanternas vermelhas fazia a pele dela parecer mais morena do que realmente era. A vermelhidão da bebida se instalara nas maçãs do rosto até as orelhas. Não havia marcas na pele de Hinata, o que incomodou o Uchiha deveras, porque queria dizer que todas as que deixara nela da última vez já haviam sumido.

Ah~ Lá estava a vontade de beijá-la de novo. De tirá-la dali e voltarem para o apartamento que dividiam, para o quarto e para a cama que dividiam. Mas podia ser na cozinha ou na sala também, podia ser no parque que tinha entre aquele restaurante e sua casa, podia ser no beco ao lado. Inferno, só a queria perto, do seu lado, as pernas dela casualmente encostadas nele e o antebraço do Uchiha sobre as pernas dela, queria alcançar por cima da mesa as mãos que seguravam o caneco para puxá-la para si e ter o prazer de ver o longo cabelo negro ser acometido pela gravidade, caindo sobre aqueles ombros imaculados, quando puxasse o enfeite que o segurava.

Discretamente Sasuke largou seu caneco de cerveja e alcançou um copo de água.

- Vamos jogar Primeiros! – Ino gritou quase caindo sobre a mesa em sua animação, tentando chamar a atenção de todos para a brincadeira.

Tenten se animou e virou o que restava de cerveja em seu caneco goela abaixo, Temari chamou Ino de infantil e o fato de Hinata nem ter parecido ouvir a loira ao seu lado atestava para o seu grau de embriaguez, pois continuou comendo o seu frango pacificamente.

Nenhum dos rapazes parecia saber do que ela estava falando e as caras confusas incitaram Ino a continuar.

- Primeiro amor, Primeiro beijo, Primeira vez! – Ela complementou. – O jogo é dizer quem foi seu primeiro amor, o primeiro beijo e a primeira vez~ - Ela cantarolou, rindo como uma estudante da academia, como se eles não estivessem todos já nos seus vinte e poucos anos, como se ela mesma já não fosse uma mulher casada.

- Problemático.

- Tudo é sempre problemático pra você, cale a boca! – Ino jogou um palito de dente em Shikamaru, mas depois de tanta bebida o palito fez uma curva desanimada e caiu na chapa onde Chouji ainda grelhava coisas e bebericava sua cerveja, alheio e contente. – Vamos lá, somos todos adultos!

- Então porque temos que jogar esse jogo para crianças?

- Argh, não é a toa que você é a esposa do chato do Shikamaru, Temari!

- Vamos jogar.

A voz de Hinata não se sobressaiu a primeira vez porque Ino e Temari estavam se bicando de ambos ao lados da morena, mas Naruto, Sasuke e Tenten do outro lado da mesa todos olharam para a Hyuuga. Hinata ainda não parara de devorar o karaage e tomar sua cerveja, o rosto cada vez mais vermelho, os olhos cada vez mais brilhantes e enevoados.

Como Ino pareceu não ouvi-la, Hinata tocou-lhe o antebraço e encarou os olhos azuis, tentando seu máximo parecer séria e menos bêbada, mas falhando.

- Ino-chan, vamos jogar.

- Yay, Hinata! – Ino a abraçou, quase caindo com a Hyuuga sobre a mesa, conseguindo se equilibrar no último segundo. – Eu começo, depois escolho o próximo! – Ino se ajeitou na cadeira e foi apontando as pessoas enquanto falava. – Meu primeiro amor foi... Sasuke-kun!

- Todo mundo já sabia disso! – Kiba gritou do outro da mesa e todos, menos Shikamaru e Sasuke, riram da expressão nem um pouco envergonhada da Yamanaka.

- Meu primeiro beijo foi... Chouji!

- Oh, esse é surpreendente. – Sai comentou.

- Do que está falando? Eu te contei sobre isso!

- Eu sei, não deixa de ser surpreendente para quem não sabia. – O restante da mesa precisou concordar com o ninja artista.

- Eee~ Minha primeira vez foi... Sai!

- Esse já era esperado, né? – Tenten desviou do outro palito de dente arremessado por Ino.

- Então vamos tentar alguém mais interessante! – Ino encarou cada um dos rostos na mesa por um momento, menos Hinata, que continuava entretida com o frango e a cerveja. – Naruto, sua vez.

- Eh? Eu não quero.

- Hinata-chan disse para jogarmos, então vai, sua vez!

Sasuke virou-se para o melhor amigo e notou que Naruto tinha um copo de água gelada na mão e um pedaço de polvo a meio caminho da boca. Ele tinha bebido apenas um caneco de cerveja no começo da noite e estava bem mais sóbrio que o Uchiha naquele momento. O Uzumaki gostava daqueles jogos de bar, ele era sempre um dos primeiros a sugerir alguma coisa. Negar participação significava que havia algum assunto relacionado à brincadeira que Naruto queria esconder.

Suspirando, ele abriu a boca para começar, mas Ino emendou:

- Vamos todos saber se você mentir.

Naruto fechou a boca com um estalo, seus olhos azuis pareciam querer que Ino e o sorriso zombeteiro dela explodissem. Engolindo visivelmente e tentando parecer descontraído, soltou de uma vez:

- Sakura-chan, Sasuke, Sakura-chan.

A mesa ficou em silêncio exceto pelo barulho da chapa.

O olhos ônix fixou-se na pessoa mais importante para ele na mesa, diretamente a sua frente, e a viu colocar de volta o pedaço de frango que segurava, o caneco de cerveja largado sobre a mesa, os olhos baixos.

- Seu primeiro beijo foi com Sasuke?

- Ah, é mesmo, você e Sai não frequentaram a academia com a gente. – Kiba também notara o desconforto de Hinata pela rigidez que a postura dela tomara. Ele prosseguiu em contar a história de como Sasuke e Naruto tinham se beijado por acidente, desviando as atenções.

Olhos perolados e azuis estavam pregados em algum ponto da mesa ou talvez em algum ponto de um passado compartilhado, mas vivido distintamente.

- Ai, ai, eu me lembro de ter ficado completamente devastada por Naruto ter roubado os lábios de Sasuke-kun. – Ino suspirou por um momento. – Naruto, sua vez de escolher alguém.

- Hinata-chan. – O ninja surpreendente número um surpreendeu a todos novamente chamando o nome da Hyuuga sem hesitar.

- Ah, b-bem... – Ela titubeou para começar, mas levantou a cabeça e tinha um sorriso no rosto, Sasuke não conseguiu distinguir se falso ou genuíno, quando ela mirou Naruto para dizer, sinceramente: - Naruto-kun foi meu primeiro amor e meu primeiro beijo.

Naruto sorriu de volta, grande e luminoso, reconfortado pela morena não parecer magoada com ele.

- Primeira vez... – Ela continuou e Kiba engasgou com pedaço de carne que mastigava. – Seria... Sasuke-kun.

O silêncio reinou na mesa mais uma vez, agora até a chapa tinha parado de fazer barulho – Chouji desligara tudo porque logo o restaurante estaria fechando e eles teriam que ir embora logo.

Uchiha Sasuke também foi pego de surpresa.

- Haha, porque vocês vão se casar, né? – Tenten foi a primeira a tentar fazer sentido do que ouvira e seu raciocínio pareceu tranquilizar toda a mesa, que soltou a respiração coletivamente para rir de como Hinata tinha dito aquilo tão naturalmente, sendo que sequer acontecera ainda.

Nara Shikamaru afastara-se um pouco, apenas o suficiente para poder acender um cigarro sem todos reclamarem que a fumaça estava chegando até eles. Observou o grupo de amigos que agora discutia sobre se voltariam para casa ou se deviam encontrar outro bar, porque o atendente viera anunciar que eles encerraram os pedidos e fechariam em quinze minutos. O reflexo das lanternas no kanzashi de Hinata chamou sua atenção. Apertando os olhos, Shikamaru pode distinguir o padrão de passarinhos sobre as ondas. Chidori. Uchiha Sasuke conseguia ser bastante ousado em suas demonstrações públicas de afeto quando queria.

Satisfeito que eles encerraram a brincadeira antes que tivesse que revelar que todas as suas primeiras vezes foram com Temari, Shikamaru apagou o cigarro e circulou a mesa para ajudar sua problemática a se levantar. Chouji conseguiria chegar em casa são e salvo, mesmo com todas as cervejas que entornara. Sai tinha o rosto intensamente vermelho, Shikamaru suspeitava que apenas por contrastar com a palidez absoluta do ninja, e estava suficientemente firme para carregar Ino. Kiba e Tenten estava escorando-se um no outro prontos para partirem dali para o próximo local onde pudessem encontrar bebidas. Shino foi categórico em dizer que estava indo para casa enquanto dividiam a conta, então Lee se prontificou em ir com os dois bêbados que ainda estavam na fase animada. Hinata foi a última a se levantar quando começaram a descer e Naruto estava ao lado dela no segundo em que a morena pareceu titubear, ajudando-a a descer as escadas e guiando-a entre as mesas do térreo do restaurante, já todas vazias, com um braço ao redor de sua cintura. Sasuke os seguiu, a mão no bolso e rosto tão impassível quanto um bloco de granito.

As despedidas em frente ao restaurante foram rápidas, cada grupo seguindo para seus respectivos destinos. Os únicos que se demoraram foram Sasuke e Naruto, que ainda tinha uma braço ao redor da Hyuuga e parecia determinado a mantê-lo lá. Seria aquilo familiar para o Uzumaki? E para Hinata? Sasuke não tinha um braço esquerdo para oferecer.

O instinto do Uchiha era reagir. Precisava ter certeza de que Hinata queria aquele braço ao redor de si, a presença, o toque de Naruto.

- Ne, teme, eu vou levar Hinata p-

- O-obrigada pela ajuda, Naruto-kun. – Hinata interrompeu o loiro, afastando-se dele. Os olhos perolados ainda encontraram os cerúleos para que não restassem dúvidas de que estava certa de sua decisão. – Eu vou para casa com Sasuke-kun.

Sasuke mordeu o interior da bochecha para evitar sorrir, reconfortado, aliviado, bobo. Passara anos e anos com fãs e mais fãs em Konoha – de todos os gêneros, diferentes idades que chegavam à impropriedade, que persistiram até quando fora considerado um criminoso, que persistiam até enquanto os rumores de seu casamento arranjado com a ex-herdeira dos Hyuuga se espalhavam e se provavam fato –, que de forma alguma representavam o mesmo tipo de sentimento que ele e Hinata compartilhavam, porque sentia-se curiosamente gelatinoso por dentro quando a pessoa que amava dizia querer estar com ele.

Naruto recuou sem protestos. Antes que as costas do loiro se afastassem e sua silhueta sumissem entre as pessoas que saiam dos outros bares e restaurantes da rua, Sasuke se perguntou como um sorriso solar conseguia transmitir tristeza.

Hinata também percebeu o sentimento por trás do sorriso do Uzumaki, porque seus dedos encontraram a barra da camiseta de Sasuke e puxaram para chamar a atenção do moreno, mas os olhos perolados se mantiveram baixos. Ela não queria que sua felicidade acontecesse às custas da felicidade de outrem.

Sem palavras, Sasuke virou-se, tomou a mão de Hinata na sua e iniciou a volta para casa.

O apartamento ficava do outro lado do centro, em uma área residencial nova e em sua maioria ainda bastante desocupada. Estava quente na noite de quase verão, abafado, e Hinata e Sasuke suavam nos pontos em que se tocavam. O mercadinho a alguns quarteirões de casa ainda estava aberto e Sasuke entrou para comprar água, vitamina C e sorvete enquanto Hinata esperava do lado de fora, a cabeça entre as pernas. Tinha bebido bastante, mas a caminhada e o ar noturno ajudavam em remediar a embriaguez.

Quando seguiram de novo para casa, ainda andando a outra mão de Hinata pousou sobre o antebraço de Sasuke e a testa dela se encostou no ombro vestido. O moreno parou imediatamente.

- Você está bem, Hinata?

- ...cheiro. – Ela murmurou.

- O quê? Vai passar mal?

- Seu cheiro. – Outro murmúrio, mas esse chegou claramente aos ouvidos do Uchiha. – Passei a noite toda querendo estar ao seu lado para sentir seu cheiro.

A sacola de compras caiu no chão, o pote de vitaminas saiu rolando até bater em um muro qualquer, porque Sasuke precisava daquele braço para trazer Hinata para perto, mais perto, nunca era perto o suficiente, e cobrir-lhe a boca com a sua. Beijou-a sentindo os pequenos gemidos percorrerem o seu corpo, sentindo a temperatura aumentar, separando-se apenas porque tinha um outro objetivo em mente.

As mãos de Hinata foram juntas para suas costas enquanto a boca do moreno descia com pequenos beijos pelo rosto dela, passando pela curva do maxilar, pelo tendão destacado no pescoço, afastou a alça do vestido, mordiscou a clavícula até encontrar um ponto para lamber e mordiscar e sugar até os gemidos e o aperto em suas costas se intensificarem.

- Sasuke... – Ela conseguiu articular quando ele terminou de marca-la. – Não faça isso aqui, alguém poderia ver.

- Hn. – Ele concordou, satisfeito. Desvencilharam-se o suficiente para Sasuke recolher a sacola e as coisas que caíram dela. – Vamos continuar em casa.

Com uma aceno, Hinata concordou e o seguiu.


Familar, cap. 3, vem logo, logo...

Vocês estão achando muito meloso ou tá pouco?

Tilim : )