O CAMINHO DE CADA UM

- Alguém quer um vinho? - Lílian disse aos amigos, reunidos na sala de estar da sua casa. Estava fazendo dezoito anos, e estava dando uma festinha, naquela agradável noite de domingo. Seus amigos todos estavam presentes. Na verdade, aquela reunião estava servindo de pretexto para reunir toda a turma. Fazia pouco mais de um mês que haviam se formado, e muita coisa já havia acontecido. Passara uma semana na praia com Tiago, havia sido aprovada no teste de aparatação e logo iria começar a trabalhar no Ministério da Magia. Sua irmã estava passando uns dias na casa da futura cunhada, no interior.

- Lílian, você cuida de tudo aqui , com os seus convidados, querida? - sua mãe perguntou, preocupada.

- Já disse que pode deixar mãe. Tenho tudo sob controle.

A Sra. Evans suspirou, resignada. Só de imaginar suas travessas de porcelana voando pela casa, sentiu arrepios. Deu graças a Deus por Petúnia estar fora de casa, porque, provavelmente, isso geraria uma grande discussão entre as duas irmãs.

- Qualquer problema, me chame lá em cima. Vou estar assistindo televisão.

A reunião transcorreu tranquilamente, para alegria de Lílian. Estava radiante, pois era a primeira vez que recebia todos os amigos em sua casa. Agora, estavam discutindo o futuro, enquanto a garrafa de vinho esvaziava-se nas taças dos jovens.

- Foi bom todos estarmos aqui, preciso entregar os convites para vocês...- Isabella anunciou, sorrindo, tirando um envelope da bolsa.

- Isabella, você vai se casar? - Remo perguntou, entre curioso e intrigado, enquanto a garota distribuia os convites de casamento.

- Vou, por que a surpresa?

- Nossa, Bella, mas tão de repente? Está marcado...setembro? - Lílian também parecia chocada.

- Você está grávida, Isabella? - Sirius perguntou, debochado. Não perdia a chance de provocá-la. No entanto, o cutucão que levou de Nancy o fez calar a boca.

- Não, Sirius Black. Vou me casar porque estou apaixonada, porque o Giuliano recebeu uma promoção no banco onde trabalha, e já comprou um apartamento em Roma, para nós dois.

- Roma, Bella? Você vai morar na Itália?

- Vou. Toda a família dele vive lá.

Lílian sentiu-se, de repente, perdida. Não esperava uma situação daquelas.

- Você está convicta, Bella? - Denise, que até então estivera calada, perguntou.

- Estou...gente, o que está acontecendo com vocês? - Isabella parecia indignada, ante a reação dos seus amigos. - Lílian, vai me dizer que você e Tiago não pensam em se casar? E você, Denise? Afinal, este não é o caminho natural?

Todos ficaram em silêncio, um certo constrangimento no ar. Muito habilmente, Tiago levantou-se e trocou o disco da vitrola. Ficava encantado cada vez que mexia em um aparelho eletrônico.

O que mais incomodava a todos, na verdade, é que agora cada um deles estava tomando um rumo diferente na vida. Lílian iria começar a trabalhar no Ministério, Tiago começaria o treinamento para Auror naquela mesma semana. Denise não estava preocupada com isso, queria curtir a vida ao lado de Frank, Remo estava planejando viajar pela Europa, para se aperfeiçoar em Defesa contra as Artes das Trevas, queria ser professor. Sirius estava com um teste de Quadribol marcado, no final daquele mês, para tentar entrar em um time profissional. Apenas Pedro estava completamente perdido: sentia-se inútil, completamente sem talento para nada.

Tiago ainda ficou um bom tempo na casa de Lílian, mesmo depois de todos os seus amigos terem ido embora.

- Sabia que eu vou sentir muitas saudades? - Ele perguntou, apertando-a pela cintura.

- Seu bobo. Os finais de semana você vem para casa, não vem?

- Hum, hum...mas mesmo assim vou sentir sua falta.

Os dois ficaram um longo tempo beijando-se, na sala escura e vazia. Infelizmente, não estavam sozinhos. Logo ouviram a voz da Sra Evans:

- Lílian, hora de dormir, já está tarde.


O prédio do Ministério da Magia localizava-se no centro de Londres, mas Lílian teve certeza absoluta que não era visível aos trouxas. Ocupava um quarteirão inteiro, e devia ter, pelo menos, cinquenta andares. Todos os departamentos localizavam-se ali, e, segundo o que todos falavam, era impossível aparatar e desaparatar naquele prédio, exatamente como em Hogwarts.

Lílian dirigiu-se à recepcionista, uma bruxa de ar extremamente mal-humorado.

- Por favor, Depto de Cooperação Internacional em Magia?

- É o trigésimo andar. Terceiro elevador à direita.

- Obrigada.

A garota dirigiu-se aos elevadores. Era exatamente iguais aos dos trouxas, exceto que eram cinco vezes mais rápidos e não eram movidos por eletricidade. Ao sair do elevador, deparou-se com uma grande sala, bruxos e bruxas andando para cima e para baixo, movendo-se entre as diversas mesas .

- Ei, Lílian Evans?

Lílian virou-se para o lado, e deparou-se com Berta Jorkins, uma antiga colega de Hogwarts, dois anos mais velha.

- Berta, o que faz por aqui?

- Vim fazer uma entrevista...você trabalha aqui?

- Trabalho. Não é excitante, Lílian, trabalhar para o Ministério? Ah, mas a gente precisa sentar uma hora dessas, colocar as novidades em dia, o que você acha?

Berta fez um pausa, para respirar. Lílian estava atônita.

- Mas me diga, com quem você precisa falar?

- Arabella Figg, a chefe do departamento.

- Ah, pode deixar. Eu vou chamá-la.

Berta desapareceu por uma porta, provavelmente a sala da Sra Figg. Lílian esperou alguns minutos, folheando uma revista. Logo em seguida, Berta saiu da sala, visivelmente contrariada.

- A Sra Figg está te esperando, Lilian. Qualquer hora a gente se fala.

- Pode deixar. Até mais, Berta

Lílian entrou na sala de onde Berta havia saído, e deparou-se com Arabella Figg. Era uma mulher de meia-idade, os cabelos grisalhos presos num coque. Tinha o mesmo porte da Profª McGonagall, mas era muito mais simpática.

- Ah, Srta Evans, como vai?

- Muito bem, Sra Figg.

A garota estava tensa, mas relaxou um pouco ao ver a atitude amistosa da Sra Figg.

- Pois bem, é velha conhecida dos Black?

- Estudei com o filho deles, o Sirius.

- Ah, sim, eu o conheço. É um rapaz adorável.

Arabella Figg sorriu para Lílian, e remexeu em uns papéis. Em seguida, pediu o diploma e o boletin da garota.

- Excelentes notas, formou-se com louvor. Pois bem, Lílian. Aqui há muito serviço para se fazer. Se você estiver disposta, vai aprender muito conosco. E ascender também, espero. Topa o desafio? Ser uma grande funcionária do Ministério?

Lílian abriu um sorriso, e concordou com a cabeça.

- Pois bem, minha cara. Pode começar hoje mesmo.


A capela que Isabella escolhera para se casar era pequena, mas nem por isso estava cheia. Eram poucos os convidados. Além de sua família ( Isabella fora criada pelos tios ) e amigos, estavam presentes alguns familiares do noivo.

- Lugar meio apertado, não? - Nancy reclamou, abanando-se.

- Ah, até que é bonitinho...- Denise respondeu, empolgada.

Lílian e Tiago chegaram logo em seguida, e sentaram-se logo atrás de Nancy, Sirius, Denise e Frank.

- É impressão minha ou o Sirius está com cara de quem comeu e não gostou? - Lílian sussurrou para Denise.

- Ah, está assim desde que nós chegamos. Ele e a Nancy brigaram antes de vir para cá - Denise cochichou, esperando que os dois não ouvissem a fofoca.

- Mas porquê?

Denise fez sinal de silêncio. Os convidados levantaram-se, e a marcha nupcial começou a tocar. Isabella entrou, linda e sorridente,de braços dados com o tio. Sirius não conseguiu desgrudar os olhos dela. Os cabelos castanhos estavam presos com um arranjo de flores, os olhos azuis brilhavam intensamente. Por um instante, os dois encararam-se. Sirius sentiu vontade de sair correndo dali. Não queria assistir ao casamento de Isabella. E Nancy não o a ajudava. Só sabia criticar, cobrar e ter crises de ciúme. Brigaram horas antes do casamento, porque ela fazia questão de estar presente. Ele não. E agora via, Isabella, dizendo juras de amor eterno para outro homem.

A cerimônia foi muito mais rápida do que esperavam. Formou-se uma fila para se cumprimentar os noivos. Isabella não aguentou de emoção ao abraçar Lílian.

- Você está linda, Isabella. Parabéns.

- Ai, Líli, obrigada. - Isabella abraçou a amiga, emocionada - Espero estar assistindo o seu casamento em breve.

- Pode deixar. Escreva sempre para mim.

Nancy cumprimentou Isabella também. Tinha uma espécie de triunfo no olhar. A noiva fingiu não perceber. Enquanto recebia o abraço de Nancy, observou Sirius, esperando a sua vez.

- Posso abraçar a noiva também? - o rapaz perguntou, sorrindo.

- Ah, Sirius, seu bobo - Isabella o abraçou forte, e sentiu o perfume dele. Sussurrou baixinho para ele - Desculpe tudo o que fiz com você.

- Acho que agora já é tarde, não?

- Nunca ia dar certo entre nós, Sirius...você sabe disso. Mas eu nunca vou te esquecer.

Isabella soltou Sirius, sem-graça. Sentiu vontade de chorar. No fundo, não estava bem certa de que estava tomando o rumo certo.


As semanas que se passaram foram, para Sirius, as piores que tinha vivido até então. Era um sentimento de fracasso que não passava. Primeiro havia sido o fiasco no quadribol: não havia passado no teste. Depois, o casamento de Isabella, e as constantes brigas com Nancy. Se Tiago ainda estivesse por perto, as coisas teriam sido mais fáceis. Mas o amigo passava a semana inteira fora, e nos fins de semana dedicava toda atenção a Lílian.

Seus pais estavam preocupados com a súbita mudança do filho. Se antes Sirius não parava de rir e falar, agora passava horas em silêncio. Ou então saía para fazer longas caminhadas pela cidade.

No final de outubro, Félix Black voltou do trabalho mais animado. Conversara com o chefe do Departamento de Jogos e Esportes Mágicos, Charles Lynn, sobre a possibilidade de Sirius trabalhar lá. O Sr Fynn concordara. No fundo, Félix sentia-se bem mais aliviado com o fato do filho não ter sido aprovado no teste de quadribol. Não era admissível que Sirius, com todo o potencial que tinha, ficar levando balaços na cabeça.

- Então, Sirius, que você me diz, sobre o emprego?

Sirius estava ouvindo o pai falar, deitado na sua cama, arremesando almofadas em um pôster na parede.

- Nossa, super excitante...trabalhar no Ministério...ficar aguentando aquela gente chata e bitolada...

- Agora chega, Sirius Black. - Félix agarrou a gola da roupa do filho - Escuta aqui, moleque. Você precisa tomar um rumo nessa sua vida, procurar algo de útil para se fazer...e eu ainda procurei um departamento que tem tudo a ver com você...e é assim que você me agradece? Será possível que você não percebe que eu e sua mãe só queremos o seu bem?

O rapaz encarou o pai, completamente sem-graça.

- Bem, eu fiz a minha parte. Agora é com você, Sirius.

Félix levantou-se, e se preparou para sair do quarto. Sirius sentou-se na cama, e encarou o pai pela primeira vez desde o início da discussão.

- Quando eu posso começar a trabalhar?

Capítulo 3...

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