ADULTOS

O tempo passou tão rápido, que muitas vezes Lílian tinha a impressão de que não conseguiria guardar tantos acontecimentos na memória. Ser a funcionária mais nova do departamento a conseguir duas promoções em pouco mais de um ano, foi, sem sombra de dúvida, um fato importante. Assistir a formatura de Tiago como Auror, ao lado de Emily Potter e Sirius, foi, também, outor acontecimento que, com certeza, se lembraria para o resto da vida.

Lílian gostava do seu trabalho. Era funcionária de confiança de Arabella Figg, e tinha acesso livre a quase todos os departamentos do Ministério. Naqueles dias, confusos e caóticos, manter as relações internacionais em paz era imprescindível. Quanto mais aliados contra Voldemort e seus seguidores, melhor. Participava das longas reuniões da Sra Figg com os chefes de departamento. E a admirava, pois sabia se impor entre todos aqueles homens, principalmete Cornélio Fudge, chefe do Departamento de Catástrofes Mágicas, e Bartolomeu Crouch, chefe do Departamento de Execução das Leis da Magia.

Uma tarde, enquanto Lílian redigia uma importante carta para o Ministro da Magia da Itália, a Sra Figg entrou no escritório, louca da vida.

- Algum problema, Sra Figg?

- Todos, Lílian. Já despachou a coruja para a Itália?

- Estou terminando a carta...

- Ótimo...vamos ter grandes problemas a resolver, minha cara.

- De qual natureza, Sra Figg?

- Crouch. Essa manhã, ele baixou uma nova lei...os Aurors estão autorizados a usar as Maldições Imperdoáveis.

- Não acredito que ele teve coragem...

- Eu disse a ele que isso pode gerar uma crise internacional...o que vale para a Inglaterra, deve valer para o resto do mundo, você não concorda?

- Lógico, faz sentido. E depois, pode virar um caos...a senhora disse isso para o Sr Crouch?

- Disse. Sabe o que ele respondeu?

- O quê?

- Que eu sou paga para resolver problemas diplomáticos.

- Ele vai resolver os problemas do departamento dele, enquanto nós ficamos com a confusão que isso provocar?

- Exatamente, Lílian.


Lílian e Tiago, agora, tinham muito pouco tempo para se verem. Embora o rapaz aparecesse quase todos os dias no Ministério, raramente conseguiam trocar meia dúzia de palavras. Ele passava a maior parte do tempo fora, recebendo instruções de Frank Longbottom sobre as diversas formas de investigação, e , posteriormente, de abordagem e prisão dos Comensais da Morte. Era um trabalho perigoso e estressante, mas que fascinava Tiago a cada dia.

Quando Crouch autorizou o uso das Maldiçõs Imperdoáveis, passaram horas treinando os feitiços com insetos e pequenos animais. No final do dia, Tiago já havia feito algum progresso. Pelo menos o ratinho que estava usando para treinar já o obedecia, sob a Maldição Imperius. Tiago aproveitou o fim-de-semana para continuar treinando as maldições. Lílian ficou observando o noivo, encantado como se estivesse brincando com um presente novo de natal.

- Agora Líli, olha o que eu vou fazer com esse besouro...

Tiago ergueu a varinha, e disse, calmamente:

- Avada Kedavra!

Um feixe de luz verde irrompeu de sua varinha, atingindo o inseto. Este caiu, morto, porém intacto.

- Isso não teve graça nenhuma.

- Não é para ter graça mesmo, Lílian - Tiago estava sorrindo, porém falava sério.

- E você vai ter coragem de usar isso contra um ser humano?

- Se ele estiver tentando me matar, com certeza.

- Você jura para mim que vai tomar cuidado, Tiago?

- Eu já fiz essa promessa, Líli...- o rapaz agarrou Lílian, e a derrubou na grama, rindo.

- Seu bobo...- Lílian deitou-se de costas no gramado, observando o pôr-do-sol. Tiago ficou sentado, fazendo cócegas com um matinho no nariz da garota.

- Tiago...como você imagina a gente daqui...uns dez anos, por exemplo?

- Como eu imagino...deixa eu ver...você mais gordinha...

- Gorda?

- Eu disse gordinha...sabe como é, depois de uns quatro filhos...- Tiago disse, rindo.

- Quatro filhos, Tiago Potter? De que jeito? - Lílian sacudiu o cabelo, tirando o mato. Fingiu estar profundamente indgnada.

- Ah, você sabe como...

Os dois ficaram o resto da tarde, e o começo daquela noite, fazendo planos, pensando em datas para o casamento. O que antes era um futuro remoto, agora aproximava-se mais da realidade.


Fazia uma tarde muito fria, com direito a tempestades de neve, naquele começo de fevereiro, do ano de 1978. Lílian chegou em casa exausta, desejando um banho quente. Porém, estranhou ao não encontrar ninguém. Subiu para o quarto, trocou de roupa, e voltou para a cozinha. Enquanto preparava um chá, deparou-se com um bilhete de Petúnia sobre a mesa:

Lílian,

A mamãe passou mal e eu e o Válter a levamos para o Hospital Central

Petúnia

Lílian ficou um momento perplexa. Desligou o fogo, correu para o telefone. Lembrou-se, irritada, que Tiago não tinha telefone. Resolveu ligar para a casa de Sirius. Pelo menos os Black sabiam da utilidade de um telefone ( a mãe de Sirius era filha de pai trouxa ).

- Alô?

- Sra Black? É Lílian, o Sirius está?

- Ainda não chegou, Lílian. Precisava falar com ele?

- Minha mãe passou mal, preciso avisar o Tiago...para ele me encontrar no hospital...

- Pode deixar, eu aviso o Tiago.

- Hospital Central, Sra Black. Obrigada.

- De nada, querida. Fica tranquila, não há de ser nada.

Lílian desligou o telefone, trancou a casa, e desaparatou. Aparatou a duas quadras de distância do Hospital. Correu, aflita. Algo dizia que o problema da sua mãe podia ser sério. Ela vinha reclamando, há alguns dias, de palpitações no peito.

Encontrou Petúnia no corredor, junto com Válter. Desejava que ele não estivesse presente, mas enfim...

- Como ela está?

Petúnia não soube o que responder. Estava pálida, e os olhos vermelhos. Não conseguiu responder. Lílian sacudiu a irmã:

- Dá pra me dizer como que a mamãe está?

Válter segurou o braço de Lílian, que continuava a puxar a gola da camisa de Petúnia.

- Me larga, idiota, será que você pode me dizer o que aconteceu? - Lílian berrava, chorando.

- Escuta, a gente correu com ela...mas não deu tempo, entendeu? - Válter disse, com a voz baixa, quase num sussurro.

Lílian voltou para o saguão de entrada, se sentou numa cadeira e enterrou a cabeça nas mãos, incapaz de pensar. Só conseguia chorar feito um bebê.

Tiago e Sirius chegaram logo em seguida, e a encontraram, sozinha, parecendo uma garotinha assustada. Tiago a abraçou, e os dois ficaram em silêncio.


Depois do enterro da Sra Evans, Tiago acompanhou Lílian de volta para casa. Ela parecia mais resignada. Agira com serenidade durante todo o funeral, ao contrário de Petúnia, que se desmanchava em lágrimas toda vez que alguém vinha lhe dar os pesâmes.

Uma vez em casa, Lílian preparou um chá, e os dois ficaram sentados na sala de estar, conversando sobre amenidades. Já passava das dez da noite, quando Válter desceu do quarto de Petúnia.

- A sua irmã está dormindo, ela tomou um calmante.

Lílian fez um aceno com a cabeça. Mesmo naquela circunstância, recusava-se a ser educada com o futuro cunhado.

- Você quer que eu passe a noite aqui, Líli?

- Não precisa, Tiago. Acho que a Petúnia ia ter um treco, e é melhor eu não arranjar nenhum tipo de confusão, não agora.

- Você tem certeza?

- Absoluta.

- Qualquer problema, me manda avisar. O Sirius disse que você pode ligar a qualquer hora...ou então me manda uma coruja mesmo...

Lílian sorriu para o noivo, tentando demonstrar segurança.

Os dias que se seguiram, se arrastaram lentamente, dando a Lílian a impressão de que o tempo não iria colaborar com sua dor. Trabalhou com muito menos entusiasmo, olhando o relógio a cada cinco minutos.

Cerca de dez dias depois, numa manhã de sábado particularmente nublada, Lílian acordou muito cedo, mas ficou um bom tempo na cama, sem vontade nenhuma de se levantar. Somente quando ouviu o barulho característico de louça sendo lavada, foi que se animou a descer para tomar café.

Entrou na cozinha, onde Petúnia já preparava o café da manhã. Deu bom-dia para a irmã apenas por força do hábito. Há muito tempo não tinham um relacionamento saudável.

- Precisamos conversar...- Petúnia disse, displicente, enquanto colocava o chá na mesa - Válter e eu já marcamos a data do casamento. Vamos nos casar dentro de um mês.

- Bom para vocês.

- Você já sabe o que vai fazer da vida, Lílian? - Petúnia perguntou, levemente irritada.

- Ainda não.

- Eu e o Válter conversamos sobre você, ontem. Nós chegamos a conclusão de que enquanto você não se casa, não seria correto deixá-la vivendo sozinha...devo isso a mamãe - A voz de Petúnia estremeceu levemente, mas continuou - Portanto, você pode vir morar com a gente, enquanto você e o Potter não acertam a vida. Nós pretendemos vender essa casa, e a propriedade da praia também...E lógico, dividimos o dinheiro...aí você o usa como bem entender...porém...

Lílian encarou a irmã, esperando o que estava por vir.

- Enquanto você estiver conosco, não vamos aturar nenhuma ...hã...gracinha sua, se é que você me entende...nossos nervos não iriam aguentar.

Numa questão de segundos, a xícara que Petúnia estava segurando, explodiu. No outro, Lílian já havia desaparatado da cozinha, e já estava no quarto, com duas malas abertas sobre a cama. Todos os seus pertences agora voavam pelo cômodo, saindo das gavetas e indo parar dentro das malas. Petúnia parou a porta do quarto, horrorizada:

- Pa...para com isso , agora ...

Lílian virou a varinha para a irmã.

- Não fala mais nada, Petúnia....eu juro que faço você se arrepender de todos os desaforos que me disse todos esses anos.

A garota fechou as malas, e a fez voar escada abaixo. Deu uma última verificada no quarto, e pegou o cofrinho de jóias de cima da cômoda.

- Já chega, Petúnia. Pra mim, acabou. - Pegou o telefone e discou o número da casa de Sirius. O próprio atendeu, sonolento.

- Sirius Black.

- Sirius? É Lílian...me faz um favor...avisa ao Tiago que eu estou indo para a casa dele?

- Como assim?

- Tô indo embora, Sirius...me faz esse favor?

- Faço, claro...mas que aconteceu?

- Depois te explico.

Lílian desligou o telefone, pegou um pedaço de papel e anotou o endereço de Tiago. Entregou-o para Petúnia, atônita.

- Este é o endereço do Tiago. Depois que vender as casas, mande o advogado levar a parte que me cabe. Pra mim chega, Petúnia. Estou indo embora.

- Você está ficando louca?

- Não...estou tendo a atitude mais sensata da minha vida. - Lílian pegou as malas, e desaparatou.

Sirius tinha acabado de chegar à casa dos Potter, quando Lílian aparatou diante do portão. Tiago veio correndo, ao encontro da noiva.

- Líli, o que foi que aconteceu? - Tiago parecia assustado, pegando as malas da garota.

- Petúnia...como sempre. Não aguento mais viver com ela, Tiago. Vir para a sua casa foi a única opção que me ocorreu...

Depois de tomar uma xícara de chá, oferecida pela mãe de Tiago, Lílian colocou os Potter e Sirius a par da sua situação. Ficaram em silêncio durante alguns instantes. Lílian estava visivelmente nervosa. De repente, caiu em si e percebeu o absurdo que fizera, sem ao menos consultar Emily.

- Qual era a previsão que vocês tinham para se casar? - perguntou Emily, indignada com o que Lílian acabara de contar.

- A gente tinha pensado em mais alguns meses...procurar uma casa legal...- Tiago respondeu, aflito.

- Vocês vão ter que antecipar a data, então. Logicamente, eu não vou tocar você daqui, Lílian, de jeito nenhum.

Lílian respirou aliviada. No entanto, estava assustada com a mudança radical que sua vida sofrera. Casar-se com Tiago, sem dúvida, era tudo o que ela mais queria, só não esperava que fosse tão rápido. Combinaram, então, encontrar uma casa o mais rápido possível. Os dois ainda não tinham o dinheiro suficiente, logicamente. Emily propôs, então, emprestar a quantia necessária. Assim que tivessem a casa, marcariam a data.

Emily deu ordens para os elfos domésticos levarem as malas de Lílian para o quarto de Tiago, para surpresa dos dois.

- Quem vocês querem enganar? - A mãe de Tiago deu uma risada, ao ver os dois vermelhos. Deixou o filho, Lílian e Sirius sozinhos na sala, e foi pessoalmente verificar a arrumação do quarto. Tiago, ainda corado, virou-se para Sirius, que tentava controlar a todo custo um acesso de gargalhadas.

- Ah, que engraçado, Sirius...- Tiago tentou parecer levemente indignado, se segurando para não rir também. - Escuta, quero te pedir uma coisa...

- O quê?

- Bem...eu estava pensando há algum tempo...você topa ser meu padrinho de casamento?

Sirius parou de rir, e olhou sério para o amigo. Em seguida, sorriu, e, sem se conter, deu um abraço em Tiago e Lílian.

- Claro que sim. Não precisava nem perguntar. - Sirius parecia mais eufórico que os próprios noivos - Quem diria, Pontas, o primeiro Maroto a se amarrar!

Capítulo 4...

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